Literatura de Cordel   Teatro Popular
Texto teatral em linguagem de CordelApresentado pela primeira vez pelo Grupo Teatral daAssociação Amigos da Cultura de Jar...
CENA I[Banca na feira, com ervas, garrarfadas elambedores à mostra.Um bule com xícaras.Roselena é a vendedora.O NARRADOR e...
[NARRADOR]:  Boa noite a quem não vi  Deixe eu me aprochegar  Sou um contador de “causos”  Tô aqui pra apresentar  Um mago...
(Roselena)Tenho ervas pra venderQuero ver quem vai comprarAqui se encontra os segredosDa ciência milenar.Trato de toda doe...
[Mona entra em cena demonstrando falsidade e com traquejos          exagerados. Entra em cena se coçando]  [NARRADOR]  Rep...
Roselena, depois de olhar de perto, afasta-se bruscamente. Diz isso jogando o ungüento tomando certa distância, com certo ...
[NARRADOR]  Roselena deve estar pensando:  Essa agora é muito boa!!!  Lá vem essa peniqueira  Pensando que é patroa.  Essa...
(Mona)Nannh.. mulher me poupe.Você não sabe é de nada.Eu corro atrás dos vaqueirosEu vou é para a balada.Me tire esse cati...
[Roselena oferece uma xícara do tal chá que Mona o bebe fazendo                     careta e engulhando]                  ...
(Roselena)   Oração não se aprende   No currículo da escola.   Eu pratico minhas rezas   Tiradas dessa cachola   Vou lhe f...
(Roselena inicia)              (Mona complementa)São Bartolomeu,                casar-me quer eu.São Ludovico,            ...
[Ainda diante da banca de Roselena, entram Prazeres e Zé. Zé é empurrado por Prazeres que diz sua fala em tom de desaforo]...
(Prazeres)   Vou te ensinar a ser homem   Pedaço de cabra ruim.   Você comigo é na peia,   Vou lhe quebrar o fucim   Você ...
[Roselena dirige-se a Zé, de forma carinhosa](Roselena)Meu senhor, por caridadeVocê tá muito doente.Eu tenho aqui um recur...
[Roselena tenta chegar mais perto de Zé, com jeito dengoso]    (Roselena)    Minha senhora, me escute    Que eu sou do lad...
(Zé) [saindo de cena]      “Vida longa não alcanço      Na orgia ou no prazer.      Mas, enquanto eu não morrer      Bebo,...
CENA II[Na casa de Roselena, após chegar da feira. ONARRADOR fica o tempo da fala de Roselena lhe“apiruando” prestando ate...
(Roselena)Até que enfim cheguei!Que bom é voltar pro lar.Louvado seja meu DeusAgora vou descansar.Tô me sentindo enfadadaT...
[NARRADOR]    Mas ta!!!    É de se admirar    A rezadeira famosa    Não consegue se curar!    Faz pros outros chá de bosta...
(Gozalino)Me acuda RoselenaTô precisando de ocê.A minha vaca leiteiraAchou de adoecer.Já que não posso com elaTrago esse r...
[Roselena pega um ramo e começa a “rezar” sobre a foto](Roselena) [limpando o nariz com a gola do vestido e rezando]“Deus ...
(Gozalino)   Muito obrigado, Senhora   Deus lhe pague essa oração   Se eu não lhe trouxer um queijo   Trago o leite pro pi...
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  1. 1. Literatura de Cordel Teatro Popular
  2. 2. Texto teatral em linguagem de CordelApresentado pela primeira vez pelo Grupo Teatral daAssociação Amigos da Cultura de Jardim do Seridó-RNFotos:http://amigosdaculturadejardimdoserido.blogspot.com.br/ 2010 Autor: Marcos Jardim 2009
  3. 3. CENA I[Banca na feira, com ervas, garrarfadas elambedores à mostra.Um bule com xícaras.Roselena é a vendedora.O NARRADOR entra em cena fazendo seuscomentários como se tivesse em outro planodimensional.Em alguns momentos a cena é congelada para onarrador comentar.]
  4. 4. [NARRADOR]: Boa noite a quem não vi Deixe eu me aprochegar Sou um contador de “causos” Tô aqui pra apresentar Um magote de matuto Querendo se amostrar Essa aqui é Roselena Mulher boa (e perigosa!!!) Resolve toda ingresia De forma misteriosa Mistura o mundo profano Com crença religiosa.[O Narrador fala o texto abaixo mexendo nos produtos da banca] Aqui nessa sua banca De tudo tem um bocado Lambedor e garrafada Ervas e fumo torrado E aqui nessa chaleira Um resto de chá coado! (tira a tampa e cheira, repugnando)]
  5. 5. (Roselena)Tenho ervas pra venderQuero ver quem vai comprarAqui se encontra os segredosDa ciência milenar.Trato de toda doençaQuem tem fé e quem tem crençaVenha pr’aqui se curar. Menino com dor de bucho “Mão-fechada” é de primeira Assento de pau de ameixa Para mulher parideira Aqui não passo trambique Chá de boldo é arrelique Pra quem tá com caganeira. Tem também o capim-santo Que serve pra relaxar. Quem sofre de pressão alta Melhora só em cheirar. Mas cuidado, meu rapaz Você tomando demais É arriscado “brochar”.
  6. 6. [Mona entra em cena demonstrando falsidade e com traquejos exagerados. Entra em cena se coçando] [NARRADOR] Repare quem ta chegando!!! Né a filha de “coisinha”!?! Pense numa arrochada??!! Ela se acha a rainha Ela pensa que é a tal ... Num passa de uma “galinha”.] (Mona) Ei! Meu bem, Minha querida! Minha santa curandeira Vigie se aí num tem Alguma erva que cheira! Já tô ficando encarnada Já tô toda entabuada Com o diabo dessa coceira.
  7. 7. Roselena, depois de olhar de perto, afasta-se bruscamente. Diz isso jogando o ungüento tomando certa distância, com certo temor] (Roselena) Mas mulher! Num leve a mal O que eu vou dizer agora! Isso aí que você tem É a tal da catapora Isso pega até no vento! Vou lhe passar esse unguento E é bom você ir embora. (Mona) [ainda de forma exagerada, “se achando”] Mulher, vire essa boca Num me diga isso, nannh! Eu já tô com tudo pronto Doida que chegue amanhã... Mesmo estando aleijada Eu num perco a vaquejada Já fretei até a van!
  8. 8. [NARRADOR] Roselena deve estar pensando: Essa agora é muito boa!!! Lá vem essa peniqueira Pensando que é patroa. Essa aí num tem no cu O que o priquito roa”*1] (Roselena) Afff Maria, minha fia! Não seja exagerada! Apois essa catapora Vai lhe tirar da estrada. E adepois, eu num sabia Você é dessas novia Que corre nas vaquejada?*1 variação de um ditado popular.: “não tem no cu o que umpriquito merende” (pessoa paupérrima) Leonardo Mota –“Adagiário Brasileiro” – (2ª ed. 1991);
  9. 9. (Mona)Nannh.. mulher me poupe.Você não sabe é de nada.Eu corro atrás dos vaqueirosEu vou é para a balada.Me tire esse catimbóPois pobre no caritóÉ mesmo o fim da picada. (Roselena) Bem! Senhora ... senhorita... Espere aí mais um pouco. Para curar catapora E acabar seu sufoco Eu tenho aqui já prontinho Bem coado e bem quentinho O chá de fulô de toco.Essa bebida é famosaEu vendo é muito pra foraTem doutor que recomendaAté pras ricas senhoras!!Eles chamam de PODELASó sei que quem bebe delaAcaba com a catapora.
  10. 10. [Roselena oferece uma xícara do tal chá que Mona o bebe fazendo careta e engulhando] (Mona) Mas esse chá tem um gosto Que amarga bem na goela Só tando muito doente Pra tomar essa mazela! Só fede a bosta de gato Só cheira a merda de rato ... (Roselena): Mas né não, isso é PÓ-DELA. (Mona) Pelo visto esse seu chá Já está fazendo efeito Tô sentindo uns arrepios Estou ficando sem jeito. Ta subindo uma quentura Que vai aqui da cintura Até os bicos dos peitos. [Roselena torna a encher a xícara] Lhe faço mais um pedido Se você não se importar Peço pelo amor de Deus Que me ensine a rezar Um credo bem enxerido Prêu arrumar um marido E finalmente casar!!!
  11. 11. (Roselena) Oração não se aprende No currículo da escola. Eu pratico minhas rezas Tiradas dessa cachola Vou lhe fazer um favor Ensinando um louvor Pra lhe tirar dessa “sola”: .[Roselena faz menção para que Mona se ajoelhe, e faz a oração seguinte tocando-lhe com um ramo na cabeça] [NARRADOR] Roselena adora isso! É a reza de Santa Rita... Ladainha poderosa Para quem nela acredita Faz a moça velha e feia Pensar que é nova e bonita.
  12. 12. (Roselena inicia) (Mona complementa)São Bartolomeu, casar-me quer eu.São Ludovico, com um moço rico.São Nicolau, que ele não seja mau.São Vicente, que não seja impertinenteSão Sebastião, que nunca me falte o pão.Santa Felicidade, que me faça as vontades.São Benjamim, que tenha paixão por mimSanto André, que não tome rapé.Santo Aniceto, que ande bem quietoSão Miguel, que pendure a lua-de-mel.São Bento, que não seja ciumentoSanta Margarida, que me traga bem vestida.São Feliciano, que não passe desse ano *2 FIM DA CENA*2 superstição popular. Câmara Cascudo – “Superstição noBrasil” – (5ª ed. 2002); ladainha das moças, oração oferecida aSanta Rita, recitada e acompanhada de três Padre-Nossos eAve-Marias, com Glória Patri, pedindo que lhe favoreça ocasamento almejado.
  13. 13. [Ainda diante da banca de Roselena, entram Prazeres e Zé. Zé é empurrado por Prazeres que diz sua fala em tom de desaforo] [NARRADOR] Nesse segundo momento Chega um casal de artista É Maria dos Prazeres E Zé de Mané Calixta. O Zé quando tá melado Pensa que é repentista! . Ele inventa umas loas Mistura com as inventadas Vive só da boemia Não trabalha, não faz nada Suas mãos nunca empunharam O cabo de uma enxada. Vive às custas de Prazeres Mulher “zanha” e “vivedeira “ Cabocla de olhar “pidão” Tigresa assaz verdadeira Capaz de pular a cerca Pra quem lhe “abrir a porteira!”
  14. 14. (Prazeres) Vou te ensinar a ser homem Pedaço de cabra ruim. Você comigo é na peia, Vou lhe quebrar o fucim Você vai pro cabaré, Gastar com aquelas mulé Num sobra nada pra mim. [Zé diz sua fala com deboche, sempre querendo cair “pra cima de Roselena”] (Zé) “Duvido haver como este Um ditado mais profundo: Dinheiro e mulher bonita É quem governa este mundo” *3. O pior foi que eu casei Quando estava embriagado Arranjei esse DESENHO Agora estou aprumado.*3 adágio popular. Leonardo Mota – “Adagiário Brasileiro” – (2ªed. 1991);
  15. 15. [Roselena dirige-se a Zé, de forma carinhosa](Roselena)Meu senhor, por caridadeVocê tá muito doente.Eu tenho aqui um recursoPra lhe sarar num repenteUm gole desse chá-pretoFaz você ficar do jeitoDe um garanhão valente. (Prazeres) Sai pra lá, filha da égua Sua velha trambiqueira Afaste do meu marido Cachorra catimbozeira Essas suas garrafadas Nunca serviram pra nada Sua falsa curandeira! Eu já sei como curar A cana desse caboco Já estou acostumada Dele se fazer de louco. É só descer o chicote Bem no centro do cangote Até cair o reboco.
  16. 16. [Roselena tenta chegar mais perto de Zé, com jeito dengoso] (Roselena) Minha senhora, me escute Que eu sou do lado da paz Curandeira eu não sou não E rezar nunca é demais. Pra curar essa cachaça Dou-lhe a receita de graça: Lave os pés dele com gás! (Prazeres) [dando rabiçaca] Vamos embora, infeliz Cachorro de fim de feira Não sei o que foi que fiz Pra cair nessa besteira Pra ter casado contigo Só mesmo sendo um castigo Ou praga de feiticeira. (Zé) [“variando”] “O homem que bebe e joga Mulher que erra uma vez Cachorro que pega bode, Num tem jeito pra esses três!”*4*4 adágio popular. Leonardo Mota – “Adagiário Brasileiro” – (2ªed. 1991);
  17. 17. (Zé) [saindo de cena] “Vida longa não alcanço Na orgia ou no prazer. Mas, enquanto eu não morrer Bebo, fumo, jogo e danço! Brinco, farreio, não canso, Me censure quem quiser. Enquanto vida eu tiver Cumprindo essa sina venho E, além dos vícios que tenho, Sou perdido por mulher!”*5 . FIM DA CENA*5: do poeta norteriograndense Moisés Sésiom.
  18. 18. CENA II[Na casa de Roselena, após chegar da feira. ONARRADOR fica o tempo da fala de Roselena lhe“apiruando” prestando atenção aos detalhes dafala e fazendo gestos de quem está admirado]
  19. 19. (Roselena)Até que enfim cheguei!Que bom é voltar pro lar.Louvado seja meu DeusAgora vou descansar.Tô me sentindo enfadadaTô assim meio enjoadaParece que vou gripar!! Cruz-credo, cruz-credo Valei-me Nossa Senhora Será que eu vou pegar Essa tal gripe “da hora”? Pra essa gripe suína Não sei nem se tem vacina! O que é que faço agora? Tomar chá de fedegoso Talvez não dê resultado! Mel de abelha com limão Não me atrevo, é arriscado. E se um ofício eu rezar E a doença avançar Prum caso mais complicado???
  20. 20. [NARRADOR] Mas ta!!! É de se admirar A rezadeira famosa Não consegue se curar! Faz pros outros chá de bosta Mas duvido ela tomar!! Espie quem ta chegando!?! Não é o seu Gozalino? É o homem mais amarrado Desse solo nordestino. Esse aí tem mão-de-vaca. Ô molestado “mofino”![Gozalino chega batendo palma, trazendo consigo a foto de uma vaca recordada de uma embalagem de ração animal] (Gozalino) Ô de casa, ô de casa Pergunto se nela está. (Roselena) Se for de paz se aprochegue Se não for pode acuar. (Gozalino) Bendito seja Jesus! (Roselena) Louvada a Santa Cruz! Faça o favor, pode entrar.
  21. 21. (Gozalino)Me acuda RoselenaTô precisando de ocê.A minha vaca leiteiraAchou de adoecer.Já que não posso com elaTrago esse retrato delaPro mode você benzer. (Roselena) [disfarçando uns espirros] Viche, que coisa medonha Botaram foi um olhado Olho gordo é um perigo E esse foi bem botado. Isso é coisa de invejoso E foi de um preguiçoso Que mora bem ao seu lado.
  22. 22. [Roselena pega um ramo e começa a “rezar” sobre a foto](Roselena) [limpando o nariz com a gola do vestido e rezando]“Deus vai, Deus vemDiga vaca o quê que dóiDói vazi, dói perna e páDói boca, pestana e zóiO ubre, o leite,o mugidoA venta e os uvidoO capim que o bucho mói”. “Ô vaca preta, mimosa, Ô vaca branca malhada, Ô vaca môcha doente Ô vaca môcha amojada Três cruz, três cruz, três Três cruz e mais uma vez Ô vaca murcha curada!”
  23. 23. (Gozalino) Muito obrigado, Senhora Deus lhe pague essa oração Se eu não lhe trouxer um queijo Trago o leite pro pirão E se eu não lhe trouxer nada Lá na próxima invernada Lhe chamo pra apartação.[Gozalino diz os últimos versos espirrando, e sai de cena tossindo,e assoando o nariz] (Roselena) Atchimm FIM

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