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1        MARCELA REINHARDT DE SOUZAO pioneirismo de uma médica pelotense                    Trabalho de conclusão de curso...
2    Dedico este trabalho aos meus pais.E a todos aqueles que de alguma formacontribuíram para que eu chegasse aqui.
3                                 Agradecimentos         Agradeço a todas as pessoas que sempre estiveram ao meu lado, mea...
4        Ao meu namorado, Romaneli, que esteve sempre por perto me dandocarinho, atenção e amor, tendo paciência para me o...
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6                                                         SumárioLista de Figuras ...........................................
7                                      Introdução       Realizar uma pesquisa nem sempre é tarefa fácil. Encontrar dadosdi...
8o Rio de Janeiro exercer sua profissão e mesmo depois de casada permaneceuestudando e desenvolvendo trabalhos na Medicina...
9                                    1. Uma jovem precursora         Natural de Pelotas, filha de Cesária Marques Dias e d...
10conseguimos contato por meio da internet. Foi buscando todo o tipo de rastrosdeixados por ela que conseguimos montar o q...
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15        No Correio Mercantil do dia seguinte, 3 de agosto de 1881, Antonio JoaquimDias, não deixando passar sem resposta...
16colação de grau fosse de acordo com a religião do aluno; e a referida matrícula demulheres em cursos e faculdades, a lib...
17título de segunda médica formada no Brasil em 1888, sendo a primeira a se formarna Faculdade de Medicina do Rio de Janei...
18memórias de Rita, ainda viva durante a produção da obra. Muitos dados expostos nolivro provém de informações fornecidas ...
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20         A tese foi levada a vários jornais do Brasil por Antonieta, na companhia dopai. Após receberem cópias, os jorna...
21        Após três meses, no dia 17 de dezembro de 1889, foi publicada pelaprimeira vez em Pelotas a notícia de que Anton...
22        No dia 31 de dezembro de 1889, chegou a Pelotas a Dra. Antonieta Dias,acompanhada do pai e do irmão. Seu irmão, ...
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24       No ano de formatura de Antonieta, 1889, houve uma peça em cartaz no Riode Janeiro, chamada As Doutoras, escrita p...
25                        2. Dra. Antonieta Dias Morpurgo       Neste capítulo serão abordadas informações referentes à vi...
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27Miguel ns. 110 e 112, proprio para residência e escritorio.” (Correio Mercantil, 11 desetembro de 1890).        Neste an...
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29          No Dicionário das Famílias Brasileiras, há uma informação referente aEduardo Morpurgo dizendo que este teria s...
30chamados para examiná-las. A Dra. Antonieta, consultada para examinar uma delas,constatou que a menina havia sido deflor...
31        Nas pesquisas de Anamaria Nunes encontramos outra ligação da Dra.Antonieta com a Cruz Vermelha, ela teria sido a...
32reuniu mais de 1500 pessoas de várias nacionalidades. Além de brasileiros, haviainscritos provenientes da Argentina, do ...
33                       faculdade. Na pensão quem me recebeu primeiro foi Vieira, cuja                       palestra sob...
34       Como a história de Dra. Antonieta se divide entre Pelotas e Rio de Janeiro, apesquisa a respeito de sua vida em P...
35                                    Conclusão       Após a finalização das pesquisas a respeito da Dra. Antonieta DiasMo...
36                             Referências Bibliográficas        ANTUNES, José Leopoldo Ferreira. Medicina, leis e moral: ...
37        NASCIMENTO, Heloisa Assumpção. Santa Casa de Misericórdia dePelotas. Pelotas: 1987. 190p.        NUNES, Antoniet...
38                                     Fontes Primárias       Acervo arquivístico do Museu de História da Medicina do RS –...
39FIGURAS
40Fig. 1 – Antonieta Dias.Fonte: A Ventarola de 11 de dezembro de 1887.Fig. 2 – Antonieta Dias em foto de 1889.Fonte: Acer...
41Fig. 3 – Tese defendida por Antonieta Cesar Dias em 1889.Fonte: Acervo arquivístico do Museu de História da Medicina do ...
42Fig. 5 – Engenheiro Eduardo Morpurgo, esposo da Dra. Antonieta.Fonte: Acervo de Anamaria Nunes.Fig. 6 – Eduardo Morpurgo...
43Fig. 7 – Dra. Antonieta Dias Morpurgo.Fonte: Rua do Ouvidor 17 de agosto de 1901.Fig. 8 – Artigo sobre o Quarto Congress...
44Fig. 9 – Artigo sobre o Quarto Congresso Médico Latino-Americano de 1909.Disponível emhttp://www.gmbahia.ufba.br/index.p...
45ANEXOS
46                                      ANEXO I        Correio Mercantil, 31 de julho de 1881.         Ilm. Sr. Heráclito ...
47         Aqui concluo eu repetindo que o compendio do Sr. Hilario não presta e quepouco se me dá (ou pouco me importa) q...
48       <<É tempo de deixarmos a pag. 33. Passemos pela pag. 34, ondeencontraremos ainda a família pronominal, APERTEMOS-...
49                                    ANEXO II       Jornal do Comércio, 02 de agosto de 1881.        A pedido,        Com...
50          Pois não é verdade, minha amiguinha, que Fr. Domingos Vieira diz queencyclopedia significa OBRA que trata das ...
51d’aquelle que está muito longe de comprehender a sagrada missão de preceptor dainfancia.        Os máos exemplos, filha,...
52                                         ANEXO III        Correio Mercantil, 03 de agosto de 1881.         HÁ HOMENS PAR...
53por essa maneira,que dispenso qualificar, corresponder-se á delizadeza com que foitratado.         Concluindo, declaro q...
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O pioneirismo de uma médica pelotense

  1. 1. UNIVERSIDADE FEDERAL DE PELOTAS Instituto de Ciências Humanas Curso de Licenciatura em História Trabalho de Conclusão de Curso O pioneirismo de uma médica pelotense Marcela Reinhardt de Souza Pelotas, 2010.
  2. 2. 1 MARCELA REINHARDT DE SOUZAO pioneirismo de uma médica pelotense Trabalho de conclusão de curso apresentado ao Curso de Licenciatura Plena em História da Universidade Federal de Pelotas como requisito parcial para a obtenção do título de Licenciado em História. Orientador: Prof. Ms. Mario Osorio Magalhães Pelotas, 2010.
  3. 3. 2 Dedico este trabalho aos meus pais.E a todos aqueles que de alguma formacontribuíram para que eu chegasse aqui.
  4. 4. 3 Agradecimentos Agradeço a todas as pessoas que sempre estiveram ao meu lado, meauxiliando, aconselhando e deixando a vida mais leve. Agradeço em primeiro lugar aos meus pais e à minha irmã, que sempre seesforçaram para que eu pudesse estudar e ser quem eu sou. Não há palavras paraexpressar a felicidade que sinto em partilhar com eles este momento tão feliz daminha vida. Se hoje eu sei amar, foi com eles que aprendi. Ao meu pai, por semprepensar em me ajudar e estar sempre ao meu lado, nos momentos mais difíceis,desde que eu nasci. E à minha mãe, pela preocupação e anos de dedicação. Amovocês! Obrigada aos amigos que a faculdade me trouxe, amigos que para semprequero ter ao meu lado. Essas são pessoas que de simples colegas de faculdade setornaram grandes amigos! Ao Cristiano, que tem a loucura exata para caber naminha loucura, amigo para todas as horas, minutos e segundos. À Luciana, amigainesquecível desde os primeiros dias de faculdade, fundamental para viver todas ascoisas boas que vivi nestes cinco anos. A faculdade não teria sido a mesma semvocês que farão falta no meu dia-a-dia! Também são importantes para mim aquelesque foram mais que colegas de trabalho durante meu estágio no Museu daBaronesa e os outros amigos que fiz na faculdade, Dimítrius, Rafael, Giovana,Alberto e Nádia, que também me ajudou muito durante a minha graduação, desde oempréstimo de fichamentos ao auxílio na pesquisa do TCC. Nunca esquecereivocês! Às minhas poucas e valiosas amigas que trouxe do Assis Brasil e aos meusamigos que por circunstâncias da vida acabaram ficando no passado, mas quejamais esqueci.
  5. 5. 4 Ao meu namorado, Romaneli, que esteve sempre por perto me dandocarinho, atenção e amor, tendo paciência para me ouvir e sendo meu companheiroem qualquer jornada. Não é à toa que eu te amo. Obrigada ao meu orientador, professor Mario Osorio Magalhães, que sempreesteve disposto a me ajudar, respondendo minha centena de e-mails e meauxiliando em todas as etapas da minha pesquisa com a maior disposição. Suaorientação foi essencial! Aos professores que tive na graduação, alguns dos quais eu sempre ireilembrar com carinho pelas aulas ministradas, como por exemplo, Beatriz, Lorena,Pezat, e outros. Ao Sr. Carlos Duarte, Sra. Cláudia Morpurgo e Sra. Maria Morpurgo, porterem colaborado com suas memórias; à Karina Lopes, do Museu de Medicina doRS, que me atendeu com muita gentileza, e à Sra. Anamaria Nunes, por tercolaborado imensamente com o material que tinha sobre a Dra. Antonieta. Por fim, agradeço a toda a minha família e tenho que pedir desculpas pelacorreria do dia-a-dia me deixar ausente e agradecer pelo apoio, amor ecompreensão. Saibam que, mesmo distante, sempre tenho vocês no meu coração.
  6. 6. 5 LISTA DE FIGURASFigura 1 – Antonieta Dias ......................................................................................... 40Figura 2 – Antonieta Dias em foto de 1889 .............................................................. 40Figura 3 – Tese defendida por Antonieta Cesar Dias em 1889 ............................... 41Figura 4 – Anuncio publicado no Correio Mercantil em 1890 .................................. 41Figura 5 – Engenheiro Eduardo Morpurgo, esposo da Dra. Antonieta .................... 42Figura 6 – Eduardo Morpurgo, Admar Morpurgo e Antonieta Morpurgo .................. 42Figura 7 – Dra. Antonieta Dias Morpurgo ................................................................. 43Figura 8 – Artigo sobre o Quarto Congresso Médico Latino-Americano de 1909..... 43Figura 9 – Artigo sobre o Quarto Congresso Médico Latino-Americano de 1909 .... 44Figura 10 – Dr. Admar Morpurgo e Thereza Jesus Maria Vieira Ferreira ................ 44
  7. 7. 6 SumárioLista de Figuras ........................................................................................................ 5Introdução ................................................................................................................. 71. Uma Jovem Precursora ....................................................................................... 92. Dra. Antonieta Dias Morpurgo .......................................................................... 25Conclusão ............................................................................................................... 35Referências Bibliográficas .................................................................................... 36Fontes Primárias .................................................................................................... 38Figuras .................................................................................................................... 39Anexos .................................................................................................................... 45
  8. 8. 7 Introdução Realizar uma pesquisa nem sempre é tarefa fácil. Encontrar dadosdisponíveis em estados brasileiros diferentes se apresenta como uma grandedificuldade. Mas mesmo assim aceitei o desafio de escrever um esboço de umabiografia a respeito da terceira médica formada no Brasil, a Dra. Antonieta DiasMorpurgo. Foi por acaso que cheguei aos jornais que demonstram a participação dafutura médica, quando tinha 12 anos, em uma discussão pública entre doisprofessores na imprensa pelotense. A partir daí fui encontrando mais dados sobreela, sobre sua formatura, recepção em Pelotas, até que descobri sua forte atuaçãoenquanto médica no Rio de Janeiro. Meus objetivos são os de preservação da memória de uma mulher que alémde ter sido uma das primeiras médicas formadas no Brasil, foi uma das médicaspioneiras em diversas pesquisas, sempre atuando em seu consultório e hospitais. Éo que veremos ao longo do trabalho. Até então ela não havia sido tema principal de uma pesquisa como esta,voltada para seu histórico, sua atuação e conquistas, trazendo novos dados arespeito de sua vocação para a área médica. A partir dos jornais comecei a investigação, buscando confirmar dados emalgumas datas já encontradas e buscando qualquer notícia ou citação sobre a Dra.Antonieta. Depois busquei livros e teses que citavam em algum ponto o seu nome, epor fim, através de uma busca na internet, descobri telefones de familiares da Dra.Antonieta que foram fundamentais para revelar algumas informações sobre ela. Assim, dividi o trabalho em dois capítulos. No primeiro, são relatados dadossobre os estudos e a formação da jovem Antonieta Cesar Dias. E no segundodediquei-me a escrever sobre a médica, Dra. Antonieta Dias Morpurgo, que foi para
  9. 9. 8o Rio de Janeiro exercer sua profissão e mesmo depois de casada permaneceuestudando e desenvolvendo trabalhos na Medicina. Este é um estudo a respeito da Dra. Antonieta Dias, sem a intenção de seruma biografia completa, até mesmo pelas dificuldades de pesquisa. Mas com apretensão de ser a pesquisa mais completa possível, com dados novos, sobre estamulher que marcou com sua presença feminina a história brasileira. Para mim é um orgulho poder escrever este trabalho. Espero que se tornefonte de referência sobre o tema.
  10. 10. 9 1. Uma jovem precursora Natural de Pelotas, filha de Cesária Marques Dias e do português AntonioJoaquim Dias, proprietário e redator do jornal Correio Mercantil, Antonieta CesarDias iniciou seus estudos na cidade natal, cursou os preparatórios em Porto Alegre eno ano de 1884 matriculou-se na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro.Defendeu sua tese, na área de obstetrícia, em 30 de agosto de 1889; no anoseguinte à formatura, começou a atuar profissionalmente em Pelotas, transferindo-se pouco depois para Rio de Janeiro, que recentemente havia se transformado decapital do Império em capital da República brasileira. Neste capítulo abordaremosaspectos, na sua maioria inéditos, da trajetória da jovem Antonieta, desde onascimento até à formatura. Antonieta era neta paterna de José Maria Dias e de Benta Maria Gonçalves;e neta materna de João José Cesar e de Maria Joaquina Marques1. Era afilhada debatismo de Fernando Luís Osorio, filho e biógrafo do general Osorio, e de suaesposa Ernestina de Assumpção Osorio, filha do Barão de Jarau, prósperocharqueador de Pelotas (Estado do Sul apud Correio Mercantil, 16 de janeiro de1890). Embora se trate da terceira mulher, na ordem cronológica, que se formou emMedicina no Brasil, existem muito poucas informações a respeito da sua vida. Nestapesquisa, enveredamos por diversos caminhos a fim de chegar a um resultado maisou menos satisfatório. Além da investigação em jornais da época, foi necessáriocontar com o auxílio e a memória de algumas pessoas que tiveram alguma ligaçãocom a própria Antonieta ou com os seus familiares, pessoas com as quais 1 Segundo dados fornecidos por Anamaria Nunes Vieira Ferreira. Ela é responsável pela pesquisa daárvore genealógica da família Nunes Vieira Ferreira.
  11. 11. 10conseguimos contato por meio da internet. Foi buscando todo o tipo de rastrosdeixados por ela que conseguimos montar o quebra-cabeças e formular um estudosobre a história da sua vida. Toda a pesquisa tem as suas dificuldades, mas nestecaso houve ainda um agravante: a circunstância de dividir-se a sua trajetória empelo menos dois espaços, Pelotas e Rio de Janeiro. Os obstáculos começaram quando tentamos localizar a data correta donascimento de Antonieta. No livro de Alberto Silva, A Primeira Médica do Brasil,consta: “Dra. Antonieta César Dias, nascida em Pelotas, no Rio Grande do Sul, alipelo ano de 1869.” (SILVA, 1954, p.59). Em artigo do jornal Correio Mercantil, de 3de agosto de 1881, seu pai, Antonio Joaquim Dias, a respeito da filha afirma que“apenas conta 12 annos de idade”. Contrariando os dados acima, o jornal cariocaRua do Ouvidor, de 17 de agosto de 1901, registra: “A doutora Antonietta DiasMorpurgo nasceu na cidade do Rio Grande, na então Província do Rio Grande doSul, em 12 de janeiro de 1868...”. Além de se equivocar com relação à sua cidadenatal e à grafia do nome, já que nela nunca o escreveu com “t” duplo, parece quetambém há erro no que se refere ao ano de nascimento. Se tivesse nascido em 12 de janeiro de 1868 não teria 12 anos, comoafirmou seu pai, em 3 de agosto de 1881: já teria completado 13 anos. Levantamosa hipótese de que o nascimento teria se verificado em 12 de janeiro, como diz ojornal, mas de 1869, como sugere o biógrafo de Rita Lobato. Claro, nada melhor,para desfazer a dúvida, do que recorrer ao Bispado de Pelotas e conseguir umacópia da certidão de nascimento. No bispado de Pelotas, feito o pedido de análisepara o ano de 1869, não aparece nenhum registro, naquele ano, de uma recém-nascida com o nome de Antonieta. O arquivo desta instituição é guardado porapenas uma pessoa, o que significa que, se esta sai de férias ou precisa por algummotivo se afastar do trabalho, não há quem a substitua, e este foi o problemaencontrado nesta pesquisa. Ao retornar ao arquivo para fazer o pedido deverificação para o ano de 1868, a funcionária já estava de férias e só retornaria emfevereiro, quando este trabalho já estaria entregue. O pai de Antonieta, Antonio Joaquim Dias, nasceu em 1844 na província deTrás os Montes, no reino de Portugal. Chegou ao Rio de Janeiro com 13 anos e, nãose habituando à cidade, mudou-se para Rio Grande. Em 1869, transferiu residência
  12. 12. 11para a cidade de Pelotas, fundando em 1° de janeiro 1875 o jornal diário CorreioMercantil. Neste jornal, em 10 de março de 1892, dois dias após sua morte, foipublicada uma curta biografia do jornalista. Em seguida, aparece a constatação:“São muito defficientes os dados biographicos que possuimos sobre a vida do nossofinado chefe, que pouco fallava de si, quer na intimidade, quer em publico.” Além de ser jornalista combativo e polêmico, Antonio Joaquim Dias deixouseu nome ligado a dois empreendimentos institucionais: a fundação da BibliothecaPública Pelotense, no mesmo ano de 1875; e do Asilo de Mendigos de Pelotas, em1887. Teve dois filhos, Antonieta Cesar Dias e Cesar Dias. Antonieta desde a infância mostrou-se atenta aos estudos. Neste sentido foimotivo de permanente orgulho para o seu pai, que a defendia sempre. No ano de1879, frequentava a escola São Francisco de Paula, de Carlos André Laquintinie eBenjamim Amarante, estudando para os preparatórios, exames prestados todos osanos, no mês de dezembro, em Porto Alegre. No ano de 1881 foi aluna do professorBibiano de Almeida, do qual trataremos adiante. Em 1881, quando, supõe-se, Antonieta contava 12 anos, envolveu-se emuma discussão gramatical entre os conhecidos professores Bibiano Francisco deAlmeida e Hilário Ribeiro, publicada em dois jornais da cidade. Hilário Ribeiro escrevia para o Jornal do Comércio, de propriedade de ArturLara Ulrich, e Bibiano de Almeida escrevia para o Correio Mercantil, ambos seagredindo em alguns momentos e discutindo a respeito de livros didáticos e demétodos de ensino. Hilário Ribeiro nasceu em 1847 em Porto Alegre e acabou porse dedicar ao magistério após tentativas frustradas de ingressar numa faculdade deMedicina. Também escreveu poesias e a peças teatrais, até se concentrar naprodução de trabalhos didáticos — cartilhas, livros de geografia, leitura e gramática.Foi um dos fundadores do Partenon Literário, associação que reunia a nata daintelectualidade rio-grandense. Bibiano Francisco de Almeida era dedicadointegralmente à profissão do magistério, mas antes disso chegou a frequentar umSeminário, abandonando-o por lhe faltar vocação para o sacerdócio. Nasceu emBelém, no ano de 1838, e quando veio para Pelotas, nesse ano de 1881, fundou um
  13. 13. 12colégio, conhecido como Colégio Bibiano, juntamente com o filósofo João Affonso.Ao mudar-se para Rio Grande, permaneceu lecionando, porém através de aulasparticulares. Escreveu notáveis obras pedagógicas, como por exemplo, Compendiode Grammatica Portugueza. As discussões entre os dois estudiosos de gramática prolongaram-se pormais de um mês, de forma pública, nos jornais mencionados. Hilário Ribeiro citavafrases e publicações de Bibiano, deixando suas críticas abaixo e indicando melhoresmétodos para lidar com os alunos; dizia que Bibiano usava técnicas superadas,fazendo com que os alunos apenas decorassem os conteúdos. Bibiano respondiaem sua defesa, muitas vezes em tom agressivo, como podemos perceber em seuartigo publicado no Correio Mercantil de 31 de julho de 1881: Não é para discutir com o Sr. Hilário Ribeiro que volto a esta questão, pois que o Sr. Hilário é privado da aptidão necessária para argumentar com raciocinios mais ou menos respeitaveis em materia grammatical. Escrevo para o público illustrado e sensato da cidade de Pelotas. (Correio Mercantil, 31 de julho de 1881) A agressividade também dominava as intervenções de Hilário, visível emfrases como “em destroços põe o Sr. Bibiano a lingua de Camões!”, publicada noJornal do Comércio de 2 de agosto de 1881. Nesse mesmo dia, Hilário relembraoutra desavença ocorrida entre os dois: “Quem, no Rio-Grandense de 16 de abril de1868, escreveu aquelle artigo, que mereceu a condenação geral? Não foi o Sr.Bibiano Francisco de Almeida?”. E prossegue transcrevendo matéria veiculada peloJornal do Comércio de Porto Alegre, em 24 de maio de 1868: Ao público. No Rio-Grandense de 16 de abril ultimo, fui injuriado pelo professor publico Bibiano Francisco de Almeida por haver este jornal noticiado que de seu quintal atiraram foguetes quando sahia o vapor que conduzia o Sr. Dr. Homem de Mello. Não respondo, porque não sei escrever em semelhante linguagem; a offensa, porem, precisava de uma reparação e essa fui buscal-a na lei que pune os abusos de liberdade de imprensa. (Jornal do Comércio, 02 de agosto de 1881) Hilário Ribeiro chama Bibiano de Almeida de “o mais chulo dos prosadores”,no Jornal do Comércio de 17 de julho de 1881. Os artigos de Bibiano intitulavam-se“Questão Grammatical” e visavam responder aos ataques de Hilário, além de criticaro colega e divulgar seu próprio trabalho, tentando mostrar aos pelotenses que suasfórmulas de ensino eram as mais atualizadas e úteis.
  14. 14. 13 Os debates eram acalorados, e outras pessoas acabaram por se envolver,defendendo ora um lado, ora outro. Um exemplo é o professor Heráclito Camargo,que publicou críticas ao trabalho de Bibiano no Jornal do Comércio em 1881.Bibiano de Almeida não costumava deixar as críticas sem resposta, e no CorreioMercantil de 29 de julho de 1881 disse a Heráclito que estava muito ocupadopensando nas aulas que lecionava, na cópia de um circular que fazia e nos estudosreferentes à Lagoa dos Patos para responder-lhe, mas deu-lhe o conselho de não semeter “em questões alheias, principalmente n’aquellas em que o amiguinho vê comocégo.” No dia 31 de julho de 1881, a jovem Antonieta Dias se envolveu nadiscussão, publicando um artigo no jornal de seu pai, o Correio Mercantil, paradefender o seu professor Bibiano de Almeida e manifestar que o errado era o Sr.Heráclito Camargo, ao criticar uma afirmação, segundo ela correta, de Bibiano. O artigo assinado por Antonieta Dias contém um amplo comentário arespeito das correções feitas no artigo de Heráclito e a das próprias frases escritaspor este. Com respeito, a jovem explica nas primeiras linhas: Ilm. Sr. Heráclito Camargo, Tendo V.S. no jornal de hoje, notado alguns erros em diversos trechos de um artigo escripto por meu distincto e illustrado professor, o Sr. Bibiano Francisco de Almeida, erros esses, uns grammaticaes, outros de lingüística, com os quais eu não concordo, peço-lhe permissão para analysar, como entendo, os mesmos trechos, afim de demonstrar, que em minha fraca opinião, é V.S. quem está em erro. (Correio Mercantil, 31 de julho de 1881) De forma extensa, Antonieta cita as frases que, segundo ela defende, foramcolocadas de forma errada por Heráclito, e demonstra profundo conhecimentogramatical, analisando as orações de Bibiano criticadas por Camargo, dizendoestarem corretas e colocando em análise os sujeitos dos períodos, citando verbetesde dicionário, sinônimos, correções de cópias feitas erroneamente de frases deBibiano por Heráclito... Tudo para provar que seu professor, Bibiano, na verdadeestava sendo vítima de um ataque pessoal e intelectualmente desnecessário. Oartigo completo está transcrito no anexo I, ao fim do trabalho.
  15. 15. 14 Esse artigo demonstra coragem e ousadia, não só por parte de Antonieta, aose expor com tão pouca idade em um assunto de discussão pública, entre homens,mas também por parte de seu pai, permitindo que ela participasse dessa discussão.Além de ser do sexo feminino, a cujo universo muita coisa era vetada, ainda nasegunda metade do século XIX, era uma estudante de apenas 12 anos discutindogramática com professores consagrados, autores de livros didáticos. Mas éimportante lembrar que ela não usou de ataques ofensivos para com o Sr. Camargo,ateve-se apenas a discussões gramaticais. Certamente, o artigo assinado por Antonieta Dias causou repercussão.Obteve, dois dias depois, em 2 de agosto de 1881, uma resposta publicada noJornal do Comércio, mas por pessoa de menor coragem, já que o artigo foi assinadocomo “um discípulo de Janet”, ou seja, por um anônimo. Logo nas primeiras linhas,percebe-se o tom agressivo com que o anônimo se refere a Antonieta: Gentil menina, Ora, para que te metteste em camiza de onze varas, - tu, uma menina que, bem encaminhada, pódes apparecer com alguma distincção entre o teu sexo! É verdade que a culpa não é tua, meu amor, porque teu pai tem tão pouco juizo que não duvidou confiar o desenvolvimento de tua mentalidade infantil ao ex-professor publico Bibiano Francisco de Almeida, mas, apesar, d’isso, reveste-se de paciência para ouvires algumas lições. E que isto sirva-te de exemplo, para não te metteres outra vez em assumpto alheio aos enfeites das tuas bonecas. (Jornal do Comércio, 2 de agosto de 1881) O anônimo prossegue, acusando Antonieta de não ser a autêntica redatorado artigo, apenas publicado com seu nome. Afirma: “Abordo sem mais preambulos oque escreveu o teu encyclopedico professor no jornal de teu pai e que tuinconscientemente assignaste.” No final, continuam os conselhos: Uma vez que teu pai, apezar de jornalista, não se lembra que para testas de ferro são sempre escolhidos os Deus Te Livre e Zés Pereiras, conchega-te ao seio do anjo do lar, d’essa creatura sublime que nos cérca de affectos, que sente as nossas dôres e experimenta as nossas alegrias, e foge do fogo do contacto venenoso d’aquelle que está muito longe de comprehender a sagrada missão de preceptor da infancia... (Jornal do Comércio, 2 de agosto de 1881)
  16. 16. 15 No Correio Mercantil do dia seguinte, 3 de agosto de 1881, Antonio JoaquimDias, não deixando passar sem resposta essa ofensa à sua filha e a si mesmo,publicou um artigo, assinado, com o título de “Há homens para tudo”. Neste artigo,Dias entra em defesa da filha, dizendo que ela queria “prestar homenagem deapreço ao seu distincto e illustrado professor” e que, tratando-se “de uma questão deexercicios na lingua vernacula, e mais – de uma fineza ao mestre”, ele não viuproblemas em permitir que a mesma escrevesse o texto. Afirma que sua filha nãoteve a intenção de ofender o Sr. Camargo, mas que mesmo assim foi chamadapublicamente de “testa de ferro” em uma publicação anônima. Ofendido, AntonioJoaquim Dias parte para o ataque e chama o anônimo de “parasita dos cofrespublicos”. Afirma ter três testemunhas, além de Bibiano, que haviam comparecido,coincidentemente, ao seu escritório no momento em que Antonieta elaborava oConvida o anônimo, se este “não for charlatão”, “a certificar-se das suas habilitaçõese talvez a sentar-se com ella a uma mesa de exames em portuguez”. Concluindo,afirma que o Sr. Heráclito e o anônimo “faltaram com a verdade e falsificaram umperiodo de um artigo do Sr. Bibiano de Almeida afim de lhe notarem um erro degrammatica. Há homens para tudo.” Se o texto foi ou não produzido autenticamente por Antonieta Dias não hácomo saber. De todo o modo, um artigo de jornal assinado por uma menina de 12anos não era comum no período, e só foi possível para Antonieta em função de elaser filha do diretor do jornal e de seu pai ser um cidadão esclarecido e polêmico. *** No século XIX, no Brasil, quase tudo era vedado às mulheres. Uma dasrestrições era o ingresso em cursos de ensino superior. Esta realidade só foimodificada no ano de 1879. Através da Reforma Leôncio de Carvalho, passou-se apermitir a matrícula feminina nas faculdades nacionais. Também conhecida como “Reforma do Ensino Livre”, foi transformada emlei pelo Decreto 7.247, de 19 de abril de 1879. As mudanças que essa determinaçãotrouxe iam desde ações no ensino primário até ações no ensino superior, como porexemplo, as que tornavam possível a colação de grau de acatólicos sem a obrigaçãode fazer exame de direito eclesiástico; a permissão de que o juramento durante a
  17. 17. 16colação de grau fosse de acordo com a religião do aluno; e a referida matrícula demulheres em cursos e faculdades, a liberação para estudarem no mesmo espaçoconferido aos homens e a consequente obtenção do título acadêmico. Segundo Antonietta Nunes, em artigo publicado na Revista Gestão em Ação,de Salvador (1999), as idéias de Leôncio de Carvalho eram muito avançadas para operíodo e não foram totalmente implantadas. No ano de 1881, logo após a aprovação da Reforma, algumas mulheres sematricularam na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, como AmbrosinaMagalhães e Augusta Castelões Fernandes, mas não concluíram o curso.Ambrosina acabou assumindo sua vocação poética e de Augusta não foi possívelencontrar maiores dados. Em 1883, Elisa Borges Ribeiro também se matriculounessa faculdade. Elizabeth Rago, em artigo intitulado “A ruptura do mundo masculino damedicina: médicas brasileiras no século XIX”, publicado no ano 2000 em Cadernosde Pagu, revista que faz estudo de gêneros, retraça um histórico das mulheres quese dedicaram aos cursos médicos no Brasil durante o século XIX, e é interessantepercebermos a sua análise nesse parágrafo da página 204: “Em meados do séculoXIX, a oposição às mulheres que optavam pela medicina era muito maior do queaquela feita em relação às profissões de menos prestígio, como a enfermagem e omagistério.” (RAGO, 2000, p.204). Professoras no século XIX já existiam no Brasil,mas mulheres ligadas à Medicina eram normalmente enfermeiras ou parteiras, nãoexistindo médicas formadas em escolas de nível superior até 1881, quando MariaAugusta Generoso Estrela recebeu o diploma de médica pela universidade norte-americana New York Medical College and Hospital for Women. (SILVA, 1954, p. 35-36). No ano de 1884, três jovens rio-grandenses se matricularam na Faculdadede Medicina do Rio de Janeiro: Rita Lobato Velho Lopes, Ermelinda Lopes deVasconcellos e Antonieta Cesar Dias. Rita Lobato transferiu sua matrícula para aFaculdade de Medicina da Bahia em 1885, onde concluiu o curso no ano de 1887,conquistando o título de primeira médica formada em uma faculdade no Brasil, comovemos comprovado no já citado livro de Alberto Silva. Ermelinda Lopes recebeu o
  18. 18. 17título de segunda médica formada no Brasil em 1888, sendo a primeira a se formarna Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. A tese de doutoramento de RitaLobato tem o título Paralelo entre os Métodos Preconizados na Operação Cezariana,e a tese de Ermelinda Lopes possui o nome de Formas Clínicas das Meningites nasCrianças – Diagnostico Diferencial. (SILVA, 1945, p.76-77). Sobre a matrícula de Antonieta Dias, diz uma matéria de capa no jornalCorreio Mercantil de 22 de março de 1884 que ela já estava matriculada no curso deMedicina. Só que, para ela, que tinha apenas 15 anos2 — a idade mínima era 18 —não fora fácil conseguir autorização para se matricular na Faculdade: fez-senecessária uma licença especial do Congresso, obtida através do deputadoEleutério de Camargo (conforme Mario Osorio Magalhães em Opulência e Cultura,livro publicado em 1993). Seu pai, Antonio Joaquim Dias, teria feito todos osesforços para conseguir essa licença. No livro de Alberto Silva é levantada a hipótese de grande concorrênciaentre Rita Lobato e Antonieta Dias para conseguir o título de primeira médica doBrasil, e esta concorrência seria estimulada por seus respectivos pais (o e Ritachamava-se Francisco Lobato, e era charqueador em Pelotas) desde 1879, com aaprovação da reforma, ou seja, cinco anos antes das alunas se matricularem nocurso. As duas futuras médicas haviam sido colegas na escola dos professoresCarlos André Laquintinie e Benjamim Amarante. Segundo Silva, Os professores Laquintinie e Amarante receberam certa feita a seguinte ameaça do Sr. Antonio Joaquim Dias, escritor e jornalista pelotense, pai da aluna Antonieta Cesar Dias: ou eles dificultavam o estudo da aluna Rita Lobato ou ele Antonio Joaquim Dias, desmoralizaria o seu colégio pelo ‘Correio Mercantil’. Pretendia dar tempo à filha de galgar a dianteira da colega e matricular-se primeiro na Faculdade de Medicina do Rio. Tal, porém, não se deu porque Francisco Lopes transferiu a filha para Porto Alegre onde concluiu logo o curso. (SILVA, 1945, p. 88). No entanto, o autor não mostra nenhuma prova documental do que afirma.Magalhães acredita que as informações sobre o episódio sejam da própria RitaLobato. (MAGALHÃES, 1993, p.234). O livro escrito por Silva se utilizou das 2 Conforme cita Alberto Silva a respeito de Antonieta: “Era, entretanto, a mais moça das três, poisnascida em 1869, contava apenas 15 anos de idade ao iniciar o curso médico.” (SILVA, 1954, p.60)
  19. 19. 18memórias de Rita, ainda viva durante a produção da obra. Muitos dados expostos nolivro provém de informações fornecidas pela própria médica. A justificativa usadapelo autor para a produção do livro foi de conceder o título de primeira médicaformada em uma faculdade brasileira a Rita Lobato, pois conforme encontramos emBarros Vidal, no livro Precursoras Brasileiras, de 1952, Ermelinda Lopes eraconsiderada dona deste título. É importante perceber que todas estas primeiras médicas do Brasilenfrentaram os preconceitos de sua sociedade e, como conclui Rago, essasmulheres (...) exerceram um papel histórico revolucionário se considerarmos que elas reverteram as pressões sociais ampliando o espaço público destinado às mulheres, demonstrando coragem, capacidade intelectual e se afirmando cada vez mais no campo através da competência. (RAGO, 2000, p.224) Do pouco que sabemos, com precisão, em relação aos anos de faculdadede Antonieta, é seguro afirmar que sua mãe, Cesária Dias era quem aacompanhava, de início, na capital federal, mas só até que o final do ano de 1886,quando veio a falecer. As dificuldades de pesquisa não nos permitiram saber ascausas da morte de Cesária. De acordo com matéria publicada no Correio Mercantilde 10 de janeiro de 1890, o pai de Antonieta passou a acompanhá-la no Rio deJaneiro, para que pudesse concluir o curso médico, após a morte de sua mãe.Nessa mesma edição do jornal há uma relação de nomes de alguns professores queAntonieta teve durante o curso: “(...) excelentes mestres como Feijó, Erico Coelho,Brandão e Mme. Durocher.” (Correio Mercantil, 10 de janeiro de 1890, apud CorreioPaulistano, 24 de dezembro de 1889). Enquanto a mãe de Antonieta viveu com ela no Rio de Janeiro, escreviacartas ao esposo que ficara em Pelotas. Em uma dessas cartas, redigida em 25 deoutubro de 1885, diz D. Cesária sobre a filha: Antonieta está muito animada para os exames, talvez no dia 6 ou 7 de novembro, entre em fogo, tenha esperança que se sahirá muito bem, todos acham-na bem preparada. Tem trabalhado muito, por que as materias deste anno são mui difficeis, o seu maior desejo é passar para o 3º anno e como tal regressar a Província para mostrar que a mulher tambem tem capacidade, para estudar, e tornar-se util a sua Patria e a
  20. 20. 19 humanidade. (Acervo arquivístico do Museu de História da Medicina do RS). No Correio Mercantil de 29 de abril de 1886, a leitora (e escritora) LuizaCavalcanti Filha publica um artigo citando nomes de mulheres que estavam sededicando aos estudos neste período: Julieta Monteiro, Revocata de Mello, Cândida Fortes, Cândida Isolina de Abreu, Honorina Torres – almas plenas de enthusiasmo e sensibilidade – Antonieta Cezar Dias – inspirada criança, que permuta as blandícias do lar pelo banco acadêmico, as magas ilusões da juventude pelo livro árduo da sciencia. (FILHA, Luiza Cavalcanti. Correio Mercantil, Pelotas, 29 de abril de 1886. In: GONÇALVES e PERES, 2007, p.10.) Em 1887, enquanto Rita Lobato conquistava o título de primeira médicaformada no Brasil, o jornal A Ventarola, de 11 de dezembro, publicava na capa umretrato de Antonieta Dias. (Fig. 1) E na página dois do jornal inseria uma matéria arespeito da jovem, destacando seus méritos de estudante desde a infância elembrando ao público que a moça fora aprovada em todas as matérias do 4° ano docurso de Medicina. Em companhia do pai, neste momento de férias Antonieta seencontrava em Pelotas para repousar. Antonieta Cezar Dias Ornamenta-se hoje a primeira página da Ventarola com o retrato da jovem pelotense Antonieta Cezar Dias. Mostrando-se intelligentissima desde criança, educada com todo esmero por seu progenitor e instruida por hábeis professores, conseguiu Antonieta Dias concluir os estudos preparatorios, matriculando-se, com apenas quinze annos, na Academia de Medicina da côrte. Acaba de ser plenamente approvada em todas as materias que constituem o 4° anno medico. (A Ventarola, 11 de dezembro de 1887) É possível perceber que o ano de 1889 foi muito significativo para a vida deAntonieta (Fig. 2), justamente por ter sido o ano de sua conclusão de curso, de suaformatura, e o ano de produção de sua tese, que a permitiu ser a terceira médicaformada no Brasil. Certamente uma vitória também conquistada por seu pai, com omaior zelo possível. Os jornais rio-grandenses e fluminenses noticiaram amplamenteo ocorrido, desde a entrega da tese até sua aprovação e formatura.
  21. 21. 20 A tese foi levada a vários jornais do Brasil por Antonieta, na companhia dopai. Após receberem cópias, os jornais publicaram agradecimentos pelo presente eparabenizaram a nova médica. As congratulações publicadas nos vários jornais seestendem ao pai de Antonieta, citado na maioria das vezes junto ao nome de seujornal, Correio Mercantil. Em 30 de agosto de 1889, Antonieta apresentou sua tese à Faculdade. Otrabalho recebeu o título de Hemorrhagias Puerperais, elaborada com o objetivo deobtenção do título de Doutor em Medicina. (Fig. 3) Antes da apresentação da tese,para que aprovasse todas as cadeiras finais do curso, foi necessário que realizasseexames nas cadeiras de Toxicologia, Medicina Legal e Higiene. (Correio Mercantil,24 de dezembro de 1889). O tema das hemorragias puerperais foi estudado por Antonieta na cadeirade Partos e Ginecologia. Hemorragia puerperal é uma perda superior a meio litro desangue durante ou após o momento de expulsão da placenta. (http://www.msd-brazil.com/msd43/m_manual/mm_sec22_250.htm Disponível em 15 de janeiro de2010). O desenvolvimento da tese, de 71 páginas, foi realizado em três capítulos,intitulando-se o primeiro Metrorrhagias dos seis primeiros mezes da prenhez; osegundo, Metrorrhagias dos três últimos mezes da prenhez e o último Metrorrhagiasque complicam o delivramento. No corpo da tese, ainda, foi feito o histórico daenfermidade, a explicação das causas da moléstia, citações, análise de opiniões ecasos para esclarecimento. (O Paiz, do Rio de Janeiro, apud Correio Mercantil, 4 dejaneiro de 1890) Em 10 de setembro de 1889, o Correio Mercantil noticiou na capa a entregada tese por parte de Antonieta: Antonieta Dias – A jovem rio-grandense D. Antonieta Cesar Dias, filha do proprietario d’esta folha, ja apresentou sua these de doutoramento á faculdade de medicina do Rio de Janeiro. Escreveu sobre – Hemorrhagias Puerperaes –, ponto importantissimo e essencialmente pratico na especialidade a que se dedica – partos e ginecologia. (Correio Mercantil, 10 de setembro de 1889)
  22. 22. 21 Após três meses, no dia 17 de dezembro de 1889, foi publicada pelaprimeira vez em Pelotas a notícia de que Antonieta já havia sido aprovada em seucurso de Medicina. O Correio Mercantil, quase que diariamente, passou atranscrever notícias publicadas em outros jornais a respeito do assunto e manter opúblico pelotense informado da grande conquista de Antonieta Dias. Mas os jornais do período são conflitantes com relação à data precisa dedefesa e aprovação da tese. No Correio Mercantil do dia 17 de dezembro de 1889,afirma-se que o telegrama de aviso da aprovação da tese da de Antonieta datava dodia 12 de dezembro. No jornal Onze de Junho, também de circulação local, constaque “no dia 12 do corrente defendeu these perante a Faculdade de Medicina do Rio,sendo plenamente approvada, a distincta estudante pelotense Exma. Sra. D.Antonieta C. Dias...” (Onze de Junho, 19 de dezembro de 1889). Por sua vez,porém, o jornal O Paiz, do Rio de Janeiro, afirma que “Defendeu these hontem (11)perante a respectiva comissão da faculdade de medicina, a jovem doutoranda D.Antonieta Dias. (...) A sua defesa de these, que mereceu approvação plena, foi umarevelação (...).” (O Paiz, 12 de dezembro de 1889 apud Correio Mercantil, 21 dedezembro de 1889). É provável que o jornal Onze de Junho tenha se confundidoentre a data da aprovação e a data do recebimento em Pelotas do telegrama queconfirmava a aprovação. Sua defesa foi realizada certamente dia 11, pois no dia 12o jornal carioca já dava notícia do acontecimento. A colação de grau da jovem médica foi realizada no Rio de Janeiro em 22 dedezembro de 1889. Com previsão de oito dias depois da cerimônia de colação degrau, seria expedido a ela o título científico. (Correio Mercantil, 21 de dezembro de1889). A respeito de sua formatura foi publicada a seguinte matéria: Por telegramma, sabemos que ante-hontem, com as formalidades do estylo, recebeu o gráo de doutora em medicina pela faculdade do Rio de Janeiro, a nossa talentosa comprovinciana Sra. D. Antonieta Cezar Dias, filha do proprietário e diretor d’esta folha. (...) De coração enviamos, tanto á illustre doutora como ao nosso amigo e collega os nossos sinceros parabens. (...) (Correio Mercantil, 24 de dezembro de 1889).
  23. 23. 22 No dia 31 de dezembro de 1889, chegou a Pelotas a Dra. Antonieta Dias,acompanhada do pai e do irmão. Seu irmão, Cesar Dias, no momento estava no 2°ano do curso de Direito da academia de São Paulo. No jornal Correio Mercantil dodia seguinte foi publicado este texto: “Por muitas distinctas familias e cavalheiros foihontem recebida na estação da estrada de ferro e acompanhada até a residência ajovem doutora Antonieta Dias.” (Correio Mercantil, 1º de janeiro de 1890). Primeirochegaram a Rio Grande, onde jornalistas do Echo do Sul ofereceram-lhes umalmoço. Após a chegada em Pelotas, foi proporcionado à família um jantar no HotelAliança, onde muitas pessoas da sociedade pelotense estiveram presentes. O jantarfoi oferecido pelo Sr. Fernando Negreira e se estendeu até à madrugada comdanças. As comemorações seguiram-se dia 1º de janeiro de 1890, quando seupadrinho Fernando Osorio e sua esposa abriram sua casa para recepcionar efestejar a conquista da Dra. Antonieta. Nesta casa, situada na Rua Quinze, defronteà Catedral do Redentor, também “houve dança e banquete, sendo n’esteenthusiasticamente saudada a talentosa rio-grandense.” (Estado do Sul apudCorreio Mercantil, 16 de janeiro de 1890). No jornal Vida Fluminense foi publicado um retrato da Dra. Antonieta,segundo transcrição do Correio Mercantil de 10 de janeiro de 1890. Além daimagem, há uma matéria de congratulação à doutora por ter combatido ospreconceitos de seus contemporâneos. Vemos o quanto foi lisonjeiro para ela haverconquistado este título, que lhe trouxe dignas homenagens de vários periódicos euma excelente recepção em sua cidade natal. *** Após todos os esforços do pai para que a filha conquistasse a vitória daformatura, o próximo passo foi divulgar a tese e o título da agora Dra. Antonieta Diasem todos os jornais a que teve acesso. Visitou em 1890 as redações dos jornaisgaúchos e cariocas, junto da filha, munido de uma cópia da tese e presenteandocom ela os redatores. Com certeza foi a forma que Antonio Dias elegeu de poderdivulgar o trabalho da filha e vê-lo definitivamente na mídia. Igualmente, foramenviadas cópias da tese pelo correio às redações dos jornais de outras regiões. Ofato foi amplamente noticiado e no Correio Mercantil de Pelotas de 1889 e 1890 há
  24. 24. 23transcrições das matérias sobre a formatura e a tese da Dra. Antonieta que forampublicadas nos jornais do Rio Grande do Sul, São Paulo e Rio de Janeiro. Em 4 de janeiro de 1890, foi publicado no Correio Mercantil umagradecimento à atenção com que a imprensa do Rio de Janeiro recebeu umexemplar da tese defendida por Antonieta, ao mesmo tempo explicando que o jornalse sentia no dever de reproduzir os generosos conceitos desta mídia. Em sua tese, Antonieta dedica o trabalho também à imprensa, dizendo: “Àimprensa rio-grandense – Agradeço os favores que sempre me dispensastes econfio na tua protecção.” (Mercantil apud Correio Mercantil, 19 de janeiro de 1890).E não era para menos. Afinal, se considerarmos apenas os jornais mencionadospelo Correio Mercantil entre dezembro de 1889 e fevereiro de 1890, chegamos aonúmero de 33 jornais gaúchos, 1 jornal paulista e 12 jornais cariocas com notíciasreferentes a ela, totalizando 46 jornais diferentes nos três estados. Há um texto escrito por uma mulher que demonstra o apoio oferecido aAntonieta por algumas pessoas, principalmente aquelas que lutavam pelaindependência feminina, e está publicado no jornal Família, do Rio de Janeiro: A sua formatura traduz mais uma victoria para o sexo que representa, sobre os preconceitos brutaes da educação atrophiante, ainda, infelizmente em vigor. Provando por todos os dotes intellectuais a competencia da mulher no concurso das profissões, de par com os homens, a formatura da Dra. Antonieta Dias vem reforçar tacitamente, o protesto mais vehemente contra as opiniões contrarias á nossa emancipação, ultimamente debatida até no theatro, de modo algumas vezes desairoso. (Família apud Correio Mercantil 10 de janeiro de 1890). Mesmo em alguns textos publicados nos jornais em comemoração àformatura de Antonieta, presenciamos expressões preconceituosas quanto àsmulheres, como por exemplo: “Antonieta Dias, como Rita Lobato e Ermelinda deVasconcelos, provam que no Rio Grande até o sexo fraco arca com todas asdificuldades, simplesmente pelo desejo ardente de saber.” (Mercantil apud CorreioMercantil, 19 de janeiro de 1890).
  25. 25. 24 No ano de formatura de Antonieta, 1889, houve uma peça em cartaz no Riode Janeiro, chamada As Doutoras, escrita por Joaquim José de França Junior. Essapeça era uma comédia com a tentativa de ridicularizar as médicas brasileiras.(RAGO, 2000, 216). Vemos, assim, que nem todas as observações a respeito doingresso das mulheres no mundo da Medicina eram positivas, mas através dosjornais pesquisados apenas foram encontrados elogios a Antonieta por suaformatura. Sempre, porém, é importante lembrar que os jornais podem definir papéissociais e estabelecer relações de poder, em é feita uma representação do real comum projeto da sociedade que eles tentam generalizar e fazer caminhos paraalcançá-lo. (VIEIRA, PEIXOTO, KHOURY, 1989, p.54-55). Por isso, não sejamos ingênuos de acreditar que Antonieta não foi em algummomento hostilizada. Em sua tese ela dedica a seguinte frase às suas colegas:“Vencemos a resistência e o preconceito. Oxalá nos imitem o exemplo e compensemo sacrifício”. (Correio do Povo do Rio de Janeiro apud Correio Mercantil, janeiro de18903). Fica visível que não foram fáceis os anos de faculdade para aquelasmulheres que no século XIX enfrentaram o preconceito e matricularam-se no ensinosuperior. Coragem, força de vontade e resistência foram essenciais para queconcluíssem os estudos superiores. 3 Não foi possível visualizar a data deste jornal devido às más condições do mesmo.
  26. 26. 25 2. Dra. Antonieta Dias Morpurgo Neste capítulo serão abordadas informações referentes à vida e ao trabalhoda Dra. Antonieta Dias Morpurgo. Após sua formatura, em dezembro de 1889, ajovem médica, ainda Antonieta Dias, ainda solteira, veio para Pelotas comemorarsua vitória com amigos e familiares. Sendo muito bem recebida nesta cidade, em 22de março inaugurou seu primeiro consultório, localizado à Rua São Miguel (atualQuinze de Novembro), número 112. Seu pai prontamente providenciou uma matéria do jornal Correio Mercantilcomunicando à sociedade pelotense que estava sendo inaugurado o gabinete deconsultas da Dra. Antonieta: “Tenho a honra de apresentar à sociedade pelotense,na sua qualidade de médica pela Faculdade do Rio de Janeiro, minha filha AntonietaCesar Dias, que abre hoje seu consultório á rua S. Miguel n. 112.” (CorreioMercantil, 22 de março de 1890). E com orgulho passa a descrever os méritos dafilha, afirmando que ela estava capacitada para exercer a profissão médica epedindo à sociedade que a acolhesse bem: Embora suspeito para apreciar seus merecimentos scientificos, julgo do meu dever affirmar que durante o seu curso adquiriu os necessarios conhecimentos praticos e theoricos para exercer conscienciosamente a nobre profissão a que se consagra. Durante os ultimos tres annos de estudos, frequentou diariamente as diversas enfermarias do hospital da Santa Casa de Misericordia do Rio de Janeiro e os consultorios da Polyclinica Geral, recebendo e aproveitando o mais possivel as lições dos illustres professores Feijó Junior, Eurico Coelho e Brandão, especialistas em partos e gynecologia, Martins Costa e Nuno de Andrade, clinica geral, visconde de Saboia e Lima Castro, operações, Moncorvo e Barata Ribeiro, molestias de creanças. – Particularmente, estudou tambem, durante dous annos, com a notavel e antiga parteira Mme. Durocher e com ela aprendeu em exercicios constantes o que a experiencia ensina em trabalhos de semelhante natureza. Creio, portanto, que minha filha Antonieta Dias acha-se preparada para corresponder á confiança das distinctas familias
  27. 27. 26 pelotenses, a quem a recommendo e de quem para ella solicito generoso acolhimento. (Correio Mercantil, 22 de março de 1890). Podemos observar, por este artigo, que a única mulher a ministrar aulas aDra. Antonieta não era médica, mas parteira, ofício comum entre mulheres desde ostempos mais remotos. Após esta matéria, passou a aparecer no Correio Mercantil um anúncio comhorários de atendimento, especialidade e endereço do consultório da médica (Fig. 4)Tal anúncio era publicado quase que diariamente e na maioria das vezes figurava nacapa do jornal. A especialidade médica escolhida pela Dra. Antonieta foi,sintomaticamente, obstetrícia e ginecologia; atender à saúde da mulher foi desde oinício a sua escolha. No dia 28 de março de 1890, surge um novo anúncio de atendimento daDra. Antonieta. Desta vez, é oferecida consulta gratuita aos pobres no consultório damédica, mas com horário diferenciado: das 8h às 9 h, ao passo que a particularesatendia das 13h às 15h. Gratis aos pobres. Antonieta Dias, medica pela faculdade do Rio de Janeiro, dá consultas grátis, a senhoras e creanças pobres, em seu consultorio á rua S. Miguel n.112, das 8 ás 9 horas da manha. (Correio Mercantil, 28 de março de 1890). Um aspecto interessante dessa propaganda é que, diferentemente dosoutros médicos, continham a indicação da formação da Dra. Antonieta. Sendo aúnica médica da cidade, havia necessidade de mostrar que também tivera formaçãoacadêmica e estava habilitada legalmente para atender à saúde da população. Os atendimentos grátis aos pobres mudaram de endereço pouco depois, epassaram a ser realizados no hospital da Santa Casa de Misericórdia de Pelotas,das 10h às 11h. Até o dia 11 de novembro, quando mudaram para o horário das 8hàs 9h. (Correio Mercantil, 3 de julho de 1890 e 11 de novembro de 1890). Seuconsultório também não permaneceu muito tempo no primeiro endereço, e emsetembro se transferiu para a Rua Felix da Cunha número 139, nas proximidades doClube Comercial. (Correio Mercantil, 11 de setembro de 1890). O local do primeiroconsultório da Dra. Antonieta ficou disponível para aluguel após a sua saída,conforme mostra anúncio publicado em jornal: “ALUGA-SE o sobrado á rua S.
  28. 28. 27Miguel ns. 110 e 112, proprio para residência e escritorio.” (Correio Mercantil, 11 desetembro de 1890). Neste ano a Dra. Antonieta, através de suas consultas aos pobres, passou afazer parte do corpo médico da Santa Casa de Misericórdia, junto a médicos derenome, como o Barão de Itapitocai – Dr. Miguel Rodrigues Barcelos –, Dr. AntonioAugusto de Assumpção, Dr. Edmundo Berchon des Essarts, Dr. Antonio Franciscoda Rocha e Dr. Bruno Chaves. A respeito de seu trabalho, o Barão do Arroio Grande– Francisco Antunes Gomes da Costa –, provedor do hospital, em seu relatórioreferente ao período entre 1° de julho de 1889 e 31 de dezembro de 1890, fazmenção a Dra. Antonieta e ao seu trabalho: A Exma. Sra. Dra. D. Antonietta Dias teve igualmente a gentileza de offerecer-se-nos para tomar a si as consultas gratuitas em favor das sras. e crianças desvalidas, o que agradecidos acceitamos, tendo ella com a maxima pontualidade e zelo desempenhado-se do seu generoso e expontaneo offerecimento. (Relatório de Administração hospital Santa Casa de Misericórdia de Pelotas, 1889-1890). De acordo com pesquisas feitas nos referidos relatórios, e diante dos dadosexpostos no primeiro capítulo deste trabalho, chega-se à conclusão de que a Dra.Antonieta Dias foi a primeira médica a trabalhar na Santa Casa de Misericórdia dePelotas. Desde 1886, enquanto ainda estava na faculdade, a Dra. Antonietafrequentava quotidianamente a Santa Casa do Rio de Janeiro. (Correio Paulistano27 de dezembro de 1889 apud Correio Mercantil, 10 de janeiro de 1890). Chegandoa Pelotas, depois de formada, a Santa Casa local foi o primeiro hospital em quetrabalhou. Nos relatórios do hospital há registros de que seu pai havia feito doaçãode 40$000 à Santa Casa entre os anos de 1881 e 1882, participando da lista debenfeitores. Entre 1888 e 1889, o Correio Mercantil transferiu à instituição o valor de20$000. Em 1892, recebeu a Dra. Antonieta uma triste notícia. Seu pai havia falecido,durante uma viagem no paquete Rio Pardo, no dia 8 de março. O destino da viagemera Porto Alegre, com a intenção de deixar em um colégio de freiras de SãoLeopoldo uma afilhada de 10 anos chamada Cezarlina Negreira, filha de Fernando
  29. 29. 28Negreira. Este havia oferecido jantar à Dra. Antonieta no réveillon de 1889, conformedescrito no primeiro capítulo, e certamente era muito amigo da família Dias. O jornalista Antonio Joaquim Dias estava doente desde 1890. Seguindoconselhos médicos, foi para o Rio de Janeiro, retornando a Pelotas em dezembro de1891. Muitas foram as homenagens à sua memória publicadas no jornal fundado porele. No dia 15 de março, na Igreja Matriz, atualmente Catedral, foi realizada às 9huma missa de 7° dia. Sobre o caixão seus filhos depositaram uma coroa, com asusuais palavras “Saudade eterna de seus filhos – Antonieta e Cesar.” (CorreioMercantil, 10, 11 e 12 de março de 1892). Foi Cesar Dias quem ficou responsável pelo jornal do pai após a sua morte.Cesar recebeu a notícia de que era sucessor na propriedade do jornal através dosredatores da folha, que prontamente lhe enviaram um telegrama, respondido daseguinte forma: “Embarcarei familia quando possivel arranjos aqui. Dêem todas asprovidencias, ficando obrigado pelas attenções. Confio tudo da vossa amizade eespero que serão meus companheiros dedicados como foram de meu pai.” (CorreioMercantil, 10 de março de 1892). Não temos a data precisa em que a Dra. Antonieta mudou-se de Pelotaspara o Rio de Janeiro, transferindo inclusive seu consultório. Mas sem dúvida foi noano de 1891, e partiu acompanhada do pai e do irmão, que estudava direito em SãoPaulo. (Correio Mercantil, 09 e 12 de março de 1892). Na capital da República, a Dra. Antonieta casou-se com Eduardo Morpurgo(fig. 5). Conforme aponta a matéria publicada no jornal carioca Rua do Ouvidor, em17 de agosto de 1901, a Dra. Antonieta casou-se com Eduardo em 15 de novembrode 1892. Após o casamento, passou a assinar-se Antonieta Dias Morpurgo. Informações fornecidas pela escritora e pesquisadora Anamaria NunesVieira Ferreira, após pesquisa no Relatório do Ministro do Interior, no AlmanakLaemmert, de 1891, dão conta de que Morpurgo naturalizou-se brasileiro entre 1889e 1891. Nasceu em 1872 na Guiana Holandesa e foi o engenheiro responsável pelailuminação da Avenida Central do Rio de Janeiro, durante a Reforma Pereira Passos(1902-1906), que modificou vários aspectos desta avenida. Após a vinda para oBrasil, conheceu a Dra. Antonieta Dias e com ela contraiu matrimônio.
  30. 30. 29 No Dicionário das Famílias Brasileiras, há uma informação referente aEduardo Morpurgo dizendo que este teria se estabelecido no Rio de Janeiro em1896, o que contrapõe os dados de seu casamento ter sido realizado em 1892. Épossível que este dicionário esteja com a data errada, pois já em 1889 e 1891 elenaturalizou-se brasileiro e em 1892 casou-se. Informações fornecidas, por telefone, pela bisneta da Dra. Antonieta, CláudiaMaria Morpurgo Teixeira Álvares, indicam que Eduardo era um homem muito ricopor ocasião do casamento. Possuía cavalos de corrida, mas, em decorrência dohábito de realizar apostas nos páreos do Jockey Clube, veio a perder sua fortuna. E,conforme ainda Cláudia Morpurgo, faleceu empobrecido, poucos anos depois de suaesposa. O casal teve apenas um filho, o Dr. Admar Morpurgo (Fig. 6). Assim como amãe, especializou-se em ginecologia e obstetrícia. Foi coronel médico da PolíciaMilitar, de acordo com informações de Cláudia e de Carlos Duarte. Este conheceu oDr. Admar por ser neto da madrinha do médico. Segundo informações de AnamariaNunes, o filho do casal nasceu em 16 de julho de 1897, contrapondo informações dojornal Rua do Ouvidor, que assinala 16 de julho de 1894 como a data de seunascimento. Em 24 de janeiro de 1893, o Asilo de Mendigos de Pelotas publicou noCorreio Mercantil notícias referentes às eleições para a sua diretoria. Encontra-se alio nome da Dra. Antonieta Dias como uma das Diretoras Internas concorrendo àeleição em chapa única. A votação foi realizada no dia 26 de janeiro, no salão daPraça do Comércio, atual Associação Comercial de Pelotas. No dia 02 de fevereiro,por aclamação, ficou eleita a nova diretoria, que tomou posse no dia 5. Só nãoconseguimos verificar, por ausência de informações, se a Dra. Antonieta estevepresente nessa cerimônia. Em 1896, na casa de Recolhimento Santa Rita de Cássia, localizada no Riode Janeiro, várias meninas foram abusadas e exploradas por Basílio de Moraes,administrador da instituição. Ao desconfiarem da insalubridade a que as meninasestavam sujeitas, os jornais locais passaram a publicar notícias a respeito da casa, eBasílio foi acusado do crime de abuso sexual dessas meninas. Médicos foram
  31. 31. 30chamados para examiná-las. A Dra. Antonieta, consultada para examinar uma delas,constatou que a menina havia sido deflorada. Algum tempo depois, ao serem todasexaminadas por outros médicos, foram encontradas no mesmo estado, concluindo-se que Basílio, como único homem da casa, era responsável pelo crime. (SILVA,2007, p. 125). Este caso nos chama a atenção para a exploração vivida pormulheres no século XIX, mas também para a circunstância de que a Dra. Antonietaatuava a favor dessas garotas que, ao invés de encontrarem apoio e moradia doRecolhimento, eram exploradas e abusadas sexualmente. Em 1901, o jornal Rua do Ouvidor, do Rio de Janeiro, publicou matériacomentando que a Dra. Antonieta (Fig. 7) exercia a sua profissão em vários estadosdo Brasil, entre eles Rio Grande do Sul, Minas e Espírito Santo. Demonstra que aDra. Antonieta mantinha viagens de estudo e trabalho não só por todo o Brasil, maspor outros países da América e da Europa, de onde regressara nesse ano. (Rua doOuvidor, 17 de agosto de 1901). Nos primeiros anos do século XX, a Dra. Antonieta realizou uma viagempara a França, e de Paris trouxe um folheto sobre incubadoras da marca Lion.Chegando ao Brasil, forneceu este folheto para maternidades do Rio de Janeiro, quenão possuíam ainda o material. Em parceria com o Dr. Jaime Silvado, pesquisou osresultados obtidos com essas incubadoras no tratamento de bebês prematuros e,seguindo orientação dos médicos, o Dispensário Moncorvo adquiriu duasincubadoras em 1903. A Dra. Antonieta e o Dr. Jaime foram responsáveis por trazerestes aparelhos para as maternidades cariocas, ampliando as possibilidades decuidado aos prematuros, pela possibilidade de mantê-los aquecidos nessasincubadoras, e permitindo a produção de incubadoras no próprio país. (OLIVEIRA,2004, p.461 e p.465) O pioneirismo da Dra. Antonieta na Medicina pode ser constatado ainda aoanalisarmos sua participação como secretária na diretoria provisória da CruzVermelha, quando de sua instalação no Brasil, entre 1907 e 1908. Nesta diretoria elafoi a única mulher, e atuou ao lado do Dr. Oswaldo Cruz, presidente provisório.Como secretário, estava o Dr. Jaime Silvado, que com ela fez as pesquisas, jácitadas, sobre as incubadoras. (http://www.cruzvermelhani.org.br/cvbr.htmDisponível em 04 de janeiro de 2010.)
  32. 32. 31 Nas pesquisas de Anamaria Nunes encontramos outra ligação da Dra.Antonieta com a Cruz Vermelha, ela teria sido a fundadora do Hospital da CruzVermelha na cidade de Lavras, no Rio Grande do Sul. As pesquisas de Anamariaforam realizadas através de consulta a familiares, livros, jornais. Também teveacesso à tese defendida por Antonieta em 1889. A Dra. Antonieta também se envolveu em pesquisas sobre doençasvenéreas em crianças. A princípio, constatando-se a incidência desta moléstia emcrianças, suspeitava-se de defloração, mas após as pesquisas do Dr. NinaRodrigues passou-se a pensar que muitas dessas doenças podiam ser transmitidaspela mãe durante o parto. Seguindo os estudos do Dr. Nina Rodrigues, a Dra.Antonieta, em 1908, também realizou observações sobre o tema, o que foifavorecido pelo avanço das técnicas laboratoriais. (ANTUNES, 1999, p.85-86). Em 1913, a Dra. Antonieta escreveu um artigo intitulado Assistênciaobstétrica domiciliaria, publicando-o na Revista de Ginecologia e d’Obstetrícia. Essarevista era um periódico de especialidades médicas e, de acordo com Freitas, eratambém um espaço de ...construção de conhecimento e de legitimação de saberes que reúne profissionais habilitados congregados numa classe. Logo, não é um lugar destinado a qualquer um. Segue um regimento e uma lógica própria (...). Por mais que os artigos escritos por mulheres sejam raros na revista ora analisada, constam os nomes da Dra. Antonieta Morpurgo, da Sociedade de Medicina e Cirurgia e a Mme. E. Morand, Ex. Assistente da Faculdade do Rio de Janeiro. (FREITAS, 2005, p.89). Percebemos que a Dra. Antonieta, durante sua carreira médica, nuncadeixou os estudos de lado, sempre realizando novas pesquisas e se envolvendo emtarefas nas quais, muitas vezes, acabava sendo a única mulher, mantendo acoragem necessária para vencer os preconceitos que seu sexo lhe estabeleciadentro da sociedade brasileira do final do século XIX e início do século XIX. Pelo menos desde 1909, a Dra. Antonieta já palestrava sobre o tema daassistência obstétrica a domicílio, e participou do Quarto Congresso Médico Latino-Americano, realizado no Rio de Janeiro do dia 1ª ao dia 8 de agosto, apresentandouma comunicação com o título de Assistência obstétrica domiciliar, dentro da seçãoreferente à Higiene, Climatologia, Demografia e Assistência Pública. O Congresso
  33. 33. 32reuniu mais de 1500 pessoas de várias nacionalidades. Além de brasileiros, haviainscritos provenientes da Argentina, do Uruguai, do Chile, do Paraguai, da Bolívia,da Venezuela, do Equador, do Haiti, do Panamá e do México. (Fig. 8 e 9). A respeito do falecimento de Dra. Antonieta Dias Morpurgo, não foramencontrados dados muito precisos. Segundo Alberto Silva, ela teria falecido em 1920(SILVA, 1954, p.61). Já as pesquisas de Anamaria apontam para o ano de 1917. Norelatório de administração do hospital Santa Casa de Misericórdia de Pelotas,referente ao biênio 1917 e 1918, vemos pela última vez o nome da Dra. AntonietaDias no relatório das Irmãs sobrevivas4. No relatório seguinte, escrito pelo provedorDr. Bruno Chaves, referente ao biênio 1919 e 1920, não aparece mais o nome daDra. Antonieta entre as irmãs sobrevivas, mas também não aparece seu nome emmeio aos irmãos falecidos nesse período. Cláudia Morpurgo, bisneta de Antonieta,ao questionar sua mãe, neta de Antonieta, revela que sua bisavó teria falecido emdecorrência de problemas cardíacos. Antes do casamento do filho, a Dra. Antonieta viajou para Belo Horizonte,Minas Gerais, onde visitou a faculdade de Medicina da cidade e foi recebida porAlzira Nogueira Reis, única mulher estudante de medicina daquela faculdade. Naviagem Antonieta foi acompanhada por seu filho Admar e por Joaquim VieiraFerreira Neto, irmão da futura esposa de seu filho, Thereza. Joaquim tinha 18 anos eera estudante de Direito, palestrou sobre Filosofia e Psicologia e nessa ocasiãoconheceu Alzira, sua futura esposa. Em 1969, após a morte do Dr. Admar, Alzira escreveu uma carta paraAntonieta Morpurgo, filha do Dr. Admar, dizendo ter sentido profundamente a mortedo doutor, informando que em breve pretendia visitá-la e comentando o momentoem que conheceu seu marido, por intermédio da Dra. Antonieta. “Não sei se você sabe que conheci Vieira através da Dra. Antonieta e do Morpurgo, em Belo Horizonte. Era eu estudante de Medicina e meu professor de cirurgia, Dr. Borges da Costa, incumbiu-me de convidar a Dra. Morpurgo a visitar a nossa 4 O Relatório de Irmãs e Irmãos sobrevivos era publicado junto aos relatórios de administração dohospital da Santa Casa de Misericórdia de Pelotas. Havia também em todos estes relatórios uma relação dosirmãos e irmãs falecidos no biênio correspondente desta descrição.
  34. 34. 33 faculdade. Na pensão quem me recebeu primeiro foi Vieira, cuja palestra sobre filosofia e psicologia prendeu-me logo a atenção. Nessa noite, num cinema, Vieira falou-me em casamento, e lá então, contrariando-me, a Dra. Brincou: ‘isso é filosofia ou namorosofia?’” (Disponível em http://notaveisdafamilia.blogspot.com/2009/01/alzira- nogueira-reis-1-parte.html ) A Dra. Alzira Nogueira Reis foi a primeira médica a se formar no estado deMinas Gerais e primeira mulher a votar no Brasil. Formou-se em 1920 pelaFaculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais e atuou na lutacontra a hanseníase. Considerando as informações fornecidas por Anamaria Nunes, CarlosDuarte e Cláudia Morpurgo, sabe-se que o filho da Dra. Antonieta e de EduardoMorpurgo, Dr. Admar Morpurgo, casou-se com Thereza de Jesus Maria VieiraFerreira em 1919 (Fig. 10). Faleceu em 1969 e deixou dois filhos, AntonietaInocência Vieira Ferreira Morpurgo e Augusto Comte Vieira Ferreira Morpurgo. O Dr.Admar possuía ligação muito grande com a mãe, e isso é visível quando se constatao mesmo nome da terceira médica do Brasil em uma de suas filhas. Ele também eracolecionador e pintor, tendo morado no bairro São Francisco, em Niterói.Colecionava armas antigas, como espadas, sabres e lanças, e até uma armadura etambém objetos do mar, como estrelas do mar, crustáceos etc. Foi médico daAssembléia Legislativa do Rio de Janeiro, enquanto Niterói foi capital. Foitestemunha do nascimento de um filho de Orestes Barbosa – jornalista, cronista epoeta, autor da letra de Chão de Estrelas, com melodia de Sílvio Caldas. Recebeude a seguinte dedicatória, em forma de poema: “Chegou Maio a sorrir nas corolas das flores! É a festa vegetal com harmonias e pompas. Maio é o mês musical dos bardos sonhadores!...”(DIDIER, 2005, p.112). As pesquisas a respeito da Dra. Antonieta carecem de materiaisdocumentais que comprovem determinados fatos, como datas de nascimento e defalecimento. Este trabalho se torna importante por mostrar o valor desta médicapelotense, não só por ter sido a terceira médica formada no Brasil, mas também porter atuado intensamente na sua profissão depois de formada, superandopreconceitos e demonstrando sempre ter coragem.
  35. 35. 34 Como a história de Dra. Antonieta se divide entre Pelotas e Rio de Janeiro, apesquisa a respeito de sua vida em Pelotas é mais rica de fontes, até porque estetrabalho é realizado nesta cidade. Já as pesquisas sobre o trabalho da Dra.Antonieta no Rio de Janeiro foram dificultadas pela distância entre as cidades,dependendo do auxílio daqueles que possuem alguma memória sobre a terceiramédica formada no Brasil.
  36. 36. 35 Conclusão Após a finalização das pesquisas a respeito da Dra. Antonieta DiasMorpurgo, podemos afirmar que ela não foi apenas importante por ter sido a terceiramédica formada no Brasil, mas também pela sua forte atuação dentro da áreamédica após a sua formatura. Os seus estudos iniciais foram completados no Rio Grande do Sul. Em 1884,matriculou-se na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Nos primeiros anos foiacompanhada pela mãe naquela cidade, e depois da morte de Cesária Dias seu pai,Antonio Joaquim Dias, esteve presente até a sua formatura, em 1889. Antonietaconcluiu o curso médico sem ter repetido nenhum ano e para ela não foi possível sera primeira médica devido às dificuldades oriundas da pouca idade com queingressou na faculdade, apenas 15 anos. Após a sua formatura, voltou a Pelotas,onde fora muito bem recebida. Em 1890, abriu seu primeiro consultório e atendeu aos mais humildes naSanta Casa de Misericórdia. A seguir partiu para o Rio de Janeiro transferindo paraaquela cidade o seu consultório. Seguiu clinicando, participando de congressos,concluiu pesquisas, etc. Casou-se com o engenheiro Eduardo Morpurgo, com quemteve um filho, o também médico Dr. Admar Morpurgo. Ao descobrirmos sua intensa atuação depois de formada, nossa reação foide surpresa, pois ela sempre esteve presente na Medicina, atendendo seuspacientes e prosseguindo os seus estudos. Foi a Paris e de lá trouxe folhetos dasincubadoras Lions que motivaram o Dispensário Moncorvo a adquirir 2 incubadoraspara os cuidados aos bebês prematuros; foi membro da primeira diretoria provisóriada Cruz Vermelha no Brasil e desempenhou muitas outras atividades, algumascitadas aqui e outras ainda não descobertas.
  37. 37. 36 Referências Bibliográficas ANTUNES, José Leopoldo Ferreira. Medicina, leis e moral: pensamentomédico e comportamento no Brasil (1870-1930). São Paulo: Fundação Editora daUNESP, 1999. 99p. COUTINHO, Ana Cláudia F. P. Unidade de terapia neonatal: estressoreslaborais da equipe de enfermagem e caracterização do ambiente. 2009. 84f.Dissertação (Mestrado em Saúde e Ambiente) – Universidade Tiradentes, Aracajú. DIDIER, Carlos. Orestes Barbosa: repórter, cronista e poeta. Rio deJaneiro: Agir, 2005. 696p. FREITAS, Patrícia. Corpos de Mulheres em (Re)vista. A representaçãoda menopausa na Revista de Ginecologia e d’ Obstetrícia 1907-1978. 2005.401f. Tese (Doutorado em História Cultural) – Departamento de História,Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis. GONÇALVES, Renata Braz; PERES, Eliane Teresinha. Textos destinadosao público leitor feminino, divulgados no jornal diário “Correio Mercantil” dePelotas/RS (1875-1900). In: 16° Congresso de Leitura do Brasil. Anais, 2007, 10p. MOACYR, Primitivo. A instrução e o império – subsídios para a Históriada Educação no Brasil. 1° vol. 1823-1853 São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1936.614 p. 2° vol. Idem, ibidem, 1854-1888. São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1937.614p. MAGALHÃES, Mario Osório. Opulência e Cultura na Província de SãoPedro do Rio Grande do Sul: um estudo sobre a história de Pelotas (1860-1890). Pelotas: EdUFPel: Co-edição Livraria Mundial, 1993. 312p. MORPURGO. In: BARATA, Carlos E. A.; BUENO, Antonio H. C. Dicionáriodas famílias brasileiras. V.2. São Paulo: Árvore da Terra, S.d.1563p. MORPURGO. In: BARATA, Carlos E. A.; BUENO, Antonio H. C. Dicionáriodas famílias brasileiras. V.2 Tomo 2. São Paulo: Árvore da Terra, 2001. 1530p.
  38. 38. 37 NASCIMENTO, Heloisa Assumpção. Santa Casa de Misericórdia dePelotas. Pelotas: 1987. 190p. NUNES, Antonietta De Aguiar. Uma avançada proposta de reformaeducacional no último quartel do século XIX brasileiro: Leôncio de Carvalho eos pareceres de Rui Barbosa. In: Revista Gestão em Ação, Salvador, v.2, n.2, p.71-83, 1999. OLIVEIRA, Isabel Cristina dos Santos. O advento das incubadoras e oscuidados de enfermagem aos prematuros na primeira metade do século XX. In:Texto & Contexto Enfermagem, Florianópolis, v.13, n.3, p.459-466, 2004. PORTO ALEGRE, Achylles. Homens Illustres do Rio Grande do Sul. PortoAlegre: Livraria Selbach, 1917. 298p. RAGO, Elizabeth Juliska. A ruptura do mundo masculino da medicina:médicas brasileiras no século XIX. In: Cadernos Pagu (15), Campinas, 2000, p.199-225. SILVA, Alberto. A primeira médica do Brasil. Rio de Janeiro: IrmãosPongetti Editores, 1954. 247p. SILVA, Ana Paula Barcelos Ribeiro. Discurso jurídico e (des) qualificaçãomoral e ideológica das classes subalternas na passagem à modernidade:Evaristo de Moraes (1871-1939). 2007. 299f. Dissertação (Mestrado) –Departamento de História, Universidade Federal Fluminense, Rio de Janeiro. VIDAL, Barros. Precursoras Brasileiras. Rio de Janeiro: A Noite Editora,1952. VIEIRA, Maria do Pilar A.; PEIXOTO, Maria do Rosário C.; KHOURY, YaraMaria A. A pesquisa em História. São Paulo: Editora Ática, 1989. 159p.
  39. 39. 38 Fontes Primárias Acervo arquivístico do Museu de História da Medicina do RS – Fundo 50:MD. Antonieta Cesar Dias - ACD A Ventarola (1887) Pelotas, Rio Grande do Sul. (Caixa AP 214) Acervo:Arquivo Histórico da Bibliotheca Pública Pelotense. Correio Mercantil (1881 – 1897) Pelotas, Rio Grande do Sul. Acervo: CDOV– Bibliotheca Pública Pelotense. Diário Popular (1897 – 1920) Pelotas, Rio Grande do Sul. Acervo: CDOV –Bibliotheca Pública Pelotense. Jornal do Comércio (1881) Pelotas, Rio Grande do Sul. Acervo: CDOV –Bibliotheca Pública Pelotense. Onze de Junho (1889) Pelotas, Rio Grande do Sul. Acervo: CDOV –Bibliotheca Pública Pelotense. Relatórios de Administração (1862 – 1920) do hospital Santa Casa deMisericórdia de Pelotas. Fundos: ASCP 1A01; ASCP 1A02; ASCP 1A03; ASCP1A04. Acervo: Arquivo Histórico da Santa Casa de Misericórdia de Pelotas
  40. 40. 39FIGURAS
  41. 41. 40Fig. 1 – Antonieta Dias.Fonte: A Ventarola de 11 de dezembro de 1887.Fig. 2 – Antonieta Dias em foto de 1889.Fonte: Acervo arquivístico do Museu de História da Medicina do RS
  42. 42. 41Fig. 3 – Tese defendida por Antonieta Cesar Dias em 1889.Fonte: Acervo arquivístico do Museu de História da Medicina do RSFig. 4 – Anúncio publicado no Correio Mercantil em 1890.
  43. 43. 42Fig. 5 – Engenheiro Eduardo Morpurgo, esposo da Dra. Antonieta.Fonte: Acervo de Anamaria Nunes.Fig. 6 – Eduardo Morpurgo, Admar Morpurgo e Antonieta Morpurgo.Fonte: Acervo Anamaria Nunes.
  44. 44. 43Fig. 7 – Dra. Antonieta Dias Morpurgo.Fonte: Rua do Ouvidor 17 de agosto de 1901.Fig. 8 – Artigo sobre o Quarto Congresso Médico Latino-Americano de 1909.Disponível emhttp://www.gmbahia.ufba.br/index.php/gmbahia/article/viewFile/803/786
  45. 45. 44Fig. 9 – Artigo sobre o Quarto Congresso Médico Latino-Americano de 1909.Disponível emhttp://www.gmbahia.ufba.br/index.php/gmbahia/article/viewFile/803/786Fig. 10 – Dr. Admar Morpurgo e Thereza de Jesus Maria Vieira Ferreira.Fonte: Acervo Anamaria Nunes.
  46. 46. 45ANEXOS
  47. 47. 46 ANEXO I Correio Mercantil, 31 de julho de 1881. Ilm. Sr. Heráclito Camargo, Tendo V.S. no jornal de hoje, notado alguns erros em diversos trechos deum artigo escripto por meu distincto e illustrado professor, o Sr. Bibiano Francisco deAlmeida, erros esses, uns grammaticaes, outros de lingüística, com os quais eu nãoconcordo, peço-lhe permissão para analysar, como entendo, os mesmos trechos,afim de demonstrar, que em minha fraca opinião, é V.S. quem está em erro. 1° período: << Quando na opulenta e luminosa encyclopedia de obras didacticasbrasileiras, appareceu, etc.>> Pergunta V.S. o que quer dizer encyclopedia de obras. Respondo: ENCYCLOPEDIA, s.f. (de encyclia, e do grego paideo). Sciencia universao;encadeamento de todas as sciencias. - Corpo didactivo de todas as artes e sciencias que se ensinam. – Livro queas contém, obra que trata d’ellas. (Dr. Fr. Domingos Vieira). ___ 2° período: <<Aqui concluo, repetindo que o compendio do Sr. Hilário não presta, e quepouco se me dá que o meu seja por elle substituído.>> Pergunta V.S. <<Por elle quem? Pelo Sr. Hilario? Não, Sr.: Por elle, compendio. Analyso o período: 1ª oração – Aqui concluo repetindo – é a oração principal, porque não sóexprime o juízo fundamental, como também porque a Ella se prendem todas asoutras. 2ª, Que o compendio do Sr. Hilario não presta – é uma oraçãocomplementar objetiva, porque está servindo de complemento objectivo ao particípiorepetindo; 3ª, E que pouco se me dá – é outra oração complementar subjectiva, porestar servindo de complemento objectico ao particípio repetindo; 4ª, Que o meu seja por elle substituído - é oração complementar subjectiva,por estar servindo de sujeito ao verbo da oração precedente. Decomposição das orações, exame de seus termos essenciaes e dos maiscomplementos ou acessórios que n’ellas concorrem: 1ª oração. – Sujeito – eu; verbo concluo; o particípio repetindo é opposto aosujeito. 3ª Sujeito – o compendio; complemento restrictivo pertencente aosubstantivo compendio, do Sr. Hilario; verbo, presta; 4ª Sujeito – a oração seguinte; verbo, se dá; (importa) complementoterminativo me (a mim;) 4ª Sujeito – o meu, (compendio); verbo, seja substituído; complementoterminativo necessário, por elle (compendio;) Em ordem:
  48. 48. 47 Aqui concluo eu repetindo que o compendio do Sr. Hilario não presta e quepouco se me dá (ou pouco me importa) que o meu (compendio) seja substituido porelle (compendio ou pelo compendio do Sr. Hilario.) ___ 3° período: <<O Illm. Sr. Dr. T. Abbott, moço honesto e de uma intelligencia superior,soube evitar a astucia de meia dúzia de ensinadores ignorantes, invejosos eimproductivos, que levantaram tendas da conspiração, etc.>> Pergunta ao Sr. Heraclito o que quis dizer o Sr. Bibiano usando da figuratendas da conspiração? Responde o Fr. Domingos Vieira: <<TENDA: Casa de vender viveres. <<TENDA: Levantar as tendas, armal-as para pousar, abarracar-se. <<TENDA INTEIRA: Tenda armada. <<TENDA de myrtos, de jasmins. <<TENDA: barraca de campanha. – E a elle lhe pareceo isto bem, para o que mandou logo chamar a mayorparte dos nobres, e o fez ajuntar no campo em que estavão as tendas, onde em vozde cima de um Cavallo, lhes fez uma falla, em que lhes declarou a razão para que alifarão juntos, e sobre ella se altercou um grande espaço, com tanta variedade depareceres, que por então se não pôde tomar conclusão em cousa alguma>> (FernãoMendes Pintor Peregrinações, cap. 118.) CONSPIRAÇÃO, s.f. (Lat. Conspiratioonis) conjuração, empreza occultacontra o estado ou contra o legitimo governo; trama, união de varias pessoas contraoutra: - (fig) concurso de causas, de acções, ex. <<a indulgencia para com o vicio éuma – contra virtude>>; consenso; união, acção de concorrer para o mesmo fim. <<Syn. Comp. Conspiração denota acôrdo de vontades, de sentimentosentre os conspiradores e um abjeto commum, dirigido por um ou mais chefes, contrainstituições ou contra pessoa ou pessoas por numero considerável de sócios.(Corrêa Lacerda) Temos, pois, por esta figura, que diversos conspiradores (ensinadores,ignorantes, invejosos e improductivos) se reuniram e levantaram tendas deconspiração contra o Sr. Bibiano. ___ 4° período: <<Um livro de escola deve avantajar se pela clareza, principalmente se,como o do mestre, é destinado ás classes elementares.>> Acha o Sr. Heraclito que é isto uma boa lembrança e excellente portuguez. E é – excellente portuguez e bellisimo pensamento: O livro destinado ásclasses elementares, isto é, ás classes que aprendem, que principiam deveavantajar-se, recommenda-se - ,pela clareza. ___ 5° período: <<É tempo de deixarmos a pag. 33. Passemos pela pag. 34, ondeencontraremos ainda a família pronominal: Apertemo-LHES (!) as mãos esigamos.>> Perdão, Sr. Camargo, V.S. enganou-se na transcripção d’aquelle período. Lá não está apertemo-LHES. O que se encontra na 2ª columna, 3ª pag. doCorreio Mercantil de 28 de julho é o seguinte:
  49. 49. 48 <<É tempo de deixarmos a pag. 33. Passemos pela pag. 34, ondeencontraremos ainda a família pronominal, APERTEMOS-LHE as mãos esigamos.>> Peço desculpa ao Ilm. Sr. Heraclito Camargo. Pelotas, Julho 30. Antonieta Dias.
  50. 50. 49 ANEXO II Jornal do Comércio, 02 de agosto de 1881. A pedido, Como resposta à menina Antonieta Dias discípula do ex-professor pulbicoBibiano Francisco de Almeida e filha do Sr. Antonio Joaquim Dias, proprietário eredactor do Correio Mercantil. Gentil menina, Ora, para que te metteste em camiza de onze varas, – tu, uma menina que,bem encaminhada, pódes apparecer com alguma distincção entre o teu sexo! É verdade que a culpa não é tua, meu amor, porque teu pai tem tão poucojuizo que não duvidou confiar o desenvolvimento de tua mentalidade infantil ao es-professor publico Bibiano Francisco de Almeida, mas, apesar d’isso, reveste-se depaciencia para ouvires algumas lições. E que isto sirva-te de exemplo, para não te metteres outra vez em assumptoalheio aos enfeites das tuas bonecas. Deixando mais para adiante alguns conselhos que preciso darte, abordosem mais preambulos o que escreveu o teu encyclopedico professor no jornal de teupai e que tu inconscientemente assignaste. ___ Em má hora citou elle o sempre respeitavel Fr. Domingos Vieira, quejustamente veio deixar patentes as asneirolas publicadas com teu nome. Vejamos, segundo Fr. Domingos Vieira, a que fica reduzida uma dasexpressões bibianicas: 1° – ENCYCLOPEDIA: s f. Sciencia universal. Logo, o trecho do teu professor deve entender-se assim: <<Quando na opulenta e luminosa sciencia universal de obras didacticas,etc!>> Asneira no caso, não é verdade, querida? 2° – ENCYCLOPEDIA: encadeamento de todas as sciencias. Segundo o teu luminoso mestre, dirão os seus discípulos (...): <<Quando na luminosa e opulenta encadeamento de todas as sciencias deobras didacticas, etc!>> Bobage incontestavel. 3° – ENCYCLOPEDIA: corpo didactico de todas as artes e sciencias que seensinam. Substituindo a palavra encyclopedia, ficará assim o que escreveu o teuincommensurabilissimo professor: << Quando no opulento e luminoso corpo didactico de todas as artes esciencias DE OBRAS DIDACTICAS, etc.!>> Has de convir que só o teu sapientissimo professor seria capaz de fazer-tesubscrever semelhante desproposito! 4° – ENCYCLOPEDIA: livro que contém todas as sciencias e artes que seensinam. Como quer o teu assombroso professor, teremos mais esta tolice: <<Quando no opulento e luminoso LIVRO que contém todas as sciencias eartes que se ensinam, isto é, no livro de obras didacticas, etc.!>>
  51. 51. 50 Pois não é verdade, minha amiguinha, que Fr. Domingos Vieira diz queencyclopedia significa OBRA que trata das sciencias, etc.? Ahi está, pois, a bestialidade do teu professor a entrar pelos olhos de umcego. O que deves ficar sabendo é que se diz: <<Este livro é uma luminosa e opulenta encyclopedia!>> Ora, se a palavra ENCYCLOPEDIA significa obra que trata das sciencias,etc.; livro que contem as sciencias, etc.; está patente a grande asneiras escrita peloteu professor. ___ Diz mais o teu fecundo mestre: <<Aqui concluo, repetindo que o compendio do Sr. Hilario não presta e quepouco se me dá que o meu seja PELO D’ELLE substituido>> e, não POR ELLEsubstituido. Queres saber a que fica reduzida a rematada tolice do professor charlatã? Attende: <<Aqui concluo, repetindo que o compendio do Sr. Hilario não presta e quepouco se me dá (1) que o meu (2) compendio seja por elle Hilario substituido.>> Mas, admittindo que seja por elle compendio, não haverá ahi um portuguesmacarronico? Isto não admitte duvida, e só mesmo um Bibiano poderia ensinar-te taesdisparates. ___ Quanto á phrase – tendas de conspiração, apenas deixa ver que o teuprofessor já falhou um dia o diccionario de Fr. Domingos Vieira, porém que nãocomprehendeu o que lá estava escripto. As conspirações fazem-se occultamente, e portanto nenhum conspirador selembraria de armar tendas... Tendas de guerra – é o que deveria escrever o alarve. ___ Trataremos de outra sandice do teu ensigne professor, que disse: <<Um livro de ESCOLA deve avantajar se pela clareza (cousa que o BibianoFrancisco nunca observou escrevendo e fallando), principalmente se, como o domestre, é destinado ás CLASSES ELEMENTARES.>> No entanto, tu, sempre ingenua, exclamaste: <<E é excelente portuguez e BELLISSIMO PENSAMENTO!>> ___ Sobre o tal LHES, digo-te apenas: Recorre de novo ao jornal de teu papai e lá encontrarás – apertamo-LHESas mãos, em referencia á familia pronominal. Eu não constumo mentir nem calumniar, pois não posso fazer concorrenciaao teu professor. E, se teimares sobre este ponto, obrigo-me a expor em uma vitrine o numerodo Correio Mercantil em que está escripto o destampatorio bibianico. ___ Concluo com os conselhos prometidos: Uma vez que teu pai, apezar de jornalista, não se lembra que para testas deferro são sempre escolhidos os Deus Te Livre e Zés Pereiras, conchega-te ao seiodo anjo do lar, d’essa creatura sublime que nos cérca de affectos, que sente asnossas dores e experimenta as nossas alegrias, e foge do contacto venenoso
  52. 52. 51d’aquelle que está muito longe de comprehender a sagrada missão de preceptor dainfancia. Os máos exemplos, filha, são um perigo enorme para as crianças, e tu ésdigna de um bello destino! Um discipulo de Janet. Pelotas – 1881. (1) Este se me dá tem muita graça! (2) Comeu o que? Bebeu é o que devia dize o tal Bibiano.
  53. 53. 52 ANEXO III Correio Mercantil, 03 de agosto de 1881. HÁ HOMENS PARA TUDO Na secção – A pedidos- do Jornal do Commercio de sabbado ultimo, o Sr.Heraclito Camargo, director de uma das aulas publicadas d’esta cidade, apresentouum escripto relativo á questão grammatical discutida entre os Srs. Bibiano Franciscode Almeida e Hilario Ribeiro, no qual (escripto) o Sr. Camargo notava diversos errosde officio em um artigo publicado pelo Sr. Bibiano de Almeida. Minha filha, Antonieta Dias, que aprende com o Sr. Bibiano de Almeidadifferentes matérias do curso de preparatórios, lendo o escripto do Sr. Camargo equerendo prestar homenagem de apreço ao seu distincto e illustrado professor,manifestou-me desejos de contestar a opinião do Sr. Camargo na parte que sereferia a grammatica portugueza, em que se julga, se não autoridade ainda, porqueapenas conta 12 annos de idade e cinco de estudos, pelo menos regularmenteadiantada. Como se tratava de uma questão de exercícios na língua vernácula, e mais– de uma fineza ao mestre, annui aos seus desejos, e a contestação do escripto doSr. Heraclito Camargo, boa ou não, foi publicada no Correio Mercantil de domingopassado com a assignatura de minha filha. N’esta contestação, não havia o menos vislumbre de offensa ao Sr.Camargo, nem podia haver, porque partia de uma menina que tem um futuro arespeitar. Entretanto... A minha filha (admirem esta coragem!) foi chamada hontem, em letraredonda – testa de ferro! Sim, n’uma publicação anonyma estampada no Jornal do Commercio com opseudonymo Um discípulo de Jeanet, disse-se que o Sr. Bibiano fabricára o escriptoem resposta ao Sr. Camargo e que minha filha lhe apresentara sua assignatura! Semelhante infâmia, se mesmo um anonymo, algum desprezível parasitados cofres públicos, podia articular, em letra redonda. Felizmente, eu podia destruil-a, reduzir á expressão mais simples, porquenada menos de três cavalheiros distinctos e habilitados no assumpto, vindocasualmente ao meu escriptorio com o Sr. Bibiano, viram o trabalho de minha filhaquando já estava na composição, seriam 11 horas do dia. Mas não o faço, porque tanto não preciso, salvo se o anonymo Jeanet, quenão é discípulo, bem o conheço, que se inculca mestre, deixar cahir a mascara eapresentar-se tal qual é. Se com effeito ó um homem, um cavalheiro, que tenha um nome a zelar, en’este nome algum credito, se não é algum charlatão ou especulador ouespeculador, aceite o convite, deixe as trevas, venha p’ra luz, porque não só lheprovarei que minha filha não fez o papel triste de testa de ferro, como a convidarei acertificar-se das suas habilitações e talvez a sentar-se com ella a uma mesa deexame em portuguez. Quanto ao Sr. Heraclito Camargo, lamento profundamente que se fizessesubstituir por um anonymo em questão grammatical com um menina de 12 annos, e
  54. 54. 53por essa maneira,que dispenso qualificar, corresponder-se á delizadeza com que foitratado. Concluindo, declaro que fica na Bibliotheca Publica, á disposição de todos, oCorreio Mercantil de 30 do passado, para provar que o Sr. Heraclito Camargo e oanonymo seu substituto faltaram com a verdade e falsificaram um período de umartigo do Sr. Bibiano de Almeida afim de lhe notarem um erro de grammatica. Agosto 2. A. J. Dias.

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