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O feretro

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O feretro
De onde estou, posso vê-los perfeita
mente!
Chegam cabisbaixos, respeitosos,
cumprimentam-se uns aos outros e vão
se aproximando do caixão coberto de
flores: rosas vermelhas. É onde
descansa o corpo sem vida da velha
tia!
As lágrimas descem pelas faces amarelecidas
dos mais velhos, enquanto os mais jovens em-
saiam um choro manso: Apenas molham os olhos...
Revejo-os um a um de onde estou!
Olhe aquele sobrinho que eu não
via há dez anos! como será que
soube de minha morte? aquele outro,
ali no canto de mãos postas, parece
rezar! como está gordo e forte! Não o via há
mais de quinze anos!
Olha a sobrinha Naná, casada, com o marido ao
lado. Parece triste com a morte da velha tia.
Por que? Sempre arranjava uma desculpa para não
ir visitar-me: Um dia eram os filhos, outro
dia o trabalho que era demais; a casa para cui-
dar; o marido que vinha para jantar. Imaginem!
morando na mesma cidade!
Outra sobrinha, em soluços, debruçava-se sobre
o caixão! Mas porque será que chorava tanto?
Afinal, vivia uma vida boa, nunca se lembrava da
velha tia. Estava sempre na praia... Jamais se lem-
brava de levá-la para tomar um solzinho! Mas ela
reconhecia: Velhos incomodam mesmo! andam
devagar; não enxergam direito; querem ir ao ba-
nheiro nas horas mais impróprias e outras cositas
mas... Ela estava na dela. A tia tão branquinha,
parecia ser transparente no caixão! Entre rosas
vermelhas, destacava-se o rosto bonito e pálido; os
lábios vermelhos pelo baton, parecia mostrar um
leve sorriso...
Afinal, ela sempre achara que viver tinha limites, porque depois
de uma certa idade começavam a aparecer as ferrugens, as dores,
os reumatismos. Tudo despencava e a pele antes lisa e bonita,
tornava-se flácida... As pernas ficavam endurecidas para o passo;
já não obedeciam ao comando do cérebro. Ainda bem que com ela,
este fora preservado! Tinha um bom discernimento
das coisas, ótima memória para a idade e percebia
tudo o que se passava ao seu redor.
Agora passava os dias na cadeira de balanço a
tricotar enquanto a vista permitisse. Já não podia
ler um bom livro! E ninguém para discutir assuntos
atuais. Mas quem se disporia a ler para ela ouvir?
A família era grande, mas naquela casinha
azul , de esquina, ninguém batia á porta para uma
visita, apenas os pobre a pedir esmolas.
Agora, tudo ficara no lugar onde sempre estivera:
A xícara para o chá sobre o pires; a panelinha para o mingau no
fogão, a lata de bolachas para acompanhar o chá no armário!
Sua existência fora se resumindo a quase nada.
Dois ou três vestidos para trocar; o velho chinelo meio gasto pelo
uso. Na sala a televisão ficara sobre a mesinha. Gostava de acom-
panhar os programas de TV mas ouvia com dificuldade...
Continuavam chegando os parentes! Quanta gente
que ela não via há anos! Nem mais os reconhecia!!!
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Olha fulana, dizia a outra: - Como está gorda!!! Vou indicar-lhe
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Um grupo se aproximava; era um de seus sobrinhos
mais velhos. Junto dele a família. Todos sérios e circunspectos...
a mulher deixava escapar algumas lágrimas. Cumprimentaram as
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  • 2. De onde estou, posso vê-los perfeita mente! Chegam cabisbaixos, respeitosos, cumprimentam-se uns aos outros e vão se aproximando do caixão coberto de flores: rosas vermelhas. É onde descansa o corpo sem vida da velha tia! As lágrimas descem pelas faces amarelecidas dos mais velhos, enquanto os mais jovens em- saiam um choro manso: Apenas molham os olhos... Revejo-os um a um de onde estou!
  • 3. Olhe aquele sobrinho que eu não via há dez anos! como será que soube de minha morte? aquele outro, ali no canto de mãos postas, parece rezar! como está gordo e forte! Não o via há mais de quinze anos! Olha a sobrinha Naná, casada, com o marido ao lado. Parece triste com a morte da velha tia. Por que? Sempre arranjava uma desculpa para não ir visitar-me: Um dia eram os filhos, outro dia o trabalho que era demais; a casa para cui- dar; o marido que vinha para jantar. Imaginem! morando na mesma cidade! Outra sobrinha, em soluços, debruçava-se sobre o caixão! Mas porque será que chorava tanto?
  • 4. Afinal, vivia uma vida boa, nunca se lembrava da velha tia. Estava sempre na praia... Jamais se lem- brava de levá-la para tomar um solzinho! Mas ela reconhecia: Velhos incomodam mesmo! andam devagar; não enxergam direito; querem ir ao ba- nheiro nas horas mais impróprias e outras cositas mas... Ela estava na dela. A tia tão branquinha, parecia ser transparente no caixão! Entre rosas vermelhas, destacava-se o rosto bonito e pálido; os lábios vermelhos pelo baton, parecia mostrar um leve sorriso... Afinal, ela sempre achara que viver tinha limites, porque depois de uma certa idade começavam a aparecer as ferrugens, as dores, os reumatismos. Tudo despencava e a pele antes lisa e bonita, tornava-se flácida... As pernas ficavam endurecidas para o passo; já não obedeciam ao comando do cérebro. Ainda bem que com ela,
  • 5. este fora preservado! Tinha um bom discernimento das coisas, ótima memória para a idade e percebia tudo o que se passava ao seu redor. Agora passava os dias na cadeira de balanço a tricotar enquanto a vista permitisse. Já não podia ler um bom livro! E ninguém para discutir assuntos atuais. Mas quem se disporia a ler para ela ouvir? A família era grande, mas naquela casinha azul , de esquina, ninguém batia á porta para uma visita, apenas os pobre a pedir esmolas. Agora, tudo ficara no lugar onde sempre estivera: A xícara para o chá sobre o pires; a panelinha para o mingau no fogão, a lata de bolachas para acompanhar o chá no armário! Sua existência fora se resumindo a quase nada. Dois ou três vestidos para trocar; o velho chinelo meio gasto pelo uso. Na sala a televisão ficara sobre a mesinha. Gostava de acom- panhar os programas de TV mas ouvia com dificuldade...
  • 6. Continuavam chegando os parentes! Quanta gente que ela não via há anos! Nem mais os reconhecia!!! Alguns, percebia-se, vieram de longe. Ela podia ouvir perfeitamente as conversas! - Como ela era boa! e como era alegre! - Gostava tanto da vida, e agora assim tão de repente... - Vamos sentir falta dela... Falavam-se uns com os outros, trocando notícias. Aproveitando a oportunidade do encontro. Afinal era difícil a família se reunir! Olha fulana, dizia a outra: - Como está gorda!!! Vou indicar-lhe um regime que é tiro e queda!!! Um grupo se aproximava; era um de seus sobrinhos mais velhos. Junto dele a família. Todos sérios e circunspectos... a mulher deixava escapar algumas lágrimas. Cumprimentaram as demais pessoas e dirigiram-se até o caixão onde repousava a velha
  • 7. Tia! Em suas mãos alvas e enrijecidas pela morte, um rosário de contas de cristal... A mulher, ajeitou o rosário, pousou as mãos sobre as mãos inertes da velha tia e chorou... Bem, não se viam há anos. A última vez que se encontraram foi quando nasceu o caçula e ela, a tia, tinha ido conhecer. Imagine! Estava um rapagão!!! Alguns vizinhos e conhecidos faziam parte daquela última homenagem a velha tia. Ela se lembrava, quando ficava sentada na varanda, olhando a rua, uns e outros passavam e alguns paravam para uma prosa! Poucos a visitavam. Ao entardecer, entrava e ia rezar no oratório a Ave- Maria! Isto era uma rotina diária. Lembrava-se em suas orações de todos e ia repetindo os nomes, pedindo que Jesus lhes desse saúde, paz...
  • 8. Firmou o olhar para baixo a procura da sobrinha que não lhe faltava nunca! Ela lá estava, sentada no banco, perto do caixão. Tinha a fisionomia triste, olhos inchados. Levantava-se ás vezes para olhar de perto a tia. Seus olhos marejavam de lágrimas que desciam pelo rosto. A Tia pensou : - Quanta amizade havia entre as duas e agora ela estava de partida. Mas jamais a abandonaria em todas as suas necessidades. Velaria por ela lá onde ficaria. Sentiu um calor percorre-la: eram os amigos chegando. Amigos de muitos anos! Pensou: A amizade é um senti- mento maravilhoso. Nasce, vive e raramente se extingue. O amor já era um sentimento mais exigente. pensou: Agora ela ia encon- trar-se com ele. Seu grande amor; tão paciente, tão amigo e compa- nheiro!!! Não ficou para ver o término de seu féretro! Olhou mais para o alto e uma luz forte quase a cegou!
  • 9. Forçou a vista! então ficou deslumbrada! sua mãe, estendia-lhe os braços sorridente; a irmã mais velha, sua madrinha, chamava-a pelo nome; os irmãos que já tinham ido sorriam-lhe de braços es- tendidos para o abraço! Seus tios e tias, seus avós, todos a aguardavam como se espera um tesouro! Que festa!!! Quanta luz havia!!! Quanto calor humano!!! Nem siquer virou-se para olhar para baixo. Pensou: " deixe que os mortos, enterrem os seus mortos! " Agora, tudo era paz! Agora tudo era alegria! O amor triunfara! A verdadeira vida principiava!!! Autora: FAUSTA NOGUEIRA PACHECO