Apostila Missões Ribeirinhos

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Um estudo sobre missões ribeirinhas no Amazonas

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Apostila Missões Ribeirinhos

  1. 1. TRABALHO DE INTRODUÇÃO AO UNIVERSO RIBEIRINHOS. OBEJETIVANDO UM EVANGELHO RELEVANTE, INTEGRAL E CHEO DE A GRAÇA. DEDICO ESTE TRABALHO AO MEU AMIGO RIBEIRINHO. QUEM ME ESFORÇO PARA SER, QUEM AMO SEM FAZER ESFÔRÇO ALGUM, QUEM COM INSPIRAÇÃO ADMIRO E COM MUITA TRANSPIRAÇÃO PROCURO ENTENDER E AJUDAR. Em Cristo Jesus, Pastor Alcedir Sentalin
  2. 2. APOSTILA DE MISSÕES RIBEIRINHAS Manaus, maio de 2012. ÍNDICE INTRODUÇÃO ..........................................................................................................................................4 1. CONSIDERAÇÃO GERAIS SOBRE OS RIBEIRINHOS..........................................................................5 2
  3. 3. 1.1. Dados Demográficos......................................................................................................................................5 1.2. Avaliação preliminar......................................................................................................................................5 2. ORIGEM DO POVO RIBEIRINHO.............................................................................................................6 2.2. Origem Bíblica...............................................................................................................................................6 2.2.1. Adão...............................................................................................................................................................7 2.2.2. Pai Abraão......................................................................................................................................................8 2.2.3. Os Judeus.......................................................................................................................................................9 2.2.4. Ribeirinhos no Novo Testamento................................................................................................................10 2.3. Origem no Amazonas...................................................................................................................................14 2.3.1. A colonização do Amazonas........................................................................................................................14 2.3.2. A mão de obra indígena e as disputas entre religiosos e colonos...........................................................16 2.3.3. A ação dos Jesuítas: Catequese e Aldeamentos..........................................................................................17 2.3.4. A escravidão indígena..................................................................................................................................17 3. ANTROPOLOGIA RIBEIRINHA.................................................................................................................18 3.1. Características Físicas..................................................................................................................................18 3.2. Diferenças entre Ribeirinhos..................................................................................................................19 3.2.1. Diferenciação por ascendência....................................................................................................................19 3.2.2. Diferenciação por Região.............................................................................................................................19 3.3. Hábitos e Crenças........................................................................................................................................19 3.3.1. Hábitos Alimentares ....................................................................................................................................19 3.3.2. Crenças.........................................................................................................................................................20 3.4. Cultura Ribeirinha no Amazonas...............................................................................................................20 3.4.1. Despovoamento Cultural.............................................................................................................................20 3.4.2. Cultura Geral e Suas Peculiaridades............................................................................................................21 3.4.3. Sentido de cultura........................................................................................................................................23 3.4.4. A Caracterização de Herskovits...................................................................................................................24 3.4.5. Classificação de Cultura..............................................................................................................................25 3.4.6. Padrão Cultural............................................................................................................................................25 3.4.7. Escola Histórico-Cultural.............................................................................................................................26 3.4.8. Influencias geográfica na cultura ribeirinha................................................................................................27 3.4.9. Folclore no Amazonas.................................................................................................................................27 4. COSMOVISÃO RIBEIRINHA.........................................................................................................................28 4.1. Propósito de estudar a Cosmovisão Ribeirinha...........................................................................................28 4.2. A Cosmovisão e o Animismo.....................................................................................................................28 4.3. Cosmovisão Atual........................................................................................................................................29 4.4. Estilo de Vida Ribeirinho e a Cosmovisão.................................................................................................29 4.4.1. Aspectos Comportamentais.........................................................................................................................29 4.4.1.1. A família ribeirinha .................................................................................................................................30 4.4.1.2. Influência do ambiente geográfico no comportamento Ribeirinho ....................................................33 4.4.1.3. Comunicação...........................................................................................................................................34 4.4.2. Aspectos Socioeconômicos e Políticos....................................................................................................35 4.4.2.1. Economia de Subsistência........................................................................................................................35 4.4.2.2. Formas de Trabalho...................................................................................................................................36 4.4.3. A Vida em Comunidade...............................................................................................................................37 3
  4. 4. 5. TEOLOGIA RIBEIRINHA.........................................................................................................................38 5.1. Visão Ribeirinha..............................................................................................................................................38 5.1.1. Visão Ribeirinha sobre Teologia................................................................................................................38 5.1.2. Visão Ribeirinha sobre Céu e Terra...........................................................................................................39 5.1.3. Visão Ribeirinha sobre Salvador...............................................................................................................39 5.2. Como Transmitir o Evangelho de forma relevante e correta..................................................................40 5.3. Como aplicar a Teologia de maneira aproveitável.....................................................................................41 5.4. As necessidades dos Ribeirinhos.............................................................................................................43 5.5. O Missionário..................................................................................................................................................43 5.5.1. Missionário como Missionário..................................................................................................................43 5.5.2. Missionário como Ribeirinho....................................................................................................................44 5.5.3. Missionário e a Igreja...................................................................................................................................44 5.5.4. Necessidade de Treinamento para alcance Ribeirinho............................................................................45 5.5.5. Como pregar o evangelho aos Ribeirinhos..................................................................................................45 5.6. Treinamento Missionário no Mundo......................................................................................................45 5.6.1. Escolas e Centros de Treinamento Missionários no “Terceiro Mundo”.................................................46 CONCLUSÃO.......................................................................................................................................................47 BIBLIOGRAFIA....................................................................................................................................................48 INTRODUÇÃO 4
  5. 5. Sempre que falamos sobre a igreja ribeirinha, pensamos em como ajudá-la melhor, e é por este motivo que estudaremos a cosmovisão Ribeirinha. Identificar a cosmovisão ribeirinha não constitui uma tarefa fácil e simplória. É impossível que a conheçamos a fundo sem que estejamos dispostos a “comer a mesma farinha”, de modo que podemos falar tecnicamente o que consideramos saber sobre o pensamento ribeirinho e sua forma de conferir valores às várias questões da vida. As interações diretas, contínuas, observadoras, abnegadas e destemidas com este povo, nos tornará eficazes na compreensão de sua cosmovisão e capacitados a oferecer auxílio para Igreja Ribeirinha em sua missão de comunicação do Evangelho. A compreensão da cruz de Cristo é a “mola mestra” que nos moverá rumo a este desafio. A cruz nos ensina a compaixão, a morte para os nossos próprios interesses, a unidade e a humildade, e nos confere a convicção de que o Cristo que nela foi manifesto, morreu por suas ovelhas ribeirinhas, e a Ele convém congregá-las. 1. CONSIDERAÇÕES GERAIS SOBRE O RIBEIRINHO AMAZÔNICO 1.1. Dados Demográficos 1.1 LOCALIZAÇÃO: Amazonas/Brasil 1.2 CLIMA: Quente/Úmido 1.3 CAPITAL: Manaus 1.4 ÁREA GEOGRÁFICA: 1.570.745,680 Km2. 5
  6. 6. 1.5 POPULAÇÃO RIBEIRINHA: 725.181 hab. em 2010 1.6 LÍNGUA OFICIAL: Português 1.7 CLASSES SOCIAIS: Subsistência 1.8 CULTURA ARTÍSTICA: Danças variadas, diversidades de cores e músicas e grande ênfase no artesanato. 1.9 RELIGIÕES: Cristão com ênfase animista 1.2. Avaliação preliminar O povo ribeirinho tem sua identidade, é um povo muito simples e inteligente, muito se tem falado sobre o povo ribeirinho do Amazonas, mas são poucos os que olham para eles com verdadeiro entendimento, muitas pessoas os avaliam dentro do conceito próprio de sua cultura, não levando em consideração que o grande erro é sempre o pré-julgamento baseado no conhecimento unicultural. Quando olhamos os ribeirinhos de forma bíblica e honesta, temos a nítida compreensão de que não se trata de algo novo e sim histórico, e que seus hábitos peculiares, na verdade são reflexos cognitivos e emotivos, acarretados pelas circunstâncias que os cercam. É hora de olharmos os ribeirinhos com compaixão, misericórdia e compreensão das causas, sem impor novos padrões culturais, que em nada os enriquecerá, é necessário ter força e coragem de contextualizar... Este é um termo perigoso, mas necessário. O povo Ribeirinho do Amazonas vive de forma cultural parecida com a dos aborígines, pois os mesmos têm um líder que nem sempre é respeitado como tal e um religioso que às vezes é tido como rezador ou feiticeiro. Vivem em uma sociedade de cultura tribal, explorado pela cultura feudal dos resgatadores e pela indústria do extrativismo. Relacionam-se de forma tribal, tudo é de todos, e por este motivo às vezes não se importam em dividir objetos que os interessam; o homem exerce a caça e a pesca e a mulher o cuidado familiar, o qual vai desde o tecer até o preparar e educar os filhos. Enquanto as mulheres administram a educação e a economia familiar, exercendo um papel fundamental nas Comunidades, influenciando na administração dos bens, patrimônio e agricultura, os homens têm uma postura um tanto passiva em relação à educação dos filhos, não seguindo nenhum padrão tido como normal, seus filhos são criados meio “soltos”. A prostituição é vista como errada mais não um pecado capital. É comum casos de incesto praticado por avôs, pais e tios, os quais motivados por satanás, pela cultura em que estão inseridos, estimulados pela sensualidade provocada pelo uso de pouca roupa (por causa do calor), pela intimidade revelada no banho coletivo e pela proximidade física na hora de dormir (as casa são pequenas e todos dormem próximos). São receptíveis ao evangelho, porém levam tempo para mudar os valores, em virtude de seus padrões culturais... Analisando o contexto histórico, percebemos que qualquer povo submetido a uma cultura por algumas gerações, pensará com forma e padrão absorvido do povo dominante, ficando desprovidos de iniciativa e preferindo que outros decidam por eles. Um exemplo clássico, que nos ajuda a entender melhor esta questão, é o estudo da “colonização” do Brasil, onde os índios foram explorados, mortos como bichos, tiveram suas mulheres e filhas abusadas sexualmente e um padrão cultural e religioso imposto de maneira sobremodo elevado e 6
  7. 7. explorador, o que fez com que criassem uma consciência servil com resistência passiva, chamada de leseira baré (ou amazônica), onde a resistência é demonstrada na reação passiva de ignorar ou mesmo dar a entender que houve entendimento, quando muitas vezes nada foi compreendido e assim, sem estímulo de confiança, ignoram fatos ou ações e desconfiam completamente dos que se propõe a interferir de alguma forma em suas crenças ou estilo de vida. 2. ORIGEM DO POVO RIBEIRINHO 2.1. Origem bíblica É necessário admitir que ribeirinhos existem em todo o mundo e que existiram em todas as épocas (as civilizações antigas viviam as margens dos rios ou a procura das mesmas). Grande é a riqueza apresentada sobre o assunto “os Ribeirinhos na Bíblia”, assunto que vai desde Gênesis até Apocalipse, e ainda mais, até o céu do Senhor Nosso Deus, pois é dito que no céu há um rio que jorra do trono de Deus. As Escrituras nos mostram que o povo de Deus por certas fases da sua história viveram como nômades as margens dos rios, mares e próximo de poços, e não somente ele, mas também outros povos. Os termos bíblicos aparecem com tantas diversidades que tomamos como exemplos as palavras e às vezes que elas aparecem na Bíblia: “água(s)” aparecem 612 vezes, a palavra “ribeiro(s)” 65 vezes, a palavra “rio(s)” 152 vezes, a palavra “mar (es)” 387 vezes, mostrando com isto o suporte necessário para dizermos que Deus ao revelar sua Palavra deu a devida importância para as pessoas que dependem da natureza para sua sobrevivência. Já em Gênesis, vemos o Senhor Nosso Deus criando animais para serem habitantes destas águas mesmo antes da criação do homem, e que mesmo depois da criação deste, vemos a utilização dos benefícios dos animais para matar fome e das águas para saciar a sede. Olhando para o Novo Testamento, podemos dizer que até o Senhor Jesus Cristo usufruiu da natureza, comendo peixes e fazendo milagres para alimentar multidões. Peregrinações pelos desertos, sim, mas sempre cruzando águas (rios, mares e em proximidades de poços), pois a água era e continua sendo indispensável para manutenção da vida das pessoas. Poderemos citar que na palestina e em toda a sua cercania, vários nomes de rios e mares são encontrados relacionados na Bíblia, são alguns deles: Rios: Tigre, Eufrates, Giom, Pisom, Jordão, Nilo, Belus, Besor, Arnom, Orontes, Litane, Jarmuque, Quisom, Jarcom, Jaboque, Zerede. Mares: Grande Mar (Mar Mediterrâneo), Morto, Da Galiléia (ou Tiberíades, ou Lago de Genesaré, ou Quinérete), Vermelho, Negro, Cáspio, Egeu. Na criação do Éden o Deus criador colocou um rio que se dividia em quatro braços com características também de rio, recebendo então os seus nomes: o primeiro Pisom, o segundo Giom, o terceiro Tigre e o quarto Eufrates. Estes são os primeiros rios relatados nas Escrituras, como prova de que foi Deus quem deu a terra estas maravilhas. A criação dos peixes para os mares, bem como a ordenança de serem fecundos e multiplicarem, comprova-se pelo fato de que até hoje temos peixes de várias espécies e quantidades: pirarucu, matrinchã, botos, piranhas, pacu, pescada, etc. Ao relacionar as cidades do passado nos tempos do Velho e Novo Testamento (época de escrita das Escrituras) aos acontecimentos dentro e fora das águas, nos deixam impressionados como 7
  8. 8. obtiveram influência e influenciaram entre si por meio delas. Fatos como a travessia do Mar Vermelho do povo de Deus, o batismo de Jesus nas águas do rio Jordão são relatos maravilhosos que a Bíblia nos dá como provas concretas da significação destas águas. Igualmente, as cidades que desde as sua formações às margens dos rios e mares obtiveram garantia de sua existência, como o Egito com o rio Nilo. 2.1.1.Adão O que sabemos é que Deus fez o homem e quando o fez colocou-o no jardim do Éden. Até hoje não se sabe com certeza onde ficava o jardim o Éden, uns dizem que era próximo ao Iraque e outros que era um pouco mais ao sul da Arábia, o que sabemos é que foi no Éden que surgiu o primeiro homem. Foi neste paraíso perfeito - como todas as coisas que Deus criou - que o homem foi colocado para habitar. Lá, em meio a uma grande biodiversidade, com inúmeras plantas e animais, ele poderia viver uma vida celestial mesmo estando na terra. Embora não saibamos como era a casa de Adão (e nem mesmo ser era necessário ter uma), sabemos que sua vida era muito simples e em ambiente camponês, com bom clima, muitos frutos, animais domesticados, harmonia e Shalom. Adão seguramente não tinha problemas de saúde e muito menos estresse, sua a vida provavelmente era muito parecida com a vida do povo ribeirinho, exceto pelo pecado. Outra coisa que não sabemos é onde Adão se encontrava quando Eva estava sendo tentada! Bom, saberemos na Glória... Imaginemos uma família amazonense, a esposa cuida das plantas e frutas enquanto o homem pesca e caça. Eva disse “Nós podemos comer dos frutos das árvores do jardim” (Gn 3.2) em resposta a pergunta da serpente sobre o que poderia servir de alimento no jardim, provavelmente Eva estava colhendo, será que Adão estava cuidando dos animas enquanto Eva cuidava das plantas? (é mais provável que ele estivesse cuidando dos animais do que caçando). A questão fluvial era muito comum, um Rio saia do Éden para regar o jardim e de lá se dividia em quatro braços, Adão morava às margens destes rios, portanto podemos pensar nele como o ribeirinho perfeito. As civilizações antigas se estabeleciam as margens dos rios pela importância das águas para a sobrevivência da humanidade, a importância das águas foi tão grande nos primórdios, que alguns povos consideravam a água sagrada, podemos citar como exemplo os Egípcios, que viviam nas margens do Rio Nilo (usufruíam de suas vazantes e cheias) e o consideravam um deus. 2.1.2.Pai Abraão Vamos ver alguns versículos: Gn 2:10-14; 36:37 Abrão que significa “pai exaltado” ou “pai das alturas” teve seu nome mudado para Abraão, que significa “pai de uma multidão”. Ele que é pai dos semitas e pai na fé de todos os verdadeiros cristãos, viveu em Ur na Mesopotâmia (que significa entre rios). A Antropologia não conseguiu explicar de onde surgiram os sumérios, tudo o que se sabe é que eram eles que habitavam as terras de Ur no período patriarcal, assim é possível afirmar que Abraão é descendente deles. 8
  9. 9. Os sumérios eram de estatura baixa, cabeça levemente arredondada, olhos um pouco puxados. Eram construtores (construíram várias cidades entre elas Ur, Mibor e Lagaxi), tinham problemas de relacionamento (brigavam) entre si e entre as comunidades (alguma semelhança com os ribeirinhos?). Eram governados pelos pacxis, dedicavam-se a lavoura, a pesca, a caça e ao comércio, foram os primeiros a aproveitar as águas dos rios para a irrigação, além disso, trabalhavam com barro, eram politeístas e embora tivessem moeda utilizavam o escambo. Chamáxi e Lindoris (dois de seus deuses mais importantes) eram respectivamente: deus do sol e deus da chuva... Por que deus do sol e deus da chuva? O que eles eram? Agricultores, caçadores e pescadores. Eles assim como os ribeirinhos, tinham necessidade de conhecer as estações, a meteorologia, ainda que com sentido religioso. Um bom exemplo disso é o que ouvimos certa vez na comunidade do Caiozinho, estava relampejando muito, pensávamos que iria chover e o um ribeirinho, por nome Adonias disse: “estes relâmpagos são apenas para o tracajá sair”, muito embora não utilizem o termo desova dos quelônios, sabem com precisão o período de tempo em que isso ocorre... Outra vez, estávamos no novo remanso e alguém disse: ‘‘corram vai chover, vamos embora!”, momentos depois Tcuhhh! A chuva chegou rápido, os ribeirinhos estavam acostumados com o barulho e as nuvens carregadas. Na viagem de Abraão a terra prometida ele percorreu os rios da Mesopotâmia – como mostra a Bíblia, no mapa abaixo - a região está situada entre o mar Negro e o Golfo Pérsico, os Rio Eufrates e Tigre, os quais começam ao lado das montanhas da Armênia, são paralelos desde o nascente até a costa e deságuam no Golfo Pérsico. Na época em que Abraão percorreu os rios, eles desaguavam separadamente, mas hoje se unem antes de desaguar no mar, o espetáculo da junção desses dois rios chama-se Chatulos. 2.1.3.Os Judeus. 9
  10. 10. Os Judeus por sua vez receberam por promessa os rios (Gn 15. 18) “Naquele mesmo dia fez o Senhor um pacto com Abrão, dizendo: À tua descendência tenho dado esta terra, desde o [rio] do Egito até o grande rio Eufrates”. Quando José foi escolher a terra para seus irmãos orientou-lhes que respondessem ao Faraó, quando este perguntasse qual era o negócio deles (Gn 46: 31-34): “respondereis: Nós, teus servos, temos sido pastores de gado desde a nossa mocidade até agora, tanto nós como nossos pais. Isso dirá para que habiteis na terra de Gósen; porque todo pastor de ovelhas é abominação para os egípcios”. E em Gen 47:11, vemos que: “ José, pois, estabeleceu a seu pai e seus irmãos, dando-lhes possessão na terra do Egito, no melhor da terra, na terra de Ramessés, como Faraó ordenara. A melhor terra para os Judeus era a terra de igarapés”, portanto se considerarmos que o homem é ribeirinho por natureza, pensaremos de forma ribeirinha e entenderemos o que é morar as margem do Jordão e atravessar o mar vermelho. 2.1.3. Ribeirinhos no Novo Testamento Veremos uma infinidade de versículos relacionando o povo a rios, mar, beira, peixe, carpintaria e afins, mostrando assim que a vida no novo testamento, apesar de ser mais politizada, era camponesa e comunitária, e o povo precisava viver as margens dos rios. Marcos 6: 33: “Porém, muitas pessoas os viram sair e os reconheceram. De todos os povoados, muitos correram pela margem e chegaram lá antes deles”. 10
  11. 11. Apocalipse 22:2 “e que passa no meio da rua principal da cidade. Em cada lado do rio está a árvore da vida, que dá doze frutas por ano, isto é, uma por mês. E as suas folhas servem para curar as nações”. Mateus 13: 47: “O reino dos céus é ainda semelhante a uma rede que, lançada ao mar, recolhe peixes de toda espécie”. Jesus sendo o vigia dos pescadores, dizendo onde esta o cardume. Mateus 14: 17: “Mas eles responderam: Não temos aqui senão cinco pães e dois peixes”. Mateus 14: 19: “E, tendo mandado que a multidão se assentasse sobre a relva, tomando os cinco pães e os dois peixes, erguendo os olhos ao céu, os abençoou. Depois, tendo partido os pães, deu-os aos discípulos, e estes, às multidões”. Mateus 15: 36: “tomou os sete pães e os peixes, e, dando graças, partiu, e deu aos discípulos, e estes, ao povo”. Marcos 6: 38: “E ele lhes disse: Quantos pães tendes? Ide ver! E, sabendo -o eles, responderam: Cinco pães e dois peixes”. Marcos 6: 41: “Tomando ele os cinco pães e os dois peixes, erguendo os olhos ao céu, os abençoou; e, partindo os pães, deu-os aos discípulos para que os distribuíssem; e por todos repartiu também os dois peixes”. Lucas 5:6: “Isto fazendo, apanharam grande quantidade de peixes; e rompia-se-lhes as redes”. Lucas 9: 13: “Ele, porém, lhes disse: Dai-lhes vós mesmos de comer. Responderam eles: Não temos mais que cinco pães e dois peixes, salvo se nós mesmos formos comprar comida para todo este povo”. Lucas 9: 16: “E, tomando os cinco pães e os dois peixes, erguendo os olhos para o céu, os abençoou, partiu e deu aos discípulos para que os distribuíssem entre o povo”. João 6: 11: “Então, Jesus tomou os pães e, tendo dado graças, distribuiu-os entre eles; e também igualmente os peixes, quanto queriam”. João 21: 6: “Então, lhes disse: Lançai a rede à direita do barco e achareis. Assim fizeram e já não podiam puxar a rede, tão grande era a quantidade de peixes”. João 21:8: “mas os outros discípulos vieram no barquinho puxando a rede com os peixes; porque não estavam distantes da terra senão quase duzentos côvados”. João 21:9: “Ao saltarem em terra, viram ali umas brasas e, em cima, peixes; e havia também pão”. Provavelmente Jesus tenha pescado este dia. João 21: 10: “Disse-lhes Jesus: Trazei alguns dos peixes que acabastes de apanhar”. João 21: 11: “Simão Pedro entrou no barco e arrastou a rede para a terra, cheia de cento e cinquenta e três grandes peixes; e, não obstante serem tantos, a rede não se rompeu”. 1 Coríntios 15:39: “Nem toda carne é a mesma; porém uma é a carne dos homens, outra, a dos animais, outra, a das aves, e outra, a dos peixes”. Apocalipse 22: 17: “O Espírito e a noiva dizem: Vem! Aquele que ouve, diga: Vem! Aquele que tem sede venha, e quem quiser receba de graça a água da vida”. Mateus 4: 13: “e, deixando Nazaré, foi morar em Cafarnaum, situada à beira-mar, nos confins de Zebulom e Naftali”. A eterna procura pelas águas: Mateus 4: 15: “Terra de Zebulom, terra de Naftali, caminho do mar, além do Jordão, Galiléia dos gentios!”. 11
  12. 12. Mateus 4: 18: “Caminhando junto ao mar da Galiléia, viu dois irmãos, Simão, chamado Pedro, e André, que lançavam as redes ao mar, porque eram pescadores”. Pescadores como a maioria dos ribeirinhos. Mateus 8: 24: “E eis que sobreveio no mar uma grande tempestade, de sorte que o barco era varrido pelas ondas. Entretanto, Jesus dormia”. Mateus 8: 26: “Perguntou-lhes, então, Jesus: Por que sois tímidos, homens de pequena fé? E, levantando-se, repreendeu os ventos e o mar; e fez-se grande bonança”. Banzeiro e temporal. Mateus 8: 27: ”E maravilharam-se os homens, dizendo: Quem é este que até os ventos e o mar lhe obedecem?”. Admiração pela força do vento e das águas, relacionando tais forças com o sobrenatural. Mateus 13:1: “Naquele mesmo dia, saindo Jesus de casa, assentou-se à beira-mar”. Mar, aqui é a baia de Galiléia, Jesus soube que é ser ribeirinho, pois Ele se fez um. Mateus 13: 47: “O reino dos céus é ainda semelhante a uma rede que, lançada ao mar, recolhe peixes de toda espécie”. Mateus 14: 25: “Na quarta vigília da noite, foi Jesus ter com eles, andando por sobre o mar”. Os Discípulos tem medo de fantasma, como os ribeirinhos de misura. Mateus 15: 29: “Partindo Jesus dali, foi para junto do mar da Galiléia; e, subindo ao monte, assentou-se ali”. Marcos 1: 16: “Caminhando junto ao mar da Galiléia, viu os irmãos Simão e André, que lançavam a rede ao mar”. Porque eram pescadores. Marcos 2: 13: “De novo, saiu Jesus para junto do mar, e toda a multidão vinha ao seu encontro, e ele os ensinava”. Marcos 3:7: “Retirou-se Jesus com os seus discípulos para os lados do mar. Seguia-o da Galiléia uma grande multidão. Também da Judéia”. Marcos 4:1: “Voltou Jesus a ensinar à beira-mar. E reuniu-se numerosa multidão a ele, de modo que entrou num barco, onde se assentou, afastando-se da praia. E todo o povo estava à beira-mar, na praia”. Lucas 21: 25: “Haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas; sobre a terra, angústia entre as nações em perplexidade por causa do bramido do mar e das ondas”. João 6:1: “Depois destas coisas, atravessou Jesus o mar da Galiléia, que é o de Tiberíades”. João 6: 16: “Ao descambar o dia, os seus discípulos desceram para o mar”. Navegavam a remo e a vela, não tinha motores. João 6: 18: “E o mar começava a empolar-se, agitado por vento rijo que soprava”. Banzeiro João 6: 22: "No dia seguinte, a multidão que estava do outro lado do mar, vendo que não havia ali mais do que um barquinho, a não ser aquele no qual os discípulos haviam entrado, e que Jesus não entrara com os seus discípulos naquele barquinho, mas que os seus discípulos tinham ido sozinhos”. João 21:7: “Aquele discípulo a quem Jesus amava disse a Pedro: É o Senhor! Simão Pedro, ouvindo que era o Senhor, cingiu-se com sua veste, porque se havia despido, e lançou-se ao mar”. Nadavam bem. Atos 4: 24: “Ouvindo isto, unânimes, levantaram a voz a Deus e disseram: Tu, Soberano Senhor, que fizeste o céu, a terra, o mar e tudo o que neles há”. Atos 7: 36: “Este os tirou, fazendo prodígios e sinais na terra do Egito, assim como no mar Vermelho e no deserto, durante quarenta anos”. Atos 10:6: “Ele está hospedado com Simão, curtidor, cuja residência está situada à beira-mar”. 12
  13. 13. Atos 10: 32: “Manda, pois, alguém a Jope a chamar Simão, por sobrenome Pedro; acha-se este hospedado em casa de Simão, curtidor, à beira-mar”. Atos 27:2: “Embarcando num navio adramitino, que estava de partida para costear a Ásia, fizemo-nos ao mar, indo conosco Aristarco, macedônio de Tessalônica”. Atos 27:5: “e, tendo atravessado o mar ao longo da Cilícia e Panfília, chegamos a Mirra, na Lícia”. Atos 27: 19: “E, ao terceiro dia, nós mesmos, com as próprias mãos, lançamos ao mar a armação do navio”. Atos 27: 27: “Quando chegou a décima quarta noite, sendo nós batidos de um lado para outro no mar Adriático, por volta da meia-noite, pressentiram os marinheiros que se aproximavam de alguma terra”. Naufrágio. 2 Coríntios 11: 25: "fui três vezes fustigado com varas; uma vez, apedrejado; em naufrágio, três vezes; uma noite e um dia passei na voragem do mar”. Atos 28: 4: “Quando os bárbaros viram a víbora pendente da mão dele, disseram uns aos outros: Certamente, este homem é assassino, porque, salvo do mar, a Justiça não o deixa viver”. Refere-se à maldição. Apocalipse 4: 6: “Há diante do trono um como que mar de vidro, semelhante ao cristal, e também, no meio do trono e à volta do trono, quatro seres viventes cheios de olhos por diante e por detrás”. Apocalipse 5: 13: “Então, ouvi que toda criatura que há no céu e sobre a terra, debaixo da terra e sobre o mar, e tudo o que neles há, estava dizendo: Àquele que está sentado no trono e ao Cordeiro, seja o louvor, e a honra, e a glória, e o domínio pelos séculos dos séculos”. Apocalipse 14:7: “dizendo, em grande voz: Temei a Deus e dai-lhe glória, pois é chegada a hora do seu juízo; e adorai aquele que fez o céu, e a terra, e o mar, e as fontes das águas”. Mateus 3:6: “e eram por ele batizados no rio Jordão, confessando os seus pecados”. Marcos 1:5: “Saíam a ter com ele toda a província da Judéia e todos os habitantes de Jerusalém; e, confessando os seus pecados, eram batizados por ele no rio Jordão”. Marcos 1:9: “Naqueles dias, veio Jesus de Nazaré da Galiléia e por João foi batizado no rio Jordão”. Jesus vai ao encontro do pregador ribeirinho. Lucas 6: 48: “É semelhante a um homem que, edificando uma casa, cavou, abriu profunda vala e lançou o alicerce sobre a rocha; e, vindo à enchente, arrojou-se o rio contra aquela casa e não a pôde abalar, por ter sido bem construída”. Construção de casa que enfrente as questões climáticas e as cheias do rio. Atos 16: 13: “No sábado, saímos da cidade para junto do rio, onde nos pareceu haver um lugar de oração; e, assentando-nos, falamos às mulheres que para ali tinham concorrido”. Paulo evangeliza a ribeirinha Lídia. Apocalipse 16: 12: “Derramou o sexto a sua taça sobre o grande rio Eufrates, cujas águas secaram, para que se preparasse o caminho dos reis que vêm do lado do nascimento do sol”. Seca é maldição. Apocalipse 22:1: “Então, me mostrou o rio da água da vida, brilhante como cristal, que sai do trono de Deus e do Cordeiro”. No céu seremos ribeirinhos. Apocalipse 22:2: “No meio da sua praça, de uma e outra margem do rio, está à árvore da vida, que produz doze frutos, dando o seu fruto de mês em mês, e as folhas da árvore são para a cura dos povos”. 13
  14. 14. João 7: 38: “Quem crer em mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva”. Os crentes verdadeiros fazem parte deste rio vivo. 2 Coríntios 11:26: “em jornadas, muitas vezes; em perigos de rios, em perigos de salteadores, em perigos entre patrícios, em perigos entre gentios, em perigos na cidade, em perigos no deserto, em perigos no mar, em perigos entre falsos irmãos”. Navegação. Apocalipse 16:4: “Derramou o terceiro a sua taça nos rios e nas fontes das águas, e se tornaram em sangue”. Mateus 4: 18: “Caminhando junto ao mar da Galiléia, viu dois irmãos, Simão, chamado Pedro, e André, que lançavam as redes ao mar”. Porque eram pescadores. Mateus 15: 29: “Partindo Jesus dali, foi para junto do mar da Galiléia; e, subindo ao monte, assentou-se ali”. 2.2. Origem no Amazonas Há várias teorias sobre o surgimento do homem na Amazônia, as três mais aceitas segundo o estudioso Paul Rivet são as procedências Asiática, Malaio-Polinésia e Australiana. 14
  15. 15. 2.2.1.Colonização do Amazonas Pelo tratado de Tordesilhas toda faixa litorânea no Brasil, que se estende desde as cidades de Belém (Pará) até Laguna (Santa Catarina), pertenciam a Portugal. O restante do Brasil, incluindo a região onde hoje está localizado o estado do Amazonas, pertencia à Espanha. Esse tratado ficou conhecido como Tratado de Tordesilhas, por ter sido assinado na cidade de Tordesilhas. Os europeus dividiram as novas terras descobertas, desconsiderando totalmente a organização dos povos que viviam na região e que possuíam a sua própria divisão territorial. Isso ocorreu porque o homem europeu no século XV era eurocêntrico, ou seja, acreditava que sua cultura era superior a de todas as outras. É devido a essa divisão das terras entre Portugal e Espanha que verificamos que as primeiras expedições ao Amazonas foram espanholas Entre 1580 – 1640, em virtude de aspectos sociais e políticos, somados a morte do Rei de Portugal D. Henrique, Portugal foi anexado a Espanha e aproveitou-se disso para expandir seu território no Brasil e no Amazonas para muito além de seus limites anteriormente estabelecidos no Tratado de Tordesilhas. Durante todo o século XVI os portugueses praticamente abandonaram o Amazonas, isto se deveu principalmente à grande distância entre o extremo norte do Brasil e os principais centros de colonização na época: Pernambuco e Bahia, mesmo a presença espanhola na região foi esporádica e apenas se registra a presença de algumas expedições exploradoras a serviço da Espanha, porém, depois da expulsão dos franceses do Maranhão fazia-se necessário à conquista do Amazonas, para tanto foi preciso expulsar ingleses e holandeses ali sediados. Os ingleses e holandeses foram, efetivamente, os primeiros ocupantes e exploradores das riquezas minerais do Amazonas, as chamadas drogas do sertão, eles iniciaram suas investidas de colonização no final do século XVI, fundando algumas feitorias e organizando fazendas para cultivar alguns produtos, inclusive cana-de-açúcar e tabaco. O cultivo desses produtos, embora pequeno, é prova incontestável da intenção daqueles estrangeiros em se fixar no Amazonas, na escalada para o norte os luso-espanhóis fundaram em 1616, no Pará, o Forte do Presépio, atual Belém, e em 1632 expulsaram definitivamente os invasores. 15
  16. 16. Cinco anos depois da expulsão definitiva dos holandeses, ingleses e seus aliados, organizou-se uma expedição exploradora, comandada por Pedro Teixeira e composta de mais de 2.000 pessoas. Essa expedição chegou até Quito, no Equador, e seu comandante fundou o núcleo urbano de Franciscano, limite entre Portugal e Espanha ao alto sertão amazonense. A colonização chegara finalmente ao extremo norte. Em 1637, o português Pedro Teixeira parte da foz do rio Amazonas e chega até Quito, no Equador, para favorecer as entradas no território, em 1671, Francisco da Mota Galvão constrói o Forte de São José do Rio Negro, origem da cidade de Manaus. As disputas com a Espanha terminam com o Tratado de Madri, que em 1750 dá a Portugal a posse definitiva da região. Em 1822 a região foi incorporada ao Pará e no rastro dos movimentos nativistas, que ocorreram em 1832 foi palco de uma revolta popular em prol da independência. A rebelião foi reprimida pelas tropas imperiais, mas, em 1850, Dom Pedro II criou a província do Amazonas. Nos primeiros anos do séc. XIX, o ciclo da borracha trouxe muita riqueza para a região, no entanto, a decadência econômica vem logo em seguida, graças à concorrência no mercado internacional da produção saída dos seringais das colônias inglesas e holandesas no Oriente. A partir de 1950, o Estado retoma lentamente o crescimento, por meio de incentivos federais e da criação da Zona Franca de Manaus, em 1967. 2.2.2.A mão de obra indígena e as disputas entre religiosos e colonos A maior parte das tarefas extrativas cabia aos nativos. Entretanto, recrutar esta mão de obra não era tarefa simples, no Vale Amazônico, ela podia ser obtida, algumas vezes, por incursões armadas contra as tribos consideradas hostis aos portugueses... Mais frequentemente, pelas chamadas "tropas de resgate": expedições que pretendiam resgatar os nativos que estivessem real, ou presumidamente, escravizados por outros, para justificar o apressamento, nestas duas situações, exigia-se a decretação pelas autoridades locais da chamada “Guerra Justa”. Os índios aprisionados em combate seriam cativos perpétuos, enquanto que os "resgatados" obteriam a liberdade após dez anos. Outra forma de captura era os "descimentos", ou seja, expedições nas quais os índios, tidos pelos religiosos como "bravos", eram conduzidos para serem aldeados. Isto significava receber os ensinamentos da fé cristã e habituar-se ao trabalho sedentário. Nas missões religiosas localizadas no Vale Amazônico os nativos vistos como fiéis eram aculturados e doutrinados sob a vigilante proteção dos jesuítas. Desta forma desestruturavam-se os valores, os hábitos e os costumes dos nativos. Relatos da época revelam como o contato destes grupos com o europeu comprometeu, além da sua identidade cultural, sua integridade física, pois eram atingidos por doenças contra as quais não tinham defesas ou imunidades. Muitas vezes as tribos eram deslocadas do interior, pelos missionários, em longas caminhadas, para serem aldeadas perto das vilas. Outras narrativas descrevem que, durante o trajeto, as crianças padeciam especialmente, mas (...) "como já fossem batizadas, os padres exultavam; eram tantas almas ganhas para o céu". Dentro do vasto território que compreendia o Estado do Maranhão, além do Vale Amazônico, onde predominava a atividade extrativa, existia a capitania do Maranhão, potencialmente agrícola, sobrevivendo já a algum tempo da lavoura de subsistência, de algum açúcar e de gado. Ainda no decorrer do século XVII iniciou-se ali a produção do tabaco e do algodão. 16
  17. 17. Entretanto os proprietários enfrentavam dificuldades para obter a mão de obra necessária. Como os recursos destinados à compra dos escravos africanos não eram suficientes para garantir um abastecimento regular, os colonos justificavam e persistiam no apressamento e na escravização dos indígenas. Esta atitude gerava desentendimentos com os missionários, especialmente os jesuítas que, em 1665, conseguiram um Alvará Régio que colocava os índios da região sob a sua autoridade exclusiva. Os protestos dos colonos se espalharam. Entre 1660 e 1661, em São Luís e Belém, ocorreram revoltas contra os jesuítas. Os conflitos prosseguiram sem solução nas décadas seguintes, a situação agravava-se pela disputa entre as ordens religiosas, e pela pobreza da população do Estado do Maranhão, a falta de uma moeda circulante também contribuía para aumentar a crise. Na época, naquela região, sementes de cacau e novelos de algodão chegavam a ser utilizados com tal finalidade. A Lei de 1º de abril de 1680 determinou a abolição da escravidão indígena, sem qualquer exceção, delimitando, mais adiante, as respectivas áreas de atuação das diversas ordens religiosas. Neste embate, que envolvia o indígena, teve relevo à ação desenvolvida pelo padre Antonio Vieira (1608 / 1697), que na década de 1650, sendo o superior das missões jesuíticas do Estado do Maranhão, implantou as bases do trabalho missionário como batizar, pregar, educar nos padrões da cultura portuguesa e das regras estabelecidas pelo Concílio de Trento (1545 / 1563). O governo português, tentando contornar os problemas decorrentes da proibição da escravidão dos indígenas optou pela criação, em 1682, de uma companhia que teria, durante vinte anos, o monopólio comercial da região. A Companhia Geral de Comércio do Estado do Maranhão possuía o direito exclusivo de comercialização dos produtos locais. Competia a ela, também, a importação de produtos como o vinho, o azeite de oliva, tecidos etc. Por outro lado, na tentativa de resolver o problema da mão de obra escrava para abastecer a região, a Companhia deveria fornecer 10 mil escravos africanos, numa média de 500 por ano, a preço fixo. Os comerciantes locais sentiam-se prejudicados por esse monopólio da Companhia. Os proprietários rurais entendiam que o preço oferecido pelos seus produtos era insuficiente. Os apresadores de índios, contrariados, reclamavam da aplicação das leis que proibiam a escravidão dos nativos. A população, em geral, protestava contra a irregularidade do abastecimento e dos altos preços de produtos como tecidos, bebidas e alimentos muitas vezes estragados. 2.2.3.A ação dos Jesuítas: Catequese e Aldeamentos Nos aldeamentos jesuíticos os índios eram educados para viver como cristãos. Essa educação significava uma imposição forçada de outra cultura, a cristã. Os jesuítas valia-se de aspectos da cultura nativa, especialmente a língua, para fazerem-se compreender e aproximarem-se mais dos indígenas. Esta ação incrementava a destribalização e violentava aspectos fundamentais da vida e da mentalidade dos nativos (como o trabalho na lavoura, atividade que consideravam exclusivamente femininas). Do ponto de vista dos jesuítas, a destruição da cultura indígena simbolizava o sucesso dos aldeamentos e da política metropolitana inspirada por eles. Os religiosos argumentavam que as aldeias não só protegiam os nativos da escravidão e facilitavam sua conversão, mas também forneciam uma força militar auxiliar para ser usada contra tribos hostis, intrusos estrangeiros e escravos bêbados. Entretanto, os efeitos dessa política eram tão agressivos e aniquiladores da identidade nativa que, não raro, os índios preferiam trabalhar com os colonos, apesar de serem atividades mais rigorosas, pois estes pouco se envolviam com seus valores, deixando-os mais livres. 17
  18. 18. 2.2.4.A Escravidão Indígena De modo a inserir o índio no processo de colonização os portugueses recorreram a três métodos. O primeiro consistia na escravização pura e simples, na base da força, empregada normalmente pelos colonos. O outro criava um campesinato indígena por meio da aculturação e destribalização, praticadas primeiramente pelos jesuítas, e depois pelas demais ordens religiosas. O terceiro buscava a integração gradual do índio como trabalhador assalariado, medida adotada tanto por leigos como pelos religiosos. Durante todo o século XVI e início do XVII os portugueses aplicaram simultaneamente esses métodos. Naquele momento consideravam a mão de obra indígena indispensável aos negócios açucareiros. A Coroa portuguesa ficava dividida. Considerando os indígenas como súditos, era legal e moralmente inaceitável escravizá-los, mas a realidade ditava-lhe essa necessidade. O valor da Colônia centrava-se, cada vez mais, na grande produção açucareira, e esta, para ser lucrativa, exigia um grande contingente de trabalhadores escravos. Como no Brasil havia grande possibilidade de utilizar o indígena como mão de obra, e os senhores de engenho não dispunham de recursos suficientes para importar africanos, a melhor opção era mesmo usá-la. Assim, a Coroa portuguesa, apesar de ter começado a criar em 1570, uma legislação para proibir a escravização indígena, deixou suficientes brechas na lei para não extingui-la de vez, o que afetaria a produção açucareira e, consequentemente, reduziria seus lucros. O período de 1540 até 1570 marcou o apogeu da escravidão indígena nos engenhos brasileiros, especialmente naqueles localizados em Pernambuco e na Bahia. Nessas capitanias os colonos conseguiam escravos índios roubando-os de tribos que os tinham aprisionado em suas guerras e, também, atacando as próprias tribos aliadas. Essas incursões às tribos, conhecidas como "saltos", foram consideradas ilegais, tanto pelos jesuítas como pela Coroa, mas o interesse econômico falou mais alto e, dessa forma, fazia-se vista grossa às investidas. O regime de trabalho nos canaviais era árduo. Os jesuítas pressionaram a Coroa e conseguiram que os senhores dessem folga aos índios aos domingos, com o objetivo de que assistissem à missa, mas, esgotados pelo ritmo de trabalho, eles preferiam descansar ou ir caçar e pescar, como forma de suplementar sua alimentação. Muitos senhores não atenderam a essa determinação régia e os índios continuaram trabalhando aos domingos e dias santos. Tentando resolver essa situação, os jesuítas intensificaram as ações contra a escravidão, promovendo intenso programa de catequização nos pequenos povoados e aldeias da região. 3. ANTROPOLOGIA TEOLÓGICA DOS RIBEIRINHOS A Palavra “CABOCLO” é de origem indígena e seu significado é: tirado ou procedente da mata. Este é um termo comum no Brasil, onde temos vários tipos de caboclos, em nosso estudo trataremos os ribeirinhos sob o aspecto de caboclo. 3.1. Características físicas 18
  19. 19. Homem planiciário, morfofísico-psicológico mongilico, o tipo asiático-mongólico. Com menos de um metro e setenta, ombros largos, pouca barba, cabelos lisos e pretos ou castanhos escuros, pernas curtas, pés pequenos, braços e mãos fortes, crânio médio, um pouco chato, entre branquicefalo e mesocéfalo. O homem da era glacial, as mandíbulas inferiores são volumosas, ossudo, órbitas grandes, sinais esses muito comuns, encontrados nos tipos asiático-mongólicos. Tipo parecido com o povo da mesopotâmia, os sumérios, grosso de mãos e pés pequenos. Tem o coração bem formado. A vida sedentária da canoa estreita um pouco os quadris e o remo desenvolve o corpo da cintura para cima. Esse homem é baixo, porque o seu maior trabalho é remar. Podemos dizer que as mulheres amazônicas são mais altas que os homens, simplesmente por trabalharem em roças mais do que os homens. A mulher é roceira. O caboclo e o nordestino formam dois tipos que se fundem, se assemelham, se entrosam, se impetram quase com os mesmos hábitos, costumes, tradições, rotina. A mulher acompanha como esposa ou como companheira do caboclo, o qual é um pouco nômade. O homem da Amazônia é um herói, um forte, sob todos os pontos de vista. Na trama de seu biótipo, na amalgama de seu tipo, na mestiçagem de seu todo, ele traz qualidades admiráveis. O caboclo surgiu da miscigenação entre brancos, nordestinos, ingleses, índios, mulatos, sírios, japoneses, libaneses e etc. 3.2. Diferenças entre Ribeirinhos 3.2.1. Diferenciação por ascendência: 1. Ribeirinhos Indígenas – Índios que por algum motivo saíram da aldeia e foram morar às margens dos rios, os filhos dos índios nos aldeamentos fazem parte deste grupo. Têm aspecto físico de índios. 2. Ribeirinhos Mamelucos – São aqueles que descendem da mistura do europeu com o índio, sem identidade cultural formaram vilas ao longo dos rios. 3. Ribeirinhos Arigós – Nordestinos que vieram em busca de trabalho e que ao término do mesmo (ex. borracha) permaneceram morando nas comunidades às margens dos rios por opção, ou por não possuírem recursos financeiros suficientes para retornarem a sua terra natal. 4. Ribeirinhos Migrantes – Aqueles que vieram de outras regiões do Brasil e por variados motivos optaram por morar às margens dos rios. 3.1.2.Diferenciação por região: Os Ribeirinhos do Rio Negro diferem muito dos ribeirinhos do Rio Solimões. O Ribeirinho do Rio Negro vive basicamente da caça e pesca, não costuma armazenar nem fazer plantio. Alguns fatores contribuem para isto, como por exemplo, o tipo de solo. O Rio Negro, por ser muito ácido, de leito definido e arenoso, não tem vegetação, há predominância de peixes predadores e não é um rio de grandes peixes. O Ribeirinho do Rio Solimões trabalha muito na agricultura ou pecuária. 19
  20. 20. 3.2. Hábitos e Crenças 3.2.1.Hábitos Alimentares A culinária típica do Amazonas também é bastante diversificada. Os pratos mais famosos são: A Caldeirada; O Arabu, pirão de ovos de tartaruga (ou outro quelônio) com farinha e açúcar; A farofa feita no casco da tartaruga, servida com prato de tartaruga; A Maniçoba, pirão de farinha de mandioca, que se come com cozido; O Pacicá, quitute preparado com os miúdos da tartaruga, temperados e cozidos no próprio casco; O peito de forno, um picado de tartaruga temperado com limão, sal e pimenta; O tacacá, papa de goma que se junta ao tucupi, que é por sua vez, um dos molhos tradicionais da Amazônia. A alimentação não depende de horário e sim da fome e do que se tem para comer. Quando se tem muito, come-se muito, quando não se tem nada, nada se come, quando não têm alimentos suficientes, optam por algo mais simples como um açaí ou tucumã. Eles não têm hábitos alimentares complexos, faz parte de suas refeições um simples caldo ou cará cozido. Apreciam e comem bastante pimenta, que é rica em vitamina A e C. A farinha é um alimento fundamental, sem ele à mesa é como se a refeição estivesse incompleta, consomem a farinha pura ou misturada a outros alimentos e durante as refeições, como complemento a carne branca ou vermelha, é consumida também sob a forma de bolinhos fritos e de chibé (mistura de água fria com farinha), por ser considerada fundamental é quase impossível e de certa forma, é até mesmo errado tentar substituí-la (embora não seja muito nutritiva, é bem mais nutritiva que o trigo branco usado nas capitais). Os ribeirinhos aproveitam também os frutos da terra, os quais são ricos em diversos tipos de vitaminas, gostam também de café e de aguardente. Num retiro de jovens fomos à praia e comemos peixe com farinha, empatia pura, eles adoram. Em um dos nossos congressos em Manaus, o Joãozinho da comunidade Bela Vista, teve a oportunidade de falar sobre o congresso e disse: ‘‘Tudo aqui foi muito bom, só uma coisa, a comida de casa é melhor ’’, em uma outra ocasião, decidimos fazer uma festa para as crianças ribeirinhas, e servimos macarronada com muitas verduras... O que aconteceu? Elas simplesmente não comeram, mas se ao invés de macarronada tivéssemos optado por caldeirada, elas teriam comido tudo. 3.2.2.Crenças 3.2. Cultura Ribeirinha no Amazonas 3.3.1.Despovoamento Cultural No povoamento destas áreas houve um grande choque entre a cultura do homem nativo e a cultura europeia. Os europeus utilizaram-se da religião para fazer com que seus preceitos prevalecessem e muito embora o ribeirinho tivesse uma grande facilidade para se ajustar às novas culturas e assimilar o que outros povos pudessem trazer de bom, as constantes e massivas imposições europeias por uma mudança no estilo de vida deles, resultou em um verdadeiro despovoamento cultural. 20
  21. 21. Um aspecto interessando do ribeirinho é que quando decide fazer algo, ninguém consegue convencê-lo do contrário, se alguém argumenta, ele ouve e parece que concorda, mas voltará ao mesmo ponto e iniciará de novo a mesma investida como se nunca tal assunto houvesse sido tratado (é como se ele ouvisse, mas não escutasse), isso acontece porque para ele a argumentação não é lógica, o que o faz reagir de forma intuitiva e não empírica. Os Jesuítas criaram os aldeamentos com o fim de facilitar a subjugação do povo e com a desculpa de proteger. Os aldeamentos foram uma verdadeira agressão cultural, uma vez que eles levavam diferentes etnias para morarem juntas, o que fez com que perdessem seus laços familiares e culturais, pode-se afirmar que essas pessoas que perderam tudo, incluindo a língua materna foram catequizadas para servirem a coroa, e como não puderam reagir tornaram-se passivas. Esses aldeamentos eram sempre próximos das águas e formaram comunidades e futuras cidades. Em 1616 Iniciou-se a entrada de exploradores pela Amazônia a procura das especiarias e o desejo de colher cravo, canela, baunilha, salsaparrilha e etc., trouxe os primeiros seringueiros, que eram como coronéis de barranco. Os sítios, as fazendas, as rocinhas, as plantações, os portos de lenha, eram sempre próximos das águas, eles surgiram como núcleos de cidade, em quase todas as cidades do Brasil. Os habitantes do Alto e do Baixo Rio Negro, como os Baniuas, Passe, Mano, Marequenha, Aroaqui, Júri e alguns do Rio Solimões: Munducuru, Maué, Tupinambara, Maraguas, que ocupavam partes da chamada Mundurucania, abriam lutas tremendas contra os brancos. Nas paisagens dessas vilas, dessas primeiras comunidades, os aspectos sociais ficaram fixos na canoa, na casa de farinha, na casa da taipa coberta de palha, na rede, na panela de barro, no balde de cuia, no pote de argila crua, na engenhoca de pau, no pilão deitado, no jatica, na tarrafa e destacavam-se os tipos diversos e as influências das culturas indígenas e das culturas que os colonizadores traziam, as quais formam as bases de uma civilização em início. 3.3.2.Cultura geral e suas peculiaridades Todos os povos, mesmo os mais primitivos, tiveram e têm uma cultura, transmitida de geração a geração. Mitos, lendas, costumes, crenças religiosas, sistemas jurídicos e valores éticos refletem formas de agir, sentir e pensar de um povo e compõem seu patrimônio cultural. Em antropologia, a palavra cultura tem muitas definições. Kluckhohn diz: “Cultura é a totalidade do modo da vida das pessoas”; Spradley: “Cultura é o conhecimento adquirido que as pessoas têm da vida para contemplar e gerar comportamento” e Hibert: “Cultura é o sistema integrado de padrões de comportamento aprendidos, ideias e produtos que caracterizam uma sociedade”. A história da utilização antropológica do conceito de cultura tem origem em Tylor, que ensejou a oposição clássica entre natureza e cultura, na medida em que ele procurou definir as características diferenciadoras entre o homem e o animal a partir dos costumes, crenças e instituições, encarados como técnicas que possibilitam a vida social. Tal definição também marcou o início do uso inclusivo do termo, continuado dentro da tradição dos estudos antropológicos por Franz Boas e Bronislaw Malinowski, entre outros. Sobretudo na segunda metade do século XX, esse uso caracterizou-se pela ênfase dada à pluralidade de culturas locais, enfocadas como conjuntos organizados e em funcionamento, e pela perda de interesse na evolução dos costumes e instituições, preocupação dos antropólogos do século XIX. 21
  22. 22. Só o homem é portador de cultura; por isso, só ele a cria, a possui e a transmite. As sociedades animais e vegetais a desconhecem. É um complexo, porque forma um conjunto de elementos, inter-relacionados e interdependentes, que funcionam em harmonia na sociedade. Os hábitos, ideias, técnicas, compõem um conjunto, dentro do qual os diferentes membros de uma sociedade convivem e se relacionam. A organização da sociedade, como um elemento desse complexo, está relacionada com a organização econômica; os dois entre si relacionam-se igualmente com as ideias religiosas. O conjunto dessa inter-relação faz com que os membros de uma sociedade atuem em perfeita harmonia. A cultura é uma herança que o homem recebe ao nascer. Desde o momento em que é colocada no mundo, a criança começa a receber uma série de influências do grupo em que nasceu: as maneiras de alimentar-se, o vestuário, a cama ou a rede para dormir, a língua falada, a identificação de um pai e de uma mãe, e assim por diante. À proporção que vai crescendo, recebe novas influências desse mesmo grupo, de modo a integrá-la na sociedade, da qual participa como uma personalidade em função do papel que nela exerce. Se individualmente o homem age como reflexo de sua sociedade, faz aquilo que é normal e constante nessa sociedade. Quanto mais nela se integra, mais adquire novos hábitos, capazes de fazer com que se considere um membro dessa sociedade, agindo de acordo com padrões estabelecidos. Esses padrões são justamente a cultura da sociedade em que vive. A herança cultural não se confunde, porém, com a herança biológica. O homem ao nascer recebe essas duas heranças: a herança cultural lhe transmite hábitos e costumes, ao passo que a herança biológica lhe transmite as características físicas ou genéticas de seu grupo humano. Se uma criança, nascida numa sociedade bororo, é levada para o Rio de Janeiro, passando a ser criada por uma família de Copacabana, crescerá com todas as características físicas, cor da pele e do cabelo, forma do rosto, de seu grupo bororo. Todavia, adquirirá hábitos, costumes, língua, ideias, modos de agir da sociedade carioca, na qual vive e é educado. Além desses hábitos e costumes que recebe de seu grupo, o homem vai ampliando seus horizontes, e passa a ter novos contatos: contatos com grupos diferentes em hábitos, costumes ou língua, os quais farão com que adquira alguns desses hábitos, ou costumes, ou modos de agir. Trata-se da aquisição pelo contato. Foi o que se verificou no Brasil do século XIX com hábitos introduzidos pelos imigrantes alemães ou italianos; o mesmo sucedeu em séculos anteriores, com costumes introduzidos pelos negros escravos trazidos da África. Tais costumes vão-se incorporando à sociedade e, com o tempo, são transmitidos como herança do próprio grupo. É certo que essa transmissão pelo contato não abrange toda a cultura do outro grupo. Somente alguns traços se transmitem e se incorporam à cultura receptora. Esta, por sua vez, se torna também doadora em relação à cultura introduzida, que incorpora a seus padrões hábitos ou costumes que até então lhe eram estranhos. É o processo de transculturação, ou seja, a troca recíproca de valores culturais, pois em todo contato de cultura as sociedades são ao mesmo tempo doadoras e receptoras. Dessa forma, o homem adquire novos elementos culturais, e enriquece seu tipo cultural. Esses elementos, que compõem o conceito de cultura, permitem mostrar que ela está ligada à vida do homem, de um lado, e, de outro, se encontra em estado dinâmico, não sendo estática sua permanência no grupo. A cultura se aperfeiçoa, se desenvolve, se modifica continuamente, nem sempre de maneira perceptível pelos membros do próprio grupo. É justamente isso que contribui para seu enriquecimento constante, por meio de novas criações da própria sociedade e ainda do que é adquirido de outros grupos. Assim, dentro do conceito geral de cultura, é possível falar de culturas e, por isso, se identificam sentidos específicos segundo os quais a cultura é antropologicamente considerada. São quatro, a saber: (1) a cultura entendida como modos de vida comuns a toda a humanidade; (2) a cultura entendida 22
  23. 23. como modos de vida peculiares a um grupo de sociedades com maior ou menor grau de interação; (3) a cultura entendida como padrões de comportamento peculiares a uma dada sociedade; (4) a cultura entendida como modos especiais de comportamento de segmentos de uma sociedade complexa. 3.3.3.Sentidos de Cultura O primeiro sentido apresenta aqueles elementos de cultura comuns a todos os seres humanos, como a linguagem (todos os homens falam, embora se diversifiquem os idiomas ou línguas faladas). São aqueles hábitos - o de dormir, o de comer, o de ter uma atividade econômica - que se tornam comuns a toda a humanidade. No segundo sentido, encontram-se os elementos comuns a um grupo de sociedades, como o vestuário chamado ocidental, que é comum a franceses, a portugueses e a ingleses. São diversas sociedades que têm o mesmo elemento cultural; um exemplo é o uso do inglês por habitantes da Inglaterra, da Austrália, da África do Sul, dos Estados Unidos, que, entre si, entretanto, têm valores culturais diferentes. O terceiro sentido é formado pelo conjunto de padrões de determinada sociedade, por exemplo, aqueles padrões culturais que caracterizam o comportamento da sociedade do Rio de Janeiro; ou as peculiaridades que assinalam os habitantes dos Estados Unidos. O quarto sentido de cultura refere-se à de modos especiais de comportamento de um segmento de sociedade mais complexa. Uma dada sociedade possui valores culturais comuns a todos os seus integrantes. Dentro, porém, dessa sociedade encontram-se elementos culturais restritos ou específicos de determinados grupos que a integram. São certos costumes que, por exemplo, dentro da sociedade multíplice do Rio de Janeiro, apresentam os habitantes de Copacabana, os de uma favela ou de um subúrbio distante. A esses segmentos culturais de uma sociedade complexa, dá-se também o nome de subcultura. São esses sentidos que permitem verificar a diferenciação de cultura entre os diversos grupos humanos. Tal diferenciação resulta de processos internos ou externos, uns e outros atuando de maneira diversa sobre o fenômeno cultural. Entre os processos internos, encontram-se as inovações, traduzidas em descobertas e invenções, que, às vezes, surgem em determinado grupo e depois se transmitem a outros grupos, não raro sofrendo modificações ao serem aceitas pela nova sociedade. Os processos externos explicam-se pela difusão: é a transmigração de um elemento cultural de uma sociedade a outra. Em alguns casos o elemento cultural mantém a mesma forma e função; em outros, modifica-as ou mantém apenas a forma e modifica a função. 3.3.4.A caracterização de Herskovits. Todos esses aspectos relacionados com o processo cultural de uma sociedade podem ser analisados à base de alguns princípios. De acordo com a caracterização de Melville Herskovits, a 23
  24. 24. cultura deriva de componentes da existência humana, é aprendida, estruturada, formada de elementos, dinâmica, variável, cumulativa, contínua e um instrumento de adaptação do homem ao ambiente. A cultura é derivada de componentes da existência humana, ou seja, origina-se de fatores ligados ao homem. São fatores ambientais, psicológicos, sociológicos e históricos, que contribuem para compor a cultura dentro de uma sociedade estudada. Ela é também aprendida, porque se verifica um processo de transmissão dos mais velhos - pessoas ou instituições - aos mais novos, à proporção que estes se vão incorporando a sua sociedade. São as chamadas linhas de transmissão, isto é, aqueles meios pelos quais se verifica a aprendizagem da cultura. A família, os companheiros de trabalho, os professores, o esporte, a igreja, a escola, são linhas de transmissão, ou seja, transmitem a cultura, que se torna assim aprendida pelos que se incorporam à sociedade. Do mesmo modo, a cultura é estruturada, pois tem uma forma ou estrutura que lhe dá estabilidade no respectivo grupo humano, sem prejuízo das possibilidades de mudança, que são imensas. É estruturada no sentido de que, compondo-se de diversos valores, mantém entre eles uma estruturação orgânica. Constituída de diferentes valores, a cultura forma os complexos que, unidos e inter-relacionados, dão o padrão cultural. A organização social, a língua usada, a organização política, a estética, as ideias religiosas, as técnicas, o sistema de ensino são alguns dos elementos existentes em uma sociedade. Esses elementos dão forma à cultura e a representam, em conjunto, de maneira a caracterizar a sociedade em que se manifestam. Não são iguais, porém, em todas as sociedades; daí a cultura ser variável. A cultura é também cumulativa; vão-se acumulando nela, em face da respectiva sociedade os elementos vindos de gerações anteriores, sem prejuízo das mudanças que se podem verificar no decorrer do tempo. Cada geração humana, em determinada sociedade, recebe os elementos vindos de seus antepassados, e ao mesmo tempo vai acolhendo novos elementos que se juntam àqueles. Por isso mesmo, a cultura é também contínua: vai além do indivíduo ou de uma geração, pois continua mesmo modificada, mas sem interromper sua permanência na sociedade a que pertence. É o continuum cultural que liga cada sociedade a suas raízes mais antigas. Se alguns valores se alteram, desaparecem e são substituídos por novos, outros se mantêm constantes, vivos, geração após geração. Essa continuidade cultural dá à sociedade sua estabilidade, pois apesar das revoluções, invasões, novos contatos com grupos diferentes, o fato é que a cultura permanece, e a sociedade prossegue em sua existência. Por fim, a cultura é um instrumento de adaptação do homem ao ambiente. É pelos valores culturais que o homem se integra ao seu meio. Primeiro, como indivíduo. Ao transformar-se em personalidade que se incorpora a seu grupo, vai adquirindo os hábitos, os usos e os costumes da sociedade a que pertence, de forma a adaptar-se inteiramente a ela. Aprende a língua que deve ser falada; adquire as noções de relações com os companheiros; aprende os mesmos jogos infantis e as mesmas atividades juvenis; adquire uma profissão que atende aos interesses da sociedade. Em segundo lugar, cria instrumentos ou concebe novas ideias, que o capacitam a adaptar-se melhor ao ambiente. 3.3.5.Classificações da cultura. Apesar de formar uma unidade devidamente estruturada, cumulativa e contínua, a cultura pode ser dividida. É o que se chama de classificação de cultura, isto é, a divisão dos valores culturais 24
  25. 25. exclusivamente por necessidade metodológica, ou para fins pedagógicos ou didáticos. Os elementos que integram uma cultura não dominam uns aos outros; unem-se e ajudam a compreender a cultura e seu funcionamento. A classificação ou divisão da cultura é apenas uma necessidade que têm os estudiosos para melhor apreciar os diferentes aspectos dessa cultura. Daí a própria variação dessas classificações ou divisões, em geral conforme as preferências ou pontos de vista em que se coloca cada autor. A mais antiga classificação se deve ao sociólogo americano William Fielding Ogburn, que em Social Change: With Respect to Culture and Original Nature (1922; Mudança social: referida à cultura e natureza original) dividiu a cultura em material e não material ou espiritual. A primeira compreenderia todos os elementos capazes de uma representação objetiva, em um objeto ou fato. A segunda seria tudo o que é criado pelo homem, como concepção ou ideia, nem sempre traduzido em objetos ou fatos. Outras classificações podem ainda ser lembradas. Ralph Linton, baseando-se na constatação de que os fatos culturais resultam das necessidades humanas, dividiu a cultura em: necessidades biológicas, agrupando todos os fatos que correspondem à vida física do homem (alimentação, habitação, vestuário etc.); necessidades sociais, em que se reúnem todos os fatos relacionados com a vida em sociedade (organização social, organização política, ensino etc.); e necessidades psíquicas, que compreendem todos os fatos que representam manifestações de pensamento dos seres humanos (crenças, estética etc.). Melville Herskovits ofereceu a seguinte distribuição dos elementos culturais: cultura material e suas sanções; instituições sociais; homem e universo; estética, linguagem. Pode-se ainda assinalar a classificação dos elementos culturais, tendo em vista os sistemas operacionais de ação do homem: sistema ou nível adaptativo, em que se verificam as relações do homem com o meio (ecologia, tecnologia, economia); sistema ou nível associativo, em que se estudam as relações dos homens entre si (organização social, família, parentesco, organização política); e sistema ou nível ideológico, onde se compreendem os produtos mentais resultantes de relações entre os homens e as ideias ou concepções (saber, crenças, linguagem, arte etc.). Uma última observação deve ser feita, em face da aplicação do sentido de cultura: é que muitas vezes se tem confundido, na linguagem menos científica, o sentido de cultura com o de raça ou de língua. Falar-se, por exemplo, de uma raça ariana é um engano, pois o que existe são povos que falaram originariamente as línguas indo-européias ou arianas, tronco de onde nasceram as modernas línguas faladas na Europa contemporânea. Da mesma forma é um engano falar-se de raça judaica, pois o que existe são elementos humanos, que se aglutinam pela cultura, em particular pelos mesmos ideais ou sentimentos religiosos, e nunca pelas mesmas características físicas. Convém salientar que as três variáveis -- cultura, raça e língua -- são independentes e não seguem a mesma direção. Encontram-se casos em que persistem as características raciais e se modificam as linguísticas e culturais, como se verificou com os negros da África e na América do Norte ou com os vedas do Ceilão (hoje Sri Lanka). Em outras ocasiões, persistem as características linguísticas e modificam-se as raciais; foi o que sucedeu com os magiares na Europa, vindos de um mesmo tronco linguístico, mas de variada formação racial. Pode também suceder a persistência de características culturais e a modificação das características físicas ou linguísticas. É o exemplo encontrado nos povos chamados latinos. Com tais exemplos, conclui-se que cultura não se confunde com raça ou língua. 3.3.6.Padrão cultural. 25
  26. 26. Em antropologia, a expressão padrão cultural se refere à soma total das atividades -- atos, ideias, objetos -- de um grupo; ao ajustamento dos diversos traços e complexos de uma sociedade. É aquela configuração exterior que uma cultura apresenta, traduzindo o conjunto de valores que expressa essa mesma cultura. A ideia desse conceito começou a formar-se com o antropólogo americano Franz Boas, que em 1910 afirmou a individualidade da cultura em cada tribo indígena americana por ele estudada. Essa observação decorreu da presença de certos elementos que distinguem determinada cultura. No caso dos grupos estudados, Boas mencionou o conservantismo dos esquimós, sua capacidade de invenção, sua boa índole, seu conceito peculiar da natureza e outros aspectos. Tais elementos não são consequência de simples difusão: resultam, em grande parte, de seu próprio método de vida; e o esquimó mesmo vai remodelando os elementos obtidos de outros grupos, de acordo com os padrões dominantes em seu meio. A ideia de padrão, em seu sentido antropológico, somente se formulou, no entanto, com a antropóloga americana Ruth Benedict, em sua obra clássica Patterns of culture (1934; Padrões culturais). Estudando as diferentes características das culturas tribais, ela ressaltou que existe um padrão psicológico modelador dos elementos culturais emprestados. Por sua vez, esse mesmo padrão afasta aqueles elementos culturais que a ele não se conformam. A cultura é como o indivíduo, e tem um padrão mais ou menos consistente em seu pensamento e ação. Benedict analisa as culturas dos índios zunis, indicando os padrões culturais de cada um desses grupos, para mostrar o que os caracteriza. Admite, igualmente, uma influência da psicologia gestaltista, que lhe permitiu demonstrar a importância de tratar o todo em lugar das partes e provar que nenhuma análise das percepções separadas pode explicar a experiência total. Por meio dos três grupos tribais estudados na obra, Ruth Benedict procura explicar, e não apenas expor, as características que cada um apresenta em seu padrão cultural. Apesar da ampla difusão de sua obra e da imensa aceitação de seu conceito de padrão cultural, não se podem negar as críticas feitas a seu método de estudo, traduzidas principalmente nas observações de Robert Lowie; a este se afigurava que o desejo de distinguir um padrão de outro conduz necessariamente a uma tendência de sobre-estimar diferenças. Dessa forma podem produzir sérias alterações em virtude de uma seleção subjetiva dos critérios. Enfim, a Lowie parecia que se deveriam esperar investigações para chegar a uma definição adequada do conceito de padrão. 3.3.7.Escola histórico-cultural. Corrente etnológica que procura explicar o desenvolvimento cultural como processo de difusão. A escola histórico-cultural teve seus primeiros idealizadores na Áustria e na Alemanha, motivo pelo qual também é conhecida como escola austro-alemão. O antropólogo e arqueólogo alemão Leo Frobenius é um de seus primeiros nomes, a ele se deve a ideia dos ciclos culturais, que defende que a constância na associação dos elementos culturais determina a formação de um ciclo - um conjunto de determinados valores culturais partidos de um ponto único dentro da área ocupada. A área ocupada por esses valores de cultura é o círculo cultural. 3.3.8. Influencias geográfica na cultura ribeirinha 26
  27. 27. Entre as muitas coisas que podem interferir na cultura de um povo é a questão geográfica, e é assim também com o povo ribeirinho, principalmente se considerarmos que esta é uma cultura em transição. Um dos fatores que influenciam muito a vida e hábitos ribeirinhos é o clima. O calor e a umidade produzem certa morosidade em suas ações, e o dormir a tarde é de fato necessário para o ribeirinho se refazer. Outro fator que exerce muita influência é o geográfico, as terras onde habitam os ribeirinhos são imensas, o “centro” é termo usado referente ao interior da mata quase desconhecida até mesmo por eles. A extensão desta imensidão também o leva a ter certa noção de distância, afinal, o que poderia ser mais distante que “aliii” mostrado com ponta dos lábios? Já que tudo é distante e demorado e ninguém usa o raciocínio exato de medida como metros, quadras e quilômetros e sim uma medida espaço-temporal... Como o tempo parece parar na vida ribeirinha, ninguém se preocupa com quantos minutos faltam para iniciar ou terminar uma reunião, o que importa é que as pessoas estejam lá, e quanto à viagem, ninguém se estressa quando alguém se atrasa, pois neste contexto o atraso é normal, a firmeza britânica em horário não significa nada para estes. A água quer seja a do rio ou a que frequentemente cai do céu, influencia na roupa que vestem. Eles se vestem para se proteger do tempo, mas sabem que depois da chuva virá um sol escaldante, então consideram que pouca roupa é a melhor opção, especialmente se for curta. 3.3.9.Folclore no Amazonas Entre as festas populares, as mais importantes são a festa do Divino (domingo de Pentecostes), Finados (2 de novembro) o Boi-Bumbá (variante do Bumba-Meu-Boi do Nordeste), que se realiza durante os festejos de são João; com procissão fluvial no rio Amazonas, Carnaval, páscoa e Natal. O Amazonas é uma região de folclore riquíssimo, existindo toda uma série de entidades lendárias de origem indígena, entre os quais devemos destacar o Urutau, símbolo da quietude; O Maguapari, monstro das florestas; O Boto, ser encantado em peixe; O Uirapuru, pássaro encantado; O curupira, demônio da floresta, representado por um anão de cabeleira rubra e pés em posição invertida; O Mapinguari, animal fabuloso, semelhante ao homem, mas todo cabeludo, entre outros. 4. COSMOVISÃO RIBEIRINHA “O Ribeirinho quer saber o que pode fazer, e não o porquê”. 27
  28. 28. 4.1. Propósito de estudar a Cosmovisão Ribeirinha. Qual o propósito de estudarmos este assunto? O de ajudar a entender os ribeirinhos e a forma como pensam, para que então possamos nos preparar melhor para pregação do evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo aos Ribeirinhos. Muito missionário, mesmo sem intenção, tem cometido muitas agressividades ao modo de vida dos ribeirinhos, simplesmente por não conhecerem o estilo de vida e forma de pensar deles. Em uma viagem com um grupo de americanos, um dos americanos falou com um ribeirinho por cinco horas, através de intérprete, ele não estava entendendo nada, isto é uma agressão, mas ele achava que estava ajudando... O ribeirinho não usa o raciocínio lógico e sim prático. Assim que chegamos a Novo Airão (onde moramos por cinco anos), iniciamos o trabalho missionário, uma jovem que viera para a Igreja e não levara muito a serio a ideia de ser cristã, cometia equívocos que depunham contra o evangelho, a convidei para um aconselhamento e por uma hora arrazoei, apresentei vários versículos e falei bastante, até que por fim perguntei: “Você entendeu?” Imaginava que ela havia entendido, porém ela respondeu assim: “Posso ser sincera?” Claro, respondi. “Bem o Senhor falou um quilo eu não entendi uma grama”... Que decepção! Isso me causou uma tremenda frustração! Em que eu estava errando? Eu vim do sudeste e achava que sabia alguma coisa, e sabe o que descobri? Que não sabia nada. É fundamental conhecer e compreender a cosmovisão ribeirinha para evitar frustrações desnecessárias, entraves na comunicação e desenvolver um trabalho evangelístico e missiológico mais efetivo. 4.2. A Cosmovisão e o animismo. Os Ribeirinhos acreditam que quase todas as coisas tem um sentido místico e estão relacionadas a coisas espirituais (creem passes de magia, em plantas que trazem benção e tiram quebrante e etc.) até mesmo as doenças. Eles acreditam que as palavras podem abençoar ou amaldiçoar alguém e que a doença vem do ar e não da falta de higiene, motivo pelo qual possuem e usam amuletos e não tratam a água para beber. 4.3. Cosmovisão Atual O Cosmos – não há distinção entre o homem e a natureza, ambos formam um único corpo vivo e dependem um do outro, tudo é sustentado por uma forma absoluta. Eles acreditam em Deus, em seres do bem e do mal e em lendas (como Maguari, cobra grande e etc.). Os povos da Amazônia são povos mediterrâneos, e hereditariamente são portadores de certa sentimentalidade, amam os horizontes imensos, tem a consciência telúrica da majestosa grandeza do mundo onde vivem e, cujas culturas são historicamente etnográficas e etnológicas. Convivem harmonicamente uns com os outros, o material e espiritual estão entrelaçados e não divididos como na mentalidade grega. 28
  29. 29. 4.4. O Estilo de Vida Ribeirinho e a Cosmovisão 4.4.1.Aspectos Comportamentais O caboclo fala lentamente, em geral quase entre os dentes, com pequenos movimentos de lábios. Temos a impressão de que todas as vogais levam o acento circunflexo, pois em geral são pronunciadas fechadas. O ribeirinho é calado, simplório e teimoso. Quando decide fazer algo, não desiste fácil de sua ideia. Engana-se quem se pensa que o convenceu a mudar de planos, ele voltará a insistir no assunto mais tarde quando todos já tiverem se esquecido, não fará barulho, tratará sua ideia como nova, como se nada fora falado antes a respeito dela. O caboclo é inteligente e frequentemente manifesta dons artísticos, gosta de cantar, dançar e tocar instrumentos. Essas pessoas reagem de acordo com os estímulos que recebem, e o temperamento delas é tipologicamente do homem brevilineo. As diversões não ocupam muito tempo na vida do caboclo, o lazer sim, pois a vida lhe é um lazer, não se acanhará de parar o trabalho para brincar com uma criança. Nos casos de traição por parte da mulher, a reação é em regra branda. O caboclo não se fadiga com facilidade, sua menos que o branco, não apresenta esgotamento nervoso e é calmo (como produto do clima e de sua terra, que faz parte da estrutura geográfica da Amazônia). O caboclo respeita sempre as ideias daquele que o procura. É excessivamente tolerante e isso já é por si só, uma maneira de evitar o conflito. O caboclo continua inalterável, seu âmago estrutural é sereno, calmo, frio. Cede tudo e não se sente inferiorizado, não é hipersensível, não critica e não gosta de ser criticado. Seus conflitos internos são resolvidos conversando com seus amigos íntimos, seus parentes, seus compadres. Enfrenta tudo, sempre com ânimo frio, seus conflitos mais comuns são referentes à distância entre a comunidade e a cidade, entre clãs políticos e os proprietários. Têm diferentes maneiras de pensar, vocabulário, linguagem, técnica, folclores, festas místicas, comemorações, superstições, alimentação, modas, habitação. O isolamento psíquico é mais comum que se imagina e a pressão é tremenda na cultura em que se encontram (a respeito do modernismo neoliberal presente). Ele também é do tipo que se abre com certa reserva ao primeiro contato. É rotineiro, pouco aspira além da escola rural primária para os filhos. Como tipo inteligente, é hábil para os trabalhos manuais, para a marcenaria, entalhação, canoarias, escultura, desenho. Sempre é ótimo carpinteiro, muitas vezes mau agricultor, pois planta para subsistência e tem dificuldade em estocar para o futuro. Seus hábitos são: a caça, o marisco, o café, o fruto, a cachaça, a festa. Eles não se consideram descendentes de índios, caboclos ou ribeirinhos e tem necessidade de se sentirem importantes (assim como nós). Atribuem à televisão uma grande importância, consideram-na até mais importante que uma geladeira. Esse grande interesse na televisão é motivado pela busca por diversão e atualização, eles querem estar na atualidade e mesmo sem formação e/ou obtendo pouca informação, criarão padrões para copiar. 29
  30. 30. Se a televisão mostrar sobre a taxa de mortalidade, e daí? Eles não vão entender mesmo, mas o “Namoro na televisão”, “Topa-tudo por dinheiro”, novela, “Tela quente” eles entendem perfeitamente. Esse é um dos motivos que muitos estão sendo explorados no turismo sexual, há menores que são expostas a prostituição para turistas. 4.4.1.1. A família Ribeirinha Com um grande espírito de cooperação a família na Amazônia segue a regra geral das leis de exogamia, isto é, admite sempre o casamento fora da família, com exceção de alguns (poucos) casos de casamentos entre primos, e, (bem raramente) entre sobrinhos. A autoridade do pai é mínima, silenciosa e não muito importante, mas a da mãe é primordial. Não há uma consciência familiar adequada. O casamento não é algo que precise de benção e de ser documentado no cartório, ou seja, torná-lo legal. O casamento é uma questão de ajuntamento. O casamento civil é assunto para segundo plano. Eles pensam que “os juízes exigem muito” e acreditam que é melhor manter a boa-fé, caso o relacionamento não dê certo, podem casar-se novamente. Satisfazem-se com um fogão de chapa de ferro ou três pedras; um terçado, uma espingarda, uns poucos utensílios caseiros, um pote, algumas cuias, latas, redes, mosquiteiro, zagaia, haste, arpão, anzóis, tarrafa, cordas, remos, baldes de cuieiras, farinha, beiju, tecelagem, paneiros, tupés, abanos e etc. Em virtude do parentesco de grau apurado o caboclo mais confia na vizinhança, por este motivo chamam as pessoas de vizinhos ou parentes. Uma comadre não pode ter relações mais íntimas, de certo caráter, com um compadre, padrinhos e afilhados não devem se casar. Esse espírito os torna verdadeiros clãs naturais. O compadre tem uma importância destacável. O abandono de crianças é uma questão quase não observada, o que acontece com mais frequência é dar a criança para ser criada por um parente próximo ou por uma família amiga, mas em qualquer dessas situações, a estrutura matriarcal é sempre respeitada. A mulher nesta cultura matriarcal é muito valorizada e, portanto, há homens novos casados ou amigados com mulheres muito velhas. É também comum encontrarmos homens velhos casados ou amigados com mocinhas muito novas A mulher ribeirinha ela tem uma importante função social, é companheira de trabalho, coopera nas obras, na propagação da culturas, nas técnicas, nos problemas e processos sociais. As crianças são criadas muito soltas, ficam a vontade, não há muitas regras, mas em contrapartida, ajudam no cuidado com os irmãos (embalando-os na rede), carregam lenha, trazem água em baldes do rio; abrem as palhas para cobertura das casas, colaboram nas roças e fazem mandados. O nascimento para eles é apenas mais um que nasce, e a morte mais um que morre. As mulheres têm a mesma posição do homem, os velhos são respeitados. Quando ocorre a morte de um ente da família ou da vizinhança, espalha-se certo sentimento de solidariedade e piedade. O caboclo observa as regras nos relacionamentos. Ele mesmo teria dificuldade de explicar, mas observa valores culturais que lhes são passados de pai para filho, como um legado filosófico. Pais, parentes, velhos, moços vivem como se vivessem em vida coletiva, em um trabalho conjunto, como se todos fossem parte de uma fraternidade fechada... Por isso raramente são vítimas de histerias e/ou psicoses. 30
  31. 31. Depois disso vem a casa, a alimentação condimentada, os trajes, as superestruturas da religião, da família, da ordem social, da ordem política, da propriedade, do direito, etc. Quem influencia mais nos lares amazonenses? O homem ou a mulher? Quem mais faz faculdade? As mulheres! Quem mais vai para missões? As mulheres, na comunidade quem trabalha mais? As mulheres. Qual o papel da mulher? Lavar roupa, cuidar da casa, cuidar do filho, fazer o roçado e do homem? Pescar, casar, jogar futebol e dormir de dia. Por quê? Isso vem do sistema tribal, até hoje há paneiros que as mulheres carregam, que homem não consegue carregar. Quem é mais importante na sociedade ribeirinha? A mulher! Se nós alcançarmos as mulheres das comunidades, nós vamos influenciar as famílias e os maridos delas. Grau de Parentesco O sentido de parentesco é muito grande: afilhados de batismo, de crisma, de casamento, de fogueira, além da parentela que é sempre enorme, embora vivendo muitas vezes distante. São os clãs parentais, cujos laços são bastante fortes, duradouros. Havendo sinceridade, este sistema é interessante, pois dá aos chefes status no grupo. Veremos agora os vários graus de parentesco: Rol - Em uma comunidade, os ribeirinhos têm vínculos de rol, pois pertencem a mesma comunidade e isso faz com que se sintam um pouco parentes, com responsabilidades uns para com os outros, qualquer intruso, terá o dever de conquistar seu lugar. Sanguíneo - Este grau de parentesco é definitivo, filhos, pais, primos... O que não é definitivo é a forma de responsabilidade sanguínea, é muito comum na cultura ribeirinha à responsabilidade de educar não ser da mãe biológica e sim dos avós, tios e parentes próximos. Dessa forma um tio ou outro parente de qualquer grau passará a ser meio irmão, isso afeta também a questão de casamento sanguíneo. Ex.: A tia cria a filha de sua irmã que é prima de seu filho, dormem juntos e vivem juntos, mas não podem se apaixonar. Exatos - Padrinhos, eles querem que você seja o padrinho de uma das crianças, se o padre deixar... Porque a criança passará a ser sua afilhada e você terá o dever de ensinar o caminho da verdade a ela, como para eles, esse é um papel muito importante, sempre pedem para o Prefeito ser padrinho, o “Doutor”, ou outras pessoas consideradas importantes (pois desejam ter parentes importantes). Moradias As casas são pequenas e não tem banheiros (dentro da casa), dormem todos no mesmo cômodo, seja sala, quarto ou cozinha, na verdade quase sempre há uma pequena cozinha, uma sala ampla para receber os visitantes e para atar as redes à noite, um pequeno quarto, com tabuas afastadas umas das outras para se trocar de roupa, que na verdade não serve muito para privacidade, o banheiro é em um local fora da casa, o que não é muito bom. A mobília do caboclo é simples: Algumas cadeiras, uma mesinha de centro (às vezes), redes, mosquiteiro, uma mesa de almoçar, potes, panelas, latas de ferver água, cuias ou baldes de cueiras, trempe, fogão de chapa, raramente um forno de assar o pé de moleque, forno de farinha, lamparinas e candeeiros, copos ou canequinhos de leite, grelhas, frigideiras, cafeteiras, bules e etc. Um dos lugares onde o caboclo constrói sua habitação é no flutuante, onde está à taberna, o lar, o divertimento, ele faz sua cabana (casa) em torno do que necessita. O cemitério fica perto ou no fundo da casa. Quando o caboclo deixa a casa, parece ter esquecido o instinto hídrico da sua vida. Seu habitat é quase a água. Constrói sua casa acima do solo, em virtude da água e da umidade, como palafitas da 31
  32. 32. Oceania e da Ásia. A cobertura de duas águas é comum na Amazônia. A cozinha deve ser considerada como peça importante de uma casa, pois representa mais de 70 % da felicidade de um lar. É tipicamente rústica. Um dos problemas da casa ribeirinha, é que como todos dormem juntos, as redes ficam muito próximas umas das outras e dependendo da forma como se deitam, podem levar alguém à excitação sexual. Outros problemas igualmente sérios são a troca de roupa no quarto, que deixa o corpo parcialmente exposto e a utilização do banheiro, que além de desconfortável, é anti-higiênico, isso, quando se tem algum banheiro, porque muitas famílias não tem banheiro. Como podemos ajudar? Dizendo a eles: Olha vocês que são casados, precisam ter um quarto só para vocês ou então: Meninas vão se trocar no quarto, ou ainda: Ô irmão porque você não constrói um banheiro dentro da sua casa? Já pensou se algum dia der uma “ligeirinha” e quando o irmão sair correndo para ir ao banheiro estiver a maior chuva? Vai ser molhar todo, não é mesmo? Se o banheiro for aqui dentro isso não vai acontecer... E assim, aos poucos, sem ser muito invasivo, comece a influenciar para que ocorram mudanças na estrutura da casa e nos hábitos deles. Use as escrituras e mostre algumas das orientações que Deus deu sobre higiene, fale, por exemplo, que os patriarcas cavavam poços e que se eles fizerem isso ao invés de simplesmente pegar a água do rio, eles estarão consumindo uma água com muito mais qualidade e ainda estarão evitando certas doenças. Mostre a eles que em Deuteronômio 23: 13 Deus pediu para que o povo cavasse um buraco para defecar “Como parte do seu equipamento, tenham algo com que cavar, e quando evacuarem, façam um buraco e cubram as fezes” e assim evitar as contaminações e consequentes doenças provenientes da falta de cuidado com os dejetos humanos. O Pr. João Wilson sugeriu que quando algum ribeirinho estivesse tecendo uma rede, a comunidade fosse reunida, para mostrar como todos os trabalhos são importantes e como precisamos sempre uns dos outros. Ao invés de destacar para o construtor de casas e barcos que Jesus andava em um barco de madeira e que era carpinteiro e mesmo sem intenção estimulá-los a continuar desmatando, podemos focalizar as questões relativas a qualidade da terra, explicando que a terra não está boa em virtude da queima de árvores e se possível, levar um Técnico em Agronomia ou um Agrônomo para analisar a terra e ensiná-los técnicas de plantio. 4.4.1.2. Influência do ambiente geográfico no comportamento Ribeirinho Influência do clima O clima influência na forma de se vestir (As roupas são leves, próprias para o clima tropical, usam chinelos e sapatos de couro), na higiene, nos meios de plantio, na caça, na pesca, no comportamento e nos horário de descanso e de trabalho. O tempo úmido, calmo e o calor constante faz com que eles sejam mais “sossegados”, levantam cedo, descansam a tarde e pescam a noite (é compreensível que não trabalhem em plena força do calor). Influencia também sobre o psicológico das pessoas, causando fadiga, sono, necessidade de sesta, relativo desmemoriamento, certa incapacidade para resistir ao cansaço, e a depressão mental. O tônus vital baixo produz um tipo de homem sem euforia. 32
  33. 33. Na Amazônia o Ribeirinho é um verdadeiro herói tranquilo - calmo, calado, persistente, resignado, resistente, baixo, entroncado, pernas grossas, filósofo, pacato, valente - o ambiente geográfico criou-lhe esse caráter. É rotineiro, pouco aspira além da escola rural primária para os filhos. Como tipo inteligente, é hábil para os trabalhos manuais, para a marcenaria, entalhação, canoarias, escultura, desenho. Sempre é ótimo carpinteiro, muitas vezes mau agricultor, pois planta para subsistência e tem dificuldade em estocar para o futuro. Seus hábitos são: a caça, o marisco, o café, o fruto, a cachaça, a festa. Influência e Importância das águas As planícies às margens do rio podem chegar a catorze quilômetros (como na baia de Buisu) ou mais, dependendo do lugar. É nesse rio que o ribeirinho navega, é dele que tira seu sustento, é ele que o ribeirinho atravessa para conhecer outras pessoas ou para ir as festa. Ele sabe que poderá pegar um temporal no caminho, ou um alto banzeiro, mas para que pressa? Como todas as grandes civilizações, o povo ribeirinho começou em lugar de muitas águas, não que ele seja o povo primas, mas o resultado de um despovoamento e má ocupação europeia, que sempre viu a importância da riqueza desta terra sem notar que tem um povo, que faz uso dela e a cuida. Assim a história continua, o Ibama e as Ongs de proteção ambiental - salvo algumas, como a Vitória Amazônica - defende a floresta e ignora o povo da floresta. Os rios da Amazônia têm diversidade de cores, há rios de águas brancas, pretas, verdes, amarelas e cristalinas. A floresta tem uma fauna rica e uma biodiversidade inimaginável, e o homem faz parte desta natureza. Esse imenso tabuleiro de planície, tem mais de seis milhões de metros cúbicos de água, o que faz com que precisem saber navegar. O povo pode viver, navegar e desfrutar de uma topografia plana, exceto por alguns lugares, como Uatumã. Os rios enchem e secam uma vez por ano, eles não ficam pensando “meu Deus para onde foi tanta água”, mas pensam: Quando será o tempo de peixe? E para os que moram em várzea: Quando será o melhor momento para o plantio? Questionam-se a bananeira vai morrer quando o rio encher ou quantas tabuas serão necessárias para levantar o assoalho da casa. Portanto a filosofia ribeirinha não é platônica e sim oriental, ela não fica dividindo filosoficamente, mas simplesmente vivendo a cada fenômeno, como sendo natural, até porque em seu mundo místico nada está desconectado, o espiritual e o material se entrelaçam. Estes rios são seguramente navegáveis para o povo que o conhece, eles tiram o melhor dele, desde a pesca ao cipó. Os Barcos regionais são os melhores meios de transporte para os ribeirinhos, pois as estradas são feitas de águas. A canoa é utilizada tanto para transportar alimentos, pessoas e produtos, quanto para o lazer dos ribeirinhos, que remam até a ponto de enlanguescerem os ombros largos. 4.4.1.3. Comunicação 33

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