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Licenças                      DO SANTO OFÍCIO   Podem-se tornar a imprimir os livros de que se trata, e depois deimpressos...
Visto estarem conformes com o original, podem correr.  LisboaOcidental, 10 de setembro de 1737.                          ...
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XI – Da cruel espada de angústia que traspassou o coração da Virgemao pé da Cruz e em sua Soledade...........................
Meditações sobre os principais mistérios da Virgem Santíssima Senhora Nossa                                               ...
Padre Manuel Bernardesnitamente estava longe de nós por sua natureza, a estar intimamenteconosco pela Encarnação; e a Senh...
Meditações sobre os principais mistérios da Virgem Santíssima Senhora NossaSantíssima. E como nos esquecemos da devoção co...
Padre Manuel Bernardes                                   § IIE          seja a primeira. Porque, quando usamos de algum be...
Meditações sobre os principais mistérios da Virgem Santíssima Senhora Nossae tentações, e mais próprio de hipócritas: Noli...
Padre Manuel Bernardes                                               § IVT          erceira. Porque, ordinariamente, todos...
Meditações sobre os principais mistérios da Virgem Santíssima Senhora Nossasuas puríssimas entranhas ministrou para encara...
Padre Manuel Bernardesassombrados da nossa salvação. Assim o afirmam os Santos Padres,fundando-se naquela Escritura dos Pr...
Meditações sobre os principais mistérios da Virgem Santíssima Senhora Nossaquem invoque o vosso nome e vos reporte. Mas po...
Padre Manuel Bernardespara defender-nos dos inimigos: Ubera mea sicut turris 20. Ela permaneceuimóvel, direta e segura, co...
Meditações sobre os principais mistérios da Virgem Santíssima Senhora NossaAnastácio Sinaíta) vidi viros centum annos nato...
Padre Manuel Bernardesvore dessas, a qual é fama que, passando por ali a Virgem com seu dulcís-simo Menino, a apresentá-lo...
Meditações sobre os principais mistérios da Virgem Santíssima Senhora Nossapescoço e censo anual pago para maior decoro e ...
Padre Manuel Bernardessuas camas de noite, fazendo de joelhos oração fervente por cada um,na qual pedia não caísse em peca...
Meditações sobre os principais mistérios da Virgem Santíssima Senhora Nossadois religiosos o viram, estático, estar em dis...
Meditações sobre os principais mistérios da Virgem Santíssima Senhora Nossa                                           §IC ...
Padre Manuel Bernardes                            De seu ser, lustre à impureza                            Da planta, onde...
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  1. 1. Padre Manuel Bernardes (1644-1710)Meditações sobre os principais mistérios da Virgem Santíssima Senhora Nossa Mãe de Deus, Rainha dos Anjos e Advogada dos Pecadores Oferecidas à mesma Senhora 1ª EDIçÃO 2010 Editora Pinus Brasília
  2. 2. © 2010 Editora Pinuswww.editorapinus.com.brTodos os direitos reservados.Revisão:3GB Consulting e Alexandre PinheiroCapa:Pulsar DesignProjeto gráfico e diagramação:Yara Borghi Campi Bernardes, Manuel, Padre. Meditações sobre os principais mistérios da Virgem Santíssima Senhora Nossa Mãe de Deus, Rainha dos Anjos e Advogada dos Pecadores oferecidas à mesma Senhora / Padre Manuel Bernardes (1644-1710). — 1. ed. — Brasília : Ed. Pinus, 2010. xxxp. ISBN: 978-85-63176-01-1 1. Literatura portuguesa. 2. Meditação. 3. Oração mental. 4. Mariologia. I. Título. CDU 821.134.3 CDU 27-583 CDU 27-312.47
  3. 3. Licenças DO SANTO OFÍCIO Podem-se tornar a imprimir os livros de que se trata, e depois deimpressos tornarão conferidos para se dar licença que corram, sem aqual não correrão.  Lisboa Ocidental, 22 de março de 1737. Alancastre. Teixeira. Silva. Soares. Abreu DO ordinário Podem-se tornar a imprimir os livros de que se trata, e depois de im-pressos tornarão para conferir e dar licença para que corram.  LisboaOcidental, 22 de março de 1737. Gouveia do paço Que se possam tornar a imprimir vistas as licenças do Santo Ofício eOrdinário, e depois de impressos tornarão à Mesa para se conferirem e tax-arem, e sem isso não correrão.  Lisboa Ocidental, 7 de julho de 1737. Pereira. Teixeira Estes livros estão conformes com o original.  Lisboa Ocidental eCongregação do Oratório, 10 de setembro de 1737. José Troiano
  4. 4. Visto estarem conformes com o original, podem correr.  LisboaOcidental, 10 de setembro de 1737. Alancastre. Teixeira. Soares. Abreu. Visto estarem conformes com o original, podem correr.  LisboaOcidental, 12 de setembro de 1737. Gouveia Que possa correr, e taxam e, setecentos réis.  Lisboa Ocidental, 20de setembro de 1737. Pereira. Teixeira. Rego
  5. 5. ÍNDICELicenças...................................................................................................... 03Exortação ao pio leitor.................................................................... 07 MEDITAÇÕESI – De como Maria Santíssima Senhora Nossa, no primeiro instante doseu ser, foi concebida sem mácula de pecado original........................ 23II – Da feliz e alegre Natividade da Virgem Santíssima Senhora Nossa,formosa aurora do divino Sol de Justiça............................................... 37III – Do misteriosíssimo, eficacíssimo e dulcíssimo nome de Maria..... 53IV – Da apresentação da Santíssima Menina Maria no Templo....... 73V – Dos desposórios da Virgem das virgens Maria Santíssima como Sagrado Esposo e venturoso Patriarca S. José.................................. 85VI – Da Anunciação de Maria Santíssima Senhora Nossa pelo PríncipeEmbaixador S. Gabriel Arcanjo............................................................ 101VII – Da Visitação da Senhora a sua prima Santa Isabel................. 119VIII – Da Expectação do Parto da Beatíssima sempre Virgem MariaSenhora Nossa......................................................................................... 133IX – Do Sacratíssimo Parto da sempre impoluta Virgem MariaSenhora Nossa......................................................................................... 147X – Da Purificação da Virgem Senhora Nossa, apresentando a seuBendito Filho no Templo...................................................................... 167
  6. 6. XI – Da cruel espada de angústia que traspassou o coração da Virgemao pé da Cruz e em sua Soledade......................................................... 185XII – Dos inefáveis prazeres da Virgem Santíssima na triunfanteRessurreição de seu Filho glorioso Cristo Jesus................................ 205XIII – Do saudoso e felicíssimo trânsito da Rainha dos Anjos MariaSantíssima Senhora Nossa..................................................................... 221XIV – Da soleníssima Assunção da Virgem Maria Senhora Nossa aoCéu Empíreo, em corpo glorificado.................................................... 241 .XV – Da Coroação da Augustíssima Rainha do Céu e de todas ascriaturas. Maria Santíssima Senhora Nossa......................................... 261
  7. 7. Meditações sobre os principais mistérios da Virgem Santíssima Senhora Nossa §IO seráfico padre S. Francisco teve a seguinte visão miste- riosa: eram duas escadas lançadas da Terra ao Céu1; uma delas, vermelha, em que estava arrimado Cristo S. N.; ou-tra, branca, em que estava a Sacratíssima Virgem sua Mãe. Muitosreligiosos, ao exemplo e instância de seu Santo Padre, pretendiamsubir animosamente pela escada vermelha; porém, não poucos deles,havendo já começado a subir, resvalavam e descaíam para trás: des-graça de que se lastimava e chorava muito o Santo. E o Senhor lhedisse então: Faz que os teus corram para minha Mãe, subindo pelaescada branca. E o Santo, com clamor e espírito, começou a bradar-lhes: Irmãos, correi à escada branca e subi por ela. E os religiosos,obedecendo a essa voz, assim o faziam; e a soberana Virgem os re-cebia alegre e os introduzia no Céu. Sobre esse caso, por ser de doutrina clara, verdadeira e proveitosa,fundarei eu agora a presente exortação aos meus leitores. Por ne-nhuma melhor via (digo com S. Fulgêncio) podem os homens subira Deus, que por onde Deus se dignou baixar aos homens: Facta estMaria scala coelestis: quia per ipsam Deus descendit ad terras, ut per ipsamhomines ascendere mereamur ad Coelos2. Bem sabemos e fielmente cremose confessamos todos os filhos da Igreja Católica que essa escada foiMaria Santíssima S. N. Ela é aquela admirável Virgem de quem tinhaprofetizado Isaías que pariria um filho, e ela mesma lhe chamariaEmanuel: Ecce Virgo concipiet, et pariet filium, et vocabit ipsa nomen eiusEmmanuel 3. Assim lê do rigor hebraico Galatino, e não sem misté-rio; porque Emmanuel quer dizer Deus conosco; e veio Deus, que infi-1  Bernardinus de Rustis., part. 9, séc. II, Assimil. 2.2  Apud Novarin, in Umbr. Virg., n. 992.3  Isai., VII, 14. 8
  8. 8. Padre Manuel Bernardesnitamente estava longe de nós por sua natureza, a estar intimamenteconosco pela Encarnação; e a Senhora, de quem realmente tomou oVerbo carne humana, efetivamente lhe deu o nome de Deus conosco.Ela é a que vestiu com sua substância corporal ao Filho de Deus, e oalimentou e nutriu por nove meses em seu virginal ventre. Por essaporta Oriental saiu, sem abri-la, a tratar no mundo com os filhos deAdão. De seu leite e sangue, mudada a forma materna (que imediata-mente antes tinha) na de menino, unida já hipostaticamente à formaDivina, se fez Carne e Sangue de Cristo, que nos remiu na Cruz e nossustenta no Sacramento do Altar. Enfim, assim como para Deus nãotemos outro mediador (como diz o Apóstolo) senão a Cristo – Unusmediator Dei, et hominum, homo Christus Jesus4 –, assim para Cristo nãotemos outra mais próxima e eficaz mediadora, como lhe chamam osSantos Padres, senão a Maria Santíssima S. N. e Mãe sua5. Esta, pois,é a escada branca; escada, porque serviu de descer Deus aos homens,e serve de subirem os homens a Deus; e escada branca, por sua ino-cência puríssima e candidez virginal. Aos religiosos, pois, (debaixo do qual nome entendo agora todosos que aspiram a viver vida pia e reformada, fugindo do pecado eprocurando as virtudes) sucede muitas vezes que põem unicamenteo sentido na mortificação e penitência, na abstração das criaturas eno silêncio; e na verdade bom é esse caminho, porque pretendemimitar a Cristo, o qual é a escada vermelha, pelo sangue de sua PaixãoSagrada, e os está convidando e sendo-lhes causa não só efetiva, masexemplar de seus santos exercícios, que são os degraus por onde so-bem ao Céu. Porém, é tanta a fragilidade humana que necessitamosnão só de sangue para nos alentar, mas também de leite para noscriar; não só de Pai para nos levar à sua imitação, mas também de Mãepara nos conduzir; não só de Mediador para Deus, que é Cristo seuFilho, mas também de Mediadora para Cristo, que é Maria sua Mãe4  I Timot., II, 5.5  S. Joan Crisost., S. Epiphan., S. Ephrem, S. Basil. De Seleuc., et alii plures apud Marracciumin Polyanthea Marian. V. Mediatrix. 9
  9. 9. Meditações sobre os principais mistérios da Virgem Santíssima Senhora NossaSantíssima. E como nos esquecemos da devoção com essa Senhora,ou não a cultivamos amiúde, como filhinhos pequenos, e queremossubir por nosso pé, como já maiores, sucede não poucas vezes que,tropeçando, descaímos; e então se conhece, por experiência, como,para perseverar no caminho da virtude, é necessária mais assistênciada graça divina do que nos parecia, e um espírito mais desarrimadode si próprio e mais dependente da proteção de pessoa fácil em darentrada a miseráveis e em achá-la para com Deus, e que, não tendoofício de julgar, o tenha próprio de interceder e compadecer-se. Equal é essa pessoa senão a Mãe de Deus, que é um quase-Deus di-minuído e mitigado, em que as atividades e ardores do Sol se achamtemperados com a frescura da Lua? Importa logo que os fiéis nos passemos da escada vermelha para abranca: não porque hajamos de desamparar a meditação grave da Pai-xão do Senhor, senão porque a devemos acompanhar com a devoçãosuave de Maria Santíssima S. N., e de tal sorte apascentar-nos com oSangue das chagas do Salvador que não nos descuidemos de criar-noscom o leite desta Mãe piedosa, como fazia seu grande devoto S. Ber-nardo: Hinc pascor a vulnere, hinc lactor ab ubere. E desse modo criaremosum espírito juntamente animoso e mais humilde, discreto e mais since-ro, vigoroso e mais brando. E como seja indubitável que, para ser qualquer objeto mais ama-do, primeiro deve ser mais conhecido – Nihil volitum, quin praecognitum–, segue-se que, para crescermos no amor à Virgem S. N., é neces-sário para considerarmos mais devagar nas suas perfeições, em seusdotes e prerrogativas, e nas obrigações grandíssimas em que todoslhe estamos, pelos benefícios que comumente nos está fazendo; por-que ai do mundo, se Deus não tivera Mãe! Para assim o fazermos,há tantas razões que, ainda que dessa só matéria se compusessemgrandes volumes, nunca poderíamos dar-lhe a avaliação condigna.Porém, tocaremos algumas das que respeitam particularmente a su-jeitos que frequentam os santos exercícios que nessa Congregaçãose praticam. 10
  10. 10. Padre Manuel Bernardes § IIE seja a primeira. Porque, quando usamos de algum benefício em utilidade nossa, nos corre obrigação de ser lembrados e agradeci- dos ao Autor dele, e a Virgem Sacratíssima foi autora dos santosexercícios de oração mental, por meio de seus servos Sto. Inácio de Loiolae S. Filipe Néri, aquele fundador da Companhia de Jesus, este da Congre-gação do Oratório, amigos ambos e contemporâneos em Roma. Que aSenhora foi autora daquele livrinho dos exercícios de Sto. Inácio, que tantofruto têm feito na Igreja, consta de uma revelação feita pelo Arcanjo S. Ga-briel à Vulnerável Virgem D. Marina de Escobar. E esses mesmos, quantoà substância, são os com que lucrou a Deus inumeráveis almas o gloriosoS. Felipe, a quem a Mãe de Deus se dignou falar pessoalmente, e por cujomeio lhe foi influído esse espírito de oração, porta por onde entra o desen-gano das verdades sólidas e necessárias para a vida reformada; logo, é razãoque, recebendo nós o dom da oração por mão da Sacratíssima Virgem,adoremos e beijemos essa mão com especial obséquio. Antes, desse modo,aproveitaremos mais na mesma oração, pois costumam as coisas ter o seuaumento por onde tiveram o seu princípio. § IIIS egunda. Porque, para o caminho da vida espiritual, é mais conducente o andarmos em alegria: Servile Domino in laetitia6. Esse espírito dilata o coração, para se aturar melhor a carreirados divinos mandamentos – Viam mandatorum tuorum cucurri cum dilatasticor meum7 –, como, pelo contrário, o espírito triste até os ossos seca –Spiritus tristis exiccal ossa8 – e é mais sujeito à desconfiança, a escrúpulos6  Ps., XCIX, 2.7  Ps., CXVIII, 32.8  Prov., XVII, 22. 11
  11. 11. Meditações sobre os principais mistérios da Virgem Santíssima Senhora Nossae tentações, e mais próprio de hipócritas: Nolite fieri, sicut hypocritae tris-tes9. E essa particularidade tem a devoção com a Virgem, e a medita-ção de seus sagrados mistérios, que infunde alegria nos espíritos: Sicutlaetantium omnium habitatio est in te10. Em aparecendo a memória dessasoberana Senhora na região do nosso interior, logo parece traz consigonovas de bom sucesso, ares de confiança, luz de serenidade. Nem pare-cerá bem, falando-se da Virgem, ficar alguém ainda triste: porque o seunome somente basta para afugentar pesares: Tristatur aliquis? Continuo adnomen Mariae cadit nubilum, serenum redit, disse Ricardo a S. Laurêntio. No tempo em que o heresiarca Nestório, com sacrílega e blasfema lín-gua, impugnava a glória da Virgem, negando-lhe o nome Theotocos, dizendoque não se havia de chamar Mãe de Deus, estava todo o povo da cidade deÉfeso esperando com grande suspensão às portas do sagrado Concílio11,para saber o que tinham os padres dele determinado nesse ponto (os quais,quando, já à boca da noite, saíram do conclave e se publicou que o infelizNestório fora condenado, e anatematizado, e deposto do seu lugar, e queficava definido com certeza de fé que a Virgem Maria era na verdade e sedevia chamar Mãe de Deus: tal foi o alvoroço de todos que choravam dealegria e não faziam mais que entoar louvores a Deus e aclamar felicidadesaos padres do Concílio e abraçar-se uns aos outros com exuberância decaridade cristã, e logo preveniram tochas para acompanhar a casa os conci-liares, e até as mulheres saíram pelas ruas com caçoilas aromáticas; e toda anoite houve na cidade luminárias e sinais festivos de geral contentamento).Se alguém, neste passo, perguntar a si mesmo a causa dessa geral e intrínse-ca alegria, advertirá não ser outra senão porque aquela definição acreditavaa honra e dignidade de Maria Santíssima, cujo amor está tão entranhadonos corações dos fiéis que o mesmo é lembrar-nos que Deus tem Mãe doque apreendermos a causa de nossa alegria, a fonte de todos os nossosbens, e uma criatura sempre fácil e benigna para acudir a nossas misérias.Logo, a alma acostumada a contemplar em seus mistérios e perfeições an-dará devotamente alegre e humildemente confiada.9  Math., VI, 16.10  Ps., LXXXVI, 7.11  S. Cyrill. Alexand., Epist. 34, tom. IV, o qual se achou no mesmo Concílio. 12
  12. 12. Padre Manuel Bernardes § IVT erceira. Porque, ordinariamente, todos os fiéis têm sua particular inclinação a algum Santo ou alguma Santa, fundada em motivos particulares, v. g., da pátria, ou do nome, ou dos milagres famososque obrou, ou dos benefícios que recebeu; e a esse tal Santo costumaminvocar em suas necessidades, oferecer os seus dons e frequentar as suasIgrejas. Tudo isso é louvável e meritório. Porém, muito mais razão é quetoda essa devoção se una e reforce em dar honra e culto à Santa de todos osSantos, que é a Mãe de Deus, d’Ele mais amada e melhor ouvida que toda aCorte Celestial junta. Por essa sua admirável singularidade merece a Senhoraesse singular afeto nosso e contínua memória, e suas excelências para comDeus não têm exemplo, seus benefícios para conosco não têm número. Eassim como o Santíssimo Sacramento do Altar é relíquia viva da presençavisível de Cristo neste mundo, que excede incomparavelmente a todas asrelíquias dos Santos, e tem por autêntica o mesmo Evangelho e o testemu-nho de toda a Igreja Católica, assim a devoção com a Virgem Mãe excedeas devoções de quaisquer Santos e Santas, não só pela dignidade do objeto,mas também pela prontidão e facilidade no despacho de nossas petições. Logo, se havemos de rezar, rezemos a Nossa Senhora; se havemos devisitar alguma Igreja, seja dedicada em honra da Senhora, ou em qualqueroutra busquemos e veneremos a sua imagem; se damos esmola, de melhorvontade a demos quando nos é pedida em louvor da Senhora; e o seu nomeseja para nós um quase-conjuro ou adjuração, que nos obriga a deferir-lhe;se oramos, seja por mão da Senhora, e busquemos a sua presença no Em-píreo à mão direita do Rei da Glória, onde assiste, apresentando-lhe nossosdesejos pios e petições humildes; se comungamos, tenhamos particular eenternecida memória de que, também debaixo das espécies sacramentais,recebemos12 alguma parte daquela primeira substância da Virgem, que de12  Salazar in cap. 9, Prov., n. 144. Sherlogus, tom. III, in Cant., ver. 37, c. 7, n. 19. Celada de Esth.Figurata, § 387. Silveir.. tom. III, in Evang., lib. 5. cap. 35, q. 19, n. 139. Flores in cap. 24 Eccles.,p. 4, n. 1 232. 13
  13. 13. Meditações sobre os principais mistérios da Virgem Santíssima Senhora Nossasuas puríssimas entranhas ministrou para encarar o Verbo Divino, e a subs-tância com que o alimentou nove meses em seu ventre e todo o tempo quelhe deu leite a seus peitos, nutrindo aquele mesmo Corpo Divino que oSenhor sacramentou e que, já ressuscitado, sacramenta qualquer sacerdote.Se celebramos missa, seja quanto permitirem as rubricas ou as obrigaçõesparticulares em louvor da Senhora. E a esse propósito referirei aqui o quesucedeu a um sacerdote, que, por devoção da Senhora, sempre d’Ela diziamissa: do qual uso, acusado como ignorante ao bispo (que era S. Tomásde Cantuária), ele o suspendeu. Mas a Santíssima Virgem, invocada pelosacerdote, pobre e aflito, lhe apareceu e disse: Vai, e da minha parte diz aobispo que te restitua no grau. Senhora (replicou ele), eu sou desprezível,não hei de ter entrada. Tornou a Senhora: Eu te abrirei caminho: e para obispo te crer, dir-lhe-ás por final que eu, tal dia, hora e lugar, remendandoele o cilício, eu lhe tinha mão nele de uma banda. Recebido o recado, ad-mirou-se o Santo e disse ao sacerdote estas palavras, conforme as traz Ce-sário13: Eu te concedo digas missas só de Nossa Senhora, e roga por mim.Bem poderia lembrar-lhe no caso aquilo de Sto. Ambrósio a outro intento:Et si error, pietatis tamen error est 14: Ainda que errava, era erro pio, porque épiedade honrar os pais: Matrem considerate, matrem cogitate. E voltando ao nos-so intento, tudo quanto obramos seja quanto nos for possível por mãos deMaria: Omnia per manus Mariae15, logo abaixo das mãos de nosso MediadorJesus Cristo: porque desse modo atalhamos mais e cansamos menos. §VQ uarta. Porque aos exercitantes da oração mental sucede às vezes padecerem de tentações e desconfianças acerca da sua predestinação: e na mesma devoção com a Virgem, acha-rão o antídoto desse veneno; porque é um dos sinais que há melhor13  Caesarius, lib. 7, Miracul., cap. 4.14  S. Ambros., lib. 5, de Fde ad Gratian, c. 2.15  D. Bernard. 14
  14. 14. Padre Manuel Bernardesassombrados da nossa salvação. Assim o afirmam os Santos Padres,fundando-se naquela Escritura dos Provérbios: Qui me invenerit, invenietvitam, et hauriet salutem a Domino: Quem me achar, achará a vida e be-berá do Senhor a salvação. E que coisa é ser devoto da Virgem, senãosalvar-se? Sto. Anselmo diz: Sicut impossibile est, quod illi a quibus VirgoMaria oculos suae misericordiae avertit, salventur: ita necessarium est, quod hi, adquos convertirit oculos suos, pro eis advocans, justificentur, el glorificentur 16: Assimcomo é impossível que se salvem aqueles de quem desviou os olhosde sua misericórdia a Virgem Maria, assim é necessário que consigama graça e a glória aqueles para quem esta Senhora voltou seus olhosmisericordiosos. E confirma essa sentença com o que diz Sto. Epifânioda ave chamada charádrio, cuja oculta propriedade é que, se aparta osolhos do doente, é sinal que morre; mas se lhe põe os olhos, e o doentetambém os pode pôr na ave, é sinal que escapa. De S. Inácio Mártir,grande devoto da Senhora, se alega esta sentença: Numquam male peribit,qui genitrici Virgini devotus, sedulusque extiterit: Nunca acabará mal quemfoi devoto da Virgem Mãe. S. Germão, patriarca de Constantinopla,diz absolutamente: Nullus est, qui salvus fiat, nisi per te o Virgo Sanctissima.Ninguém há que se salve senão por vós, ó Virgem Santíssima. E concorda com aquele texto do Eclesiástico, que comumente se in-terpreta dessa Senhora: In plenitudine Sanctorum detentio mea17: Na plenitudedos Santos é a minha detença; isto é, encher o número dos Santos e aca-bar a perfeição da graça e glória de cada um é a minha detença, o meuemprego, a minha ocupação. Às quais palavras acrescenta S. Boaventuraque a Virgem não somente se detém na plenitude dos Santos, senão quedetém os Santos na plenitude, para que não se diminua: porque detém asvirtudes deles, que não fujam; detém os seus merecimentos, que não sepercam; detém os demônios, que não acometam e vençam; detém a seuFilho, que não mate os pecadores. Antes de Maria, não houve quem assimousasse fazer detenças ao Senhor, conforme ao que disse Isaías18: Não há16  S. Anselm., apud S. Antonin., p. 4, tit. 15, c. 14, § 7.17  Eccles., XXIV, 16.18  Isai., LXIV, 7. 15
  15. 15. Meditações sobre os principais mistérios da Virgem Santíssima Senhora Nossaquem invoque o vosso nome e vos reporte. Mas ponho aqui as palavrasdo Santo, porque são dignas: B. Virgo non solum in plenitudine Sanctorum de-tinetur, sed etiam in plenitudine sanctos detinet, ne eorum plenitudo minuatur. Detinetnimirum virtutes, ne fugiant: detinet merita, ne pereant: detinet daemones, ne noceant:detinet Filium, ne peccatores percutiat. Ante Mariam non fuit, qui sic detinere Domu-nim auderet, teste Isaia, qui dixit: Non est qui invocet nomen tuum, et teneat te19. Considere agora quem lê, se deixará de ser certo o salvar-se a alma, emcujo bem a Virgem soberana detém as virtudes, para que nelas persevere;as tentações, para que nelas não caia; detém a seu Filho, para que não entreem contas com ela, quando não lhas pode dar boas; e em fazer essas deten-ças é toda a sua detença, enquanto o mundo dura e há tempo de salvar al-mas; e considerando isso, veja se é proveitoso e bem remunerado fazermosnós agora detença em honrar, servir, louvar e invocar a essa Senhora. § VIQ uinta. Porque o trabalho principal dos que frequentam os exercícios mentais é a perseverança neles. Para isso de conti- nuar a santa oração, todos temos como Moisés as mãos pesa-das e descaídas, e raros temos irmãos e companheiros que nos ajudema sustentá-las como este teve a Aarão e Ur; antes nosso irmão, que é ocorpo, e nosso companheiro, que é o mundo e o inimigo, são os queas derrubam e procuram decepar. Se todos os que principiaram esseexercício nele perseverassem até a morte, outra reforma se vira nasreligiosas, outra paz nas famílias, outro exemplo nos sacerdotes, outraconsciência nas almas, outra confiança e quietação nos moribundos. Grande dom é esse da perseverança, e grandes os frutos dele; eassim necessita de muita graça e, por conseguinte, de valia tambémgrande e poderosa para alcançá-la, qual é a Mãe da divina graça. Elaé a que nos cria aos peitos da sua devoção, e os seus peitos são torre19  S. Bonavent., in Speculo. 16
  16. 16. Padre Manuel Bernardespara defender-nos dos inimigos: Ubera mea sicut turris 20. Ela permaneceuimóvel, direta e segura, como coluna ao pé da Cruz: Stabat juxta Cru-cem 21; quem dela se não desarrima, não mudará pé nas tribulações. Sevivêssemos no Paraíso terreal antes de interdito, quem jamais morreria,pois tinha à mão a árvore da vida com que sustentar-se? Pois graças aDeus que, estando nós na Igreja Católica, no Paraíso vivemos, ondeMaria Santíssima é a árvore da vida, de que pende a Divina Graça, poisé seu fruto; colhamos sempre, e sempre viveremos. Finalmente, quantos testemunhos há na Sagrada Escritura e nos San-tos Padres que a Beatíssima Virgem foi de todas as criaturas a mais hu-milde; tantas provas há de que a devoção particular com essa Senhoraé arte breve de preservar no bem; porque da sua conversação e trato sepega um tal modo de espírito de humildade que não põe a mira em edifi-car alto, senão ao comprido, rasteiro e bem assentado, como a Arca quesalvou o mundo do dilúvio, que, tendo cinquenta côvados de largura etrezentos de comprimento, tinha só trinta de altura22. Essa obra é demaisdura, e essa a que nos ensina a escrava humilde do Senhor, escolhida porEle para sua Mãe: Melior est largus spiritu, quam altus spiritu 23: Que tenha-mos perseverança na oração, ainda que não tenhamos oração alta; quesejamos contínuos no obrar bem, ainda que as obras não sejam admi-ráveis; que seja o procedimento igual, ainda que não seja seleto. § VIIS exta. Porque uma das principais causas de desampararmos os exercícios da oração e vida espiritual é o vício da carne, inimigo tão doméstico, tão contínuo e tão geral, que, ou des-vela e sobressalta a todos, ou a ninguém perdoa: Ego certe (testifica Sto.20  Cant., VIII, 10.21  Joan., XIX, 25.22  Gen., VI, 15.23  Eccl., VII, 9, juxta Hebr. 17
  17. 17. Meditações sobre os principais mistérios da Virgem Santíssima Senhora NossaAnastácio Sinaíta) vidi viros centum annos natos, imbecilles, et toto fere trementescorpore, qui tamen non potuerunt abstinere a peccato carnali 24.Eu vi homensde cem anos, enfermiços e trêmulos em quase todo o corpo, que nãose puderam abster dessa miséria. O remédio mais certo, ou por via depreservação, ou de cura, é uma sujeição leal e contínua à Mãe da DivinaGraça; porque só a graça pode triunfar da natureza: mas com ser graça,é tão poderosa essa Senhora que parece a tem ao seu aceno. O mesmoé (assim o mostra a experiência) vermos um bem devoto da Virgem,um fiel pagador do seu Rosário, um observante do jejum nos seus sá-bados, que vermos logo um moço casto e honesto, a quem a Senhoravai ensinando a desviar-se de perigos, a temer-se de si próprio e a fugirpara a sua sombra nas calmas ardentes da tentação. Como a Virgemé mística torre de marfim – Turris eburnea –, com o candor, e solideze frieza, e limpeza da sua castidade excelentíssima, recolhe, ampara edefende como torre a todos os que para ela fogem; e o corpo que antesera barro frágil, e imundo, e inconstante, com a segurança dessa torre jáparece ser também uma casa de marfim: Eburnea domus (disse Arnóbio)est corpus castum, in quo tinea non facit ullam libidinem peccati 25. No capítulo 24 do Eclesiástico (que os sagrados intérpretes expõemtodos da Virgem Santíssima Senhora Nossa), compara-se a mesma Se-nhora ao terebinto, árvore de grande copa e frescura: Ego quasi terebinthusextendi ramos meos, et rami mei honoris, et gratiae 26: Eu, como o terebinto,estendi os meus ramos, que são de honra e graça. E para que saibamosa propriedade com que o Espírito Santo fala de sua Esposa Sacratíssimae o grande bem que nos deixou na sombra de seu amparo, é de advertirque essa árvore comunica refrigério contra os incentivos da concupis-cência: Expandi ramos meus (diz o B. Alberto Magno) id est exempla operumad umbrandum peccatoribus et refrigerandum contra incentiva vitiorum, et maximecontra aestum libidinis 27. No caminho de Belém a Jerusalém, havia uma ár-24  Tom. 9, Bibliot. Patr., in lib. quaestion., q. 8.25  Arnob. in illud. Ps., XLIV. A domibus eburneis.26  Eccl., XXIV, 22.27  Alb. Mag. de laud. Virg., lib. 12, c. 6, § 16. 18
  18. 18. Padre Manuel Bernardesvore dessas, a qual é fama que, passando por ali a Virgem com seu dulcís-simo Menino, a apresentá-lo no Templo, se lhe inclinou, fazendo comoreverência. Os passageiros encalmados sempre ali sentiam fresco28. Podeser que o Senhor, por memorial da Virgem, abençoasse essa planta e lhecomunicasse essa virtude. Porém, seja como for, sempre é certo que osque se valem da sombra da Virgem acham frescura da castidade, porqueramos tem para cobrir a todos, árvore tão feliz e bendita, que em seusramos teve por fruto o Autor da natureza e da graça. § VIIIS étima (e seja aqui a última). Porque por esse caminho da es- pecial devoção com a soberana e amabilíssima Virgem foram todos os Santos e quantos até agora fizeram algum progressona virtude; todos subiram pela escada branca, para que, não caindoda vermelha, lograssem a virtude do Sangue de Cristo. Esse argumen-to prova-se por indução de vários exemplos; tocaremos os que nosocorrerem, que todos têm a impossibilidade que dizia Deus a Abraão:Numera stellas, si potes 29. O cardeal S. Pedro Damião30 escreve de seu irmão Marino, que,prostrando-se diante do altar da Virgem Santíssima, se lhe ofereceu detodo coração por escravo, tendo posto ao pescoço o seu cinto em lugarde argola: e ali se fez açoitar, para protestar a sua escravidão; e pagoucerta soma de dinheiro por tributo, prometendo continuá-la todos osanos. A Senhora o veio consolar à hora da sua morte e assegurar que oseu nome estava escrito no livro da Vida. O mesmo escreve Cesário de Valtério de Birbach31, o qual tambémdiante do altar da Senhora se lhe entregou por escravo, com corda ao28  Castil., no Devoto Peregrin., lib. 3, c. 10.29  Gen., XV, 5.30  Lib. 2, Epistolar., epist. 14.31  Lib. 7, Miracul., cap. 39. 19
  19. 19. Meditações sobre os principais mistérios da Virgem Santíssima Senhora Nossapescoço e censo anual pago para maior decoro e riqueza do seu culto.E também em vida e morte recebeu da Senhora grandes favores. Sto. Estevão, rei da Hungria32, muito mais que desse real título seprezava do de escravo da Senhora; e ordenou que dali por diante a casareal se chamasse: A família da Virgem; e tanta reverência pegou a seusvassalos que não se atreviam a tomar na boca o augustíssimo nome deMaria, e só diziam absolutamente: A Grã-Senhora. Carlos, filho de Sta. Brígida33 (como nas suas revelações se refere), di-zia no seu coração: Tanta consolação me causa que Deus ame a sua MãeSantíssima mais que a todas as criaturas, que nenhum deleite há no mun-do que eu de boamente não largasse, por não largar esse gozo; e quiseraeternamente padecer as penas do Inferno, só porque Maria Santíssima nãocarecesse nem por um instante da sua dignidade, ou ficasse mais remotade Deus. Valeu-lhe essa devoção, porque, à hora da sua morte, a Senhoratomou essa alma debaixo do seu amparo e, tanto que arrancou, a levoua presentar em juízo, apesar dos demônios, que bramavam queixando-secomo de injustiça de a não presentarem eles; e assim aquele réu, defendidopor tão poderosa Advogada, saiu bem sentenciado pelo Supremo Juiz. Sta. Margarida, infanta da Hungria34, religiosa domínica, cada dia fes-tivo de Nossa Senhora e de seus Oitavários, rezava devotamente mil ve-zes a Ave-Maria, com genuflexão a cada uma: outros tantos escudos teriapara se cobrir das setas do comum inimigo: Mille clypei pendent ex ea 35. O padre João de Trexo, as Companhia de Jesus, foi singular nestamatéria36. Ia a pé a uma ermida da Senhora; e havendo regado o chãocom lágrimas, a varria com a boca e o rosto, e lhe dava muitos ósculosde consolação. Sendo-lhe encomendado pelos superiores um seminá-rio de estudantes congregantes da Senhora, ardia em tanto zelo de quenenhum a desgostasse com pecados, que quase não dormia e ia pelas32  Surius in eius vit. die 20. Augustic., XI.33  Lib. 7, c. 13.34  Sirius ad diem, 28. Januar.35  Cant., IV, 4.36  Rho in histor. Virt., lib. 3. c. 3. 20
  20. 20. Padre Manuel Bernardessuas camas de noite, fazendo de joelhos oração fervente por cada um,na qual pedia não caísse em pecado, especialmente contra a pureza, porser tão amada da Virgem. Sto. Albérico, monge de Cister37, foi mui sinalado na devoção da Se-nhora; e Ela aparecendo-lhe, lhe ordenou que mudasse a cor do hábito,de negra que era, em branca. E Crisóstomo Henriques diz que mila-grosamente se lhe tornaram os hábitos brancos. Este servo do Senhor,ao expirar, disse: Sancta Maria ora pro me; e ao nomear esse dulcíssimonome, olhos e rosto se lhe tornaram resplandecentes. O padre Vincêncio Carafa, geral da Companhia38, administrou emNápoles a Confraria da Senhora com singular zelo e ardor de devoção,e a meteu especialmente nos corações dos nobres. Desde pequeno di-zia cada dia, sete vezes, de joelhos, a oração: O Domina mea, etc. Traziano pé uma argola de ferro em sinal de escravidão. Muitas vezes lheapareceu a Senhora visivelmente. O cardeal Alexandre de Ursinis39 (família das mais ilustres de Romae aparentada com sumos pontífices, e reis, e duques, e varões insig-nes na glória militar) assistia pontualmente a todas as obrigações dosconfrades de Nossa Senhora, e, em companhia da gente plebeia, to-mava disciplina. E em Branchiano, lugar vizinho a Roma, dos duquesde Ursino, tinha dos seus vassalos levantado uma Confraria de NossaSenhora, da qual ele era o prefeito e o pregador e o primeiro em todosos santos exercícios. Véspera da Assunção sempre tomava disciplinade sangue, para oferecê-lo à Virgem. Todos os dias se confessava ecelebrava. Visitava os hospitais, lavava os pés aos pobres e lhes dava decomer por sua mão. Em dia da Assunção, que naquele ano (que foi o de1626) caiu ao sábado, caiu ele na cama, e, no sábado seguinte, Oitava daSenhora, passou para o Senhor, com sinais de predestinado. O padre Frei Domingos de Jesus Maria, carmelita descalço, foi tão de-votamente apaixonado do amor e agrado da Beatíssima Virgem, que outros37  Yepes, na Crónica de S. Bento Centur., 7.38  Nadasi in Anno dierum Societatis die 8. Junii.39  Balinguem in Kalend. Virg. die 22 Aug. 21
  21. 21. Meditações sobre os principais mistérios da Virgem Santíssima Senhora Nossadois religiosos o viram, estático, estar em disputa com S. Bernardo sobrequal era mais seu devoto. E dizendo S. Bernardo que ele a amava mais40,respondia Frei Domingos: Isso não; antes eu amo mais. E voltando-se paraa Senhora, que mostrava estar presente naquela suspensão, requeria-lhe a seufavor e dizia, como menino: Pois se eu vos amo tanto, por que me não fareisvós, Senhora, o favor que fizestes a Bernardo, sabendo que necessito maisque ele? E os ditos religiosos viam que o servo de Deus Frei Domingos, ele-vado no ar, dava mostras que a Senhora enternecida o chegara a seus peitos elhe dera leite deles, e que ele o chupava e engolia com inefável gozo. O santo Hermano José costumava, em certos dias em que não seguiaos atos de Comunidade, prostrar-se tão amiúde e com tanta detença, queum seu amigo de confiança lhe perguntou a causa41; e ele respondeu quepronunciava e adorava o Santíssimo nome de Maria, e que neste temposentia tal fragrância exalar da terra, como se todas as flores e rosas delajuntas se trabucassem e respirassem. E por isso folgava de pronunciaresse nome muitas vezes, e se detinha em beijar a terra. Da devoção dos patriarcas S. Domingos e S. Filipe Néri não ajunto aquias maravilhas, por serem tão sabidas e irmos de passagem. E concluo esteparágrafo e toda a exortação dizendo aos meus leitores que, se nós temosânimo de perseverar nos santos exercícios e fazer alguma chaça na virtude,o caminho mais certo, e mais lhano, e mais seguro, e mais frequentado, épela devoção da Virgem. Ela é a escada branca por onde podemos esperarentrarmos no Céu, e que ali traremos por especial honra os soberanos no-mes de Jesus e de Maria escritos na testa, para nunca jamais se apagarem,conforme aquilo do Apocalipse: Qui vicerit... scribam super eum nomen civitatisDei mei novae Jerusalem, quae descendit de Coelo a Deo, et nomen meum novum 42.40  Fr. António da Natividade, que foi grande amigo e companheiro deste servo de Deus, noApêndice à Sua Vida, fol. 297.41  Novarin., in Umbra Virginea, n. 1124.42  Apoc., III, 12. 22
  22. 22. Meditações sobre os principais mistérios da Virgem Santíssima Senhora Nossa §IC onsidera, alma minha, como este privilégio da Senhora é sin- gularíssimo. Alonga os olhos da consideração por toda a inu- merável descendência dos filhos de Adão, que houve desde osprincípios do mundo e há de haver até o fim dele, e vê como a todosinficionou esta mancha, a todas as folhas deste grande livro repassouesta nódoa, a toda esta massa azedou aquele fermento do pecado co-mum: Per unum hominem peccatum in hunc mundum intravit, et per peccatummors, et ita in omnes homines mors pertransiit, in quo omnes peccaverunt 43, disseo apóstolo S. Paulo; e podemos dizer também aquilo de Josué: Usque inpraesentem diem macula hujus sceleris in nobis permanet 44. Unicamente entretodas as puras criaturas humanas, Maria Santíssima S. N. não entrounessa conta e foi preservada dessa mácula por favor da graça divina. Et velut in spinis mollis rosa surgit acutis Nil quod laedat habens, matremq; obscurat honore: Sic Evae de stirpe sacra veniente Maria Virginis antiquae facinus nova virgo piaret 45. Querem dizer: Décima Qual entre espinhos florece Sem ter com que ofenda a rosa, E o próprio tronco, formosa, Com sua gala enobrece: Assim Maria aparece Na raiz de Eva manchada, Bela Flor e Imaculada, Dando a original beleza43  Rom., V, 12.44  Josue, XXII, 17.45  Sedulius, lib. 2, Oper. Paschal. 24
  23. 23. Padre Manuel Bernardes De seu ser, lustre à impureza Da planta, onde foi gerada. Pondera quanta glória resulta para a Senhora dessa singularidade:Sexaginta sunt Reginae, et octoginta concubinae, et adolescentularum non est nume-rus: una est columba mea, perfecta mea 46. Se o Sol se chama assim, porque ésó e único: Sol, quia solus, com razão se diz a Senhora escolhida como oSol: Electa ut sol 47, pois é só e única nos resplendores da graça e justiçaoriginal. Não há mais que um Deus: Unus Deus; não há mais que umaIgreja Católica: Unam Sanctam Catholicam et Apostolicam Ecclesiam; e nãohá mais que uma pura criatura preservada do pecado original, MariaSantíssima. Na singularidade e pureza parece-se com Deus e parece-secom a Igreja: com Deus, como Mãe que havia ser do mesmo Deus;com a Igreja, como principalíssima parte da mesma Igreja, Esposa deseu Filho Jesus Cristo; com Deus, ficando só a Deus inferior; com aIgreja, ficando superior a toda ela na santidade. A um servo de Deus que mereceu a lauréola do martírio48, e era de-votíssimo desta Senhora, se dignou a mesma Senhora aparecer acom-panhada de tantas Virgens, que pareciam inumeráveis. Estavam todaspostas por sua ordem num vastíssimo e altíssimo monte, indo decres-cendo no número, conforme o monte se ia estreitando piramidalmente,até que, no supremo cume dele, estava unicamente a soberana Virgemdas Virgens. E desse lugar só, único e solitário entre tanta multidão dealmas puras, lhe resultava uma glória incomparável. Assim podes tu,alma minha, considerar e gozar-te da glória da Senhora, que, entre amultidão quase infinita dos filhos de Adão, Ela seja a única que ocupa oápice da pirâmide, sendo preservada da mácula em que todos incorrem,e de que, nesse espesso bosque das gerações humanas, este só ramo deouro brilhe tanto com os resplendores da divina graça desde o primeiroinstante de sua natureza.46  Cant., VI, 7, 8.47  Cant., VI, 9.48  João Brebêucio, da Companhia de Jesus. Conforme refere Nadasi in Anno dierum societatisdie 16. Martii. 25

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