Todos os dias

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Todos os dias

  1. 1. Todos os dias Todos os dias morre um amor. Quase nunca percebemos, mas todos os dias morre um amor. Às vezes de forma lenta e gradativa, quase indolor, após anos e anos de rotina. Às vezes melodramaticamente, como nas piores novelas mexicanas, com direito a bate-bocas vexaminosos, capazes de acordar o mais surdo dos vizinhos. Pode morrer em uma cama de motel ou simplesmente em frente à televisão de domingo. Morre sem um beijo antes de dormir, sem mãos dadas, sem olhares compreensivos, com um gosto salgado de uma lágrima nos lábios. Morre depois de telefonemas cada vez mais espaçados, diálogos cada vez mais resumidos, de beijos cada vez mais gelados... Morre da mais completa e letal inanição! Clique após ler a página.
  2. 2. Todos os dias morre um amor, embora nós, românticos mais na teoria do que na prática, relutemos sem admitir. Pode morrer como uma explosão, seguida de um suspiro profundo (porque nada é mais dolorido do que a constatação de um fracasso), de saber que, mais uma vez, um amor morreu. Porque, por mais que não queiramos aprender, a vida sempre nos ensina alguma coisa. Esta é a lição: qualquer amor pode morrer! Todos os dias, um amor é assassinado. Com a adaga do tédio, a cicuta da indiferença, a forca do escárnio, a metralhadora da traição. A sacola de presentes devolvidos, os ponteiros tiquetaqueando no relógio, o silêncio insuportável depois de uma discussão: todo crime deixa evidências. Todos nós podemos ser um assassino. E podemos agir como age um assassino: podemos nos esconder debaixo das cobertas, podemos nos refugiar em salas de cinema vazias, ou preferir trabalhar que nem um louco, ou viajar para "espairecer", ou confessar a culpa em altos brados, fazendo do garçom o seu confidente...
  3. 3. Mas há também aqueles que negam, veementemente, a sua participação no crime, e buscam por novas vítimas em salas de bate-papo ou pistas de danceteria, sem dor ou remorso. Os mais periculosos aproveitam sua experiência de criminosos para escreverem livros de auto-ajuda, com a ironia de quem tem muito a ensinar para os corações ainda puros. Existem também os amores que clamam por um tiro de misericórdia: ainda estão juntos, mas se comportam como um cavalo ferido, esperando ser sacrificado. Existem também os amores-fantasmas, aqueles que se recusam a admitir que já morreram. São capazes de perdurar anos, como mortos vivos sobre a Terra, teimando em resistir apesar das camas separadas, beijos frios e burocráticos, e sexo sem tesão. Estes não querem ser sacrificados, mas irão definhar aos poucos, até se tornarem como laranjas chupadas. Existem ainda os amores-vegetais; aqueles que vivem em permanente estado de letargia, que se refugiam em fantasias platônicas, recordando até o fim de seus dias o sorriso daquela ruivinha da 4ª série. Ou se faz presente na fã que até hoje suspira e delira em frente a um pôster do Elvis Presley.
  4. 4. Mas eu, quase já desistindo da minha busca, pude encontrar uma outra classificação: os amores-vencedores. Aqueles que - apesar da luta diária pela sobrevivência, das infinitas contas a pagar, da paixão que decresce com o decorrer dos anos, da mesa-redonda no final de domingo, das calcinhas penduradas no chuveiro e das brigas que não levam a nada - ressuscitam das cinzas e se revelam fortes, pacientes e esperançosos. Mas estes são raríssimos, e há quem duvide de sua existência. São de uma beleza tão pura e rara que parecem lendas. Um dia vou colocar um anúncio bem espalhafatoso no jornal: PROCURA-SE UM AMOR - OFEREÇO GENEROSA RECOMPENSA.
  5. 5. Mas, no fundo, sei que ele não surgiria como por acaso. O que esses poucos vencedores falam é de que esse amor foi suado, trabalhado, bem administrado nas centenas de situações do cotidiano. Não é um presente de loteria, de sorte, nem de magia. É simplesmente o resultado concreto daquilo que foi um relacionamento maduro e crescente entre duas pessoas. Texto de Inagaki www.mensagensvirtuais.com.br

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