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O MARIDO EXTREMOSO; OU O PAI
          CUIDADOSO
   comédia em cinco quadros01
PERSONAGENS

   Régulo
   Remo
   Sancho
   Um convidado
   Ana
   Maneca
   Benico
   Mandunguinha
   Esquisito
   Diversos dançantes
   Tocadores de viola
   Duas escravas
   Professor de esgrima
   Estudantes
   Dunga
   Córneo
   Júlio
   Lanceiro
   Perna de Galinha
   Televi
   Mestre
   Oficiais sapateiros
   Pedro
   Catinga
   Presidente da Província
   Comandante
   Chefe de Polícia
   Crianças
PRIMEIRO


RÉGULO   (para Remo) — Sejamos honestos quanto às
         mulheres! Mas quanto ao mais, já que nos
         furtam — furtemos também! Se nos roubam
         — roubemos também. E assim seguimos o pre-
         ceito do nosso Grande Vieira, hábil pregador,
         profundo Político, e t c , etc.

REMO     Mas, se nos roubarem as mulheres!?
RÉGULO   Ah! então esse caso é mais melindroso.
REMO     Mas diga-me. O que havemos de fazer?
RÉGULO   Homem, isso tem seu q u ê . . . ou para que.
         (Depois de longa pausa, muito apressadamen-
         te, e caminhando em roda para o lado de
         Remo): Sabes o que mais convém? — roubar
         também. Se é crime, fica compensado; e
         ficamos indenizados sem ser preciso andar
         com a justiça às costas — da casa do Escrivão
         para a do Juiz; da do Juiz para a do letrado;
         da deste para a do meirinho, e t c , etc. Justiça
         de Barcelos, ou de Barcelona, por exemplo.
         Apanho com um pau, dou com um pau (bate
         no ombro de Remo com uma bengala).

REMO     Ai! homem! Isso não tem     lugar. Bem vês que
         não te dei ainda paulada    alguma. Que diabo
         de graça. E arde como        sal e pimenta em
         ferida recente. Não! não!    Não continues com
         essas graças!
RÉGULO   Ó homem! de pouco te zangas! Que faria se
         eu te desse às deveras? Foi apenas uma pe-
         quena experiência ou um exemplo que quis
         dar-te, e já te mostras tão zangado! Que farias
JOSÉ JOAQUIM DE CAMPOS LEÃO QORPO-SANTO

                   se eu te desse às deveras   (bate com mais
                   força).
REMO           — Ah! você está teimoso! Pois eu também vou
                 dar-lhe pancadas! Vou também fazer exemplo!
                 (pega em uma cadeira e dá-lhe com ela).
RÉGULO         — Ai! ai! Este exemplo valeu por todos os que
                 acabei de dar-te. Irra! irra! Régulo, sempre
                 mostras que és um verdadeiro Régulo — nome
                 que bem diz com a pessoa.
SANCHO             (entrando) — Oh! vocês aqui! e a jogar o
                   pau. Eu também entro. Vamos la! (dá uma
                   pancada em um. O outro dá-lhe com a cadei-
                   ra): Não vê que o jogo é só de dois? e que
                   o Sr. não foi convidado?
SANCHO         — Mas eu quis também fazer as minhas experi-
                 ências, visto que eu ouvi falar em experiên-
                 cias; e eu gosto muito de me experimentar. . .
REMO           — Pois V. Exª gosta de experiências? Lá vai
                 (dá-lhe outra bordoada).
SANCHO         — Nada! Nada! Façamos as pazes! Acabemos
                 com as experiências de pau. Agora passemos
                 às experiências de pensamento?
SANCHO          — Agora, espere, ainda é cedo. Eu ainda não
                  comecei. Depois que eu começar os Srs. não
                  me hão-de querer ver acabar! (Batendo na
                  testa com força.) Sai ou não sai? Ah! não
                  quer sair; então há-de sair do nariz (põe os
                  dedos 'e assoa com força). Lá vai um!
RÉGULO          — Estás muito adiantado, mas as tuas experiên-
                  cias não me agradam. Vai plantar batatas,
                  meu estúrdio (empurrando a Sancho).
REMO            — E teve a audácia de nos vir interromper, este
                  quadrúpede!
SANCHO          — Então não querem ver mais? Está bem, em tal
                  caso vou-me embora!
RÉGULO          — Não vai daqui sem dar-me o chapéu para pa-
                  gar-nos a maçada que nos deu! (Tira-lhe o
                  chapéu.)
O MARIDO EXTREMOSO; OU O PAI CUIDADOSO


REMO              (para Régulo) — Tu te contentas com o cha-
                  péu, e eu quero a bengala, que é melhor que
                  a minha (avança-se a ele e tira-a). Agora,
                  seu estúrdio (apontando para a porta da rua):
                  Suma-se já, já daqui para fora! (Dá-lhe um
                  pontapé, Sancho grita, Régulo o empurra; é
                  um barulho imenso. Mas aos socos, pontapés,
                  empurrões <e gritos, põe Sancho na rua, fican-
                  do-lhe com o chapéu e a bengala.)
RÉGULO            (para Remo, voltando ambos) — Vamos!
                  Vamos!. Tu te arranjaste de chapéu, e eu de
                  bengala. . . ou. . . eu de bengala e tu de cha-
                  péu. Fujamos cada qual por sua porta, antes
                  que por aqui chegue a Polícia.
                  (Safam-se ambos; um por uma porta, e outro
                  por outra.)
SEGUNDO


UM DOS CONVIDADOS   (dirigindo-se a uma das dançantes) — Ora
                    saia, Sra. Ana! Não vê aqui o seu maior apre-
                    ciador — de chilenas e pelego para dançar,
                    Dona Ana?
ANA                 (Moça nova e assaz gorda) — Bem vejo, Sr.
                    Maneca, que o Sr. é o moço mais lindo que
                    pisa neste baile; mas não o vejo de faca e
                    de pistola para amendrontar os rivais; e afu-
                    gentar os iguais. Bem sabe que ninguém olha
                    para mim que não me queira dar boquinhas,
                    abraços e beijos!
MANECA              Já sei que tu és a mais adorada de toda esta
                    patifada. Mas para os fazer levantar a cola,
                    a correr baguais, não preciso de pistola. Basta
                    a faca e o ponche 2 Vamos; vamos para a
                    sala! (pegando-a pela mão).
ELA                  Eh! pucha malaia3! O tocador está sem viola.
MANECA               O que diz, sia4 Tagarela?
ELA                  Olha aquela como levanta a saia! Parece que
                     nunca dançou.
MANECA              Não é; foi o tocador que quase a matou, com
                    a pancada que lhe deu. quando na viola bateu,
                    quando a viola quebrou.
                    (Já se vê que o tocador, pouco antes, tem uma
                    dúvida com outro. . . com um dançante; dá-Ihe
                    com a viola, e quebra-a.)
BENICO               (para seu par, Mandunguinlia) — Abaixa a
                    saia, Mandunguinha!
MANDUNGUINHA        — Não quero! Hei-de levantar até o joelho; le-
                    vantar, para mostrar que tenho umas pernas
O MARIDO EXTREMOSO; OU O PAI CUIDADOSO


                      bonitas como as lindas estrelas; grossas como
                      os fortes engenhos!
ESQUISITO             (para um dos tocadores, empurrando-o, e de-
                      pois jazendo uma volta, arrastando a chilena,
                      levantando um braço, e deitando o outro, etc.)
                      — Que diabo tem essa rebeca, que não toca
                      nada que se dance! (Entretanto, outros bailam,
                      jazendo cada qual as maiores asneiras e esqui-
                      sitices que pode; proferindo gracejos, grosse-
                      rias, e praticando-as de toda a espécie.)

BENICO           —-   Agora, sim; já se ouve tocar.
UM DOS DANÇANTES,     (a quem se oferece um mate) — Ora venha de
                      lá esse chimarrão! (Tomando.) Está mesmo
                      como uma língua de chimango.
OUTRO               - Eu quando me abraço com uma gorducha co-
                      mo esta! ( abraçando-a ) não me lembro de
                      mais nada neste mundo!
OUTRO               - É puca mano Jucá!5 Se ele não andasse reco-
                      lhendo as vacas do gado manso, quantos espo-
                      raços não daria aqui na tia Tubina, arrastan-
                      do-lhe a roseta pela saia!
OUTRO               - E o António ainda não chegaria com a eguada
                      do Potreiro Velho? Eh puta diabo! Faz-me
                      uma falta p'ras embigadas! Mas já que ele
                      não veio, dou na tia Maria (bate com os pés;
                      arrasta as chilenas, e dá uma embigada em
                      uma das mulheres que fica em frente).
OUTRO               - Toca bem essa viola, seu diabo! Quase não
                      se ouve, quando se bate com as palmas, ou
                      com os pés (Batem palmas, fazem rodas, ba-
                      tem com os pés; de repente, um grito): Fez
                      pelego!" (Há grandes gargalhadas.)

OUTRO               - Vai de roda! (puxando um lenço do pescoço
                      de uma das moças.) Pra que quer lenço, se
                      é tão bonito este pescoço? (Tira e assoa-se.
                      Atirando com este em outro.) Lá vai! Aguar-


UM                —- Já estou cansado como o diabo!
JOSÉ JOAQUIM DE CAMPOS LEÃO QORPO-SANTO

OUTRO             — Pois vamos dormir que já são horas, pra ama-
                    nhã parar rodeio cedo, que nestas já nós pa-
                    remos!
OUTRO             — Pois cá vou com a minha! (Pega uma pelo
                    braço e mete-se num quarto.)
OUTRO             — Eu também já vou. Não toque mais esse
                    instrumento, seu tocador! (pega em outra e
                    sai dizendo:) Foi meu par dançando; há-de
                    sê-lo também camando!7
OS OUTROS         — Pois vamos todos! Ah, ah, ah! (Arrastam as
                    chilenas; sapateiam caminhando, fazem valas;
                    rodas; abraçam as moças; e desaparecem, ter-
                    minando assim o baile.)
OS TOCADORES      — Sempre nós somos os que mais trabalhamos,
                    e os que menos gozamos. Os dançantes bai-
                    lam, abraçam, falam, beijam; e nós? Apenas
                    bebemos algum copo de cachaça ou de vinho
                    que eles nos querem dar! Ainda é bom quando
                    não nos quebram a cabeça com os instrumen-
                    tos! Pois não toquemos mais (atirando com
                    as violas). Vão-te, diabos! que d'agora em
                    diante não queremos mais tocar. Nós quere-
                    mos só dançar (e saem).
U M A ESCRAVA     — É assim que esta cambada faz! Comem. Be-
                    bem. Sujam tudo como porcos no chiqueiro;
                    e depois está a gente aqui tendo trabalho para
                    arrumar e limpar isto (com um pano limpam
                    os mochos). Olhem como eles deixaram as
                    camas! Parecem ninhos de galinha choca.
                    Cruzes! cruzes como similhantes demônios!
                    (Põe um pelego às costas e sai.)
OUTRA ESCRAVA        (cuspindo-se) — Tem! tem! Está fedendo a
                     chulé! Ih!. . . vou-me embora; alguma outra
                     que venha cá aturar este fedor! (Sai.)
                     (A mobília da sala não passa de uma cama
                     de guascas, uma rede de couro, alguns tambo-
                     retes e um ou dois bancos de 4 a 6 palmos
                     de comprimento, uma até duas mesas de 5 a
                     6 palmos.)
TERCEIRO


               Lições de florete; espadão; espada; pistola e
               lança.
               Um Professor e alguns discípulos; pistolas;
               espadas de pau; floretes, lanças.
               Dois estudantes, entrando, um de espada, ou-
               tro de florete.

O DA ESPADA    Guarde-se deste talho!
O DO FLORETE   Não se aflija, espere; quero pegar arma igual!
AQUELE         (a quem chamaremos — Dunga) — Nada!
               Quero medir a minha espada com o seu flo-
               rete . .. Defenda-se, portanto!
O DO FLORETE   (a quem chamaremos Córneo) — Defendo-
               me; mas não é próprio de estudantes (esbarra
               a espada no florete).
DUNGA          O bom jogador, com qualquer arma se defen-
               de!
CÓRNEO         É verdade, Mas não é próprio d'estudantes.
               Entretanto, livre-se desta estocada (dá-lhe um
               pontaço com o florete).
DUNGA          (rebatendo) — Se não atira melhor, faço-lhe
               voar o florete pelos ares!
CÓRNEO         Descansemos um pouco; o meu florete está
               doente (querendo examiná-lo).
DUNGA          Quando se luta, não se dá tempo ao contrário
               para preparar as armas. Lá vai! (Atira-lhe
               um pontaço, ele defende-se.)
JOSÉ JOAQUIM DE CAMPOS LEÃO QORPO-SANTO


JÚLIO                 (entrando de pistola em punho) — Pois tam-
                      bém quando os estudantes não são cavalheiros,
                      encontram outros que lhes tiram a proa, pon-
                      do-se ao lado do cavalheirismo! (Engatilha a
                      pistola) ou há-de jogar de florete, ou há-de
                      esperar que o meu amigo se prepare d'espada!
                      Escolha! Se nenhuma, nem outra cousa, então
                      a luta é comigo! Ao menor movimento, um
                      tiro de pistola no peito, ou na cabeça!
O DA ESPADA OU
DUNGA                 Em vista disso, não jogo mais, nem de florete,
                      nem de espada, nem de pistola. Queria mos-
                      trar que quando se briga, não se escolhem
                      armas! Que se ataca ou se defende com a que
                      temos! Não querem, não ensinarei mais! (Ati-
                      ra com a espada na bainlw e sai.)
JÚLIO                  (para Córneo) — Vamos nos entreter por
                       cinco minutos! (toma um florete): Livre-se
                       desta na barriga! (Atira-lhe o florete, Córneo
                       defende-se.)
JÚLIO                - Na cabeça!
CÓRNEO               - No peito!
JÚLIO                - No ombro direito!
CÓRNEO               - No braço! (Depois de diversos tiros em que
                       ambos saem perfeitamente bem.)
UM LANCEIRO            (entrando) — Agora há-de ser de lança!
ELES                 - Nada, nada! Já estamos cansados! (Embai-
                       nhando os floretes.) Agora vem Perna de Ga-
                       linha jogar contigo a lança! Espera um pouco.
                       (Entra um indivíduo alto, magro, com uma
                       lança.)
PERNA DE GALINHA •   - Ê agora, amigos! Veremos aqui quem é o va-
                       lente. (Faz alguns manejos com a lança): Eh!
                       puxa malaia!8 quem não é toco, não se meta;
                       senão enfio-lhe a reta! Lá vai um lançaço pela
                       esquerda!
AQUELE                 (a quem chamaremos Telivi) — Não atire,
                       senão, eu morro! Cuidado! (Batem e entre-
                       laçam as armas.)
O MARIDO EXTREMOSO; OU O PAI CUIDADOSO


                    (Entram outros; pegam espadas; os de florete
                    desembainham estes; e jogam quatro — lança,
                    espada, florete e pistola. Depois de alguns
                    exercícios, entra o mestre, homem feio e de
                    aspecto assustador (bate palmas). Bravos!
                    Vivam os nossos discípulos! Estão prontos,
                    prontos e mais prontos! já podem dentro, fora
                    do Império — debelar os inimigos da Pátria!
                    (Descem todos as armas, apontam para o
                    chão.)
UM DELES         — Em presença de nosso Mestre, desce tudo e
                   saia gente, que aprendeu de um grão Tenente!
QUARTO


                  Casa de sapataria e alfaiataria

CERTO INDIVIDUO   (que entra; para um dos oficiais que parece
                  Mestre) — O Sr. tem sapatos?
O MESTRE          De todas as qualidades.
O INDIVÍDUO       Vejamos. (O Mestre mostra-lhe alguns pares;
                  ele escolhei; calça; mexe e remexe; e não acha
                  algum que lhe sirva.) Nada! nada! Este é
                  grande, aquele pequeno, este outro apertado!
                  Nenhum serve.
UM OFICIAL        (para os outros) — Este diabo deste homem
                  é o mais difícil de contentar que eu tenho
                  conhecido.
O MESTRE          Pois é dos que temos.
INDIVÍDUO         Vejamos as botinas.
O MESTRE          Eis aqui algumas (Apresenta-lhe.)
INDIVÍDUO         (examinando-as) — Está larga; e tem o bico
                  torto. (Experimenta outra.) Oh! esta tem o
                  salto às avessas! (Vê outra.) Que diabo! até
                  os puxadores são diferentes!
O MESTRE          Olhe que não são gavetas! Isto não tem puxa-
                  dores. São alças.
INDIVÍDUO         Não! Nada. Não me servem! Vejamos as
                  botas.
O MESTRE          É preciso muita paciência para aturá-lo. En-
                  fim, aqui tem mais alguns pares (Dá-lhe.)
INDIVÍDUO         (pegando em uma, examinando e não achando
                  boa) — Que diabo! (Pegando em outra): Esta
o MARIDO EXTREMOSO; OU O PAI CUIDADOSO


                       está um pouco melhor; mas ainda assim. ..
                       não sei que lhe diga! (Calça outra e acha boa):
                       esta serve; mas eu não pago a este diabo!
                       (Depois de calçar, agarra uma das outras em
                       cada mão, e para o Mestre.) A você eu per-
                       doo, mas os discípulos levam com esta por-
                       caria pela cara (atira com uma na cara de um;
                       com outra na cara de outro, saindo). Isto é
                       para outra vez fazerem obra melhor (sai pi-
                       sando mui fortemente.)
                       (O Mestre apita; os discípulos querem correr
                       atrás dele; pegam em tirapés9; levantam-se;
                       jazem um barulho imenso; mas ele safa-se.)
ESTE               — O Sr. tem calças de morroquim?
O MESTRE           — Onde viu o sr. — calças de marroquim?
O INDIVÍDUO            (a quem chamamos Catinga) — Ah! não são
                       de marroquim; são de alfinim, ou de toquim.
MESTRE              — De toquim, não tem. Mesmo dessa qualidade,
                      penso que só para xales!
CATINGA            — Vejamos das que tem.
O MESTRE               (tirando alguns pares) — Ora, Deus queira o
                       Sr. não venha aqui especular, como o que
                       daqui saiu há pouco. Estou com bem receio
                       de o aturar! Enfim, quem tem casa de negócio
                       dispõe-se a tudo. (Mostra-lhe alguns pares
                       que tirou da prateleira.)
CATINGA                (tirando alguns pares) — Ora, Deus queira o
                       Mestre:) — Está boa. Quanto custa?
MESTRE             — O metro, 20 francos.
CATINGA            — É barato; e como vende por tão, pouco dinhei-
                     ro as suas obras. Vejamos um paletó. (O
                     Mestre mostra-lhe alguns.)
CATINGA                (veste; acha um que lhe agrada) — Está éti-
                       mo para o inverno. Serve-me. O preço?
MESTRE             — Isto é obra muito mais fina; é para 100$000.
AQUELE              — Ainda não é caro. Serve-me. Coletes, tem?
                      Quero casimira da mais fina que tiver.
                      (O Mestre mostra-lhe alguns.)
JOSÉ JOAQUIM DE CAMPOS LEÃO QORPO-SANTO


CATINGA            (vestindo um e achando ótimo) — Ficarei
                   com este. Pode tirar a conta de tudo, e man-
                   dar à casa de sobrado nº 250, 2º andar, à
                   rua dos Preguiçosos. (Quer sair; o Mestre
                   bota-lhe a mão.) Mas eu não o conheço!

CATINGA         — Já lhe disse que mande a tal rua, a tal casa;
                  o que mais quer!?
MESTRE          — Não sei. Quem o Sr. é?
CATINGA         — Saiba, ou não saiba, faça o que lhe digo; e
                  quanto ao mais, fica à minha conta!
MESTRE          — Não, filho! não posso, não tenho quem vá lá!
CATINGA         — Ah! não tenho quem vá; pois eu tenho cá
                  (puxa por um punhal): Eu só não é que hei-de
                  ser roubado, e matado, como as senhoras au-
                  toridades me roubam e assassinam; é porque
                  querem também que eu roube e assassine! A
                  época será de roubo e assassinato (puxa de
                  todo o punhal, crava-o no peito do Mestre,
                  dizendo.) Eis a paga! (Safa-se.)
                  (Os discípulos procuram curar o Mestre; cer-
                  cam-o10; amarram a ferida; depois de prepa-
                  rado, este.)
MESTRE          — Eis as consequências de um país mal policiado,
                  ou onde as Autoridades, como também alguns
                  outros — dão o mau exemplo do roubo, da
                  violência e da rapina! O cidadão tranquilo,
                  trabalhador, honesto, é em sua casa apunha-
                  lado e roubado do que tem! O adúltero, o
                  ladrão, o assassino — protegido, amparado, e
                  quiçá louvado e elevado! Por isso tantas guer-
                  ras! tantas pestes! tantas mortes! tantos males!

OS DISCÍPULOS      (uns para os outros) — Agora é preciso cada
                   um de nós ter a nossa faca afiada e pronta
                   para quando alguém entrar mesmo de pé, e
                   ao primeiro movimento, lançar algum rico por
                   terra; e ir haver à polícia o prêmio de nosso
                   grande feito de armas!?
TODOS           — Apoiado! Apoiado! Faremos da oficina um
                  baluarte ou. ..
o MARIDO EXTREMOSO; OU O PAI CUIDADOSO


o   MESTRE         — É pouco um baluarte. Será uma fortaleza
                     contra todos os nossos fregueses. Matá-lo-e-
                     mos logo à entrada, a fim de roubarmos quan-
                     to dinheiro tiverem, muito à nossa vontade!
                     E assim não precisamos mais trabalhos de
                     sapateiro ou mesmo de alfaiate!
TODOS              — Juremos!
                     (O Mestre dá as duas mãos aos discípulos,
                     estes ligam-se assim todos; formam uma ca-
                     deia; em voz bem alta, dizem: Unidos pela
                     força, e pelo segredo! Mataremos; roubare-
                     mos e enriqueceremos.
QUINTO


                      Pedro, preso pela Polícia, por falsas acusações,
                      ou calúnias, ou simples más intenções desta,
                      em presença de um Presidente, chefe de Po-
                      lícia, um comandante de um corpo, e mais
                      alguns indivíduos.

CHEFE DE POLÍCIA      (queixando-se ao Presidente) — Venho, Se-
                      nhor, perante V. Exª reclamar por um doente!
                      Tendo eu dado ordens que certo soldado fosse
                      à Polícia apresentar-se para dela ser praça,
                      soube entretanto com o maior desprazer ter
                      o mesmo ido apresentar-se ao corpo da Guarda
                      Nacional desta cidade. Acho neste fato um
                      escárnio à Autoridade; às leis e ao Governo!
O PRESIDENTE       — Eu não autorizo tais atos. E todas as vezes
                     que deles tiver conhecimento, fique certo que
                     hei-de dar as providências necessárias para
                     que nada sofra a justiça; e seja a ofensa repa-
                     rada, como para que se não repitam.
CHEFE              — É isso mesmo o que todos desejam! E é a
                     causa da minha representação a V. Exª, por
                     saber de suas boas disposições a respeito!
O PRESIDENTE          (para o comandante) — É preciso pôr à dis-
                      posição do Sr. Dr. Chefe de Polícia o sol-
                      dado de quem ele fala, visto que tinha-lhe
                      dado outro destino.
O COMANDANTE       — Não ponho a menor dúvida! E se ele é hoje
                     praça do meu Corpo, não é isso devido a
                     procederes meus. Houve apenas um engano
                     entre os soldados, e por esse motivo deu-se
                     tal fato! Eis um bilhete que recebi, em razão
                     do qual o admiti como praça. (Lê.)
o MARIDO EXTREMOSO; OU O PAI CUIDADOSO

O PRESIDENTE      — Pois bem, então não há dúvida alguma. Foi
                    um engano de nome, e o Sr. Chefe de Polícia
                    providenciará a respeito, como mais convier.
CHEFE             — Eu entendo que era um mal para o serviço
                    público; pois podia trazer outros ainda maio-
                    res, como o desprestígio à Autoridade; e é
                    por isso que venho fazer esta reclamação.
                    Mas estou satisfeito; e pode o soldado conti-
                    nuar como praça do seu Corpo.

O COMANDANTE          Obrigado! Obrigado!
PEDRO             — Já que se tratou de direitos, de reparação de
                    ofensas a estes feitas, eu perguntarei a V. Exª
                    (dirigindo-se ao Dr. Chefe de Polícia): O que
                    pretende respectivamente a objetos de minha
                    propriedade, que me foram tirados por violên-
                    cias, e que se acham ainda na Polícia, con-
                    quanto três vezes eu os haja requerido?
O CHEFE             - O Sr. . . (gaguejando; e querendo dirigir-se
                      ao Presidente): Não há nada a ponderar; po-
                      rém a narrar — que eu estava em uma de
                      minhas propriedades, e no seio de minha Fa-
                      mília, que os objetos de que trato existiam em
                      um dos quartos de minha casa, como existem
                      nas prateleiras das lojas de ferragens, nume-
                      rosas de tal qualidade; que estando eu descan-
                      sando um pouco das fadigas da manhã, e ape-
                      nas nessa ocasião com um criado, entra força
                      armada, e roubando-me a doce liberdade, o
                      maior dos bens que se pode gozar sobre a
                      Terra, com ela roubaram-me também tais
                      objetos!

CHEFE             — Mas eu não tenho culpa; a culpa é do Dele-
                    gado!
PRESIDENTE        — V. Sª tem culpa, porque o não demitiu logo
                    que soube desse atentado contra o direito de
                    propriedade, e de liberdade de um seu con-
                    cidadão! Tem culpa, porque ainda está coo-
                    nestando esse ato indigno desse seu delegado,
                    conservando em seu poder objetos que ele
                    mesmo roubou a esse seu concidadão!
JOSÉ JOAQUIM DE CAMPOS LEÃO QORPO-SANTO


CHEFE              — Mas o que quer que eu lhe faça!? Sua mulher
                     é que teve a culpa. Ao menos ele diz que ela
                     foi se queixar. Agora é ir lá sem armas.
PEDRO                 (com indignação) — V. Exª pensa que eu
                      sou alguma criança? Pode dar os seus conse-
                      lhos àquela criança (apontando para a criança,
                      cujo choro se ouve), eu os desprezo e nem
                      desejo ouvi-los. Tem sido esta a desgraçada
                      marcha seguida pela Polícia há dois anos para
                      cá! E não sei por que fatal coincidência quan-
                      tos crimes se têm perpetrado para comigo, e
                      para com minha inocente e particular família
                      — outras tantas desgraças tem experimentado
                      o Império, nesta ou naquela de suas partes.
                      Qual é o dever de um bom Governo, e com
                      especialidade de uma boa Polícia, esse pode-
                      roso auxílio do Ministério Público!? Qual é,
                      pergunto, um de seus primeiros deveres, senão
                      procurar dar boa educação à juventude!?
                      Qual o segundo, senão ampará-la da prosti-
                      tuição, da fome, da nudez, e de milhares de
                      outros males, dando-lhe o trabalho, ocupação
                      ou o amparo de seu País!? Não vê a Polícia
                      que continuando a destruir em vez de edificar,
                      não poderá trazer senão a ruína do Estado!?
                      Não vê — que está traindo a si própria, àque-
                      les que a nomearam, e aos quais sustentam
                      os impostos que pagam!? Não conhece que,
                      se não respeita os direitos de todos, sejam
                      quais forem as suas espécies, os seus também
                      serão menosprezados, quer como cidadãos,
                      quer como Autoridades, pois que uns e outros
                      nascem das mesmas fontes, das Leis que as
                      criou, e pelas quais eles se mantêm!?
UM DOS CIRCUNSTANTES    — Muito apoiado! Apoiadíssimo!
OUTRO                 (retirando-se, pegando o chapéu e despedindo-
                      se) — Não se incomode, Sr. Pedro. Tudo o
                      que o Sr. quer há-de conseguir.
PRESIDENTE            (levantando-se) — Eu pretendo ir ver os fo-
                      gos, e creio que já vão sendo horas.
                      (Todos levantam-se, despedem-se e saem com
                      um Major e o Chefe de Polícia.)
O MARIDO EXTREMOSO; OU O PAI CUIDADOSO


PEDRO                 (logo depois para o Presidente) — Retiro-me;
                      também; e muito estimarei que V. Exª tenha
                      uma bela noite.
PRESIDENTE            (só, para um filho) — Não querem ver que
                      este homem pode ser muito mais útil em com-
                      panhia de sua Família que só. É tirania! Pa-
                      rece que estamos em um país de bárbaros.
                      Entretanto, ninguém pode negar que, apesar
                      dos maiores sofrimentos, ainda é — O Ma-
                      rido Extremoso; ou o Pai Cuidadoso!
                      (Diversos senhores entram na sala, e mais
                      pessoas da família. Algumas crianças cantan-
                      do e dançando em roda do Pai:) — Vamos,
                      vamos aos fogos! Vamos passear. Vamos ao
                      teatro. Vamos!
o   PRESIDENTE     — Estão todos prontos?
TODOS              — Estamos: e só às suas ordens.
PRESIDENTE            (voltando para o público) — Quanto é doce
                      o ser Pai de Família, e com ela viver harmo-
                      niosamente — só pode conhecer quem como
                      eu neste momento se enche de prazer e de
                      júbilo!

                      (Fim do quinto e último e da comédia)

                      Por — José Joaquim de Campos Leão
                                     Qorpo-Santo

                      Maio de 1865
                      Porto Alegre, beco do Rosário, Sobrado

                                        NOTA

                      Não tendo eu jamais lido o que escrevi há mais
                      de onze anos, e só agora corrigindo as provas
                      — não podia saber que esta Comédia encer-
                      rava cinco Quadros, lendo-se na página pri-
                      meira quatro, senão nas últimas.

                      Porto Alegre, Junho 11 de 1877
JOSÉ JOAQUIM DE CAMPOS LEÃO QORPO-SANTO


NOTAS

 1. No texto impresso consta "em 4 quadros". O A. só se deu
    conta de que eram 5 ao rever as provas tipográficas. V. nota
    ao final desta comédia. Aliás, temos aqui uma das peças mais
    caóticas de Qorpo-Santo. Sua republicação serve, quando nada,
    para documentar o estado agudo de insanidade vivido pelo A.
    em 1877. Não obstante, o QUADRO SEGUNDO é excelente,
    inclusive no que diz respeito à linguagem coloquial do gaúcho
    da Campanha e a seus costumes. Só por isso vale a pena ler
    com atenção esta comédia.
 2. Ponche = poncho.
 3. Eh! pucha! é uma interjeição muito usada no Rio Grande do
    Sul. Não está, porém, dicionarizada a forma do texto.
 4. Sia = senhora. Tratamento dado a mulheres do povo, no Rio
    Grande do Sul.
 5. Assim no texto impresso. Deve ser uma gralha tipográfica.
    O A. queria dizer Epucha, como se grafava na época.
 6. Fazer pelego, na linguagem do interior gaúcho, significa: errar
    na dança.
 1. A forma acamar é mais usada que camar. Aqui, esse gerúndio
    — comando tem sentido erótico evidente.
 8. V. nota 3.
 9. Correia de couro com -que os sapateiros seguram a obra sobre
    a forma posta no joelho. — Caldas Aulete, Dic. Contempo-
    râneo da Língua Portuguesa, 2ª ed. bras.
10. Sic.

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O marido extremosos ou o pai cuidadoso

  • 1. O MARIDO EXTREMOSO; OU O PAI CUIDADOSO comédia em cinco quadros01
  • 2. PERSONAGENS Régulo Remo Sancho Um convidado Ana Maneca Benico Mandunguinha Esquisito Diversos dançantes Tocadores de viola Duas escravas Professor de esgrima Estudantes Dunga Córneo Júlio Lanceiro Perna de Galinha Televi Mestre Oficiais sapateiros Pedro Catinga Presidente da Província Comandante Chefe de Polícia Crianças
  • 3. PRIMEIRO RÉGULO (para Remo) — Sejamos honestos quanto às mulheres! Mas quanto ao mais, já que nos furtam — furtemos também! Se nos roubam — roubemos também. E assim seguimos o pre- ceito do nosso Grande Vieira, hábil pregador, profundo Político, e t c , etc. REMO Mas, se nos roubarem as mulheres!? RÉGULO Ah! então esse caso é mais melindroso. REMO Mas diga-me. O que havemos de fazer? RÉGULO Homem, isso tem seu q u ê . . . ou para que. (Depois de longa pausa, muito apressadamen- te, e caminhando em roda para o lado de Remo): Sabes o que mais convém? — roubar também. Se é crime, fica compensado; e ficamos indenizados sem ser preciso andar com a justiça às costas — da casa do Escrivão para a do Juiz; da do Juiz para a do letrado; da deste para a do meirinho, e t c , etc. Justiça de Barcelos, ou de Barcelona, por exemplo. Apanho com um pau, dou com um pau (bate no ombro de Remo com uma bengala). REMO Ai! homem! Isso não tem lugar. Bem vês que não te dei ainda paulada alguma. Que diabo de graça. E arde como sal e pimenta em ferida recente. Não! não! Não continues com essas graças! RÉGULO Ó homem! de pouco te zangas! Que faria se eu te desse às deveras? Foi apenas uma pe- quena experiência ou um exemplo que quis dar-te, e já te mostras tão zangado! Que farias
  • 4. JOSÉ JOAQUIM DE CAMPOS LEÃO QORPO-SANTO se eu te desse às deveras (bate com mais força). REMO — Ah! você está teimoso! Pois eu também vou dar-lhe pancadas! Vou também fazer exemplo! (pega em uma cadeira e dá-lhe com ela). RÉGULO — Ai! ai! Este exemplo valeu por todos os que acabei de dar-te. Irra! irra! Régulo, sempre mostras que és um verdadeiro Régulo — nome que bem diz com a pessoa. SANCHO (entrando) — Oh! vocês aqui! e a jogar o pau. Eu também entro. Vamos la! (dá uma pancada em um. O outro dá-lhe com a cadei- ra): Não vê que o jogo é só de dois? e que o Sr. não foi convidado? SANCHO — Mas eu quis também fazer as minhas experi- ências, visto que eu ouvi falar em experiên- cias; e eu gosto muito de me experimentar. . . REMO — Pois V. Exª gosta de experiências? Lá vai (dá-lhe outra bordoada). SANCHO — Nada! Nada! Façamos as pazes! Acabemos com as experiências de pau. Agora passemos às experiências de pensamento? SANCHO — Agora, espere, ainda é cedo. Eu ainda não comecei. Depois que eu começar os Srs. não me hão-de querer ver acabar! (Batendo na testa com força.) Sai ou não sai? Ah! não quer sair; então há-de sair do nariz (põe os dedos 'e assoa com força). Lá vai um! RÉGULO — Estás muito adiantado, mas as tuas experiên- cias não me agradam. Vai plantar batatas, meu estúrdio (empurrando a Sancho). REMO — E teve a audácia de nos vir interromper, este quadrúpede! SANCHO — Então não querem ver mais? Está bem, em tal caso vou-me embora! RÉGULO — Não vai daqui sem dar-me o chapéu para pa- gar-nos a maçada que nos deu! (Tira-lhe o chapéu.)
  • 5. O MARIDO EXTREMOSO; OU O PAI CUIDADOSO REMO (para Régulo) — Tu te contentas com o cha- péu, e eu quero a bengala, que é melhor que a minha (avança-se a ele e tira-a). Agora, seu estúrdio (apontando para a porta da rua): Suma-se já, já daqui para fora! (Dá-lhe um pontapé, Sancho grita, Régulo o empurra; é um barulho imenso. Mas aos socos, pontapés, empurrões <e gritos, põe Sancho na rua, fican- do-lhe com o chapéu e a bengala.) RÉGULO (para Remo, voltando ambos) — Vamos! Vamos!. Tu te arranjaste de chapéu, e eu de bengala. . . ou. . . eu de bengala e tu de cha- péu. Fujamos cada qual por sua porta, antes que por aqui chegue a Polícia. (Safam-se ambos; um por uma porta, e outro por outra.)
  • 6. SEGUNDO UM DOS CONVIDADOS (dirigindo-se a uma das dançantes) — Ora saia, Sra. Ana! Não vê aqui o seu maior apre- ciador — de chilenas e pelego para dançar, Dona Ana? ANA (Moça nova e assaz gorda) — Bem vejo, Sr. Maneca, que o Sr. é o moço mais lindo que pisa neste baile; mas não o vejo de faca e de pistola para amendrontar os rivais; e afu- gentar os iguais. Bem sabe que ninguém olha para mim que não me queira dar boquinhas, abraços e beijos! MANECA Já sei que tu és a mais adorada de toda esta patifada. Mas para os fazer levantar a cola, a correr baguais, não preciso de pistola. Basta a faca e o ponche 2 Vamos; vamos para a sala! (pegando-a pela mão). ELA Eh! pucha malaia3! O tocador está sem viola. MANECA O que diz, sia4 Tagarela? ELA Olha aquela como levanta a saia! Parece que nunca dançou. MANECA Não é; foi o tocador que quase a matou, com a pancada que lhe deu. quando na viola bateu, quando a viola quebrou. (Já se vê que o tocador, pouco antes, tem uma dúvida com outro. . . com um dançante; dá-Ihe com a viola, e quebra-a.) BENICO (para seu par, Mandunguinlia) — Abaixa a saia, Mandunguinha! MANDUNGUINHA — Não quero! Hei-de levantar até o joelho; le- vantar, para mostrar que tenho umas pernas
  • 7. O MARIDO EXTREMOSO; OU O PAI CUIDADOSO bonitas como as lindas estrelas; grossas como os fortes engenhos! ESQUISITO (para um dos tocadores, empurrando-o, e de- pois jazendo uma volta, arrastando a chilena, levantando um braço, e deitando o outro, etc.) — Que diabo tem essa rebeca, que não toca nada que se dance! (Entretanto, outros bailam, jazendo cada qual as maiores asneiras e esqui- sitices que pode; proferindo gracejos, grosse- rias, e praticando-as de toda a espécie.) BENICO —- Agora, sim; já se ouve tocar. UM DOS DANÇANTES, (a quem se oferece um mate) — Ora venha de lá esse chimarrão! (Tomando.) Está mesmo como uma língua de chimango. OUTRO - Eu quando me abraço com uma gorducha co- mo esta! ( abraçando-a ) não me lembro de mais nada neste mundo! OUTRO - É puca mano Jucá!5 Se ele não andasse reco- lhendo as vacas do gado manso, quantos espo- raços não daria aqui na tia Tubina, arrastan- do-lhe a roseta pela saia! OUTRO - E o António ainda não chegaria com a eguada do Potreiro Velho? Eh puta diabo! Faz-me uma falta p'ras embigadas! Mas já que ele não veio, dou na tia Maria (bate com os pés; arrasta as chilenas, e dá uma embigada em uma das mulheres que fica em frente). OUTRO - Toca bem essa viola, seu diabo! Quase não se ouve, quando se bate com as palmas, ou com os pés (Batem palmas, fazem rodas, ba- tem com os pés; de repente, um grito): Fez pelego!" (Há grandes gargalhadas.) OUTRO - Vai de roda! (puxando um lenço do pescoço de uma das moças.) Pra que quer lenço, se é tão bonito este pescoço? (Tira e assoa-se. Atirando com este em outro.) Lá vai! Aguar- UM —- Já estou cansado como o diabo!
  • 8. JOSÉ JOAQUIM DE CAMPOS LEÃO QORPO-SANTO OUTRO — Pois vamos dormir que já são horas, pra ama- nhã parar rodeio cedo, que nestas já nós pa- remos! OUTRO — Pois cá vou com a minha! (Pega uma pelo braço e mete-se num quarto.) OUTRO — Eu também já vou. Não toque mais esse instrumento, seu tocador! (pega em outra e sai dizendo:) Foi meu par dançando; há-de sê-lo também camando!7 OS OUTROS — Pois vamos todos! Ah, ah, ah! (Arrastam as chilenas; sapateiam caminhando, fazem valas; rodas; abraçam as moças; e desaparecem, ter- minando assim o baile.) OS TOCADORES — Sempre nós somos os que mais trabalhamos, e os que menos gozamos. Os dançantes bai- lam, abraçam, falam, beijam; e nós? Apenas bebemos algum copo de cachaça ou de vinho que eles nos querem dar! Ainda é bom quando não nos quebram a cabeça com os instrumen- tos! Pois não toquemos mais (atirando com as violas). Vão-te, diabos! que d'agora em diante não queremos mais tocar. Nós quere- mos só dançar (e saem). U M A ESCRAVA — É assim que esta cambada faz! Comem. Be- bem. Sujam tudo como porcos no chiqueiro; e depois está a gente aqui tendo trabalho para arrumar e limpar isto (com um pano limpam os mochos). Olhem como eles deixaram as camas! Parecem ninhos de galinha choca. Cruzes! cruzes como similhantes demônios! (Põe um pelego às costas e sai.) OUTRA ESCRAVA (cuspindo-se) — Tem! tem! Está fedendo a chulé! Ih!. . . vou-me embora; alguma outra que venha cá aturar este fedor! (Sai.) (A mobília da sala não passa de uma cama de guascas, uma rede de couro, alguns tambo- retes e um ou dois bancos de 4 a 6 palmos de comprimento, uma até duas mesas de 5 a 6 palmos.)
  • 9. TERCEIRO Lições de florete; espadão; espada; pistola e lança. Um Professor e alguns discípulos; pistolas; espadas de pau; floretes, lanças. Dois estudantes, entrando, um de espada, ou- tro de florete. O DA ESPADA Guarde-se deste talho! O DO FLORETE Não se aflija, espere; quero pegar arma igual! AQUELE (a quem chamaremos — Dunga) — Nada! Quero medir a minha espada com o seu flo- rete . .. Defenda-se, portanto! O DO FLORETE (a quem chamaremos Córneo) — Defendo- me; mas não é próprio de estudantes (esbarra a espada no florete). DUNGA O bom jogador, com qualquer arma se defen- de! CÓRNEO É verdade, Mas não é próprio d'estudantes. Entretanto, livre-se desta estocada (dá-lhe um pontaço com o florete). DUNGA (rebatendo) — Se não atira melhor, faço-lhe voar o florete pelos ares! CÓRNEO Descansemos um pouco; o meu florete está doente (querendo examiná-lo). DUNGA Quando se luta, não se dá tempo ao contrário para preparar as armas. Lá vai! (Atira-lhe um pontaço, ele defende-se.)
  • 10. JOSÉ JOAQUIM DE CAMPOS LEÃO QORPO-SANTO JÚLIO (entrando de pistola em punho) — Pois tam- bém quando os estudantes não são cavalheiros, encontram outros que lhes tiram a proa, pon- do-se ao lado do cavalheirismo! (Engatilha a pistola) ou há-de jogar de florete, ou há-de esperar que o meu amigo se prepare d'espada! Escolha! Se nenhuma, nem outra cousa, então a luta é comigo! Ao menor movimento, um tiro de pistola no peito, ou na cabeça! O DA ESPADA OU DUNGA Em vista disso, não jogo mais, nem de florete, nem de espada, nem de pistola. Queria mos- trar que quando se briga, não se escolhem armas! Que se ataca ou se defende com a que temos! Não querem, não ensinarei mais! (Ati- ra com a espada na bainlw e sai.) JÚLIO (para Córneo) — Vamos nos entreter por cinco minutos! (toma um florete): Livre-se desta na barriga! (Atira-lhe o florete, Córneo defende-se.) JÚLIO - Na cabeça! CÓRNEO - No peito! JÚLIO - No ombro direito! CÓRNEO - No braço! (Depois de diversos tiros em que ambos saem perfeitamente bem.) UM LANCEIRO (entrando) — Agora há-de ser de lança! ELES - Nada, nada! Já estamos cansados! (Embai- nhando os floretes.) Agora vem Perna de Ga- linha jogar contigo a lança! Espera um pouco. (Entra um indivíduo alto, magro, com uma lança.) PERNA DE GALINHA • - Ê agora, amigos! Veremos aqui quem é o va- lente. (Faz alguns manejos com a lança): Eh! puxa malaia!8 quem não é toco, não se meta; senão enfio-lhe a reta! Lá vai um lançaço pela esquerda! AQUELE (a quem chamaremos Telivi) — Não atire, senão, eu morro! Cuidado! (Batem e entre- laçam as armas.)
  • 11. O MARIDO EXTREMOSO; OU O PAI CUIDADOSO (Entram outros; pegam espadas; os de florete desembainham estes; e jogam quatro — lança, espada, florete e pistola. Depois de alguns exercícios, entra o mestre, homem feio e de aspecto assustador (bate palmas). Bravos! Vivam os nossos discípulos! Estão prontos, prontos e mais prontos! já podem dentro, fora do Império — debelar os inimigos da Pátria! (Descem todos as armas, apontam para o chão.) UM DELES — Em presença de nosso Mestre, desce tudo e saia gente, que aprendeu de um grão Tenente!
  • 12. QUARTO Casa de sapataria e alfaiataria CERTO INDIVIDUO (que entra; para um dos oficiais que parece Mestre) — O Sr. tem sapatos? O MESTRE De todas as qualidades. O INDIVÍDUO Vejamos. (O Mestre mostra-lhe alguns pares; ele escolhei; calça; mexe e remexe; e não acha algum que lhe sirva.) Nada! nada! Este é grande, aquele pequeno, este outro apertado! Nenhum serve. UM OFICIAL (para os outros) — Este diabo deste homem é o mais difícil de contentar que eu tenho conhecido. O MESTRE Pois é dos que temos. INDIVÍDUO Vejamos as botinas. O MESTRE Eis aqui algumas (Apresenta-lhe.) INDIVÍDUO (examinando-as) — Está larga; e tem o bico torto. (Experimenta outra.) Oh! esta tem o salto às avessas! (Vê outra.) Que diabo! até os puxadores são diferentes! O MESTRE Olhe que não são gavetas! Isto não tem puxa- dores. São alças. INDIVÍDUO Não! Nada. Não me servem! Vejamos as botas. O MESTRE É preciso muita paciência para aturá-lo. En- fim, aqui tem mais alguns pares (Dá-lhe.) INDIVÍDUO (pegando em uma, examinando e não achando boa) — Que diabo! (Pegando em outra): Esta
  • 13. o MARIDO EXTREMOSO; OU O PAI CUIDADOSO está um pouco melhor; mas ainda assim. .. não sei que lhe diga! (Calça outra e acha boa): esta serve; mas eu não pago a este diabo! (Depois de calçar, agarra uma das outras em cada mão, e para o Mestre.) A você eu per- doo, mas os discípulos levam com esta por- caria pela cara (atira com uma na cara de um; com outra na cara de outro, saindo). Isto é para outra vez fazerem obra melhor (sai pi- sando mui fortemente.) (O Mestre apita; os discípulos querem correr atrás dele; pegam em tirapés9; levantam-se; jazem um barulho imenso; mas ele safa-se.) ESTE — O Sr. tem calças de morroquim? O MESTRE — Onde viu o sr. — calças de marroquim? O INDIVÍDUO (a quem chamamos Catinga) — Ah! não são de marroquim; são de alfinim, ou de toquim. MESTRE — De toquim, não tem. Mesmo dessa qualidade, penso que só para xales! CATINGA — Vejamos das que tem. O MESTRE (tirando alguns pares) — Ora, Deus queira o Sr. não venha aqui especular, como o que daqui saiu há pouco. Estou com bem receio de o aturar! Enfim, quem tem casa de negócio dispõe-se a tudo. (Mostra-lhe alguns pares que tirou da prateleira.) CATINGA (tirando alguns pares) — Ora, Deus queira o Mestre:) — Está boa. Quanto custa? MESTRE — O metro, 20 francos. CATINGA — É barato; e como vende por tão, pouco dinhei- ro as suas obras. Vejamos um paletó. (O Mestre mostra-lhe alguns.) CATINGA (veste; acha um que lhe agrada) — Está éti- mo para o inverno. Serve-me. O preço? MESTRE — Isto é obra muito mais fina; é para 100$000. AQUELE — Ainda não é caro. Serve-me. Coletes, tem? Quero casimira da mais fina que tiver. (O Mestre mostra-lhe alguns.)
  • 14. JOSÉ JOAQUIM DE CAMPOS LEÃO QORPO-SANTO CATINGA (vestindo um e achando ótimo) — Ficarei com este. Pode tirar a conta de tudo, e man- dar à casa de sobrado nº 250, 2º andar, à rua dos Preguiçosos. (Quer sair; o Mestre bota-lhe a mão.) Mas eu não o conheço! CATINGA — Já lhe disse que mande a tal rua, a tal casa; o que mais quer!? MESTRE — Não sei. Quem o Sr. é? CATINGA — Saiba, ou não saiba, faça o que lhe digo; e quanto ao mais, fica à minha conta! MESTRE — Não, filho! não posso, não tenho quem vá lá! CATINGA — Ah! não tenho quem vá; pois eu tenho cá (puxa por um punhal): Eu só não é que hei-de ser roubado, e matado, como as senhoras au- toridades me roubam e assassinam; é porque querem também que eu roube e assassine! A época será de roubo e assassinato (puxa de todo o punhal, crava-o no peito do Mestre, dizendo.) Eis a paga! (Safa-se.) (Os discípulos procuram curar o Mestre; cer- cam-o10; amarram a ferida; depois de prepa- rado, este.) MESTRE — Eis as consequências de um país mal policiado, ou onde as Autoridades, como também alguns outros — dão o mau exemplo do roubo, da violência e da rapina! O cidadão tranquilo, trabalhador, honesto, é em sua casa apunha- lado e roubado do que tem! O adúltero, o ladrão, o assassino — protegido, amparado, e quiçá louvado e elevado! Por isso tantas guer- ras! tantas pestes! tantas mortes! tantos males! OS DISCÍPULOS (uns para os outros) — Agora é preciso cada um de nós ter a nossa faca afiada e pronta para quando alguém entrar mesmo de pé, e ao primeiro movimento, lançar algum rico por terra; e ir haver à polícia o prêmio de nosso grande feito de armas!? TODOS — Apoiado! Apoiado! Faremos da oficina um baluarte ou. ..
  • 15. o MARIDO EXTREMOSO; OU O PAI CUIDADOSO o MESTRE — É pouco um baluarte. Será uma fortaleza contra todos os nossos fregueses. Matá-lo-e- mos logo à entrada, a fim de roubarmos quan- to dinheiro tiverem, muito à nossa vontade! E assim não precisamos mais trabalhos de sapateiro ou mesmo de alfaiate! TODOS — Juremos! (O Mestre dá as duas mãos aos discípulos, estes ligam-se assim todos; formam uma ca- deia; em voz bem alta, dizem: Unidos pela força, e pelo segredo! Mataremos; roubare- mos e enriqueceremos.
  • 16. QUINTO Pedro, preso pela Polícia, por falsas acusações, ou calúnias, ou simples más intenções desta, em presença de um Presidente, chefe de Po- lícia, um comandante de um corpo, e mais alguns indivíduos. CHEFE DE POLÍCIA (queixando-se ao Presidente) — Venho, Se- nhor, perante V. Exª reclamar por um doente! Tendo eu dado ordens que certo soldado fosse à Polícia apresentar-se para dela ser praça, soube entretanto com o maior desprazer ter o mesmo ido apresentar-se ao corpo da Guarda Nacional desta cidade. Acho neste fato um escárnio à Autoridade; às leis e ao Governo! O PRESIDENTE — Eu não autorizo tais atos. E todas as vezes que deles tiver conhecimento, fique certo que hei-de dar as providências necessárias para que nada sofra a justiça; e seja a ofensa repa- rada, como para que se não repitam. CHEFE — É isso mesmo o que todos desejam! E é a causa da minha representação a V. Exª, por saber de suas boas disposições a respeito! O PRESIDENTE (para o comandante) — É preciso pôr à dis- posição do Sr. Dr. Chefe de Polícia o sol- dado de quem ele fala, visto que tinha-lhe dado outro destino. O COMANDANTE — Não ponho a menor dúvida! E se ele é hoje praça do meu Corpo, não é isso devido a procederes meus. Houve apenas um engano entre os soldados, e por esse motivo deu-se tal fato! Eis um bilhete que recebi, em razão do qual o admiti como praça. (Lê.)
  • 17. o MARIDO EXTREMOSO; OU O PAI CUIDADOSO O PRESIDENTE — Pois bem, então não há dúvida alguma. Foi um engano de nome, e o Sr. Chefe de Polícia providenciará a respeito, como mais convier. CHEFE — Eu entendo que era um mal para o serviço público; pois podia trazer outros ainda maio- res, como o desprestígio à Autoridade; e é por isso que venho fazer esta reclamação. Mas estou satisfeito; e pode o soldado conti- nuar como praça do seu Corpo. O COMANDANTE Obrigado! Obrigado! PEDRO — Já que se tratou de direitos, de reparação de ofensas a estes feitas, eu perguntarei a V. Exª (dirigindo-se ao Dr. Chefe de Polícia): O que pretende respectivamente a objetos de minha propriedade, que me foram tirados por violên- cias, e que se acham ainda na Polícia, con- quanto três vezes eu os haja requerido? O CHEFE - O Sr. . . (gaguejando; e querendo dirigir-se ao Presidente): Não há nada a ponderar; po- rém a narrar — que eu estava em uma de minhas propriedades, e no seio de minha Fa- mília, que os objetos de que trato existiam em um dos quartos de minha casa, como existem nas prateleiras das lojas de ferragens, nume- rosas de tal qualidade; que estando eu descan- sando um pouco das fadigas da manhã, e ape- nas nessa ocasião com um criado, entra força armada, e roubando-me a doce liberdade, o maior dos bens que se pode gozar sobre a Terra, com ela roubaram-me também tais objetos! CHEFE — Mas eu não tenho culpa; a culpa é do Dele- gado! PRESIDENTE — V. Sª tem culpa, porque o não demitiu logo que soube desse atentado contra o direito de propriedade, e de liberdade de um seu con- cidadão! Tem culpa, porque ainda está coo- nestando esse ato indigno desse seu delegado, conservando em seu poder objetos que ele mesmo roubou a esse seu concidadão!
  • 18. JOSÉ JOAQUIM DE CAMPOS LEÃO QORPO-SANTO CHEFE — Mas o que quer que eu lhe faça!? Sua mulher é que teve a culpa. Ao menos ele diz que ela foi se queixar. Agora é ir lá sem armas. PEDRO (com indignação) — V. Exª pensa que eu sou alguma criança? Pode dar os seus conse- lhos àquela criança (apontando para a criança, cujo choro se ouve), eu os desprezo e nem desejo ouvi-los. Tem sido esta a desgraçada marcha seguida pela Polícia há dois anos para cá! E não sei por que fatal coincidência quan- tos crimes se têm perpetrado para comigo, e para com minha inocente e particular família — outras tantas desgraças tem experimentado o Império, nesta ou naquela de suas partes. Qual é o dever de um bom Governo, e com especialidade de uma boa Polícia, esse pode- roso auxílio do Ministério Público!? Qual é, pergunto, um de seus primeiros deveres, senão procurar dar boa educação à juventude!? Qual o segundo, senão ampará-la da prosti- tuição, da fome, da nudez, e de milhares de outros males, dando-lhe o trabalho, ocupação ou o amparo de seu País!? Não vê a Polícia que continuando a destruir em vez de edificar, não poderá trazer senão a ruína do Estado!? Não vê — que está traindo a si própria, àque- les que a nomearam, e aos quais sustentam os impostos que pagam!? Não conhece que, se não respeita os direitos de todos, sejam quais forem as suas espécies, os seus também serão menosprezados, quer como cidadãos, quer como Autoridades, pois que uns e outros nascem das mesmas fontes, das Leis que as criou, e pelas quais eles se mantêm!? UM DOS CIRCUNSTANTES — Muito apoiado! Apoiadíssimo! OUTRO (retirando-se, pegando o chapéu e despedindo- se) — Não se incomode, Sr. Pedro. Tudo o que o Sr. quer há-de conseguir. PRESIDENTE (levantando-se) — Eu pretendo ir ver os fo- gos, e creio que já vão sendo horas. (Todos levantam-se, despedem-se e saem com um Major e o Chefe de Polícia.)
  • 19. O MARIDO EXTREMOSO; OU O PAI CUIDADOSO PEDRO (logo depois para o Presidente) — Retiro-me; também; e muito estimarei que V. Exª tenha uma bela noite. PRESIDENTE (só, para um filho) — Não querem ver que este homem pode ser muito mais útil em com- panhia de sua Família que só. É tirania! Pa- rece que estamos em um país de bárbaros. Entretanto, ninguém pode negar que, apesar dos maiores sofrimentos, ainda é — O Ma- rido Extremoso; ou o Pai Cuidadoso! (Diversos senhores entram na sala, e mais pessoas da família. Algumas crianças cantan- do e dançando em roda do Pai:) — Vamos, vamos aos fogos! Vamos passear. Vamos ao teatro. Vamos! o PRESIDENTE — Estão todos prontos? TODOS — Estamos: e só às suas ordens. PRESIDENTE (voltando para o público) — Quanto é doce o ser Pai de Família, e com ela viver harmo- niosamente — só pode conhecer quem como eu neste momento se enche de prazer e de júbilo! (Fim do quinto e último e da comédia) Por — José Joaquim de Campos Leão Qorpo-Santo Maio de 1865 Porto Alegre, beco do Rosário, Sobrado NOTA Não tendo eu jamais lido o que escrevi há mais de onze anos, e só agora corrigindo as provas — não podia saber que esta Comédia encer- rava cinco Quadros, lendo-se na página pri- meira quatro, senão nas últimas. Porto Alegre, Junho 11 de 1877
  • 20. JOSÉ JOAQUIM DE CAMPOS LEÃO QORPO-SANTO NOTAS 1. No texto impresso consta "em 4 quadros". O A. só se deu conta de que eram 5 ao rever as provas tipográficas. V. nota ao final desta comédia. Aliás, temos aqui uma das peças mais caóticas de Qorpo-Santo. Sua republicação serve, quando nada, para documentar o estado agudo de insanidade vivido pelo A. em 1877. Não obstante, o QUADRO SEGUNDO é excelente, inclusive no que diz respeito à linguagem coloquial do gaúcho da Campanha e a seus costumes. Só por isso vale a pena ler com atenção esta comédia. 2. Ponche = poncho. 3. Eh! pucha! é uma interjeição muito usada no Rio Grande do Sul. Não está, porém, dicionarizada a forma do texto. 4. Sia = senhora. Tratamento dado a mulheres do povo, no Rio Grande do Sul. 5. Assim no texto impresso. Deve ser uma gralha tipográfica. O A. queria dizer Epucha, como se grafava na época. 6. Fazer pelego, na linguagem do interior gaúcho, significa: errar na dança. 1. A forma acamar é mais usada que camar. Aqui, esse gerúndio — comando tem sentido erótico evidente. 8. V. nota 3. 9. Correia de couro com -que os sapateiros seguram a obra sobre a forma posta no joelho. — Caldas Aulete, Dic. Contempo- râneo da Língua Portuguesa, 2ª ed. bras. 10. Sic.