Leonardo e Efire

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Os Lusíadas, Episódio de Leonardo e Efire, paráfrase, Expresso

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Leonardo e Efire

  1. 1. Leonardo e Efire
  2. 2. 75 Leonardo, soldado bem disposto, Manhoso, cavaleiro e namorado, A quem Amor não dera um só desgosto, Mas sempre fora dele mal tratado, E tinha já por firme pressuposto Ser com amores mal-afortunado, Porém não que perdesse a esperança De ainda poder seu fado ter mudança, Leonardo, rapaz de boa presença, com qualidades, cavaleiro e dado a amores, a quem Amor não dera apenas um desgosto, mas sempre o tratara mal, e que já sabia que não era feliz em amores. Porém, ainda não perdera a esperança de mudar a sua sorte.
  3. 3. 76 Quis aqui sua ventura que corria Após Efire, exemplo de beleza, Que mais caro que as outras dar queria O que deu, para dar-se a Natureza. Já cansado, correndo, lhe dizia: “Ó fermosura indigna de aspereza, Pois desta vida te concedo a palma, Espera um corpo de quem levas a alma! Quis o destino que Leonardo corresse atrás de Efire, exemplo de beleza, que se mostrava mais esquiva que qualquer das outras ninfas. Enquanto corria, dizia-lhe: “Ó formosura em quem não fica bem a crueldade, já és dona da minha alma, espera também pelo meu corpo.”
  4. 4. 77 Todas de correr cansam, Ninfa pura, Rendendo-se à vontade do inimigo; Tu só de mi só foges na espessura? Quem te disse que eu era o que te sigo? Se to tem dito já aquela ventura Que em toda a parte sempre anda comigo, Oh!, não na creias, porque eu, quando a cria, Mil vezes cada hora me mentia. Todas se cansam de correr, e só tu foges de mim? Quem te disse que era eu? Se to disse a má sorte que sempre me acompanha, não acredites nela, porque eu fui enganado sempre que nela acreditei.
  5. 5. 78 Não canses, que me cansas; e, se queres Fugir-me, por que não possa tocar-te, Minha ventura é tal, que, inda que esperes, Ela fará que não possa alcançar-te. Espera; quero ver, se tu quiseres, Que sutil modo busca de escapar-te; E notarás, no fim deste sucesso, Tra la spica e la man qual muro he messo. Não canses, que me cansas! Se foges de mim para que eu te não possa tocar, espera por mim, e verá que, mesmo que esperes, eu nunca te alcançarei. Espera, e vamos ver que subtil forma encontra agora a minha pouca sorte para me escapar. E no fim verás “tra la spica e la man qual muro he messo” (entre a espiga e a mão levanta-se sempre um muro, ou seja, quando parece que está prestes a alcançar-se o que se deseja, surge um obstáculo intransponível)
  6. 6. Não fujas. E também não fuja o breve tempo da tua formosura. Tu podes, só com abrandar o passo, conseguir o que nunca conseguiram imperadores e exércitos: vencer a força do destino, que sempre me perseguiu em tudo o que desejei. 79 Oh! Não me fujas! Assim nunca o breve Tempo fuja de tua fermosura; Que só com o referear o passo leve, Vencerás da Fortuna a força dura. Que Emperador, que exército, se atreve, A quebrantar a fúria da ventura Que, em quanto desejei, me vai seguindo, O que tu só farás não me fugindo?
  7. 7. Tomas o partido da minha desgraça? É fraqueza dar ajuda ao mais forte contra o mais fraco. Levas contigo o meu coração? Larga-o, e correrás mais depressa. Não te sentes carregada pelo peso desta alma que levas enredada nos teus cabelos de ouro? Ou, depois de a prenderes, mudaste-lhe o destino, que passou a pesar menos? 80 Pões-te da parte da desdita minha? Fraqueza é dar ajuda ao mais potente. Levas-me o coração que livre tinha? Solta-mo, e correrás mais levemente. Não te carrega essa alma tão mesquinha Que nesses fios de ouro reluzente Atada levas? Ou, depois de presa, Lhe mudaste a ventura, e menos pesa?
  8. 8. 81 Nesta esperança te vou seguindo: Que ou tu não sofrerás o peso dela, Ou, na virtude de teu gesto lindo, Lhe mudarás a triste e dura estrela. E, se se lhe mudar não vás fugindo, Que Amor te ferirá, gentil donzela, E tu me esperarás, se Amor te fere; E, se me esperas, não há mais que espere.” Nesta única esperança te vou seguindo: ou tu não aguentas o peso da minha alma, ou a força da tua beleza lhe mudará a triste e dura estrela. Se mudar, não fujas mais, porque amor te ferirá, e então serás tu a esperar-me. E, se me esperas, nada mais espero.”
  9. 9. 82 Já não fugia a bela Ninfa, tanto Por se dar cara ao triste que a seguia, Como por ir ouvindo o doce canto, As namoradas mágoas que dizia. Volvendo o rosto, já sereno e santo, Toda banhada em riso e alegria, Cair se deixa aos pés do vencedor, Que todo se desfaz em puro amor. A linda ninfa fugia, já não tanto para se fazer difícil, como a princípio, mas para ir ouvindo o doce canto e os queixumes apaixonados de Leonardo. E, já toda banhada de riso e de alegria, deixa-se cair aos pés do vencedor, que se desfaz em puro amor.
  10. 10. Toda a floresta ressoa de beijos famintos, de mimoso choro, de zangas depressa convertidas em risinhos. O que mais aconteceu naquela manhã e na sesta, é melhor experimentá-lo que imaginá-lo, mas imagine-o quem o não pode experimentar. 83 Oh! Que famintos beijos na floresta, E que mimoso choro que soava! Que afagos tão suaves, que ira honesta, Que em risinhos alegres se tornava! O que mais passam na manhã e na sesta, Que Vénus com prazeres inflamava, Melhor é experimentá-lo que julgá-lo; Mas que julgue quem não pode experimentá-lo.
  11. 11. Desta forma, já juntas as ninfas com os navegantes, enfeitam- nos com coroas de flores, louro e de ouro. Dão-se as mãos como esposas, e com palavras formais e estipulantes, prometeram-se eterna companhia na vida e na morte. 84 Destarte, enfim, conformes já as fermosas Ninfas cos seus amados navegantes, Os ornam de capelas deleitosas De louro e de ouro e flores abundantes. As mãos alvas lhe davam como esposas; Com palavras formais e estipulantes Se prometeram eterna companhia, Em vida e morte, de honra e alegria.

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