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Entrevista com Murilo Mendes, presidente da Mendes Jr. em 1996

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Entrevista com Murilo Mendes, presidente da Mendes Jr. em 1996

  1. 1. Saiu 'suar-a um : :gw ¡_ Liôll O : VV W. , . ' ' '_ _45 ÍV/ áí_i__ m undu s_ "«"i' 14/FEVEHElRO/1996 - N9 1376 - Fl$ 4,00 *L Êesoguisa 'e' a a excusiua revele a exâensào real do éesemprego @me passa a 2 ser a maior IpFiLQÓ- preocupação A @as erasãêeãros ISSN 0104-3543 Ma a ' 'w M_ K ' _ , fé É A, “ _ ;1 , " ' n' ¡ãrxir a ~ v « VT. : ¡ 4.. ... . _- M¡ , _ , a _ Marino Mehdêá ao 'ãvrwrrfi J 'im' r íffâ Eavmumtma : x90 'ííã eumpreifcetzm É: : Eiáüetmeies J
  2. 2. *- Warm-, SÉRGIO AMZALAK " 5.. .; emetiro con v igpdes: “Não “lembro de passado aqui” Ía uo Num desabafo inédito, Murillo Mendes abre a caixa-preta do setor de construção e mostra como foram as relações promíscuas com o govemo CARLOS JOSÉ MARQUES E LUCIANO SUASSUNA ão importa a região do País em que você vive. No momento em que uma luz da sua casa é acesa, haverá aí uma ligação indireta com a empreiteira Mendes Jr. Durante décadas, ela construiu estradas, ferro- vias e hidrelétricas dentro e fora do País. Gerenciou Itaipu e construiu Ita- parica. Desde o início deste ano, contu- do, a Mendes parou de funcionar no Brasil. Sentado na varanda de uma ampla casa em estilo colonial, no bairro das Mangabeiras, em Belo Horizonte, o presidente da empresa, Murillo Men- des, aguarda o pagamento de mais de R$ 3 bilhões que teria a receber do go- verno por obras erguidas mas nunca pa- gas. Aos 70 anos, ele continua dirigindo seu próprio carro e frequentando o su- permercado da redondeza. Usa camisa de mangas curtas e dispensa seguran- ças. Durante oito horas, ele recebeu ISTOE para a primeira entrevista em que um grande empreiteiro fala aberta- mente sobre os acertos entre construto- ras, corrupção e favores políticos. ISTOÉ - 0 sr. fez obras em todos os Estados. A empresa chegou a faturar US$ 3 bilhões num ano. Como é que o sr. se sente vendo a construtora desse jeito? Murillo Mendes - Claro que eu não acho isso bom, mas sempre fui muito voltado para a essência das coisas. Se tivesse caí- do em tentação, para fazer alguma coisa fora da minha consciência, eu me sentiria profundamente arrependido. ISTOÉ - Como foi montado o chamado jogo de cartas marcadas, com concorrên- cias previamente ganhas e propinas para funcionários do governo? Mendes - Isso se montou pela força das empreiteiras, dinheiro. .. É uma tendência mundial que se chama cartelização. Agora isso aí gerou coisas muito desfavoráveis porque criou ônus de tal ordem que as coi- sas começaram a ficar absolutamente caras. ISTOÉ - Então, a história de que as cinco maiores empreiteiras do País se reuniam para acertar concorrências, cri- ando o chamado Clube dos Cinco Gran- des, é verdadeira? Mendes - Essas coisas existem circuns- tancialmente, mas não são só cinco. O erro é esse. Existe o clube dos pequenos também, existe clube para todo lado. Em matéria de clube e achincalhação o Brasil está muito bem. ISTOÉ - O sr. conversava com os outros concorrentes para acertar obras?
  3. 3. 'Efñiíílllrfílüzi Mendes - Isso também não é as- sim. Houve uma fase em que al- gumas concorrentes diziam "não faz negócio com a Mendes que eles são sérios”. Eu costumava di- zer que ia botar no jornal que eu sou corrupto para caralho e que estava sendo difamado. Houve ca- _sos de combinação de preços, mas houve muita concorrência. l ISTOÉ - Em Itaipu, por exem- l plo? Lá houve pressão do então l presidente paraguaio Alfredo S tro- essner para que a Camargo Cor- rêa entrasse na obra, não? Mendes - Lá foi uma pressão glo- bal do Stroessner, que fez com que os govemos obrigassem a que se tivesse um consenso. ISTOÉ - Foi a escassez de obras que levou à implosão do Clube dos Cinco? Mendes - A tendência dessas coisas é não perdurarem muito tempo. Houve uma mudança de circunstância. Não adianta você tentar continuar espoliando o Estado quando ele não tem mais por onde se deixar espoliar, porque não tem dinheiro. Mudar, é elementar. ISTOÉ - Nos momentos em que a cor- rupção foi mais extrema, ninguém do go- veno propôs um acerto da sua dívida? Mendes - No governo do Collor, a gente tinha diñculdade de manter a sobrevivência porque determinados blocos eram totalmente dominados por concorrentes. Eles tinham domínio absoluto junto a ele [Collor]. ISTOÉ - Então o pessoal do Collor nun- ca o procurou? Mendes - Eu já tive contato com eles. Mesmo porque se não tives- se, minhas contas não eram pagas. ISTOÉ - Qual a diferença que existia entre a turma do regime militar e a do Collor? Mendes - No começo do govemo militar, as coisas eram mais plane- jadas eorganizadas. Eram concor- rências sérias. Não existia essa his- tória de atraso de pagamento. Eu acho que sem a solução disso, não adianta. Enquanto houver necessi- dade de você corromper ou opor- tunidade de te achacarem, não tem jeito. Pode ser maior ou menor. Você pode botar determinadas or- dens no meio, mas não resolve. ISTOÉ - 0 atraso de pagamento é o grande fator de corrupção? Andreaiziza: 'mdlheresz Andreazza era um homem que tinha lá o seu estilo. Na época de Collor, as comissões eram maiores LL. .., 1l><4 Lula: dinheiro J cnlêiírilfviLLAñísku” ' j . / l l , A37 f I. ... ,_~ ' v Collor: : dinheiro A Mendes - É um grande fator. Principal- mente na época mais inflacionária. Qual- quer vagabundozinho era senhor do fluxo e tinha capacidade de atrasar o seu paga- mento em uma semana, por exemplo. Uma semana eram 5% ou 10% que você estava perdendo. Ficava um negócio maluco. ISTOÉ - E como é que o sr. fazia? Mendes - Essas coisas são muito com- plexas. Você tem que delegar para a ope- ração. O cara que está operando tem que se virar lá e ter o melhor julgamento. As- sim começa, então, um sistema péssimo. Inclusive abrindo caminho para corrup- ção intema também. ISTOÉ - Quanto uma grande empreitei- ra gasta com propinas? . Mendes -Isso depende da empresa. Tem o PT de lula iii-Lam ajuda na campanha presidencial. O negócio de Itamar é comer as mulherzinhas l F ñEÍfÁS A Altfónfñê , i__ uma empresa aí, que eu não vou citar o nome, que disse para um a amigo meu, e se vangloriava dis- so, que gastava US$ 200 milhões por ano para essas finalidades. Era _um negócio barra-pesada. ISTOÉ - Isso representava quanto do faturamento? Mendes - Uns 20%. ISPiFOÉ - Qual seu limite de re- sistência num negócio desses? Mendes - O problema é o se- guinte: a gente procura resistir, resiste, resiste. .. A MMINO PEDROSA ISTOÉ - Quando o sr. colocou a Mendes Jr. nesse processo de dependência do governo? Mendes - Tivemos fases diferen- tes. Nós nos propusemos o se- guinte: vamos fazer aqui nosso crescimen- to, buscando as grandes obras. As grandes obras estavam com o govemo, então tínha- mos de trabalhar com ele. Pessoalmente eu tinha um pouco de alergia dessas coisas. O govemo, normalmente, é uma entidade de uma cena prepotência. Por isso mesmo é que sempre procurei ter cena independên- cia. Não é _questão de avacalhar com 0 poder, nada disso. ISTOÉ - 0 seu bom relacionamento com os governos começou na época de JK? Mendes - Não, nunca tivemos uma rela- ção assim com JK. Naquela ocasião, quem tinha muito bom relacionamento com JK era o pessoal de São Paulo. E claro que por influência política um empresário po- deria num momento ser incentivado de forma atraente, pelas suas relações, pelas suas amizades ou por qualquer outra razão, mas as decisões de obras no Brasil sempre foram to- madas pelas elites do govemo. ISTOÉ - 0 ex-ministro Mário Andreazza, com quem o sr. teve proximidade, esteve nesse bloco de elites governamentais. Mendes - Eu tinha proximidade com ele sim, mas como todo mun- do que trabalhava nesse setor. De maneira alguma, eu tive algum tipo fg de benefício ou influência. Eu en- i irei forçando. Na Transamazôníca, nós da Mendes entramos na con- correncia pensando que outras em- presas iriam ganhar. Ganhamos cin- co trechos, que era omáximo per- mitido. E fizemos. Nós éramos muito mais outsiders do que possa se imaginar. n 7 7 "É 'scale w ' HIcAi-ino siucKERf A;
  4. 4. ÉpMm, , u, ISTOÉ - Mas o sr. não teve nenhum beneficio dessa amizade? Mendes - Eu não diria assim. As pessoas no Brasil tendem a. deturpar. Esse é o pro- blema da amizade no Brasil, e existe com certa frequência, não tem dúvida nenhu- ma. Não é uma coisa especifica. Estamos falando da associação entre o setor privado e o governo. Dentro da nossa cultura existe essa tendência a se constituir uma certa com- posição, tipo establishment de liderança. ISTOÉ - A popular panelinha? Mendes - Mais ou menos isso. ISTOÉ - E no caso do Andreaz- za, como e' que era? Mendes - O Andreazza era «um indivíduo extremamente otimis- ta, audacioso e arrojado. Ele que- ria realizar, tinha ambições polí- ticas de exercício do poder. Claro que na política as pessoas estão pensando só no benefício próprio. ISTOÉ - Ele era alvo de mesuras? Mendes - Sem dúvida. Agora isso era uma coisa já tradicional da cultura brasileira , sem neces- sariarnente representar uma reci- procidade pragmática. Porque os assuntos desse vulto, o tamanho do dinheiro envolvido em gran- des empreendimentos, não vão ser decididos apenas porque você terá um certo trato. Inclusive determi- nadas mordomias eram muito em voga no Brasil. Mordomias agra- dáveis: fora a alimentação corri- queira, haviam outros tipos de ali- mentação, que eram fomecidos, mas que não significavam que, por isso, o indivíduo iria ceder. Em muitos casos tivemos mesmo que entrar forçando. ISTOÉ - 0 que o sr. quer dizer com entrar forçando? Mendes - Eu entrei forçando na primeira concorrência porque eu não era da turma mais próxima. Tinha uma certa hierarquia: era Camargo Corrêa, era Cin- cinato Braga e por aí ia. ISTOÉ - Como se estabelecia essa hie- rarquia? Mendes - Havia esse problema de corte- jar. Sou um sujeito que me considero meio deslocado do que se fazia. Diria que não sou o construtor tipo padrão. ISTOÉ - Em contrapartida, seus interlo- cutores eram mais diretos nos pedidos? Mendes - Eu não posso dizer que fui ISÍAIÓIE. *bella ihãüülà vítima dessas coisas, da pressão de pedi- dos, mas existia necessidade das mesuras. ISTOÉ - As mulheres que o sri trazia para encontros na Transamazônica eram da região mesmo? Mendes - Não me lembro. ISTOÉ - Aonde o sr. acha que se extra- polou nas mesuras com Andreazza? Mendes - Eu não sinto que houve exage- ro desse tipo, porque eram coisas insigni- ficantes. Mas prefiro não me alongar so- Euentrei forçando na primeira concorrência da rodovia, porque não era da turma mais próxima l. bre isso, porque ele já está morto, eu es- tou vívo, e minha mulher tá aí, né! ISTOÉ - 0 governo Collor inflacionou o mercado de propinas? Mendes - E, aquela fase foi a mais agu- da. Não apenas porque as comissões eram maiores. As contribuições eleitorais, pa- trióticas, se generalizaram. ISTOÉ - Quantos governadores ou de- putados o sr. ja' ajudou? Mendes - Eu não sei fechar essa conta. ISTOÉ - 0 sr. nunca contabilizou isso? Nuncafez, digamos, sua pasta rosa? Mendes - Não. Contas assim, em separa- do, nós nunca fizemos não. ISTOÉ - Qual foi o seu pior momento? Mendes - Uma vez que eu me dei mal foi quando fui para a siderurgia. Tanto que eu acho, não só pela minha experiência, que a chave do sucesso no Brasil é: o Estado intervindo mais ou menos, ele pre- cisa de honrar, ele deve ser o guardião da ordem e dos compromissos. Por exemplo: você quer ver uma coisa que me dá von- tade de mandar o cara para a puta que o pariu? Esse pessoal [o go- verno] me deve. Então, eles es- tão questionando, com aquela ar- rogância. .. Eles vêm com esse papo: "Bom, mas eu não tenho certeza que se a gente pagar a Mendes ela vai sobreviver. Eu não sei se ela tem uma estrutura, se a crise dela é só porque não recebeu ou se é administrativa. ” Ora, puta que o pariu! ISTOÉ - 0 que o sr. queria ouvir? Mendes - Você está lidando com um problema muito complexo com um sujeito que te deve. Ain- da mais govemo. Ele não conse- gue nem resolver as merdas dele. Eu fico puto. O pessoal não gosta mesmo que eu fale porque eu ar- rebento com eles na mesma hora. Quando um sujeito me fala uma cretinice dessas, eu falo: "Meu querido, o problema-é o seguinte: . você está me devendo e eu quero , _ que você me pague. Agora, de s» mim, eu cuido. Vocês não cuidam de vocês? Porra! Eu não estou pe- dindo socorro, estou pedindo para você me pagar. " ISTOÉ - 0 problema, na sua opinião, é que tem muita gente no governo querendo mandar mais do que deve ? Mendes - É isso mesmo. O cara tá cagan- do regra. Parece aquele negócio de "o cara sabe tudo". É cheio de caras desse nos govemos. Uns cagadores de regra. Porra, o que é que um filho da puta desse fez enquanto estava lá. Fica parecendo que nós somos idiotas, que' os caras são sacerdotes de um credo misterioso, não acessível a nos mortais. Todo mundo ca- gando regra, como se ele fosse um artifice durante muito tempo desta coisa que tá aí. ISTOÉ - Como o sr. viu Itaipu? Mendes - Foi uma realização extraordiná- ria. Uma grande satisfação para nós, porque
  5. 5. “F52 'Ílllãliívilãllgl a obra estava atrasada. Aí foi exigido pelo cliente que nós assumíssemos. Assumimos. Mandamos nossa turma para lá e manda- mos o resto embora ISTOÉ - Os outros funcionários? Mendes - Sim, indicados pelas outras empreiteiras. ISTOÉ - Vocês fizeram quase toda a obra? Mendes - Nós fizemos a obra sozinhos. A chefia e a administração da obra eram nossas. Agora, depois que assu- mimos, tivemos uma remunera- ção diferenciada do resto das em- preiteiras que também estavam no projeto. Foi uma remunera- ção fora daquela rateada entre outros. Era baseada na participa- ção gerencial de cada empresa. Aí, sim, era 89%. ISTOÉ - Mesmo já tendo 20%, que era o combinado? Mendes - Isso. Mas eu disse: “Eu quero ter. , porra. " Eu queria a com- provação desse fato. ISTOÉ - Uma comprovação de que foi a Mendes Jr. que fez Itaipu? Mendes - E. ISTOÉ - Qual o melhor lugar do mundo para ser empreiteiro? Mendes - Eu não colocaria geo- graficamente. Nós buscamos um mercado dinâmico, civilizado. ISTOÉ - Sem pedágio e sem ina- dimplência? Mendes - Exatamente. Esses paí- ses têm muito medo de que a cor- rupção brasileira seja exportada. Depois, grande parte destes mer- cados está cada vez mais se con- centrando em empresas privadas. ISTOÉ _ E onde é o oásis? Mendes - Não tem. Nós temos nabalha- do cada vez mais com empresas de mine- ração, obras importantes no Chile, Equa- dor, Peru. Na China, eu quero entrar de uma maneira indireta, trabalhando para responsabilidades privadas. Por que a Chi- na tem uma evolução fantástica mas, ao mesmo tempo, é um fenômeno de com- plexidade geopolítica da maior dificulda- de. Existem vetores de poder complicado- res por lá. Tem o poder provincial, que eles desenvolveram. O poder central se divide em Forças Armadas e tecnocracia dos Ministérios. O BC da China éum ve- tor de poder de decisão importante. Tem o lia¡ u partido. Então, é um negócio complicado. E existe na cultura dos chineses, milenar, que estrangeiro e' demônio. É patriótico arrebentar com eles e não deixar eles ga- nharem dinheiro. É um ato de patriotismo impedir que estrangeiro ganhe dinheiro. ISTOÉ - O governo brasileiro está cheio de chinês, então? Mendes - Esse govemo ainda tem, é ver- dade. No passado, tinha muito mais. Não existe aquela concepção civilizada de que você, quando está fazendo um negócio com 'a m: p": . L. Foi uma realização extraordinária. Assumimos e mandamos embora o pessoal das outras empreiteiras uma pessoa não é para essa pessoa se fer- rar. Agora, você tem que cuidar de você. ISTOÉ - É uma quebra de compromisso em cartéis? Mendes - Esse problema de cartel exis- te em todas as partes do mundo e não é o fator mais grave. A Europa é carteliza- da, Veja a Alemanha. E cartelizada, cupinchada, de cabo a rabo. Só que lá as coisas funcionam. O erro no Brasil é que se faz uma cartelização predatória. Eu falava para os colegas: "Gente, quan- do a gente admite ou se submete a um tipo de coisa que eleva os nossos preços "Queria provar que era obra nossa" ao dobro do que seria razoável, nós esta- mos cometendo suicídio. " ISTOÉ _- E o que eles diziam? Mendes - Achavam que eu era louco. A cultura do sujeito é que só maracutaia dá resultado. ISTOÉ - E tem muita? Mendes - Infelizmente, tem. ISTOÉ - No mercado brasileiro, o sr. foi colocado como 0 empresário que sempre teve bons relacionamentos com presidentes. . . Mendes - Mas é uma imagem absolutamente falsa. Quem foi presidente e era realmente meu amigo era o Sarney. ISTOÉ - Como é que é o relacio- namento com o Sarney? Mendes - Eu conheci o Sarney por intermédio do Magalhães Pinto, que era da UDN. O Maga- lhães pediu para eu dar uma aju- . da a ele. Emprestei um aviãozi- nho monomotor a ele para a cam- panha de govemador. De lá para cá, tivemos uma amizade total. Frequento a família etc. , mas respeito o espaço. O Sarney tem amigos que dormem no palácio, mas eu não vou à casa de nin- guém sem ser convidado. ISTOÉ - No governo dele, o sr. chegou a frequentar o Palácio da Alvorada? Mendes - Cheguei. Ele gostava de conversar comigo. Ouvia mui- to o que eu tinha a dizer. nie/ m ocà ALDEZ ISTOÉ - Ajudava ser amigo do presidente? Mendes - Eu acho que não. O Sarney tinha ministros que peita- vam ele, como o Maílson [da Nó- brega, da Fazenda] e o João Ba- tista [Abreu, do Planejamento]. Eles acha- vam que dar porrada nos interesses da Men- des era uma coisa bacana. Olha, eu não gosto de política. Mas eu queria ser presi- dente em algum momento para algum f¡- lho da puta desse me desobedecer. ISTOÉ - Como era a relação com os outros presidentes? Mendes - Todos eu visitei, mas não man- tinha relações estreitas. ISTOÉ - Só nos seus negócios no Iraque houve interferência? Mendes - Sim. Do Geisel, Figueiredo e W __ Y V, _, , LÉÊÇJ: 'ã-: Wis w
  6. 6. W tornar-mails . ..img Samey. Porque as relações com o Iraque eram de ordem tal que im- plicaria decisões do presidente da República. ISTOÉ - 0 sr. não teve que aten- der demandas pessoais de nenhum ¡ outro presidente? Mendes - Mantenha boas rela- ções com o Itamar Franco, por exemplo. Mas nunca tive muito contato. ISTOÉ - 0 Itamar Franco, ate' M” L l ! L l PAULÓÀÓIÀNÕALIÃ/ FOLHÉÍM_ _ _ç K _r , . , . Li a 'o número nm' listlaw por ser mineiro, não foi um gover- no simpático à Mendes Jr. ? Mendes - Sinceramente, o Ita- mar, aqui entre nós, não é de aju- dar muito. O negócio dele é ficar comendo as mulherzinhas dele. ISTOÉ - Por que o governo não lhe pagou? Mendes - Eu fui ao Malan e disse. -“O que está acontecendo? A bola tá parada no seu ministério. " Não seio que aconte- ceu. A Justiça já me deu ganho de causa. Nós estamos discutindo nurn nível, que o govemo, por incompetência, nem tá per- cebendo que qualquer deslize ele vai ter que pagar perdas e danos e vai entrar numa fria que não tem no planeta. Agora nós queremos fazer um acordo. Só que eu não quero quebrar antes para ganhar dinheiro depois. Quero a preservação da empresa. As vezes, as pessoas acham que no Brasil só tem poder quem está perto do poder. ISTOÉ - Como dá para separar a ami- zade do poder? Mendes - Um exemplo: com'o Samey, só perdi. Ele me encheu o saco para eu ir trabalhar naquela merda daquele Maranhão. Eu caí na bes- teira de ir para lá. Eles diziam: “Tem que trabalhar de graça, por- que o Estado é pobre. " ISTOÉ - 0 Sarney também o convidou para o Ministério do Exterior? Mendes - Foi. Em primeiro lu- gar, não tenho saco. Segundo, conheço o Itamaraty, não é mi- nha praia. Terceiro, não quero trabalhar com a porra do Sar- ney. Nem sei como ele é meu amigo. O que acontece, na ver- dade, é que o Brasil tem que se desligar dessa merda. Tudo o que se consegue é com a amizade. Amizade é bom, mas tem que saber separar as coisas. E- í n l 'n' . . . , Tancredo: caixinha Tinha uma certa hierarquia, a começar pela Camargo. A Odebrecht é especialista em índices de ajuda ISTOÉ - Recentemente, o sr. esteve com o ministro Serjião? Mendes - Estive. ISTOÉ - Por causa da amizade dele com o presidente? Mendes - Não. É porque ele tem força lá. Ele se interessou e isso é bom. E um homem mais operacional. A con- versa dele não é conversa de bêbado com delegado. ISTOÉ - Mas dá uma conversa de em- preiteiro? Mendes - Até que dá. ISTOÉ - E o Tancredo? Mendes - Tinha relações muito antigas com ele. Às vezes o ajudava em cam- panha. Ajudei o Tancredo emcampanha. Com o Sarney, só perdi. , Ele me encheu para trabalhar no Maranhão . .,. _, lr , Í l 1' I x' . ' ã - a › : t1 l « í › Ê i ! | eo e '-57' , wí . tz l / l _ _ V - f. m É . ..a É UJ o D [E -“ 5 / iiç lã t. . i A Sarney: intimidade A ISTOÉ - Em Minas o sr. sempre esteve preocupado com a suces- são. Teve alguém que não pas- sou na Mendes Jr. para pedir a _ bênção? Mendes - Não lembro. ISTOÉ - 0 PT já pediu ajuda? _ 0 Lula? campanha presidencial. ! Juc/ Knoonueuzs ISTOÉ - O sr. chegava a fazer padrões ou índices para ajudar alguém? Por exemplo, ajudar candidato com mais de 3% de chance? Mendes - Não, não tenho essa organização toda não. A Ode- brecht é que é especialista nisso. ISTOÉ - Depois que o Tancre- do foi governador de Minas e se lançou E na Presidência, ele apresentou algum go- vernador da safra dele para o senhor? Mendes - Quem era da safra dele? ISTOÉ - Jiílio Campos, por exemplo. Mendes - E possível. ISTOÉ - O sr. chegou a pagar despesas médicas da secretária particular de Sar- ney, Vera Sabará, a pedido dele? Mendes - Ajudei ela sim. Mas não a pe- i dido do Sarney. Era uma grande amiga. ISTOÉ - 0 sr. chegou a acompanhar comitivas empresariais dos governos em ' viagens ao Exterior? Mendes - Houve época que essa babaqui- ce era padrão. Era de bom-tom estar lá. Não que você seria retaliado, mas era des- cortês. Eram um chute no saco nada, não se conseguia benefício algum. Detesto essas merdas. ISTOÉ - FHC tem falado em resgatar a Transamazônica. Mendes - Gente, o problema é o seguinte: nós precisamos deixar a retórica de lado. Tem vários projetos sem o menor sentido. São de uma cretinice 3› . cósmica, é um contrasenso, uma imbecilidade econômica total. Outra coisa: um país como o nosso, federalizado, cujo o Estado mais forte, que é São Paulo, quebra e fica na dependência da Federação é um absurdo. Não existe nada parecido com o Frankenstein que temos aqui. ? ÃEÉTEABÚÉÉR 4T A Mendes - o PT pediu ajuda na Í essas viagens. Não servia para j
  7. 7. MAX PINTO l"§4"”"""'*'1i jf' 'o _ *re-nrz-“s-a 14/FEVEREIRO/96 l l í “N” 41;_ , f "i Í NÚMERO 1376 llRAGENl DESTA EDIÇÃO: 498.841 EXEMPLARES l e Fi“Í. '!F*iYlPFí s “"' 'E' II , f; «Fill 31.3. m, m. u¡ L . ÍI. 4 a coLôlíiBlA: A incerteza do destino do presidente Semper agrava a crise política e a tensão social . ... .. . . 92 i iPO-lt tiieirmãeo E SALÁRIOS 'Íüg 'E' . : E IMP¡ ii : :artesão í; i . i4 SINDICALISMO: Tudo sobre os verdadeiros exércitos particulares, pagos com imposto sindical . ... ... ... ... ... ... . _.34 CAPA: Pesquisa revela que o desemprego cresce e passa aser a maior preocupação dos brasileiros . ... ... ... ... ... ... ... . . . 22 ELEIÇÕES: A disputa pela prefeitura paulistana toma novos rumos com a provável candidatura de Sérgio Motta. .., 2B JUSTIÇA: Um erro judiciário leva o pedreiro Antonio Nunes de Oliveira a conhecer o inferno através de sevícias nas mãos de policiais e presos . ... ... ... ... .. 38 CIDADE: Baixo meretrício carioca é expulso do Estácio e renasce no centro do Rio de Janeiro . ... ... ... ... ... ... ... . . . 44 lSTOÉ/1376-14/2/96 v PEDRO ; reuso i, -: a í CLN. .., ., queens em polvorosa com a vinda de RuPaul ao Rio de Janeiro . ...88 AVIAÇÃO: Com tráfego intenso, Congonhas tem atrasos diários nas decolagens . ... ... ... ... ... ... .. _.49 ECOLOGIA: Biólogo põe o pé na estrada e refaz caminho de naturalistas do século XIX . ... .. 72 FUTEBOL: Nuno Leal Maia assume o Londrina e dá esperança de conquistas . ... .. . . 75 AIDS: Apesar do HIV, Magic Johnson esbanja vitalidade na volta às quadras de basquete . ... ... ... .. . . 78 SERVIÇO: As vendas de carros continuam aquecidas, mas o cliente sofre para ser atendido nas revendedoras . ... ... ... ... . . . 108 O empreiteiro fala U seria sempre notícia, isso se empreiteiro falasse. Empreiteiro, no Brasil, aprendeu a falar o míni- mo e sempre tentar ganhar o máximo. Mais do que isso, alguns episódios da história recente sugerem que empreiteiro de obra pública não deveria usar agenda, e jamais, em hipótese alguma, deveria guar- dar anotações e/ ou lembretes de-fatos passados em pastas ou similares. Isso no plano dos hábitos pesso» ais. No operacional propriamente dito, ao fazer um orçamento é imprescindível que o empreiteiro não se esqueça de embutir uma série de custos. Dele, devem constar, por exemplo, as propinas que fazem as delí- cias dos burocratas instalados em postos-cha- ves da administração e responsáveis pelo "en- caminhamento" adequado da proposta. São regrinhas simples, mas eficientes, que constituíam o "manual do bom empreiteiro" e vigoraram durante muitos anos. Até que lhes foi acrescentada mais uma, a de incluir nos custos de uma obra a "taxa de iriadim- plência". Ou seja, um adicional em que o empreiteiro precavido já embutia, a priori, uma estimativa do custo “financeird” do tem~ po que levaria para receber o que o govemo lhe deveria pagar. Essa providência, claro, agregaria mais um punhado de funcionários na lista das propinas, aqueles que poderiam “encaminhar” agora a liberação da grana. Vivendo em meio a esse relacionamento promíscuo, os empreiteiros aprenderam muito cedo as vantagens da discrição e do silêncio e, ao mesmo tempo, sua atividade passou a ser sinônimo de ne- gócios mais ou menos escusos. Portanto, nada mais justo, em termos do interesse público, que esta edi- ção de ISTOÉ traga uma matéria excepcional, uma entrevista de um empreiteiro em que ele traça, com lances de um humor amargo e' na sua linguagem característica, um mapa da mina dos negócios en- volvendo seus colegas e govemantes. O resultado é ^ revelador de um período da nossa história recentís- _ sima. Nem podia ser diferente tratando-se de Muril- lo Mendes, dono da poderosa Mendes Jr. Como lem- bram o redator-chefe, Luciano Suassuna, e o editor, Carlos José Marques, autores da entrevista, as liga- ções entre os brasileiros e a Mendes Jr. acontecem a todo momento. Por exemplo, quando um cidadão acende a luz. Entre inúmeras proezas, a Mendes Jr. construiu Itaipu, incluída entre as maravilhas do mun- do, praticamente sozinha. Quanto ã figura de Muril- lo Mendes, bastaria um depoimento de alguém que conhece o rar/ no: “O Murillo é um empresário que qualquer país do mundo se sentiria honrado em ter”, diz o ex-ministro Delfim Netto. Esse empresário, no Brasil, está à beira da falência. ' ' Darci/ Fino GIRALDEZ 15 m depoimento de um dono de grande empreiteira i

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