02.23 a mania das colecções

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02.23 a mania das colecções

  1. 1. A MANIA DAS COLECÇÕES Tenho um vizinho que é coleccionador. De quê? Deselos? De moedas? De caixas de fósforos? De garrafinhasde licor? De bilhetes-postais? De revistas antigas? Nada disso. O meu vizinho do lado é coleccionador, masde chapéus. Lá em casa, logo à entrada, tem um bengaleiro, que é ummuseu de chapelaria. Quem lhe não conhecer a mania e seficar pela entrada, julgará que o senhor tem lá em casa, àconversa, no salão, uma quantidade de cavalheiros de todasas épocas… E se tivesse? Se tivesse, pelo que se calculados chapéus pendurados, a casa do meu vizinho seria umbaile de máscaras permanente. Se não reparem: Um chapéu de plumas à mosqueteiro, um fez à turca, que parece um vaso sem flores, 1
  2. 2. um chapéu de abat-jour, de um chinês de antigamente, um chapéu alto, como usavam os nossos bisavós,quando não usavam chapéu de coco, um chapéu de almirante, que parece um barco virado aocontrário, um capacete com um bico no alto, a servir de pára-raios, um chapéu de palha, a que qualquer burro competentechamaria um figo, um barrete de campino, mais garrido que uma bandeira, um tricórnio, de que nunca se sabe qual é o lado dafrente, um chapéu de explorador africano que, depois depintado, já serviu a um polícia sinaleiro de antigamente e muitos, muitos mais chapéus… É uma pena que o meu vizinho do lado vá acabar com acolecção. E porquê? Explicou-me ele: – Estão aqui muitas viagens, muita despesa, muitaaventura. São o meu orgulho, pode crer. Mas a verdade éque, agora, já me cansam. Vê-los assim, pendurados, sempréstimo, na sombra do bengaleiro, fazem-me impressão.Parece que os tirei a quem pertenciam. Enervam-me,tiram-me o sono. Quero ver-me livre deles. – E como? – perguntei. – Ponho um anúncio – explicou-me o coleccionador. –Cada pessoa que vier leva um chapéu de graça. Mas tem deprometer que não o tira da cabeça, até ao fim da rua. – Quero estar cá, à janela, para ver isso ! – exclamei,entusiasmado. Não calculam o espectáculo. Parecia um dia deCarnaval, como aqueles que já não há. Só visto. 2
  3. 3. – E agora? – perguntei eu ao meu vizinho do lado,quando passei lá por casa. – Está mais aliviado? – Nem por isso – suspirou ele. – Sinto-me, de repente,mais pobre, mais desacompanhado. Parece-me que voucomeçar outra colecção. – Outra vez de chapéus? – quis eu saber. – Não, essa já deu o que tinha a dar. Vou pôr-me emcampo para uma nova colecção, mas de sapatos. – Novos? – intriguei-me. – De forma alguma. Antigos, isto é, velhos, cambados,gastos. Quero coleccionar sapatos com muita andadura,muita experiência de estrada na sola dos pés. E o meu vizinho olhava para os meus sapatos, comparticular interesse… O que havia eu de fazer? Ofereci-lhos para início decolecção e, descalço, atravessei o patamar até à minhacasa. Entre vizinhos, temos de ser uns para os outros. FIM 3

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