1889 pdf

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A obra, que trata da Proclamação da República, fecha uma trilogia iniciada com 1808, sobre a fuga da corte portuguesa de Dom João para Rio de Janeiro, e continuada com 1822, sobre a Independência do Brasil.

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  1. 1. Copyright Esta obra foi postada pela equipe Le Livros para proporcionar, de maneira totalmente gratuita, o benefício de sua leitura a àqueles que não podem comprála, ou aos que pretendem verificar sua qualidade antes de faze-lo. Dessa forma, a venda desse eBook ou até mesmo a sua troca por qualquer contraprestação é totalmente condenável em qualquer circunstância. A generosidade e a humildade são marcas da distribuição, portanto distribua este livro livremente. Após sua leitura considere seriamente a possibilidade de adquirir o original, pois assim você estará incentivando o autor e à publicação de novas obras. Se gostou do nosso trabalho e deseja e quer encontrar outros títulos visite nosso site: Le Livros http://LeLivros.com
  2. 2. Copy right © 2013 by Editora Globo S. A. para a presente edição Copy right © 2013 by Laurentino Gomes Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta edição pode ser utilizada ou reproduzida — em qualquer meio ou forma, seja mecânico ou eletrônico, fotocópia, gravação etc. — nem apropriada ou estocada em sistema de banco de dados, sem a expressa autorização da editora. Texto fixado conforme as regras do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (Decreto Legislativo nº 54, de 1995). Editor responsável: Aida Veiga Assistente editorial: Elisa Martins Preparação de texto: Clim Editorial Revisão: Araci dos Reis Galvão de França, Maria A. Medeiros e Carmen T. S. Costa Revisão técnica: Milena da Silveira Pereira Checagem: Simone Costa Indexação: Ampel Produções Editoriais Projeto gráfico e diagramação: Cray on Editorial Capa: Alexandre Ferreira Editor digital: Erick Santos Cardoso Produção de ebook: S2 Books 1ª edição, 2013 CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ G612m Gomes, Laurentino, 1956​ 1889 : como um imperador cansado, um marechal vaidoso e um professor injustiçado contribuíram para o fim da monarquia e a proclamação da República no Brasil / Laurentino Gomes. ​- 1. ed. ​- São Paulo : Globo, 2013. il. Inclui bibliografia e índice ISBN 978-85-250-5515-6
  3. 3. 1. Brasil ​- História ​- Proclamação da República, 1889. 2. Brasil ​- História ​1822​- 1889. I. Título. II. Título: Mil oitocentos e oitenta e nove. 13​- 00819 CDD: 981.04 CDU: 94(81).071 Direitos de edição em língua portuguesa para o Brasil adquiridos por Editora Globo S. A. Av. Jaguaré, 1485 — 05346-902 — São Paulo — SP www.globolivros.com.br
  4. 4. Para Carmen, cujo sorriso iluminou esta jornada.
  5. 5. SUMÁRIO Capa Folha de rosto Créditos Dedicatória Linha do tempo INTRODUÇÃO 1. O PRÍNCIPE E O ASTRONAUTA 2. O GOLPE 3. O IMPÉRIO TROPICAL 4. A MIRAGEM 5. DOM PEDRO II 6. O SÉCULO DAS LUZES 7. OS REPUBLICANOS 8. A MOCIDADE MILITAR 9. A CHAMA NOS QUARTÉIS 10. O MARECHAL
  6. 6. 11. O PROFESSOR 12. OS ABOLICIONISTAS 13. A REDENTORA 14. O IMPERADOR CANSADO 15. O BAILE 16. A QUEDA 17. O ADEUS 18. OS BESTIALIZADOS 19. ORDEM E PROGRESSO 20. O DIFÍCIL COMEÇO 21. A RODA DA FORTUNA 22. O CABOCLO DO NORTE 23. PAIXÃO E MORTE 24. O DESAFIO BIBLIOGRAFIA AGRADECIMENTOS ÍNDICE ONOMÁSTICO Caderno de fotos
  7. 7. O marechal Deodoro da Fonseca na Proclamação da República. Henrique Bernardelli/Acervo Academia Militar das Agulhas Negras
  8. 8. FIM DE SÉCULO REVOLUCIONÁRIO Alguns acontecimentos, ideias e invenções que marcaram o Brasil e o mundo na época da Proclamação da República 1869 1870 1871 1872 1873 1874 1876 1877 1879 1880 1881 Tropas da Tríplice Aliança ocupam Assunção, capital do Paraguai. Estreia em Milão a ópera O guarani, do brasileiro Carlos Gomes. O francês Júlio Verne publica Vinte mil léguas submarinas. Queda de Napoleão III e proclamação da Terceira República Francesa. Unificação da Itália. Publicado no Rio de Janeiro o Manifesto Republicano. A expectativa de vida na Inglaterra atinge 41 anos. Lei do Ventre Livre liberta filhos escravos nascidos a partir dessa data. Censo revela que o Brasil tem 8.419.672 habitantes livres e 1.510.806 escravos. Na Convenção de Itu, fazendeiros paulistas lançam manifesto em favor da República. Americanos começam a usar o arame farpado em suas fazendas. Bispo de Olinda é preso devido à Questão Religiosa, conflito entre o Império e a Igreja. Inaugurada em Paris a primeira exibição de pintores impressionistas. Alexander Graham Bell inventa o telefone. A Sétima Cavalaria do general George Custer é trucidada pelos índios americanos. Seca no Ceará mata 200 mil pessoas, um quarto da população da província. Thomas Edison inventa o fonógrafo. Thomas Edison desenvolve a lâmpada elétrica. Nasce o alemão Albert Einstein, futuro pai da Teoria da Relatividade. Criadas a Sociedade Brasileira contra a Escravidão e a Associação Central Emancipadora. Invenção do papel higiênico, na Inglaterra. Machado de Assis publica Memórias póstumas de Brás Cubas. Maria Augusta Generoso Estrela, primeira médica brasileira, forma-se
  9. 9. 1882 1883 1884 1885 1886 1887 1888 1889 1890 1891 1892 1893 em Nova York. O czar Alexandre II é assassinado por radicais russos. James Garfield, presidente dos Estados Unidos, é morto em atentado. Morre Charles Darwin, pai da Teoria da Evolução das Espécies. Inaugurada nos Estados Unidos a primeira usina hidrelétrica. O alemão Robert Koch descobre a bactéria causadora da tuberculose. Morre Karl Marx, autor do Manifesto Comunista de 1848. Inaugurada a ponte do Brooklin, em Nova York. O americano Lewis Waterman inventa a caneta-tinteiro. Construído em Chicago o primeiro arranha-céu do mundo. O americano Hiram Maxim inventa a metralhadora. A Lei dos Sexagenários liberta os escravos com mais de sessenta anos. Morre em Paris o escritor Victor Hugo, autor de Os miseráveis. O alemão Karl Benz inventa o motor a combustão interna. Começa a Questão Militar, que levaria à queda da monarquia no Brasil. Inaugurada em Nova York a Estátua da Liberdade. O farmacêutico John Pemberton inventa a coca-cola. Josephine Cochrane, dona de casa americana, patenteia a máquina de lavar roupa. Inundação no rio Amarelo mata 900 mil chineses. O americano George Eastman lança a câmera fotográfica Kodak. Cinco prostitutas são mortas em Londres por Jack, o Estripador. A princesa Isabel assina a Lei Áurea, pondo fim à escravidão no Brasil. Nascem o austríaco Adolf Hitler, futuro chanceler alemão, e o inglês Charles Chaplin, futuro astro do cinema. Golpe liderado por Deodoro da Fonseca derruba a monarquia. O imperador Pedro II segue para o exílio na Europa. Inaugurada em Paris a Torre Eiffel. Convocada a Assembleia Constituinte, que faria a nova Constituição republicana. O pintor Vincent van Gogh comete suicídio na França. Metrô de Londres começa a usar trens movidos a eletricidade. Rudolf Diesel patenteia o motor que leva seu nome. Deodoro da Fonseca é eleito o primeiro presidente da República. Morre Benjamin Constant. Deodoro fecha o Congresso e renuncia. Assume Floriano Peixoto. O imperador Pedro II morre em Paris, aos 66 anos. Deodoro da Fonseca morre no Rio de Janeiro, aos 65 anos. O americano W. L. Judson inventa o zíper. Início da Revolução Federalista no Rio Grande do Sul.
  10. 10. 1894 1895 1896 1897 1898 Começa a Revolta da Armada contra Floriano Peixoto. Nova Zelândia reconhece direito de voto às mulheres. Charles Miller traz o futebol da Inglaterra para o Brasil. Termina a Revolta da Armada. Toma posse o primeiro presidente civil, Prudente de Morais. Em Paris, os irmãos Lumière inventam o cinema. O alemão Wilhelm Röntgen descobre o raio X. O austríaco Sigmund Freud cria uma nova ciência, a psicanálise. Termina a Revolução Federalista. Floriano Peixoto morre aos 56 anos. Começa no sertão da Bahia a Guerra de Canudos. Prudente de Morais sobrevive a um atentado no Rio de Janeiro. Os Estados Unidos anexam o Havaí. O presidente Campos Salles inicia a Política dos Governadores.
  11. 11. “Senhor Barão, Vossa Excelência está preso!” TENENTE ADOLFO PENA, ao dar voz de prisão ao Barão de Ladário, ministro da Marinha, na manhã de 15 de novembro de 1889
  12. 12. INTRODUÇÃO O QUINZE DE NOVEMBRO é uma data sem prestígio no calendário cívico brasileiro. Ao contrário do Sete de Setembro, Dia da Independência, comemorado em todo o país com desfiles escolares e militares, o feriado da Proclamação da República é uma festa tímida, geralmente ignorada pela maioria das pessoas. Sua popularidade nem de longe se compara à de algumas celebrações regionais, como o Dois de Julho na Bahia, o Treze de Março no Piauí, o Vinte de Setembro no Rio Grande do Sul ou o Nove de Julho em São Paulo. Essas efemérides exaltam vitórias, confrontos ou revoltas locais, respectivamente a expulsão dos portugueses de Salvador; a Batalha do Jenipapo no sertão piauiense ao final da Guerra da Independência; o início da Revolução Farroupilha; e a Revolução Constitucionalista liderada pelos paulistas em 1932. São eventos históricos que nem todos os brasileiros conhecem, porém com os quais a população local fortemente se identifica. Isso não ocorre com a data da criação da República brasileira. Personagens republicanos como Benjamin Constant, Quintino Bocaiúva, Rui Barbosa, Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto são nomes onipresentes em praças e ruas das cidades brasileiras, mas pergunte a qualquer estudante do ensino médio quem foram esses homens e a resposta certamente demorará a vir. Nas escolas ensina-se mais sobre o português Pedro Álvares Cabral, descobridor das terras de Santa Cruz, como o Brasil ainda era conhecido em 1500, ou Tiradentes, o herói da Inconfidência Mineira de 1789, do que sobre os criadores da República, episódio bem mais recente, ocorrido há pouco mais de um século. A história republicana é menos conhecida, menos estudada e ainda menos celebrada do que os heróis e eventos do Brasil monárquico e imperial, que cobrem um período relativamente mais curto, de apenas 67 anos. A julgar pela memória cívica nacional, o Brasil tem uma República mal-amada. Esse estranho fenômeno de indiferença coletiva encontra explicações na
  13. 13. forma como se processou a troca de regime. O dia 15 de novembro de 1889 amanheceu repleto de promessas cujo significado na época as massas pobres, analfabetas e recém-saídas da escravidão desconheciam. Nas proclamações e discursos dos propagandistas republicanos, anunciava-se o fim da tirania representada pelo “poder pessoal” do imperador Pedro II. Dizia-se que um carcomido sistema de castas e privilégios, herdado ainda da época da colonização portuguesa, acabava de ser posto por terra. Na nova era de prosperidade geral, inaugurada pela República, a construção de um futuro glorioso estava ao alcance das mãos. Haveria menos injustiça e mais oportunidades gerais. Chamados a participar da condução dos destinos nacionais, todos os brasileiros teriam, finalmente, vez, voz e voto.[1] Havia, porém, uma contradição entre as promessas e a realidade daquele momento. Diferentemente do que faziam supor os discursos e anúncios oficiais, a República brasileira não resultou de uma campanha com intensa participação popular. Em vez disso, foi estabelecida por um golpe militar com escassa e tardia participação das lideranças civis. Apesar da intensa propaganda republicana por meio de imprensa, panfletos, reuniões e comícios, a ideia da mudança de regime político não deslanchava na população. Na última eleição parlamentar do Império, realizada em 31 de agosto de 1889, o Partido Republicano elegeu somente dois deputados e nenhum senador. Os votos colhidos pelos seus candidatos em todo o país não chegaram a 15% do total apurado. O resultado era pior do que o obtido quatro anos antes, no pleito de 1885, quando foram eleitos para a Câmara três deputados republicanos, entre eles os futuros presidentes da República Prudente de Morais (1894-1898) e Campos Salles (1898-1902). Sem eco nas urnas, os civis encontraram nos militares o elemento de força que lhes faltava para a mudança do regime. A República brasileira nasceu descolada das ruas. “O povo assistiu àquilo bestializado”, segundo uma famosa frase do jornalista Aristides Lobo, testemunha dos acontecimentos. Outra incongruência aparece na maneira como essa história vem sendo contada. “Um passeio militar” é a descrição mais comum que se vê nos livros sobre a Proclamação da República. A facilidade com que se derrubou um regime e se proclamou outro na manhã de 15 de novembro, sem reação popular, sem troca de tiros, sem protestos, parecia confirmar, uma vez mais, o mito de que as transformações políticas brasileiras se processam sempre de forma pacífica. Essa imagem, no entanto, se desfoca por completo quando se avança um pouco no calendário. Derrubada a Monarquia, o sonho de liberdade e ampliação dos direitos rapidamente se dissipou. Em alguns anos, o país estava mergulhado na ditadura sob o comando de Floriano Peixoto, o “Marechal de Ferro”, a quem ainda hoje se atribui o papel de salvador da República. O sangue que deixou de correr em 1889 verteu em profusão nos dez anos seguintes, resultado do choque entre as expectativas e a realidade do novo
  14. 14. regime. Duas guerras civis, somadas à Revolta da Armada, deixariam marcas profundas no imaginário brasileiro. No sul, os dois anos e meio de combates da Revolução Federalista custaram a vida de mais de 10 mil pica-paus e maragatos, como eram chamados os combatentes dos dois lados do conflito. No sertão da Bahia, o sacrifício épico da vila de Canudos resultou na morte de outras 25 mil pessoas e uma história de humilhação para o Exército brasileiro, derrotado em três expedições consecutivas por um bando de jagunços e sertanejos pobres e mal-armados, sob a liderança messiânica de Antônio Conselheiro, ao qual se atribuía, erroneamente, a ameaça de restauração da Monarquia. Somadas as 35 mil vítimas, a República pagou em sangue um preço infinitamente maior do que a Guerra da Independência, cujo número de mortos teria ficado entre 2 mil e 3 mil combatentes brasileiros e portugueses.[2] As feridas abertas nesses conflitos marcaram profundamente a primeira fase republicana brasileira, na qual os militares tentaram organizar o novo regime mediante censura à imprensa, o Parlamento fechado mais de uma vez, a prisão e a deportação de opositores políticos para os confins da Amazônia. A devolução do poder aos civis, com Prudente de Morais e Campos Salles, respectivamente terceiro e quarto presidentes, nem por isso aproximaria o poder das ruas. A chamada República Velha, período que vai até 1930, se caracterizaria por uma equação política muito semelhante à dos últimos anos do Império. No lugar dos barões do café do Vale do Paraíba, entravam os fazendeiros do oeste Paulista e de Minas Gerais. Por algum tempo, o número de eleitores diminuiu em relação ao total de votantes registrado nos anos finais do Império. Nesta República — também conhecida como “dos Governadores” ou “do Café com Leite” — não haveria lugar para o povo, tanto quanto não havia na dos militares de 1889. Quem mandava era a mesma aristocracia rural que havia dado as cartas na época da Monarquia. A estranheza entre as promessas e a prática republicanas esclarece, em parte, a atual falta de prestígio do Quinze de Novembro no calendário cívico nacional. Ainda hoje, poucos eventos na história brasileira são tão repletos de controvérsia quanto a queda da Monarquia, em 1889. No livro Da Monarquia à República: momentos decisivos, a professora Emília Viotti da Costa, da Universidade de São Paulo, faz uma detalhada reconstituição a respeito da forma como essa sequência de eventos foi narrada e interpretada pelos historiadores, cronistas, cientistas sociais e outros estudiosos nos últimos 124 anos. Segundo ela, esta é uma história marcada pelo permanente conflito entre vencedores e vencidos, entre republicanos e monarquistas, entre militares e civis, aos quais mais tarde vieram se juntar os muitos desiludidos com a experiência republicana. Pela versão dos vencedores, a República teria sido sempre uma aspiração nacional. Seu ideário estaria na gênese da Inconfidência Mineira, da
  15. 15. Revolução Pernambucana de 1817, na própria Independência em 1822, na Confederação do Equador em 1824, na Revolução Farroupilha de 1835 e inúmeros outros conflitos e rebeliões sufocados primeiro pela coroa portuguesa e, depois, pelo Império brasileiro. Segundo esse ponto de vista, a Monarquia teria sido uma solução apenas temporária, imposta pelas elites brasileiras sobre a vontade da nação em nome da defesa dos seus interesses pessoais ou de classe. A República seria, portanto, uma etapa inevitável do processo histórico nacional, apenas adiada por circunstâncias de cada momento. Na versão dos derrotados, ao contrário, o Império, ao invés de ruína, teria sido a salvação do Brasil. Sem a Monarquia, argumentam, o país teria fatalmente se fragmentado na época da Independência, em três ou quatro nações autônomas que hoje herdariam como denominador comum apenas suas raízes coloniais e a língua portuguesa. Ao imperador caberia o papel de manter o Brasil unido, apaziguar os conflitos, tratar com tolerância e generosidade os adversários, além de converter um território selvagem e escassamente habitado num país integrado e respeitado entre as demais nações. Por essa perspectiva, a Monarquia teria raízes culturais e históricas mais profundas do que a República na nacionalidade brasileira, com força suficiente para enfrentar os desafios do futuro, caso não tivesse sido abortada por uma traiçoeira quartelada na manhã de 15 de novembro de 1889. Observando-se o passado, percebe-se que as duas visões carecem de consistência. A proclamação da República foi resultado mais do esgotamento da Monarquia do que do vigor dos ideais e da campanha republicanos. “A República foi o resultado lógico da decomposição do regime monárquico”, afirmou o historiador pernambucano Oliveira Lima.[3] Durante 67 anos, o Império brasileiro funcionou como um gigante de pés de barro. Os salões do Império procuravam imitar o ambiente e os hábitos de Viena, Versalhes e Madri, mas a moldura real compunha-se de pobreza e ignorância. Havia uma flagrante contradição entre a corte de Petrópolis, que se julgava europeia, e a situação social dominada pela mão de obra cativa, na qual mais de 1 milhão de escravos eram considerados propriedade privada, sem direito algum à cidadania. Nesse Brasil de faz de conta, destacava-se uma nobreza constituída, em sua maioria, por fazendeiros donos ou traficantes de escravos. Eram eles os sustentáculos do trono, que, em contrapartida, lhes conferia títulos de nobreza não hereditária, tão efêmera quanto a própria experiência monárquica brasileira. Todo esse precário arcabouço político começou a ruir em 1888, com a assinatura da Lei Áurea, que abolia a escravidão no país. Os barões do café do Vale do Paraíba, que dependiam da mão de obra cativa, se sentiram traídos pela coroa. Se dependesse deles, a escravidão continuaria por mais alguns anos. Em caso de abolição, sustentavam que os proprietários deveriam ser indenizados pelo Estado. E isso não aconteceu. Como resultado, a Lei Áurea deu mais combustível
  16. 16. à campanha republicana. Muitos antigos senhores de escravos, que até alguns meses antes se diziam fiéis súditos do imperador, aderiram rapidamente à República. Em seu estudo sobre a Proclamação da República, o historiador pernambucano José Maria Bello demonstrou que republicanos civis e militares foram apenas parte das forças que, direta ou indiretamente, contribuíram para a queda do Império. Uma delas — e talvez a mais forte — era composta dos próprios monarquistas, “para os quais o Império perdera o derradeiro encanto”.[4] Esse “vasto e perigoso partido dos derrotados” incluía os liberais, os reformadores, os abolicionistas e os federalistas — gente como o pernambucano Joaquim Nabuco e o baiano Rui Barbosa, que, até as vésperas do Quinze de Novembro, mantinham-se de certa forma fiéis à Monarquia, mas exigiam dela reformas capazes de dar alguma sobrevida ao regime. Havia também o grupo dos “desgostosos e displicentes”, como os fazendeiros feridos pela abolição da escravatura. Todos esses grupos, direta ou indiretamente, juntaram forças para dar o empurrão fatal que selaria o destino do Império brasileiro. Some-se a isso o descontentamento reinante nos quartéis desde o final da Guerra do Paraguai, fator decisivo na queda da Monarquia. Oficiais e soldados consideravam-se injustiçados pelo governo do Império. Daí a conferir carta branca ao marechal Deodoro da Fonseca para derrubar o trono foi apenas um passo. “A intervenção militar na política e na sociedade é sinal de fraqueza tanto do Estado como da sociedade”, observou o historiador norte-americano Frank D. McCann, autor de Soldados da pátria, um alentado estudo sobre a história do Exército brasileiro.[5] “O sentimento mais generalizado não era o da crença na República, mas sim o de descrença nas instituições monárquicas”, registrou o brasileiro Oliveira Vianna ao refletir sobre as promessas do Brasil monárquico, com suas instituições liberais, os rituais da nobreza e seus palácios de cristal em Petrópolis, e a dura realidade da escravidão, do analfabetismo e da fraude eleitoral.[6] O Império brasileiro caiu inerte, incapaz de mobilizar forças e reagir contra o golpe liderado por Deodoro. Apesar de todas as evidências de uma conspiração em andamento, o imperador Pedro II permaneceu em Petrópolis até a tarde de 15 de novembro, ignorando os conselhos para que reagisse de alguma forma. Ao chegar ao Rio de Janeiro, perdeu um longo e precioso tempo, acreditando ingenuamente que no final tudo voltaria ao normal. “Conheço os brasileiros, isso não vai dar em nada”, teria dito naquele dia. Só na madrugada de 16 de novembro, quando o governo provisório republicano já estava anunciado, é que dom Pedro reuniu seus conselheiros mais próximos e tentou em vão organizar um novo ministério. Já era tarde. Nas províncias, a única reação em favor da Monarquia ocorreu na Bahia, surpreendentemente liderada pelo marechal Hermes Ernesto da Fonseca, comandante de Armas de Salvador e
  17. 17. irmão de Deodoro. Ao receber as notícias do golpe no Rio de Janeiro, Hermes da Fonseca anunciou que permaneceria fiel ao imperador. Capitulou algumas horas mais tarde ao saber que o próprio irmão liderava a conjura republicana e que dom Pedro II, àquela altura, já estava a caminho do exílio na Europa. “Na verdade, a monarquia não foi derrubada, ela desmoronou”, anotou o jornalista francês Max Leclerc, que percorria o Brasil na época.[7] Apesar de todas as conquistas de seu longo reinado, o legado de dom P edro II permanece ainda hoje envolvido em controvérsia. Grande parte dela resulta, obviamente, da mudança de regime, em 1889. Dom Pedro era, naquele momento, a personificação da Monarquia. Turvar sua imagem representava, para os vencedores republicanos, uma forma conveniente de legitimar o novo regime. A campanha republicana se esforçou sempre em apontá-lo como um homem discricionário, detentor de um poder pessoal nocivo para as instituições. Para os perdedores monarquistas, ao contrário, o Quinze de Novembro representava o fim de um sonho, no qual o imperador era o depositário de grandes esperanças que o país levaria muitas décadas a recuperar no futuro. Alguns historiadores, simpáticos ao antigo regime, se esforçaram para criar a figura de um soberano austero, culto e educado, bem-intencionado e totalmente dedicado ao interesse público, cuja ação era constantemente solapada por ministros e chefes políticos corruptos e interesseiros. É o caso de Oliveira Vianna, autor do hoje clássico O ocaso do Império. “Eram realmente os ministros os que deturpavam as intenções do monarca”, escreveu o historiador. “Eram os ministros os verdadeiros culpados de todas as deturpações do regime.”[8] Igualmente discutível é ainda hoje o papel desempenhado pelo outro protagonista desta história, o alagoano Manoel Deodoro da Fonseca, um militar idoso e enfermo, cujas forças em 1889 encontravam-se tão esgotadas quanto as do próprio imperador Pedro II. Convertido tardiamente às ideias republicanas, Deodoro agiu aparentemente movido mais pelo ressentimento contra o governo imperial do que por qualquer convicção ideológica. Como se verá nos capítulos iniciais deste livro, o marechal relutou até onde pôde a promover a troca do regime, como exigiam as lideranças civis e os militares liderados pelo professor e tenente-coronel Benjamin Constant. Ao contrário do que reza a história oficial, em nenhum momento o marechal proclamou a República ao longo daquele dia 15 de novembro e só o fez tarde da noite, diante da pressão de seus companheiros de armas e também da inabilidade política do imperador, que, em uma desastrada e inútil tentativa de resistência, indicou para a chefia do ministério justamente o maior de todos os adversários políticos de Deodoro, o senador liberal gaúcho Gaspar Silveira Martins. Decorrido mais de um século dos eventos de 1889, que avaliação se poderia fazer hoje da República brasileira? Uma república pode ter muitas faces. Dos 193 países que atualmente
  18. 18. compõem a Organização das Nações Unidas ( ONU), 149 se definem como republicanos, ou seja, 77% do total. Difícil, porém, é a tarefa de estabelecer com clareza o regime que os governa. A Coreia do Norte, por exemplo, é oficialmente chamada de “república democrática popular”, embora seja governada por uma dinastia, a dos Kim. O poder hereditário, que passa de uma geração a outra dentro da mesma família, é uma característica dos regimes monárquicos. A China se autodenomina igualmente uma “república popular”, mas é comandada por uma oligarquia de partido único, comunista na teoria e capitalista na prática, com escassa participação popular. A Inglaterra, com seu estável e secular sistema representativo, no qual todo o poder, de fato, emana do povo e em seu nome é exercido, poderia ser considerada hoje uma democracia republicana. Prefere, no entanto, ser chamada de monarquia parlamentarista, na qual a rainha exerce papel meramente figurativo. Brasil, Argentina, Alemanha e Estados Unidos são repúblicas federativas, mas cada qual tem o seu próprio sistema eleitoral, diferentes instituições e distintos graus de autonomia para os estados e províncias. A nomenclatura, portanto, não explica, por si só, o que é um regime republicano. Para entendê-lo, é preciso estudar as raízes de cada povo e sua cultura, ou seja, o complexo conjunto de crenças, valores, sonhos, aspirações e dificuldades que o move ou paralisa ao longo da história. Durante décadas, o brasileiro relutou, com certa razão, a se identificar com a sua tortuosa história republicana, permeada por golpes militares, ditaduras, intervenções e mudanças bruscas nas instituições e brevíssimos períodos de exercício da democracia. A boa notícia é que essa história mal-amada talvez esteja finalmente mudando. O Brasil exibe hoje ao mundo quase três décadas de exercício continuado da democracia, sem rupturas. Isso nunca aconteceu antes. É a primeira vez que todos os brasileiros estão sendo, de fato, chamados a participar da construção nacional. Apesar das dificuldades óbvias do presente, as promessas republicanas começam a ser postas em prática na forma de mais educação, mais saúde, mais trabalho e mais oportunidades para todos. É curioso observar que este momento de transformação coincide também com outro fenômeno inteiramente novo na sociedade brasileira. É o interesse pelo estudo da história do Brasil. Ele pode ser observado no mercado editorial de livros, que nunca vendeu tantas obras sobre o tema, e no grande número de títulos de revistas, sites de internet e outras publicações dedicadas ao assunto. Por que história se tornou um tema popular nos últimos anos? Existem várias respostas possíveis, mas uma delas é seguramente que os brasileiros estão olhando o passado em busca de explicações para o país de hoje. Dessa maneira, procuram também se aparelhar mais adequadamente para a construção do futuro. Isso também é uma excelente notícia. Uma sociedade que não estuda história não consegue entender a si própria porque desconhece suas raízes e as
  19. 19. razões que a trouxeram até aqui. E, se não consegue entender a si mesma, provavelmente também não estará preparada para construir o futuro de forma organizada. O estudo de história é hoje, talvez até mais do que qualquer outra disciplina, uma ferramenta fundamental na construção do Brasil dos nossos sonhos em um novo ambiente de democracia. O propósito deste livro é oferecer uma modesta contribuição neste ambiente de transformação e renovado interesse pela história do Brasil. Fiel à fórmula das minhas obras anteriores — 1808 e 1822 —, procuro usar aqui a linguagem e a técnica jornalísticas como recursos que julgo capazes de tornar história um tema acessível e atraente para um público mais amplo, não habituado a se interessar pelo assunto. Acredito que, escrita em linguagem adequada, a história pode se tornar um tema interessante, irresistível e divertido, sem, contudo, resvalar na banalidade. Esse desafio é hoje especialmente importante quando se trata de atrair a atenção de uma geração jovem bastante avessa à leitura. Como obra de cunho jornalístico, este livro não pretende, nem poderia, oferecer respostas para questões mais profundas envolvendo a história republicana, sobre as quais inúmeros e bons estudiosos acadêmicos já se debruçaram com diferentes graus de sucesso ao longo dos anos. O objetivo é tão somente relatar sob a ótica da reportagem alguns dos momentos mais cruciais daquela época, de maneira a retirá-los da relativa obscuridade em que se encontram hoje na memória nacional. Caberá aos leitores refletir se deles é possível retirar lições que sejam úteis na edificação do futuro. “Qualquer que seja o futuro, para nós, que cremos na nação forte e indivisível, é consolador ver os obstáculos vencidos”, observou certa vez o historiador Américo Jacobina Lacombe. “Isso nos anima a entrever um futuro justo e próspero.”[9] Por fim, uma breve explicação sobre a estrutura deste livro: os capítulos 1 e 2 antecipam, como em fotografias instantâneas, dois momentos da Proclamação da República. O primeiro é um acontecimento repleto de simbolismo — a pitoresca história de um príncipe da família imperial pego de surpresa pela mudança do regime, destituído de seus títulos e honrarias e da própria condição de cidadão brasileiro enquanto tripulava um navio da Marinha de Guerra nacional do outro lado do planeta. O segundo é uma descrição da sequência de eventos nas horas que antecederam a queda do Império. Os quatro capítulos seguintes oferecem um panorama do Segundo Reinado, um perfil do imperador Pedro II e das transformações do revolucionário século XIX que afetariam profundamente o ambiente político, econômico e social no Brasil. Os capítulos 7 a 13 tratam da campanha republicana, da chamada Questão Militar, da Abolição, em 1888, e de seus protagonistas. Os capítulos 14 a 17 retomam, com maiores detalhes, os eventos relacionados à troca do regime, o exílio e a morte de Pedro II na Europa. A parte final do livro é dedicada à implantação e à
  20. 20. consolidação do novo regime, incluindo um pequeno balanço, no derradeiro capítulo, da história republicana brasileira até os dias atuais. Laurentino Gomes, Itu, São Paulo, abril de 2013
  21. 21. “Vocês fizeram a República que não serviu para nada. Aqui agora, como antes, continuam mandando os Caiado” CAPITÃO FELICÍSSIMO DO ESPÍRITO SANTO CARDOSO, bisavô do presidente Fernando Henrique Cardoso, em telegrama enviado de Goiás ao filho, Joaquim Inácio, que ajudara a proclamar a República em 1889
  22. 22. 1. O PRÍNCIPE E O ASTRONAUTA NAS ÚLTIMAS SEMANAS DE 1889, a tripulação de um navio brasileiro ancorado no porto de Colombo, capital do Ceilão (atual Sri Lanka), foi pega de surpresa pelas notícias alarmantes que chegavam do outro lado do mundo. O cruzador Almirante Barroso partira do Rio de Janeiro em 27 de outubro do ano anterior para uma grande aventura. O objetivo era completar em menos de dois anos a circum-navegação do globo terrestre, jornada de 36.691 milhas náuticas ou cerca de 68 mil quilômetros. Para realizar tão importante e arriscada missão, a Marinha do Brasil designara alguns de seus melhores oficiais e marinheiros e uma de suas embarcações de guerra mais modernas. Movido a propulsão mista — a vela e a vapor —, o Almirante Barroso pesava 2.050 toneladas, tinha 71 metros de comprimento, levava 340 tripulantes e viajava equipado com seis canhões e dez metralhadoras. Desde a partida, havia sido alvo de homenagens e recepções calorosas em diversos portos estrangeiros.[10] Depois de cruzar o temido cabo Horn, no extremo sul do continente americano, o navio brasileiro passara algumas semanas em Valparaíso, no Chile, onde a tripulação fora saudada com um baile de gala oferecido pelas autoridades locais. Em seguida, tinha enfrentado o imenso e ainda relativamente desconhecido oceano Pacífico, com escalas em Sy dney, na Austrália; Yokohama e Nagasaki, no Japão; Xangai e Hong Kong, na China; e Achém, na Indonésia. Foram meses de isolamento do resto do mundo, comunicando-se raramente com o Brasil. Uma semana antes do Natal de 1889, ao atracar em Colombo, o almirante Custódio José de Mello, comandante do navio, encontrou à sua espera um telegrama com uma notícia extraordinária. Brasil República... — anunciava a mensagem. — Bandeira mesma sem coroa... Despachado do Rio de Janeiro no dia 17 de dezembro, o telegrama, na verdade, só confirmava os rumores que a tripulação tinha ouvido na escala anterior, na Indonésia. Conforme notícias de segunda mão transmitidas pela
  23. 23. tripulação de um navio holandês ali ancorado, o governo do Brasil havia sido derrubado. Mais do que isso, o país passara por uma drástica mudança de regime. O Império brasileiro, até então visto como a mais sólida, estável e duradoura experiência de governo na América Latina, com 67 anos de história, desabara na manhã de 15 de novembro. A Monarquia cedera lugar à República. O austero e admirado imperador Pedro II, um dos homens mais cultos da época, que ocupara o trono por quase meio século, fora obrigado a sair do país com toda a família imperial. Vivia agora exilado na Europa, banido para sempre do solo em que nascera. Enquanto isso, o comando da nova República estava entregue às mãos de um marechal já idoso e bastante doente, o alagoano Manoel Deodoro da Fonseca. À primeira vista, eram informações tão improváveis que, na escala indonésia, Custódio de Mello preferiu ignorá-las e seguir viagem na crença de que o Império brasileiro continuava forte e sólido, como sempre fora. Estava tão seguro disso que, no dia 2 de dezembro, aniversário do imperador Pedro II, ordenou que a bandeira imperial fosse hasteada a bordo e saudada por toda a tripulação, como mandava o regulamento da Marinha e como se nenhuma mudança tivesse ocorrido no Brasil. O telegrama recebido no Ceilão, no entanto, não deixava margem para dúvidas. O país tornara-se, de fato, uma República. Segundo as instruções oficiais enviadas do Rio de Janeiro, a bandeira nacional continuava praticamente a mesma, com seu largo retângulo verde sobreposto por um losango amarelo. Desaparecia apenas a coroa imperial, que até então ocupava o centro do pavilhão. Até aquele momento, porém, ninguém sabia exatamente o que colocar no lugar da coroa. O comunicado avisava que o navio só receberia a nova e definitiva bandeira republicana quando chegasse a Nápoles, na Itália, meses mais tarde. Um segundo telegrama dizia que, até lá, o comandante teria de improvisar: Ice agora mesma (bandeira) nacional, substituindo coroa estrela vermelha. Em resumo, enquanto não se soubesse exatamente que símbolo haveria no centro da bandeira republicana, Custódio de Mello deveria apenas trocar a coroa imperial por uma estrela vermelha — coincidentemente, símbolo do Partido dos Trabalhadores, que, um século mais tarde, assumiria o governo da República brasileira. Na falta de informações mais precisas, o almirante decidiu seguir à risca as instruções telegráficas: chamou o oficial imediato e ordenou-lhe que desenhasse às pressas uma estrela vermelha, logo costurada sobre a coroa que até então figurava nas diversas bandeiras usadas no navio. Havia, porém, um segundo problema a resolver, este ainda mais complicado do que o primeiro. Era a presença a bordo do segundo-tenente Augusto Leopoldo de Saxe-Coburgo e Bragança, de 22 anos, mais conhecido como príncipe dom Augusto. Até a partida do Rio de Janeiro, dom Augusto era uma das figuras mais
  24. 24. importantes da hierarquia social brasileira. Filho da princesa Leopoldina, falecida alguns anos antes, e neto do imperador Pedro II, ocupava a condição de herdeiro presuntivo do trono, quarto colocado na linha sucessória do Império, depois da tia, a princesa Isabel, do primo, Pedro de Alcântara, e do irmão mais velho, Pedro Augusto. Tamanho prestígio fizera dele um tripulante especial do Almirante Barroso, alvo de deferências em todas as escalas feitas pelo navio. O telegrama recebido em Colombo, no entanto, o transformava em uma excentricidade a bordo. Como o governo provisório republicano havia banido toda a família imperial do território nacional, dom Augusto estava impedido de continuar a viagem como oficial da Marinha. Deveria desembarcar imediatamente. Mais do que isso, na prática, enquanto cruzava o oceano Pacífico, ele tinha perdido não só o posto de oficial e o título de príncipe, mas a própria cidadania brasileira. Era naquele momento um homem sem pátria. Essa incômoda circunstância colocava o príncipe dom Augusto em situação parecida àquela que, um século depois, enfrentaria o astronauta soviético Sergei Krikalev. Em 18 de maio de 1991, ou seja, 101 anos após a Proclamação da República no Brasil, Krikalev foi lançado ao espaço na base soviética de Baikonur, no Cazaquistão, impulsionado por um foguete Próton. Estava em órbita da Terra a bordo da estação MIR quando lhe chegou pelo rádio a notícia de que seu país deixara de existir. A União Soviética, uma das mais sólidas instituições na história da humanidade ao longo do século XX, implodira sob a pressão da Glasnost, o processo de abertura política desencadeado algum tempo antes pelo líder Mikhail Gorbachev. As incertezas políticas daquele momento obrigaram Krikalev a continuar sua jornada espacial por mais cinco meses, o dobro do tempo previsto inicialmente, até que as novas autoridades decidissem trazê-lo de volta, em 25 de março de 1992. Os 313 dias em que permaneceu à deriva no espaço, somados aos de outras missões de que participou, o transformaram no ser humano que mais tempo permaneceu em órbita até hoje, um total de 803 dias, nove horas e 39 minutos. No caso do Almirante Barroso, o Brasil, tal qual a tripulação o conhecera antes da partida do Rio de Janeiro, também deixara de existir no final de 1889, mas a situação do príncipe era até mais incerta do que a do astronauta soviético. Afinal, depois de uma longa espera no espaço, Krikalev conseguiu voltar ao seu país, a Rússia. Dom Augusto não teria essa oportunidade. O telegrama recebido por Custódio de Mello era categórico a respeito das intenções do novo governo provisório republicano. — Príncipe peça demissão serviço, determinava de forma seca a mensagem. Ao mostrar o telegrama a dom Augusto, Custódio de Mello estava visivelmente constrangido diante das ordens que chegavam do Rio de Janeiro.
  25. 25. Além de herdeiro do trono, o príncipe era até então um oficial exemplar da Marinha brasileira. Nos anos anteriores, sua dedicação ao serviço militar havia sido sempre elogiada. Em 1886, ao fazer uma viagem de instrução aos Estados Unidos, a bordo do mesmo cruzador Almirante Barroso, sob o comando do almirante Luís Filipe de Saldanha da Gama, fora recebido em audiência pelo presidente Stephen Grover Cleveland. Nada disso, porém, seria levado em conta naquele momento crítico. Depois de ler o documento em silêncio, dom Augusto procurou ganhar tempo. Respondeu que só tomaria uma decisão depois de consultar o avô, o imperador Pedro II. — Sua Alteza faça como lhe convier — respondeu-lhe o almirante. As horas seguintes foram de grande tensão e expectativa. Com a conivência da tripulação, dom Augusto conseguiu comunicar-se por telegrama com o avô, a essa altura exilado na Europa. A resposta veio logo, patriótica, mas inútil diante da urgência da decisão a ser tomada: — Sirva o Brasil, seu avô Pedro.[11] Na manhã seguinte, 18 de dezembro, dom Augusto procurou o comandante para informar que, em vez de renunciar, concordava em pedir licença do serviço militar brasileiro por seis meses. Aliviado, Custódio de Mello telegrafou imediatamente ao novo ministro republicano da Marinha, almirante Eduardo Wandenkolk, comunicando a decisão. Recebeu uma resposta igualmente dúbia, mas suficiente para selar o destino do jovem príncipe: — Príncipe peça renúncia cargo, outorgo licença. Feitas as contas de quanto deveria receber pelo serviço prestado nos meses anteriores, dom Augusto desembarcou do Almirante Barroso no dia 20 de dezembro. Antes foi homenageado pelos demais tripulantes com um último e emocionado jantar nos salões do Hotel Oriental, frequentado pelos estrangeiros que visitavam a capital do Ceilão. Ali, o príncipe distribuiu parte de seus pertences aos colegas de farda. Ao mais pobre, ofereceu um piano, que havia deixado no Palácio Leopoldina, no Rio de Janeiro. A outro, entregou a espada, pedindo, comovido, que a levasse de volta ao Brasil. Por fim, transferiu o restante de sua bagagem para outro navio e, de Colombo, seguiu ao encontro dos familiares na França. Morreria na Áustria, 32 anos mais tarde, sem jamais ter pisado novamente em solo brasileiro.[12]
  26. 26. 2. O GOLPE NA MANHÃ DE 7 DE novembro de 1889, uma quinta-feira, o advogado Francisco Glicério de Cerqueira Leite recebeu pelo telégrafo em seu escritório de Campinas, interior paulista, uma curta mensagem: Venha já! O remetente era Manuel Ferraz de Campos Salles, advogado, deputado provincial de São Paulo e futuro presidente da República. Apesar da aparência cifrada do texto, Glicério sabia exatamente o significado do telegrama. Naqueles dias, os republicanos paulistas andavam alvoroçados com as notícias do Rio de Janeiro. As informações mais preocupantes tinham chegado na véspera, 6 de novembro. Seu portador era o poeta, jornalista e professor pernambucano José Joaquim de Campos da Costa de Medeiros e Albuquerque, futuro autor da letra do Hino da República. Medeiros e Albuquerque fora despachado para São Paulo pelo paraibano e também jornalista Aristides da Silveira Lobo com a missão de avisar as lideranças republicanas locais que uma revolução estouraria na capital a qualquer momento.[13] Ainda com o telegrama na mão, Glicério consultou o relógio. Como faltasse uma hora para a saída do trem para São Paulo, não haveria tempo de passar em casa e trocar as roupas. Por isso, recorreu ao telefone, novidade tecnológica recém-chegada ao Brasil e já disponível em Campinas. Assim, conseguiu pedir à mulher que lhe preparasse uma bagagem para oito dias, mas, por precaução, não lhe contou o destino da viagem. Um portador entregou-lhe a mala com as roupas quando estava a caminho da estação. O advogado campineiro — que hoje dá nome à Baixada do Glicério, área degradada do centro da capital paulista — chegou a São Paulo ao cair da tarde e imediatamente reuniu-se com Campos Salles e outro chefe republicano, o mineiro Bernardino José de Campos Júnior. A gravidade do momento exigia máximo cuidado. Por isso, os três — todos ligados à maçonaria — passaram a noite preparando um código secreto de comunicações a ser usado por Glicério
  27. 27. quando chegasse ao Rio de Janeiro. Pela linguagem cifrada que escolheram, determinadas letras seriam substituídas por símbolos que só os três participantes da reunião poderiam decifrar. Na manhã seguinte, 8 de novembro, mal refeito da noite passada em claro, Glicério rumou novamente de trem para a capital do Império, onde uma semana mais tarde participaria de um dos acontecimentos mais decisivos da história brasileira — a queda do Império e a Proclamação da República.[14] Ao desembarcar no Rio de Janeiro, Glicério pôde compreender toda a dimensão dos acontecimentos. O ambiente era de tensão. A conjuração estava por todo lado. Conspirava-se nas casas particulares, nas escolas, nas redações dos jornais, nos salões e nas confeitarias da rua do Ouvidor, nas praças públicas e nos teatros líricos. Conspirava-se principalmente nos quartéis do Exército. O clima entre os militares era de franca rebelião contra o governo. Tramava-se a derrubada do ministério liderado pelo mineiro Afonso Celso de Assis Figueiredo, o visconde de Ouro Preto, apontado como hostil às Forças Armadas. Uma parte da oficialidade mais jovem queria mais do que isso. Queria a troca da Monarquia pela República. Às onze horas da noite de 6 de novembro, três dias antes da chegada de Glicério à capital, um grupo de militares havia se reunido na casa do tenentecoronel Benjamin Constant Botelho de Magalhães, professor de matemática da Escola Militar da Praia Vermelha e diretor do Instituto dos Meninos Cegos. O objetivo era tratar dos preparativos para a revolução. Entre eles estavam o capitão Antônio Adolfo da Fontoura Mena Barreto, os tenentes Saturnino Cardoso e Sebastião Bandeira, o aluno da Escola de Guerra Aníbal Elói Cardoso e o alferes Joaquim Inácio Batista Cardoso. Na conversa, todos se manifestaram de acordo com o uso das armas para depor a Monarquia. Combinou-se um plano pelo qual os participantes ficariam encarregados de agitar os ânimos nos quartéis, estocar armamento e munição e traçar em detalhes o golpe a ser desfechado nos dias seguintes. A certa altura, porém, Benjamin Constant mostrou-se preocupado com o destino do imperador Pedro II. — O que devemos fazer do nosso imperador? — perguntou. Fez-se um minuto de silêncio, quebrado pelo alferes Joaquim Inácio: — Exila-se — propôs. — Mas se resistir? — insistiu Benjamin. — Fuzila-se! — sentenciou Joaquim Inácio. Benjamin assustou-se com tamanho sangue-frio: — Oh, o senhor é sanguinário! Ao contrário, devemos rodeá-lo de todas as garantias e considerações, porque é um nosso patrício muito digno.[15] Por uma ironia da história, o “sanguinário” Joaquim Inácio Cardoso, então com 29 anos, viria a ser avô de um futuro presidente da República, o manso Fernando Henrique Cardoso. Para fortuna de Pedro II, no dia 15 de
  28. 28. novembro haveria de prevalecer a posição de Benjamin. Em vez de fuzilado, como queria Joaquim Inácio, o imperador seria despachado para o exílio. Até aquele momento, a conspiração tinha sido essencialmente militar, mas entre os republicanos civis a agitação também era grande. Artigos nos jornais assinados, entre outros, pelo advogado baiano Rui Barbosa de Oliveira e pelo jornalista fluminense Quintino Antônio Ferreira de Sousa Bocaiúva pregavam abertamente a República, objeto de concorridas e ruidosas manifestações promovidas pelo advogado Antônio da Silva Jardim e pelo médico e jornalista José Lopes da Silva Trovão. Alguns incitavam os militares contra o governo imperial, como era o caso dos textos incendiários do gaúcho Júlio Prates de Castilhos no jornal A Federação, de Porto Alegre, mas raros eram os civis que tinham conhecimento da real movimentação nos quartéis. Eles só foram informados disso no começo de novembro. Era esse o conteúdo da mensagem que Medeiros e Albuquerque levara a São Paulo naquela semana. Dois dias depois de chegar ao Rio de Janeiro, Francisco Glicério foi levado por Aristides Lobo à presença do marechal alagoano Manoel Deodoro da Fonseca, em reunião da qual também participaram Quintino Bocaiúva, Rui Barbosa, Benjamin Constant, o major Frederico Sólon de Sampaio Ribeiro e dois oficiais da Marinha, o almirante Eduardo Wandenkolk e o capitão de fragata Frederico Guilherme Lorena. Aos 62 anos, com a vida marcada por atos heroicos na Guerra do Paraguai e sucessivos desentendimentos com as autoridades imperiais, Deodoro era o depositário de todas as esperanças dos conspiradores republicanos. O problema é que, àquela altura, o marechal estava gravemente enfermo. Passava o tempo todo na cama. Temia-se que morresse a qualquer momento. Glicério ficou impressionado com seu aspecto ao vê-lo pela primeira vez às voltas com uma crise de dispneia, falta crônica de ar produzida por arteriosclerose. Atirado sobre o sofá, envolto em um roupão, o marechal nem sequer reunia condições para vestir a farda. O peito arfava, e ele mal conseguia falar. O quadro era tão desalentador que, pelos cálculos do advogado campineiro, Deodoro não sobreviveria mais do que algumas horas. E, nesse caso, as chances de sucesso da revolução seriam mínimas. Além de muito doente, o marechal até aquele momento relutava em assumir a liderança do movimento contra o governo imperial. Menos animado ainda estava em relação à hipótese de proclamar a República. Por essas razões, o encontro na noite de 11 de novembro, segunda-feira, apesar de rápido, foi tenso. Benjamin Constant afirmou que não bastava derrubar o ministério sem trocar o regime. A preservação da Monarquia, segundo ele, serviria apenas para agravar os problemas. Era preciso fazer a República. “Está provado que a Monarquia no Brasil é incompatível com um regime de liberdade política”, argumentou Benjamin. “Para que a intervenção do Exército se legitime
  29. 29. aos olhos da nação e pelo julgamento de nossas próprias consciências, é necessário que a sua ação se dirija à destruição da Monarquia e à proclamação da República, recolhendo-se em seguida aos seus quartéis e entregando o governo ao poder civil.”[16] Quando terminou de falar, fez-se um profundo silêncio à espera de uma reação de Deodoro. Nas semanas anteriores, sempre que fora exposto a tais argumentos, o marechal optara pela precaução e pelo adiamento das decisões. Dessa vez, para surpresa de todos, sua atitude mudara. Depois de recuperar o fôlego abatido por mais uma crise de dispneia, começou a falar pausadamente: — Eu queria acompanhar o caixão do imperador, que está velho e a quem respeito muito. Fez uma pausa, como se lhe faltasse o ar, mas emendou em seguida, de forma categórica: — Benjamin, o velho já não regula, porque, se ele regulasse, não haveria esta perseguição contra o Exército. Portanto, já não há outro remédio, leve a breca a Monarquia! Depois de mais uma pausa, acrescentou: — Ele assim o quer, façamos a República. Benjamin e eu cuidaremos da ação militar. O senhor Quintino e os seus amigos organizem o resto.[17] E fez um gesto de quem lava as mãos. Era o sinal que todos esperavam. Feita a divisão de tarefas, cada um se dirigiu para sua casa. No dia seguinte, enquanto os militares se ocupavam da revolução armada, os civis começaram a organizar o futuro governo provisório republicano. Foi disso que trataram Quintino Bocaiúva e Francisco Glicério reunidos na casa de Aristides Lobo. Até aquele momento não se tinha certeza a respeito da data precisa da revolta. Nas reuniões realizadas na casa de Deodoro e Benjamin, os conspiradores trabalhavam com duas possibilidades. A primeira, mais provável, seria a tarde do dia 16 de novembro, um sábado, quando todos os ministros estariam reunidos com o visconde de Ouro Preto.[18] A segunda era 20 de novembro, quarta-feira seguinte. Nesse dia se reuniriam pela primeira vez no Rio de Janeiro os deputados e senadores eleitos em agosto. A abertura da nova sessão legislativa contaria com a presença do imperador Pedro II, de membros da família imperial e de todo o ministério. Em qualquer das hipóteses, os militares cercariam o prédio, prenderiam os ministros, destituiriam o governo e anunciariam a mudança de regime. Tudo parecia se encaminhar para o desfecho combinado, mas o estado de saúde de Deodoro inspirava cuidados cada vez maiores. Na tarde de 14 de novembro, quinta-feira, Glicério e Aristides Lobo andavam pelo largo de São Francisco, no centro da cidade, quando viram Benjamin Constant descer de um
  30. 30. bonde. Era um homem desolado: — Venho da casa de Deodoro — explicou-lhes o professor e tenentecoronel. — Creio que ele não amanhece, e se ele morrer, a revolução está gorada. Os senhores são civis, podem salvar-se; nós, militares, arrostaremos as consequências das nossas responsabilidades.[19] Nas horas seguintes, no entanto, os acontecimentos se precipitariam a tal velocidade que fugiriam ao controle dos revolucionários — e acabariam por tirar Deodoro da cama contra sua própria vontade. Enquanto Glicério e Aristides se encontravam com Benjamin, um boato começou a tomar conta do centro do Rio de Janeiro. Dizia-se que o governo tinha ordenado a prisão de Deodoro e determinado a transferência de várias unidades militares para outras regiões do país, em uma tentativa de conter os focos de rebelião nos quartéis. Falava-se também que o visconde de Ouro Preto planejava dissolver o Exército e substituí-lo pela Guarda Nacional, supostamente mais fiel à Monarquia. Os rumores eram plantados de forma proposital na rua do Ouvidor — definida pelo historiador Anfriso Fialho como “coração e ouvidos do Rio de Janeiro”[20] — por uma das lideranças do golpe em andamento, o major Frederico Sólon de Sampaio Ribeiro, futuro sogro do escritor Euclides da Cunha. Seu objetivo era, obviamente, acirrar os ânimos contra o governo. Naquela tarde, antes de sair de casa rumo ao centro da cidade, Sólon Ribeiro vestira calça e paletó marrons, chapéu de feltro preto, óculos de aros azuis.[21] Acreditava que, com essa indumentária civil, a ação seria mais bem-sucedida do que se aparecesse usando a costumeira farda militar. E, de fato, foi o que aconteceu. Da rua do Ouvidor o boato rapidamente chegou aos quartéis e colocou em andamento a máquina da revolução. Ao cair da tarde desse mesmo dia 14, o ministro da Guerra, Rufino Enéias Gustavo Galvão, visconde de Maracaju, recebeu do marechal alagoano Floriano Vieira Peixoto um bilhete premonitório: “A esta hora deve V. Exa. ter conhecimento de que tramam algo por aí além; não dê importância; tanto quanto seria preciso, confie na lealdade dos chefes, que já estão alertas”.[22] Era um jogo de faz de conta, que transformaria Floriano Peixoto na figura mais enigmática da história da Proclamação da República, como se verá em capítulo adiante. Ocupante de um dos mais altos cargos na hierarquia militar do Império, o de ajudante-general do Exército, cabia a ele ser fiel ao imperador e seguir as ordens do governo do visconde de Ouro Preto. As informações atualmente disponíveis, porém, comprovam que Floriano Peixoto àquela altura já estava envolvido com os republicanos. Seu bilhete ao ministro da Guerra era apenas uma tentativa de dar às autoridades uma ilusória sensação de segurança enquanto as tropas se preparavam para derrubar o Império. Algumas horas antes de enviar o bilhete ao ministro, Floriano tivera um
  31. 31. encontro reservado com Deodoro, seu conterrâneo de Alagoas, no qual se tratou do golpe planejado por Benjamin e pelas lideranças civis republicanas. O marechal explicou a Floriano que, a seu ver, todas as possibilidades de negociação com o governo estavam esgotadas. O momento era de ação. Anunciou também que se colocaria à frente dos revoltosos. — Se a coisa é contra os casacas, lá em casa tenho ainda a minha espingarda velha — limitou-se a responder Floriano. “Casaca” era a forma pejorativa pela qual os militares se referiam às autoridades civis. Alertado a respeito do bilhete de Floriano, o visconde de Ouro Preto deu ordens ao chefe de polícia, conselheiro José Basson de Miranda Osório, para “descobrir a verdade do que porventura se tramasse”, segundo relataria depois em suas memórias.[23] Por volta das onze horas da noite, o ministro teve a confirmação de seus temores: o chefe de polícia informava que a Segunda Brigada do Exército, aquartelada em São Cristóvão, marchava para o Campo de Santana (atual praça da República, na época também conhecida como praça da Aclamação). Igualmente rebelados estavam o Primeiro e o Nono Regimentos de Cavalaria e o Segundo Regimento de Artilharia. Na tentativa de melhor acompanhar os acontecimentos, Ouro Preto seguiu primeiro para a Secretaria de Polícia, situada no centro da cidade. Ali chegando, mandou chamar Floriano Peixoto, que o informou a respeito do levante do Segundo Regimento de Artilharia. O marechal disse ter tomado conhecimento da rebelião por um aviso que lhe trouxera pessoalmente o ajudante de ordens do comandante do batalhão. — E por que não o prendeu? — perguntou-lhe um surpreso Ouro Preto. — Para ganhar tempo e se poder acautelar — desconversou Floriano. Segundo o marechal explicou ao ministro, se o ajudante de ordens não voltasse ao quartel, os militares rebelados, supondo que o ministério estava prevenido, se poriam em movimento mais rapidamente, dificultando a reação do governo. Ouro Preto discordou novamente da atitude de Floriano: — É mister prender os oficiais e os soldados, distribuindo-os convenientemente por fortalezas e quartéis — alertou. — Ordeno-lhe que assim proceda, senhor marechal! Uma vez mais, o ardiloso Floriano desconversou, limitando-se a dizer que usaria toda a energia necessária e que havia tomado as “providências precisas”.[24] Por volta das três horas da madrugada, Ouro Preto decidiu se transferir para o Arsenal da Marinha, cujas instalações se distribuíam entre o sopé do morro de São Bento, rente ao mar, e a ilha das Cobras, sede do Comando Naval brasileiro. Por precaução, despachou um telegrama ao imperador, que se encontrava em Petrópolis, dando conta da revolta militar. O tom da mensagem,
  32. 32. no entanto, dava a entender que o ministro ainda tinha total controle da situação. “O governo toma as providências necessárias para conter os insubordinados e fazer respeitar a lei”, tranquilizou. O imperador só recebeu esse telegrama pela manhã, quando, aparentemente, já era tarde para reagir. Às vésperas de completar 64 anos, velho e cansado, dom Pedro II sofria de diabetes. Naquela noite, estava tão debilitado quanto o marechal Deodoro. Por isso, havia se recolhido mais cedo. Quem recebeu o telegrama de Ouro Preto foi seu médico particular, Claudio Velho da Mota Maia, o conde da Mota Maia, que estava de vigília no palácio de Petrópolis, refúgio da família imperial nos meses de verão. Ao ler a mensagem, Mota Maia achou que não era o caso de incomodar o monarca. Preferiu deixá-lo dormir enquanto o Império mergulhava no abismo. Ao alvorecer do dia 15, uma sexta-feira, diante das notícias de que mais tropas rebeladas marchavam para o centro da cidade, o visconde de Ouro Preto tomou mais uma decisão, da qual haveria de se arrepender pelo resto da vida. Por sugestão do ministro da Guerra, transferiu-se do Arsenal da Marinha para o Quartel-General do Exército, situado no Campo de Santana, vizinho à atual estação da estrada de ferro Central do Brasil (na época, chamada de dom Pedro II). Mais tarde, Ouro Preto confessaria ter cometido um erro estratégico fatal. O Campo de Santana era exatamente o ponto de convergência das tropas rebeladas. Se tivesse permanecido no Arsenal da Marinha, o ministro estaria mais bem protegido do que no Quartel do Exército. Até aquele momento, a Marinha se mostrava mais fiel ao governo imperial do que o Exército, este sim o foco de toda a rebelião. Vizinha do Arsenal e isolada do continente por um pequeno trecho de mar, a ilha das Cobras, sede do Comando Naval, imporia obstáculo à chegada dos revoltosos e poderia também oferecer uma rota de fuga pela baía de Guanabara, em caso de necessidade. Ou seja, na hora mais crítica dos eventos, o visconde de Ouro Preto mudou-se para dentro da cova dos leões, onde o seu governo seria acuado e destroçado com a Monarquia brasileira. “Fomos miseravelmente traídos”, queixou-se depois ao ministro da Agricultura, Lourenço de Albuquerque. “Chamaram-nos para esta ratoeira a fim de que não pudéssemos organizar lá fora a resistência; antes me houvessem matado!”[25] Ao chegar ao Quartel-General do Exército, Ouro Preto foi recebido com informações cada vez mais inquietantes. Várias guarnições militares marchavam em direção ao Campo de Santana. Apesar disso, as ruas nas imediações estavam desertas. Nenhuma tropa fiel ao governo, nenhum obstáculo ou cordão de isolamento, nada havia sido mobilizado para proteger o ministério. No pátio interno do quartel e na praça em frente, um número reduzido de soldados se mantinha em atitude de completa indiferença, com os braços cruzados e as armas em posição de descanso, como se nada de anormal estivesse acontecendo. “Quem contemplasse aquela força, suporia que ali se achava para uma simples parada ou acompanhamento de procissão”, descreveria Ouro Preto em suas
  33. 33. memórias.[26] Dali despachou um segundo telegrama a dom Pedro II, este em tom de urgência: Senhor, dois batalhões revoltados. Venha. Ouro Preto. A notícia da movimentação das tropas pegou de surpresa também as lideranças republicanas, entre elas o próprio Benjamin Constant, que, em sua casa, dormia tranquilamente quando foi acordado por volta das três horas da madrugada pelos tenentes Adolfo Pena e Lauro Müller. Ao se dar conta de que a revolução havia se precipitado, despachou o tenente Pena com a missão de avisar os civis Quintino Bocaiúva e Aristides Lobo e os comandantes Eduardo Wandenkolk e Frederico Lorena, da Marinha. Antes de sair de casa, recomendou à mulher: — Caso te chegue a notícia de que fomos vencidos, queime todos esses documentos. Vou cumprir o meu dever! Depois, à paisana seguiu de carro com Lauro Müller ao encontro de Deodoro. Encontrou o marechal de cama, às voltas com mais uma crise de dispneia. Deodoro ouviu as notícias e prometeu que, assim que melhorasse um pouco, iria se juntar às forças rebeladas. Pela sua aparência, no entanto, Benjamin julgou que isso não aconteceria e rumou ao encontro das tropas no quartel de São Cristóvão. Ao chegar ali, foi recebido com vivas pelos militares e fez um breve discurso: — Estou no meio dos meus amigos. Chegou o momento de vermos quem sabe morrer pela pátria. Se formos vencidos, guardemos a última bala para que nos salvemos da vergonha do aprisionamento. Em seguida, trocou as roupas civis pela farda e se posicionou no meio dos soldados que se dirigiam para o Campo de Santana.[27] Como o objetivo era depor o governo, as tropas marchavam sem bandeira. Desavisado, no entanto, o sargento Ignácio Teixeira da Cunha Bustamante, do Segundo Regimento de Artilharia, carregava o estandarte imperial, que lhe tinha sido entregue por um oficial superior. Assim, perfilou-se com seus camaradas de farda, como sempre fizera. Ao chegar à esquina da rua do Imperador com a Figueira de Melo, alguém o alertou que não ficava bem portar um símbolo do Império no momento de derrubada da Monarquia. Bustamante percebeu o deslize e, sem alternativa, enrolou a bandeira e atirou-a para dentro da janela de uma casa nas imediações.[28] Outro caso pitoresco envolveu um grupo de estudantes. Por orientação de Aristides Lobo, ao cair da tarde de 14 de novembro o estudante de engenharia Ildefonso Simões Lopes, presidente do Clube Republicano Rio-Grandense, percorreu vários alojamentos estudantis no centro da cidade conclamando os moradores a se dirigirem ao quartel do Segundo Regimento de Artilharia, onde receberiam armas e se incorporariam às tropas rebeladas. A adesão foi imediata. Pouco depois da meia-noite, os estudantes pegaram um bonde e
  34. 34. seguiram para o quartel. A certa altura, porém, o bonde parou ao lado de outro que vinha na direção contrária. Dentro dele estava Frederico Guilherme Lorena, o oficial da Marinha que voltava da casa de Deodoro frustrado com o rumo dos fatos. Ao ver os estudantes, Lorena anunciou que a revolução estava adiada porque o marechal, gravemente enfermo, talvez não chegasse com vida à manhã seguinte. E, sem a presença de Deodoro, nada se poderia fazer. Ao ouvirem o relato, os estudantes mudaram de bonde e, na companhia de Lorena, retornaram a seus alojamentos, perdendo assim a chance de testemunhar a Proclamação da República.[29] O historiador Celso Castro, um dos maiores especialistas brasileiros no tema, afirma que na manhã de 15 de novembro “a grande maioria dos soldados que integravam as tropas golpistas em 15 de novembro não estava consciente de que se pretendia derrubar a Monarquia”. Segundo ele, nem alguns oficiais o estavam. Eram, portanto, participantes involuntários do drama, levados por seus superiores dos quartéis para o Campo de Santana. Por essa razão, vários deles se arrependeriam do papel desempenhado naquele dia. Pouco mais de um mês após a Proclamação da República, em 18 de dezembro, estourou uma rebelião de soldados no Segundo Regimento de Artilharia, justamente uma das unidades que haviam participado do golpe. Os soldados queriam a restauração da Monarquia e a volta de dom Pedro II ao Brasil. Foram todos punidos, bem como os participantes de outras revoltas isoladas contra a República registradas em diferentes regiões do país.[30] O dia 15 de novembro estava amanhecendo quando o marechal Deodoro conseguiu, enfim, uma trégua na crise de dispneia que o fizera passar a noite em claro. Naquela madrugada estivera tão abatido que, para se virar na cama, precisava da ajuda de dois oficiais, segundo contou mais tarde o seu médico particular, Carlos Gross. “Deodoro proclamou a República sem o meu consentimento”, afirmou Gross. Segundo ele, durante a noite, Deodoro e a mulher, Mariana, tinham tido uma áspera discussão. Preocupada, ela queria impedir por todos os meios que ele saísse de casa. O marechal, no entanto, insistia em se levantar da cama. Ao final, com a mediação de outros familiares, decidiu-se que Carlos Gross teria a palavra final. O que o médico decidisse seria respeitado por todos. “Se dependesse de mim, ele não sairia”, afirmaria Gross depois. Isso só não aconteceu por uma ironia do destino: o soldado encarregado de chamar o médico foi procurá-lo no endereço errado. Passou horas vasculhando a rua da Quitanda, embora Gross morasse na rua dos Ourives. Quando finalmente o achou, era tarde. Contrariando as restrições da mulher, Deodoro já tinha saído para comandar as tropas contra o Império.[31] Fraco e cambaleante, Deodoro vestiu a farda, pediu que colocassem o selim de sua montaria dentro de um saco e tomou uma charrete em companhia do alferes Augusto Cincinato de Araújo, seu primo, para ir se encontrar com as
  35. 35. tropas. Na rua Senador Eusébio, altura do Gasômetro, viu as forças sublevadas que vinham na direção contrária comandadas pelo tenente-coronel João Batista da Silva Teles, tendo ao lado Benjamin Constant. Como ainda se sentia muito debilitado, continuou de charrete o restante da jornada. Ao chegar próximo do Campo de Santana, o marechal pediu para montar a cavalo, apesar dos protestos dos oficiais, temerosos de que o velho comandante não tivesse forças para se manter sobre o animal. Por precaução, o alferes Eduardo Barbosa cedeu-lhe o cavalo baio número 6, considerado o menos fogoso na tropa do Primeiro Regimento de Cavalaria. Herói involuntário de uma escolha casual, o pacato animal seria o primeiro beneficiário da República brasileira. Aposentado do serviço militar por serviços relevantes prestados ao novo regime, passaria o resto dos seus dias sem fazer nada, vivendo confortavelmente no estábulo do seu quartel no Rio de Janeiro.[32] Anos mais tarde, ao recordar o episódio enquanto posava para o famoso quadro do pintor Henrique Bernardelli em que aparece sobre o animal, de quepe na mão, proclamando a República, Deodoro diria: — Vejam os senhores, quem lucrou no meio de tudo aquilo foi o cavalo![33] Na manhã de 15 de novembro, para surpresa geral, um Deodoro transfigurado surgiu diante dos oficiais e soldados tão logo assumiu o lugar na sela do baio número 6. Com voz firme e decidida, começou a disparar ordens e a organizar as tropas. Em nada lembrava o ancião agonizante que Benjamin Constant e o capitão Lorena haviam encontrado de cama no dia anterior. Ao comando do marechal, seiscentos homens armados com espadas, fuzis e dezesseis canhões postaram-se em frente ao quartel onde estavam reunidos Ouro Preto e seus ministros. Era um número relativamente pequeno comparado aos 1.096 homens que, recrutados às pressas, estavam encarregados de proteger o edifício. As forças supostamente leais ao Império eram constituídas por soldados do próprio Exército, marinheiros, bombeiros e policiais militares sob o comando do general José de Almeida Barreto. Sem que o governo soubesse, entretanto, o general José de Almeida Barreto também estava comprometido com os revolucionários. Era, contudo, um oficial sem a plena confiança de Deodoro. Por isso, ao observar de longe a formação das tropas diante do quartel, Deodoro chamou um oficial e determinou que levasse ao general a ordem para mudar de posição e colocar-se ao seu lado esquerdo. Passados quinze minutos, notou que Almeida Barreto ainda não cumprira a determinação. Deodoro repetiu o comando e uma vez mais não foi atendido. Irritado, chamou novamente o oficial e explodiu: — Menino, vá dizer ao Barreto que faça o que já por duas vezes lhe ordenei, ou então que meta sua espada no c..., pois não preciso dele! A frase de Deodoro, pelo seu óbvio conteúdo chulo, tem sido relatada de
  36. 36. forma cautelosa nos livros de história. O general Jacques Ourique, um dos conspiradores de 1889, se refere a uma “frase impulsiva e vigorosa”.[34] Raimundo Magalhães Júnior, biógrafo de Deodoro, menciona “uma exclamação violenta”.[35] O coronel Ernesto Senna cita o episódio duas vezes em seu livro Deodoro: subsídios para a história. Em nenhuma delas, no entanto, reproduz a palavra usada por Deodoro. Na primeira, diz que o marechal deu “um recado um tanto enérgico e sugestivo...”. Na segunda, que Deodoro mandou Barreto meter “a espada... na bainha”. O historiador Heitor Ly ra, biógrafo de dom Pedro II e autor de quatro volumes sobre a queda do Império, chegou perto da grafia do palavrão, embora ainda de forma não totalmente explícita, como se vê na frase reproduzida acima.[36] O uso de reticências indica que a expressão correta era bem conhecida entre as testemunhas do acontecimento.[37] Controvérsias à parte, a frase funcionou bem. Dessa vez, a ordem foi cumprida de imediato pelo general Almeida Barreto que, ao reposicionar suas tropas sob o comando de Deodoro, deixou exposta sua adesão ao golpe republicano e a total fragilidade do governo diante da circunstância. Logo em seguida começaram a aparecer os civis, incluindo o jornalista Quintino Bocaiúva, que montava um cavalo também emprestado pelas tropas rebeladas. Uma ausência notada foi a do advogado Silva Jardim, um dos homens que nos meses anteriores mais se empenharam na propaganda republicana percorrendo o país para fazer conferências e fundar clubes e jornais favoráveis à nova causa. Desafeto de Quintino Bocaiúva, Silva Jardim não foi avisado da movimentação das tropas e perdeu a chance de testemunhar o momento mais crucial da Proclamação da República. Por essa razão, se tornaria um homem amargurado pelo resto da vida. Dois anos mais tarde, em viagem ao sul da Itália, sofreria uma morte épica, tragado pela cratera do vulcão Vesúvio, em Pompeia. Seu corpo jamais foi recuperado. No momento em que Deodoro cercava o quartel do Exército, de dentro do edifício o visconde de Ouro Preto disparava ordens para que providências enérgicas e imediatas fossem tomadas. Ninguém parecia lhe dar ouvidos. Ao seu lado, Floriano Peixoto mantinha atitude de total serenidade, como se desconhecesse a gravidade da situação. Enquanto isso, o general Almeida Barreto, que o ministro julgava responsável pela sua segurança, mas que àquela altura já se submetera às ordens de Deodoro, “passeava e conversava na extensa varanda”, como se estivesse no mais calmo dos dias, segundo o relato de Ouro Preto.[38] Foi então que Floriano Peixoto adiantou-se e avisou Ouro Preto que Deodoro havia lhe pedido uma “conferência”. — Conferência! — explodiu o ministro. — Mande V. Exa. intimá-lo a que se retire, e empregue a força para fazer cumprir essa ordem. Essa é a decisão única do governo!
  37. 37. Em vez seguir a ordem de Ouro Preto, Floriano se afastou, foi até a varanda da sala vizinha, voltou, tornou a percorrer a varanda, depois desceu as escadas, montou a cavalo, desfilou diante da força dentro do pátio, mas sem tomar nenhuma atitude para deter os revoltosos. Nesse momento, apareceu numa rua lateral o carro do ministro da Marinha, José da Costa Azevedo, barão de Ladário. Vinha se juntar ao ministério, já reunido no interior do edifício.[39] Deodoro mandou que os tenentes Adolfo Pena e Lauro Müller o prendessem. Os dois oficiais se aproximaram do ministro quando ele saía do carro. — Senhor barão, Vossa Excelência está preso! — gritou o tenente Pena. Em vez de se render, Ladário sacou uma pistola e disparou em direção ao oficial, que revidou de imediato. Ambos erraram o alvo. Ladário sacou outra pistola e deu um segundo tiro. Errou novamente, mas dessa vez foi alvejado por quatro disparos, que o atingiram em várias partes do corpo. A distância, Deodoro gritou: — Não atirem! Não matem esse homem! Com as roupas empapadas de sangue, Ladário procurou refúgio em uma loja próxima, mas caiu na calçada antes de chegar à porta do estabelecimento. Levado a um hospital, sobreviveu milagrosamente. Semanas mais tarde, anunciaria seu apoio ao novo governo provisório republicano. Na sala dos ministros, Ouro Preto continuava a disparar ordens: — Essa artilharia pode ser tomada à baioneta — afirmou apontando para as armas dos militares rebeldes. — É impossível — alguém lhe respondeu. — As peças estão assentadas de modo que qualquer surtida será varrida à metralha! — Por que deixaram então que tomassem tais posições? — indignou-se o ministro. — No Paraguai, os nossos soldados apoderavam-se de artilharia em bem piores condições. Floriano, que voltava lá de baixo, encerrou o diálogo com uma frase curta e reveladora da sua posição: — Sim, mas lá tínhamos pela frente inimigos, e aqui somos todos brasileiros![40] Ao ouvir a resposta de Floriano, o ministro finalmente entendeu que estava sozinho. Resistir seria inútil. Diante disso, redigiu ali mesmo seu terceiro e último telegrama a dom Pedro II em Petrópolis, no qual selava de vez a sorte da Monarquia no Brasil: Senhor — O ministério, sitiado no Quartel-General da Guerra, à exceção do Sr. Ministro da Marinha, que consta achar-se ferido em uma casa próxima, tendo por mais de uma vez ordenado debalde, por órgão do presidente do Conselho e do ministro da Guerra, que se repelisse pela força a intimação armada do Marechal Deodoro para pedir sua
  38. 38. exoneração, e diante da declaração feita pelos generais visconde de Maracaju, Floriano Peixoto e barão do Rio Apa de que, por não contarem com a força reunida, não há possibilidade de resistir com eficácia, deponho nas augustas mãos de Vossa Majestade o seu pedido de demissão. A tropa acaba de confraternizar com o Marechal Deodoro, abrindo-lhe as portas do Quartel. Dom Pedro II recebeu o telegrama do visconde de Ouro Preto por volta das onze horas da manhã. Ao dar-se, finalmente, conta da gravidade da situação, decidiu retornar ao Rio de Janeiro, ordenando que lhe preparassem um trem especial, que o levaria direto ao centro da cidade. A decisão de dom Pedro II é até hoje motivo de controvérsia. Uma hipótese muito discutida pelos monarquistas nos anos seguintes foi que o imperador poderia ter permanecido em Petrópolis. Dali teria condições de recuar para Minas Gerais e eventualmente organizar a resistência ao golpe republicano. Essa hipótese chegou a ser sugerida ao conde d’Eu, marido da princesa Isabel, no próprio dia 15 de novembro de 1889, pelo engenheiro André Rebouças, abolicionista amigo da família imperial. Só não foi levada em consideração por um problema de comunicação. Naquele momento, dom Pedro já estava no trem a caminho do Rio de Janeiro. Avisá-lo para recuar seria praticamente impossível. Enquanto o monarca descia a serra, no Ministério da Guerra o clima era de confraternização entre os vitoriosos e de completa desolação entre os perdedores. Pouco depois das nove horas da manhã, Deodoro aproximara-se do pátio do quartel e determinara que o portão lhe fosse aberto. — Apresentar armas — ordenou. — Toquem o hino! Em seguida, mandou que o tenente-coronel Teles intimasse o ministério a se render. Ao entrar na sala, Teles foi recebido pelo visconde de Ouro Preto: — Os senhores, o que querem? — perguntou o chefe do ministério. — A brigada quer a retirada do ministério — respondeu o oficial. Nesse instante, ouviu-se um grande clamor no interior do edifício seguido do som de clarins e salvas de artilharia. Era Deodoro que, sem esperar pela resposta, subia ao salão onde estavam os ministros. Quando sua figura imponente, de barba cerrada e olhos penetrantes, transpôs o umbral da porta, fezse um profundo silêncio. Todos pareciam compreender a importância daquele momento. De pé, diante do ministério, Deodoro fez um discurso permeado de queixas. Explicou que assumira a liderança do movimento para vingar as injustiças e ofensas cometidas pelo governo contra os militares. Disse que só o Exército sabia sacrificar-se pela pátria. E que, apesar disso, era maltratado pelos políticos, que só sabiam cuidar dos seus interesses pessoais. Afirmou que estava doente, mas que, mesmo assim, aceitara assumir o comando das tropas porque
  39. 39. não era homem de recuar diante de perigo algum. Temia somente a Deus. Lembrou os serviços que prestara na Guerra do Paraguai, na qual passara três noites e três dias combatendo o inimigo dentro de um pântano, com a roupa encharcada e a água até a cintura — “sacrifício que Vossa Excelência não pode avaliar”, acrescentou, dirigindo-se ao visconde de Ouro Preto. Por fim, avisou que todo o ministério estava demitido e que um novo governo seria organizado de acordo com uma lista de nomes que ele próprio levaria ao imperador. Esse pequeno detalhe indica que, até aquele momento, Deodoro ainda não estava totalmente convencido a proclamar a República. Se estivesse depondo a Monarquia, e não apenas o gabinete chefiado por Ouro Preto, por que levaria uma nova lista de ministros à aprovação do imperador? É um enigma que até hoje desafia os estudiosos da personalidade do marechal e do papel crucial que desempenhou naquele dia. O que dificulta o trabalho dos historiadores é a guerra de fatos entre monarquistas e republicanos que se estabeleceu nos anos seguintes. Fatos e mitos se misturam nessa batalha pela verdade histórica. Cada lado se encarregou de espalhar versões contraditórias, de acordo com seus próprios interesses. O alferes e mais tarde marechal Cândido Mariano da Silva Rondon, que estava ao lado de Deodoro naquele momento, contou tê-lo ouvido gritar um viva ao imperador Pedro II, saudação habitual naquela época. A mesma história foi relatada pelo ministro do Chile no Rio de Janeiro em despacho diplomático para seu governo em Santiago. Deodoro nunca negou ter dado esse viva ao imperador, mas a história oficial republicana sempre se esforçou para ocultar o episódio. De concreto sabe-se que Deodoro em nenhum momento proclamou ou deu vivas à República, que nas horas seguintes se imporia como um fato consumado diante da incapacidade do poder imperial de resistir à própria implosão. Ao encerrar o improvisado discurso, Deodoro afirmou também que todos os ministros poderiam se retirar para suas casas, com exceção de Ouro Preto e do conselheiro Cândido de Oliveira, ministro da Justiça, que ficaram presos ali mesmo até segunda ordem. Ouro Preto ouviu tudo em silêncio. Quando Deodoro parou de falar, declarou: — Não é só no campo de batalha que se serve à pátria e por ela se fazem sacrifícios. Estar aqui ouvindo o marechal, neste momento, não é somenos a passar alguns dias e noites num pantanal. Fico ciente do que resolveu a meu respeito. É o vencedor: pode ficar com o que lhe aprouver. Submeto-me à força.[41] Deodoro virou as costas e desceu as escadas do quartel. Apesar de enfermo e exausto pelos acontecimentos das últimas horas, ainda teve forças para montar a cavalo e desfilar com a tropa pelo centro da cidade. O clima entre civis e militares revoltosos era de completa euforia, com
  40. 40. um senão: faltava proclamar a República. Deodoro, apesar de ter demonstrado firmeza ao destituir o ministério, ainda não anunciara formalmente a mudança de regime. Ainda no Quartel-General, numa tentativa de forçar uma definição do marechal, Quintino Bocaiúva dera instruções a Sampaio Ferraz, um jovem jornalista e promotor público, para que fizesse um pronunciamento a favor da República diante das tropas. Seguindo as instruções, Ferraz colocou-se diante das grades e gritou: — Viva a República! Ao ouvi-lo, Deodoro determinou que se calasse. — Ainda é cedo — avisou o marechal. — Não convêm, por ora, as aclamações![42] Horas mais tarde, quando desfilava ao lado de Deodoro com as tropas na rua do Ouvidor, Benjamin Constant encontrou-se com Aníbal Falcão, positivista e chefe republicano de Pernambuco, e alertou: — Agitem o povo. A República não está proclamada! Em depoimento anos depois, Falcão confessou que, ao ouvir a declaração “do mestre”, foi tomado por “verdadeiro assombro” e “um sentimento de angústia que, naquele momento, oprimiu o meu coração”.[43] Angustiado também estava Benjamin Constant com a ideia de que a tão aguardada oportunidade de proclamar a República se perdesse caso Deodoro não tomasse uma atitude. O marechal, no entanto, ouvia tudo em silêncio, sem nada responder. Terminado o desfile, voltou para a modesta casa em que morava, em frente ao Campo de Santana e a alguns metros do local onde havia destituído o ministério. Exaurido, caiu na cama. Mariana, sua mulher, postou-se na porta do quarto e não permitiu que mais ninguém se aproximasse do marechal. A República teria de esperar. Ao ouvir de Benjamin Constant a notícia de que a República ainda não estava proclamada, Aníbal Falcão correu para a redação do jornal Cidade do Rio, de propriedade do abolicionista José do Patrocínio. Ali, em companhia do próprio Patrocínio e de outros dois líderes republicanos — Pardal Mallet e Silva Jardim — redigiu às pressas a única proclamação formal da República ouvida naquele dia. “Era necessário um movimento popular, audaz e rapidamente organizado a fim de que, antes de qualquer deliberação do governo (...), fosse proclamada a República”, explicou mais tarde Falcão. A moção, redigida de forma tortuosa por Falcão no jornal de Patrocínio, era endereçada aos “Senhores representantes do Exército e da Armada Nacional”. Anunciava que “o povo, reunido em massa na Câmara Municipal, fez proclamar, na forma da lei ainda vigente, pelo vereador mais moço (o próprio Patrocínio, então com 36 anos), após a gloriosa revolução que ipso facto aboliu a Monarquia no Brasil — o governo republicano”. Acrescentava que “os abaixoassinados”, intitulados “órgãos espontâneos da população do Rio de Janeiro”,
  41. 41. estavam “convencidos de que os representantes das Classes Militares, que virtualmente exercem as funções de governo no Brasil, sancionarão este ato”.[44] “O povo em massa reunido na Câmara Municipal” não passava, na verdade, de meia dúzia de jornalistas e intelectuais. Vereador e líder abolicionista negro nascido em Campos dos Goy tacazes, filho bastardo de um padre com uma escrava, José do Patrocínio era uma figura controvertida. Até as vésperas de 15 de novembro, declarava-se um fiel súdito e aliado da princesa Isabel. Atribui-se a ele o título de “A Redentora” dado à princesa após a assinatura da Lei Áurea, em 13 de maio de 1888. Entusiasmado com a abolição, que tanto defendera, Patrocínio também ajudou a criar uma “guarda negra”, composta de escravos libertos, mulatos e capoeiras, com o objetivo de defender os direitos da princesa e assegurar o Terceiro Reinado após a morte do imperador Pedro II. Essas convicções monarquistas, porém, desapareceram todas na tarde de 15 de novembro, quando Patrocínio decidiu assumir a glória efêmera que Deodoro parecia recusar. Seria ele um dos muitos republicanos de última hora que o Brasil haveria de conhecer naqueles tumultuados dias. Concluído o texto da moção, o grupo se dirigiu à Câmara Municipal.[45] A improvisada cerimônia de Proclamação da República aconteceu por volta das seis horas da tarde. Na falta de símbolos genuinamente brasileiros que representassem o novo regime, foi preciso improvisar. Cantou-se a Marselhesa, o hino nacional da França, e hasteou-se uma bandeira cujo desenho imitava os traços do estandarte dos Estados Unidos da América, substituindo-se apenas as cores azul e branco das faixas horizontais pelas cores verde e amarelo. Essa bandeira, originalmente usada pelo Clube Republicano Lopes Trovão, seria mais tarde substituída pela atual, com a expressão “Ordem e Progresso” inspirada nos ideais do Apostolado Positivista, grupo de seguidores do filósofo francês Auguste Comte, que pregava uma ditadura republicana como solução para o Brasil. Após a cerimônia na Câmara Municipal, os manifestantes se dirigiram à casa de Deodoro. Pretendiam entregar-lhe a moção redigida no jornal de José do Patrocínio. Como o marechal estava de cama, proibido pela mulher de receber visitas, coube a Benjamin Constant atendê-los. Depois de ouvi-los, Benjamin, agora mais cauteloso do que no momento em que desfilara com as tropas pelo centro da cidade, afirmou que “o governo provisório saberá levar em conta a manifestação da população do Rio de Janeiro”. Por fim, anunciou que, no momento oportuno, a nação seria consultada sobre a troca de regime. O manifesto que o governo provisório divulgou naquela noite, assinado por Deodoro, anunciava que o Exército e a Armada tinham decretado a deposição da família imperial e o fim da Monarquia, mas em nenhum momento mencionava a palavra república.[46] A consulta prometida por Benjamin Constant
  42. 42. aconteceria somente um século mais tarde. Em abril de 1993, ou seja, 103 anos após 15 de novembro de 1889, os brasileiros finalmente foram chamados a decidir em plebiscito nacional se o Brasil deveria ser uma monarquia ou uma república. Venceu a República.
  43. 43. 3. O IMPÉRIO TROPICAL NO ANO DA PROCLAMAÇÃO DA República, o Brasil tinha cerca de 14 milhões de habitantes, 7% da população atual. De cada cem brasileiros, somente quinze sabiam ler e escrever o próprio nome. Os demais nunca tinham frequentado uma sala de aula. Entre os negros e escravos recém-libertos, o índice de analfabetismo era ainda maior, superior a 99%. Só uma em cada seis crianças com idade entre seis e quinze anos frequentava a escola. Em todo o país havia 7.500 escolas primárias com 300 mil alunos matriculados.[47] Nos estabelecimentos secundários, o número caía de forma dramática: apenas 12 mil estudantes. Oito mil pessoas tinham educação superior — uma para cada grupo de 1.750 habitantes.[48] A agricultura respondia por 70% de todas as riquezas nacionais, e a imensa maioria da população se concentrava no campo. Oito entre dez brasileiros moravam na zona rural. O café dominava a pauta de exportação. Sozinho, o Brasil fornecia cerca de 60% da produção mundial. Desde a época da Independência o país tinha feito progressos significativos, embora ainda muito aquém de suas necessidades em alguns itens. As fronteiras estavam definidas e consolidadas, com exceção de um trecho na região do Rio da Prata e do estado do Acre, que em 1903 seria comprado da Bolívia por 2,9 milhões de libras esterlinas em negociação conduzida pelo barão do Rio Branco. Ao manter intacto um território pouco inferior à soma de todos os países europeus, os brasileiros haviam alcançado uma façanha que nenhum dos seus vizinhos conseguira realizar. O Brasil se mantivera unido, enquanto a antiga América espanhola se fragmentara nas guerras civis do começo do século. Revoltas regionais e rebeliões separatistas, que até metade do século XIX ameaçaram a integridade territorial, tinham sido superadas com muito sacrifício. Como se isso não fosse suficiente, o país tinha ainda passado por outra experiência traumática, a Guerra do Paraguai, maior de todos os conflitos armados da história da América do Sul. Iniciada em novembro de 1864, a Guerra do Paraguai foi travada por
  44. 44. mais de cinco anos, até março de 1870. Ceifou a vida de centenas de milhares de pessoas, das quais 33 mil brasileiros. O preço mais alto coube, obviamente, ao Paraguai, o país derrotado. A população paraguaia, estimada em 406 mil habitantes no começo da guerra, reduziu-se à metade. O custo econômico também foi altíssimo. Só do lado brasileiro foram gastos 614 mil contos de réis, onze vezes o orçamento do governo para o ano de 1864, agravando um deficit que já era grande e que o Império carregaria até sua queda.[49] O Brasil se viu forçado a entrar no conflito pela inabilidade política e pela ambição desmedida do ditador paraguaio, Francisco Solano López. Determinado a ampliar o poder de seu país na região do rio da Prata e a construir uma saída para o Atlântico, Solano López aprisionou em Assunção um navio brasileiro sem prévia declaração de guerra, invadiu o norte da Argentina e a cidade de Uruguaiana, no Rio Grande do Sul, e ocupou a região de Corumbá, no Pantanal mato-grossense. Sem a opção de resolver as diferenças pela via diplomática, restou ao Brasil defender seus interesses nos campos de batalha. A guerra seria mais longa e desgastante do que se previa. No início dos combates, o Exército brasileiro era reduzido e mal organizado. Suas tropas somavam 18 mil homens contra um contingente paraguaio de 64 mil soldados reforçado por uma retaguarda de veteranos calculada em 28 mil reservistas. O cenário desfavorável mudou graças a uma aliança até então considerada improvável, reunindo rivais históricos — Brasil, Argentina e Uruguai — contra o inimigo comum. A chamada Tríplice Aliança aniquilou as esperanças de sucesso de Solano López. Nos anos finais da guerra, no entanto, os brasileiros lutaram praticamente sozinhos, sob o comando do mítico Luís Alves de Lima e Silva, futuro duque de Caxias, uma vez que argentinos e uruguaios, às voltas com rivalidades internas, pouco puderam contribuir. Internamente, a guerra produziu alguns efeitos colaterais importantes. Nunca antes tantos brasileiros haviam juntado forças em torno de uma causa comum. Gente de todas as regiões pegou em armas para defender o país. Calcula-se que pelo menos 135 mil homens foram mobilizados. Mais de um terço desse total, cerca de 55 mil, fazia parte do chamado corpo de Voluntários da Pátria, composto de soldados que se alistaram espontaneamente. Nos campos do Paraguai, brasileiros de cor branca lutaram ao lado de escravos, negros e mulatos, índios e mestiços. Ribeirinhos da Amazônia e sertanejos do Nordeste encontraram-se pela primeira vez com gaúchos, paulistas e catarinenses. O imperador Pedro II, chamado de o “Voluntário Número Um”, transferiu-se pessoalmente à frente de batalha, enfrentando o frio e a intempérie numa barraca de campanha. Tudo isso havia produzido um sentimento de unidade nacional que o país não conhecera nem mesmo no tempo da sua Independência. Os símbolos nacionais foram valorizados. O hino era tocado no embarque das tropas. A bandeira tremulava à frente dos batalhões e nos mastros dos navios.
  45. 45. Finda a Guerra do Paraguai, o país entrara em uma fase decisiva de transformações. No campo político, reavivou-se a campanha abolicionista, em favor da libertação de todos os escravos. A resistência dos fazendeiros e barões do café, que dependiam da mão cativa para cultivar suas lavouras, fora enorme, mas, também nesse caso, brasileiros de todas as cores e regiões acabaram se unindo em torno de uma mesma aspiração, que levou milhares de pessoas às ruas na fase final da jornada. O resultado tinha sido a Lei Áurea, que, assinada pela princesa Isabel no dia 13 de maio de 1888, colocara fim a quase quatro séculos de escravidão. Ainda como decorrência da guerra, o Exército se fortalecera. A presença dos militares como força política nas décadas seguintes seria um fator decisivo para a queda da Monarquia e a Proclamação da República. Em 1889, as regiões mais distantes, por muito tempo isoladas devido à dificuldade de acesso, tinham sido mapeadas, ocupadas e integradas, graças em boa parte às novas tecnologias de transporte e comunicação. Havia 9.200 quilômetros de ferrovias em funcionamento e outros 9 mil em construção. O volume de cartas despachado pelos correios triplicou entre 1881 e 1889. Nesse ano, 55 milhões de cartas da correspondência oficial e privada transitavam pelos correios, número que chegaria a 200 milhões dez anos mais tarde.[50] O telégrafo, inventado em meados do século, permitia enviar e receber mensagens instantâneas a qualquer distância. O total de linhas telegráficas quintuplicara em uma década e meia, saltando de 3.469 quilômetros em 1873 para 18 mil em 1889.[51] O número de mensagens telegráficas despachadas anualmente saltara de 233 em 1861 para 528.161 em 1887, ano em que os brasileiros trocaram 7 milhões de palavras por esse novo meio de comunicação.[52] A navegação costeira a vapor, inaugurada em março de 1838, reduzira a menos da metade o tempo de viagem entre o Rio de Janeiro e Belém, no Pará. O contato com o resto do mundo também fora alterado de forma expressiva. Na época dos barcos a vela, uma viagem entre o Brasil e a Europa demorava cerca de dois meses. Tinha sido esse o tempo que a frota do príncipe regente dom João levara para cruzar o Atlântico em 1808, de Lisboa a Salvador, fugindo das tropas do imperador francês Napoleão Bonaparte. Agora, com os navios a vapor, era possível ir do Rio de Janeiro a Liverpool, na Inglaterra, em exatos 28 dias a bordo dos ágeis e confortáveis packet boats ingleses, nome que, traduzido para o português, passou a ser chamado de paquete. Segundo o historiador Luiz Felipe de Alencastro, a viagem era feita com tal precisão e regularidade que o bom humor carioca associou o nome paquete ao ciclo menstrual feminino, igualmente de 28 dias, em média.[53] Marco dessa integração com o mundo havia sido a inauguração, no dia 22 de junho de 1874, do primeiro cabo submarino ligando o Rio de Janeiro à Europa. Instalado no prédio da Biblioteca Nacional, o imperador Pedro II celebrou o acontecimento
  46. 46. despachando telegramas ao papa Pio IX, à rainha Vitória, da Inglaterra, ao imperador Guilherme, da Alemanha, ao rei Victor Emanuel, da Itália, ao presidente dos Estados Unidos, Uly sses Grant, e ao presidente da França, marechal Mac-Mahon. Em meados do século, pouco antes da Guerra do Paraguai, o Brasil havia testemunhado ainda algumas mudanças no seu mapa político. O Amazonas, desmembrado do vizinho Pará, se tornara província autônoma em 1850. No sul, o Paraná, até então a Quinta Comarca de São Paulo, também ganhara autonomia em 1853. Outras três províncias ganharam novas capitais: em Alagoas, Maceió foi promovida a sede do governo em 1839; no Piauí, Vila Nova do Poti substituiu Oeiras em 1852, sendo rebatizada com o nome de Teresina em homenagem à imperatriz Teresa Cristina, mulher de dom Pedro II; e, por fim, no Sergipe, Aracaju tomou o lugar de São Cristóvão em 1855. Capital do Império, com 522.651 habitantes, o Rio de Janeiro aumentara sua população nove vezes desde a chegada de dom João e a família real portuguesa. O porto carioca era o mais movimentado do Brasil. A renda de sua alfândega representava 32% da arrecadação geral do Império. A cidade que mais crescia em 1889, no entanto, era São Paulo, que chegaria a 239.820 habitantes no Censo de 1900. Sua população se multiplicaria por dez em apenas cinquenta anos, impulsionada em grande parte pelos novos imigrantes estrangeiros que chegavam ao Brasil para substituir nas lavouras a recém-abolida mão de obra escrava. Salvador, capital colonial até 1763, tinha 174.412 habitantes e apresentava crescimento estável, enquanto no Recife, com 111.556, a população declinava em razão da crise da lavoura açucareira. Na Amazônia, um fenômeno a ser observado era o crescimento de Belém, que registraria 96.560 habitantes no Censo de 1900, impulsionado pela febre da borracha. Desde que o americano Charles Goody ear inventara o processo de vulcanização, em 1839, o produto era usado na fabricação de mangueiras, chapéus e capas de chuva, correias industriais e outros artigos. Sua procura aumentaria ainda mais nos anos seguintes, com o surgimento da indústria automobilística, transformando os seringais da Amazônia brasileira em um imenso eldorado verde.[54] Nas grandes capitais, a paisagem urbana se transformara por completo. Em algumas delas, as ruas centrais eram iluminadas por lampiões a gás, mais eficientes do que as antigas lanternas a óleo de baleia, de manutenção difícil e funcionamento incerto. O telégrafo contribuíra para a proliferação dos jornais e a circulação mais rápida de notícias. A imprensa, que chegara tardiamente ao Brasil com dom João em 1808, passara por uma fase de rápida expansão nas décadas seguintes. Em 1876 já se publicavam cinquenta jornais no Rio de Janeiro, mais de quarenta em São Paulo, trinta em Pernambuco, 27 na Bahia e 22 no Pará.[55] Invenção mais recente, o telefone chegou a São Paulo, Salvador,

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