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O caso Qorpo-Santo: escrita e loucura

                                                     Alfredo Schechtman

                             Michel Foucault, em sua monumental história da loucura, tem um
                             conhecido enunciado que relaciona a loucura à não obra, à ausência e
                             impossibilidade de obra. Esta assertiva tornou-se objeto de abordagem e
                             crítica a partir de distintos prismas teóricos, envolvendo em seu debate,
                             entre outros, filósofos, críticos literários e psicanalistas, e remetendo-nos
                             à questão das raízes profundas da criatividade humana.

                             O espaço da criação implica em buscar traduzir conteúdos, percepções e
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                             culturalmente.

                              As vanguardas artísticas do início do século XX, a partir do dadaísmo e
                              do surrealismo, aprofundaram e legitimaram esta relação entre o
estritamente subjetivo, o mergulho nas brumas interiores do ser, muitas vezes de conteúdo hermético
e cifrado simbolicamente, e sua circulação no meio social, no espaço ampliado da cultura.

Interessa-nos, pois, neste ensaio, seguir abordando a relação entre literatura e loucura. Em texto
anterior apresentamos alguns autores brasileiros que passaram pela experiência da internação
psiquiátrica, e sobre a mesma refletiram de modo intenso. Todavia, naqueles escritos, a loucura, a
vivência desta experiência singular, é narrada com um olhar racional, “exterior”, não são escritos
“loucos”, cifrados à compreensão do Outro.

Walter Benjamin, em resenha originalmente publicada em 1928, apresenta análise, sucinta mas
penetrante, sobre as famosas memórias de Daniel Paul Schreber, e nos fala mais amplamente desta
literatura da desrazão, da qual tinha ciência e pela qual manifestava vivo e continuado interesse.

“A existência deste tipo de obras tem algo de surpreendente. Estamos habituados, apesar de tudo, a
considerar o âmbito da escritura como algo superior e seguro, de tal maneira que a emergência da
loucura, que aqui aparece sigilosamente, assusta mais.”

Tais textos foram, em sua maioria, preservados quase anonimamente, graças ao empenho de registro
pelos próprios autores, os quais quase sempre custearam integralmente as edições de suas obras, à
margem do sistema editorial dominante.

No caso brasileiro, o encontro de tais registros é raro, não apenas pela nossa relativamente escassa
familiaridade com o universo da escrita, em uma cultura de viés predominantemente oral, mas
também pela precária conservação de nossa memória histórica e cultural.

Assim, é como exceção notável que foi possível resgatar e revalorizar a obra textual de um autor
gaúcho do século XIX (1829-1883), José Joaquim de Campos Leão, nome ao qual o próprio autor
acrescentou a alcunha de Qorpo-Santo (QS).

Foram necessários quase cem anos, a partir da publicação original de seus textos, para sua
redescoberta, na década de 1960.

A partir daí, assistimos a uma nova abordagem da vida e da obra de QS, entre autores da crítica
literária e teatral brasileira que voltaram suas lentes para esta escrita singular.

Alguns críticos, destacando-se o editor de seu teatro completo, Guilhermino César, buscaram situá-lo
entre os precursores de modernas tendências da arte teatral, como o teatro do Absurdo, pretendendo
atribuir-lhe a paternidade desta moderna corrente teatral.

Já Eudinyr Fraga, em trabalho dos anos 80, defende que QS seja enquadrado como autor surrealista,
por fazer uso constante em seu texto do ‘automatismo psíquico’, que caracterizaria aquela corrente
estética.
“Suas personagens são sempre projeção dele próprio, e com ele muitas vezes se confundem, como
observamos pelo conhecimento de sua biografia. Inclusive, deixam a categoria de personagens e
assumem um tom discursivo, lamentando as infelicidades e as injustiças sofridas pelo criador. Por
outro lado, não tem preocupações estéticas. Suas lamúrias estão sempre a um nível existencial, ou
melhor, individual. Sua obra visa satisfazer ‘uma necessidade interior que a expressão determina’.”

Entre os autores que estudaram QS, a análise mais profunda segue sendo a realizada por Flávio
Aguiar, ainda na década de 70, em “Os Homens Precários”, resultado de sua tese de mestrado em
literatura. Na mesma, Aguiar analisa em detalhe o teatro de QS, e foge argutamente à discussão sobre
ser QS o precursor não reconhecido de modernas tendências do teatro moderno.

Para Aguiar, QS constrói um teatro da paralisia, em que o pano de fundo da moralidade vigente é
antagonizado pelo desenrolar dos acontecimentos, em atropelo da possível lógica de seus enredos.

“Nas peças de Qorpo Santo o desenrolar dos acontecimentos (o ritmo do tempo) é caótico demais para
que dele possa nascer, ‘espontaneamente’, qualquer conclusão lógica”.

Interessa-nos aqui ressaltar que, à exceção destes dois autores citados imediatamente acima, que ao
menos tangenciaram o tema, é perceptível a ausência de uma reflexão sobre a questão da loucura,
sobre os limites da normalidade psíquica, no universo textual deste autor. E, no entanto, a desrazão se
faz presente no cerne de sua escritura, nas nervuras de seu texto.

Assim, buscando suprir ainda que parcialmente esta lacuna, apresentamos a seguir um breve resumo
de sua vida e obra, destacando alguns fragmentos de suas peças teatrais que apontam para a
presença de conteúdos extremamente pessoais, que parecem como que invadir a cena e o espaço
literário, numa freqüência pouco usual nos textos da maioria de seus contemporâneos.

José Joaquim Leão, natural da Vila do Triunfo, interior do Rio Grande do Sul, vai para Porto alegre em
1840, já órfão de pai, para estudar gramática e conseguir emprego naquela capital, habilitando-se ao
exercício do magistério público, que passa a exercer a partir de 1851.

Em 1855, casa-se e, em 1857, muda-se com a família para Alegrete,
cidade na qual funda um colégio, adquirindo respeitabilidade como figura
pública, escrevendo para jornais locais e ocupando ainda cargos públicos
de delegado de polícia e vereador.

Em 1861, de volta a Porto Alegre, segue a carreira de professor e
começa a escrever sua “Ensiqlopédia ou seis mezes de huma
enfermidade”. Parecem manifestar-se neste momento os primeiros sinais
de seus transtornos psíquicos, rotulados então sob o diagnóstico de
“monomania”, sendo afastado do ensino e interditado judicialmente a
pedido da própria família.

QS não aceita pacificamente este seu enquadramento psiquiátrico,
recorrendo ao Rio de Janeiro, sendo examinado então por médicos
daquela capital, que diferem do diagnóstico inicial e não endossam sua
interdição judicial.

Todavia, o estigma estava posto, e nosso autor se vê cada vez mais isolado. Este isolamento social
parece incitá-lo a escrever febrilmente, e o leva ademais a constituir sua própria gráfica, na qual
viabiliza e edita sua produção textual.

Vale a pena, neste ponto de nosso percurso, a leitura de crônica de contemporâneo seu, transcrita por
Flávio Aguiar, que traça retrato humano de nosso personagem.

“Chamava-se José Joaquim Leão do Corpo Santo. Era alto, magro, moreno, de uma palidez de morte.
Usava a cabeleira comprida como os velhos artistas da Renascença. Trajava calças brancas,
sobrecasaca preta, toda abotoada como uma farda, bengala grossa para afugentar os cães e chapéu
alto de seda lustroso.

Andava sempre, na rua, apressado como se fosse tirar o pai da forca.
Fora muitos anos mestre-escola da roça, mas com certo preparo não vulgar, que o punha em
destaque.

(…) Quando a luz da razão se apagou no seu cérebro, tornou-se então tristonho, taciturno, fugindo da
convivência dos mais. Sentia-se bem só, na solidão, a fumar o seu cigarro de palha, com fumo crioulo.
E passava assim horas e horas, completamente estranho a tudo que o cercava, na indiferença da sua
grande desgraça.”

Mas sigamos e adentremos um pouco em seu singular universo textual, transcrevendo extensivamente
alguns trechos de “Hoje sou um; amanhã outro”, ilustrativos desta transposição quase literal de traços
biográficos do autor para o enredo de ficção.

“O REI - da descoberta, que tanto ilustra, moraliza e felicita - honrando!? Mas quem foi no Império do
Brasil o autor

MINISTRO - Um homem, Senhor, predestinado sem dúvida pelo Onipotente para derramar esta luz
divina por todos os habitantes do Globo que habitamos.

O REI - Mas quais os seus princípios, ou os de sua vida?

MINISTRO - É filho de um professor de primeiras letras; seguiu por algum tempo o comércio; estudou
depois, e seguiu por alguns anos a profissão de seu Pai, roubado-lhe pela morte, quando contava
apenas de 9 a 10 anos de idade. Durante o tempo do seu magistério, empregou~se sempre no estudo
da História Universal; da Geografia; da Filosofia, da Retórica - e de todas as outras ciências e artes que
o podiam ilustrar. Estudou também um pouco de Francês, e do Inglês; não tendo podido estudar
também - Latim, conquanto a isso desse começo, por causa de uma enfermidade que em seus
princípios o assaltou. Lia constantemente as melhores produções dos Poetas mais célebres de todos os
tempos; dos Oradores mais profundos; dos Filósofos mais sábios e dos Retóricos mais brilhantes ou
distintos pela escolha de suas belezas, de suas figuras oratórias! Foi esta a sua vida até a idade de
                                       trinta anos.

                                       O REI - E nessa idade o que aconteceu? Pelo que dizes
                                       reconheço que não é um homem vulgar.

                                       MINISTRO - Nessa idade, informam-me... isto é, deixou o
                                       exercício do Magistério para começar a produzir de todos os
                                       modos; e a profetizar!

                                       O REI - Então também foi ou é profeta!?

                                       MINISTRO - Sim, Senhor. Tudo quanto disse que havia
                                       acontecer, tem acontecido; e se espera que acontecerá!

O REI - Como se chama esse homem!?

MINISTRO - Ainda não vos disse, Senhor, - que esse homem viveu em um retiro por espaço de um ano
ou mais, onde produziu numerosos trabalhos sobre todas as ciências, compondo uma obra de mais de
400 páginas em quarto, a que denomina E... ou E... de. .. E aí acrescentam que tomou o titulo de Dr.
C... s.... - por não poder usar o nome de que usava - Q... L..., ou J... J... de Q. .. L..., ao interpretar
diversos tópicos do Novo Testamento de N. s. Jesus Cristo, que até aos próprios Padres ou sacerdotes
pareciam contraditórios!

O REI - Estou espantado de tão importante revelação!

MINISTRO - Ainda não é tudo, Senhor: Esse homem era durante esse tempo de jejum, estudo, e
oração - alimentado pelos Reis do Universo, com exceção dos de palha! A sua cabeça era como um
centro, donde saíam pensamentos, que voavam às dos Reis de que se alimentava, e destes recebia
outros. Era como o coração do mundo, espalhando sangue por todas as suas veias, e assim
alimentando-o e fortificando-o, e refluindo quando necessário a seu centro! Assim como acontece a
respeito do coração humano, e do corpo em que se acha. Assim é que tem podido levar a todo o
mundo habitado sem auxílio de tipo - tudo quanto há querido!
O REI - Cada vez fico mais espantado com o que ouço de teus lábios!

MINISTRO - É verdade quanto vos refiro! Não vos minto! E ainda não é tudo: esse homem tem
composto, e continua a compor, numerosas obras: Tragédias; Comédias; poesias sobre todo e
qualquer assunto; finalmente, bem se pode dizer - que é um desses raros talentos que só se admiram
de séculos em séculos!

O REI - Poderíamos obter um retrato desse ente a meu ver tão grande ou maior que o próprio Jesus
Cristo!?

MINISTRO - Eu não possuo algum; mas pode se encomendar ao nosso Cônsul na cidade de Porto
Alegre, capital da Província de São Pedro do Sul, em que tem habitado, e creio que ainda vive.

O REI - Pois serás já quem fará essa encomenda!

MINISTRO - Aqui mesmo na presença de V . M. o farei. (Chega-se a uma mesa, pega em uma pena e
papel, e escreve:)

"Sr. Cônsul de...

De ordem de Nosso Monarca, tenho a determinar a V. Sa. que no primeiro correio envie a esta Corte
um retrato do Dr. Q... S..., do maior tamanho, e mais perfeito que houver.

Sendo indiferente o preço.

O Primeiro Ministro DOUTOR SÁ E BRITO"

Corte de..., maio 9 de 1866.”

Da mesma maneira, em “O Parto”, vislumbra-se de imediato esta presença do fator biográfico
mesclado ao entrecho textual.

“RUIBARBO - Sim; sim. Vão indo; eu lá irei logo! (Saem.) Estes
meus colegas são o diabo em figura de homens, ou de rapazes!
Tudo desarrumam! É preciso uma... não: paciência de Jó, ou de
algum outro Santo para aturá-los! Enfim, (depois de todo o
quarto arrumado) é preciso aturá-los! É melhor que andar com
eles aos tombos, puxões ou cabeçadas. (Pega em um livro.) São
horas, vou às minhas lições de Retórica! E logo continuarei a
escrever a minha encantadora comédia - a Ilustríssima Senhora
Dona Anália de Campos Leão Carolina dos Santos Beltrão
Josefina Maria Leitão História das Dores Patão, ou Bulhão, etc.
etc. Dizem os médicos, e confirmam os lógicos: As cousas que
têm de trabalhar, apertadas, não poderão fazer tão bom serviço
como - desembaraçadas; e eu o creio pia e firmemente.
Exemplifiquemos com os próprios homens e seus órgãos. Suponha-se que estão a trabalhar em uma
sala vinte pessoas, e que na mesma não o podem fazer livre ou desembaraçadamente mais que dez ou
doze. Pergunto: seu serviço, obra, ou trabalho, sairá tão perfeito, como se trabalhassem aqueles que -
bem - só o podiam fazer? É de crer que não. Outro: Temos órgãos - da vista, do ouvido, do olfato, que
por certo oprimidos, ninguém dirá que - bem funcionam. Assim pois devem ser os do nosso estômago,
intestinos, etc. Apertados, não poderão funcionar, transformar ou digerir os alimentos ou cousas de
que nos alimentamos, com aquela facilidade com que o fazem ou devem fazer não opressos ou
desembaraçados. Se aperto os meus dedos, não posso escrever, nem com a mão cousa alguma fazer!
Se porém esta está desembaraçada, com ela faço o que quero, ou o que posso. Logo - não convém a
opressão; se se quer trabalho abundante e perfeito!

RUIBARBO - Eu me explico: Quando escrevo, penso, e procuro conhecer o que é necessário, e o que
não é; e assim como, quando me é necessário gastar cinco, por exemplo, não gasto seis, nem duas
vezes cinco; assim também quando preciso escrever palavras em que usam letras dobradas, mas em
que uma delas é inútil, suprimo uma e digo: diminua-se com esta letra um inimigo do Império do
Brasil! Além disso, pergunto: que mulher veste dois vestidos, um por cima do outro!? Que homem,
duas calças!? Quem põe dois chapéus para cobrir uma só cabeça!? Quem usará ou que militar trará à
cinta duas espadas! Eis por que também muitas vezes eu deixo de escrever certas inutilidades! Bem
sei que a razão é - assim se escreve no Grego; no Latim, e em outras línguas de que tais palavras se
derivam; mas vocês que querem, se eu penso ser assim mais fácil e cômodo a todos!? Finalmente,
fixemos a nossa Língua; e não nos importemos com as origens!”

Esta amostra, pinçada quase aleatoriamente de algumas de suas peças, parece suficiente para o que
pretendíamos indicar, sendo interessante nomear alguns títulos de seus trabalhos, além dos acima
mencionados, que soam bastante peculiares para o contexto da época: “As relações naturais”, “Certa
identidade em busca de outra”, “Eu sou a vida, eu não sou a morte”.

A obra enciclopédica de QS alcança nove volumes na edição original impressa em sua gráfica,
chamando a atenção o fato de que todo o conjunto de seus textos teatrais foi escrito em apenas seis
meses do ano de 1866, período que é indicado como coincidente com o agravamento de seus sintomas
psíquicos.

Esta febre de escritura foi imediatamente patologizada pelo saber de então, sendo rotulada de
“grafomania”.

Foram precisos cem anos para que a obra tormentosa de QS emergisse novamente, voltando à cena
de modo instigante e pendente de novos olhares.

Fonte: http://www.revista.agulha.nom.br/ag44santo.htm

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O caso qorpo santo - escrita e loucura

  • 1. O caso Qorpo-Santo: escrita e loucura Alfredo Schechtman Michel Foucault, em sua monumental história da loucura, tem um conhecido enunciado que relaciona a loucura à não obra, à ausência e impossibilidade de obra. Esta assertiva tornou-se objeto de abordagem e crítica a partir de distintos prismas teóricos, envolvendo em seu debate, entre outros, filósofos, críticos literários e psicanalistas, e remetendo-nos à questão das raízes profundas da criatividade humana. O espaço da criação implica em buscar traduzir conteúdos, percepções e representações internas numa linguagem acessível ao Outro, negociação entre o estritamente subjetivo e sua conversão em símbolos articulados culturalmente. As vanguardas artísticas do início do século XX, a partir do dadaísmo e do surrealismo, aprofundaram e legitimaram esta relação entre o estritamente subjetivo, o mergulho nas brumas interiores do ser, muitas vezes de conteúdo hermético e cifrado simbolicamente, e sua circulação no meio social, no espaço ampliado da cultura. Interessa-nos, pois, neste ensaio, seguir abordando a relação entre literatura e loucura. Em texto anterior apresentamos alguns autores brasileiros que passaram pela experiência da internação psiquiátrica, e sobre a mesma refletiram de modo intenso. Todavia, naqueles escritos, a loucura, a vivência desta experiência singular, é narrada com um olhar racional, “exterior”, não são escritos “loucos”, cifrados à compreensão do Outro. Walter Benjamin, em resenha originalmente publicada em 1928, apresenta análise, sucinta mas penetrante, sobre as famosas memórias de Daniel Paul Schreber, e nos fala mais amplamente desta literatura da desrazão, da qual tinha ciência e pela qual manifestava vivo e continuado interesse. “A existência deste tipo de obras tem algo de surpreendente. Estamos habituados, apesar de tudo, a considerar o âmbito da escritura como algo superior e seguro, de tal maneira que a emergência da loucura, que aqui aparece sigilosamente, assusta mais.” Tais textos foram, em sua maioria, preservados quase anonimamente, graças ao empenho de registro pelos próprios autores, os quais quase sempre custearam integralmente as edições de suas obras, à margem do sistema editorial dominante. No caso brasileiro, o encontro de tais registros é raro, não apenas pela nossa relativamente escassa familiaridade com o universo da escrita, em uma cultura de viés predominantemente oral, mas também pela precária conservação de nossa memória histórica e cultural. Assim, é como exceção notável que foi possível resgatar e revalorizar a obra textual de um autor gaúcho do século XIX (1829-1883), José Joaquim de Campos Leão, nome ao qual o próprio autor acrescentou a alcunha de Qorpo-Santo (QS). Foram necessários quase cem anos, a partir da publicação original de seus textos, para sua redescoberta, na década de 1960. A partir daí, assistimos a uma nova abordagem da vida e da obra de QS, entre autores da crítica literária e teatral brasileira que voltaram suas lentes para esta escrita singular. Alguns críticos, destacando-se o editor de seu teatro completo, Guilhermino César, buscaram situá-lo entre os precursores de modernas tendências da arte teatral, como o teatro do Absurdo, pretendendo atribuir-lhe a paternidade desta moderna corrente teatral. Já Eudinyr Fraga, em trabalho dos anos 80, defende que QS seja enquadrado como autor surrealista, por fazer uso constante em seu texto do ‘automatismo psíquico’, que caracterizaria aquela corrente estética.
  • 2. “Suas personagens são sempre projeção dele próprio, e com ele muitas vezes se confundem, como observamos pelo conhecimento de sua biografia. Inclusive, deixam a categoria de personagens e assumem um tom discursivo, lamentando as infelicidades e as injustiças sofridas pelo criador. Por outro lado, não tem preocupações estéticas. Suas lamúrias estão sempre a um nível existencial, ou melhor, individual. Sua obra visa satisfazer ‘uma necessidade interior que a expressão determina’.” Entre os autores que estudaram QS, a análise mais profunda segue sendo a realizada por Flávio Aguiar, ainda na década de 70, em “Os Homens Precários”, resultado de sua tese de mestrado em literatura. Na mesma, Aguiar analisa em detalhe o teatro de QS, e foge argutamente à discussão sobre ser QS o precursor não reconhecido de modernas tendências do teatro moderno. Para Aguiar, QS constrói um teatro da paralisia, em que o pano de fundo da moralidade vigente é antagonizado pelo desenrolar dos acontecimentos, em atropelo da possível lógica de seus enredos. “Nas peças de Qorpo Santo o desenrolar dos acontecimentos (o ritmo do tempo) é caótico demais para que dele possa nascer, ‘espontaneamente’, qualquer conclusão lógica”. Interessa-nos aqui ressaltar que, à exceção destes dois autores citados imediatamente acima, que ao menos tangenciaram o tema, é perceptível a ausência de uma reflexão sobre a questão da loucura, sobre os limites da normalidade psíquica, no universo textual deste autor. E, no entanto, a desrazão se faz presente no cerne de sua escritura, nas nervuras de seu texto. Assim, buscando suprir ainda que parcialmente esta lacuna, apresentamos a seguir um breve resumo de sua vida e obra, destacando alguns fragmentos de suas peças teatrais que apontam para a presença de conteúdos extremamente pessoais, que parecem como que invadir a cena e o espaço literário, numa freqüência pouco usual nos textos da maioria de seus contemporâneos. José Joaquim Leão, natural da Vila do Triunfo, interior do Rio Grande do Sul, vai para Porto alegre em 1840, já órfão de pai, para estudar gramática e conseguir emprego naquela capital, habilitando-se ao exercício do magistério público, que passa a exercer a partir de 1851. Em 1855, casa-se e, em 1857, muda-se com a família para Alegrete, cidade na qual funda um colégio, adquirindo respeitabilidade como figura pública, escrevendo para jornais locais e ocupando ainda cargos públicos de delegado de polícia e vereador. Em 1861, de volta a Porto Alegre, segue a carreira de professor e começa a escrever sua “Ensiqlopédia ou seis mezes de huma enfermidade”. Parecem manifestar-se neste momento os primeiros sinais de seus transtornos psíquicos, rotulados então sob o diagnóstico de “monomania”, sendo afastado do ensino e interditado judicialmente a pedido da própria família. QS não aceita pacificamente este seu enquadramento psiquiátrico, recorrendo ao Rio de Janeiro, sendo examinado então por médicos daquela capital, que diferem do diagnóstico inicial e não endossam sua interdição judicial. Todavia, o estigma estava posto, e nosso autor se vê cada vez mais isolado. Este isolamento social parece incitá-lo a escrever febrilmente, e o leva ademais a constituir sua própria gráfica, na qual viabiliza e edita sua produção textual. Vale a pena, neste ponto de nosso percurso, a leitura de crônica de contemporâneo seu, transcrita por Flávio Aguiar, que traça retrato humano de nosso personagem. “Chamava-se José Joaquim Leão do Corpo Santo. Era alto, magro, moreno, de uma palidez de morte. Usava a cabeleira comprida como os velhos artistas da Renascença. Trajava calças brancas, sobrecasaca preta, toda abotoada como uma farda, bengala grossa para afugentar os cães e chapéu alto de seda lustroso. Andava sempre, na rua, apressado como se fosse tirar o pai da forca.
  • 3. Fora muitos anos mestre-escola da roça, mas com certo preparo não vulgar, que o punha em destaque. (…) Quando a luz da razão se apagou no seu cérebro, tornou-se então tristonho, taciturno, fugindo da convivência dos mais. Sentia-se bem só, na solidão, a fumar o seu cigarro de palha, com fumo crioulo. E passava assim horas e horas, completamente estranho a tudo que o cercava, na indiferença da sua grande desgraça.” Mas sigamos e adentremos um pouco em seu singular universo textual, transcrevendo extensivamente alguns trechos de “Hoje sou um; amanhã outro”, ilustrativos desta transposição quase literal de traços biográficos do autor para o enredo de ficção. “O REI - da descoberta, que tanto ilustra, moraliza e felicita - honrando!? Mas quem foi no Império do Brasil o autor MINISTRO - Um homem, Senhor, predestinado sem dúvida pelo Onipotente para derramar esta luz divina por todos os habitantes do Globo que habitamos. O REI - Mas quais os seus princípios, ou os de sua vida? MINISTRO - É filho de um professor de primeiras letras; seguiu por algum tempo o comércio; estudou depois, e seguiu por alguns anos a profissão de seu Pai, roubado-lhe pela morte, quando contava apenas de 9 a 10 anos de idade. Durante o tempo do seu magistério, empregou~se sempre no estudo da História Universal; da Geografia; da Filosofia, da Retórica - e de todas as outras ciências e artes que o podiam ilustrar. Estudou também um pouco de Francês, e do Inglês; não tendo podido estudar também - Latim, conquanto a isso desse começo, por causa de uma enfermidade que em seus princípios o assaltou. Lia constantemente as melhores produções dos Poetas mais célebres de todos os tempos; dos Oradores mais profundos; dos Filósofos mais sábios e dos Retóricos mais brilhantes ou distintos pela escolha de suas belezas, de suas figuras oratórias! Foi esta a sua vida até a idade de trinta anos. O REI - E nessa idade o que aconteceu? Pelo que dizes reconheço que não é um homem vulgar. MINISTRO - Nessa idade, informam-me... isto é, deixou o exercício do Magistério para começar a produzir de todos os modos; e a profetizar! O REI - Então também foi ou é profeta!? MINISTRO - Sim, Senhor. Tudo quanto disse que havia acontecer, tem acontecido; e se espera que acontecerá! O REI - Como se chama esse homem!? MINISTRO - Ainda não vos disse, Senhor, - que esse homem viveu em um retiro por espaço de um ano ou mais, onde produziu numerosos trabalhos sobre todas as ciências, compondo uma obra de mais de 400 páginas em quarto, a que denomina E... ou E... de. .. E aí acrescentam que tomou o titulo de Dr. C... s.... - por não poder usar o nome de que usava - Q... L..., ou J... J... de Q. .. L..., ao interpretar diversos tópicos do Novo Testamento de N. s. Jesus Cristo, que até aos próprios Padres ou sacerdotes pareciam contraditórios! O REI - Estou espantado de tão importante revelação! MINISTRO - Ainda não é tudo, Senhor: Esse homem era durante esse tempo de jejum, estudo, e oração - alimentado pelos Reis do Universo, com exceção dos de palha! A sua cabeça era como um centro, donde saíam pensamentos, que voavam às dos Reis de que se alimentava, e destes recebia outros. Era como o coração do mundo, espalhando sangue por todas as suas veias, e assim alimentando-o e fortificando-o, e refluindo quando necessário a seu centro! Assim como acontece a respeito do coração humano, e do corpo em que se acha. Assim é que tem podido levar a todo o mundo habitado sem auxílio de tipo - tudo quanto há querido!
  • 4. O REI - Cada vez fico mais espantado com o que ouço de teus lábios! MINISTRO - É verdade quanto vos refiro! Não vos minto! E ainda não é tudo: esse homem tem composto, e continua a compor, numerosas obras: Tragédias; Comédias; poesias sobre todo e qualquer assunto; finalmente, bem se pode dizer - que é um desses raros talentos que só se admiram de séculos em séculos! O REI - Poderíamos obter um retrato desse ente a meu ver tão grande ou maior que o próprio Jesus Cristo!? MINISTRO - Eu não possuo algum; mas pode se encomendar ao nosso Cônsul na cidade de Porto Alegre, capital da Província de São Pedro do Sul, em que tem habitado, e creio que ainda vive. O REI - Pois serás já quem fará essa encomenda! MINISTRO - Aqui mesmo na presença de V . M. o farei. (Chega-se a uma mesa, pega em uma pena e papel, e escreve:) "Sr. Cônsul de... De ordem de Nosso Monarca, tenho a determinar a V. Sa. que no primeiro correio envie a esta Corte um retrato do Dr. Q... S..., do maior tamanho, e mais perfeito que houver. Sendo indiferente o preço. O Primeiro Ministro DOUTOR SÁ E BRITO" Corte de..., maio 9 de 1866.” Da mesma maneira, em “O Parto”, vislumbra-se de imediato esta presença do fator biográfico mesclado ao entrecho textual. “RUIBARBO - Sim; sim. Vão indo; eu lá irei logo! (Saem.) Estes meus colegas são o diabo em figura de homens, ou de rapazes! Tudo desarrumam! É preciso uma... não: paciência de Jó, ou de algum outro Santo para aturá-los! Enfim, (depois de todo o quarto arrumado) é preciso aturá-los! É melhor que andar com eles aos tombos, puxões ou cabeçadas. (Pega em um livro.) São horas, vou às minhas lições de Retórica! E logo continuarei a escrever a minha encantadora comédia - a Ilustríssima Senhora Dona Anália de Campos Leão Carolina dos Santos Beltrão Josefina Maria Leitão História das Dores Patão, ou Bulhão, etc. etc. Dizem os médicos, e confirmam os lógicos: As cousas que têm de trabalhar, apertadas, não poderão fazer tão bom serviço como - desembaraçadas; e eu o creio pia e firmemente. Exemplifiquemos com os próprios homens e seus órgãos. Suponha-se que estão a trabalhar em uma sala vinte pessoas, e que na mesma não o podem fazer livre ou desembaraçadamente mais que dez ou doze. Pergunto: seu serviço, obra, ou trabalho, sairá tão perfeito, como se trabalhassem aqueles que - bem - só o podiam fazer? É de crer que não. Outro: Temos órgãos - da vista, do ouvido, do olfato, que por certo oprimidos, ninguém dirá que - bem funcionam. Assim pois devem ser os do nosso estômago, intestinos, etc. Apertados, não poderão funcionar, transformar ou digerir os alimentos ou cousas de que nos alimentamos, com aquela facilidade com que o fazem ou devem fazer não opressos ou desembaraçados. Se aperto os meus dedos, não posso escrever, nem com a mão cousa alguma fazer! Se porém esta está desembaraçada, com ela faço o que quero, ou o que posso. Logo - não convém a opressão; se se quer trabalho abundante e perfeito! RUIBARBO - Eu me explico: Quando escrevo, penso, e procuro conhecer o que é necessário, e o que não é; e assim como, quando me é necessário gastar cinco, por exemplo, não gasto seis, nem duas vezes cinco; assim também quando preciso escrever palavras em que usam letras dobradas, mas em que uma delas é inútil, suprimo uma e digo: diminua-se com esta letra um inimigo do Império do Brasil! Além disso, pergunto: que mulher veste dois vestidos, um por cima do outro!? Que homem,
  • 5. duas calças!? Quem põe dois chapéus para cobrir uma só cabeça!? Quem usará ou que militar trará à cinta duas espadas! Eis por que também muitas vezes eu deixo de escrever certas inutilidades! Bem sei que a razão é - assim se escreve no Grego; no Latim, e em outras línguas de que tais palavras se derivam; mas vocês que querem, se eu penso ser assim mais fácil e cômodo a todos!? Finalmente, fixemos a nossa Língua; e não nos importemos com as origens!” Esta amostra, pinçada quase aleatoriamente de algumas de suas peças, parece suficiente para o que pretendíamos indicar, sendo interessante nomear alguns títulos de seus trabalhos, além dos acima mencionados, que soam bastante peculiares para o contexto da época: “As relações naturais”, “Certa identidade em busca de outra”, “Eu sou a vida, eu não sou a morte”. A obra enciclopédica de QS alcança nove volumes na edição original impressa em sua gráfica, chamando a atenção o fato de que todo o conjunto de seus textos teatrais foi escrito em apenas seis meses do ano de 1866, período que é indicado como coincidente com o agravamento de seus sintomas psíquicos. Esta febre de escritura foi imediatamente patologizada pelo saber de então, sendo rotulada de “grafomania”. Foram precisos cem anos para que a obra tormentosa de QS emergisse novamente, voltando à cena de modo instigante e pendente de novos olhares. Fonte: http://www.revista.agulha.nom.br/ag44santo.htm