A História da Baleia

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A História da Baleia

  1. 1. Um conto de António Sérgio
  2. 2. Há muito, muito, muito tempo, vivia no mar a baleia, que comia peixes. Ainda ela, nessetempo, podia comer peixes. Comia sardinhas e tainhas, gorazes e roazes, bugios e safios,pescadas e douradas, bacalhaus e carapaus. Todos os peixes que ia encontrando deitava-lhes a boca, - ão!
  3. 3. Por fim, só havia no mar um salmonete vermelhete, que nadava sempre atrás da orelhaesquerda da baleia, para ela lhe não fazer mal.
  4. 4. Um dia, a baleia pôs-se a pensar muito séria, e disse assim :- Tenho fome !E o salmonete vermelhete, com a sua voz muito agudita, disse à baleia :- Nobre e generoso cetáceo : já experimentou comer homens?- Não - respondeu a baleia. - A que sabe? como é?- Bom, mas traquinas - respondeu o salmonete vermelhete.- Então, vai-me buscar três dúzias deles - ordenou a baleia.
  5. 5. Basta um de cada vez - disse o salmonete vermelhete. - Se for à latitude 60 graus norte elongitude 40 graus oeste (isto, amigos, são umas palavras mágicas que o salmonete lásabia) encontrará uma jangada feita de tábuas, e sobre a jangada um marinheiro náufragode calças de ganga azul, uma faca de ponta aguda, e suspensórios encarnados (não seesqueçam dos suspensórios!). O marinheiro, devo dizer-lhe, é arguto, astuto, e resoluto.
  6. 6. A baleia, então, foi aonde lhe disse o salmonete vermelhete, e encontrou a jangada e omarinheiro. Aproximou-se, abriu a bocarra imensa, e engoliu a jangada e o marinheiro, com ascalças de ganga azul, com a faca de ponta aguda e com os suspensórios encarnados (nunca seesqueçam dos suspensórios!).
  7. 7. E assim a baleia arrecadou tudo na despensa escura, quentinha e fofazinha, que tinha lá dentrodo seu corpanzão. E como gostou, deu três estalos com a língua e três voltas sobre a cauda,levantando muita espuma.
  8. 8. O marinheiro (que era arguto, astuto, e resoluto) mal se viu dentro da baleia, na despensaescura, quentinha e fofazinha, pulou, saltou, rebolou, cambaleou, espinoteou, dançou,sapateou, fandangueou, esperneou, gritou, berrou, cantou, estrondeou tanto, tanto, tanto,que a baleia se sentiu com enjoos, engulhos e soluços (já se esqueceram dos suspensórios?)
  9. 9. E disse a baleia ao salmonete vermelhete :- O teu homem é muito traquinas, e dá-me engulhos. Que hei-de eu fazer?- Diga-lhe que saia cá para fora - respondeu o salmonete vermelhete.
  10. 10. E a baleia gritou pela garganta abaixo:- Saia cá para fora, homenzinho, e veja se tem juízo!- Isso é que eu não saio- respondeu o homem. - Leve-me primeiro para a minha terra, e depoisveremos o que se poderá fazer.E pôs-se outra vez a saltar, a pular, a espinotear e a rebolar.
  11. 11. - O melhor é levá-lo para casa- aconselhou o salmonete vermelhete. - Eu já tinha prevenido asenhora baleia de que o marinheiro era arguto, astuto e resoluto.E a baleia nadou, nadou, nadou, dando à cauda e às barbatanas, mas sempre com soluços e muitoenjoada. Quando avistou a terra do marinheiro, nadou para a praia, pôs a boca sobre a areia,abriu-a muito, e disse:- Cá chegámos à sua terra!
  12. 12. O marinheiro, que era na verdade arguto, astuto e resoluto, tinha durante a viagem puxadoda sua faca de ponta aguda, e cortado as tábuas da jangada em fasquiazinhas muitoestreitas, que ligou muito bem com tiras dos suspensórios (bem lhes dizia eu que não seesquecessem dos suspensórios!) e fez com elas uma grade que empurrou, ao sair, contra agarganta da baleia.
  13. 13. E, deixando a grade bem presa na garganta da baleia, saltou para terra…
  14. 14. …e foi ter com a mãe, com a qual viveu muito contente.
  15. 15. A baleia foi-se embora também muito contente, assim como o salmonete vermelhete; mas agrade é que nunca mais saiu da garganta da baleia.
  16. 16. E por isso é que a baleia nunca mais pôde comer homens, nem meninos, nem peixes - nemsardinhas nem tainhas, nem gorazes nem roazes, nem bugios nem safios, nem pescadasnem douradas -, porque os peixes não podem passar pelas grades da garganta, mas sóbichinhos pequeninos, como, por exemplo, as pulgas-do-mar.
  17. 17. Pouco depois, o marinheiro casou e viveu muito feliz; tinha em casa as calças de ganga azul e anavalha de ponta aguda; mas não tinha os suspensórios, porque esses ficaram a atar a grade,muito apertada que só deixa passar bichinhos pequeninos - como as pulguinhas-do-mar - nagarganta da baleia.
  18. 18. FIM
  19. 19. Ano Letivo 2012/2013

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