DOSSIÊ             DESERTO VERDE        O Latifúndio do Eucalipto                                                Março 200...
A Insustentável Produtividade da Celulose       A verdadeira selvageria – utilizar extensões de terra para uma monocultura...
para cada). A Veracel já tem 70 mil hectares de eucalipto plantado no sul da Bahiae seu complexo industrial fabril, com en...
Em um ato visto como selvageria pelos defensores dessas “terrasprodutivas”, as três mil e quinhentas famílias que invadira...
Conforme o relatório do terceiro trimestre de 2005, a Aracruz produziu no trimestre688 mil toneladas de celulose, já inclu...
Ripasa S.A. Celulose e Papel, cujos resultados foram contabilizados viaequivalência patrimonial.Os volumes totais de venda...
ambiental para a implantação de uma unidade de produção de celulose na MetadeSul do Estado, cujo processo pode levar até d...
As empresas na sua maioria são verticalizadas, integrando todas as etapas doprocesso produtivo, desde a base florestal, in...
pampa Uruguaio e Argentino, bem como o Sul do Chile, formando no Cone Sul daAmérica do Sul um grande pólo florestal pelas ...
(projetados para os próximos 5 anos), chegaremos a 560 mil hectares. Entretantoo professor Carlos Nabinger da UFRGS, estim...
degradação da fertilidade dos solos, exigindo grandes investimentos derecuperação posterior à colheita e compactação pelo ...
8. O plantio de culturas anuais em consórcio, com o eucalipto, apregoado      pelas empresas, só é possível nos dois prime...
Mas o modelo das plantações também está sendo expandido cada vez mais como“sumidouro de carbono”.Frente ao efeitos globais...
4. A geopolítica das empresas papeleiras é um projeto de controle a longoprazoÉ preciso considerar a expansão das plantaçõ...
seria “do bem” e a Stora Enzo “do mal” porque é estrangeira, isso também porquea Aracruz planta eucaliptus e a outra major...
Colorado e Frente Amplo, que é sua base de apoio - e disse, mais de uma vez,através de seus ministros, que não desistirá d...
Internauta: Professor, que outras culturas são adequadas para a Metade Sul?Ludwig Buckup: Aquelas que se ajustam à vocação...
pecuária que teriam baixo impacto ambiental e garantiriam mais rendapara os pecuaristas. Esta seria uma saída para a Regiã...
Ludwig Buckup: Plante 700 eucaliptos por hectare, então você vai ver quedá muito mais do que 25 mil hectares.Internauta: O...
havendo quase nenhuma humificação das agulhas no solo e sem qualquersub-bosque herbáceo ou arbustivo, entende-se que pouqu...
reforma agrária e que ameaça sítios arqueológicos, principalmente de fósseisindígenas bastante comuns na metade sul, fatos...
Atlântica” o que é uma piada de mau gosto, quando se trata de uma empresa queacabou com milhares de hectares da mesma mata...
celulose, atingindo diversos ecossistemas e populações de nosso território,   empobrecendo nossa diversidade biológica, so...
têm aprofundado as desigualdades socioambientais. O modelo por inteiro estácomprometido com a lógica excludente do latifún...
10 mil famílias. Hoje restaram 35 comunidades, com cerca de 1.300 famílias.       A chegada da Aracruz ao Espírito Santo, ...
Número       deCB                    SMfamiliaresUma pessoa     57,9                  65,4Duas pessoas 27,0               ...
Neste Programa, o pequeno produtor recebe da Aracruz as mudas e tem acompra da madeira assegurada a um preço muito menor (...
Norte: as Comunidades Negras Rurais dos Municípios de Conceição da Barra e São Mateus(ES)", Programa Egbé - Territórios Ne...
da fábrica. Mas a administração disse que a água preta não significava poluição “ocafé também é preto”, eles disseram. Mas...
Redes trabalhando nessa questão:- Greenpeace International, Greenpeace Australia (vieram para coletar amostras).- Walhi (r...
1. Somos contra o domínio autoritário de empresas multinacionais e as políticas    dos bancos e instituições internacionai...
7. Políticas públicas voltadas ao campo: saúde, previdência, crédito, seguro,    transportes, estradas, lazer, moradia, sa...
a humanidade e para o planeta, a plantação de eucaliptos e a estratégia daAracruz Celulose.       De acordo com dados forn...
Efeitos do eucalipto 2
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  1. 1. DOSSIÊ DESERTO VERDE O Latifúndio do Eucalipto Março 2006Texto compilado pelo Gabinete Frei Sérgio – PT/RS
  2. 2. A Insustentável Produtividade da Celulose A verdadeira selvageria – utilizar extensões de terra para uma monoculturaque agride o país ambientalmente, gera lucros para uma minoria e em nadacontribui para combater a desigualdade social – ainda não foi percebida pela “elitepensante”. “Os inconformistas quase nunca tem razão nos precisos termos em que semanifestam. Mas, quase sempre tem razão na identificação do problema que osinconforma e no sentido geral da solução que eventualmente lhe será dada. Aosinconformistas só a história, nunca os contemporâneos, pode dar razão”.(Boaventura de Souza Santos) No calor do abril vermelho, nenhuma outra ação patrocinada pelasorganizações do movimento sem terra provocou tanta indignação na “elitepensante” brasileira quanto as invasões das plantações de celulose de mega-empresas como a Klabin e a Veracel (leia-se Aracruz Celulose) em Santa Catarinae na Bahia. “Sem terra agora invadem terras produtivas”, apressarem-se aalardear, quase agradecidas pela munição que lhes era oferecida, as manchetes echamadas dos principais jornais e telejornais brasileiros. Afinal de contas, nãoseria mesmo indefensável a ocupação de terras de empresas rentáveis, queempregam mão-de-obra nacional e pagam (quase sempre) em dia seus impostos?O senso comum – e disso se aproveitaram alguns respeitáveis colunistas deeconomia – parece dizer que sim. Entretanto, uma análise mais próxima impõe oseguinte questionamento: “Sim, a terra é produtiva. Mas, produtiva para quem,cara pálida?”. Neste artigo, vamos utilizar o exemplo da Aracruz (a Klabin fica para umasegunda oportunidade). A Aracruz Celulose é uma empresa transnacionalcontrolada pelos grupos Lorentzen, da família real norueguesa, Safra e Votorantin,com cada um possuindo 28% do capital votante. A empresa se instalou no EspíritoSanto há 35 anos e hoje é a líder mundial da produção de polpa branca decelulose de eucalipto, respondendo por 31% da oferta do produto em todo oplaneta. Das primeiras terras adquiridas no Brasil, no município de Aracruz, eladeu um salto e possui hoje 247 mil hectares plantados com eucalipto nos estadosdo Espírito Santo, Bahia, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. Sua capacidadenominal de produção no Brasil é de 2,4 milhões de toneladas de polpa de celulosepor ano. Apenas a unidade de Barra do Riacho (ES), onde existem três fábricas decelulose, é responsável pela produção de 2 milhões de tonelada/ano. O detalhe é que cerca de 95% da polpa de celulose produzida no Brasil édestinada ao mercado externo, sobretudo para a União Européia e os EstadosUnidos. Nesses lugares, cerca de 80% a polpa importada do Brasil é transformadaem papel higiênico e lenços de nariz. O retorno financeiro para a Aracruz é muitoalto: em 2003, a empresa registrou um lucro líquido de R$ 870 milhões, o maiordesde sua criação. Com o beneplácito do BNDES no governo de FernandoHenrique Cardoso – em 2002 o banco injetou R$ 840 milhões na construção deuma nova fábrica – a Aracruz foi a empresa que teve maior aumento nos ganhosem 2003 se comparado ao ano anterior, obtendo um aumento de 7.000%. Atualmente, a menina dos olhos da Aracruz é a Veracel Celulose, empresacriada em sociedade com outra gigante do setor, a Stora Enso (50% do capital 2
  3. 3. para cada). A Veracel já tem 70 mil hectares de eucalipto plantado no sul da Bahiae seu complexo industrial fabril, com entrada em operação prevista para 2005,será capaz de produzir 900 mil toneladas de celulose por ano. Como se vê, é muita riqueza, e é isso que parece entusiasmar osdefensores das “terras produtivas” da Veracel/Aracruz na grande imprensa. Oproblema é que essa riqueza é distribuída, sim, entre as poucas famíliasacionistas da empresa e não para “a sociedade brasileira” como se quer fazercrer. Mesmo a propalada geração de empregos é um mito, como já comprovaramestudos realizados pela Universidade Federal do Espírito Santo e pela Federaçãode Órgãos para Assistência Social e Educacional (FASE) que demonstraram quea monocultura do eucalipto é altamente mecanizada em todas as suas fases edemanda pouca mão-de-obra nos locais onde está instalada. A Veracel, com todoo seu faturamento e gigantismo, promete gerar cerca de cinco mil empregosdiretos e indiretos no Brasil, sem especificar por quanto tempo, ao passo que odesenvolvimento de um programa de agricultura familiar variada pode gerar até 30postos de trabalho permanente por hectare. Ao contrário, a monocultura doeucalipto expulsa o trabalhador do campo, como nos mostra o exemplo de Vitória.Antes da Aracruz, a capital abrigava 15% da população capixaba, atualmenteabriga 50%. Existem ainda os prismas histórico e ambiental. Sob o primeiro, é difícilnegar – mesmo para os inebriados acionistas da empresa que se esbaldam nasfestas de São Paulo – que a consolidação da Aracruz Celulose no Brasil seconfunde com o deslocamento forçado, a repressão e o assassinato de indígenas,quilombolas e outras populações tradicionais em Minas, na Bahia e, sobretudo, noEspírito Santo. Para lutar contra os danos que a monocultura do eucalipto causaao meio ambiente, mais de cem organizações ambientalistas brasileiras criaram aRede Deserto Verde, para evitar a continuidade da compra de terras pela Aracruzno Brasil. Além da evidente perda da biodiversidade provocada pela monocultura,o eucalipto é acusado de exaurir os lençóis de água subterrâneos num curtoespaço de tempo. A última novidade surgida sobre o impacto ambiental das atividades daAracruz foi revelada em estudo da FASE publicado em março deste ano, apósseis meses de análise dos rios Sahy, Guaxindiba e Doce, localizados em reservasindígenas Tupiniquim e Guarani no norte do Espírito Santo. De acordo com aanálise, a empresa estaria se apropriando da maioria dos recursos hídricos daregião e deixando as aldeias sem água. Após adquirir 90% das terras em tornodas fontes de recursos hídricos, a Aracruz consome por dia, sem pagar nada porisso, o equivalente ao consumo de 2,5 milhões de pessoas, o que representaquase a população de todo o Estado. Ciente dessas informações, somente por má vontade alguém pode querercriminalizar os sem terra por invadir as “terras produtivas” da celulose, sejam elaspertencentes a Veracel/Aracruz ou a Klabin. O fato é que, enquanto milhões debrasileiros ainda passam fome no campo, esse setor, por mais que queira setravestir de moderno e gerador de divisas, nos revela a face (talvez a cara de pau,se me permitem o trocadilho) de um capitalismo excludente para o povo e inseridonuma lógica mundial onde o Brasil ainda é um quintal produtor de matérias primasou secundárias para atender as metrópoles. 3
  4. 4. Em um ato visto como selvageria pelos defensores dessas “terrasprodutivas”, as três mil e quinhentas famílias que invadiram a fazenda da Veracelem Porto Seguro derrubaram 25 hectares de eucalipto e, em seu lugar, plantarammilho e feijão. A verdadeira selvageria – utilizar largas extensões de terra boa parauma monocultura que agride o país social e ambientalmente, gera lucrosindecentes para uma minoria e em nada contribui para que seja combatida nossaterrível desigualdade social – ainda não foi percebida pela “elite pensante”. Talveznão tenham entendido o que disse, na sua sabedoria, o trabalhador rural flagradopelas câmeras de televisão em terras da Veracel: “Estamos com fome, uai,eucalipto não se come!”. * Maurício Thuswohl é editor de Meio Ambiente da Agência Carta Maior. Monocultivo de Árvores, Papel e Celulose na Metade Sul do RSI - INTRODUÇÃODada a complexidade do tema que envolve o plantio de monocultivos de árvoresna metade Sul do Estado, basicamente para a produção de celulose destinada àexportação, com repercussões econômicas, sociais, culturais, ambientais epolíticas, faz-se necessário um debate técnico e político, para construirmos umaopinião política e uma estratégia de logo prazo acerca destes projetos.Apresento a seguir um conjunto de informações sobre as empresa, potenciaisproblemas ambientais e algumas idéias básicas de possíveis medidascompensatórias para a agricultura familiar, envolvida nas cadeias tradicionais daregião.II - AS EMPRESAS1 - Aracruz Celulose S.A.Atualmente a Aracruz é a maior produtora de celulose branqueada de eucalipto nomundo. Em 2004, a companhia produziu 2,4 milhões de toneladas de celulose,sendo que 97% foi exportada. A Aracruz utiliza exclusivamente plantio deeucalipto para produzir celulose de fibra curta de alta qualidade para produzir umgrande número de produtos de alta qualidade, como papel para imprimir eescrever, todos de alto valor agregado.A Aracruz, em associação com Weyerhauser, também produz madeira serrada,através de sua unidade fabril no Estado da Bahia.A Aracruz possui 252 mil hectares de plantação de eucaliptos nos Estados deMinas Gerais, Bahia, Rio Grande do Sul e Espirito Santo, alem de 71 mil hectaresde árvores de eucaliptos plantados e manejados por agricultores. 4
  5. 5. Conforme o relatório do terceiro trimestre de 2005, a Aracruz produziu no trimestre688 mil toneladas de celulose, já incluído a participação de 50% na VERACEL, ouseja, 18% acima do mesmo trimestre de 2004. A produção acumulada de janeiro asetembro de 2005 soma 2,027 milhões de toneladas, ou seja, 10% superior aomesmo período de 2004. VERACEL produziu, no terceiro trimestre de 2005, 174 mil toneladas de celulose,das quais, 87 mil toneladas corresponde à participação da Aracruz na VERACEL.As vendas no trimestre foram de 650 mil toneladas, 3% a mais do que o mesmotrimestre de ano anterior.O lucro liquido do terceiro trimestre foi de R$ 296,8 milhões, inferior aos R$ 368,2milhões do mesmo trimestre de 2004. Já o lucro liquido de janeiro a setembro de2005 soma R$ 990,5 milhões.A Unidade de Guaíba (RS), no terceiro trimestre, teve uma produção de papel de14 mil toneladas, que representa o consumo de 12 mil toneladas de celulose, aquiproduzidas.Os investimentos na unidade de Guaíba somam R$ 100 milhões, sendo R$ 42,1milhões só no terceiro trimestre. Estão previstos ainda mais R$ 12 milhões para oquarto trimestre de 2005. Recursos destinados à otimização e modernização daindustria. Também estão sendo investidos R$ 50 milhões em melhorias eexpansão florestal.Até março de 2006, a empresa quer ampliar sua capacidade instalada das atuais400 mil toneladas para 430 mil toneladas ano de celulose branqueada de eucaliptona unidade de Guaíba. Até 2007, a fazenda Barba Negra, em Barra do Ribeiro(RS), vai aumentar a produção de mudas de eucalipto dos atuais 10 milhões para30 milhões de mudas de eucalipto por ano. Provavelmente, será este o viveiro quefornecerá as mudas para a Stora Enso em sua fase inicial de plantio no Estado,parceira da Aracruz na VERACEL.O preço líquido médio da celulose vendida diretamente pela Aracruz foi de R$1.194/t, no terceiro trimestre, 11% menor que o recebido no mesmo período de2004.As dívidas da Aracruz em 30/09/05 eram de R$ 3.989,9 bilhões, detendo umadisponibilidade de caixa na oportunidade de R$ 1.420,1 bilhões. Do total da dívida,R$ 3.037 bilhões (77%) eram em moeda estrangeira, com juro fixo de 6,3% a.a. eR$ 904 milhões (27%) em moeda nacional, com juros fixos de 11,8% a.a. Asdívidas em moeda nacional são todas de empréstimo do BNDES (Banco Nacionalde Desenvolvimento Econômico e Social).A Aracruz, pelos dados de 30/12/2004, é proprietária de 56,2 mil hectares de terrano Rio Grande do Sul, dos quais 42 mil hectares estão plantados com eucalipto eem parceria com os agricultores 400 hectares.2 - Votarantim Celulose e Papel - VCPO relatório do terceiro trimestre de 2005 traz as informações operacionais efinanceiras da empresa apresentadas em reais, porém sem incluir asconsolidações proporcionais (12,4%) da Aracruz Celulose S.A. e (23,0%) da 5
  6. 6. Ripasa S.A. Celulose e Papel, cujos resultados foram contabilizados viaequivalência patrimonial.Os volumes totais de vendas de celulose e papel no terceiro trimestre somaram378 mil toneladas, 19% superior ao mesmo trimestre de 2004, principalmente emfunção do aumento das exportações (40%) de celulose. O lucro líquido do terceirotrimestre de 2005 foi de R$ 114 milhões.A Divida Bruta em 30/09/2005 é de R$ 3.116 bilhões, porém com umaDisponibilidade em Caixa de R$ 1.290 bilhões, portanto com uma Dívida Líquidade R$ 1.826 bilhões, sendo 86% em dólares e 14% em reais. A dívida em reaisinclui empréstimos do BNDES.Segundo o relatório do terceiro trimestre de 2005, a Votorantim, pela primeira vez,fez um planejamento estratégico de longo prazo - 15 anos ou dois ciclos deeucalipto - com a criação da Visão VCP 2020.A partir de seu planejamento estratégico de possibilitar seu crescimento futuro naprodução de celulose, foram aprovados fortes investimentos na área florestal,incluindo a aquisição de terras e o plantio de eucalipto no Estado de São Paulo,em regiões próximas às fábricas, e a implantação de uma nova reserva florestalda VCP no Sul do Estado do Rio Grande do Sul (podendo eventualmente incluiro norte do Uruguai), com a compra já efetuada de 66 mil hectares de terras. Alemdisso, já estão previstos novos investimentos visando a uma otimização daunidade de Jacareí, o que deve possibilitar que sua capacidade anual alcance 1,1milhão de toneladas de celulose até 2007.Desta forma, fica evidente que a vinda da VCP para o Rio Grande do Sul não éobra do Governador Germano Rigotto, mais sim de uma estratégia de longo prazoda empresa.A VCP comercializa seus produtos no mercado interno e exporta para mais de 55países, nos cinco continentes.A estratégia no RSA VCP já adquiriu 66 mil hectares em 14 municípios da Metade Sul do Estado. Opólo do monocultivo de árvores e a unidade industrial da VCP irão se localizar noeixo Rio Grande - Pelotas - Arroio Grande, expandindo-se até Bagé.A projeção da empresa é de produção de 3 milhões de metros cúbicos de madeiraem 2011 e de 4,2 milhões em 2012. Para atingir esta meta, é projetado o plantiode 100 mil hectares de eucalipto até 2011, sendo que deste total 30% deve terorigem na produção de terceiros, através do programa lançado pela empresa de"Poupança Florestal".No ano de 2004 já haviam sido plantadas em terras próprias 11 mil hectares euma projeção de plantar mais 15 mil hectares em 2005. Através da "PoupançaFlorestal" haviam sido plantadas em 2004 500 mil mudas de nativas e 25 milhõesde mudas de eucalipto.Dos 4 mil agricultores inscritos no "Poupança Florestal", 400 foram selecionados,o que resultou em 130 programas implementados. A empresa projeta uma áreatotal de 5 mil hectares até o final de 2005.No dia 03 de novembro de 2005 o presidente da VCP José Luciano Penido, juntocom o governador Rigotto, anunciou o início do processo de licenciamento sócio- 6
  7. 7. ambiental para a implantação de uma unidade de produção de celulose na MetadeSul do Estado, cujo processo pode levar até dois anos.Segundo a empresa será um investimento de 1,3 bilhões de dólares, com umacapacidade estimada de produzir um milhão de toneladas de celulose por ano,destinada à exportação pelo porto de Rio Grande, para a Europa, Ásia e EstadosUnidos.A empresa projeta a criação de 8 mil postos de trabalho durante a implantação dafábrica e, a partir da sua operação, haverá a oferta de mais dois mil.Segundo a VCP, até o final de 2005 serão investidos R$ 310 milhões na aquisiçãode terras, na contratação e treinamento de pessoal para a construção do maiorviveiro coberto do país.3 - Stora EnsoA empresa sueco-finlandesa é uma das líderes mundiais na produção ecomercialização de papel, celulose (produtos florestais). O faturamento foi de 12,4bilhões de Euros em 2004. A Stora Enso emprega cerca de 45 mil pessoas, emmais de 40 países, nos cinco continentes.Sua capacidade anual de produção é de 16,4 milhões de toneladas de papel epapelão, 7,7 milhões de metros cúbicos de madeira cerrada, incluindo 3,2 milhõesde metros cúbicos de produtos com alto valor agregado.A empresa tem manifestado a intenção de construir uma fábrica de celulose noUruguai e/ou na Metade Sul do Rio Grande do Sul. O senhor Nils Grafstrom,presidente da empresa para a América Latina, diz que a obra está avaliada em 1bilhão de dólares e deve iniciar em cinco anos, estando pronta para operar em 7anos, quando o primeiro ciclo de eucaliptos estiver prontos para ser cortado.A fabrica deverá ser instalada junto à base florestal e perto de um rio de grandevazão, por exemplo, o Ibicuí, porém, descartando o rio Uruguai. O projeto seráparecido com o da VERACEL no Sul da Bahia, onde foram investidos US$ 1,2bilhões em parceria com a Aracruz Celulose, cuja capacidade é para produzir 900mil toneladas de celulose por ano.A participação acionária na VERACEL, é de 50% da Aracruz e 50% da StoraEnso. A VERACEL é o primeiro grande investimento do Stora Enso no Brasil.Segundo a empresa a escolha desta região para seus futuros investimentos deu-se em função do clima favorável para o crescimento do eucalipto.A região escolhida para seus investimentos envolve os municípios de Alegrete,Cacequi, Maçambará, Manuel Viana, Rosário do Sul, Santiago, São francisco deAssis e Unistalda.Segundo a empresa serão investidos US$ 50 milhões no ano de 2005, para acompra de 50 mil hectares de terra destinados ao plantio de eucalipto e pínus, já apartir de 2006. A empresa estima consumir US$ 250 milhões de dólares emflorestamento (entre compra de terras, instalação de viveiro e plantio doeucaliptos).O fornecimento de mudas até 2007, será feito por terceiros, quando então estaráconstruído o viveiro próprio. A meta da Stora Enso é plantar 100 mil hectares deeucalipto e pínus, sendo que 20% será em parceria com terceiros a nível local.III - AS ESTRATÉGIAS MACROECONÔMICAS DAS EMPRESAS: 7
  8. 8. As empresas na sua maioria são verticalizadas, integrando todas as etapas doprocesso produtivo, desde a base florestal, industrialização e comercialização depapel e produtos derivados.De forma geral, três quartos da celulose produzida a partir da madeira éprocessada dentro da indústria e destinada à produção de papel. Da celulose seextraem dois grandes grupos de produtos, a celulose de fibra longa de altaresistência mecânica para a produção de embalagens e a celulose de fibra curtadestinada à produção de papel para imprimir e escrever.No mercado mundial, 44% é de pasta de celulose de fibra longa e 42% de fibracurta. Esta relação poderá se alterar rapidamente em função do avançotecnológico, novos usos da fibra curta de eucalipto, os menores custos naprodução de fibra curta de eucalipto, o preço superior na produção da fibra longa eas restrições de retirada de madeira das florestas americanas, tem impulsionadoos investimentos das empresas para a produção de fibra curta.As vantagens comparativas na base florestal e para a produção de pasta decelulose no hemisfério Sul, principalmente as condições climáticas com ciclo decorte de 5 a 7 anos para as árvores de eucalipto, inferior as do hemisfério Norteque varia de 25 a 35 anos para o pínus e menor valor das terras para o plantio. OBrasil tem ainda acúmulo tecnológico em manejo de florestas plantadas.As vantagens competitivas do hemisfério Sul levaram ao fechamento de muitasempresas no hemisfério Norte, transferindo seus ativos para o Sul, comprandoempresas aqui ou fazendo parcerias (VERACEL).O Brasil é responsável por 18% da produção mundial de fibra curta branqueada deeucalipto, sendo desta forma, o maior produtor mundial. Em 2002, os dez maioresprodutores de celulose eram Estados Unidos (29%), Canadá (14%), China (9%),Finlândia, Suécia e Japão (6%), Brasil e Rússia (4%), Indonésia (3%) e Chile(1%).O setor de papel e celulose no Brasil é constituído de 220 empresas, comprodução estimada em 2004 de 9,5 milhões de toneladas de celulose e 8,2milhões de toneladas de papel.Todos os indicadores apontam para um cenário de crescimento positivo em tornodo mercado de celulose, de no mínimo 2% ao ano, de forma firme, alem de estarassociado ao crescimento do PIB mundial, com preços estáveis, especialmente acelulose de eucalipto que continuará crescendo nos próximos anos em função dapopularização dos instrumentos de cópia e impressão disponibilizados pela era dainformática.A produção de papel para imprimir e escrever na Europa Ocidental durante osmeses de julho e agosto de 2005 ultrapassou os níveis de 2004 em 3,6% (203 miltoneladas). As vendas de celulose durante os meses de julho e agosto no EuropaOcidental cresceram 3,5% (209 mil toneladas) em comparação a 2004. No mesmoperíodo, as vendas de celulose de eucalipto alcançaram 1,4 milhões de toneladas,um aumento 7% (93 mil toneladas) em relação a 2004. As maiores perspectivasde crescimento do mercado mundial de celulose estão nos países asiáticos.Os grandes grupos econômicos nacionais e internacionais da cadeia florestal,pensando principalmente em grandes fábricas de celulose, especialmente deeucalipto, voltam-se para a metade sul do RS, mas também, articulando-se com o 8
  9. 9. pampa Uruguaio e Argentino, bem como o Sul do Chile, formando no Cone Sul daAmérica do Sul um grande pólo florestal pelas seguintes razões: - Vantagens comparativas em relação ao hemisfério Norte, já citadasanteriormente. - Mercado mundial de madeira e celulose (cadeia florestal) em expansão,apontando que nos próximos 50 anos, este marcado não sofrerá grandespercalços. - No caso do Brasil, estudos indicam que desde 2004 a demanda pormadeira é maior do que a oferta e esta situação poderá perdurar no mínimo até2020. - Infra-estrutura de estradas, portos, telecomunicações, mas principalmentepela existência de água abundante (Lagoa dos Patos, Mirim e rio Uruguai), exigidapelo processo de branqueamento do papel por cloro. - Condições favoráveis do terreno, permitindo uma mecanização completade todo o processo, bem como a existência de um pólo da indústria de máquinasagrícolas no RS. - Frente à situação de estagnação econômica da região Sul, estaspropostas acabam por se transformar em espécie de salvação milagrosa para aregião. - Recebem apoio político do governo do Estado e de quase todos ossetores empresariais da região, tendo portanto pouca resistência, com exceção dosetor dos ambientalistas e algumas vozes nas universidades. - A produção de eucalipto, durante seu desenvolvimento vegetativo, fazcaptura de carbono, numa média de 10 milhões de toneladas por hectares aoano, que as empresas poderão no futuro trocar por créditos de carbono, com baseno protocolo de Kioto. - As empresas estavam pagando inicialmente pelas terras R$ 3.5 mil porhectare, atualmente estão pagando R$ 2,8 mil. O INCRA está operando na faixade R$ 2,5 mil a R$ 3 mil por hectare, conforme as características de cadapropriedade.IV - PROBLEMAS POTENCIAISPara podermos ter uma visão de longo prazo sobre possíveis problemas deimpactos ambientais, sociais e econômicos de desenvolvimento sobre o PampaGaúcho, a partir dos grandes projetos de plantio de monocultivos de árvorescomerciais para a produção de celulose, devemos recorrer as experiênciasacumuladas no Uruguai, até por que se trata do mesmo Bioma do PampaGaúcho, além dos Estados de Espírito Santo, Minas Gerais e Bahia além do Suldo ChileNo Uruguai, dois projetos, de duas fábricas de celulose já aprovadas, uma daescandinava BOTNIA, a qual já adquiriu 100 mil hectares de terra, e outra daespanhola ENCE, que já adquiriu 85 mil hectares de terra, com investimentosprevistos de US$ 2 bilhões, enfrentam forte resistência dos ecologistas e setorespopulares.No Uruguai, já são 700 mil hectares de árvores plantadas e no Sul do Chile 2milhões de hectares. No RS, á área já cultivada com árvores soma 360 milhectares, que se somados aos 100 mil da VCP e aos 100 mil da Stora Enso 9
  10. 10. (projetados para os próximos 5 anos), chegaremos a 560 mil hectares. Entretantoo professor Carlos Nabinger da UFRGS, estima que em 10 anos o RS poderá ter 1milhão de hectares ocupados por plantações comerciais de árvores, comoeucalipto, pínus e acácia. A mesma informação é encontrada no site da Caixa RSdo Governo do Estado.A FEPAM, responsável pelo Zoneamento Ambiental da Silvicultura, trabalha comdados diferentes dos divulgados pelas empresas e demais órgãos do governo, ouseja, o plantio de 160 mil hectares de eucalipto, pínus e acácia nos próximos 10anos pelas empresas VCP, Aracruz Celulose e Stora Enso.O Bioma Pampa Gaúcho, conforme o Mapa de Biomas do Brasil, do IBGE e doMinistério do Meio Ambiente, possui 176.496 Km2 ou 17,6 milhões de hectares erepresenta 63% do território gaúcho.Corriqueiramente fala-se em 15 milhões dehectares o tamanho do Pampa Gaúcho. Entretanto, segundo o pesquisador eprofessor Carlos Nabinger da Faculdade de Agronomia da UFRGS, dos 17,6milhões de hectares, restam preservados apenas 8 milhões de hectares, emfunção do avanço das lavoras e em muitos casos pela lotação excessiva dapecuária.1 - Questões AmbientaisA ativista Ana Filippini da organização Uruguaia World Rainforest Movementafirmou em palestra na capital que o plantio de eucalipto em locais de baixaumidade chegou a secar poços artesianos com até 30 metros de profundidade,deixando a população local sem água. O eucalipto tem alto consumo de água,pois tem uma grande evapotranspiração, podendo ressecar o solo, secar olhosd’água, baixar o lençol freático, secar banhados, diminuir a água dos pequenoscórregos e riachos, etc.Segundo o professor Ludwig Buckup, baseado em estudos de Zoraido Ceronipublicado em 1972, cada eucalipto elimina pela evapotranspiração 36,5 mil litrosde água por ano. Então 35 milhões de árvores terão uma evapotranspiração anualde 1,23 quatrilhão de litros de água retirada do solo por ano. Na mesma área, emanos normais, temos uma precipitação anual de 1,5 mil milímetros, chovendo 1,05quatrilhão de litros de água. O que representa um volume de chuva 20% menor doque vai evapotranspirar em um ano.Os dados do professor Ludwig, são contestados pelo professor Solon Longui, doDepartamento de Ciências Florestais da Universidade Federal de Santa Maria,baseado em informações da Associação Brasileira de Florestas Plantadas(ABRAFLOR), onde durante um ano o consumo de água do eucalipto varia de 800a 1200 litros por metro quadrado. Também informa que para produzir um quilo demadeira de eucalipto são necessários 350 litros de água.As fábricas de celulose são também grandes consumidoras de água, com uso demuitos produtos químicos para o branqueamento da celulose, tendo semprepresente o risco de acidentes ambientais.Outro impacto ambiental causado pelo monocultivo do eucalipto é a redução dabiodiversidade da flora e da fauna do Pampa Gaúcho, que se estima existir maisde 3 mil espécies na região entre as quais estão pelo menos 450 gramíneasforrageiras e 150 leguminosas também forrageiras. O eucalipto causa também a 10
  11. 11. degradação da fertilidade dos solos, exigindo grandes investimentos derecuperação posterior à colheita e compactação pelo uso de máquinas pesadas.2 - EmpregoUm recente estudo sobre empregos realizado nas regiões de atuação da Aracruzno Estado do Espirito Santo aponta que a empresa, na época que buscavafinanciamento, afirmava que cada hectare de plantação de eucalipto geraria emmédia quatro empregos diretos, portanto, com seus 247 mil hectares plantadosdeveria gerar 988 mil empregos. No entanto, gerou apenas 2.031, segundo dadosde 2004.As pesquisas indicam que desde 1989 até os dias de hoje esta empresagigantesca gerou 8.807 postos de trabalho, dos quais 2.031 diretos e 6.776indiretos. Chama a atenção que em 1989 os empregos diretos eram 6.058, duasvezes mais que hoje e que desde que se iniciou a contar os indiretos em 1997, onúmero passou de 3.706 para quase a metade.No Brasil, a Aracruz gera um posto de trabalho direto a cada 185 hectares, já nocafé se gera um emprego por hectares, alem de mais um ou dois na colheita. Seavaliarmos a evolução entre emprego e produtividade, se conclui que os atuais 2mil empregados produzem atualmente quatro vezes mais que os 8 mil quetrabalhavam em 1989. Ou seja, a indústria de celulose não usa mão-de-obraintensiva. Uma máquina cortadora de eucalipto faz o trabalho de 14 motos cerras,ofício que praticamente desapareceu em todas as plantações.Quando relacionamos investimentos com empregos gerados, percebemos que naplanta da Bahia, para cada US$ 600 mil investidos, gera-se um emprego. Estarelação passa para US$ 3 milhões de dólares por emprego na fábrica "C",chegando a U$ 3,75 milhões de dólares por emprego na Veracel. Por outro lado,os dados no Brasil, indicam que o emprego rural custa US$ 2.900 e no comérciocusta em torno de US$ 30.000 dólares.Segundo o censo agropecuário de 2000 do Uruguai, para cada 1 mil hectares, onúmero de trabalhadores permanentes no campo é de 4,49 no florestamento, 5,84na criação de gado, 9,18 na ovinocultura, 10 no cultivo de cereais, 22 no tambo deleite, 128 na criação de suínos, 165 na viticultura e 262 na produção deautoconsumo.Nossas Principais Críticas aos Grandes Projetos de Celulose: 1. Problemas ambientais já citados acima; 2. Concentração da terra, com expulsão imediata dos agricultores que as venderam. Mostra que as empresas não querem ficar dependentes de parcerias; 3. É mais um obstáculo para o avanço da Reforma Agrária nesta região; 4. Modelo de concentração de terra, de capital e da renda; 5. Modelo exportador, cujos impostos já estão todos desonerados pela lei Kandir, contribuindo muito pouco para os cofres públicos dos municípios e do Estado; 6. Não gera emprego, como demonstrado acima, pelo contrario diminui postos de trabalho; 7. Vai gerar vazios populacionais, como no Espírito Santo; 11
  12. 12. 8. O plantio de culturas anuais em consórcio, com o eucalipto, apregoado pelas empresas, só é possível nos dois primeiros anos, pois nos anos subseqüentes a competição por luz, água e nutrientes, inviabiliza as culturas anuais. 9. Os investimentos nas grandes fábricas de celulose estão desvinculados da matriz produtiva já existente, instalada na região. Lino De David Assessor da Bancada do PT na Assembléia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul POSIÇÃO DE AMBIENTALISTAS GAÚCHOS Pontos críticos da atividade “florestal/madeireira” como eixo de desenvolvimento econômico1. Plantações não são florestas !As plantações de árvores para celulose e madeira são atividades agrícolas demonoculturas industriais para exportação. O eucalipto é ‘colhido’ com 7 ou 8anos e o pinus com 15 anos, em média. É fundamental fazer a opinião públicaenxergar que as enormes plantações de uma mesma espécie de árvore são naverdade uma vasta produção industrial de exportação à céu aberto. A Aracruzexporta mais de 90% da sua produção e pretende se tornar um grupointernacional, exportando cada vez mais1.Só porque são muitas ‘árvores’ não quer dizer que seja uma coisa boa. Estasárvores estão ocupando a terra, absorvendo muita água e empobrecendo o nossosolo. Sobretudo essas árvores serão destinadas à fabricação do papel quealimenta o padrão de consumo e de bem-estar capitalista dos países do norte,sem importar o peso ecológico e social de manter este padrão às custas dosefeitos na nossa sociedade.Ou seja, o papel higiênico, as fraldas, os jornais, os livros, o material depropaganda e as embalagens das milhares de mercadorias do primeiro mundodependem da nossa terra, água e do nosso clima para existir. Expandir aprodução de celulose alimenta este padrão insustentável de consumo quedepende da exploração da natureza de uma região do planeta, o sul, para mantero padrão de vida de outro, o norte. Para angariar aliados no norte, este é o pontoque as campanhas de consumo consciente apelam, em especial na Alemanha ena Holanda.2. Novo mecanismo de acumulação: o mercado de carbonoAs plantações produzem celulose para papel e também madeira, utilizada namaior parte como carvão para indústrias pesadas para exportação (por exemplode ferro gusa no caso de Minas Gerais e do Espírito Santo). 12
  13. 13. Mas o modelo das plantações também está sendo expandido cada vez mais como“sumidouro de carbono”.Frente ao efeitos globais do aquecimento do planeta e da mudança do clima, oprotocolo de Quioto exige a adoção de mecanismos limpos de desenvolvimento.Entre eles estão os projetos de plantações de árvores para a obtenção de créditosde carbono, que podem ser comerciados no mercado internacional. Estes créditosservem para abonar os efeitos poluidores e destruidores do meio ambientecausados pela indústria.Isso significa que, se uma empresa pode comprar créditos de carbono, geradospor plantações destinadas a este fim, pode assim compensar suas emissões degases de efeito estufa. Comprando só créditos, pode seguir poluindo o meioambiente. Ou seja, ao invés de mudar o modelo de produção e buscar formassustentáveis, os que podem pagar seguem destruindo enquanto outros especulamno mercado internacional com isso.A utilização das plantações para produção de créditos de carbono é um grandemercado em expansão e irá utilizar terra e água dos países do sul para perpetuaruma relação entre norte e sul que é historicamente de sangria e de pilhagem.O modelo das “plantations” é uma invenção norte americana para otimizar aexploração colonial do trabalho, e também da natureza, que alimenta ocapitalismo.3. Projeto regional de controle da água e do territórioO crescimento das plantações no RS aprofunda e expande um modelo regional decontrole dos recursos naturais. A terra, a paisagem e a água - incluindo o aqüiferoGuarani e as hidrovias (rios Uruguai e Jacuí).Este controle dos recursos também inclui a garantia de energia e água paraprocessar a pasta de celulose (as hidrelétricas que estão previstas para o RioUruguai). Ou seja, implantar as plantações para celulose nas terras do RStambém inclui as estratégias para o controle da água.As formas de ocupação do território com as plantações são distintasA Aracruz trabalha com o conceito de “hortos” florestais com distribuiçãogeográfica das plantações espalhadas em pequenas manchas e utilizandoencostas e áreas impróprias para a agricultura mecanizada (como as encostas). Omodelo de grandes “blocos” é utilizado pela empresa Stora Enso, onde o pinus emgeral está bem próximo das estradas. Esta opção é definidora da logísitica paraescoar e processar a madeira e a celulose.Os hortos da Aracruz estão em Guaíba, onde está sua fábrica que serámodernizada e ampliada, além de Eldorado, Pântano, Encruzilhada e Camaquã.Os planos da empresa são expandir neste mesmo eixo pela BR. A Aracruzpretende inovar na logística e usar a hidrovia do Jacuí, pois assim reduz o uso decombustíveis e custos e se torna mais competitiva.A empresa sueco-finlandesa Stora Enso, maior empresa de celulose do mundo,anunciou que pretende construir uma fábrica de processamento de pasta àsmargens do rio Uruguai nos próximos 7 anos. Esta empresa está hoje atuando nooeste do RS2. 13
  14. 14. 4. A geopolítica das empresas papeleiras é um projeto de controle a longoprazoÉ preciso considerar a expansão das plantações e seus efeitos na apropriação euso dos recursos e controle do território como um projeto à longo prazo.A atividade agrícola dos pinus e eucaliptus depende de contratos e investimentosno plantio que levam vários anos para a colheita e para o retorno $. Isso distingueesta monocultura agrícola de outras, como a soja. As fábricas de pasta decelulose envolvem altíssimos investimentos e isso deve ser garantido com acompra de terras pelas empresas ou com contratos que assegurem o retorno doinvestimento junto aos seus “parceiros” ou “ arrendatários”.A curto prazo a procura por terras para este fim aumenta o valor das terra, o que éuma questão para a desapropriação para reforma agrária. A longo prazo a terra setorna tão deteriorada – e o custo de destocá-la e recuperá-la para uso agrícola tãoinviável – que levar os plantios até à exaustão do solo e da água se torna a únicaalternativa.Além disso, a compra da madeira na hora da colheita será definida pelo mercado– estas mesmas poucas empresas. Na hora da venda, quem vai definir os preçossão as empresas porque só elas têm a capacidade de processar a celulose.Os efeitos devastadores das plantações de pinus e eucaliptus nos países vizinhosdo Uruguai e da Argentina (províncias de Missiones e Corrientes) comprovamseus impactos no esvaziamento do campo e na devastação ecológica.Recentemente a mobilização de ambientalistas e moradores dos dois países deuorigem a uma crise diplomática entre os dois países sobre a instalação de plantasprocessadoras de celulose sobre o Rio Uruguai vem mobilizando a imprensa e aopinião pública nestes países sobre a importância do tema das papeleras3 e suarelação com a questão da água.A situação destas regiões bem próximas comprovam que o aumento da área complantações não promove o crescimento econômico para o campo, nem é umasolução efetiva para o empobrecimento rural e o êxodo da população para osgrandes centros.Onde se instala uma plantação, não há lugar para outras espécies de vegetais, deanimais como também não lugar para seres humanos: são os desertos verdes.[1]A EMPRESA: A Aracruz celulose é controlada por 4 acionistasmajoritários que detém o direito a voto: grupo Lorens (28%), banco Safra(28%), Votorantin (28%) e BNDES (12,5%). Estes são os controladores doconselho de administração. Independentemente deste conselho existe umadiretoria estatutária que toma as decisões estratégicas. Isso explica porquea Votorantin é acionista da Aracruz e também ‘concorrente’ . Isso permiteque as duas empresas apareçam como aliadas em certos casos e projetos econcorrentes em outrosNo estado do Rio Grande do Sul a Aracruz procura se diferenciar de outraempresa a Stora-Enzo (sueco-finlandesa), que também está se instalando no RS,e é hoje a maior produtora de celulose no mundo. Na conjuntura do RS a Aracruz 14
  15. 15. seria “do bem” e a Stora Enzo “do mal” porque é estrangeira, isso também porquea Aracruz planta eucaliptus e a outra majoritariamente pinus.[2] A EMPRESA ESTRANGEIRA “A empresa sueco-filandesa Stora Enso, lídermundial no setor de celulose e papel, definiu os municípios onde irá adquirirpropriedades para iniciar o plantio de eucaliptos e pinus. As cidades de Alegrete,Cacequi, Maçambará, Manoel Viana, Rosário do Sul, Santiago, São Francisco deAssis e Unistalda servirão de base para o projeto de florestamento damultinacional. Segundo o deputado federal Luis Carlos Heinze (PP-RS), outraslocalidades deverão fazer parte do empreendimento. “Trabalhamos para incluirUruguaiana, Itaqui, São Borja, Nova Esperança, Jaguari e outros municípios”,pontuou. O parlamentar participou do evento do dia 10 ao lado do governadorGermano Rigotto (PMDB), de secretários estaduais e dos representantes da StoraEnzo na América Latina, Neils Graasfström e Otávio Pontes. (11/102005)Para a aquisição de 50 mil hectares serão aplicados, até o fim do ano, US$ 50milhões. A empresa pretende firmar parceria com os produtores locais; 20% dasterras deverão ser arrendadas. O plantio dos eucaliptos e pinus começa no iníciode 2006. Heinze informa ainda que a estrutura física do viveiro deverá estar prontaaté dezembro. O parlamentar destaca que o projeto de florestamento e ainstalação de uma fábrica de celulose, provavelmente daqui a sete anos, em localainda a ser definido, impulsionarão a economia na região.”É mais uma alternativaque trazemos aos nossos agricultores”, comemora. A unidade industrial poderáconsumir investimentos de até US$ 1 bilhão.[3] CONJUNTURA MERCOSUL “Sobre o rio Uruguai, fronteira com Argentina,duas empresas transnacionais do setor de celulose, Botnia (finlandesa) e Ence(espanhola), constroem grandes plantas industriais. Simultaneamente implantamno país grandes áreas de florestas de eucalipto e pínus. Esta semana, o canteirode obras em Fray Bentos foi invadido por ambientalistas que pedem a paralisaçãodas obras para discutir a implementação de um plano de gestão ambiental eprodução mais limpa a ser adotado nos processos de produção. Os argentinosapoiaram o protesto bloqueando a rodovia de acesso à ponte internacional láexistente. O fato gerou conflito grave provocando o pronunciamento do presidenteda República do Uruguai. As negociações ocorrem ao nível das chancelarias”Os protestos tem como objetivo de parar a construção de duas fábricas de pastade celulose em Fray Bentos, às margens do RioUruguai, em frente à cidadeargentina de Gualeguaychu. Mais duas fábricas do setor também estariam prestesa ser erguidas na região, uma no Uruguai e outra em São Borja, no Rio Grande doSul, segundo assessores dos dois governos. Em três dos quatro projetos, asfábricas estarão às margens do rio Uruguai, que une Argentina, Uruguai e Brasil, eno quarto caso, nas proximidades do rio Negro, que também deságua no rioUruguai. As construções viraram pivô de uma disputa entre os governos doUruguai e da Argentina. Nos últimos dias, as fábricas Botnia e Encetransformaram-se no motivo de uma queda de braço entre os presidentes TabaréVázquez e Nestor Kirchner, da Argentina. As outras duas fábricas seriam a sueco-finlandesa Stora-Enso e a brasileira Aracruz Celulose. Kirchner mandou projeto delei ao Congresso Nacional, pedindo respaldo dos parlamentares para apelar aoTribunal Internacional de Haia contra as construções no Uruguai. Vázquez, porsua vez, conseguiu apoio de todos os partidos políticos do seu país - Blanco, 15
  16. 16. Colorado e Frente Amplo, que é sua base de apoio - e disse, mais de uma vez,através de seus ministros, que não desistirá das obras. Especialista alerta para risco da monocultura de árvores no RS O professor e pesquisador do Instituto de Biociências da UFRGS e integrante da entidade ecológica IGRE, Ludwig Buckup, participou nesta quinta, dia 19, de entrevista online no clicRBS. Buckup foi questionado pelos internautas e jornalistas do clicRBS sobre os riscos ambientais do plantio de grandes extensões de pínus e eucalipto na Metade Sul do Rio Grande do Sul.Conforme o especialista, estudos recentes apontam para o alto consumo deágua das plantações de espécies exóticas no sistema de monocultura,causando a extinção de variedades da flora e fauna, além da redução daquantidade de água presente naturalmente na região do plantio. Confira aíntegra da entrevista.Ludwig Buckup: Oi, boa tarde. Estamos aqui para conversar sobre asmonoculturas.clicRBS: A Aracruz e a Stora Enso anunciaram neste ano que passougrandes investimentos no Rio Grande do Sul para a produção de celulose.O Estado é adequado para este tipo de indústria? O clima e o sologaúchos são adequados para as plantações de árvores necessárias àprodução de celulose?Ludwig Buckup: Decididamente não. Motivos: a área escolhida, Metade Suldo Estado, é um bioma de campo (Pampa), com solo, clima e vocaçãosócio-ambiental impróprios para florestamento com espécies exóticas,como o eucalipto e o pínus.Internauta: Professor, quais serão os impactos ambientais no sul do RSapós as plantações das árvores exóticas?Ludwig Buckup: A revista Science de 23/12/2005, página 1944, publicouexcelente artigo mostrando que as plantações de eucalipto no pampaargentino reduziram o fluxo de água dos rios em 52%, secaram 13% dosrios, córregos e arroios, aumentaram a salinidade e acidez do solo, emapenas um ano após o plantio. O mesmo pode acontecer no pampasul-brasileiro. 16
  17. 17. Internauta: Professor, que outras culturas são adequadas para a Metade Sul?Ludwig Buckup: Aquelas que se ajustam à vocação sociocultural da região,ou seja, uma integração equilibrada entre pecuária extensiva, plantiosdiversificados em rotação de cultura e processos vários de fixação dohomem ao ambiente no qual nasceu e ao qual permanece vinculado por laçosculturais.Internauta: Como o senhor avalia a atuação da Fepam na liberação daslicenças para o plantio desse tipo de cultura?Ludwig Buckup: A Fepam é órgão executivo do governo do Estado. Não temespaço nem poder de caráter deliberativo. Até aqui tem sido totalmenteincapaz de fiscalizar as plantações de exóticas já realizadas no Estado.No planalto o pínus está sendo plantado até a margem dos rios, apósdestruição da mata ciliar e até para dentro dos capões de pinheirosnativos remanescentes. Qualquer licenciamento só poderia ser liberadoapós extensos investimentos em zoneamento ecológico, avaliação dasqualidades do solo e das reservas de água no espaço natural.clicRBS: E se a Fepam não fiscaliza as plantações e não sabe quais asconseqüências do cultivo de árvores, como essa atividade vem sendopermitida? Não caberia à Fepam decidir ser é possível ou não plantardeterminadas culturas?Internauta: O que falta à Fepam é pessoal para fiscalizar ou vontadepolítica para realizar essa tarefa?Ludwig Buckup: A Fepam deveria poder decidir, mas não o faz. À Fepamfaltam recursos humanos e materiais. Em termos de gerenciamentopercebe-se que o órgão perde um tempo enorme com as questões de balcão eapagando os incêndios administrativos. E politicamente, a Fepam dependedas decisões políticas das esferas superiores e que pensam de formacompletamente diferente.clicRBS: O governo estimula esse tipo de cultura através do PlanoNacional de Florestas (PNF), oferecendo recursos para o plantio deárvores para celulose. Estes dados apresentados pela Science não sãosuficientemente fortes para que o governo reverta esses financiamentos?Ludwig Buckup: Os argumentos da Science são fortes sim, convincentes eindiscutíveis. Só que os órgãos do governo não lêem o Science, mas simlêem propostas para aumentar a arrecadação de tributos, agradar aosinvestidores estrangeiros e pensando nas próximas eleições.clicRBS: O professor da UFRGS Carlos Nabinger defende novas técnicas de 17
  18. 18. pecuária que teriam baixo impacto ambiental e garantiriam mais rendapara os pecuaristas. Esta seria uma saída para a Região Sul do RS, ou apecuária também tem impactos na região?Ludwig Buckup: O professor Nabinger, da Faculdade de Agronomia da UFRGS,fez recentemente excelente palestra sobre a vocação dos campos sulinos.Demonstrou que com um pouco de assistência técnica e aporte moderado derecursos materiais e financeiros, é possível aumentar em 200% aprodutividade no referido ambiente.clicRBS: A Metade Sul do Estado vem sofrendo com a falta de alternativasde renda há décadas. Que alternativas os agricultores e pecuaristas queestão partindo para o plantio de árvores teriam? Que alternativas ogoverno e a sociedade civil poderiam oferecer a esta região? Como aMetade Sul poderia se desenvolver, e não apenas gerar renda?Ludwig Buckup: Sim, o ciclo da soja já mostrou que este modelo econômicoexpulsou o homem do campo para a cidade. O plantio extensivo, fala-se em28 milhões de pés de eucalipto, em nada ajudará ao homem do pampa aviver em seu ambiente. Quem disse que o gaúcho do pampa quer serempregado da Aracruz, da Votorantin ou da Stora Enso? O que elecertamente busca é um lugar para viver com sua família, poder alimentaros seus, criar seus animais e participar de um uso sustentável dosrecursos naturais oferecidos pelo meio em que vive. o Eucalipto, talcomo a soja, vai expulsar o homem para a cidade, engrossando o cinturãode pobreza e exclusão social que hoje cercam as metrópoles.Internauta: Professor, 28 milhões de árvores são apenas algo como 25 milhectares. Isto não significa nada em termos florestais. Há controvérsiasbastante sérias a respeito do consumo de água pelas florestas plantadas.Estudos feitos pela USP indicam que elas não consomem valoressignificativamente diferentes daqueles utilizados pela floresta natural.Ludwig Buckup: Não estamos comparando plantação de eucalipto comflorestas naturais, estamos discutindo a inconveniência de plantarflorestas em uma paisagem cuja potencialidade bioecológica é o campo.Neste sentido vale lembrar o absurdo de argumentar que uma plantação desoja também apresenta uma elevada evapotranspiração. Só que soja éalimento e madeira de eucalipto destina-se à exportação, o que configuraum caso típico de privatização de lucros e socialização dos custosambientais.Internauta: Professor, eu estou me referindo a consumo de água. Pareceque Pínus e Eucalipto são vilões e não são. São árvores que têm umpotencial de adaptação e crescimento para as condições brasileirasbastante importantes. O fato de serem originárias de outras locais nãoas desmerece nem as transforma em bandidos. 18
  19. 19. Ludwig Buckup: Plante 700 eucaliptos por hectare, então você vai ver quedá muito mais do que 25 mil hectares.Internauta: O problema não está na Fepam. Está faltando discussão sobreo assunto, há muita radicalização, com desconhecimento elevado. O senhorfala em milhões de árvores como se fosse um absurdo. Quantos milhões oubilhões ou trilhões (não sei bem) de pés de soja são plantados por anono RS, por ano?Internauta: Quantas pessoas vivem hoje no campo da Metade Sul? Apecuária não emprega tanta gente assim.Ludwig Buckup: A densidade populacional é baixa, certamente, maspolíticas eficazes de apoio as atividades agropecuárias da região e umapolítica de reforma agrária correta, estimularão a criação de novasrotas migratórias para aquele espaço. Vejam o absurdo como disse ojornalista Oca, adequadamente: Hoje estão destruindo as matas daAmazônia para criar pastagens e aqui no sul estão plantando eucaliptosdestruindo os campos de pastagem.clicRBS: Existem outros impactos do plantio de árvores no campo além doproblema da água?Ludwig Buckup: Sim, além do problema da perda de recursos hídricos dosolo existe o problema da acidificação, da desertificação e da perda denutrientes.Internauta: E qual é o impacto para as espécies silvestres?Ludwig Buckup: Para as espécies nativas, a monocultura de exóticas com opínus e o eucalipto representa o seguinte tipo de impacto: A perda(extinção) de espécies nativas, a modificação das condições ambientais eprincipalmente a biocontaminação dos ecossistemas adjacentes porespécies invasoras como o Pínus elliottii. Na serra geral o pínus jáinvadiu a mata atlântica em todas as áreas de contato.Internauta: O senhor já visitou florestas plantadas bem manejadas? Osenhor já ouviu falar que no Paraná, em áreas de Pínus com quatro anosforam encontrados dois filhotes de puma? O senhor, como ambientalista,deve saber que puma é topo de cadeia e para que ela exista é necessárioequilíbrio ambiental.Ludwig Buckup: O puma é um péssimo exemplo. É um mamífero predador comgrande deslocamento ocupando, em suas caçadas espaços de quatro a cincomil hectares ou mais. Ninguém disse que uma plantação de pínus ébiologicamente estéril. Mas como a diversidade biológica é baixa, 19
  20. 20. havendo quase nenhuma humificação das agulhas no solo e sem qualquersub-bosque herbáceo ou arbustivo, entende-se que pouquíssimas espéciesanimais fazem desta plantações um lugar para viver e reproduzir-se deforma estável e permanente.clicRBS: Professor, a localização do Aqüífero Guarani tem relação com aescolha do sul da América do Sul para o plantio de árvores (considerandoo estudo da Science)?Ludwig Buckup: O Aqüífero Guarani tem enorme importância no cenário daconservação da água na América do Sul. A ameaça que existe vem dasalinização possível, como a revista Science demonstrou de forma cabal.clicRBS: Diversos pesquisadores e ambientalistas têm chamado a atençãopara os riscos de se plantar árvores da Metade Sul. Isso é suficientepara mobilizar o governo e a opinião pública para que sejam feitos maisestudos, ou para que novas alternativas de desenvolvimento sejam pensadas?Ludwig Buckup: Será importante que toda a comunidade gaúcha se mobilizepara que o governo reexamine a proposta, já em fase de implementação,não autorizada, de cobrir o sul do Estado com um enorme deserto verde.Eu participo de uma ONG denominada IGRE-Amigos da Água, que vempriorizando a conservação dos recursos hídricos em todas as suas formasdo Brasil meridional. Fonte: www.agrol.com.br Notícias/Ambiente 19/01/2006 13h33min DESERTO VERDE MONOCULTURAS NÃO SÃO FLORESTAS O debate em torno do chamado “florestamento” da metade sul como umaalternativa de desenvolvimento começa a tomar vulto e alcançar novas formas depercepção e compreensão para o tema, que não aquelas pautadas pelapropaganda das empresas e governos que norteiam o projeto. Além dadegradação ambiental que ameaça o bioma pampa, os principais motivos de talpercepção encontram-se, entre outros: no histórico dessas próprias empresas ematividades em outros Estados e Países; na exploração trabalhista; na monoculturaque acirra a concentração de terra e dificulta a implementação de uma política de 20
  21. 21. reforma agrária e que ameaça sítios arqueológicos, principalmente de fósseisindígenas bastante comuns na metade sul, fatos que sugerem uma reflexão sobre: • O desastre sócio-ambiental causado nos últimos anos pela monocultura de eucalipto e pinus, juntamente como complexos siderúrgicos e de celulose que ferem ecossistemas e empobrecem a diversidade biológica, social e cultural, causando expropriação e êxodo; • A necessidade de um modelo responsável de geração e divisão de riquezas e de ocupação de nosso território, que coloquem como sujeito as populações rurais e o interesse da sociedade brasileira e não o capital global;O histórico brasileiro desde 1500 demonstra a prática de colocar os recursosnaturais e o trabalho de seu povo a serviço da exportação de riquezas para oschamados países desenvolvidos.Com a modernização no campo a partir das décadas de 60 e 70, estimulou-se aimplantação de monoculturas, dentre elas as das árvores, especialmente a deeucalipto e pinus – que não são florestas -, fazendo com que gente que sempreperdeu, em detrimento de grupos do grande capital estrangeiro, continueengordando lucros e tornando-se presas fáceis dos predadores de biodiversidadeespecializados em degradar os quintais do sul, que via de regra carecem de umdesenvolvimento democrático, que permita reorientar a apropriação e o usodessas regiões , no rumo da inclusão, da justiça e da sustentabilidade.A exemplo do que já ocorrera nos Estados de Minas Gerais, Bahia, Espirito Santoe Rio de Janeiro, o Rio Grande do Sul está hoje sendo um protagonista dadiscussão antagônica entre desenvolvimento ou efetiva degradação da metade sulcom o malfadado “florestamento”, o qual carrega de contrabando a implantaçãopredatória de complexos dos setores siderúrgicos e de celulose.As empresas responsáveis pela implantação de tal projeto vêm investindo empropagandas com o discurso de desenvolvimento com pretextos ambientais. Ogoverno Rigotto vem tratando o “florestamento” como “um dos principais eixos doprojeto de desenvolvimento do Rio Grande do Sul e uma das consequências é amudança do perfil econômico da Metade Sul” ( conforme matéria veiculada noJornal Diário Popular, Pelotas, RS, Quinta, 31.03.2005).A empresa Aracruz Celulose S/A, protagonista de impactos negativos em outrosEstados como no Espírito Santo e na Bahia, e agora no Rio Grande do Sul,possui um método peculiar de “propagandismo” em torno de suas atividades enovas instalações, como forma de maquiar a realidade e engessar a contra-ofensiva dos movimentos ambientais, mantendo uma “ boa aparência” perante aopinião pública.Uma de suas práticas é a antecipada e contundente publicidade queperiodicamente aluga páginas inteiras dos principais veículos de informação naimprensa estadual, a qual em contrapartida “enaltece a contribuição da empresapara o desenvolvimento econômico do Estado”, como uma retribuição aospolpudos negócios publicitários. Outra prática é o financiamento de algumas Ong’scomo a capixaba “instituto Terra da Gente” que concedeu à Aracruz o troféu “Mata 21
  22. 22. Atlântica” o que é uma piada de mau gosto, quando se trata de uma empresa queacabou com milhares de hectares da mesma mata em 1993, na época asdenúncias foram comprovadas e a empresa teve seu funcionamento embargadopelas autoridades pelo período de dois anos. Posteriormente a estratégia foialterar o nome para Veracel Celulose S/A para continuar suas atividades no sul daBahia onde o embargo lhe rendera um enorme desprestígio.Outra variável que dificulta a mobilização em torno de um debate e uma reflexãotransparentes é a postura do Governo Lula que vem se submetendo aosinteresses oligárquicos do capital estrangeiro, que foram legitimados eintensificados no Governo FHC ( fator que provoca uma certa crise de identidadeem valorosos companheiros ativistas que nortearam várias lutas e hoje compõemo Governo).Tendo como principal braço o BNDES, o Governo destina enormes quantidadesde recursos a esses complexos de celulose, sendo complacente com a falácia dedesenvolvimento limpo, incentivado pelo Banco Mundial.Alguns Governos Estaduais como o de Rigotto surfam na onda do que chamam dedesenvolvimento carregando nos braços tais empresas predadoras, o que aliás éuma prática desse governo gaúcho, nos seus projetos de desenvolvimento, emacolher e prestigiar grandes empresas que não possuem qualquerresponsabilidade social.Diante destas circunstâncias é preciso aglomerar forças em torno do movimentosassociativos, como a CUT, o MST, Ong’s Ambientais responsáveis que jápossuem histórico de lutas contra a exploração do trabalho, na reafirmação da lutapela reforma agrária e justiça na terra contra o modelo latifundiário e contra aprática de monoculturas que esterilizam a terra e promovem a degradação sócio-ambiental que já não encontra mais espaço nos países do norte e migram para osquintais do sul. Devemos considerar como um avanço, a resistência de paísescomo Uruguai e Argentina que já esboçam contra-ofensiva a ser consideradapelos gaúchos. FÁBIO GÖEBEL Assessor Deputado Estadual Flávio Koutzii-PT Manifesto Contra o Deserto Verde e a Favor da Vida A Rede Alerta Contra o Deserto Verde, uma articulação que envolve maisde 100 entidades dos movimentos sociais dos estados de Minas Gerais, EspíritoSanto, Bahia e Rio de Janeiro, vem através deste, se manifestar sobre: a) o desastre sócio-ambiental causado nos últimos 35 anos pela monocultura de eucalipto e pinus, integrado aos complexos siderúrgico e de 22
  23. 23. celulose, atingindo diversos ecossistemas e populações de nosso território, empobrecendo nossa diversidade biológica, social e cultural, causando expropriação, desemprego, êxodo e fome; b) a necessidade de outro modelo de geração e divisão de riquezas e de ocupação de nosso território, que respeite e coloque como protagonista as populações rurais e o interesse da sociedade brasileira e não do capital global. Desde 1500, o Brasil tem colocado seus recursos naturais e o trabalho deseu povo a serviço da exportação de riquezas para os países chamadosdesenvolvidos. Com a modernização no campo, desde os anos 1960 e 1970,foram dramaticamente ampliados o estímulo e a implantação das monoculturas.Dentre elas, as monoculturas de árvores, em especial de eucalipto e pinus (quenão são florestas), talvez tenham sido as de maior impacto socioambiental nasregiões Vale do Jequitinhonha, Vale do Aço, Norte e Central de Minas, Sul daBahia e Norte do Espírito Santo, com a implantação predatória de complexos dossetores siderúrgicos e de celulose. Esse impacto, criou uma identidade comumentre populações indígenas, quilombolas e camponesas diretamente impactadas –os atingidos pela monocultura do eucalipto –, gente que sempre perdeu nos 500anos de Brasil, em detrimento de grupos capitalistas que engordam seus lucros àcusta do sangue e da expropriação das populações tradicionais e dostrabalhadores brasileiros e da degradação de nossos ecossistemas, antes ricosem biodiversidade e água, hoje secos e empobrecidos, transformando-se emdesertos verdes. No último período de governo neoliberal da era FHC, esse desastre foilegitimado e intensificado, seguindo os interesses do capital envolvido nessespoderosos complexos, embora alguns avanços na legislação, em termos dedireitos dos povos tradicionais e da importância da agricultura camponesa, tenhamfeito um contraponto a esse processo devastador. Causa-nos espanto, entretanto, a postura do atual Governo Lula, quecarregava a esperança desse povo oprimido nesses 500 anos, de resgatar acidadania sempre negada e de começar a construir um modelo dedesenvolvimento democrático, que permitisse reorientar a apropriação e o uso denosso território, no rumo da inclusão, da justiça e da sustentabilidade. Esse governo (assim como alguns governos estaduais) vem se submetendoaos interesses oligárquicos desses complexos, destinando enormes quantidadesde recursos via BNDES e Ministério do Meio Ambiente (PNF - Plano Nacional deFlorestas), sendo complacente com a falácia dos Mecanismos deDesenvolvimento Limpo, incentivados pelo Banco Mundial (PCF – Fundo Piloto deCarbono), que legitima a poluição dos países desenvolvidos através da criação decotas de carbono, que transformam a fotossíntese (dádiva da natureza) emmercadoria privada do comércio global. Usa-se um pretexto ambiental paradisseminar as monoculturas de árvores, geradoras do desastre socioambientalacima relatado. Para as populações tradicionais e entidades componentes da Rede DesertoVerde, não cabe apenas negociar limites e condicionantes aos excessos do setorde monocultura de árvores. Os licenciamentos ambientais e os selos verdes só 23
  24. 24. têm aprofundado as desigualdades socioambientais. O modelo por inteiro estácomprometido com a lógica excludente do latifúndio de exportação, seapropriando de órgãos públicos e se legitimando através de certificações nãoparticipativas, nem independentes. Ao contrário do atual ordenamento monocultordo território, propomos um outro modelo agrícola e agrário, onde as prioridadesestejam reorientadas para a Reforma Agrária, a Agroecologia, a SegurançaAlimentar e a defesa das Florestas, Cerrados e de seus povos tradicionais.Somente um novo modelo de desenvolvimento pode garantir a diminuição dasdesigualdades socioambientais no campo e de seus efeitos colaterais nos centrosurbanos. Neste sentido, a Rede afirma: MONOCULTURAS NÃO SÃOFLORESTAS!! As populações atingidas reivindicam deste governo a criação de políticaspúblicas que recuperem esse passivo socioambiental desastroso e incentivemações que fortaleçam nossas diversidades biológicas, culturais e agroecológicas. Belo Horizonte, 07 de maio de 2004 Rede Alerta contra o Deserto Verde Movimento Mundial por los Bosques Tropicales. Fonte: www. wrm.org.uy/paises/Brasil/manifesto.html Monocultura, a Aracruz Celulose e os Quilombolas do Espírito Santo A presença da cultura negra no Espírito Santo é bastante expressiva, comregistro no censo de 1991 de 1,6 milhões de negros, totalizando 65% da populaçãoestadual. Dispersos hoje por todo território, a maior concentração ainda está no nortedo Espírito Santo. Os municípios de Conceição da Barra e São Mateus coincidem comum dos índices de maior concentração da monocultura de eucalipto no estado,exatamente onde se encontram as comunidades negras rurais. As entidades deMovimento Negro de Conceição da Barra e São Mateus cadastraram 35 comunidadesnegras rurais ainda resistentes - são cerca de 1.300 famílias remanescentes. É com as 1.300 famílias que insistiram em permanecer na terra que começa olongo trabalho de reconstrução cultural, econômica e territorial dessas populações.Reagrupar os remanescentes de quilombos dispersos em meio ao eucaliptal,realimentar esta cultura, construir coletivamente o debate político e a estratégia deexigibilidade de direitos, formar lideranças, desenvolver uma assistência técnicaagrícola contextualizada, capaz de pensar a reconversão das áreas de monocultura, naespecificidade da tradição territorial quilombola. As comunidades negras rurais e remanescentes de quilombos do Norte doEspírito Santo, região denominada Sapê do Norte, que compreende os municípios deConceição da Barra e São Mateus, vêm sofrendo com o impacto causado pelamonocultura do eucalipto desde que, há cerca de 40 anos, a Aracruz Celulose seestabeleceu na região. Antes da chegada da empresa, havia 2 mil comunidades, com 24
  25. 25. 10 mil famílias. Hoje restaram 35 comunidades, com cerca de 1.300 famílias. A chegada da Aracruz ao Espírito Santo, em 1967, respondia à nova políticaeconômica do estado, que visava romper a dependência da economia capixaba emrelação à monocultura do café e promover incentivos fiscais para a implantação degrandes indústrias. A companhia logo empreendeu a compra de terras, começandopelo município de Aracruz e depois abrangendo os municípios de Conceição da Barrae São Mateus. Em relatório preliminar de uma pesquisa participativa quantitativa realizada em2002 pela ONG Koinonia - Presença Econômica e Serviço (1), 849 domicílios foramvisitados nos municípios de Conceição da Barra e São Mateus, o que permitiu coletarinformações sobre trabalho, geração de renda, saúde, escolaridade etc. Ao todo, 3.627pessoas foram entrevistadas e responderam o questionário elaborado com a finalidadede traçar uma espécie de perfil sócio-econômico das famílias quilombolas residentesnessa região. Através dos dados obtidos, pudemos observar o quanto a implantaçãoda monocultura do eucalipto e a instalação da Aracruz Celulose S.A. modificou e afetaa vida dessa população. Indígenas e quilombolas do norte do estado venderam suas terras diante dapromessa da empresa de oferecer trabalho e renda para todos, sem saber que issonão seria possível, já que a indústria é altamente mecanizada e necessitava, portanto,de mão-de-obra qualificada, o que praticamente inexiste nessa região onde aescolaridade da população é baixa. O despojo de seus territórios tradicionais tambéminviabilizou a agricultura de subsistência e a criação de animais. Os poucos queresistiram permaneceram ilhados pelos eucaliptos da empresa e hoje sobrevivem doplantio de mandioca para fazer farinha e da cana para produzir melado. Utilizam osrestos de madeira do eucalipto para produzir carvão vegetal, além de outras pequenasproduções, como frutas e verduras produzidos no próprio quintal de casa, onde resta omínimo de terra produtiva que puderam conservar. Restaram-lhes, então, os ofíciosmais degradantes, como carregar tonéis de herbicidas e agrotóxicos para seremaplicados nos cultivos de eucalipto, de modo a facilitar a colheita - já que essassubstâncias extinguem qualquer outra forma de vida que não o eucalipto. Em média,são jogados cerca de 250 mil litros de herbicidas por dia nas plantações de eucalipto. Um dos venenos utilizados é o Tordon (2) que, além se ilegal, por sercomprovadamente cancerígeno e causador de doenças genéticas, não é indicado paraesse tipo de cultura. Mesmo assim, a substância é utilizada em todos os municípiosonde o eucalipto é plantado, sob o aval do Instituto de Defesa Agropecuária e Florestal( Idaf) e da Secretaria de Estado para Assuntos do Meio Ambiente (Seama/Iema), quenão toma qualquer providência mediante denúncias feitas, inclusive, por meios decomunicação que atuam na área, como a revista eletrônica Século Diário, ondediariamente são divulgados depoimentos dos quilombolas da região, além de notíciasreferentes às questões ambientais da região do Sapê do Norte. A seguir, encontramos um quadro (3) com os dados referentes aos sintomascausados pelo veneno.Nº de familiares que apresentam sintomas de contaminação - por municípioNº de familiares que apresentam sintomas de contaminação - por município 25
  26. 26. Número deCB SMfamiliaresUma pessoa 57,9 65,4Duas pessoas 27,0 25,2Três pessoas 9,5 6,6Quatro pessoas 3,2 2,0Cinco pessoas 0,0 0,3Seis pessoas 1,6 0,0Sete pessoas 0,0 0,3Dez pessoas 0,8 0,0Total 100 100Total válido 126 301Fonte: Pesquisa Comunidades Sapê do Norte (Koinonia) Essa prática, além de representar riscos à saúde e à própria vida dostrabalhadores, é responsável pela contaminação da água dos rios, causando também amorte por envenenamento de porcos, galinhas e outros animais domésticos. Oproblema se tornou tão grave que não há mais um córrego que não esteja contaminadonos municípios de Conceição da Barra e de São Mateus.Outro indício da devastação e do desequilíbrio ambiental causados pelo plantio deeucalipto é o assoreamento dos rios, hoje praticamente secos, uma vez que a espécieconsome muita água. A falta dágua não aflige só os animais, como também impede aprodução de qualquer tipo de alimento. O amendoim cresce raquítico, o feijão não sedesenvolve, o milho não nasce, deixando claro que a improdutividade da terrageneralizou-se. Os quilombolas, portanto, não têm perspectiva de trabalho e nem de qualquerforma de rendimento ou sustento. Muitos migraram para os grandes centros,contribuindo para o agravamento do processo de favelização das cidades. Osmoradores que ficam, sem encontrar saída para sobreviver vão até o lixo da AracruzCelulose recolher as sobras de madeira que não têm nenhuma serventia para aempresa (a ponta das árvores), para fazer carvão vegetal. Algumas comunidades têmseus próprios fornos, outras pagam uma espécie de aluguel. Além disso, há crianças,mulheres e jovens trabalhando sem qualquer tipo de proteção. Como se não bastasse a degradação dos solos e rios, o que alegam estudiosose os próprios quilombolas, principalmente os mais antigos, que acompanharam durantedécadas todo o processo de mudanças sofridas na região, é que a culpa recai sobre ainstalação da Aracruz Celulose, que levou à devastação de milhares de alqueires deMata Atlântica. Com base em denúncias feitas por diversos grupos de ambientalistas,pesquisadores e do movimento rural, indígena e quilombola, foi aprovada a Lei nº252/01, do Espírito Santo, que proíbe por tempo indeterminado o plantio de eucaliptoem novas áreas até que seja feito um zoneamento agroecológico em todo o estado. Em função disso, a Aracruz desenvolveu novas estratégias para prosseguir comsua expansão, entre elas a implantação do Programa Produtor Florestal, em 1990, queconsiste no arrendamento de terras de pequenos agricultores para que estesintroduzam o eucalipto em suas propriedades. 26
  27. 27. Neste Programa, o pequeno produtor recebe da Aracruz as mudas e tem acompra da madeira assegurada a um preço muito menor (25 vezes menor) que o demercado. Dessa forma, a empresa, que confirma ter eucaliptos plantados em 71 milhectares por meio do Programa, se exime de responsabilidades pela agressão ao meioambiente, que recaem sobre o pequeno produtor. Mais de 3 mil agricultores de 131 municípios de Espírito Santo, Bahia, MinasGerais e Rio Grande do Sul já foram incorporados ao Programa, e já está havendoexpansão para o Rio de Janeiro. Resta saber se esses produtores estão cientes de quealém da rentabilidade do eucalipto ser 25 vezes menor do que a do cultivo de cereais ehortaliças, ao final do contrato eles terão sua terra degradada e completamenteinviabilizada para o plantio de gêneros alimentícios. Por sua vez, a Aracruz nega as acusações e sustenta a versão de que suaatividade contribui para a preservação ambiental e a sustentabilidade das regiões ondecultiva eucalipto. Em sua página na internet, a companhia divulga informações, dados eclipping de notícias sobre seu alto desempenho, que lhe rendeu diversos prêmios,assim como também exibe atividades direcionadas para as comunidades locais. O quese sabe é que as denúncias nunca aparecem na grande mídia e a empresa é semprecitada como um caso de sucesso. Porém geógrafos, antropólogos, ambientalistas epesquisadores, de um modo geral, atuam contrariando essa lógica. Lutam pormelhorias em nome dessa população que se organiza cada vez mais e se empoderade seus direitos com uma única finalidade: permanecer na terra que lhes pertence etirar seu sustento."Vendemo nossa terrinhaPra vim mora na cidade,Trabalhá no eucalipto,E passá necessidade.Chegou um homem vistoso,Com dinheiro e com razão,Disse se nóis não vendesse nossa terra,O Brasil não ia pra frente não.Nóis vendemo nossa terra,E vendia muito mais,O Brasil só dá pra frente,E nóis só dá pra trás"(Zoroasto Valeriano Rodrigues, quilombola de uma das comunidades de São Mateus/Norte doES)Notas:(1) A pesquisa foi coordenada pelo antropólogo José Maurício Arruti, coordenador doPrograma Egbé - Territórios Negros na ONG Koinonia - Presença Ecumência e Serviço, aquem agradeço pelo compartilhamento dos dados.(2) O Tordon 2,4D foi o agente-laranja, usado pelos Estados Unidos na guerra química contra oVietnã. Na ocasião, foram despejados 35 milhões de litros do produto, cujos efeitos até hojesão sentidos pelos vietnamitas, que relacionam mutações genéticas na formação dos bebês aocontato com a substância. Pesquisadores vietnamitas afirmam que a relação das vítimas é deuma para cada mil habitantes.(3) Dados obtidos no "Relatório de Pesquisa Participativa Quantitativa Quilombos do Sapê do 27
  28. 28. Norte: as Comunidades Negras Rurais dos Municípios de Conceição da Barra e São Mateus(ES)", Programa Egbé - Territórios Negros, da ONG Koinonia - Presença Ecumênica eServiço. Rio de Janeiro, agosto de 2005. * Mestranda. Colaboradora Egbê - Territórios Negros e da ONG Koinonía Mobilização Contra as Plantações de Eucalipto na Indonésia Em 84, uma empresa de celulose e papel chamada PT Inti IndorayonUtama passou a operar em Sumatra, Indonésia, com capital e tecnologia vindosda Europa. E receberam grandes concessões de terra: uma ilha inteira no lago deToka (Ilha Samosir no Norte de Sumatra) foi concedida a empresa para aplantação de eucalipto que também usou um milhão de hectares de terra em Riau,uma outra província em Sumatra. Isso ocorreu durante a ditadura de Suharto. O governo estava promovendoas plantações de eucalipto, dizendo que era bom para o meio ambiente: iria criarflorestas de crescimento rápido. Eles falavam sobre reflorestamento, mas naverdade era uma plantação industrial de madeira. Estavam dizendo que comessas novas plantações, não teríamos mais que contar com a velha madeira. As empresas estavam se beneficiando duplamente desse programa degoverno: por um lado, estavam recebendo empréstimos livres de juros paraestabelecer os seus negócios (0% de juros). E por outro, tinham o direito de cortara floresta velha e vender a madeira, para abrir a terra para a plantação. Com otempo, muitas outras empresas começaram a plantar eucalipto e outras árvores,nas terras ao redor da empresa, para fornecer celulose e papel para a fábrica. A empresa tomou a terra do povo de Batak, uma população indígena quevivia nessa área.Naquela época, os agricultores não sabiam o que era eucalipto. Tentamos sabermais sobre ele. E quando a empresa começou a operar, percebemos que não erabom para o ambiente e as pessoas. Percebemos que as árvores eram muitosedentas por água. Não sabíamos que iam construir uma fábrica de celulose e papel próxima aplantação. Mas eles montaram a fábrica logo depois que começaram a plantação.Isso criou danos ambientais terríveis. A fábrica estava usando maquinaria velhada Europa, uma tecnologia que tinha sido ultrapassada lá devido ao seu impactoambiental negativo. Ela usa cloro, liberando dioxinas ao meio ambiente. O solo, oar e a água ficaram extremamente poluídos. A fábrica de polpa estava próxima deum grande rio: o rio Asahan. É o segundo maior rio do mundo depois do rioAmazonas. Milhares de pessoas vivem próximas a esse rio. Eles usam a água ecomem os peixes, e os siris do rio para o seu consumo diário de proteína. Apopulação local começou a reclamar da poluição. Víamos uma água preta saindo 28
  29. 29. da fábrica. Mas a administração disse que a água preta não significava poluição “ocafé também é preto”, eles disseram. Mas apareceram doenças de pele, aprodução de arroz caiu e as reservas de peixe foram reduzidas. Haviam muitos problemas sociais. A população local perdeu a sua terra ea sua floresta. O povo de Batak costumava coletar produtos da floresta, e tambémproduziam pequenas estátuas de madeira usando uma madeira especial local.Mas por causa da plantação de eucalipto eles perderam a floresta.A empresa contratava trabalhadores de outras partes do país. Os recém chegadosnão respeitavam as mulheres locais e houve muitos casos de estupro. Quando apopulação local conseguia trabalho na empresa, eles recebiam um salário maisbaixo. Eles ficaram chocados com essa discriminação. Mais de 30 indígenasmorreram em acidentes durante a construção da infra-estrutura da empresa. Éuma área montanhosa e aconteceram muitos deslizamentos de terra. O exércitose beneficiava do sistema: eles eram pagos pela empresa para, manter a ordemna área. Por outro lado, a empresa usou a infra-estrutura pública (principalmenteas estradas) que não foram construídas para esse uso. Nunca tínhamos vistocaminhões tão grandes! Em poucos anos a estradas estavam destruídas.Mobilizações A população local se revoltou e fizeram muitas ações contra a empresa.Eles arrancaram as árvores repetidamente e queimaram a fábrica. Eles tambémqueimaram as casas dos trabalhadores migrantes e as escolas. Eles fizerambloqueios nas ruas. Essas ações foram muito mais fortes do que o que aconteceuna Aracruz. As mulheres foram muito ativas nessa campanha. Muitas pessoasforam presas e 10 mulheres de Sugapa tiveram que cumprir 3 anos na cadeiapelas ações de resistência. Em 1999, 7 pessoas foram baleadas, duas fatalmente. A oposição começou em nível local e tornou-se nacional e internacional. Emnível nacional, foi a primeira vez que todos os setores da sociedade se uniram emuma única questão. Naquele momento, a ditadura não permitia a existência demovimentos sociais, então foram principalmente as ONGs, os grupos de jovens eos movimentos religiosos que se envolveram. Também se tornou uma questãopara as organizações de Direitos Humanos. Então apelamos para a justiça paradenunciar a empresa: foi o nosso primeiro processo legal sobre uma questãoambiental. Perdemos a causa, mas muitas pessoas do movimento foraminspiradas por ele. A maior parte do tempo a opinião pública estava ao nosso lado. Parece queas pessoas sabiam sobre os impactos danosos das plantações de eucalipto. NoBrasil, se as pessoas são tão críticas sobre a ação na Aracruz, talvez seja porquenão estão cientes dos perigos. Mas eles certamente irão se inteirar mais nofuturo. Nos anos 90, após a queda de Suharto, o governo fechou a fábrica. Masem 2002 a fábrica reabriu, sob um novo nome (PT Toba Pulp Lestari, depropriedade do grupo Raja Garuda Mas) e usando outras tecnologias. O governoIndonésio queria fechar a fábrica, mas isso iria contra as regras do acordo de livrecomércio da OMC. A Noruega ganhou o caso na disputa legal da OMC e forçou aIndonésia a reabrir a fábrica de celulose e papel. 29
  30. 30. Redes trabalhando nessa questão:- Greenpeace International, Greenpeace Australia (vieram para coletar amostras).- Walhi (rede Indonésia). Walhi é uma rede Indonésia em questões ambientalistas. Eles estavamtrabalhando nessa questão naquele período.Testemunho de Harris Putra, Indonesian Peasant Federation [Federação Indonésia deCamponeses], La Via Campesina Indonésia (Porto Alegre – 12 de março de 2006)POSIÇÃO DO MOVIMENTO DAS MULHERES RURAIS, PORQUE OCUPARAM A ARACRUZ MANIFESTO DAS MULHERES CAMPONESAS - VIA CAMPESINA – BRASIL 08/03/2006À II Conferência Mundial da Reforma Agrária e Desenvolvimento Rural (FAO) Somos Mulheres Camponesas, filhas desta terra brasileira, que há 500anos vem sendo regada com suor, sangue e muito trabalho de tantas gerações demulheres e homens de diferentes etnias. Mesmo com todas as lutas de resistênciados povos indígenas, negros e brancos pobres, nosso país continua sendo umterritório para extração de riquezas que alimentam os lucros de grandes gruposcapitalistas. O Brasil está longe de ser uma nação livre e soberana. Neste 8 de março, durante a realização desta II Conferência Internacionalsobre Reforma Agrária e Desenvolvimento Rural, inspiradas pela história demulheres do mundo inteiro que morreram na luta pela vida, nos manifestamoscontra todas as formas de violência e exploração que sofremos no Brasil, comoparte do povo pobre, como camponesas e como mulheres. E sobretudo,reafirmamos o compromisso com a luta por uma sociedade socialista, semdesigualdades de classe, gênero e etnia. Para os capitalistas, a terra, as águas, as sementes, o ar, as matas sãorecursos que devem ser explorados conforme seus interesses econômicos. Paranós, camponesas e camponeses, estes elementos da natureza são a base davida, são riquezas que não tem preço, por isso não podem ser mercantilizadas.Em nome do desenvolvimento, do progresso e da modernidade, o capitalismoavança sobre o mundo desrespeitando limites, leis, colocando em risco a vida detodos os seres vivos, inclusive da humanidade. As empresas capitalistas, com a conivência da maioria dos governos,transformaram a agricultura num negocio, no agronegócio, e se apoderaram denossas riquezas naturais, de nosso território utilizando-os como mercadoriasdescartáveis e converteu nossa população em “mão-de-obra barata” para serexplorada, além de utilizar o trabalho escravo em várias regiões do Brasil. Marchamos rumo a Conferência Internacional sobre Reforma Agrária eDesenvolvimento Rural (CIRADR) porque: 30
  31. 31. 1. Somos contra o domínio autoritário de empresas multinacionais e as políticas dos bancos e instituições internacionais, (especialmente: Organização Mundial do Comércio – OMC, Banco Mundial – BIRD, Fundo Monetário Internacional – FMI e Banco Interamericano de Desenvolvimento - BID) assumidas pela maioria dos governos do mundo, que transformam nossos países em servos do processo de acumulação de capital e globalizam cada vez mais a pobreza, principalmente entre mulheres e crianças.2. Exigimos Reformas Agrárias Integrais, que sirvam de base para a construção da soberania alimentar dos países. A produção agrícola deve ser orientada pelas necessidades e pelos hábitos culturais de cada povo, não pelas metas de lucro de meia dúzia de grupos multinacionais.3.. Somos contra os desertos verdes, as enormes plantações de eucalipto, acáciae pinus para celulose, que cobrem milhares de hectares no Brasil e na AméricaLatina. Só no estado do Rio Grande do Sul já são 200 mil hectares de eucalipto.Onde o deserto verde avança a biodiversidade é destruída, os solos deterioram,os rios secam, sem contar a enorme poluição gerada pelas fábricas de celuloseque contaminam o ar, as águas e ameaçam a saúde humana No Brasil asempresas que controlam o deserto verde têm, total apoio do governo paraimplantar fábricas de celulose e ampliar o plantio de madeiras. Nos últimos 3 anossó a Aracruz Celulose, que tem cerca de 250 mil hectares plantados com eucaliptono Brasil, recebeu do governo brasileiro quase 2 bilhões de reais. Se o desertoverde continuar crescendo em breve vai faltar água para bebermos e terra paraproduzir alimentos. Não conseguimos entender como um governo que quer acabar com a fomepatrocina o deserto verde ao invés de investir na Reforma Agrária e na AgriculturaCamponesa.Marchamos com as seguintes propostas:1. Reforma Agrária Integral, estabelecendo limite de propriedade para acabar com o latifúndio e garantir justiça social no campo brasileiro;2. Soberania Alimentar, garantindo recuperação e preservação de biodiversidade, matas, florestas, plantas medicinais, sementes crioulas, água, terra, que são patrimônio dos povos a serviço da humanidade.3. Que os governos implementem políticas de incentivo a produção de alimentos saudáveis para auto sustento e geração de renda com grande diversidade de produtos, quebrando o monopólio de grupos econômicos que controlam as sementes e padronizam a agricultura, impondo os mesmos hábitos alimentares a todos os povos.4. Para nós, camponesas e camponeses a terra deve cumprir função social não comercial, deve alimentar a vida não os lucros. Defendemos a agricultura camponesa que produz comida preservando a biodiversidade, respeitando a pluralidade cultural das populações e gerando trabalho, renda e dignidade para muita gente.5. Investimento público na ciência, tecnologia e pesquisa para a agricultura camponesa ecológica.6. Valorização da renda gerada pela agricultura camponesa, garantindo preços justos para os produtos agrícolas camponeses e construindo uma rede de comercialização popular e solidária, incentivando os mercados locais. 31
  32. 32. 7. Políticas públicas voltadas ao campo: saúde, previdência, crédito, seguro, transportes, estradas, lazer, moradia, saneamento básico, controle sanitário, educação... Neste 8 de março nos solidarizamos com as mulheres camponesas e com astrabalhadoras urbanas de todo o mundo, que sofrem com as várias formas deviolência impostas por esta sociedade capitalista e patriarcal.Estamos nas ruas porque acreditamos que as verdadeiras mudanças nassociedades são feitas pelo povo organizado. E acreditamos ser possível aconstrução de uma nova globalização, alicerçada na solidariedade entre os povos,no respeito entre as diversidades étnicas, religiosas, culturais, na igualdade degênero, na cooperação para a preservação das riquezas naturais e na produçãodestinada a atender necessidades das pessoas e não do capital. É com esta convicção, que nós mulheres camponesas, trabalhadorascontinuaremos lutando. Viva o 8 de março ! Globalizemos a luta, Globalizamos a esperança, Globalizemos a solidariedade! Movimento de Mulheres Camponesas (MMC) Movimento dos Sem Terra (MST) Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) Movimento dos Atingidos pelas Barragens (MAB) Pastoral das Juventude Rural (PJR) Comissão Pastoral da Terra (CPT) Porto Alegre, 08 de março de 2006 Declaração Movimento Mulheres Camponesas – Santa Catarina 08/03/2006 LUTA, RESISTÊNCIA E ENFRENTAMENTO. MULHERES CAMPONESAS DA VIA CAMPESINA AGEM EM DEFESA DA VIDA, DA SOBERANIA, DA SAÚDE HUMANA E DO PLANETA TERRA. O Movimento de Mulheres Camponesas luta de forma incondicional pela vida! A partir da ação realizada pelas mulheres da Via Campesina, no diaInternacional da Mulher, queremos fazer uma reflexão sobre o que significa, para 32
  33. 33. a humanidade e para o planeta, a plantação de eucaliptos e a estratégia daAracruz Celulose. De acordo com dados fornecidos por Hilaine Yaccoub4: As comunidades negras rurais e remanescentes de quilombos do Norte doEspírito Santo, região denominada Sapê do Norte, (Conceição da Barra e SãoMateus), vêm sofrendo com o impacto causado pela monocultura do eucaliptodesde que, há cerca de 40 anos, a Aracruz Celulose se estabeleceu na região.Antes da chegada da empresa, havia 2 mil comunidades, com 10 mil famílias.Hoje restaram 35 comunidades, com cerca de 1.300 famílias. ISSO SIGNIFICA QUE, EM 40 ANOS DE PRESENÇA DA ARACRUZ, NONORTE DO ESPÍRITO SANTO, 1.965 COMUNIDADES DESAPARECERAM,8.700 FAMÍLIAS. Alguém calculou este prejuízo e o massacre desses povos? Indígenas e quilombolas do norte do estado do ES venderam suas terrasdiante da promessa da empresa de oferecer trabalho e renda para todos, semsaber que isso não seria possível, já que a indústria é altamente mecanizada enecessitava, portanto, de mão-de-obra qualificada, o que praticamente inexistenessa região onde a escolaridade da população é baixa. O despojo de seus territórios tradicionais também inviabilizou a agriculturade subsistência e a criação de animais. Os poucos que resistiram permaneceramilhados pelos eucaliptos da empresa e hoje sobrevivem do plantio de mandiocapara fazer farinha e da cana para produzir melado. Utilizam os restos de madeirado eucalipto para produzir carvão vegetal, além de outras pequenas produções,como frutas e verduras produzidos no próprio quintal de casa, onde resta omínimo de terra produtiva que puderam conservar. Restaram-lhes, então, os ofícios mais degradantes, como carregar tonéisde herbicidas e agrotóxicos para serem aplicados nos cultivos de eucalipto, demodo a facilitar a colheita - já que essas substâncias extinguem qualquer outraforma de vida que não o eucalipto. Em média, são jogados cerca de 250 mil litrosde herbicidas por dia nas plantações de eucalipto. Um dos venenos utilizados é o Tordon que, além de ser ilegal, por sercomprovadamente cancerígeno e causador de doenças genéticas, não é indicadopara esse tipo de cultura. Mesmo assim, a substância é utilizada em todos osmunicípios onde o eucalipto é plantado, sob o aval do Instituto de DefesaAgropecuária e Florestal ( Idaf) e da Secretaria de Estado para Assuntos do MeioAmbiente (Seama/Iema), que não toma qualquer providência mediante denúnciasfeitas, inclusive, por meios de comunicação que atuam na área, como a revistaeletrônica Século Diário, onde diariamente são divulgados depoimentos dosquilombolas da região, além de notícias referentes às questões ambientais daregião do Sapê do Norte. Essa prática, além de representar riscos à saúde e à própria vida dasfamílias, é responsável pela contaminação da água dos rios, causando também a 4 Aluna do programa de mestrado em Assuntos Populacionais e Pesquisa Sociais da Escola Nacional de Ciências Estatísticasdo IBGE e colaboradora do Programa Egbe – Territórios Negros da ONG Koinonia – Presença Ecumênica e Serviço. 33

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