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COSTA, Cristina. Sociologia – Introdução à ciência da sociedade. 3ª ed.,
São Paulo: Moderna, 2005
I
INTRODUÇÃO
O conhecimento como característica da humanidade
Nas várias espécies animais existentes sobre a Terra encontramos formas de
relacionamento que nos fazem pensar na existência de regularidades que ordenam sua vida
comunitária. Percebemos facilmente que os diversos animais se agrupam, convivem, se
acasalam, sobrevivem e se reproduzem de forma mais ou menos ordenada, em função de
sua Potencialidade e do ambiente em que vivem.
A preservação da espécie e seu aprimoramento parecem ser, como afirmou Darwin na sua
teoria sobre a Evolução das espécies, o objetivo Das suas formas de vida, convivência e
sociabilidade. Assim, os animais: e desenvolvem estilos próprios de vida que lhes permitem
a reprodução e a sobrevivência. Estabelecem para isso modelos de vida complexos, com
sistemas de acasalamento, alojamento, migração, defesa e alimentação.
O homem, como uma dentre as várias espécies existentes, também desenvolveu processos
de convivência, reprodução, acasalamento e defesa. Desse modo apresenta uma série de
atividades "instintivas", isto é, ações e reações que se desenvolvem de forma mecânica,
dispensando o aprendizado, como respirar, engatinhar, sentir fome, medo, frio. Além disso,
porém, quer por dificuldades impostas pelo ambiente, quer por particularidades da própria
espécie, o homem também desenvolveu habilidades que dependem de aprendizado. Assim,
as crianças aprendem a comer, beber e dormir em horários regulares, aprendem a brincar e
a obedecer; mais tarde, aprenderão a trabalhar, comerciar, administrar, governar.
2
O homem precisa de aprendizado para desenvolver formas peculiares de comportamento.
O homem, portanto, se distingue das demais espécies existentes porque nem todo seu
comportamento se desenvolve automaticamente em sua relação com a natureza, nem se
transmite à sua descendência pêlos genes. Ele é o único animal que necessita de
aprendizado para adquirir diferenciadas formas de comportamento.
Muitas lendas e mitos relatam a história de heróis que, mesmo crescendo no isolamento,
tornaram-se humanos — Rômulo e Remo, Tarzan, Mogli — e apresentaram
comportamentos compatíveis com o resto da humanidade. Entretanto, para se tornar
humano, o homem tem de aprender com seus semelhantes uma série de atitudes que lhe
seriam impossíveis desenvolver no isolamento. Já entre os demais animais, se separarmos
uma cria de seu grupo de origem, ela apresentará, com o tempo, as mesmas capacidades e
atitudes de seus semelhantes, pois essas decorrem sobretudo de características genéticas.
O cineasta alemão Werner Herzog trata justamente desse tema em seu filme O enigma de
Raspar Hauser, de 1976. Ele mostra como um homem criado longe de outros seres de sua
espécie é incapaz de se humanizar, revelando apenas características genéticas instintivas e
animais.
Portanto, para que um bebê humano se transforme em um homem propriamente dito, capaz
de agir, viver e se reproduzir como tal, é necessário um longo aprendizado, pelo qual as
antigas gerações transmitem às mais novas suas experiências e conhecimentos. Essa
característica, essencialmente humana, só se tornou possível porque o homem tem a
capacidade de criar sistemas de símbolos, como a linguagem, por meio dos quais dá
significado às suas experiências vividas e as transmite a seus semelhantes.
As capacidades próprias dos animais se desenvolvem de maneira predominantemente
instintiva e se transmitem aos descendentes pela carga genética. O homem, por sua vez,
deve transmitir suas experiências e interpretações da realidade por uma série ordenada de
símbolos. Por isso, dizemos que o Homo sapiens é a única espécie que pensa, isto é, que é
capaz de transformar a sua
O Homo sapiens é capaz de comunicar sua experiência vivida através de um discurso
significativo.
3
Experiência vivida em um discurso com significado e transmiti-la aos demais seres de sua
espécie e a seus descendentes. É o único capaz de imaginar ações e reações sob forma
simbólica, isto é, mesmo na ausência de estímulos concretos que provoquem medo, alegria,
fome ou rancor, ele pode reviver essas situações que o estimularam. Além disso, é o único a
diferenciar as experiências no tempo e, em conseqüência, a projetar ações futuras.
O homem, portanto, é capaz de recriar situações e emoções, é capaz de simbolizar, de
atribuir significados às coisas, de separar, agrupar, classificar o mundo que o cerca segundo
determinadas características. Dessa habilidade provém a capacidade de projeção, a ideia de
tempo e o esforço em preparar o futuro, características que permitem o desenvolvimento da
ciência. Esse é o centro de sua capacidade simbólica e de sua humanidade.
Ao pensar, ao ser capaz de projetar, de ordenar, prever e interpretar, o em, sempre vivendo
em grupos, começou a travar com o mundo ao seu ar uma relação dotada de significado,
avaliação. Seu conhecimento do mundo — organizado, comunicado e compartilhado com
seus semelhantes e transmitido à descendência — se transformou em cultura humana
propriamente dita. Essa elaboração simbólica da experiência fez com que os homens
recriassem o mundo segundo suas necessidades e pontos de vista, traduzindo-o sob a forma
de informação ou conhecimento. A partir dessa lista, do desenvolvimento dessa capacidade
genuinamente humana de sentar e transformar o ambiente natural, cada grupo,
compartilhando experiências comuns adaptadas ao seu modo próprio de vida, criou formas
rias de sociabilidade. É por isso que encontramos formas de existente crenças e pensamento
tão diversas. Porque elas não são apenas conseqüências de uma estrutura genética da
espécie, mas da criação de formas ao e reação decorrentes da experiência particular
vivenciada por um i de homens.
Uma vez que cada cultura tem suas próprias raízes, seus próprios significados e
características, todas elas são qualitativamente comparáveis. Enquanto culturas, todas são
igualmente simbólicas, fruto da capacidade cria-i do homem e adaptadas a uma vida
comum em determinado espaço e • nesse contínuo recriar, compartilhar e transmitir a
experiência vivida e aprendida.
»culturas humanas como processos
Foi dessa capacidade de pensar o mundo, de atribuir significado à realidade, que o homem
criou o conhecimento. Desde os primeiros vestígios arqueológicos do homem sobre a Terra,
percebemos que os problemas por ele enfrentados — de sobrevivência, defesa e
perpetuação da espécie — lhe apareceram como obstáculos, para os quais buscou
explicações sobre si mesmo o mundo em que vive.
4
A pesquisa arqueológica busca desvendar a cultura humana desde os tempos mais remotos.
Os mais antigos "cemitérios" humanos, onde se encontram ossadas dispostas numa certa
posição acompanhadas de alguns objetos, mostram que mesmo o ato de enterrar os mortos
respondia a questões relativas à vida e à morte e implicava uma escolha da "melhor forma"
de ação. Aceita pelo grupo, essa "melhor forma" tende a se repetir, transformando-se em
ritual — uma ação revivida em grupo e explicada em função da resposta coletiva dada ao
"para que" e ao "por que" da existência humana.
Podendo escolher, julgar, pensar sobre situações passadas e futuras, o homem passou da
simples experiência imediata a explicações que lhe garantiam o conhecimento de si e do
mundo à sua volta, formulando justificativas para fatos, atitudes e comportamentos. A
partir do desenvolvimento dessa capacidade simbólica e da linguagem, a ação humana
passou a ser intermediada pela atribuição de significados, interpretações estabelecidas e
partilhadas entre os grupos humanos. Essas interpretações, a que chamamos conhecimento,
criaram soluções para necessidades concretas de vida e sobrevivência e se mantiveram
sempre operantes enquanto foram adequadas a tais necessidades. Quando os homens
enfrentaram novos obstáculos, surgiram novas relações, tidas como mais adequadas, mais
úteis às dificuldades enfrentadas. Assim, se por um lado as culturas humanas tendem à
ritualização e à repetição, amparadas na tradição e no aprendizado, por outro elas
representam a possibilidade de mudança e adaptação. A própria reprodução das formas de
vida existentes acarreta novas necessidades, que o homem procurará satisfazer
transformando o modelo existente. Podemos então conceber as diferentes culturas como
essencialmente dinâmicas, desenvolvendo mecanismos de conservação e mudança num
permanente ajuste.
Essa ideia da relação existente entre as culturas humanas e as condições de vida de cada
agrupamento humano nos mostra que as diferenças entre as culturas não são de qualidade
nem de nível: devem-se às circunstâncias que as cercam. Durante muito tempo se pensou
que culturas de sociedades iletradas ou ágrafas eram menos complexas ou menos
elaboradas do que as de sociedades em que se havia desenvolvido a escrita. Hoje se sabe
que os conhecimentos passados pela tradição oral, por meio de contadores de histórias são
de Todas as culturas apresentam padrões igualmente abstratos e significativos.
5
veiculados pela escrita. Se certas sociedades não criaram o alfabeto e a linguagem gráfica, é
porque o modo de vida de tais indivíduos não lhes despertou tal necessidade, não porque
sua capacidade mental fosse "inferior". A capacidade simbólica e os padrões de todas as
culturas humanas são igualmente abstratos, significativos e dão respostas úteis aos
problemas de compreensão do mundo.
A ciência como ramo do conhecimento
Durante séculos, o homem pensou sobre si mesmo e sobre o mundo, adquiriu
conhecimentos, estabeleceu interpretações ajustadas à vida cotidiana. Entretanto, o tipo de
problema que o levava a isso mudou sensivelmente conforme as culturas e o passar dos
séculos. Vejamos como isso se deu na história da civilização ocidental.
Sabe-se hoje que os egípcios tinham grandes conhecimentos de geometria — palavra de
origem grega que quer dizer "medição da Terra". Tais acontecimentos foram elaborados a
partir da necessidade social de prever o transbordamento do Rio Nilo e restabelecer
fronteiras territoriais que essas inundações extinguiam. Com uma corda dividida em treze
partes por t de nós e dois homens que a manuseavam, conseguiram criar as mais itens
formas geométricas, capazes de resolver seus problemas de me-• territorial. O
conhecimento adquirido com o auxílio dessa técnica foi do, depois, com grande êxito, às
construções arquitetônicas, tornam-se mais tarde a base do pensamento geométrico
pitagórico. Entretanto, l os egípcios, esse saber não estava dissociado de outras questões
fundamentais de sua cultura, como a vida após a morte, os deuses e a hierarquia entre os
homens.
Foram os gregos que conceberam a ideia do saber como um fim em si mesmo, como
atividade destinada a descobertas desligadas de uma finalidade prática imediata ou à
solução de questões metafísicas. Menos preocupados com a religião e a vida após a morte,
os gregos foram os precursores da ração de uma forma de pensar à qual se deu o nome de
ciência, uma atividade com objetivos próprios. '
O milagre grego — o espírito especulativo
Enquanto os povos antigos só se interessavam pelo mundo em que viviam como uma janela
para entender todo o universo, os gregos criaram as diversas disciplinas e a filosofia. As
disciplinas, ou conhecimentos específicas como a geometria, a aritmética, a astronomia,
foram um passo decisivo i busca da compreensão dos princípios que movem o mundo e as
coisas. Já tratava de uma ruptura profunda com o mundo mítico, onde as explicações
ocorriam pela intervenção dos deuses ou das forças sobrenaturais. As disciplinas, por meio
da sistematização e da organização do estudo de um objeto, procuram desvendar, pela
razão, a causa primeira da sua formação, longe da ação dos deuses. Os egípcios elaboraram
princípios de biologia e
6
química porque acreditavam na ressurreição e queriam conservar os cadáveres: os gregos
afirmaram que tais conhecimentos não eram domínio da religião, mas da medicina. Assim,
se dedicaram à habilidade de desenvolver o conhecimento como uma atividade abstrata,
desligada de sua aplicabilidade imediata ou de uma finalidade religiosa. Deram às ideias
sobre o que se deve ou não se deve fazer o nome de ética, ramo da filosofia que estabelece
os critérios de virtude, os valores de bem e mal do comportamento humano, fundamentando
os padrões morais da sociedade. Se os povos antigos justificavam sua maneira de agir em
função do que os deuses queriam, para os gregos isso fazia parte e era resultado da intenção
pura e simples de pensar sobre os fatos. Isso não significa que a geometria ou a medicina
grega fosse mais desenvolvida do que a egípcia, mas que, a partir de então, o homem
desvinculara sua curiosidade pelo mundo das preocupações meramente práticas e passara a
tratá-la como uma "atividade do espírito", importante em si mesma e, para muitos, a mais
elevada dentre todas.
A filosofia, o "amor pelo conhecimento" surgia como a sistematização das informações
adquiridas pelas diversas disciplinas organizadas de modo a explicar o mundo e a sua
relação com o homem. Assim, surgia uma nova maneira de pensar "o porquê" e o "para
que" das coisas. Surgiu um saber mais desligado das atividades religiosas, ao qual se
dedicavam homens não necessariamente responsáveis pêlos cultos religiosos. Surgiram os
sábios, homens cuja atividade era desvendar os segredos do mundo e do universo.
Deu-se o nome de milagre grego a este salto do conhecimento humano sobre si e a
natureza, em que se abandonou a explicação mítica e o princípio da interferência das forças
sobrenaturais nos destinos do homem, para dirigir-se à obtenção do saber por meio da
abstração dirigida pela razão. A ideia de milagre vem da força da revolução que a filosofia
grega causou sobre o homem da época e das gerações posteriores. O impacto foi tão
profundo que acabou encobrindo o longo processo de construção desse novo saber.
A expansão comercial e colonizadora do período arcaico pôs o homem grego em contato
com outras culturas; o estabelecimento da escravidão como base da produção das riquezas e
da sobrevivência acabou liberando a abastada classe comerciante da necessidade de ter de
trabalhar, dando-lhe muito tempo ocioso; o surgimento da moeda organizou a economia; a
criação da escrita e das leis ordenou os direitos da comunidade e do cidadão; a
consolidação da polis (cidade) rompeu o estrito círculo familiar e a rígida e hierárquica
estrutura da sociedade agrícola, provocando o conflito de interesses; todos esses foram
fatores decisivos para o desenvolvimento do povo grego.
Em todos esses momentos de transformação social e econômica, o pensamento racional era
cada vez mais exigido para anteceder a ação. A consciência individual crescia à medida que
o homem grego constatava que o destino é uma construção humana e não obra dos deuses e
dos rituais míticos. Crescia nele a percepção de que era um indivíduo dotado de razão e
capaz de realizar ações próprias. Este conhecimento de si e do outro rompe a anterior
estrutura mítica da sociedade agrícola em que vivia, onde o
7
homem se condicionava a agir e pensar conforme os ensinamentos que se acreditava terem
sido transmitidos pêlos deuses aos ancestrais e que permaneceram inalterados por séculos,
enquanto as sociedades se reproduziam sem alteração. Esse destino predeterminado era
imposto pela própria sociedade que, por meio dos rituais, condicionava o indivíduo a seguir
as normas existentes e a garantir, assim, sua sobrevivência. A consciência era uma
consciência coletiva, única; desobedecer-lhe seria falta gravíssima, que implicaria a
punição não apenas de quem rompeu as regras, mas de toda a comunidade, uma vez que
não se concebia o indivíduo fora da coletividade. O fim desse processo é o abandono da
estrutura mítica para a explicação do mundo e a procura de explicações científicas e
filosóficas para os fenômenos humanos, antes considerados propriedade exclusiva de forças
transcendentais. –
A razão a serviço do indivíduo e da sociedade
Enquanto a sociedade comercial e manufatureira desenvolvida pêlos gregos perdurou
através do Império Romano, a razão esteve a serviço do homem e da sociedade. Porém,
após a queda do Império, quando a Europa retorna à estrutura de uma sociedade agrária e
teocrática, que submete a razão e a filosofia à teologia, a razão deixa de ser a melhor forma
de explicação do mundo. Durante a Idade Média, período de grande poder da Igreja
Católica, a razão passou a ser considerada um instrumento auxiliar da fé. A Igreja Católica
usava a razão (inicialmente pêlos ensinamentos de Platão, depois com os ensinamentos de
Aristóteles) como forma de manter seu poder e divulgar a fé. A fé ou a crença, como nas
sociedades agrícolas míticas, passaram novamente a condicionar o comportamento humano
e a sociedade, e a explicá-los. Apenas as ordens religiosas, isoladas nos mosteiros, tinham
acesso a textos de filosofia, geometria e astronomia. A população laica deixou de participar
desse saber.
No Renascimento, entretanto, o homem volta aos textos antigos e redescobre o prazer de
investigar o mundo, descobrir as leis de sua organização como atividade com valor em si
mesma, independente de suas implicações religiosas e metafísicas. Nos últimos
quatrocentos anos, e em particular a partir do século XVII, vimos assistindo ao crescente
progresso desse conhecimento — a ciência — destinado à descoberta das relações entre as
coisas, das leis que regem o mundo natural, organizando as ideias e interpretações do ponto
de vista lógico-científico. Aprimoraram-se as técnicas e os utensílios de medição, e a
imprensa e os demais meios de comunicação levaram a Transmissão cada vez maior de
informações e de saber. No seio desse movimento de ideias, surgiu no século XIX uma
ciência nova — a sociologia, a ciência da sociedade. O surgimento da sociologia significou
o aparecimento da preocupação do homem com o seu mundo e a sua vida em grupo, numa
nova perspectiva, livre das tradições morais e religiosas.
Desencadeou-se então a preocupação com as regras que organizavam a vida social. Regras
que pudessem ser observadas, medidas e comprovadas.
8
Com a sociologia, as questões relativas à vida social deixaram de ser tratadas como tema
religioso ou de senso comum. das, capazes de dar ao homem explicações plausíveis, num
mundo onde passou a imperar o racionalismo, isto é, a crença no poder da razão humana de
alcançar a verdade. Regras, enfim, que tornassem possível prever e controlar os fenômenos
sociais.
Portanto, o aparecimento da sociologia significou que as questões concernentes às relações
entre os homens deixaram de ser apenas matéria religiosa e do senso comum: passaram a
interessar também aos cientistas. A constituição desse campo do conhecimento significou,
antes de mais nada, que as relações entre os homens mereciam ser conhecidas e formuladas
por uma nova forma de linguagem e discurso — o científico —, o qual, na sociedade
moderna, adquiriu o estatuto de "verdade".
A partir de então o homem começou a elaborar métodos e instrumentos de análise capazes
de explicar e interpretar sua experiência social de maneira científica. Isso equivaleu a criar,
como nas demais ciências, métodos de averiguação e medição e a fazer formulações sobre a
sociedade que pudessem ser comprovadas empiricamente — isto é, pela observação e
experimentação —, de modo a tomar a ação social humana explicável em termos de
regularidades e previsões.
O pensamento relativo às ligações do homem com seus semelhantes passava assim a outra
esfera de abstração, a outra maneira de formular problemas, ligada à necessidade de
descobrir leis de interpretação e previsão dos acontecimentos.
Com o desenvolvimento da sociologia, multiplicaram-se os métodos e técnicas de
investigação da vida social.
9
A sociologia: um conhecimento de todos
Desde o século XEX, quando a sociologia foi criada ou reconhecida como campo de
conhecimento explorável pelo procedimento científico, até a atualidade, inúmeros estudos
se desenvolveram. Como nas demais ciências, estabeleceu-se uma comunicação
permanente entre pesquisadores, permitindo um acúmulo de princípios e informações de
modo a submeter as teorias a comprovação, questionamento, revisão.
Criou-se também um jargão científico, isto é, um vocabulário próprio com conceitos que
designam aspectos precisos da vida social. De tal forma se alastraram os resultados das
pesquisas sociológicas que, hoje, boa parte desse vocabulário faz parte da vida cotidiana.
Palavras e expressões como contexto social, movimentos sociais, classes, estratos,
camadas, conflito social, são usadas no dia-a-dia das pessoas e profusamente veiculadas
pêlos meios de comunicação de massa.
Nos discursos políticos, referências às "classes dominantes", às "pressões sociais" emergem
como se fossem de domínio público, como se todos, políticos e eleitores soubessem
exatamente o que elas designam.
As pesquisas de opinião de qualquer tipo veiculam os resultados de procedimentos
metodológicos amplamente usados nas pesquisas científicas, e os leitores percebem de
maneira mais ou menos geral seu significado. Quando se diz que um governante conta com
o apoio de 60% da população de uma cidade, por exemplo, as pessoas entendem que um
grupo de pesquisadores empreendeu uma pesquisa que arguiu um número delimitado de
cidadãos a respeito da gestão desse governante e que esses cidadãos expressaram sua
opinião. Compreendem que, de cada 100 pessoas arguidas, 60 manifestaram-
-e favoráveis às medidas tomadas pelo governante.
E, quando se diz, após algum tempo, que a popularidade desse governante cresceu 10%,
sabemos que nova pesquisa foi feita nos mesmos mol-:es da anterior e, de cada 100
cidadãos, agora são 70 que se mostraram favoráveis à atuação governamental.
Esse simples raciocínio, utilizado não só nas pesquisas de caráter político mas em quaisquer
outras que pretendem verificar a adesão das pessoas a certas ideias — ou a frequência a
espetáculos, ou o número de espectadores i e um programa de televisão —, decorre da
aceitação generalizada dos conhecimentos básicos da sociologia.
Isso ocorre porque foi possível constatar e verificar uma regularidade nos fatos sociais.
Essa regularidade responde às leis da vida social e essas Vis científicas são passíveis de
serem observadas e apreendidas. Disso resultado que é também possível prever (o que é
diferente de adivinhar) com certa margem de acerto os possíveis eventos futuros de uma
determinada sociedade. Abre-se, então, a possibilidade de se poder intervir
conscientemente nos processos, tanto para reforçá-los como para negá-los, dependendo dos
interesses em jogo.
Queremos deixar claro que o leitor de uma pesquisa de opinião, mesmo desconhecendo a
sua metodologia, sabe que existem meios mais ou menos
10
eficazes de se desvendar o comportamento, o gosto e a opinião de uma população pela
investigação de uma amostra, isto é, de uma parte escolhida dessa população. O leitor intui
a existência de uma regularidade nesses comportamentos e opiniões; reconhece que, por
trás da diversidade entre as pessoas, existe certa padronização nas suas formas de agir e
pensar, de acordo com o sexo, a idade, a nacionalidade etc.
Quando lemos em uma notícia ou artigo que Maria, 35 anos, casada, dona-de-casa,
brasileira, votará em determinado candidato, não estamos tomando conhecimento apenas da
opinião de uma pessoa isolada, mas do grupo de pessoas do qual Maria é o protótipo: o das
mulheres de idade mediana, donas-de-casa, casadas e brasileiras.
Portanto, os conhecimentos de sociologia hoje já não estão restritos ao uso dos cientistas
sociais. Eles fazem parte de um modo de perceber e interpretar os acontecimentos formado
pela disseminação dos procedimentos e técnicas de pesquisa social.
Hoje manifesta-se confiança nessa forma de conhecer a realidade, do mesmo modo como se
confia em um termômetro para constatar a temperatura do corpo.
Mesmo que o público desconheça todos os procedimentos de amostragem e de
levantamento de dados, assim como pode desconhecer a técnica utilizada na fabricação de
um termômetro, já confia nas informações das pesquisas, o que demonstra a utilidade e a
popularidade da sociologia. Hoje é mais freqüente comprovar uma afirmação qualquer por
meio de dados de pesquisa do que pela mera importância conferida à pessoa que a declara.
Houve tempo em que o prestígio e a autoridade pessoais bastavam para assegurar a
credibilidade do público. Hoje se requer comprovação. Atualmente, quando se diz, por
exemplo, que "os brasileiros são contra a pena de morte", logo se questiona sobre as bases
em que se assenta tal afirmação. Muito mais convincente, nesse caso, é uma manchete de
jornal que diga: "75% dos brasileiros são contra a pena de morte".
A utilidade da sociologia nos diversos campos da atividade humana
Assim como o leitor, o ouvinte e o espectador de televisão sabem que existem técnicas
relativamente eficazes para entender o comportamento social, profissionais das mais
diversas áreas também não ignoram a utilidade da sociologia.
Para empreender uma campanha publicitária, para lançar um produto ou um candidato
político, para abrir uma loja ou construir um prédio, os profissionais especializados — o
engenheiro, o agrônomo, o comerciante — procuram dados sobre o comportamento da
população.
Não se constroem mais prédios ou casas sem levar em consideração o comprador, suas
condições, valores, ideias, tudo aquilo que o faz optar por uma ou outra moradia. Pode ser o
lugar, o aspecto, o preço ou, muito freqüentemente, a soma de tudo isso.
11
Todos os passos importantes na comercialização de um produto, desde sua criação até sua
campanha publicitária e distribuição, repousam em pesquisas de opinião e comportamento.
Procura-se saber quem compra determinado produto, os hábitos desse comprador, sua faixa
salarial, quanto do orçamento doméstico ele está disposto a dedicar a esse bem, e assim por
diante.
Quando um fabricante quer lançar um novo tipo de margarina, por exemplo, efetua uma
série de pesquisas para determinar qual é o comprador típico de margarina e o que é mais
importante para ele. Procura averiguar como competir com os produtos assemelhados já
existentes. Inúmeros fatores podem levar o consumidor a uma escolha entre produtos
equivalentes: o preço, a qualidade, a embalagem, entre outros.
Resumindo, não se "atira no escuro". A sociedade tem características que precisam ser
conhecidas para que aqueles que nela atuam tenham sucesso. Não existe, portanto, nenhum
setor da vida onde os conhecimentos sociológicos não sejam de ampla utilidade. E essa
certeza perpassa hoje toda a linguagem dos meios de comunicação e toda a atuação
profissional das pessoas. É por isso que a sociologia faz parte dos programas universitários
que preparam os mais diversos profissionais — de dentistas a engenheiros — e por isso
também o sociólogo hoje tem entrada nas mais diversas companhias e instituições.
Daí decorre a afirmação, hoje quase unânime, de que a sociologia é uma ciência que se
define não por seu objeto de estudo mas por sua abordagem, isto é, pela forma como
pesquisa, analisa e interpreta os fenômenos sociais.
Dizer que o "objeto da sociologia é a sociedade" é dar ao cientista social um objeto sem
limites precisos, amplo demais para que dele possa dar conta. Tudo que existe, desde que o
homem se reconhece como tal, existe em sociedade. Portanto, não é por fazer parte da
sociedade, ou de um meio social, que um fato se torna objeto de pesquisa sociológica. Um
fenômeno é sociológico quando sobre ele se debruça o sociólogo, tentando entendê-lo no
que diz respeito às relações entre os homens e às influências sociais de seu comportamento.
Desafios da sociologia hoje. O capitalismo vive hoje, no século XX, uma profunda
reestruturação que está exigindo dos cidadãos, dos governos e das nações uma revisão
completa não só de conceitos como dos mecanismos de funcionamento da sociedade. Uma
análise de todos os aspectos que a compõem, como o sistema produtivo, as relações de
trabalho, o exercício do poder político, o papel do cidadão, da ciência e da tecnologia, os
direitos e deveres de cada setor social ou classe, os problemas sociais referentes a essas
mudanças e assim por diante.
Essa reestruturação torna mais necessário ainda desenvolver a capacidade de entender e
projetar o rumo dos acontecimentos. Se essa já era uma exigência do mercado livre, ou seja,
não-planejado, que se desenvolvia com a sociologia se define não por seu objeto mas por
sua abordagem — pela forma como pesquisa, analisa e interpreta os fenômenos sociais.
12
base em determinados padrões de comportamento social, a sociedade contemporânea,
globalizada e competitiva, exige um redimensionamento desses padrões.
O mundo contemporâneo — ou pós-clássico, como o chamam alguns, entre eles George
Steiner—exige a retomada e a análise de conceitos consagrados, como divisão social do
trabalho, Estado nacional e democracia. Uma sociedade de quatrocentos anos se transforma
radicalmente, por um lado aproximando grupos sociais distintos ou, por outro, introduzindo
diferenças em comunidades anteriormente integradas. Novas posições surgem, enquanto
antigos conflitos — como a Guerra Fria — são abandonados.
Valores básicos da sociedade capitalista — como o trabalho — são deixados em segundo
plano, enquanto o lazer e o consumo se transformam em regras sociais.
Enfim, é hora e vez de repensar os padrões, as regularidades que ordenam a vida social e
hierarquizá-los. Nesse contexto a ciência da sociedade ganha nova importância e se
confronta com novos desafios.
Atividades
1. Dissemos neste capítulo que as características de cada espécie animal são transmitidas a
seus descendentes por meio da bagagem genética. Procure exemplos de notícias em revistas
e jornais que comprovem ou não essa hipótese.
2. Além das reações instintivas típicas de sua espécie, como dormir, alimentar-se,
reproduzir-se, que outras características o homem desenvolveu?
3. O aprendizado é uma das formas que o homem desenvolveu para transmitir sua cultura
de uma geração a outra. Faça um relato baseado em sua experiência pessoal que ilustre essa
afirmação.
4. Qual a diferença na interpretação de como o homem seria criado no isolamento, segundo
as histórias de Tarzan e Kaspar Hauser?
5.
5. O relato a seguir foi extraído de um estudo sobre achados arqueológicos na China, que
datam de 4500 anos a.C.
"Os objetos traziam as mais antigas inscrições chinesas conhecidas, e essas mensagens,
velhas de 4 mil anos, têm uma importância capital para a história. As escamas de tartaruga
e os ossos das tumbas Chang eram instrumentos de adivinhação. Perguntas feitas aos
deuses e aos antepassados referentes à pesca, à caça, ao tempo, às colheitas, às doenças, à
significação dos sonhos figuram nesses ossos e nessas carapaças e por outros ossos. Pôde-
se assim reconstituir certos aspectos da civilização chinesa arcaica.
"Eis alguns exemplos: 'Esta noite, vai chover, é preciso capturar um elefante'. O que prova
a existência do elefante na China Central. Ou então: 'Prece de chuva por minha avó Yi': o
culto dos antepassados já era praticado há mais de quatro mil anos.
13
"O pictograma utilizado para designar o peixe indica que os homens da época Chang
empregavam a vara de pescar, a linha, as iscas e as redes, e o pictograma 'caça', que eles
faziam uso de flechas e de chuços. O cavalo já servia para puxar carroças. A palavra
'homem' exprime-se por meio dos sinais 'força' e 'campo'. Os símbolos dos cereais são grãos
de trigo, de milho miúdo e de arroz. Graças à cultura da amoreira, conhecia-se a seda numa
época em que a maior parte dos homens andavam nus ou vestidos de peles de animais. (...)
"Encontraram-se, igualmente, nas tumbas Chang, objetos de bronze; sabia-se, pois, fundir o
cobre, o estanho, o ferro, a prata e o chumbo.
"Vasos sagrados, instrumentos, recipientes cilíndricos, vasos de bronze zoomórficos,
espelhos de bronze, caçoulas, testemunhos de uma brilhante civilização, revelam-se aos
arqueólogos estupefatos!" (Ivar Lissner, Assim viviam nossos antepassados, p. 169-170.)
Como podemos perceber que entre esses antepassados do homem a capacidade simbólica e
o conhecimento já eram bem desenvolvidos?
6. Afirmamos que, apesar de o comportamento humano tender à ritualização e à
padronização, existe sempre a possibilidade de mudança. Você concorda com essa
afirmação? Argumente.
7. Que afinidade havia entre o pensamento grego e a ideia de ciência? , -,., .a-
8. Qual a importância do Renascimento para o desenvolvimento do saber?
9. Quais as necessidades do mundo moderno que propiciaram o surgimento da sociologia?
10. Faça uma pequena pesquisa procurando identificar nos acontecimentos do século XIX
aqueles que teriam levado à organização do pensamento sociológico como consequência da
necessidade de se conhecer melhor as bases da vida social.
11. Qual a importância da sociologia no mundo de hoje?
12. Discuta problemas da vida em sociedade no mundo atual que na sua opinião poderiam
ser objeto de estudos sociológicos.
1 Vídeo: O enigma de Kaspar Hauser (Alemanha, 1975. Direção de Werner Herzog.
Duração: " 31 min.) — Filme que relata um fato verídico: um garoto, criado até os 18 anos
trancado em um quarto e sem contato com outras pessoas, é deixado na praça pública de
uma cidade alemã.
Tome nota de como era o comportamento do herói assim que sai da casa onde vivera e
chega à cidade. Descreva a maneira como as pessoas lhe ensinam os costumes e formas de
comportamento do povoado.
Outro ponto importante a observar é que o herói, por seu comportamento incomum, é
vítima de preconceito e curiosidade por parte dos habitantes do povoado. Explique por que
há a tendência a rejeitarmos as culturas diferentes da nossa.
14
2. Na reportagem "A multidão atrapalhou o socorro", da Folha de S.Paulo, de 2-2-1974,
acerca do incêndio do edifício Joelma, podemos entender um pouco do que é o
comportamento coletivo, sua força e a maneira como se distingue do comportamento
individual. Leia o texto:
"O maior problema do deslocamento do Corpo de Bombeiros e das equipes médicas que
socorreram as vítimas do incêndio do edifício Joelma foi a grande multidão que se postou
nas proximidades do prédio, tomando inteiramente as ruas. Essa multidão invadiu áreas
isoladas, impediu a passagem das ambulâncias mobilizadas e não ajudou em nada.
A entrada dos carros de bombeiros e ambulâncias só foi possível pêlos fundos do edifício,
pela garagem. Esses veículos iam até o último pavimento da garagem, para onde eram
transportadas as pessoas feridas e os corpos carbonizados. Mas, à saída, o público, que
lentamente se avolumava, bloqueava as passagens e dificultava o socorro.
Além das ruas Santo António, João Adolfo, Vale do Anhangabaú, Avenida 9 de Julho e
Ladeira e Largo da Memória, a multidão ocupou também pontos estratégicos do centro da
cidade, de onde se avistava o edifício incendiado. Os viadutos 9 de Julho, Jacareí e Dona
Paulina, de um lado, e o Viaduto do Chá, do outro, foram literalmente tomados pela
multidão.
Somente depois das 10 horas da manhã é que a polícia conseguiu afastar um pouco os
curiosos que se mantinham na Avenida 9 de Julho e Rua João Adolfo. Para isso foi
necessária a presença de cavalarianos da Polícia Militar, de sabre em punho. Mesmo assim,
alguns curiosos ainda conseguiam se infiltrar entre os cavalos e ocupar novamente seus
postos de observação.
O outro lado da tragédia foi a grande solidariedade demonstrada pêlos paulistanos ante
mais um abalo em sua vida. Milhares de pessoas atenderam aos apelos feitos pelas
autoridades nos microfones das emissoras de rádio e tevê que cobriam o fato, •'•'*'
-procurando contribuir para diminuir o sofrimento das vítimas do incêndio.
Durante a tarde inteira, formavam-se filas nos hospitais e pronto-socorros. « Nessas
filas, homens e mulheres disputavam um lugar para fornecer o sangue pedido necessário
para o salvamento de uma vida.
No pátio defronte ao Hospital das Clínicas, tudo foi usado para acomodar os doadores
voluntários. Eles se distribuíram nos bancos dos jardins e até nas calçadas
Folha de S.Paulo, 1991, "20 textos que fizeram história".
Em grupo, procure as regularidades dessas pessoas ou da multidão de que fala o jornalista e
elabore uma reportagem aplicando esse conhecimento e descrevendo um comportamento
coletivo.
3. Letra inédita do grupo Mamonas Assassinas, autoria de Dinho.
Onon onon onon
Onon era trabalhador, tirava hora de almoço pra comer, da marmita um pão com dois oião e
um copo geladão de leite C.
Onon gostava de badalação. No Faustão ele queria aparecer, percebendo que não tinha ;
nem um pão, então resolveu ser.
15
Onon, tome cuidado, lhe dizia sua avó, não gaste todo seu dinheiro no forró, meu Deus do
céu quando esse moço vai crescer.
Onon, você precisa mesmo é se casar, tomar juízo e aprender a me respeitar
Oh Onon Onon.
:
Onon gostava de criança, então um dia um anjo lhe falou: O programa Porta da Esperança
a presidente da República ganhou Onon sabia que era importante, agora é presidente do
Brasil, sua vida já não é como era antes: passou roupa, passou fome, passou frio. Onon,
tome cuidado, lhe dizia sua vó Oh Onon Onon. Onon com essa cara diferente, Onon, Agora
é presidente Onon Sujeitinho indecente Onon. Na boca não tem um dente. Onon, Onon,
Onon para presidente, Onon para presidente. De que maneira percebemos na letra dessa
música a busca de regularidades da vida social em relação a grupos sociais como
trabalhadores e políticos?
Tema para debate O agricultor e seu planejamento
Pretendemos, neste artigo, tentar imaginar como um tradicional produtor de 35 planejaria a
sua atividade para os próximos anos. Para tanto, vamos consi-ar hipoteticamente um
proprietário de terras que tem o perfil, como agricultor, nédia dos produtores. Sua gleba é
apropriada para o cultivo de cereais, ainda ? tenha, no passado, se inclinado ao cultivo do
café e da cana-de-açúcar. Suas quinas e implementos agrícolas são próprios para a cultura
de milho, soja e D, principais produtos que comercializa.
Nosso personagem — como a maioria de nossos agricultores — também amargou
temporadas assaz críticas, máxime nos últimos anos. Momentos houve desânimo, de
desolação, de tristeza. Pensou muitas vezes em abandonar, como,tos outros, a atividade
tradicional da família, pois sentia a aproximação de ser ,obrigado a vender suas terras para
honrar seus compromissos. O ponto alto dessa
ocorreu em 1983.
16
O nosso produtor, mesmo em face dessas adversidades, sempre acreditando que o "sucesso
de amanhã depende do nosso trabalho de hoje", redobrou suas forças e continuou com o seu
trabalho perseverante, apostando, nos últimos meses, no cultivo do trigo.
Folha de S.Paulo, 22 jan. 1987.
Como podemos perceber, nessa notícia, a penetração do pensamento sociológico nos meios
de comunicação de massa?
Leitura Complementar
Sobre a sociologia pré-científica
A sociologia, como modo de explicação científica do comportamento social e das
condições sociais de existência dos seres vivos, representa um produto recente do
pensamento moderno. Alguns especialistas procuram traçar as suas origens a partir da
filosofia clássica da Grécia, da China ou da índia. Isso faz tanto sentido quanto ligá-la às
formas pré-filosóficas do pensamento. Na verdade, toda cultura dispõe de técnicas de
explicação do mundo, cujas aplicações são muito variadas. Entre as aplicações que elas
podem receber, estão as que dizem respeito ao próprio homem, às suas relações com a
natureza, com os animais ou com outros seres humanos, às instituições sociais, ao sagrado e
ao destino humano. O mito, a religião e a filosofia constituem as principais formas pré-
científicas de consciência e de explicação das condições de existência social.
Tais modalidades de representação da vida social nada têm em comum com a sociologia.
Elas surpreendem, às vezes com espírito sistemático e com profundidade crítica, facetas
complexas da vida social. Também desempenharam ou desempenham, em seus contextos
culturais, funções intelectuais similares às que cabem à sociologia na civilização industrial
moderna; pois todas servem aos mesmos propósitos e às mesmas necessidades de
explicação da posição do homem no cosmos. Entretanto, nenhum desses pontos de contato
oferece base à suposição de que essas formas pré-científicas de consciência ou da
explicação da vida social tenham contribuído para a formação e o desenvolvimento da
sociologia. Em particular, elas envolvem tipos de raciocínio fundamentalmente distintos e
opostos ao raciocínio científico. Mesmo as filosofias greco-romanas e medievais, que
deram relevo especial à reflexão sistemática sobre a natureza humana e a organização das
sociedades, contrastam singularmente com a explicação sociológica. É que, como notou
Durkheim, "elas tinham, com efeito, por objeto não explicar as sociedades tais ou quais elas
são ou tais ou quais elas foram, mas indagar o que as sociedades devem ser, como elas
devem organizar-se, para serem tão perfeitas quanto possível". :
Florestan Fernandes, Ensaios de sociologia geral e aplicada, p. 30-31.
17
II
A SOCIOLOGIA PRÉ-CIENTÍFICA
1. O Renascimento
2. A ilustração 'e a sociedade contratual
3. A das explicações religiosas e o triunfo da ciência
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1 O Renascimento
Introdução
O Renascimento, talvez mais do que a maioria dos diversos momentos históricos, suscita
grandes controvérsias. Há quem veja nesse movimento filosófico e artístico o momento de
ruptura entre o mundo medieval — com suas características de sociedade agrária,
estamental, teocrática e fundiária — e o mundo moderno urbano, burguês e comercial.
Mudanças significativas ocorrem na Europa a partir de meados do século XV lançando as
bases do que viria a ser, séculos depois, o mundo contemporâneo. A Europa medieval,
relativamente estável e fechada, inicia um processo de abertura e expansão comercial e
marítima. A identidade das pessoas, até então baseada no clã e na propriedade fundiária, vai
sendo progressivamente substituída pela identidade nacional e pelo individualismo. A
mentalidade vai se tornando paulatinamente laica — desligada das questões sagradas e
transcendentais —, as preocupações metafísicas vão convivendo com outras mais
imediatistas e materiais, centradas principalmente no homem.
Embora as preocupações metafísicas e filosóficas tenham importado ao homem desde a
Antiguidade, no Renascimento a nova sociedade que emerge exige a distinção entre
conhecimento especulativo e pragmático.
Diferentes visões do Renascimento
Alguns historiadores têm uma visão otimista do Renascimento, como a tiveram também
aqueles que assim o batizaram, por terem erroneamente considerado a Idade Média como a
Idade das Trevas e do obscurantismo. Para eles as mudanças que ocorreram na Europa,
principalmente na Itália, e depois na Inglaterra e Alemanha, foram essencialmente positivas
e responsáveis pelo desenvolvimento do comércio e da navegação, do contato com outros
povos, pela proliferação de obras de arte e de obras filosóficas. Nessa ótica foi o
movimento renascentista que promoveu o renascer da cultura e da erudição, o gosto pelo
saber, além de tê-los, aos poucos, posto à disposição da população em geral.
Mas há também os historiadores mais pessimistas, que conseguem perceber nessa época um
período de grande turbulência social e política. Para essa análise, esses historiadores
apóiam-se na falta de unidade política e religiosa, nos grandes conflitos existentes entre as
nações, nas guerras intermináveis, nas inquisições e perseguições religiosas, no esforço de
conservação.
19
Ilustração da Divina comédia, escrita por Dante Alighieri. Nela, o artista expressa sua visão
da sociedade da época.
de um mundo que agonizava, características marcantes do período. Consideram sintomas
de tudo isso os exílios, as condenações e os longos processos políticos e eclesiásticos, os
grandes genocídios que a Europa promoveu na América e o ressurgimento da escravidão
como instituição legal.
De fato, um certo clima de fim de mundo perpassa a produção artística período, expresso na
Divina comédia de Dante Alighieri, no Juízo final de Michelângelo, pintado na Capela
Sistina e em vários quadros do artista flamengo Heironymus Bosch. Um clima de
insegurança e instabilidade perpassa a todos nessa época de profunda transição.
A retomada do espírito especulativo
De qualquer maneira, 'o Renascimento marca uma nova postura do homem ocidental diante
da natureza e do conhecimento. Juntamente com o é descrédito na Igreja como instituição e
o consequente aparecimento de no-; TOS credos e seitas — que conclamavam os fiéis a
uma leitura interpretativa ' das escrituras —, o homem renascentista retoma a crença no
pensamento especulativo. O conhecimento deixa de ser revelado, como resultado de uma |
ividade de contemplação e fé, para voltar a ser o que era antes entre gregos e romanos — o
resultado de uma bem conduzida atividade mental.
Assim como a ciência, a arte também se volta para a realidade concreta, para o mundo
terreno, numa ânsia por conhecê-lo, descrevendo-o, analisando-o, medindo-o, quer com
medidas precisas, quer por meio de uma perspectiva geométrica e plana.
"O visível é também inteligível", afirmava Leonardo da Vinci, encantado com as
possibilidades de conhecimento pelo do uso dos sentidos.
Por outro lado, a vida terrena adquire cada vez às importância e com ela a própria história,
que
O Renascimento se caracteriza por uma nova postura do homem ocidental diante da
natureza e do conhecimento.
20
passa a ter uma dimensão eminentemente humana. Estimulado pelo individualismo e liberto
dos valores que o prendiam irremediavelmente à família e ao clã, o homem já concebe seu
papel na história como agente dos acontecimentos. Ele vai aos poucos abandonando a
concepção que o tomava por pecador e decaído, um ser em permanente dívida para com
Deus, para se tornar, na nova perspectiva, o agente da história.
Shakespeare evoca constantemente em suas peças a tragédia do homem diante de suas
opções e sentimentos, enquanto Michelangelo faz quase se encontrarem os dedos de Deus e
Adão na cena da Criação.
É nesse ambiente de renovação que o pensamento científico tomará novo fôlego e, com ele,
o pensamento acerca da vida social.
Um novo pensamento social
Num mundo que se torna cada vez mais laico e livre da tutela da Igreja Católica, o homem
se sente livre para pensar e criticar a realidade que vê e vivência. Sente-se livre para
analisar essa realidade como algo em si mesmo e não como um castigo que Deus lhe
reservou. E, assim como os pintores que se debruçaram nas minúcias das paisagens, na
disposição das figuras numa perspectiva geométrica, os filósofos também passam a
questionar e dissecar a realidade social. A vida dos homens passa a ser fruto de suas ações e
escolhas, e não dos desígnios da justiça divina.
Novas instituições políticas e sociais, estados nacionais, exércitos, levam os homens a
repensar a vida social e a história.
21
Ao mesmo tempo, emerge uma nova classe social — a burguesia comercial —, com novas
aspirações e interesses, que renova o pensamento social.
Nessa visão humana e especulativa da vida social está o germe do pensamento social
moderno que vai se expressar na literatura, na pintura, na filosofia e, em especial, na
literatura utópica de Thomas Morus (A Utopia), Tommaso Campanella (A cidade do Sol) e
Francis Bacon (Nova Atlântidá).
Utopias
Como Platão, os filósofos renascentistas tentaram imaginar uma sociedade perfeita. Assim
como a Atlântida, surge através da pena de Thomas Morus uma comunidade onde todas as
soluções foram encontradas: a Utopiá. Uma ilha cujo nome significa "nenhum lugar", onde
existe harmonia, equilíbrio e virtude.
Desse modo, o pensamento social no Renascimento se expressa na intenção imaginária de
mundos ideais que mostrariam como a realidade deveria ser, sugerindo entretanto que tal
sociedade seria construída pelos homens com sua ação e não pela crença ou pela fé.
Utopia é uma ilha onde reina a igualdade e a concórdia. Todos têm sob í mesmas condições
de vida e executam em rodízio os mesmos trabalhos. A igualdade e ps ideais comunitários
são garantidos por uma monarquia constitucional. Cada grupo de 30 famílias escolhe um
representante para o cônscio que elege o imperador; este permanece até o fim da vida como
soberano, ib o olhar vigilante do conselho, que opina sobre cada ato real e pode consultar
previamente as famílias, quando considerar necessário.
Além da igualdade quanto ao estilo de vida e ao trabalho, também a distribuição de
alimentos se dá de forma comunitária. Não há necessidade e pagar por nada, porque há de
tudo em profusão, uma vez que a vida é simples, sem luxo e todos trabalham.
Em A Utopia, Thomas Morus expressa os ideais de vida moderada, palitaria e laboriosa,
semelhantes aos praticados pêlos monges nos mosteiros pré-renascentistas, assim como
defende, em termos políticos, a monarquia absoluta.
Utopia vem dos termos gregos ou (não) e topos (lugar). Significaria literalmente "nenhum
lugar". Corresponde na história do conhecimento a essa evocação, através de uma
aspiração, sonho ou desejo manifesto, de um estado de perfeição sempre imaginário. Na
medida, entretanto, em que a utopia enfoca um estado de perfeição, ela realiza, por
oposição, um exercício de análise, crítica e denúncia da sociedade vigente. O estado de
perfeição ensejado na utopia é necessariamente aquele no qual se tornam evidentes as
imperfeições da realidade em que se vive.
Mas, apesar de seu caráter de evasão da realidade, a utopia revela uma apurada crítica à
ordem social, podendo inclusive se transformar em autêntica força revolucionária, como
indicam os grandes movimentos messiânicos vividos pela humanidade, ou seja, aqueles
movimentos que têm por meta a redução da humanidade ou a salvação do mundo.
22
Thomas Morus
(1478-1535)
Nasceu em Londres. Foi pensador, estadista, advogado e membro da Câmara dos Comuns.
Como bom humanista, desenvolveu estudos sobre o grego antigo. Em 1518, foi nomeado
membro do Conselho Secreto de Henrique VIII e chegou em 1529 a ocupar o mais alto
cargo do reino. Opôs-se à anulação do casamento de Henrique VIII, recusando-se a jurar
fidelidade à Igreja Anglicana fundada pelo rei, em parte por ser católico e em parte por ser
contrário aos desmandos da autoridade real. Foi preso, condenado e executado. Em 1935
foi canonizado pela Igreja Católica e sua festa é celebrada em 6 de julho, dia de sua morte.
Sua grande obra é A Utopia.
Seria A Utopia uma obra sociológica? Não no sentido moderno ou científico do conceito,
mas como expressão das preocupações do filósofo com a vida social e com os problemas de
sua época. Toda a vida ou, como o próprio autor . chama, o "regime social" dos utopienses
demonstra claramente a preocupação com o estabelecimento de regras sociais mais justas e
humanas como resposta às críticas que o autor fez em relação à Inglaterra de seu tempo.
Analisar a sociedade em suas contradições e visualizar uma maneira de resolvê-las,
acreditar que da organização das relações políticas, econômicas e sociais derivam a
felicidade do homem e seu bem-estar é, seguramente, o germe do pensamento sociológico.
E, refletindo basicamente os anseios de sua época, Thomas Morus considera esse mundo
ideal possível, graças ao plano sábio de um monarca absoluto: Utopos, fundador da Utopia.
O monarca esclarecido, justo e sábio é o ideal político do Renascimento, organizador das
sociedades perfeitas criadas pela literatura de Thomas Morus e de outros.  . . . i .;-.-..
Analisar as contradições sociais e procurar resolvê-las, acreditar que o bem-estar do homem
depende das condições sociais é o germe do pensamento sociológico.
Maquiavel: o criador da ciência política
Nicolau Maquiavel, pensador florentino, escreveu um livro, O príncipe, dedicado a
Lourenço de Mediei (1449-1492), governador de Florença, prote-tor das artes e das letras,
ele mesmo um ditador. Nesse livro, Maquiavel se propõe a explorar as condições pelas
quais um monarca absoluto é capaz de fazer conquistas, reinar e manter seu poder.
Como Thomas Morus, Maquiavel acredita que o poder depende das características pessoais
do príncipe — suas virtudes —, das circunstâncias históricas e de fatos que ocorrem
independentemente de sua vontade — as oportunidades. Acredita também que do bom
exercício da vida política depende a felicidade do homem e da sociedade. Mas, sendo mais
realista do que seus companheiros utopistas, Maquiavel faz de O príncipe um manual de
ação política, cujo ideal é a conquista e a manutenção do poder. Disserta
23
Nicolau Maquiavel
(1469-1527)
Nasceu em Florença, mas fez sua carreira diplomática em diversos países da Europa. De
1502 a 1512 esteve a serviço de Soderini, presidente perpétuo de Florença. Ajudava-o nas
decisões políticas, escrevia-lhe discursos e reorganizou o exército florentino. Foi exilado e
afastado da vida pública quando Soderini foi destronado por Lourenço de Mediei. A partir
de então, limitou-se a ensinar e a escrever sobre a arte de governar e guerrear. É
considerado o fundador da ciência política e, segundo alguns, nesse campo jamais foi
superado. Suas principais obras são: O príncipe e Discursos sobre a primeira década de Tito
Lívio.
A respeito das relações que o monarca deve manter com a nobreza, o clero, o povo e seu
mistério. Mostra como deve agir o soberano para alcançar e preservar o poder, como
manipular a vontade popular e usufruir seus deres e aliados. Faz uma análise clara das bases
em que se assenta o poder político: como conseguir exércitos fiéis e corajosos, como
castigar os inimigos, como recompensar os aliançados, como destruir, na memória do povo,
a imagem dos antigos líderes.
A VISÃO LAICA DA SOCIEDADE E PODER
Em relação ao desenvolvimento do pen-tiento sociológico, Maquiavel teve mais êxi-i do
que Thomas Morus, na medida em que i objetivo foi conhecer a realidade tal cose lhe
apresentava, em vez de imaginar no ela deveria ser.
De qualquer maneira, nas1 obras de Thomas Morus e de Maquiavel percebemos como as
relações sociais passam a constituir objeto de estudo dota-»de atributos próprios e deixam
de ser, como no passado, conseqüência do acaso ou das qualidades pessoais dos sujeitos.
Ávida dos homens já aparece, nessas obras, como resultado das condições econômicas e
políticas e não de i fé ou de sua consciência individual.
Além disso, esses filósofos expressam os novos valores burgueses ao alcear os destinos da
sociedade e de sua boa organização nas mãos de um indivíduo que se distingue por
características pessoais. A monarquia proposta no Renascimento não se assenta na
legitimidade do sangue ou da linhagem, na herança ou na tradição, mas na capacidade
pessoal do governante e na sabedoria. A história, tanto como ciência quanto como
conhecimento dos fatos, passa a ter um papel relevante nesse novo contexto. Desconhecer a
história é desconhecer a evolução e as leis que regem a sociedade onde se
Nicolau Maquiavel, autor de O príncipe, é considerado o fundador da ciência política.
24
vive. Nessa ideia de monarquia se baseia a aliança que a burguesia estabelece com os reis
para o surgimento dos estados nacionais, onde a ordem social será tanto mais atingível
quanto mais o soberano agir como estadista, pondo em marcha as forças econômicas do
capitalismo em formação.
Atividades
1. Qual era a forma de identidade social do homem medieval?
2. O que você aprendeu neste capítulo sobre a mentalidade do homem renascentista?
3. Como a tutela da Igreja impedia o florescimento do pensamento e da crítica social?
4. Você acha que, hoje, a Igreja Católica impede ou incentiva o desenvolvimento do
pensamento e da crítica social? Faça uma pesquisa a respeito utilizando notícias sobre as
campanhas empreendidas pela Igreja e que estão presentes nos meios de comunicação de
massa.
5. O que você entendeu por utopia? Escreva com suas palavras a partir do que foi expresso
no texto.
6. Faça uma pesquisa e discuta os significados que as pessoas dão comumente ao termo
utopia.
7. "E, como disse ter sido preciso, para que fosse conhecida a virtude de Moisés, que o
povo de Israel fosse escravo do Egito; para conhecer-se a grandeza de alma de Ciro, que
estivessem os persas oprimidos pêlos medas - assim modernamente, desejando-se conhecer
o valor de um príncipe italiano, seria preciso que a Itália chegasse ao ponto em que hoje se
encontra. Que estivesse mais escravizada do que os hebreus, mais oprimida que os persas,
mais dispersa que os atenienses, sem chefe, sem ordem, batida, espoliada, lacerada,
invadida, e que houvesse, por fim, sofrido toda espécie de calamidade." (p. 81)
Nesse trecho de O príncipe, como Maquiavel descreve a situação da Itália?
8. Comparando as propostas de Thomas Morus e Maquiavel, que aspectos elas têm em
comum?
9. Em que sentido a obra de Maquiavel se distingue das demais manifestações de literatura
utópica?
10. Faça com o seu grupo de trabalho o seguinte exercício: a partir do levantamento de
críticas à sua sociedade, descreva uma sociedade utópica na qual essas questões seriam
solucionadas.
Aplicação de conceitos
1. A ideia de que existe um espaço onde reina a felicidade e onde as necessidades do
homem serão satisfeitas está presente na literatura em todos os tempos. A literatura
brasileira tem um bom exemplo — o poema de Manuel Bandeira, "Vou-me embora
pra Pasárgada", em que ele descreve assim sua utopia:
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Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsequente;
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive
E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei um burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar Vou-me embora pra Pasárgada '?
Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar
E quando eu estiver mais triste
triste de não ter jeito ,
Quando de noite me
Vontade de me
, — Lá sou amigo do rei—
Terei a mulher que eu quero.
Na cama que escolherei Vou-me embora pra Pasárgada.
Manuel Bandeira, Estrela da vida inteira, Rio de Janeiro, José Olympio, 1974.
Analise o poema e tente imaginar essa utopia do poeta retirando dela os princípios de
ordem ocial criados nessa sociedade ideal para o escritor.
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2. Em Romeu e Julieta, Shakespeare aborda o conflito entre o indivíduo e a sociedade, uma
vez que o drama dos amantes de Verona decorre da oposição entre as regras sociais
vigentes e a vontade individual dos heróis. Na seguinte fala de Julieta essa questão fica
clara:
"Somente teu nome é meu inimigo. Tu és tu mesmo, sejas ou não um Montechio. Que é um
Montechio? Não é mão, nem braço nem rosto, nem outra parte qualquer pertencente a um
homem. Oh! sê outro nome! Que há em um nome? O que chamamos de rosa, com outro
nome exalaria o mesmo perfume tão agradável; e assim, Romeu, se não se chamasse
Romeu, conservaria essa cara perfeição que possui sem o título. Romeu, despoja-te de teu
nome, que não faz parte de ti, toma-me toda inteira!" , ,, ;
Analise o conteúdo social desse texto e perceba como já se colocava no Renascimento a
percepção da relação indivíduo e sociedade.
3. Analise o detalhe do Juízo final, afresco pintado por Michelângelo na Capela Sistina, e
procure identificar os elementos renascentistas presentes na pintura.
4. Vídeos: a) Agonia e êxtase (EUA, 1965. Direção de Carol Reed. Baseado no romance de
Irving Stone. Duração: 140 min.) — Um pequeno documentário dramatizando os conflitos
de valores, arte, religião e realização pessoal entre o pintor renascentista italiano
Michelângelo e seu patrocinador, o papa Júlio II.
Observe como se estrutura a Igreja e a sociedade em torno de valores burgueses
emergentes.
b) Giordano Bruno (Itália, 1973. Direção de Giuliano Montaldo. Duração: 123 min.) —
Esse filme mostra a sociedade italiana do século XVI na qual o filósofo e astrónomo
Giordano Bruno é condenado à morte pela Inquisição por se opor à tradição geocêntrica da
Igreja Católica.
Aborda o conflito entre a ciência e a religião na ótica de Giordano e da Igreja Católica.
Tema para debate
Ficção científica — a utopia contemporânea
A literatura utópica é apontada como tendo surgido na Grécia, com Platão, em seus livros
Timeue Crítias, e com Aristófanes, em Os pássaros. Depois deles, Luciano Samosata,
prosador grego do século II, também se dedicou ao género. Outros filósofos como Swift e
Voltaire escreveram obras utópicas bastante conhecidas.
Kingsley Amis, estudioso da matéria, considera A Utopia, de Thomas Morus, e Nova
Atlântida, de Francis Bacon, os melhores exemplos do género, por reunirem forte crítica
social e invenção criadora. Por isso, considera-as precursoras da ficção atual, de onde
brotariam as utopias contemporâneas.
H. L. Gold, diretor da revista de ficção científica Galaxy, afirma: "Poucas coisas revelam
tão nitidamente quanto a ficção científica os desejos, as esperanças, os temores, os conflitos
interiores e as tensões de uma época, ou definem com tanta exatidão as suas limitações".
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Leituras complementares
[Sobre o surgimento do pensamento crítico — Maquiavel]
É extremamente provável que tenha sido o trato cotidiano com assuntos políticos que, pela
primeira vez, deu consciência e senso crítico ao homem face ao elemento ideológico de seu
pensamento. Durante a Renascença, entre os concidadãos de Maquiavel, emergiu um novo
adágio chamando a atenção para ma observação comum na época — que era a de que o
pensamento do palácio é ma coisa, e o da praça pública é outra. Isto era uma expressão do
crescente grau m que o público ganhava acesso aos segredos da política. Podemos aqui
observar o início do processo no decorrer do qual o que antes havia sido apenas uma «tosão
ocasional de suspeita de ceticismo, face aos pronunciamentos públicos, evoluiu para uma
procura metódica do elemento ideológico em todos eles. A diversidade de formas de
pensamento entre os homens é ainda, neste estágio, atribuída um fator que, sem exagerar o
termo indevidamente, poderia ser denominado sociológico. Maquiavel, em sua profunda
racionalidade, tomou como tarefa especifica relacionar as variações das opiniões dos
homens às variações correspondentes em seus interesses. De acordo com sua prescrição de
medicina forte para toda subjetividade das partes interessadas em uma controvérsia,
Maquiavel pare-B estar explicitando e estabelecendo como regra geral do pensamento o
que estava implícito no adágio de seu tempo.
Karl Mannheim, Ideologia e utopia, p. 89.
[A república para Maquiavel]
A república é outro tema fundamental de Maquiavel. Nos Comentários sobre a primeira
década de Tito Lívio, o secretário florentino analisa a liberdade como BÉD do conflito
entre pobres e ricos no interior do corpo político. No texto de lewíon Bignotto, podemos
observar:
Deixando de lado a questão tradicional das origens das instituições, que parecia ser o
melhor caminho para a compreensão do tema que nos interessa, osso autor nos mostra não
somente que a liberdade deve ser pensada a partir dos conflitos internos de uma cidade, mas
também que nossas ideias sobre a criação das instituições políticas devem ser revistas. A
liberdade, tão adorada dos florentinos, mas tão pouco realizada, é o produto de forças em
luta, o resultado de um processo que não pode ser extinto com o tempo. Os conflitos são os
indutores da melhor das instituições, e não o elemento incongruente de um período infeliz
na história de um povo. Maquiavel resume seu pensamento numa frase lapidar:"... e deve-se
considerar como existem em toda república dois humores diversos: o do povo e o dos
grandes, e toda lei que se faz em favor da liberdade nasce da desunião entre eles".
Para passar da ideia de uma sociedade ideal inteiramente voltada para a paz ao elogio da
sociedade tumultuaria, foi preciso um enorme esforço de elaboração
28
Para fortalecer a criação de um novo continente, Maquiavel lançou mão do fato de que
nenhuma sociedade viveu até hoje sem conflitos. Se isso não prova que eles tiveram um
papel positivo na história, demonstra, pelo menos, que uma sociedade totalmente imersa na
paz é talvez a ficção de mentes bondosas, mas não o espelho da condição humana. A
novidade, portanto, não é a afirmação da maldade dos homens, mas a de que essa maldade
não impede a criação de instituições boas. Mais radicalmente ainda, podemos dizer que é da
propensão ao conflito que nasce a possibilidade da liberdade. A liberdade é, portanto, o
resultado de conflitos, uma solução possível de uma luta que não pode ser extinta por
nenhuma criação humana. De uma problemática antropológica passamos a conceber a
política como uma forma da guerra. Mas a guerra não significa aqui a pura negatividade,
ela aponta para o verdadeiro ponto de partida de toda reflexão sobre a política, que é a
existência de desejos opostos na polis.
Voltando, assim, ao tema dos desejos opostos que povoam as cidades, aprendemos com a
seqüência do texto que o desejo do povo é que está mais próximo da liberdade, pois, não
sendo um desejo de poder, mostra uma face importante da liberdade: a não-opressão. "E os
desejos dos povos livres raras vezes são perniciosos à liberdade, porque nascem ou da
opressão que eles sofrem, ou da suspeição de que poderão sofrê-la."
Das duas forças principais que dividem a cidade, não podemos dizer que elas sejam o
inverso simétrico uma da outra. O povo, não visando à mesma coisa que os grandes, não
pode ser compreendido pela imagem do inimigo organizado num campo de batalha. Daí
resulta que a liberdade não é um meio-termo estático que satisfaz os desejos dos dois
oponentes. Tal fim é absolutamente impossível de ser alcançado por dois adversários que
não têm o mesmo objetivo. A liberdade, mais do que uma solução permanente para as lutas
internas de uma cidade, é o signo de sua capacidade de acolher forças que, não podendo ser
satisfeitas, não deixam de buscar meios de se exprimir.
Newton Bignotto, Maquiavel republicano, São Paulo, Loyola, 1991, p. 85.
29
2 A Ilustração e a sociedade contratual
Introdução: uma nova etapa no pensamento burguês
O Renascimento desenvolveu nos homens novos valores, diferentes daqueles vigentes na
Idade Média. Os valores renascentistas estavam mais adequados ao espírito do capitalismo,
um sistema econômico voltado para a produçãoção e a troca, para a expansão comercial,
para a circulação crescente de mercadorias e para o consumo de bens materiais. Instalava-se
uma sociedade baseada na distinção pela posse de riqueza e não pela origem, nome e
propriedade fundiária.
Essa mudança radical no mundo ocidental exigia uma nova ordem social, dirigida por
pessoas dispostas a buscar um espaço no mundo, a competir por mercados e a responder de
forma produtiva à ampliação do consumo, Pessoas cuja vida estivesse direcionada para a
existência terrena e suas conquistas, e não para a vida após a morte e para os valores
transcendentais. Todas essas mudanças se anunciavam no Renascimento e se tornavam vez
mais radicais à medida que se adentrava a Idade Moderna e a Revolução Industrial se
tornava realidade.
A nova concepção de lucro, elaborada e praticada pelo comerciante burguês; renascentista,
é a marca decisiva da ruptura com os valores e as ideias do mundo medieval. O lucro não é
mais apenas o valor que se paga ao comerciante • trabalho realizado. O lucro expressa a
premissa da acumulação, da ostenta-, da diferenciação individual e assim realiza a ideia de
que tenho o direito de • o máximo que uma pessoa pode pagar. A ideia e a realização do
lucro não i de forma alguma novas. Eram conhecidas desde a Antiguidade, a partir do
momento em que surgiu o comércio usando o dinheiro como equivalente de i e, em
decorrência, a acumulação de riqueza. No entanto, a forma de pensar atiçar o lucro era
distinta. Enquanto no Império Romano o comércio realiza-|com a prática de preços
considerados abusivos era considerado ilegal e pouco e, e a Igreja Católica considerava
pecaminosa a atividade lucrativa, no capitalismo, o lucro tornou-se a finalidade de qualquer
atividade econômica. Vejamos i situação hipotética: na Grécia, um armador vivia da com-,
do transporte e da venda de azeitonas à Europa. O preço l do produto remunerava o
comerciante por seu trabalho intermediação. Nesse preço estavam embutidas a reposição
dos navios e dos escravos e a viagem de volta. Muitos comerciantes enriqueceram, porque
agora também se cobra-i máximo possível pela mercadoria. Essa forma de entender
O pensamento burguês representou uma ruptura com relação ao mundo medieval.
30
o lucro era nova na história e foi instaurada pela burguesia a partir do Renascimento.
Se um comerciante pode auferir numa troca comercial o maior preço possível que a
situação permite — resultante da relação entre oferta e procura e de outras condições
produtivas e de mercado —, então é preciso que a produção seja organizada de forma mais
racional e em larga escala. O fato de a concorrência ser cada vez maior também exige
maior racionalidade e previsão. A procura por novas técnicas mais eficientes se torna uma
constante. Muitos prêmios são oferecidos aos inventores, e projetos como os de Leonardo
da Vinci, que ficaram apenas no papel, passam a fazer enorme sucesso. Desenvolvem-se a
ciência e a tecnologia, enquanto na filosofia cada vez mais se procuram as raízes das
formas de pensar.
O Renascimento introduziu e desenvolveu o antropocentrismo, a laicidade, o
individualismo e o racionalismo. Com relação à vida social, passou a concebê-la como uma
realidade própria sobre a qual os homens atuam; percebeu-se também a existência de
diferentes modelos — a República, a Monarquia — e passou-se a analisá-los e a defender
um ou outro modelo. Conseguiu-se vislumbrar a oposição entre indivíduo e sociedade,
entre vontade individual e regras sociais.
A sociedade que emergiu do movimento renascentista exaltava a livre concorrência e a
livre contratação. (Xilogravura de Jost Amman, século XVI)
Ao pregar o fim do controle do Estado sobre a economia nacional, a Ilustração ajudou o
desenvolvimento da indústria. (Londres em 1870, gravura de Gustave Doré).
31
A Ilustração, movimento filosófico que sucedeu o Renascimento, deu um passo além.
Concebeu novas ideias de vida social e entendeu a coletividade como um organismo
próprio. Começou a discernir aspectos e áreas da vida social com diferentes características
e necessidades — a agricultura, a indústria, a cidade, o campo. O conceito de nação, como
forma de organização política pela qual as populações estabelecem relações
intersocietárias, já se cristalizara na Ilustração. O nacionalismo emergente do
Renascimento, identificado ainda com o monarca e preso ao sentimento de fidelidade e
sujeição, dá lugar à noção de organismo representativo da coletividade, independentemente
de quem ocupa, por certo tempo, os cargos disponíveis.
O princípio de representatividade política, revelando um aprofundamento no entendimento
da vida social, assim como o aparecimento de teorias capazes de explicar a origem do valor
das mercadorias e outros mecanismos sociais, mostram o grau de desenvolvimento do
pensamento social. Já rã possível identificar fenômenos sociais e concebê-los em sua
natureza pró-ria diferenciada. O surgimento de conceitos, como Valor e Estado, revela a
existência de uma metodologia e a emergência de uma nova forma de conhecer a realidade
social.
O Renascimento correspondeu a uma primeira fase da sistematização o pensamento
burguês, na medida em que procurava trazer de volta à Europa os valores laicos, o gosto
pela vida e o racionalismo, e atribuía ao indivíduo valores pessoais que não provinham da
sua origem.
Embora ainda tivesse um certo caráter religioso, o Renascimento exaltava a natureza e os
prazeres da vida terrena, fossem o êxtase religioso ou o simples prazer dos sentidos, que se
consegue junto à natureza.
Nos séculos XVII e XVIII, entretanto, a burguesia avança na concepçãode uma forma de
pensar própria, capaz de transformar o conhecimento não só numa exaltação da vida e dos
feitos de seus heróis, mas também um processo que frutificasse em termos de utilidade
prática. Afinal, o desenvolvimento industrial se anunciava em toda sua potencialidade; os
empreendimentos, quando bem dirigidos, prometiam lucros miraculosos. Portanto, era
preciso preparar a sociedade para receber os resultados desse "trabalho. Os próprios sábios
deveriam se interessar em desenvolver conhecimentos de aplicação prática.
A sociedade apresentava necessidades urgentes ao desenvolvimento científico: melhorar as
condições de vida; ampliar a expectativa de sobrevivência humana a fim de engrossar as
fileiras de consumidores e, principalmente, de mão-de-obra disponível; mudar os hábitos
sociais e formar uma 'mentalidade receptiva às inovações técnicas. A prática de elaboração
dos projetos científicos para o desenvolvimento da indústria passa a ser aplicada à cidade,
pois sem um planejamento racional dos meios de transporte terrestres e marítimos, da
distribuição e armazenamento dos produtos, da minoria da infra-estrutura, todo o esforço
produtivo estaria perdido. O planejar e o projetar o futuro trouxeram consigo também o
conceito de nação, correspondendo à extensão territorial onde a burguesia de determinado
país teria total controle sobre o mercado. A nação deveria se submeter a uma organização
32
política que pudesse favorecer o desenvolvimento econômico e estimulá-lo. Dentro dessa
nova organização política da sociedade deveria privilegiar-se o indivíduo, principal motor
do progresso econômico. Este deveria estar livre das amarras impostas até então pela
sociedade feudal, pois, de posse de sua total liberdade de agir, mover-se e estabelecer-se, o
indivíduo poderia promover o progresso econômico.
Novos valores guiando a vida social para sua modernização, maior empenho das pesquisas
e do saber em conquistar avanços técnicos, melhora nas condições de vida, tudo isso
somado levou a esse surto de ideias, conhecido pelo nome de Ilustração.
Após um primeiro momento em que a existência de um poder central garantia a emergência
e a organização dessa nova ordem social, o mercado exigia liberdade de expansão. As
novas formas de pensar e agir aliavam-se à necessidade de a burguesia libertar-se das
amarras estabelecidas pelas monarquias absolutas, que não permitiam a livre iniciativa, a
liberdade de comércio e a livre concorrência de salários, preços e produtos.
Assim, a Ilustração foi essencialmente pragmática e liberal, uma vez que a burguesia queria
uma ordem econômica, política e social em que tivesse participação no poder e pudesse
realizar seus negócios sem entraves.
Podemos dizer que a burguesia já se sentia suficientemente forte e confiante em seus
próprios objetivos de vida para dispensar a figura do rei como seu aliado contra os
privilégios feudais, tal como sucedera durante a época mercantilista, em que o Estado
nacional favoreceu uma política de acumulação de capital por meio de monopólios,
fiscalização, manufaturas e colonialismo. Fortalecida, a burguesia propunha agora formas
de governo baseadas na legitimidade popular, até mesmo governos republicanos.
Conclamava o povo a aderir à defesa da igualdade jurídica e do sufrágio universal.
A filosofia social dos séculos XVII e XVIII
O pensamento da Ilustração, apoiado principalmente na contribuição dos fisiocratas (escola
econômica da época), defendia a ideia de que a economia era regida por leis naturais de
oferta e procura que tendiam a estabelecer, de maneira mais eficiente do que os decretos
reais, o melhor preço, o melhor produto e o melhor contrato, pela livre concorrência. Além
desse apreço pelo livre curso das relações econômicas, os fisiocratas, opondo-se ao uso
ocioso que a nobreza fazia de suas propriedades agrárias, propunham melhor
aproveitamento da agricultura, atividade que consideravam a principal fonte de riqueza das
nações.
Segundo esse ponto de vista, as relações econômicas e sociais eram regidas por leis físicas
e naturais que funcionariam de maneira racional, desde que não prejudicadas pela
intervenção do Estado absolutista. O controle
das relações humanas surgia, portanto, da própria dinâmica da vida econômica e social,
dotada de uma racionalidade intrínseca, cuja descoberta era a principal meta dos estudos
científicos.
O desenvolvimento do capitalismo estimulou a sistematização do pensamento sociológico.
33
A racionalidade estava na origem natural e física das leis de organização da sociedade
humana e na base da própria atividade humana e do conhecimento, tal como defendiam os
pensadores franceses René Descartes e Denis Diderot. O racionalismo cartesiano — termo
derivado de Cartesius, nome latino de Descartes — se expressava pela frase "penso, logo
existo", na qual mostrava que a razão era a essência do ser humano.
Reconhecia-se no homem, portanto, a capacidade de pensar e escolher, de opinar e resolver
sem que leis rígidas perturbassem sua conduta. No plano econômico, essa ideia se traduzia
na ânsia por liberdade de ação, empreendimento e contratação. Traduzia-se ainda na
concepção de que as relações entre os homens resultariam na livre contraposição de
vontades, na liberdade contratual. No plano político, expressava-se no objetivo de livre
escolha dos governantes, segundo o ideal de um Estado representativo da vontade popular.
Finalmente, no plano social, manifestava-se na noção de que as sociedades se baseavam em
acordos mútuos entre os indivíduos que as compunham.
Um dos pensadores que mais desenvolveu essa ideia de um pacto social originário foi Jean-
Jacques Rousseau. Em sua obra Contrato social, Rousseau afirmava que a base da
sociedade estava no interesse comum pela vida social, no consentimento unânime dos
homens em renunciar as suas vontades particulares em favor de toda a comunidade.
Para alicerçar suas ideias a respeito da legitimidade do Estado a serviço dos interesses
comuns e dos direitos naturais do homem, Rousseau procurou traçar a trajetória da
humanidade a partir do igualitarismo primitivo até a sociedade diferenciada. Para ele, a
origem dessa diferenciação estava no aparecimento da propriedade privada. Justamente por
essa crítica à propriedade, distingue-se dos demais filósofos da Ilustração.
Jean-Jacques Rousseau
(1712-1778)
Nascido em Genebra, filho de burgueses protestantes, Rousseau teve uma vida errante que
o levou continuamente da Suíça à França, à Itália e à Inglaterra. Foi aprendiz de gravador,
secretário de nobres ilustres e até seminarista. Dedicou-se também ao desenho, à pintura e à
música. Na França, foi contemporâneo de filósofos da Ilustração, como Diderot. Suas
principais obras foram Emílio, Contrato social, Discurso sobre a origem e os fundamentos
da desigualdade entre os homens e Discurso sobre as ciências e as artes. Foi alvo de críticas
severas e perseguições, mas na época da Revolução Francesa suas ideias foram
intensamente divulgadas.
John Locke, pensador inglês, também defendeu a ideia de que a sociedade resultava da livre
associação entre indivíduos dotados de razão e vontade. Para Locke, essa contratação
estabelecia, entre outras coisas, as formas de poder, as garantias de liberdade individual e o
respeito à propriedade. Seus princípios deveriam ser redigidos sob a forma de uma
constituição.
Entre os filósofos da Ilustração, ganhava adeptos a ideia de que toda matéria tinha uma
origem natural, não-divina, e que todo processo vital não
34
era senão o movimento dessa matéria, obedecendo a leis naturais. Esses princípios guiavam
o conhecimento racional da sociedade, na busca das leis naturais da organização social.
Podemos afirmar que a filosofia social da Ilustração levaria à descoberta das bases
materiais das relações sociais. Percebe-se claramente que os filósofos dessa época já
desenvolviam a consciência da diferença entre indivíduo e coletividade. Já percebiam que
esta possuía regras próprias que regulavam a vida coletiva, como as regras naturais regiam
o surgimento, o desenvolvimento e as relações entre as espécies. Mas, presos ainda à ideia
de indivíduos, esses filósofos entendiam a vida coletiva como a fusão de individualidades.
O comportamento social decorreria da manifestação explícita das vontades individuais.
A filosofia social da Ilustração levou à descoberta das bases materiais das relações sociais.
John Locke
(1632-1704)
Era inglês de Wrington. Formado em Oxford, ingressou na carreira diplomática. Durante o
período em que residiu na França, tomou contato com o método cartesiano. Sofreu
perseguições políticas na Inglaterra que o obrigaram a se refugiar na Holanda. Em sua obra
Dois tratados sobre o governo civil, defende o liberalismo político, os direitos naturais do
homem e da propriedade privada. Suas ideias políticas tiveram grande repercussão assim
como sua contribuição ao problema do conhecimento, expressa na obra Ensaio sobre o
entendimento humano, na qual repudia a proposição cartesiana de que o homem possua
ideias inatas e defende o conhecimento como resultado da experiência, da percepção e da
sensibilidade. Publicou, ainda, Epístola sobre a tolerância, Alguns pensamentos sobre
educação e Racionalidade do cristianismo.
Adam Smith: o nascimento da ciência econômica
Foi Adam Smith, considerado fundador da ciência econômica, quem demonstrou que a
análise científica podia ir além do que era expressamente manifesto nas vontades
individuais. Em sua análise sobre a riqueza das nações descobriu no trabalho, ou seja, na
produtividade, a grande fonte de riqueza. Não era somente a agricultura, como queriam os
fisiocratas, a principal fonte de bens; mas o trabalho capaz de transformar matéria bruta em
produtos com valor de mercado. Veremos adiante como essa ideia será retomada e
reelaborada no século XIX por Karl Marx.
Adam Smith revelara a importância do trabalho ao pensar a sociedade não como um
conjunto abstrato de indivíduos dotados de vontade e liberdade, tal como fizeram Rousseau
e Locke, mas ao aprender e perceber a natureza própria da vida social segundo a qual o
comportamento social obedece a regras diferentes daquelas que regem a ação individual. A
coletividade deixava de ser a soma dos indivíduos que a compõem. A Revolução Industrial
estava em pleno andamento e seus frutos se anunciavam.
35
Adam Smith
(1723-1790)
Nasceu na Escócia. Foi professor da Universidade de Glasgow. É considerado o fundador
da ciência econômica. Sua principal obra foi Investigação sobre a natureza e as causas da
riqueza das nações (A riqueza das nações). Desenvolveu ideias a respeito da divisão do
trabalho, da função da moeda e da ação dos bancos na economia. Continuou seus estudos
no livro Teoria dos sentimentos morais, no qual afirma que a vida social humana está
fundada em sentimentos de benevolência e simpatia. Foi o grande defensor do liberalismo
econômico.
Legitimidade e liberalismo
As teorias sociais da Ilustração no século XVIII foram ainda o início do pensar científico
sobre a sociedade. Tiveram o poder de orientar a ação política e lançar as bases do que viria
a ser o Estado capitalista, desenvolvido no século XIX, constitucional e democrático.
Lançaram também as bases para o movimento político pela legitimação do poder, fosse de
caráter monárquico, como na Revolução Gloriosa da Inglaterra, fosse de caráter
republicano, como na Revolução Francesa, ou ainda do tipo ditatorial, como no império
napoleônico. Tão importante quanto seu valor como forma de entendimento da vida social e
política foi sua repercussão prática na sociedade. A filosofia social desse período teve, em
relação à renascentista, a vantagem de não constituir apenas uma crítica social baseada no
que a sociedade poderia idealmente vir a ser, mas de criar projetos concretos de realização
política para a sociedade burguesa emergente.
A ideia de Estado como uma entidade cuja legitimidade se baseia na pretensa
representatividade da sociedade é um avanço em relação à ideia de monarquia absoluta. O
Estado já não é a pessoa que governa, mas uma instituição abstraía com relações precisas
com a coletividade. Além da circulação _e leis e de riquezas, o Estado criava o princípio da
circulação de poder. O confronto de interesses também 'está subjacente às ideias propostas
pêlos políticos iluministas. ' . • * ; As ideias de Locke e de Montesquieu, outro importante
pensador da Ilustração, foram a base da Constituição norte-americana de 1787. Ambos
pregaram a divisão do Estado em três poderes: legislativo, incumbido da elaboração e da
discussão das leis; executivo, encarregado da execução das leis, tendo em vista a proteção
dos direitos naturais à liberdade, à igualdade e à propriedade; e judiciário, responsável pela
fiscalização à observância das leis que asseguravam os direitos individuais e seus limites.
Essa divisão estabelecia a distribuição das tarefas governamentais e a mútua fiscalização
entre os poderes do Estado. Locke defendia, ainda, a ideia de que a origem do poder não
estava nos privilégios da tradição, da herança ou da concessão divina, mas no contrato
expresso pela livre manifestação das vontades individuais.
36
A legislação norte-americana, instituindo a divisão do Estado nos três poderes e
estabelecendo mecanismos para garantir a eleição legítima dos governantes e os direitos do
cidadão, pôs em prática os ideais políticos liberais e democráticos modernos. Os Estados
Unidos da América constituíram a primeira república liberal-democrática burguesa.
Atividades
1. "Uma vez que homem nenhum possui uma autoridade natural sobre seu semelhante, e
que a força não produz nenhum direito, restam, pois, as convenções como base de toda
autoridade legítima entre os homens." (p. 25)
Nesse trecho de Rousseau, tirado do Contrato social, o autor:
a) considera natural a autoridade de um homem sobre outro? Por quê?
b) identifica alguma base legítima para essa autoridade? Qual? Justifique.
2. "Como a natureza dá a cada homem um poder absoluto sobre todos os seus membros, dá
o pacto social ao corpo político um poder absoluto sobre todos os seus, e é esse mesmo
poder que, dirigido pela vontade geral, recebe, como eu disse, o nome de soberania." (p. 42)
A partir do trecho citado, o que é soberania, para Rousseau?
3. Leia cuidadosamente o capítulo e extraia cinco conceitos que, na sua opinião, melhor
caracterizam a Ilustração.
4. O que o homem da Ilustração esperava da ciência? E você, o que espera da ciência
hoje?
5. Em que termos se expressou o liberalismo da Ilustração nas questões econômicas?
6. Nesse capítulo procuramos explicar o liberalismo económico. Hoje vivemos um período
de reflorescimento desses princípios, que chamamos de neoliberalismo. Faça uma pesquisa
nos jornais procurando notícias a respeito.
7. Por que Adam Smith pode ser considerado o fundador da ciência económica?
8. Qual era a fonte de riqueza de uma nação para Adam Smith? Por quê?
Os trechos a seguir foram extraídos do Segundo tratado sobre o governo civil, de Locke.
Leia-os com atenção e responda às questões 9 a 11.
"O grande objetivo da entrada do homem em sociedade, consistindo na fruição da
propriedade em paz e segurança, e sendo o grande instrumento e meio disto as leis
estabelecidas nessa sociedade, a primeira lei positiva e fundamental de todas as
comunidades consiste em estabelecer o poder legislativo." (p. 86)
37
"Todavia, como as leis elaboradas imediatamente e em prazo curto têm força constante e
duradoura, precisando para isso de perpétua execução e assistência, torna-se necessária a
existência de um poder permanente que acompanhe a execução das leis que se elaboram e
ficam em vigor." (p. 91)
"Em todos os casos, enquanto subsiste o governo, o legislativo é o poder superior; o que
deve dar leis a outrem deve necessariamente ser-lhe superior." (p. 94)
9. Como Locke justifica a criação do poder legislativo e do poder executivo?
10. Qual deve ser, segundo Locke, a relação entre os poderes legislativo e executivo?
11. Para Locke, os poderes executivo e legislativo podem ser exercidos ao mesmo tempo
pelas mesmas pessoas? Por quê?
Aplicação de conceitos,
1. Vídeo: Danton, o processo da revolução (França, 1982. Direção de Andrej Wajda.
Duração: 136 min.) — Essa obra retrata a segunda fase da Revolução Francesa, o período
do Terror, marca o debate entre os jacobinos Danton e Robespierre, este fortemente
comprometido com as razões do Estado.
Procure perceber como na Revolução Francesa é criado o Estado burguês proposto pela
Ilustração.
Tema para debate.
A racionalização do pensamento burguês recomeça com a segunda época, isto é, na
manufatura relativamente desenvolvida. Só então a classe burguesa se mostra como um fato
social firmemente estabelecido, isto é, só então a posição social dos indivíduos adota
formas relativamente estáveis, e a inquietude da ascensão e da decadência, do progresso e
do retrocesso, não constitui mais o as-oecto predominante na imagem da sociedade.
Leo Kofler, Contribución a Ia historia de Ia sociedad burguesa, p. 283.
Segundo o autor, quais as condições sociais e econômicas que favorecem o
desenvolvimento do pensamento burguês do século XVII?
Leitura Complementar
As duas faces do liberalismo
Se, portanto, queremos compreender e apreciar o liberalismo, não temos que escolher entre
as duas interpretações, não temos que optar entre o aspecto ideológico e a abordagem
sociológica. Ambos concorrem para definir a originalidade do liberalismo e para revelar o
que constitui um de seus traços essenciais,
38
essa ambigüidade que faz com que o liberalismo tenha podido ser, alternativamente,
revolucionário e conservador, subversivo e conformista. Os mesmos homens passarão da
oposição para o poder; os mesmos partidos passarão do combate ao regime à defesa das
instituições. Agindo assim, eles nada mais farão do que revelar sucessivamente dois
aspectos complementares dessa mesma doutrina, ambígua por si mesma, que rejeita o
Antigo Regime e que não quer a democracia integral, que se situa a meio caminho entre
esses dois extremos e cuja melhor definição é, sem dúvida, o apelido dado à Monarquia de
Julho: "o justo meio". É porque o liberalismo é um justo meio que, visto da direita, parece
revolucionário e, visto da esquerda, parece conservador. Ele travou, sucessivamente, dois
combates, em duas frentes diferentes: primeiro, contra a conservação, o absolutismo;
depois, contra o impulso das forças sociais, de doutrinas políticas mais avançadas que ele
próprio: o radicalismo, a democracia integral, o socialismo.
É a conjunção do ideal e da realidade, a convergência de aspirações intelectuais e
sentimentais, mas também de interesses bem palpáveis, que constituíram a força do
movimento liberal, entre 1815 e 1840. Reduzido a uma filosofia política, ele sem dúvida
não teria mobilizado grandes batalhões; confundido com a defesa pura e simples de
interesses, ele não teria suscitado adesões desinteressadas, que foram até o sacrifício
supremo.
O liberalismo transformou a Europa tal qual era em 1815, ora graças às reformas —
fazendo uso da evolução progressiva, sem violência —, ora lançando mão da evolução por
meio da mudança revolucionária. Entre esses dois métodos, o liberalismo, em sua doutrina,
não encontra razão para preferir um ao outro. Se ele pode evitar a revolução, alegra-se com
isso. Na verdade isso aconteceu muito raramente.
Talvez somente na Inglaterra, nos Países Baixos e nos países escandinavos é que o
liberalismo transformou pouco a pouco o regime e a sociedade por meio de reformas. Em
todos os outros lugares, acossado pela resistência obstinada dos defensores da ordem
estabelecida, que recusava qualquer concessão, o liberalismo recorreu ao método
revolucionário. É a atitude de Carlos X, em 1830, e a promulgação de ordenanças que
violavam o pacto de 1814, que levam os liberais a fazer a revolução para derrubar a
dinastia. É assim também que a política obstinada de Metternich levará a Áustria, em 1848,
à revolução.
René Remond, O século XIX; 1818-1914, p. 34-35
39
A crise das explicações religiosas e o triunfo da ciência
Introdução: o milagre da ciência
Vários aspectos da filosofia da Ilustração prepararam o surgimento das ciências sociais no
século XIX. O primeiro deles foi a sistematização do pensamento científico. Os efeitos de
novos inventos, como o pára-raios e as vacinas, o desenvolvimento da mecânica, da
química e da farmácia, eram amplamente verificáveis e pareciam coroar de êxitos as
atividades científicas. Claro está que a sociedade européia da época não se dava conta das
nefastas conseqüências que a Revolução Industrial do século XVIII traria para o mundo
tradicional agrário e manufatureiro. Aos olhos dos homens da época, eram vitoriosas as
conquistas do conhecimento humano, no sentido de abrir caminho para o controle sobre as
leis da natureza.
As ideias de progresso, racionalismo e cientificismo exerceram todo um encanto sobre a
mentalidade da época. A vida parecia submeter-se aos ditames do homem esclarecido.
Preparava-se o caminho para o amplo progresso científico que aflorou no final do século
XIX.
Se a ciência tinha sucesso na explicação da natureza, poderia também explicar a sociedade,
como elemento da natureza.
Em oposição à religiosidade medieval, a ciência na era moderna se afirmava como
sinônimo de verdade e progresso. (Tela elaborada para a Grande Exposição de 1851 na
Grã-Bretanha)
40
Se esse pensamento racional e científico parecia válido para explicar a natureza, intervir
sobre ela e transformá-la, ele poderia também explicar a sociedade vista como um elemento
da natureza. E a sociedade, da mesma forma que a natureza, poderia ser conhecida e
transformada.
As questões de método
O filósofo da Ilustração, além de preocupar-se com a descoberta das leis que regiam o
próprio conhecimento, queria conhecer a natureza e intervir sobre ela. Dessa preocupação
provieram as discussões em torno do método científico. A indução, método que concebia o
conhecimento como resultado da experimentação contínua e do aprofundamento da
manipulação empírica, havia sido desenvolvida por Bacon desde o fim do Renascimento.
Em contraposição, Descartes defendia a validade do método dedutivo, ou seja, aquele que
possibilitava descobertas pelo encadeamento lógico de hipóteses elaboradas exclusivamente
a partir da razão.
A ciência se fundava, portanto, como um conjunto de ideias que diziam respeito à natureza
dos fatos e aos métodos para compreendê-los. Por isso, as primeiras questões que os
sociólogos do século XIX tentarão responder serão relativas à definição dos fatos sociais e
ao método de investigação. Tanto o método indutivo de Bacon como o dedutivo de
Descartes serão traduzidos em procedimentos válidos para as pesquisas sobre a natureza da
sociedade.
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Cristina costa sociologia ciencia da sociedade

  • 1. COSTA, Cristina. Sociologia – Introdução à ciência da sociedade. 3ª ed., São Paulo: Moderna, 2005 I INTRODUÇÃO O conhecimento como característica da humanidade Nas várias espécies animais existentes sobre a Terra encontramos formas de relacionamento que nos fazem pensar na existência de regularidades que ordenam sua vida comunitária. Percebemos facilmente que os diversos animais se agrupam, convivem, se acasalam, sobrevivem e se reproduzem de forma mais ou menos ordenada, em função de sua Potencialidade e do ambiente em que vivem. A preservação da espécie e seu aprimoramento parecem ser, como afirmou Darwin na sua teoria sobre a Evolução das espécies, o objetivo Das suas formas de vida, convivência e sociabilidade. Assim, os animais: e desenvolvem estilos próprios de vida que lhes permitem a reprodução e a sobrevivência. Estabelecem para isso modelos de vida complexos, com sistemas de acasalamento, alojamento, migração, defesa e alimentação. O homem, como uma dentre as várias espécies existentes, também desenvolveu processos de convivência, reprodução, acasalamento e defesa. Desse modo apresenta uma série de atividades "instintivas", isto é, ações e reações que se desenvolvem de forma mecânica, dispensando o aprendizado, como respirar, engatinhar, sentir fome, medo, frio. Além disso, porém, quer por dificuldades impostas pelo ambiente, quer por particularidades da própria espécie, o homem também desenvolveu habilidades que dependem de aprendizado. Assim, as crianças aprendem a comer, beber e dormir em horários regulares, aprendem a brincar e a obedecer; mais tarde, aprenderão a trabalhar, comerciar, administrar, governar. 2 O homem precisa de aprendizado para desenvolver formas peculiares de comportamento. O homem, portanto, se distingue das demais espécies existentes porque nem todo seu comportamento se desenvolve automaticamente em sua relação com a natureza, nem se transmite à sua descendência pêlos genes. Ele é o único animal que necessita de aprendizado para adquirir diferenciadas formas de comportamento. Muitas lendas e mitos relatam a história de heróis que, mesmo crescendo no isolamento, tornaram-se humanos — Rômulo e Remo, Tarzan, Mogli — e apresentaram comportamentos compatíveis com o resto da humanidade. Entretanto, para se tornar humano, o homem tem de aprender com seus semelhantes uma série de atitudes que lhe seriam impossíveis desenvolver no isolamento. Já entre os demais animais, se separarmos uma cria de seu grupo de origem, ela apresentará, com o tempo, as mesmas capacidades e atitudes de seus semelhantes, pois essas decorrem sobretudo de características genéticas. O cineasta alemão Werner Herzog trata justamente desse tema em seu filme O enigma de Raspar Hauser, de 1976. Ele mostra como um homem criado longe de outros seres de sua
  • 2. espécie é incapaz de se humanizar, revelando apenas características genéticas instintivas e animais. Portanto, para que um bebê humano se transforme em um homem propriamente dito, capaz de agir, viver e se reproduzir como tal, é necessário um longo aprendizado, pelo qual as antigas gerações transmitem às mais novas suas experiências e conhecimentos. Essa característica, essencialmente humana, só se tornou possível porque o homem tem a capacidade de criar sistemas de símbolos, como a linguagem, por meio dos quais dá significado às suas experiências vividas e as transmite a seus semelhantes. As capacidades próprias dos animais se desenvolvem de maneira predominantemente instintiva e se transmitem aos descendentes pela carga genética. O homem, por sua vez, deve transmitir suas experiências e interpretações da realidade por uma série ordenada de símbolos. Por isso, dizemos que o Homo sapiens é a única espécie que pensa, isto é, que é capaz de transformar a sua O Homo sapiens é capaz de comunicar sua experiência vivida através de um discurso significativo. 3 Experiência vivida em um discurso com significado e transmiti-la aos demais seres de sua espécie e a seus descendentes. É o único capaz de imaginar ações e reações sob forma simbólica, isto é, mesmo na ausência de estímulos concretos que provoquem medo, alegria, fome ou rancor, ele pode reviver essas situações que o estimularam. Além disso, é o único a diferenciar as experiências no tempo e, em conseqüência, a projetar ações futuras. O homem, portanto, é capaz de recriar situações e emoções, é capaz de simbolizar, de atribuir significados às coisas, de separar, agrupar, classificar o mundo que o cerca segundo determinadas características. Dessa habilidade provém a capacidade de projeção, a ideia de tempo e o esforço em preparar o futuro, características que permitem o desenvolvimento da ciência. Esse é o centro de sua capacidade simbólica e de sua humanidade. Ao pensar, ao ser capaz de projetar, de ordenar, prever e interpretar, o em, sempre vivendo em grupos, começou a travar com o mundo ao seu ar uma relação dotada de significado, avaliação. Seu conhecimento do mundo — organizado, comunicado e compartilhado com seus semelhantes e transmitido à descendência — se transformou em cultura humana propriamente dita. Essa elaboração simbólica da experiência fez com que os homens recriassem o mundo segundo suas necessidades e pontos de vista, traduzindo-o sob a forma de informação ou conhecimento. A partir dessa lista, do desenvolvimento dessa capacidade genuinamente humana de sentar e transformar o ambiente natural, cada grupo, compartilhando experiências comuns adaptadas ao seu modo próprio de vida, criou formas rias de sociabilidade. É por isso que encontramos formas de existente crenças e pensamento tão diversas. Porque elas não são apenas conseqüências de uma estrutura genética da espécie, mas da criação de formas ao e reação decorrentes da experiência particular vivenciada por um i de homens. Uma vez que cada cultura tem suas próprias raízes, seus próprios significados e características, todas elas são qualitativamente comparáveis. Enquanto culturas, todas são
  • 3. igualmente simbólicas, fruto da capacidade cria-i do homem e adaptadas a uma vida comum em determinado espaço e • nesse contínuo recriar, compartilhar e transmitir a experiência vivida e aprendida. »culturas humanas como processos Foi dessa capacidade de pensar o mundo, de atribuir significado à realidade, que o homem criou o conhecimento. Desde os primeiros vestígios arqueológicos do homem sobre a Terra, percebemos que os problemas por ele enfrentados — de sobrevivência, defesa e perpetuação da espécie — lhe apareceram como obstáculos, para os quais buscou explicações sobre si mesmo o mundo em que vive. 4 A pesquisa arqueológica busca desvendar a cultura humana desde os tempos mais remotos. Os mais antigos "cemitérios" humanos, onde se encontram ossadas dispostas numa certa posição acompanhadas de alguns objetos, mostram que mesmo o ato de enterrar os mortos respondia a questões relativas à vida e à morte e implicava uma escolha da "melhor forma" de ação. Aceita pelo grupo, essa "melhor forma" tende a se repetir, transformando-se em ritual — uma ação revivida em grupo e explicada em função da resposta coletiva dada ao "para que" e ao "por que" da existência humana. Podendo escolher, julgar, pensar sobre situações passadas e futuras, o homem passou da simples experiência imediata a explicações que lhe garantiam o conhecimento de si e do mundo à sua volta, formulando justificativas para fatos, atitudes e comportamentos. A partir do desenvolvimento dessa capacidade simbólica e da linguagem, a ação humana passou a ser intermediada pela atribuição de significados, interpretações estabelecidas e partilhadas entre os grupos humanos. Essas interpretações, a que chamamos conhecimento, criaram soluções para necessidades concretas de vida e sobrevivência e se mantiveram sempre operantes enquanto foram adequadas a tais necessidades. Quando os homens enfrentaram novos obstáculos, surgiram novas relações, tidas como mais adequadas, mais úteis às dificuldades enfrentadas. Assim, se por um lado as culturas humanas tendem à ritualização e à repetição, amparadas na tradição e no aprendizado, por outro elas representam a possibilidade de mudança e adaptação. A própria reprodução das formas de vida existentes acarreta novas necessidades, que o homem procurará satisfazer transformando o modelo existente. Podemos então conceber as diferentes culturas como essencialmente dinâmicas, desenvolvendo mecanismos de conservação e mudança num permanente ajuste. Essa ideia da relação existente entre as culturas humanas e as condições de vida de cada agrupamento humano nos mostra que as diferenças entre as culturas não são de qualidade nem de nível: devem-se às circunstâncias que as cercam. Durante muito tempo se pensou que culturas de sociedades iletradas ou ágrafas eram menos complexas ou menos elaboradas do que as de sociedades em que se havia desenvolvido a escrita. Hoje se sabe que os conhecimentos passados pela tradição oral, por meio de contadores de histórias são de Todas as culturas apresentam padrões igualmente abstratos e significativos.
  • 4. 5 veiculados pela escrita. Se certas sociedades não criaram o alfabeto e a linguagem gráfica, é porque o modo de vida de tais indivíduos não lhes despertou tal necessidade, não porque sua capacidade mental fosse "inferior". A capacidade simbólica e os padrões de todas as culturas humanas são igualmente abstratos, significativos e dão respostas úteis aos problemas de compreensão do mundo. A ciência como ramo do conhecimento Durante séculos, o homem pensou sobre si mesmo e sobre o mundo, adquiriu conhecimentos, estabeleceu interpretações ajustadas à vida cotidiana. Entretanto, o tipo de problema que o levava a isso mudou sensivelmente conforme as culturas e o passar dos séculos. Vejamos como isso se deu na história da civilização ocidental. Sabe-se hoje que os egípcios tinham grandes conhecimentos de geometria — palavra de origem grega que quer dizer "medição da Terra". Tais acontecimentos foram elaborados a partir da necessidade social de prever o transbordamento do Rio Nilo e restabelecer fronteiras territoriais que essas inundações extinguiam. Com uma corda dividida em treze partes por t de nós e dois homens que a manuseavam, conseguiram criar as mais itens formas geométricas, capazes de resolver seus problemas de me-• territorial. O conhecimento adquirido com o auxílio dessa técnica foi do, depois, com grande êxito, às construções arquitetônicas, tornam-se mais tarde a base do pensamento geométrico pitagórico. Entretanto, l os egípcios, esse saber não estava dissociado de outras questões fundamentais de sua cultura, como a vida após a morte, os deuses e a hierarquia entre os homens. Foram os gregos que conceberam a ideia do saber como um fim em si mesmo, como atividade destinada a descobertas desligadas de uma finalidade prática imediata ou à solução de questões metafísicas. Menos preocupados com a religião e a vida após a morte, os gregos foram os precursores da ração de uma forma de pensar à qual se deu o nome de ciência, uma atividade com objetivos próprios. ' O milagre grego — o espírito especulativo Enquanto os povos antigos só se interessavam pelo mundo em que viviam como uma janela para entender todo o universo, os gregos criaram as diversas disciplinas e a filosofia. As disciplinas, ou conhecimentos específicas como a geometria, a aritmética, a astronomia, foram um passo decisivo i busca da compreensão dos princípios que movem o mundo e as coisas. Já tratava de uma ruptura profunda com o mundo mítico, onde as explicações ocorriam pela intervenção dos deuses ou das forças sobrenaturais. As disciplinas, por meio da sistematização e da organização do estudo de um objeto, procuram desvendar, pela razão, a causa primeira da sua formação, longe da ação dos deuses. Os egípcios elaboraram princípios de biologia e 6
  • 5. química porque acreditavam na ressurreição e queriam conservar os cadáveres: os gregos afirmaram que tais conhecimentos não eram domínio da religião, mas da medicina. Assim, se dedicaram à habilidade de desenvolver o conhecimento como uma atividade abstrata, desligada de sua aplicabilidade imediata ou de uma finalidade religiosa. Deram às ideias sobre o que se deve ou não se deve fazer o nome de ética, ramo da filosofia que estabelece os critérios de virtude, os valores de bem e mal do comportamento humano, fundamentando os padrões morais da sociedade. Se os povos antigos justificavam sua maneira de agir em função do que os deuses queriam, para os gregos isso fazia parte e era resultado da intenção pura e simples de pensar sobre os fatos. Isso não significa que a geometria ou a medicina grega fosse mais desenvolvida do que a egípcia, mas que, a partir de então, o homem desvinculara sua curiosidade pelo mundo das preocupações meramente práticas e passara a tratá-la como uma "atividade do espírito", importante em si mesma e, para muitos, a mais elevada dentre todas. A filosofia, o "amor pelo conhecimento" surgia como a sistematização das informações adquiridas pelas diversas disciplinas organizadas de modo a explicar o mundo e a sua relação com o homem. Assim, surgia uma nova maneira de pensar "o porquê" e o "para que" das coisas. Surgiu um saber mais desligado das atividades religiosas, ao qual se dedicavam homens não necessariamente responsáveis pêlos cultos religiosos. Surgiram os sábios, homens cuja atividade era desvendar os segredos do mundo e do universo. Deu-se o nome de milagre grego a este salto do conhecimento humano sobre si e a natureza, em que se abandonou a explicação mítica e o princípio da interferência das forças sobrenaturais nos destinos do homem, para dirigir-se à obtenção do saber por meio da abstração dirigida pela razão. A ideia de milagre vem da força da revolução que a filosofia grega causou sobre o homem da época e das gerações posteriores. O impacto foi tão profundo que acabou encobrindo o longo processo de construção desse novo saber. A expansão comercial e colonizadora do período arcaico pôs o homem grego em contato com outras culturas; o estabelecimento da escravidão como base da produção das riquezas e da sobrevivência acabou liberando a abastada classe comerciante da necessidade de ter de trabalhar, dando-lhe muito tempo ocioso; o surgimento da moeda organizou a economia; a criação da escrita e das leis ordenou os direitos da comunidade e do cidadão; a consolidação da polis (cidade) rompeu o estrito círculo familiar e a rígida e hierárquica estrutura da sociedade agrícola, provocando o conflito de interesses; todos esses foram fatores decisivos para o desenvolvimento do povo grego. Em todos esses momentos de transformação social e econômica, o pensamento racional era cada vez mais exigido para anteceder a ação. A consciência individual crescia à medida que o homem grego constatava que o destino é uma construção humana e não obra dos deuses e dos rituais míticos. Crescia nele a percepção de que era um indivíduo dotado de razão e capaz de realizar ações próprias. Este conhecimento de si e do outro rompe a anterior estrutura mítica da sociedade agrícola em que vivia, onde o 7 homem se condicionava a agir e pensar conforme os ensinamentos que se acreditava terem sido transmitidos pêlos deuses aos ancestrais e que permaneceram inalterados por séculos,
  • 6. enquanto as sociedades se reproduziam sem alteração. Esse destino predeterminado era imposto pela própria sociedade que, por meio dos rituais, condicionava o indivíduo a seguir as normas existentes e a garantir, assim, sua sobrevivência. A consciência era uma consciência coletiva, única; desobedecer-lhe seria falta gravíssima, que implicaria a punição não apenas de quem rompeu as regras, mas de toda a comunidade, uma vez que não se concebia o indivíduo fora da coletividade. O fim desse processo é o abandono da estrutura mítica para a explicação do mundo e a procura de explicações científicas e filosóficas para os fenômenos humanos, antes considerados propriedade exclusiva de forças transcendentais. – A razão a serviço do indivíduo e da sociedade Enquanto a sociedade comercial e manufatureira desenvolvida pêlos gregos perdurou através do Império Romano, a razão esteve a serviço do homem e da sociedade. Porém, após a queda do Império, quando a Europa retorna à estrutura de uma sociedade agrária e teocrática, que submete a razão e a filosofia à teologia, a razão deixa de ser a melhor forma de explicação do mundo. Durante a Idade Média, período de grande poder da Igreja Católica, a razão passou a ser considerada um instrumento auxiliar da fé. A Igreja Católica usava a razão (inicialmente pêlos ensinamentos de Platão, depois com os ensinamentos de Aristóteles) como forma de manter seu poder e divulgar a fé. A fé ou a crença, como nas sociedades agrícolas míticas, passaram novamente a condicionar o comportamento humano e a sociedade, e a explicá-los. Apenas as ordens religiosas, isoladas nos mosteiros, tinham acesso a textos de filosofia, geometria e astronomia. A população laica deixou de participar desse saber. No Renascimento, entretanto, o homem volta aos textos antigos e redescobre o prazer de investigar o mundo, descobrir as leis de sua organização como atividade com valor em si mesma, independente de suas implicações religiosas e metafísicas. Nos últimos quatrocentos anos, e em particular a partir do século XVII, vimos assistindo ao crescente progresso desse conhecimento — a ciência — destinado à descoberta das relações entre as coisas, das leis que regem o mundo natural, organizando as ideias e interpretações do ponto de vista lógico-científico. Aprimoraram-se as técnicas e os utensílios de medição, e a imprensa e os demais meios de comunicação levaram a Transmissão cada vez maior de informações e de saber. No seio desse movimento de ideias, surgiu no século XIX uma ciência nova — a sociologia, a ciência da sociedade. O surgimento da sociologia significou o aparecimento da preocupação do homem com o seu mundo e a sua vida em grupo, numa nova perspectiva, livre das tradições morais e religiosas. Desencadeou-se então a preocupação com as regras que organizavam a vida social. Regras que pudessem ser observadas, medidas e comprovadas. 8 Com a sociologia, as questões relativas à vida social deixaram de ser tratadas como tema religioso ou de senso comum. das, capazes de dar ao homem explicações plausíveis, num mundo onde passou a imperar o racionalismo, isto é, a crença no poder da razão humana de
  • 7. alcançar a verdade. Regras, enfim, que tornassem possível prever e controlar os fenômenos sociais. Portanto, o aparecimento da sociologia significou que as questões concernentes às relações entre os homens deixaram de ser apenas matéria religiosa e do senso comum: passaram a interessar também aos cientistas. A constituição desse campo do conhecimento significou, antes de mais nada, que as relações entre os homens mereciam ser conhecidas e formuladas por uma nova forma de linguagem e discurso — o científico —, o qual, na sociedade moderna, adquiriu o estatuto de "verdade". A partir de então o homem começou a elaborar métodos e instrumentos de análise capazes de explicar e interpretar sua experiência social de maneira científica. Isso equivaleu a criar, como nas demais ciências, métodos de averiguação e medição e a fazer formulações sobre a sociedade que pudessem ser comprovadas empiricamente — isto é, pela observação e experimentação —, de modo a tomar a ação social humana explicável em termos de regularidades e previsões. O pensamento relativo às ligações do homem com seus semelhantes passava assim a outra esfera de abstração, a outra maneira de formular problemas, ligada à necessidade de descobrir leis de interpretação e previsão dos acontecimentos. Com o desenvolvimento da sociologia, multiplicaram-se os métodos e técnicas de investigação da vida social. 9 A sociologia: um conhecimento de todos Desde o século XEX, quando a sociologia foi criada ou reconhecida como campo de conhecimento explorável pelo procedimento científico, até a atualidade, inúmeros estudos se desenvolveram. Como nas demais ciências, estabeleceu-se uma comunicação permanente entre pesquisadores, permitindo um acúmulo de princípios e informações de modo a submeter as teorias a comprovação, questionamento, revisão. Criou-se também um jargão científico, isto é, um vocabulário próprio com conceitos que designam aspectos precisos da vida social. De tal forma se alastraram os resultados das pesquisas sociológicas que, hoje, boa parte desse vocabulário faz parte da vida cotidiana. Palavras e expressões como contexto social, movimentos sociais, classes, estratos, camadas, conflito social, são usadas no dia-a-dia das pessoas e profusamente veiculadas pêlos meios de comunicação de massa. Nos discursos políticos, referências às "classes dominantes", às "pressões sociais" emergem como se fossem de domínio público, como se todos, políticos e eleitores soubessem exatamente o que elas designam. As pesquisas de opinião de qualquer tipo veiculam os resultados de procedimentos metodológicos amplamente usados nas pesquisas científicas, e os leitores percebem de maneira mais ou menos geral seu significado. Quando se diz que um governante conta com o apoio de 60% da população de uma cidade, por exemplo, as pessoas entendem que um
  • 8. grupo de pesquisadores empreendeu uma pesquisa que arguiu um número delimitado de cidadãos a respeito da gestão desse governante e que esses cidadãos expressaram sua opinião. Compreendem que, de cada 100 pessoas arguidas, 60 manifestaram- -e favoráveis às medidas tomadas pelo governante. E, quando se diz, após algum tempo, que a popularidade desse governante cresceu 10%, sabemos que nova pesquisa foi feita nos mesmos mol-:es da anterior e, de cada 100 cidadãos, agora são 70 que se mostraram favoráveis à atuação governamental. Esse simples raciocínio, utilizado não só nas pesquisas de caráter político mas em quaisquer outras que pretendem verificar a adesão das pessoas a certas ideias — ou a frequência a espetáculos, ou o número de espectadores i e um programa de televisão —, decorre da aceitação generalizada dos conhecimentos básicos da sociologia. Isso ocorre porque foi possível constatar e verificar uma regularidade nos fatos sociais. Essa regularidade responde às leis da vida social e essas Vis científicas são passíveis de serem observadas e apreendidas. Disso resultado que é também possível prever (o que é diferente de adivinhar) com certa margem de acerto os possíveis eventos futuros de uma determinada sociedade. Abre-se, então, a possibilidade de se poder intervir conscientemente nos processos, tanto para reforçá-los como para negá-los, dependendo dos interesses em jogo. Queremos deixar claro que o leitor de uma pesquisa de opinião, mesmo desconhecendo a sua metodologia, sabe que existem meios mais ou menos 10 eficazes de se desvendar o comportamento, o gosto e a opinião de uma população pela investigação de uma amostra, isto é, de uma parte escolhida dessa população. O leitor intui a existência de uma regularidade nesses comportamentos e opiniões; reconhece que, por trás da diversidade entre as pessoas, existe certa padronização nas suas formas de agir e pensar, de acordo com o sexo, a idade, a nacionalidade etc. Quando lemos em uma notícia ou artigo que Maria, 35 anos, casada, dona-de-casa, brasileira, votará em determinado candidato, não estamos tomando conhecimento apenas da opinião de uma pessoa isolada, mas do grupo de pessoas do qual Maria é o protótipo: o das mulheres de idade mediana, donas-de-casa, casadas e brasileiras. Portanto, os conhecimentos de sociologia hoje já não estão restritos ao uso dos cientistas sociais. Eles fazem parte de um modo de perceber e interpretar os acontecimentos formado pela disseminação dos procedimentos e técnicas de pesquisa social. Hoje manifesta-se confiança nessa forma de conhecer a realidade, do mesmo modo como se confia em um termômetro para constatar a temperatura do corpo. Mesmo que o público desconheça todos os procedimentos de amostragem e de levantamento de dados, assim como pode desconhecer a técnica utilizada na fabricação de um termômetro, já confia nas informações das pesquisas, o que demonstra a utilidade e a popularidade da sociologia. Hoje é mais freqüente comprovar uma afirmação qualquer por
  • 9. meio de dados de pesquisa do que pela mera importância conferida à pessoa que a declara. Houve tempo em que o prestígio e a autoridade pessoais bastavam para assegurar a credibilidade do público. Hoje se requer comprovação. Atualmente, quando se diz, por exemplo, que "os brasileiros são contra a pena de morte", logo se questiona sobre as bases em que se assenta tal afirmação. Muito mais convincente, nesse caso, é uma manchete de jornal que diga: "75% dos brasileiros são contra a pena de morte". A utilidade da sociologia nos diversos campos da atividade humana Assim como o leitor, o ouvinte e o espectador de televisão sabem que existem técnicas relativamente eficazes para entender o comportamento social, profissionais das mais diversas áreas também não ignoram a utilidade da sociologia. Para empreender uma campanha publicitária, para lançar um produto ou um candidato político, para abrir uma loja ou construir um prédio, os profissionais especializados — o engenheiro, o agrônomo, o comerciante — procuram dados sobre o comportamento da população. Não se constroem mais prédios ou casas sem levar em consideração o comprador, suas condições, valores, ideias, tudo aquilo que o faz optar por uma ou outra moradia. Pode ser o lugar, o aspecto, o preço ou, muito freqüentemente, a soma de tudo isso. 11 Todos os passos importantes na comercialização de um produto, desde sua criação até sua campanha publicitária e distribuição, repousam em pesquisas de opinião e comportamento. Procura-se saber quem compra determinado produto, os hábitos desse comprador, sua faixa salarial, quanto do orçamento doméstico ele está disposto a dedicar a esse bem, e assim por diante. Quando um fabricante quer lançar um novo tipo de margarina, por exemplo, efetua uma série de pesquisas para determinar qual é o comprador típico de margarina e o que é mais importante para ele. Procura averiguar como competir com os produtos assemelhados já existentes. Inúmeros fatores podem levar o consumidor a uma escolha entre produtos equivalentes: o preço, a qualidade, a embalagem, entre outros. Resumindo, não se "atira no escuro". A sociedade tem características que precisam ser conhecidas para que aqueles que nela atuam tenham sucesso. Não existe, portanto, nenhum setor da vida onde os conhecimentos sociológicos não sejam de ampla utilidade. E essa certeza perpassa hoje toda a linguagem dos meios de comunicação e toda a atuação profissional das pessoas. É por isso que a sociologia faz parte dos programas universitários que preparam os mais diversos profissionais — de dentistas a engenheiros — e por isso também o sociólogo hoje tem entrada nas mais diversas companhias e instituições. Daí decorre a afirmação, hoje quase unânime, de que a sociologia é uma ciência que se define não por seu objeto de estudo mas por sua abordagem, isto é, pela forma como pesquisa, analisa e interpreta os fenômenos sociais.
  • 10. Dizer que o "objeto da sociologia é a sociedade" é dar ao cientista social um objeto sem limites precisos, amplo demais para que dele possa dar conta. Tudo que existe, desde que o homem se reconhece como tal, existe em sociedade. Portanto, não é por fazer parte da sociedade, ou de um meio social, que um fato se torna objeto de pesquisa sociológica. Um fenômeno é sociológico quando sobre ele se debruça o sociólogo, tentando entendê-lo no que diz respeito às relações entre os homens e às influências sociais de seu comportamento. Desafios da sociologia hoje. O capitalismo vive hoje, no século XX, uma profunda reestruturação que está exigindo dos cidadãos, dos governos e das nações uma revisão completa não só de conceitos como dos mecanismos de funcionamento da sociedade. Uma análise de todos os aspectos que a compõem, como o sistema produtivo, as relações de trabalho, o exercício do poder político, o papel do cidadão, da ciência e da tecnologia, os direitos e deveres de cada setor social ou classe, os problemas sociais referentes a essas mudanças e assim por diante. Essa reestruturação torna mais necessário ainda desenvolver a capacidade de entender e projetar o rumo dos acontecimentos. Se essa já era uma exigência do mercado livre, ou seja, não-planejado, que se desenvolvia com a sociologia se define não por seu objeto mas por sua abordagem — pela forma como pesquisa, analisa e interpreta os fenômenos sociais. 12 base em determinados padrões de comportamento social, a sociedade contemporânea, globalizada e competitiva, exige um redimensionamento desses padrões. O mundo contemporâneo — ou pós-clássico, como o chamam alguns, entre eles George Steiner—exige a retomada e a análise de conceitos consagrados, como divisão social do trabalho, Estado nacional e democracia. Uma sociedade de quatrocentos anos se transforma radicalmente, por um lado aproximando grupos sociais distintos ou, por outro, introduzindo diferenças em comunidades anteriormente integradas. Novas posições surgem, enquanto antigos conflitos — como a Guerra Fria — são abandonados. Valores básicos da sociedade capitalista — como o trabalho — são deixados em segundo plano, enquanto o lazer e o consumo se transformam em regras sociais. Enfim, é hora e vez de repensar os padrões, as regularidades que ordenam a vida social e hierarquizá-los. Nesse contexto a ciência da sociedade ganha nova importância e se confronta com novos desafios. Atividades 1. Dissemos neste capítulo que as características de cada espécie animal são transmitidas a seus descendentes por meio da bagagem genética. Procure exemplos de notícias em revistas e jornais que comprovem ou não essa hipótese. 2. Além das reações instintivas típicas de sua espécie, como dormir, alimentar-se, reproduzir-se, que outras características o homem desenvolveu?
  • 11. 3. O aprendizado é uma das formas que o homem desenvolveu para transmitir sua cultura de uma geração a outra. Faça um relato baseado em sua experiência pessoal que ilustre essa afirmação. 4. Qual a diferença na interpretação de como o homem seria criado no isolamento, segundo as histórias de Tarzan e Kaspar Hauser? 5. 5. O relato a seguir foi extraído de um estudo sobre achados arqueológicos na China, que datam de 4500 anos a.C. "Os objetos traziam as mais antigas inscrições chinesas conhecidas, e essas mensagens, velhas de 4 mil anos, têm uma importância capital para a história. As escamas de tartaruga e os ossos das tumbas Chang eram instrumentos de adivinhação. Perguntas feitas aos deuses e aos antepassados referentes à pesca, à caça, ao tempo, às colheitas, às doenças, à significação dos sonhos figuram nesses ossos e nessas carapaças e por outros ossos. Pôde- se assim reconstituir certos aspectos da civilização chinesa arcaica. "Eis alguns exemplos: 'Esta noite, vai chover, é preciso capturar um elefante'. O que prova a existência do elefante na China Central. Ou então: 'Prece de chuva por minha avó Yi': o culto dos antepassados já era praticado há mais de quatro mil anos. 13 "O pictograma utilizado para designar o peixe indica que os homens da época Chang empregavam a vara de pescar, a linha, as iscas e as redes, e o pictograma 'caça', que eles faziam uso de flechas e de chuços. O cavalo já servia para puxar carroças. A palavra 'homem' exprime-se por meio dos sinais 'força' e 'campo'. Os símbolos dos cereais são grãos de trigo, de milho miúdo e de arroz. Graças à cultura da amoreira, conhecia-se a seda numa época em que a maior parte dos homens andavam nus ou vestidos de peles de animais. (...) "Encontraram-se, igualmente, nas tumbas Chang, objetos de bronze; sabia-se, pois, fundir o cobre, o estanho, o ferro, a prata e o chumbo. "Vasos sagrados, instrumentos, recipientes cilíndricos, vasos de bronze zoomórficos, espelhos de bronze, caçoulas, testemunhos de uma brilhante civilização, revelam-se aos arqueólogos estupefatos!" (Ivar Lissner, Assim viviam nossos antepassados, p. 169-170.) Como podemos perceber que entre esses antepassados do homem a capacidade simbólica e o conhecimento já eram bem desenvolvidos? 6. Afirmamos que, apesar de o comportamento humano tender à ritualização e à padronização, existe sempre a possibilidade de mudança. Você concorda com essa afirmação? Argumente. 7. Que afinidade havia entre o pensamento grego e a ideia de ciência? , -,., .a- 8. Qual a importância do Renascimento para o desenvolvimento do saber?
  • 12. 9. Quais as necessidades do mundo moderno que propiciaram o surgimento da sociologia? 10. Faça uma pequena pesquisa procurando identificar nos acontecimentos do século XIX aqueles que teriam levado à organização do pensamento sociológico como consequência da necessidade de se conhecer melhor as bases da vida social. 11. Qual a importância da sociologia no mundo de hoje? 12. Discuta problemas da vida em sociedade no mundo atual que na sua opinião poderiam ser objeto de estudos sociológicos. 1 Vídeo: O enigma de Kaspar Hauser (Alemanha, 1975. Direção de Werner Herzog. Duração: " 31 min.) — Filme que relata um fato verídico: um garoto, criado até os 18 anos trancado em um quarto e sem contato com outras pessoas, é deixado na praça pública de uma cidade alemã. Tome nota de como era o comportamento do herói assim que sai da casa onde vivera e chega à cidade. Descreva a maneira como as pessoas lhe ensinam os costumes e formas de comportamento do povoado. Outro ponto importante a observar é que o herói, por seu comportamento incomum, é vítima de preconceito e curiosidade por parte dos habitantes do povoado. Explique por que há a tendência a rejeitarmos as culturas diferentes da nossa. 14 2. Na reportagem "A multidão atrapalhou o socorro", da Folha de S.Paulo, de 2-2-1974, acerca do incêndio do edifício Joelma, podemos entender um pouco do que é o comportamento coletivo, sua força e a maneira como se distingue do comportamento individual. Leia o texto: "O maior problema do deslocamento do Corpo de Bombeiros e das equipes médicas que socorreram as vítimas do incêndio do edifício Joelma foi a grande multidão que se postou nas proximidades do prédio, tomando inteiramente as ruas. Essa multidão invadiu áreas isoladas, impediu a passagem das ambulâncias mobilizadas e não ajudou em nada. A entrada dos carros de bombeiros e ambulâncias só foi possível pêlos fundos do edifício, pela garagem. Esses veículos iam até o último pavimento da garagem, para onde eram transportadas as pessoas feridas e os corpos carbonizados. Mas, à saída, o público, que lentamente se avolumava, bloqueava as passagens e dificultava o socorro. Além das ruas Santo António, João Adolfo, Vale do Anhangabaú, Avenida 9 de Julho e Ladeira e Largo da Memória, a multidão ocupou também pontos estratégicos do centro da cidade, de onde se avistava o edifício incendiado. Os viadutos 9 de Julho, Jacareí e Dona Paulina, de um lado, e o Viaduto do Chá, do outro, foram literalmente tomados pela multidão.
  • 13. Somente depois das 10 horas da manhã é que a polícia conseguiu afastar um pouco os curiosos que se mantinham na Avenida 9 de Julho e Rua João Adolfo. Para isso foi necessária a presença de cavalarianos da Polícia Militar, de sabre em punho. Mesmo assim, alguns curiosos ainda conseguiam se infiltrar entre os cavalos e ocupar novamente seus postos de observação. O outro lado da tragédia foi a grande solidariedade demonstrada pêlos paulistanos ante mais um abalo em sua vida. Milhares de pessoas atenderam aos apelos feitos pelas autoridades nos microfones das emissoras de rádio e tevê que cobriam o fato, •'•'*' -procurando contribuir para diminuir o sofrimento das vítimas do incêndio. Durante a tarde inteira, formavam-se filas nos hospitais e pronto-socorros. « Nessas filas, homens e mulheres disputavam um lugar para fornecer o sangue pedido necessário para o salvamento de uma vida. No pátio defronte ao Hospital das Clínicas, tudo foi usado para acomodar os doadores voluntários. Eles se distribuíram nos bancos dos jardins e até nas calçadas Folha de S.Paulo, 1991, "20 textos que fizeram história". Em grupo, procure as regularidades dessas pessoas ou da multidão de que fala o jornalista e elabore uma reportagem aplicando esse conhecimento e descrevendo um comportamento coletivo. 3. Letra inédita do grupo Mamonas Assassinas, autoria de Dinho. Onon onon onon Onon era trabalhador, tirava hora de almoço pra comer, da marmita um pão com dois oião e um copo geladão de leite C. Onon gostava de badalação. No Faustão ele queria aparecer, percebendo que não tinha ; nem um pão, então resolveu ser. 15 Onon, tome cuidado, lhe dizia sua avó, não gaste todo seu dinheiro no forró, meu Deus do céu quando esse moço vai crescer. Onon, você precisa mesmo é se casar, tomar juízo e aprender a me respeitar Oh Onon Onon. : Onon gostava de criança, então um dia um anjo lhe falou: O programa Porta da Esperança a presidente da República ganhou Onon sabia que era importante, agora é presidente do Brasil, sua vida já não é como era antes: passou roupa, passou fome, passou frio. Onon, tome cuidado, lhe dizia sua vó Oh Onon Onon. Onon com essa cara diferente, Onon, Agora é presidente Onon Sujeitinho indecente Onon. Na boca não tem um dente. Onon, Onon, Onon para presidente, Onon para presidente. De que maneira percebemos na letra dessa
  • 14. música a busca de regularidades da vida social em relação a grupos sociais como trabalhadores e políticos? Tema para debate O agricultor e seu planejamento Pretendemos, neste artigo, tentar imaginar como um tradicional produtor de 35 planejaria a sua atividade para os próximos anos. Para tanto, vamos consi-ar hipoteticamente um proprietário de terras que tem o perfil, como agricultor, nédia dos produtores. Sua gleba é apropriada para o cultivo de cereais, ainda ? tenha, no passado, se inclinado ao cultivo do café e da cana-de-açúcar. Suas quinas e implementos agrícolas são próprios para a cultura de milho, soja e D, principais produtos que comercializa. Nosso personagem — como a maioria de nossos agricultores — também amargou temporadas assaz críticas, máxime nos últimos anos. Momentos houve desânimo, de desolação, de tristeza. Pensou muitas vezes em abandonar, como,tos outros, a atividade tradicional da família, pois sentia a aproximação de ser ,obrigado a vender suas terras para honrar seus compromissos. O ponto alto dessa ocorreu em 1983. 16 O nosso produtor, mesmo em face dessas adversidades, sempre acreditando que o "sucesso de amanhã depende do nosso trabalho de hoje", redobrou suas forças e continuou com o seu trabalho perseverante, apostando, nos últimos meses, no cultivo do trigo. Folha de S.Paulo, 22 jan. 1987. Como podemos perceber, nessa notícia, a penetração do pensamento sociológico nos meios de comunicação de massa? Leitura Complementar Sobre a sociologia pré-científica A sociologia, como modo de explicação científica do comportamento social e das condições sociais de existência dos seres vivos, representa um produto recente do pensamento moderno. Alguns especialistas procuram traçar as suas origens a partir da filosofia clássica da Grécia, da China ou da índia. Isso faz tanto sentido quanto ligá-la às formas pré-filosóficas do pensamento. Na verdade, toda cultura dispõe de técnicas de explicação do mundo, cujas aplicações são muito variadas. Entre as aplicações que elas podem receber, estão as que dizem respeito ao próprio homem, às suas relações com a natureza, com os animais ou com outros seres humanos, às instituições sociais, ao sagrado e ao destino humano. O mito, a religião e a filosofia constituem as principais formas pré- científicas de consciência e de explicação das condições de existência social. Tais modalidades de representação da vida social nada têm em comum com a sociologia. Elas surpreendem, às vezes com espírito sistemático e com profundidade crítica, facetas complexas da vida social. Também desempenharam ou desempenham, em seus contextos
  • 15. culturais, funções intelectuais similares às que cabem à sociologia na civilização industrial moderna; pois todas servem aos mesmos propósitos e às mesmas necessidades de explicação da posição do homem no cosmos. Entretanto, nenhum desses pontos de contato oferece base à suposição de que essas formas pré-científicas de consciência ou da explicação da vida social tenham contribuído para a formação e o desenvolvimento da sociologia. Em particular, elas envolvem tipos de raciocínio fundamentalmente distintos e opostos ao raciocínio científico. Mesmo as filosofias greco-romanas e medievais, que deram relevo especial à reflexão sistemática sobre a natureza humana e a organização das sociedades, contrastam singularmente com a explicação sociológica. É que, como notou Durkheim, "elas tinham, com efeito, por objeto não explicar as sociedades tais ou quais elas são ou tais ou quais elas foram, mas indagar o que as sociedades devem ser, como elas devem organizar-se, para serem tão perfeitas quanto possível". : Florestan Fernandes, Ensaios de sociologia geral e aplicada, p. 30-31. 17 II A SOCIOLOGIA PRÉ-CIENTÍFICA 1. O Renascimento 2. A ilustração 'e a sociedade contratual 3. A das explicações religiosas e o triunfo da ciência 18 1 O Renascimento Introdução O Renascimento, talvez mais do que a maioria dos diversos momentos históricos, suscita grandes controvérsias. Há quem veja nesse movimento filosófico e artístico o momento de ruptura entre o mundo medieval — com suas características de sociedade agrária, estamental, teocrática e fundiária — e o mundo moderno urbano, burguês e comercial. Mudanças significativas ocorrem na Europa a partir de meados do século XV lançando as bases do que viria a ser, séculos depois, o mundo contemporâneo. A Europa medieval, relativamente estável e fechada, inicia um processo de abertura e expansão comercial e marítima. A identidade das pessoas, até então baseada no clã e na propriedade fundiária, vai sendo progressivamente substituída pela identidade nacional e pelo individualismo. A mentalidade vai se tornando paulatinamente laica — desligada das questões sagradas e transcendentais —, as preocupações metafísicas vão convivendo com outras mais imediatistas e materiais, centradas principalmente no homem.
  • 16. Embora as preocupações metafísicas e filosóficas tenham importado ao homem desde a Antiguidade, no Renascimento a nova sociedade que emerge exige a distinção entre conhecimento especulativo e pragmático. Diferentes visões do Renascimento Alguns historiadores têm uma visão otimista do Renascimento, como a tiveram também aqueles que assim o batizaram, por terem erroneamente considerado a Idade Média como a Idade das Trevas e do obscurantismo. Para eles as mudanças que ocorreram na Europa, principalmente na Itália, e depois na Inglaterra e Alemanha, foram essencialmente positivas e responsáveis pelo desenvolvimento do comércio e da navegação, do contato com outros povos, pela proliferação de obras de arte e de obras filosóficas. Nessa ótica foi o movimento renascentista que promoveu o renascer da cultura e da erudição, o gosto pelo saber, além de tê-los, aos poucos, posto à disposição da população em geral. Mas há também os historiadores mais pessimistas, que conseguem perceber nessa época um período de grande turbulência social e política. Para essa análise, esses historiadores apóiam-se na falta de unidade política e religiosa, nos grandes conflitos existentes entre as nações, nas guerras intermináveis, nas inquisições e perseguições religiosas, no esforço de conservação. 19 Ilustração da Divina comédia, escrita por Dante Alighieri. Nela, o artista expressa sua visão da sociedade da época. de um mundo que agonizava, características marcantes do período. Consideram sintomas de tudo isso os exílios, as condenações e os longos processos políticos e eclesiásticos, os grandes genocídios que a Europa promoveu na América e o ressurgimento da escravidão como instituição legal. De fato, um certo clima de fim de mundo perpassa a produção artística período, expresso na Divina comédia de Dante Alighieri, no Juízo final de Michelângelo, pintado na Capela Sistina e em vários quadros do artista flamengo Heironymus Bosch. Um clima de insegurança e instabilidade perpassa a todos nessa época de profunda transição. A retomada do espírito especulativo De qualquer maneira, 'o Renascimento marca uma nova postura do homem ocidental diante da natureza e do conhecimento. Juntamente com o é descrédito na Igreja como instituição e o consequente aparecimento de no-; TOS credos e seitas — que conclamavam os fiéis a uma leitura interpretativa ' das escrituras —, o homem renascentista retoma a crença no pensamento especulativo. O conhecimento deixa de ser revelado, como resultado de uma | ividade de contemplação e fé, para voltar a ser o que era antes entre gregos e romanos — o resultado de uma bem conduzida atividade mental.
  • 17. Assim como a ciência, a arte também se volta para a realidade concreta, para o mundo terreno, numa ânsia por conhecê-lo, descrevendo-o, analisando-o, medindo-o, quer com medidas precisas, quer por meio de uma perspectiva geométrica e plana. "O visível é também inteligível", afirmava Leonardo da Vinci, encantado com as possibilidades de conhecimento pelo do uso dos sentidos. Por outro lado, a vida terrena adquire cada vez às importância e com ela a própria história, que O Renascimento se caracteriza por uma nova postura do homem ocidental diante da natureza e do conhecimento. 20 passa a ter uma dimensão eminentemente humana. Estimulado pelo individualismo e liberto dos valores que o prendiam irremediavelmente à família e ao clã, o homem já concebe seu papel na história como agente dos acontecimentos. Ele vai aos poucos abandonando a concepção que o tomava por pecador e decaído, um ser em permanente dívida para com Deus, para se tornar, na nova perspectiva, o agente da história. Shakespeare evoca constantemente em suas peças a tragédia do homem diante de suas opções e sentimentos, enquanto Michelangelo faz quase se encontrarem os dedos de Deus e Adão na cena da Criação. É nesse ambiente de renovação que o pensamento científico tomará novo fôlego e, com ele, o pensamento acerca da vida social. Um novo pensamento social Num mundo que se torna cada vez mais laico e livre da tutela da Igreja Católica, o homem se sente livre para pensar e criticar a realidade que vê e vivência. Sente-se livre para analisar essa realidade como algo em si mesmo e não como um castigo que Deus lhe reservou. E, assim como os pintores que se debruçaram nas minúcias das paisagens, na disposição das figuras numa perspectiva geométrica, os filósofos também passam a questionar e dissecar a realidade social. A vida dos homens passa a ser fruto de suas ações e escolhas, e não dos desígnios da justiça divina. Novas instituições políticas e sociais, estados nacionais, exércitos, levam os homens a repensar a vida social e a história. 21 Ao mesmo tempo, emerge uma nova classe social — a burguesia comercial —, com novas aspirações e interesses, que renova o pensamento social. Nessa visão humana e especulativa da vida social está o germe do pensamento social moderno que vai se expressar na literatura, na pintura, na filosofia e, em especial, na
  • 18. literatura utópica de Thomas Morus (A Utopia), Tommaso Campanella (A cidade do Sol) e Francis Bacon (Nova Atlântidá). Utopias Como Platão, os filósofos renascentistas tentaram imaginar uma sociedade perfeita. Assim como a Atlântida, surge através da pena de Thomas Morus uma comunidade onde todas as soluções foram encontradas: a Utopiá. Uma ilha cujo nome significa "nenhum lugar", onde existe harmonia, equilíbrio e virtude. Desse modo, o pensamento social no Renascimento se expressa na intenção imaginária de mundos ideais que mostrariam como a realidade deveria ser, sugerindo entretanto que tal sociedade seria construída pelos homens com sua ação e não pela crença ou pela fé. Utopia é uma ilha onde reina a igualdade e a concórdia. Todos têm sob í mesmas condições de vida e executam em rodízio os mesmos trabalhos. A igualdade e ps ideais comunitários são garantidos por uma monarquia constitucional. Cada grupo de 30 famílias escolhe um representante para o cônscio que elege o imperador; este permanece até o fim da vida como soberano, ib o olhar vigilante do conselho, que opina sobre cada ato real e pode consultar previamente as famílias, quando considerar necessário. Além da igualdade quanto ao estilo de vida e ao trabalho, também a distribuição de alimentos se dá de forma comunitária. Não há necessidade e pagar por nada, porque há de tudo em profusão, uma vez que a vida é simples, sem luxo e todos trabalham. Em A Utopia, Thomas Morus expressa os ideais de vida moderada, palitaria e laboriosa, semelhantes aos praticados pêlos monges nos mosteiros pré-renascentistas, assim como defende, em termos políticos, a monarquia absoluta. Utopia vem dos termos gregos ou (não) e topos (lugar). Significaria literalmente "nenhum lugar". Corresponde na história do conhecimento a essa evocação, através de uma aspiração, sonho ou desejo manifesto, de um estado de perfeição sempre imaginário. Na medida, entretanto, em que a utopia enfoca um estado de perfeição, ela realiza, por oposição, um exercício de análise, crítica e denúncia da sociedade vigente. O estado de perfeição ensejado na utopia é necessariamente aquele no qual se tornam evidentes as imperfeições da realidade em que se vive. Mas, apesar de seu caráter de evasão da realidade, a utopia revela uma apurada crítica à ordem social, podendo inclusive se transformar em autêntica força revolucionária, como indicam os grandes movimentos messiânicos vividos pela humanidade, ou seja, aqueles movimentos que têm por meta a redução da humanidade ou a salvação do mundo. 22 Thomas Morus (1478-1535)
  • 19. Nasceu em Londres. Foi pensador, estadista, advogado e membro da Câmara dos Comuns. Como bom humanista, desenvolveu estudos sobre o grego antigo. Em 1518, foi nomeado membro do Conselho Secreto de Henrique VIII e chegou em 1529 a ocupar o mais alto cargo do reino. Opôs-se à anulação do casamento de Henrique VIII, recusando-se a jurar fidelidade à Igreja Anglicana fundada pelo rei, em parte por ser católico e em parte por ser contrário aos desmandos da autoridade real. Foi preso, condenado e executado. Em 1935 foi canonizado pela Igreja Católica e sua festa é celebrada em 6 de julho, dia de sua morte. Sua grande obra é A Utopia. Seria A Utopia uma obra sociológica? Não no sentido moderno ou científico do conceito, mas como expressão das preocupações do filósofo com a vida social e com os problemas de sua época. Toda a vida ou, como o próprio autor . chama, o "regime social" dos utopienses demonstra claramente a preocupação com o estabelecimento de regras sociais mais justas e humanas como resposta às críticas que o autor fez em relação à Inglaterra de seu tempo. Analisar a sociedade em suas contradições e visualizar uma maneira de resolvê-las, acreditar que da organização das relações políticas, econômicas e sociais derivam a felicidade do homem e seu bem-estar é, seguramente, o germe do pensamento sociológico. E, refletindo basicamente os anseios de sua época, Thomas Morus considera esse mundo ideal possível, graças ao plano sábio de um monarca absoluto: Utopos, fundador da Utopia. O monarca esclarecido, justo e sábio é o ideal político do Renascimento, organizador das sociedades perfeitas criadas pela literatura de Thomas Morus e de outros. . . . i .;-.-.. Analisar as contradições sociais e procurar resolvê-las, acreditar que o bem-estar do homem depende das condições sociais é o germe do pensamento sociológico. Maquiavel: o criador da ciência política Nicolau Maquiavel, pensador florentino, escreveu um livro, O príncipe, dedicado a Lourenço de Mediei (1449-1492), governador de Florença, prote-tor das artes e das letras, ele mesmo um ditador. Nesse livro, Maquiavel se propõe a explorar as condições pelas quais um monarca absoluto é capaz de fazer conquistas, reinar e manter seu poder. Como Thomas Morus, Maquiavel acredita que o poder depende das características pessoais do príncipe — suas virtudes —, das circunstâncias históricas e de fatos que ocorrem independentemente de sua vontade — as oportunidades. Acredita também que do bom exercício da vida política depende a felicidade do homem e da sociedade. Mas, sendo mais realista do que seus companheiros utopistas, Maquiavel faz de O príncipe um manual de ação política, cujo ideal é a conquista e a manutenção do poder. Disserta 23 Nicolau Maquiavel (1469-1527)
  • 20. Nasceu em Florença, mas fez sua carreira diplomática em diversos países da Europa. De 1502 a 1512 esteve a serviço de Soderini, presidente perpétuo de Florença. Ajudava-o nas decisões políticas, escrevia-lhe discursos e reorganizou o exército florentino. Foi exilado e afastado da vida pública quando Soderini foi destronado por Lourenço de Mediei. A partir de então, limitou-se a ensinar e a escrever sobre a arte de governar e guerrear. É considerado o fundador da ciência política e, segundo alguns, nesse campo jamais foi superado. Suas principais obras são: O príncipe e Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio. A respeito das relações que o monarca deve manter com a nobreza, o clero, o povo e seu mistério. Mostra como deve agir o soberano para alcançar e preservar o poder, como manipular a vontade popular e usufruir seus deres e aliados. Faz uma análise clara das bases em que se assenta o poder político: como conseguir exércitos fiéis e corajosos, como castigar os inimigos, como recompensar os aliançados, como destruir, na memória do povo, a imagem dos antigos líderes. A VISÃO LAICA DA SOCIEDADE E PODER Em relação ao desenvolvimento do pen-tiento sociológico, Maquiavel teve mais êxi-i do que Thomas Morus, na medida em que i objetivo foi conhecer a realidade tal cose lhe apresentava, em vez de imaginar no ela deveria ser. De qualquer maneira, nas1 obras de Thomas Morus e de Maquiavel percebemos como as relações sociais passam a constituir objeto de estudo dota-»de atributos próprios e deixam de ser, como no passado, conseqüência do acaso ou das qualidades pessoais dos sujeitos. Ávida dos homens já aparece, nessas obras, como resultado das condições econômicas e políticas e não de i fé ou de sua consciência individual. Além disso, esses filósofos expressam os novos valores burgueses ao alcear os destinos da sociedade e de sua boa organização nas mãos de um indivíduo que se distingue por características pessoais. A monarquia proposta no Renascimento não se assenta na legitimidade do sangue ou da linhagem, na herança ou na tradição, mas na capacidade pessoal do governante e na sabedoria. A história, tanto como ciência quanto como conhecimento dos fatos, passa a ter um papel relevante nesse novo contexto. Desconhecer a história é desconhecer a evolução e as leis que regem a sociedade onde se Nicolau Maquiavel, autor de O príncipe, é considerado o fundador da ciência política. 24 vive. Nessa ideia de monarquia se baseia a aliança que a burguesia estabelece com os reis para o surgimento dos estados nacionais, onde a ordem social será tanto mais atingível quanto mais o soberano agir como estadista, pondo em marcha as forças econômicas do capitalismo em formação. Atividades 1. Qual era a forma de identidade social do homem medieval?
  • 21. 2. O que você aprendeu neste capítulo sobre a mentalidade do homem renascentista? 3. Como a tutela da Igreja impedia o florescimento do pensamento e da crítica social? 4. Você acha que, hoje, a Igreja Católica impede ou incentiva o desenvolvimento do pensamento e da crítica social? Faça uma pesquisa a respeito utilizando notícias sobre as campanhas empreendidas pela Igreja e que estão presentes nos meios de comunicação de massa. 5. O que você entendeu por utopia? Escreva com suas palavras a partir do que foi expresso no texto. 6. Faça uma pesquisa e discuta os significados que as pessoas dão comumente ao termo utopia. 7. "E, como disse ter sido preciso, para que fosse conhecida a virtude de Moisés, que o povo de Israel fosse escravo do Egito; para conhecer-se a grandeza de alma de Ciro, que estivessem os persas oprimidos pêlos medas - assim modernamente, desejando-se conhecer o valor de um príncipe italiano, seria preciso que a Itália chegasse ao ponto em que hoje se encontra. Que estivesse mais escravizada do que os hebreus, mais oprimida que os persas, mais dispersa que os atenienses, sem chefe, sem ordem, batida, espoliada, lacerada, invadida, e que houvesse, por fim, sofrido toda espécie de calamidade." (p. 81) Nesse trecho de O príncipe, como Maquiavel descreve a situação da Itália? 8. Comparando as propostas de Thomas Morus e Maquiavel, que aspectos elas têm em comum? 9. Em que sentido a obra de Maquiavel se distingue das demais manifestações de literatura utópica? 10. Faça com o seu grupo de trabalho o seguinte exercício: a partir do levantamento de críticas à sua sociedade, descreva uma sociedade utópica na qual essas questões seriam solucionadas. Aplicação de conceitos 1. A ideia de que existe um espaço onde reina a felicidade e onde as necessidades do homem serão satisfeitas está presente na literatura em todos os tempos. A literatura brasileira tem um bom exemplo — o poema de Manuel Bandeira, "Vou-me embora pra Pasárgada", em que ele descreve assim sua utopia: 25 Vou-me embora pra Pasárgada Lá sou amigo do rei Lá tenho a mulher que eu quero Na cama que escolherei
  • 22. Vou-me embora pra Pasárgada Vou-me embora pra Pasárgada Aqui eu não sou feliz Lá a existência é uma aventura De tal modo inconsequente; Que Joana a Louca de Espanha Rainha e falsa demente Vem a ser contraparente Da nora que nunca tive E como farei ginástica Andarei de bicicleta Montarei um burro brabo Subirei no pau-de-sebo Tomarei banhos de mar! E quando estiver cansado Deito na beira do rio Mando chamar a mãe-d'água Pra me contar as histórias Que no tempo de eu menino Rosa vinha me contar Vou-me embora pra Pasárgada '? Em Pasárgada tem tudo É outra civilização Tem um processo seguro De impedir a concepção Tem telefone automático Tem alcalóide à vontade Tem prostitutas bonitas Para a gente namorar E quando eu estiver mais triste triste de não ter jeito , Quando de noite me Vontade de me , — Lá sou amigo do rei— Terei a mulher que eu quero. Na cama que escolherei Vou-me embora pra Pasárgada. Manuel Bandeira, Estrela da vida inteira, Rio de Janeiro, José Olympio, 1974. Analise o poema e tente imaginar essa utopia do poeta retirando dela os princípios de ordem ocial criados nessa sociedade ideal para o escritor. 26 2. Em Romeu e Julieta, Shakespeare aborda o conflito entre o indivíduo e a sociedade, uma vez que o drama dos amantes de Verona decorre da oposição entre as regras sociais vigentes e a vontade individual dos heróis. Na seguinte fala de Julieta essa questão fica clara:
  • 23. "Somente teu nome é meu inimigo. Tu és tu mesmo, sejas ou não um Montechio. Que é um Montechio? Não é mão, nem braço nem rosto, nem outra parte qualquer pertencente a um homem. Oh! sê outro nome! Que há em um nome? O que chamamos de rosa, com outro nome exalaria o mesmo perfume tão agradável; e assim, Romeu, se não se chamasse Romeu, conservaria essa cara perfeição que possui sem o título. Romeu, despoja-te de teu nome, que não faz parte de ti, toma-me toda inteira!" , ,, ; Analise o conteúdo social desse texto e perceba como já se colocava no Renascimento a percepção da relação indivíduo e sociedade. 3. Analise o detalhe do Juízo final, afresco pintado por Michelângelo na Capela Sistina, e procure identificar os elementos renascentistas presentes na pintura. 4. Vídeos: a) Agonia e êxtase (EUA, 1965. Direção de Carol Reed. Baseado no romance de Irving Stone. Duração: 140 min.) — Um pequeno documentário dramatizando os conflitos de valores, arte, religião e realização pessoal entre o pintor renascentista italiano Michelângelo e seu patrocinador, o papa Júlio II. Observe como se estrutura a Igreja e a sociedade em torno de valores burgueses emergentes. b) Giordano Bruno (Itália, 1973. Direção de Giuliano Montaldo. Duração: 123 min.) — Esse filme mostra a sociedade italiana do século XVI na qual o filósofo e astrónomo Giordano Bruno é condenado à morte pela Inquisição por se opor à tradição geocêntrica da Igreja Católica. Aborda o conflito entre a ciência e a religião na ótica de Giordano e da Igreja Católica. Tema para debate Ficção científica — a utopia contemporânea A literatura utópica é apontada como tendo surgido na Grécia, com Platão, em seus livros Timeue Crítias, e com Aristófanes, em Os pássaros. Depois deles, Luciano Samosata, prosador grego do século II, também se dedicou ao género. Outros filósofos como Swift e Voltaire escreveram obras utópicas bastante conhecidas. Kingsley Amis, estudioso da matéria, considera A Utopia, de Thomas Morus, e Nova Atlântida, de Francis Bacon, os melhores exemplos do género, por reunirem forte crítica social e invenção criadora. Por isso, considera-as precursoras da ficção atual, de onde brotariam as utopias contemporâneas. H. L. Gold, diretor da revista de ficção científica Galaxy, afirma: "Poucas coisas revelam tão nitidamente quanto a ficção científica os desejos, as esperanças, os temores, os conflitos interiores e as tensões de uma época, ou definem com tanta exatidão as suas limitações". 27
  • 24. Leituras complementares [Sobre o surgimento do pensamento crítico — Maquiavel] É extremamente provável que tenha sido o trato cotidiano com assuntos políticos que, pela primeira vez, deu consciência e senso crítico ao homem face ao elemento ideológico de seu pensamento. Durante a Renascença, entre os concidadãos de Maquiavel, emergiu um novo adágio chamando a atenção para ma observação comum na época — que era a de que o pensamento do palácio é ma coisa, e o da praça pública é outra. Isto era uma expressão do crescente grau m que o público ganhava acesso aos segredos da política. Podemos aqui observar o início do processo no decorrer do qual o que antes havia sido apenas uma «tosão ocasional de suspeita de ceticismo, face aos pronunciamentos públicos, evoluiu para uma procura metódica do elemento ideológico em todos eles. A diversidade de formas de pensamento entre os homens é ainda, neste estágio, atribuída um fator que, sem exagerar o termo indevidamente, poderia ser denominado sociológico. Maquiavel, em sua profunda racionalidade, tomou como tarefa especifica relacionar as variações das opiniões dos homens às variações correspondentes em seus interesses. De acordo com sua prescrição de medicina forte para toda subjetividade das partes interessadas em uma controvérsia, Maquiavel pare-B estar explicitando e estabelecendo como regra geral do pensamento o que estava implícito no adágio de seu tempo. Karl Mannheim, Ideologia e utopia, p. 89. [A república para Maquiavel] A república é outro tema fundamental de Maquiavel. Nos Comentários sobre a primeira década de Tito Lívio, o secretário florentino analisa a liberdade como BÉD do conflito entre pobres e ricos no interior do corpo político. No texto de lewíon Bignotto, podemos observar: Deixando de lado a questão tradicional das origens das instituições, que parecia ser o melhor caminho para a compreensão do tema que nos interessa, osso autor nos mostra não somente que a liberdade deve ser pensada a partir dos conflitos internos de uma cidade, mas também que nossas ideias sobre a criação das instituições políticas devem ser revistas. A liberdade, tão adorada dos florentinos, mas tão pouco realizada, é o produto de forças em luta, o resultado de um processo que não pode ser extinto com o tempo. Os conflitos são os indutores da melhor das instituições, e não o elemento incongruente de um período infeliz na história de um povo. Maquiavel resume seu pensamento numa frase lapidar:"... e deve-se considerar como existem em toda república dois humores diversos: o do povo e o dos grandes, e toda lei que se faz em favor da liberdade nasce da desunião entre eles". Para passar da ideia de uma sociedade ideal inteiramente voltada para a paz ao elogio da sociedade tumultuaria, foi preciso um enorme esforço de elaboração 28
  • 25. Para fortalecer a criação de um novo continente, Maquiavel lançou mão do fato de que nenhuma sociedade viveu até hoje sem conflitos. Se isso não prova que eles tiveram um papel positivo na história, demonstra, pelo menos, que uma sociedade totalmente imersa na paz é talvez a ficção de mentes bondosas, mas não o espelho da condição humana. A novidade, portanto, não é a afirmação da maldade dos homens, mas a de que essa maldade não impede a criação de instituições boas. Mais radicalmente ainda, podemos dizer que é da propensão ao conflito que nasce a possibilidade da liberdade. A liberdade é, portanto, o resultado de conflitos, uma solução possível de uma luta que não pode ser extinta por nenhuma criação humana. De uma problemática antropológica passamos a conceber a política como uma forma da guerra. Mas a guerra não significa aqui a pura negatividade, ela aponta para o verdadeiro ponto de partida de toda reflexão sobre a política, que é a existência de desejos opostos na polis. Voltando, assim, ao tema dos desejos opostos que povoam as cidades, aprendemos com a seqüência do texto que o desejo do povo é que está mais próximo da liberdade, pois, não sendo um desejo de poder, mostra uma face importante da liberdade: a não-opressão. "E os desejos dos povos livres raras vezes são perniciosos à liberdade, porque nascem ou da opressão que eles sofrem, ou da suspeição de que poderão sofrê-la." Das duas forças principais que dividem a cidade, não podemos dizer que elas sejam o inverso simétrico uma da outra. O povo, não visando à mesma coisa que os grandes, não pode ser compreendido pela imagem do inimigo organizado num campo de batalha. Daí resulta que a liberdade não é um meio-termo estático que satisfaz os desejos dos dois oponentes. Tal fim é absolutamente impossível de ser alcançado por dois adversários que não têm o mesmo objetivo. A liberdade, mais do que uma solução permanente para as lutas internas de uma cidade, é o signo de sua capacidade de acolher forças que, não podendo ser satisfeitas, não deixam de buscar meios de se exprimir. Newton Bignotto, Maquiavel republicano, São Paulo, Loyola, 1991, p. 85. 29 2 A Ilustração e a sociedade contratual Introdução: uma nova etapa no pensamento burguês O Renascimento desenvolveu nos homens novos valores, diferentes daqueles vigentes na Idade Média. Os valores renascentistas estavam mais adequados ao espírito do capitalismo, um sistema econômico voltado para a produçãoção e a troca, para a expansão comercial, para a circulação crescente de mercadorias e para o consumo de bens materiais. Instalava-se uma sociedade baseada na distinção pela posse de riqueza e não pela origem, nome e propriedade fundiária. Essa mudança radical no mundo ocidental exigia uma nova ordem social, dirigida por pessoas dispostas a buscar um espaço no mundo, a competir por mercados e a responder de forma produtiva à ampliação do consumo, Pessoas cuja vida estivesse direcionada para a
  • 26. existência terrena e suas conquistas, e não para a vida após a morte e para os valores transcendentais. Todas essas mudanças se anunciavam no Renascimento e se tornavam vez mais radicais à medida que se adentrava a Idade Moderna e a Revolução Industrial se tornava realidade. A nova concepção de lucro, elaborada e praticada pelo comerciante burguês; renascentista, é a marca decisiva da ruptura com os valores e as ideias do mundo medieval. O lucro não é mais apenas o valor que se paga ao comerciante • trabalho realizado. O lucro expressa a premissa da acumulação, da ostenta-, da diferenciação individual e assim realiza a ideia de que tenho o direito de • o máximo que uma pessoa pode pagar. A ideia e a realização do lucro não i de forma alguma novas. Eram conhecidas desde a Antiguidade, a partir do momento em que surgiu o comércio usando o dinheiro como equivalente de i e, em decorrência, a acumulação de riqueza. No entanto, a forma de pensar atiçar o lucro era distinta. Enquanto no Império Romano o comércio realiza-|com a prática de preços considerados abusivos era considerado ilegal e pouco e, e a Igreja Católica considerava pecaminosa a atividade lucrativa, no capitalismo, o lucro tornou-se a finalidade de qualquer atividade econômica. Vejamos i situação hipotética: na Grécia, um armador vivia da com-, do transporte e da venda de azeitonas à Europa. O preço l do produto remunerava o comerciante por seu trabalho intermediação. Nesse preço estavam embutidas a reposição dos navios e dos escravos e a viagem de volta. Muitos comerciantes enriqueceram, porque agora também se cobra-i máximo possível pela mercadoria. Essa forma de entender O pensamento burguês representou uma ruptura com relação ao mundo medieval. 30 o lucro era nova na história e foi instaurada pela burguesia a partir do Renascimento. Se um comerciante pode auferir numa troca comercial o maior preço possível que a situação permite — resultante da relação entre oferta e procura e de outras condições produtivas e de mercado —, então é preciso que a produção seja organizada de forma mais racional e em larga escala. O fato de a concorrência ser cada vez maior também exige maior racionalidade e previsão. A procura por novas técnicas mais eficientes se torna uma constante. Muitos prêmios são oferecidos aos inventores, e projetos como os de Leonardo da Vinci, que ficaram apenas no papel, passam a fazer enorme sucesso. Desenvolvem-se a ciência e a tecnologia, enquanto na filosofia cada vez mais se procuram as raízes das formas de pensar. O Renascimento introduziu e desenvolveu o antropocentrismo, a laicidade, o individualismo e o racionalismo. Com relação à vida social, passou a concebê-la como uma realidade própria sobre a qual os homens atuam; percebeu-se também a existência de diferentes modelos — a República, a Monarquia — e passou-se a analisá-los e a defender um ou outro modelo. Conseguiu-se vislumbrar a oposição entre indivíduo e sociedade, entre vontade individual e regras sociais. A sociedade que emergiu do movimento renascentista exaltava a livre concorrência e a livre contratação. (Xilogravura de Jost Amman, século XVI)
  • 27. Ao pregar o fim do controle do Estado sobre a economia nacional, a Ilustração ajudou o desenvolvimento da indústria. (Londres em 1870, gravura de Gustave Doré). 31 A Ilustração, movimento filosófico que sucedeu o Renascimento, deu um passo além. Concebeu novas ideias de vida social e entendeu a coletividade como um organismo próprio. Começou a discernir aspectos e áreas da vida social com diferentes características e necessidades — a agricultura, a indústria, a cidade, o campo. O conceito de nação, como forma de organização política pela qual as populações estabelecem relações intersocietárias, já se cristalizara na Ilustração. O nacionalismo emergente do Renascimento, identificado ainda com o monarca e preso ao sentimento de fidelidade e sujeição, dá lugar à noção de organismo representativo da coletividade, independentemente de quem ocupa, por certo tempo, os cargos disponíveis. O princípio de representatividade política, revelando um aprofundamento no entendimento da vida social, assim como o aparecimento de teorias capazes de explicar a origem do valor das mercadorias e outros mecanismos sociais, mostram o grau de desenvolvimento do pensamento social. Já rã possível identificar fenômenos sociais e concebê-los em sua natureza pró-ria diferenciada. O surgimento de conceitos, como Valor e Estado, revela a existência de uma metodologia e a emergência de uma nova forma de conhecer a realidade social. O Renascimento correspondeu a uma primeira fase da sistematização o pensamento burguês, na medida em que procurava trazer de volta à Europa os valores laicos, o gosto pela vida e o racionalismo, e atribuía ao indivíduo valores pessoais que não provinham da sua origem. Embora ainda tivesse um certo caráter religioso, o Renascimento exaltava a natureza e os prazeres da vida terrena, fossem o êxtase religioso ou o simples prazer dos sentidos, que se consegue junto à natureza. Nos séculos XVII e XVIII, entretanto, a burguesia avança na concepçãode uma forma de pensar própria, capaz de transformar o conhecimento não só numa exaltação da vida e dos feitos de seus heróis, mas também um processo que frutificasse em termos de utilidade prática. Afinal, o desenvolvimento industrial se anunciava em toda sua potencialidade; os empreendimentos, quando bem dirigidos, prometiam lucros miraculosos. Portanto, era preciso preparar a sociedade para receber os resultados desse "trabalho. Os próprios sábios deveriam se interessar em desenvolver conhecimentos de aplicação prática. A sociedade apresentava necessidades urgentes ao desenvolvimento científico: melhorar as condições de vida; ampliar a expectativa de sobrevivência humana a fim de engrossar as fileiras de consumidores e, principalmente, de mão-de-obra disponível; mudar os hábitos sociais e formar uma 'mentalidade receptiva às inovações técnicas. A prática de elaboração dos projetos científicos para o desenvolvimento da indústria passa a ser aplicada à cidade, pois sem um planejamento racional dos meios de transporte terrestres e marítimos, da distribuição e armazenamento dos produtos, da minoria da infra-estrutura, todo o esforço
  • 28. produtivo estaria perdido. O planejar e o projetar o futuro trouxeram consigo também o conceito de nação, correspondendo à extensão territorial onde a burguesia de determinado país teria total controle sobre o mercado. A nação deveria se submeter a uma organização 32 política que pudesse favorecer o desenvolvimento econômico e estimulá-lo. Dentro dessa nova organização política da sociedade deveria privilegiar-se o indivíduo, principal motor do progresso econômico. Este deveria estar livre das amarras impostas até então pela sociedade feudal, pois, de posse de sua total liberdade de agir, mover-se e estabelecer-se, o indivíduo poderia promover o progresso econômico. Novos valores guiando a vida social para sua modernização, maior empenho das pesquisas e do saber em conquistar avanços técnicos, melhora nas condições de vida, tudo isso somado levou a esse surto de ideias, conhecido pelo nome de Ilustração. Após um primeiro momento em que a existência de um poder central garantia a emergência e a organização dessa nova ordem social, o mercado exigia liberdade de expansão. As novas formas de pensar e agir aliavam-se à necessidade de a burguesia libertar-se das amarras estabelecidas pelas monarquias absolutas, que não permitiam a livre iniciativa, a liberdade de comércio e a livre concorrência de salários, preços e produtos. Assim, a Ilustração foi essencialmente pragmática e liberal, uma vez que a burguesia queria uma ordem econômica, política e social em que tivesse participação no poder e pudesse realizar seus negócios sem entraves. Podemos dizer que a burguesia já se sentia suficientemente forte e confiante em seus próprios objetivos de vida para dispensar a figura do rei como seu aliado contra os privilégios feudais, tal como sucedera durante a época mercantilista, em que o Estado nacional favoreceu uma política de acumulação de capital por meio de monopólios, fiscalização, manufaturas e colonialismo. Fortalecida, a burguesia propunha agora formas de governo baseadas na legitimidade popular, até mesmo governos republicanos. Conclamava o povo a aderir à defesa da igualdade jurídica e do sufrágio universal. A filosofia social dos séculos XVII e XVIII O pensamento da Ilustração, apoiado principalmente na contribuição dos fisiocratas (escola econômica da época), defendia a ideia de que a economia era regida por leis naturais de oferta e procura que tendiam a estabelecer, de maneira mais eficiente do que os decretos reais, o melhor preço, o melhor produto e o melhor contrato, pela livre concorrência. Além desse apreço pelo livre curso das relações econômicas, os fisiocratas, opondo-se ao uso ocioso que a nobreza fazia de suas propriedades agrárias, propunham melhor aproveitamento da agricultura, atividade que consideravam a principal fonte de riqueza das nações. Segundo esse ponto de vista, as relações econômicas e sociais eram regidas por leis físicas e naturais que funcionariam de maneira racional, desde que não prejudicadas pela intervenção do Estado absolutista. O controle
  • 29. das relações humanas surgia, portanto, da própria dinâmica da vida econômica e social, dotada de uma racionalidade intrínseca, cuja descoberta era a principal meta dos estudos científicos. O desenvolvimento do capitalismo estimulou a sistematização do pensamento sociológico. 33 A racionalidade estava na origem natural e física das leis de organização da sociedade humana e na base da própria atividade humana e do conhecimento, tal como defendiam os pensadores franceses René Descartes e Denis Diderot. O racionalismo cartesiano — termo derivado de Cartesius, nome latino de Descartes — se expressava pela frase "penso, logo existo", na qual mostrava que a razão era a essência do ser humano. Reconhecia-se no homem, portanto, a capacidade de pensar e escolher, de opinar e resolver sem que leis rígidas perturbassem sua conduta. No plano econômico, essa ideia se traduzia na ânsia por liberdade de ação, empreendimento e contratação. Traduzia-se ainda na concepção de que as relações entre os homens resultariam na livre contraposição de vontades, na liberdade contratual. No plano político, expressava-se no objetivo de livre escolha dos governantes, segundo o ideal de um Estado representativo da vontade popular. Finalmente, no plano social, manifestava-se na noção de que as sociedades se baseavam em acordos mútuos entre os indivíduos que as compunham. Um dos pensadores que mais desenvolveu essa ideia de um pacto social originário foi Jean- Jacques Rousseau. Em sua obra Contrato social, Rousseau afirmava que a base da sociedade estava no interesse comum pela vida social, no consentimento unânime dos homens em renunciar as suas vontades particulares em favor de toda a comunidade. Para alicerçar suas ideias a respeito da legitimidade do Estado a serviço dos interesses comuns e dos direitos naturais do homem, Rousseau procurou traçar a trajetória da humanidade a partir do igualitarismo primitivo até a sociedade diferenciada. Para ele, a origem dessa diferenciação estava no aparecimento da propriedade privada. Justamente por essa crítica à propriedade, distingue-se dos demais filósofos da Ilustração. Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) Nascido em Genebra, filho de burgueses protestantes, Rousseau teve uma vida errante que o levou continuamente da Suíça à França, à Itália e à Inglaterra. Foi aprendiz de gravador, secretário de nobres ilustres e até seminarista. Dedicou-se também ao desenho, à pintura e à música. Na França, foi contemporâneo de filósofos da Ilustração, como Diderot. Suas principais obras foram Emílio, Contrato social, Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens e Discurso sobre as ciências e as artes. Foi alvo de críticas severas e perseguições, mas na época da Revolução Francesa suas ideias foram intensamente divulgadas.
  • 30. John Locke, pensador inglês, também defendeu a ideia de que a sociedade resultava da livre associação entre indivíduos dotados de razão e vontade. Para Locke, essa contratação estabelecia, entre outras coisas, as formas de poder, as garantias de liberdade individual e o respeito à propriedade. Seus princípios deveriam ser redigidos sob a forma de uma constituição. Entre os filósofos da Ilustração, ganhava adeptos a ideia de que toda matéria tinha uma origem natural, não-divina, e que todo processo vital não 34 era senão o movimento dessa matéria, obedecendo a leis naturais. Esses princípios guiavam o conhecimento racional da sociedade, na busca das leis naturais da organização social. Podemos afirmar que a filosofia social da Ilustração levaria à descoberta das bases materiais das relações sociais. Percebe-se claramente que os filósofos dessa época já desenvolviam a consciência da diferença entre indivíduo e coletividade. Já percebiam que esta possuía regras próprias que regulavam a vida coletiva, como as regras naturais regiam o surgimento, o desenvolvimento e as relações entre as espécies. Mas, presos ainda à ideia de indivíduos, esses filósofos entendiam a vida coletiva como a fusão de individualidades. O comportamento social decorreria da manifestação explícita das vontades individuais. A filosofia social da Ilustração levou à descoberta das bases materiais das relações sociais. John Locke (1632-1704) Era inglês de Wrington. Formado em Oxford, ingressou na carreira diplomática. Durante o período em que residiu na França, tomou contato com o método cartesiano. Sofreu perseguições políticas na Inglaterra que o obrigaram a se refugiar na Holanda. Em sua obra Dois tratados sobre o governo civil, defende o liberalismo político, os direitos naturais do homem e da propriedade privada. Suas ideias políticas tiveram grande repercussão assim como sua contribuição ao problema do conhecimento, expressa na obra Ensaio sobre o entendimento humano, na qual repudia a proposição cartesiana de que o homem possua ideias inatas e defende o conhecimento como resultado da experiência, da percepção e da sensibilidade. Publicou, ainda, Epístola sobre a tolerância, Alguns pensamentos sobre educação e Racionalidade do cristianismo. Adam Smith: o nascimento da ciência econômica Foi Adam Smith, considerado fundador da ciência econômica, quem demonstrou que a análise científica podia ir além do que era expressamente manifesto nas vontades individuais. Em sua análise sobre a riqueza das nações descobriu no trabalho, ou seja, na produtividade, a grande fonte de riqueza. Não era somente a agricultura, como queriam os fisiocratas, a principal fonte de bens; mas o trabalho capaz de transformar matéria bruta em produtos com valor de mercado. Veremos adiante como essa ideia será retomada e reelaborada no século XIX por Karl Marx.
  • 31. Adam Smith revelara a importância do trabalho ao pensar a sociedade não como um conjunto abstrato de indivíduos dotados de vontade e liberdade, tal como fizeram Rousseau e Locke, mas ao aprender e perceber a natureza própria da vida social segundo a qual o comportamento social obedece a regras diferentes daquelas que regem a ação individual. A coletividade deixava de ser a soma dos indivíduos que a compõem. A Revolução Industrial estava em pleno andamento e seus frutos se anunciavam. 35 Adam Smith (1723-1790) Nasceu na Escócia. Foi professor da Universidade de Glasgow. É considerado o fundador da ciência econômica. Sua principal obra foi Investigação sobre a natureza e as causas da riqueza das nações (A riqueza das nações). Desenvolveu ideias a respeito da divisão do trabalho, da função da moeda e da ação dos bancos na economia. Continuou seus estudos no livro Teoria dos sentimentos morais, no qual afirma que a vida social humana está fundada em sentimentos de benevolência e simpatia. Foi o grande defensor do liberalismo econômico. Legitimidade e liberalismo As teorias sociais da Ilustração no século XVIII foram ainda o início do pensar científico sobre a sociedade. Tiveram o poder de orientar a ação política e lançar as bases do que viria a ser o Estado capitalista, desenvolvido no século XIX, constitucional e democrático. Lançaram também as bases para o movimento político pela legitimação do poder, fosse de caráter monárquico, como na Revolução Gloriosa da Inglaterra, fosse de caráter republicano, como na Revolução Francesa, ou ainda do tipo ditatorial, como no império napoleônico. Tão importante quanto seu valor como forma de entendimento da vida social e política foi sua repercussão prática na sociedade. A filosofia social desse período teve, em relação à renascentista, a vantagem de não constituir apenas uma crítica social baseada no que a sociedade poderia idealmente vir a ser, mas de criar projetos concretos de realização política para a sociedade burguesa emergente. A ideia de Estado como uma entidade cuja legitimidade se baseia na pretensa representatividade da sociedade é um avanço em relação à ideia de monarquia absoluta. O Estado já não é a pessoa que governa, mas uma instituição abstraía com relações precisas com a coletividade. Além da circulação _e leis e de riquezas, o Estado criava o princípio da circulação de poder. O confronto de interesses também 'está subjacente às ideias propostas pêlos políticos iluministas. ' . • * ; As ideias de Locke e de Montesquieu, outro importante pensador da Ilustração, foram a base da Constituição norte-americana de 1787. Ambos pregaram a divisão do Estado em três poderes: legislativo, incumbido da elaboração e da discussão das leis; executivo, encarregado da execução das leis, tendo em vista a proteção dos direitos naturais à liberdade, à igualdade e à propriedade; e judiciário, responsável pela fiscalização à observância das leis que asseguravam os direitos individuais e seus limites.
  • 32. Essa divisão estabelecia a distribuição das tarefas governamentais e a mútua fiscalização entre os poderes do Estado. Locke defendia, ainda, a ideia de que a origem do poder não estava nos privilégios da tradição, da herança ou da concessão divina, mas no contrato expresso pela livre manifestação das vontades individuais. 36 A legislação norte-americana, instituindo a divisão do Estado nos três poderes e estabelecendo mecanismos para garantir a eleição legítima dos governantes e os direitos do cidadão, pôs em prática os ideais políticos liberais e democráticos modernos. Os Estados Unidos da América constituíram a primeira república liberal-democrática burguesa. Atividades 1. "Uma vez que homem nenhum possui uma autoridade natural sobre seu semelhante, e que a força não produz nenhum direito, restam, pois, as convenções como base de toda autoridade legítima entre os homens." (p. 25) Nesse trecho de Rousseau, tirado do Contrato social, o autor: a) considera natural a autoridade de um homem sobre outro? Por quê? b) identifica alguma base legítima para essa autoridade? Qual? Justifique. 2. "Como a natureza dá a cada homem um poder absoluto sobre todos os seus membros, dá o pacto social ao corpo político um poder absoluto sobre todos os seus, e é esse mesmo poder que, dirigido pela vontade geral, recebe, como eu disse, o nome de soberania." (p. 42) A partir do trecho citado, o que é soberania, para Rousseau? 3. Leia cuidadosamente o capítulo e extraia cinco conceitos que, na sua opinião, melhor caracterizam a Ilustração. 4. O que o homem da Ilustração esperava da ciência? E você, o que espera da ciência hoje? 5. Em que termos se expressou o liberalismo da Ilustração nas questões econômicas? 6. Nesse capítulo procuramos explicar o liberalismo económico. Hoje vivemos um período de reflorescimento desses princípios, que chamamos de neoliberalismo. Faça uma pesquisa nos jornais procurando notícias a respeito. 7. Por que Adam Smith pode ser considerado o fundador da ciência económica? 8. Qual era a fonte de riqueza de uma nação para Adam Smith? Por quê? Os trechos a seguir foram extraídos do Segundo tratado sobre o governo civil, de Locke. Leia-os com atenção e responda às questões 9 a 11. "O grande objetivo da entrada do homem em sociedade, consistindo na fruição da propriedade em paz e segurança, e sendo o grande instrumento e meio disto as leis
  • 33. estabelecidas nessa sociedade, a primeira lei positiva e fundamental de todas as comunidades consiste em estabelecer o poder legislativo." (p. 86) 37 "Todavia, como as leis elaboradas imediatamente e em prazo curto têm força constante e duradoura, precisando para isso de perpétua execução e assistência, torna-se necessária a existência de um poder permanente que acompanhe a execução das leis que se elaboram e ficam em vigor." (p. 91) "Em todos os casos, enquanto subsiste o governo, o legislativo é o poder superior; o que deve dar leis a outrem deve necessariamente ser-lhe superior." (p. 94) 9. Como Locke justifica a criação do poder legislativo e do poder executivo? 10. Qual deve ser, segundo Locke, a relação entre os poderes legislativo e executivo? 11. Para Locke, os poderes executivo e legislativo podem ser exercidos ao mesmo tempo pelas mesmas pessoas? Por quê? Aplicação de conceitos, 1. Vídeo: Danton, o processo da revolução (França, 1982. Direção de Andrej Wajda. Duração: 136 min.) — Essa obra retrata a segunda fase da Revolução Francesa, o período do Terror, marca o debate entre os jacobinos Danton e Robespierre, este fortemente comprometido com as razões do Estado. Procure perceber como na Revolução Francesa é criado o Estado burguês proposto pela Ilustração. Tema para debate. A racionalização do pensamento burguês recomeça com a segunda época, isto é, na manufatura relativamente desenvolvida. Só então a classe burguesa se mostra como um fato social firmemente estabelecido, isto é, só então a posição social dos indivíduos adota formas relativamente estáveis, e a inquietude da ascensão e da decadência, do progresso e do retrocesso, não constitui mais o as-oecto predominante na imagem da sociedade. Leo Kofler, Contribución a Ia historia de Ia sociedad burguesa, p. 283. Segundo o autor, quais as condições sociais e econômicas que favorecem o desenvolvimento do pensamento burguês do século XVII? Leitura Complementar As duas faces do liberalismo Se, portanto, queremos compreender e apreciar o liberalismo, não temos que escolher entre as duas interpretações, não temos que optar entre o aspecto ideológico e a abordagem
  • 34. sociológica. Ambos concorrem para definir a originalidade do liberalismo e para revelar o que constitui um de seus traços essenciais, 38 essa ambigüidade que faz com que o liberalismo tenha podido ser, alternativamente, revolucionário e conservador, subversivo e conformista. Os mesmos homens passarão da oposição para o poder; os mesmos partidos passarão do combate ao regime à defesa das instituições. Agindo assim, eles nada mais farão do que revelar sucessivamente dois aspectos complementares dessa mesma doutrina, ambígua por si mesma, que rejeita o Antigo Regime e que não quer a democracia integral, que se situa a meio caminho entre esses dois extremos e cuja melhor definição é, sem dúvida, o apelido dado à Monarquia de Julho: "o justo meio". É porque o liberalismo é um justo meio que, visto da direita, parece revolucionário e, visto da esquerda, parece conservador. Ele travou, sucessivamente, dois combates, em duas frentes diferentes: primeiro, contra a conservação, o absolutismo; depois, contra o impulso das forças sociais, de doutrinas políticas mais avançadas que ele próprio: o radicalismo, a democracia integral, o socialismo. É a conjunção do ideal e da realidade, a convergência de aspirações intelectuais e sentimentais, mas também de interesses bem palpáveis, que constituíram a força do movimento liberal, entre 1815 e 1840. Reduzido a uma filosofia política, ele sem dúvida não teria mobilizado grandes batalhões; confundido com a defesa pura e simples de interesses, ele não teria suscitado adesões desinteressadas, que foram até o sacrifício supremo. O liberalismo transformou a Europa tal qual era em 1815, ora graças às reformas — fazendo uso da evolução progressiva, sem violência —, ora lançando mão da evolução por meio da mudança revolucionária. Entre esses dois métodos, o liberalismo, em sua doutrina, não encontra razão para preferir um ao outro. Se ele pode evitar a revolução, alegra-se com isso. Na verdade isso aconteceu muito raramente. Talvez somente na Inglaterra, nos Países Baixos e nos países escandinavos é que o liberalismo transformou pouco a pouco o regime e a sociedade por meio de reformas. Em todos os outros lugares, acossado pela resistência obstinada dos defensores da ordem estabelecida, que recusava qualquer concessão, o liberalismo recorreu ao método revolucionário. É a atitude de Carlos X, em 1830, e a promulgação de ordenanças que violavam o pacto de 1814, que levam os liberais a fazer a revolução para derrubar a dinastia. É assim também que a política obstinada de Metternich levará a Áustria, em 1848, à revolução. René Remond, O século XIX; 1818-1914, p. 34-35 39 A crise das explicações religiosas e o triunfo da ciência Introdução: o milagre da ciência
  • 35. Vários aspectos da filosofia da Ilustração prepararam o surgimento das ciências sociais no século XIX. O primeiro deles foi a sistematização do pensamento científico. Os efeitos de novos inventos, como o pára-raios e as vacinas, o desenvolvimento da mecânica, da química e da farmácia, eram amplamente verificáveis e pareciam coroar de êxitos as atividades científicas. Claro está que a sociedade européia da época não se dava conta das nefastas conseqüências que a Revolução Industrial do século XVIII traria para o mundo tradicional agrário e manufatureiro. Aos olhos dos homens da época, eram vitoriosas as conquistas do conhecimento humano, no sentido de abrir caminho para o controle sobre as leis da natureza. As ideias de progresso, racionalismo e cientificismo exerceram todo um encanto sobre a mentalidade da época. A vida parecia submeter-se aos ditames do homem esclarecido. Preparava-se o caminho para o amplo progresso científico que aflorou no final do século XIX. Se a ciência tinha sucesso na explicação da natureza, poderia também explicar a sociedade, como elemento da natureza. Em oposição à religiosidade medieval, a ciência na era moderna se afirmava como sinônimo de verdade e progresso. (Tela elaborada para a Grande Exposição de 1851 na Grã-Bretanha) 40 Se esse pensamento racional e científico parecia válido para explicar a natureza, intervir sobre ela e transformá-la, ele poderia também explicar a sociedade vista como um elemento da natureza. E a sociedade, da mesma forma que a natureza, poderia ser conhecida e transformada. As questões de método O filósofo da Ilustração, além de preocupar-se com a descoberta das leis que regiam o próprio conhecimento, queria conhecer a natureza e intervir sobre ela. Dessa preocupação provieram as discussões em torno do método científico. A indução, método que concebia o conhecimento como resultado da experimentação contínua e do aprofundamento da manipulação empírica, havia sido desenvolvida por Bacon desde o fim do Renascimento. Em contraposição, Descartes defendia a validade do método dedutivo, ou seja, aquele que possibilitava descobertas pelo encadeamento lógico de hipóteses elaboradas exclusivamente a partir da razão. A ciência se fundava, portanto, como um conjunto de ideias que diziam respeito à natureza dos fatos e aos métodos para compreendê-los. Por isso, as primeiras questões que os sociólogos do século XIX tentarão responder serão relativas à definição dos fatos sociais e ao método de investigação. Tanto o método indutivo de Bacon como o dedutivo de Descartes serão traduzidos em procedimentos válidos para as pesquisas sobre a natureza da sociedade.