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FILOSOFIA DA CIÊNCIA
A Racionalidade Científico-
Tecnológica
1. Conhecimento Vulgar (senso
comum) e Conhecimento Científico
2. Ciência e Construção – Validade e
Verificabilidade das Hipóteses
3. Racionalidade Científica e a Questão
da Objetividade
“O maior inimigo do conhecimento
não é a ignorância, mas sim a ilusão
da verdade” – Stephen Hawking
1. Conhecimento Vulgar (senso comum) e Conhecimento Científico
Filosofia – 11.º ano
Conhecimento Vulgar ou Senso Comum
O conhecimento vulgar ou senso comum
resulta das experiências e vivências
quotidianas – é subjetivo, concreto e
empírico
Não procura explicar
a realidade, mas sim
enquadrá-la num
todo social coerente
e estável
É formulado numa
linguagem corrente,
originando
ambiguidades
Limita-se a
constatar o que
existe, sem se
preocupar com
explicações
É um conhecimento
prático, superficial,
espontâneo, acrítico
e assistemático
O conhecimento vulgar ou senso comum está ligado à apreensão imediata da realidade.
É, por essa mesma razão, um conhecimento baseado na experiência vivida, sem
demasiadas preocupações com o rigor, mas, ainda assim, ferramenta fundamental do saber
viver, pois é a partir dele que orientamos a nossa vida quotidiana.
1. Conhecimento Vulgar (senso comum) e Conhecimento Científico
Filosofia – 11.º ano
Acumula conhecimentos dispersos sem exigência de rigor e
sistematicidade
É particular, marcado pela subjetividade e pela ausência de
método
É superficial, pois diz como as coisas são (ou parecem ser), sem
se preocupar com justificação ou explicação
É acrítico, sendo pouco atreito ao questionamento e à revisão
Comunica através de uma linguagem natural, sem grandes
preocupações com a eliminação da ambiguidade
Conhecimento Vulgar (senso comum)
1. Conhecimento Vulgar (senso comum) e Conhecimento Científico
Filosofia – 11.º ano
Conhecimento Vulgar (senso comum)
“Senso comum - conjunto mais alargado de crenças que uma comunidade tem
por verdadeiras e partilha durante um certo período de tempo. O senso comum
é um "saber" que resulta da experiência de vida individual e coletiva. Os hábitos
e costumes, as tradições e rituais, os "ditos" e provérbios, as opiniões
populares, etc., são habitualmente referidos como manifestações do senso
comum. A sua aprendizagem é uma condição necessária para a socialização de
cada membro da comunidade, funcionando como um mecanismo regulador do
seu pensamento e da sua ação. Do ponto de vista da ciência e da filosofia, os
processos de justificação das crenças de senso comum afiguram-se muitíssimo
superficiais e falíveis, e é frequente tais crenças resistirem mal a um exame
crítico mais minucioso, pelo que a sua ampla aceitação não é uma garantia de
que sejam verdadeiras”.
António Costa, Dicionário Escolar de Filosofia
1. Conhecimento Vulgar (senso comum) e Conhecimento Científico
Filosofia – 11.º ano
Conhecimento Científico
O conhecimento científico é metódico,
objetivo e sistemático
Expressa-se numa
linguagem específica,
mais técnica e exata, o
que evita a
ambiguidade
É crítico e revisível
Descreve e explica
fenómenos, o que lhe
garante capacidade
preditiva
É experimental e/ou
possui métodos
formais de prova
Ao conhecimento científico importam, sobretudo, os aspetos mensuráveis e quantificáveis da
realidade: quantos ossos tem o esqueleto humano? Qual a velocidade da luz? Como se
transmitem as características biológicas de pais para filhos? Portanto, partindo de hipóteses
explicativas e estabelecendo relações de causalidade entre os fenómenos observados, o cientista
pretende prever a ocorrência de novos fenómenos.
1. Conhecimento Vulgar (senso comum) e Conhecimento Científico
Filosofia – 11.º ano
Formula leis e teorias fundadas na experimentação ou em meios
formais de prova. É rigoroso e sistemático
É universal e aspira à objetividade, apoiando-se num método
Tem um poder explicativo que ultrapassa, em larga medida, a
superficialidade das aparências
Sujeita constantemente as suas teorias ao escrutínio crítico e à
revisão
Utiliza uma linguagem técnica, no sentido de evitar ambiguidades
Conhecimento Científico
1. Conhecimento Vulgar (senso comum) e Conhecimento Científico
Filosofia – 11.º ano
Conhecimento Científico
“A ciência não é apenas uma coleção de leis, um catálogo de factos não
relacionados. É uma criação do espírito humano, com ideias e conceitos
livremente inventados. As teorias físicas experimentam traçar um quadro da
realidade e estabelecer liames com o nosso mundo de impressões. (…)
Ulteriores desenvolvimentos destruíram os velhos conceitos e criaram novos. (…)
com a ajuda das teorias físicas, experimentamos encontrar caminho através do
nevoeiro dos factos observados, de modo a ordenar e compreender o mundo das
nossas impressões sensoriais. Queremos que os factos observados decorram
logicamente do nosso conceito de realidade. Sem a fé na possibilidade de
apreender a realidade por meio das nossas construções teóricas, sem a fé na
harmonia do nosso mundo, impossível a ciência. Esta fé é, e permanecerá
sempre, o motivo fundamental de todas as criações científicas. Através de todos
os nossos esforços e em cada luta entre as ideias novas e velhas, percebemos o
eterno anseio pela compreensão, a inabalável fé na harmonia do mundo,
continuamente fortificada pelos obstáculos que cada vez mais se erguem ante a
nossa compreensão.”
Einstein e Infeld, A Evolução da Física
1. Conhecimento Vulgar (senso comum) e Conhecimento Científico
Filosofia – 11.º ano
Serão o conhecimento vulgar e o conhecimento científico opostos?
» O conhecimento científico e o conhecimento vulgar são, em primeiro
lugar, formas diferentes de conhecer, que respondem a objetivos
claramente distintos, mas, de alguma forma, complementares, não se
podendo, no entanto, substituir um ao outro.
» O conhecimento vulgar, à semelhança do que acontece com o
conhecimento científico, vai-se alterando ao longo dos tempos, ou
seja, muitos dos conhecimentos que outrora foram científicos são hoje
de senso comum (ex.: saber que a Terra está em movimento).
1. Conhecimento Vulgar (senso comum) e Conhecimento Científico
 O conhecimento vulgar (senso
comum) e o conhecimento
científico são distintos. O facto
de o segundo assentar em
pressupostos (experimentação,
por exemplo), que faltam ao
primeiro estabelece uma relação
que é, em muitos aspetos, de
oposição e rutura. Todavia, existe
também uma certa continuidade
e complementaridade entre estas
duas formas de conhecimento.
Filosofia – 11.º ano
2. Ciência e Construção - Validade e Verificabilidade das Hipótese
 Uma das características diferenciadoras do conhecimento
científico é o seu caráter metódico.
Perguntar pelas metodologias científicas é colocar a questão de saber
como se estabelecem as verdades (ou leis) em ciência. Todavia, não há
um método científico único, mas vários:
 Método Indutivo
 Método Hipotético-Dedutivo
 Método Experimental
Filosofia – 11.º ano
2. Ciência e Construção - Validade e Verificabilidade das Hipótese
 MÉTODO INDUTIVO
 Embora remonte à Antiguidade, a primeira sistematização de um
método para fazer ciência surge na Modernidade, com o filósofo
inglês Francis Bacon.
 Bacon sustentou que o conhecimento científico é adquirido e
confirmado por um processo de indução.
 O autor fundamenta o conhecimento humano na base de uma
metodologia sistemática de indagação empírica assente na
observação, experimentação e indução.
Filosofia – 11.º ano
2. Ciência e Construção - Validade e Verificabilidade das Hipótese
 O método indutivo, na perspetiva de Francis Bacon, parte do
pressuposto de que a ciência tem o objetivo de estabelecer leis. Em
função deste mesmo objetivo, o cientista deve observar os
fenómenos e realizar uma enumeração exaustiva das suas
manifestações. Os resultados que daqui emergem são, depois,
sujeitos a testes experimentais.
Filosofia – 11.º ano
Por exemplo, observar muitos cisnes
brancos confirmaria:
- A hipótese de que todos os cisnes são
brancos (generalização)
- A hipótese de que o próximo cisne a ser
observado será branco (previsão)
2. Ciência e Construção - Validade e Verificabilidade das Hipótese
 No fundo, é possível sintetizar o método indutivo, defendido por
Bacon, do seguinte modo:
Filosofia – 11.º ano
.
• Observação
dos
fenómenos a
investigar
..
• Descoberta de
relações entre os
fenómenos, a partir da
análise e interpretação
dos dados observados
…
• Generalizaçã
o dessas
relações
2. Ciência e Construção - Validade e Verificabilidade das Hipótese
 MÉTODO HIPOTÉTICO-DEDUTIVO
Astrónomo, matemático e físico italiano, Galileu Galilei combinou a
observação empírica com a dedução matemática, sendo considerado
um dos principais defensores do método hipotético-dedutivo.
Filosofia – 11.º ano
Galileu Galilei ficou
mundialmente
conhecido pela sua
defesa do
Heliocentrismo e pelas
inovações técnicas que
introduziu
2. Ciência e Construção - Validade e Verificabilidade das Hipótese
 Etapas do Método Hipotético-Dedutivo:
Filosofia – 11.º ano
.
Formula-se uma
hipótese ou teoria
geral, como por
exemplo: “Todos os
planetas têm órbitas
elípticas.”
..
Deduz-se dela uma
afirmação particular,
como por exemplo:
“Dada a informação
que Mercúrio é um
planeta, podemos
deduzir que a sua
órbita é elíptica.”
..
A afirmação é testada
por observação ou
experimentação. Se o
resultado for negativo,
a hipótese geral tem
de ser abandonada.
2. Ciência e Construção - Validade e Verificabilidade das Hipótese
 No fundo, Galileu adota uma postura verificacionista: confronta as
hipóteses com os factos e verifica a sua verdade
 Quando, no teste experimental, a hipótese se confirma, o enunciado
transforma-se em lei universal
 Quando, porém, o resultado é negativo, a hipótese terá de ser
abandonada (ou reformulada)
O método Hipotético-Dedutivo pressupõe, portanto, uma hipótese como
ponto de partida, a partir da qual se deduzem certas consequências, que
depois são testadas (para verificar a hipótese)
Filosofia – 11.º ano
2. Ciência e Construção - Validade e Verificabilidade das Hipótese
 MÉTODO EXPERIMENTAL (ou
método científico simples)
O método experimental começa pelas
observações, a partir das quais se
constroem hipóteses ou teoria, que são
explicações para os fenómenos
observados. A partir delas, deduzem-se
as suas consequências que, se
confirmadas pela experimentação,
produzem uma generalização ou um
enunciado universal que permitirá fazer
previsões precisas, a lei. Se a
experimentação não confirmar a
hipótese, esta é abandonada e tem de se
construir uma outra que passará pelo
mesmo processo.
Filosofia – 11.º ano
Observação
Hipótese
Deduçã
o
Experimentação
LEI
2. Ciência e Construção - Validade e Verificabilidade das Hipótese
 Algumas críticas ao método experimental:
 A observação não é o ponto de partida da ciência
 A observação nunca é completamente neutra e objetiva
 A observação é seletiva
 Problema da indução (não é porque observamos muitos casos
“iguais” que esteja garantido que “todos são iguais”). Apesar dos
indiscutíveis benefícios do raciocínio indutivo - permite, por exemplo,
descobrir regularidades na natureza e prever resultados - as suas
conclusões não são absolutamente fidedignas, pois uma hipótese,
enquanto enunciado universal, não pode ser justificada por casos
particulares
Filosofia – 11.º ano
2. Ciência e Construção - Validade e Verificabilidade das Hipótese
 KARL POPPER E O FALSIFICACIONISMO
 Popper defende a visão falsificacionista do método científico,
segundo a qual o método da ciência é o das conjeturas e
refutações.
 O ponto de partida da investigação científica é a colocação de
problemas. Depois, o cientista propõe uma teoria para resolver os
problemas que lhe interessam. Essa teoria é uma conjetura.
 De seguida, importa testes a teoria. Os testes sérios consistem em
tentativas de refutação, e não na procura de confirmações.
Filosofia – 11.º ano
2. Ciência e Construção - Validade e Verificabilidade das Hipótese
 KARL POPPER E O FALSIFICACIONISMO
Filosofia – 11.º ano
Karl Popper (1902-1994)
2. Ciência e Construção - Validade e Verificabilidade das Hipótese
 KARL POPPER E O FALSIFICACIONISMO
 Por conseguinte, para testar a teoria, deduzem-se dela certas
previsões empíricas.
 Se algumas das previsões fracassarem, a teoria fica refutada e será
necessário encontrar uma conjetura melhor.
 Se as previsões se revelarem corretas, isso significa apenas que a
teoria foi corroborada. Uma teoria corroborada é aquela que
sobrevive aos testes, mas o sucesso que teve no passado não
nos permite concluir que ela é verdadeira.
Filosofia – 11.º ano
2. Ciência e Construção - Validade e Verificabilidade das Hipótese
Filosofia – 11.º ano
2. Ciência e Construção - Validade e Verificabilidade das Hipótese
 Para Popper, a aceitação de uma teoria é sempre provisória; mas, por outro
lado, a rejeição de uma teoria por ser concludente.
 Este autor defende que uma teoria que não é suscetível de refutação não
pode ser considerada científica.
 Todo o teste é uma tentativa de refutar a teoria; neste sentido, a testabilidade
equivale à refutabilidade.
 A descoberta de novos factos, que estão de acordo com a teoria, não a
confirmam mas corroboram. Popper chama corroborada a toda a hipótese
que, sujeita às provas mais exigentes, resiste.
A ciência progride, segundo Karl Popper, mediante o ensaio e o erro,
hipóteses (conjeturas) e refutações. Logo, o método da ciência é o método
das hipóteses, seguidas da tentativa de falseá-las.
Filosofia – 11.º ano
2. Ciência e Construção - Validade e Verificabilidade das Hipótese
 ATENÇÃO, para Popper:
 Uma teoria falsificável ou refutável é uma teoria que tem
uma propriedade de poder ser sujeita a testes e de ser
verdadeira ou falsa. Uma teoria falsificada ou refutada é uma
teoria que já se provou ser falsa, ou seja, foi sujeita a testes e
não resistiu.
 Verdade e corroboração não são a mesma coisa. Ou seja,
uma teoria que passa nos testes a que foi sujeita encontra-se,
tão somente, corroborada e não se pode afirmar que é
verdadeira.
Filosofia – 11.º ano
2. Ciência e Construção - Validade e Verificabilidade das Hipótese
 Para Popper, uma teoria só tem estatuto de científica se for
falsificável, isto é, se puder ser colocada à prova através de um
teste que torne possível a sua refutação (Critério da Demarcação).
Filosofia – 11.º ano
“Um enunciado é científico se, e somente se, for falsificável.”
Karl Popper
Exemplo: Imagine que eu digo que tenho um gnomo
invisível que me ajuda a elaborar respostas durante
os testes e que, por conseguinte, os gnomos existem.
Como posso, segundo Popper, recusar cientificidade
a este enunciado? Usando o critério de
falsificabilidade: não há maneira de demonstrar que
a afirmação é falsa. Se a minha afirmação é
infalsificável, então não é científica.
3. Racionalidade Científica e a Questão da Objetividade
 THOMAS KUHN E O PROGRESSO DA
CIÊNCIA
Thomas Kuhn, filósofo norte-americano do século
XX, propõe uma conceção radicalmente nova
acerca da ciência e do próprio progresso
científico:
 Rejeita que a ciência progrida por simples
acumulação de conhecimentos e sem conflitos;
 Afirma que a evolução do conhecimento
científico ocorre por solavancos, por abalos
sucessivos, isto é, por meio de revoluções
científicas.
Filosofia – 11.º ano
Thomas Kuhn (1922-1996)
“A
ciência
progride
por
revoluções
científicas”
3. Racionalidade Científica e a Questão da Objetividade
 THOMAS KUHN E O PROGRESSO DA CIÊNCIA
Ciência Normal
Período em que um determinado paradigma é aceite por toda uma
comunidade científica.
Paradigma
* Conjunto de princípios, teorias, conceitos e metodologias que orientam a
investigação e a prática científica e são aceites por uma determinada
comunidade de cientistas;
* Conceção do mundo que, pressupondo um modo de ver e de praticar,
engloba todo um conjunto de teorias, conceitos, instrumentos e métodos;
* O que os membros de uma comunidade científica compartilham
(suposições teóricas gerais, leis e técnicas para a explicação dessas leis,
bem como os instrumentos necessários).
Filosofia – 11.º ano
3. Racionalidade Científica e a Questão da Objetividade
 THOMAS KUHN E O PROGRESSO DA CIÊNCIA
Comunidade Científica
Cientistas cujas investigações se baseiam em paradigmas partilhados.
Empenham-se em seguir as mesmas regras e critérios de prática científica.
Anomalia
* Problema e/ou dificuldade que o paradigma não consegue resolver;
* Facto que os cientistas não conseguem resolver dentro do paradigma tradicional;
* Falhanços na prática científica normal que, quando em grande número e grau,
põem em causa o paradigma.
Crise
Período em que a acumulação de anomalias é elevada e em que o paradigma
entra em rutura. Pode tornar-se definitivamente séria quando, paralelamente, um
novo paradigma começa a surgir.
Filosofia – 11.º ano
3. Racionalidade Científica e a Questão da Objetividade
 THOMAS KUHN E O PROGRESSO DA CIÊNCIA
Ciência Extraordinária
Prática científica que, durante os períodos de crise, se desenvolve à
margem do paradigma dominante.
Revolução Científica
Episódio de um desenvolvimento científico não cumulativo, no qual um
paradigma mais antigo é substituído, total ou parcialmente, por um novo,
com ele incompatível.
Filosofia – 11.º ano
3. Racionalidade Científica e a Questão da Objetividade
 THOMAS KUHN E O PROGRESSO DA CIÊNCIA
Todas as crises terminam, segundo Kuhn, de uma de três maneiras:
 A ciência normal acaba por ser capaz de lidar com o problema que gerou a
crise;
 O problema é etiquetado, mas abandonado e deixado para uma geração futura;
 Emerge um novo candidato a paradigma e batalha-se pela sua aceitação.
Filosofia – 11.º ano
3. Racionalidade Científica e a Questão da Objetividade
 THOMAS KUHN E O PROGRESSO DA CIÊNCIA
O novo paradigma será muito diferente do antigo (incompatível). Os paradigmas
confrontam-se, possuindo diferentes visões do mundo, e são, segundo Kuhn,
incomensuráveis. Não podem ser comparados objetivamente, de modo a
determinar qual é o melhor ou qual está mais próximo da verdade. No fundo, a
incomensurabilidade dos paradigmas é uma consequência de eles serem
radicalmente diferentes: cada paradigma tem os seus próprios conceitos,
problemas e regras.
Filosofia – 11.º ano
3. Racionalidade Científica e a Questão da Objetividade
Filosofia – 11.º ano
Thomas
Kuhn
» Segundo Thomas Kuhn, o progresso científico dá-se de um
modo descontínuo, mediante saltos qualitativos e mudanças
de paradigma. O surgimento de uma anomalia, que o
paradigma tradicional não consegue solucionar, permitirá
que se dê a rutura, com o paradigma tradicional, e um novo
se instale. Logo, a ciência, para este autor, progride segundo
um processo de três fases: fase normal, fase crítica e fase
revolucionária.
» A comunidade científica resiste à mudança de paradigma;
vai tentando solucionar as sucessivas anomalias que vão
surgindo, de forma a manter o paradigma tradicional. Por
conseguinte, nem todas as anomalias conduzem a uma
crise; a anomalia só é verdadeiramente séria e grave se
resistir a todas as tentativas, empreendidas pela comunidade
científica, de a removerem.
3. Racionalidade Científica e a Questão da Objetividade
THOMAS KUHN E A OBJETIVIDADE CIENTÍFICA
 Os critérios que Kuhn considera para avaliar uma teoria são de dois
tipos:
 Os critérios objetivos são partilhados por toda a comunidade científica
e são os seguintes: exatidão, consistência, alcance, simplicidade e
fecundidade.
 Os critérios subjetivos, dada a natureza humana dos cientistas,
também devem ser considerados, pois, perante uma mesma realidade, a
interpretação e as convicções podem fazer dois cientistas trabalharem
de maneira diversa e adotarem paradigmas diferentes. Pelo facto de a
escolha entre paradigmas estar sujeita a critérios subjetivos relevantes,
não é possível falar em objetividade em ciência.
Filosofia – 11.º ano
3. Racionalidade Científica e a Questão da Objetividade
THOMAS KUHN Vs. KARL POPPER
Filosofia – 11.º ano

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  • 1. FILOSOFIA DA CIÊNCIA A Racionalidade Científico- Tecnológica 1. Conhecimento Vulgar (senso comum) e Conhecimento Científico 2. Ciência e Construção – Validade e Verificabilidade das Hipóteses 3. Racionalidade Científica e a Questão da Objetividade “O maior inimigo do conhecimento não é a ignorância, mas sim a ilusão da verdade” – Stephen Hawking
  • 2. 1. Conhecimento Vulgar (senso comum) e Conhecimento Científico Filosofia – 11.º ano Conhecimento Vulgar ou Senso Comum O conhecimento vulgar ou senso comum resulta das experiências e vivências quotidianas – é subjetivo, concreto e empírico Não procura explicar a realidade, mas sim enquadrá-la num todo social coerente e estável É formulado numa linguagem corrente, originando ambiguidades Limita-se a constatar o que existe, sem se preocupar com explicações É um conhecimento prático, superficial, espontâneo, acrítico e assistemático O conhecimento vulgar ou senso comum está ligado à apreensão imediata da realidade. É, por essa mesma razão, um conhecimento baseado na experiência vivida, sem demasiadas preocupações com o rigor, mas, ainda assim, ferramenta fundamental do saber viver, pois é a partir dele que orientamos a nossa vida quotidiana.
  • 3. 1. Conhecimento Vulgar (senso comum) e Conhecimento Científico Filosofia – 11.º ano Acumula conhecimentos dispersos sem exigência de rigor e sistematicidade É particular, marcado pela subjetividade e pela ausência de método É superficial, pois diz como as coisas são (ou parecem ser), sem se preocupar com justificação ou explicação É acrítico, sendo pouco atreito ao questionamento e à revisão Comunica através de uma linguagem natural, sem grandes preocupações com a eliminação da ambiguidade Conhecimento Vulgar (senso comum)
  • 4. 1. Conhecimento Vulgar (senso comum) e Conhecimento Científico Filosofia – 11.º ano Conhecimento Vulgar (senso comum) “Senso comum - conjunto mais alargado de crenças que uma comunidade tem por verdadeiras e partilha durante um certo período de tempo. O senso comum é um "saber" que resulta da experiência de vida individual e coletiva. Os hábitos e costumes, as tradições e rituais, os "ditos" e provérbios, as opiniões populares, etc., são habitualmente referidos como manifestações do senso comum. A sua aprendizagem é uma condição necessária para a socialização de cada membro da comunidade, funcionando como um mecanismo regulador do seu pensamento e da sua ação. Do ponto de vista da ciência e da filosofia, os processos de justificação das crenças de senso comum afiguram-se muitíssimo superficiais e falíveis, e é frequente tais crenças resistirem mal a um exame crítico mais minucioso, pelo que a sua ampla aceitação não é uma garantia de que sejam verdadeiras”. António Costa, Dicionário Escolar de Filosofia
  • 5. 1. Conhecimento Vulgar (senso comum) e Conhecimento Científico Filosofia – 11.º ano Conhecimento Científico O conhecimento científico é metódico, objetivo e sistemático Expressa-se numa linguagem específica, mais técnica e exata, o que evita a ambiguidade É crítico e revisível Descreve e explica fenómenos, o que lhe garante capacidade preditiva É experimental e/ou possui métodos formais de prova Ao conhecimento científico importam, sobretudo, os aspetos mensuráveis e quantificáveis da realidade: quantos ossos tem o esqueleto humano? Qual a velocidade da luz? Como se transmitem as características biológicas de pais para filhos? Portanto, partindo de hipóteses explicativas e estabelecendo relações de causalidade entre os fenómenos observados, o cientista pretende prever a ocorrência de novos fenómenos.
  • 6. 1. Conhecimento Vulgar (senso comum) e Conhecimento Científico Filosofia – 11.º ano Formula leis e teorias fundadas na experimentação ou em meios formais de prova. É rigoroso e sistemático É universal e aspira à objetividade, apoiando-se num método Tem um poder explicativo que ultrapassa, em larga medida, a superficialidade das aparências Sujeita constantemente as suas teorias ao escrutínio crítico e à revisão Utiliza uma linguagem técnica, no sentido de evitar ambiguidades Conhecimento Científico
  • 7. 1. Conhecimento Vulgar (senso comum) e Conhecimento Científico Filosofia – 11.º ano Conhecimento Científico “A ciência não é apenas uma coleção de leis, um catálogo de factos não relacionados. É uma criação do espírito humano, com ideias e conceitos livremente inventados. As teorias físicas experimentam traçar um quadro da realidade e estabelecer liames com o nosso mundo de impressões. (…) Ulteriores desenvolvimentos destruíram os velhos conceitos e criaram novos. (…) com a ajuda das teorias físicas, experimentamos encontrar caminho através do nevoeiro dos factos observados, de modo a ordenar e compreender o mundo das nossas impressões sensoriais. Queremos que os factos observados decorram logicamente do nosso conceito de realidade. Sem a fé na possibilidade de apreender a realidade por meio das nossas construções teóricas, sem a fé na harmonia do nosso mundo, impossível a ciência. Esta fé é, e permanecerá sempre, o motivo fundamental de todas as criações científicas. Através de todos os nossos esforços e em cada luta entre as ideias novas e velhas, percebemos o eterno anseio pela compreensão, a inabalável fé na harmonia do mundo, continuamente fortificada pelos obstáculos que cada vez mais se erguem ante a nossa compreensão.” Einstein e Infeld, A Evolução da Física
  • 8. 1. Conhecimento Vulgar (senso comum) e Conhecimento Científico Filosofia – 11.º ano Serão o conhecimento vulgar e o conhecimento científico opostos? » O conhecimento científico e o conhecimento vulgar são, em primeiro lugar, formas diferentes de conhecer, que respondem a objetivos claramente distintos, mas, de alguma forma, complementares, não se podendo, no entanto, substituir um ao outro. » O conhecimento vulgar, à semelhança do que acontece com o conhecimento científico, vai-se alterando ao longo dos tempos, ou seja, muitos dos conhecimentos que outrora foram científicos são hoje de senso comum (ex.: saber que a Terra está em movimento).
  • 9. 1. Conhecimento Vulgar (senso comum) e Conhecimento Científico  O conhecimento vulgar (senso comum) e o conhecimento científico são distintos. O facto de o segundo assentar em pressupostos (experimentação, por exemplo), que faltam ao primeiro estabelece uma relação que é, em muitos aspetos, de oposição e rutura. Todavia, existe também uma certa continuidade e complementaridade entre estas duas formas de conhecimento. Filosofia – 11.º ano
  • 10. 2. Ciência e Construção - Validade e Verificabilidade das Hipótese  Uma das características diferenciadoras do conhecimento científico é o seu caráter metódico. Perguntar pelas metodologias científicas é colocar a questão de saber como se estabelecem as verdades (ou leis) em ciência. Todavia, não há um método científico único, mas vários:  Método Indutivo  Método Hipotético-Dedutivo  Método Experimental Filosofia – 11.º ano
  • 11. 2. Ciência e Construção - Validade e Verificabilidade das Hipótese  MÉTODO INDUTIVO  Embora remonte à Antiguidade, a primeira sistematização de um método para fazer ciência surge na Modernidade, com o filósofo inglês Francis Bacon.  Bacon sustentou que o conhecimento científico é adquirido e confirmado por um processo de indução.  O autor fundamenta o conhecimento humano na base de uma metodologia sistemática de indagação empírica assente na observação, experimentação e indução. Filosofia – 11.º ano
  • 12. 2. Ciência e Construção - Validade e Verificabilidade das Hipótese  O método indutivo, na perspetiva de Francis Bacon, parte do pressuposto de que a ciência tem o objetivo de estabelecer leis. Em função deste mesmo objetivo, o cientista deve observar os fenómenos e realizar uma enumeração exaustiva das suas manifestações. Os resultados que daqui emergem são, depois, sujeitos a testes experimentais. Filosofia – 11.º ano Por exemplo, observar muitos cisnes brancos confirmaria: - A hipótese de que todos os cisnes são brancos (generalização) - A hipótese de que o próximo cisne a ser observado será branco (previsão)
  • 13. 2. Ciência e Construção - Validade e Verificabilidade das Hipótese  No fundo, é possível sintetizar o método indutivo, defendido por Bacon, do seguinte modo: Filosofia – 11.º ano . • Observação dos fenómenos a investigar .. • Descoberta de relações entre os fenómenos, a partir da análise e interpretação dos dados observados … • Generalizaçã o dessas relações
  • 14. 2. Ciência e Construção - Validade e Verificabilidade das Hipótese  MÉTODO HIPOTÉTICO-DEDUTIVO Astrónomo, matemático e físico italiano, Galileu Galilei combinou a observação empírica com a dedução matemática, sendo considerado um dos principais defensores do método hipotético-dedutivo. Filosofia – 11.º ano Galileu Galilei ficou mundialmente conhecido pela sua defesa do Heliocentrismo e pelas inovações técnicas que introduziu
  • 15. 2. Ciência e Construção - Validade e Verificabilidade das Hipótese  Etapas do Método Hipotético-Dedutivo: Filosofia – 11.º ano . Formula-se uma hipótese ou teoria geral, como por exemplo: “Todos os planetas têm órbitas elípticas.” .. Deduz-se dela uma afirmação particular, como por exemplo: “Dada a informação que Mercúrio é um planeta, podemos deduzir que a sua órbita é elíptica.” .. A afirmação é testada por observação ou experimentação. Se o resultado for negativo, a hipótese geral tem de ser abandonada.
  • 16. 2. Ciência e Construção - Validade e Verificabilidade das Hipótese  No fundo, Galileu adota uma postura verificacionista: confronta as hipóteses com os factos e verifica a sua verdade  Quando, no teste experimental, a hipótese se confirma, o enunciado transforma-se em lei universal  Quando, porém, o resultado é negativo, a hipótese terá de ser abandonada (ou reformulada) O método Hipotético-Dedutivo pressupõe, portanto, uma hipótese como ponto de partida, a partir da qual se deduzem certas consequências, que depois são testadas (para verificar a hipótese) Filosofia – 11.º ano
  • 17. 2. Ciência e Construção - Validade e Verificabilidade das Hipótese  MÉTODO EXPERIMENTAL (ou método científico simples) O método experimental começa pelas observações, a partir das quais se constroem hipóteses ou teoria, que são explicações para os fenómenos observados. A partir delas, deduzem-se as suas consequências que, se confirmadas pela experimentação, produzem uma generalização ou um enunciado universal que permitirá fazer previsões precisas, a lei. Se a experimentação não confirmar a hipótese, esta é abandonada e tem de se construir uma outra que passará pelo mesmo processo. Filosofia – 11.º ano Observação Hipótese Deduçã o Experimentação LEI
  • 18. 2. Ciência e Construção - Validade e Verificabilidade das Hipótese  Algumas críticas ao método experimental:  A observação não é o ponto de partida da ciência  A observação nunca é completamente neutra e objetiva  A observação é seletiva  Problema da indução (não é porque observamos muitos casos “iguais” que esteja garantido que “todos são iguais”). Apesar dos indiscutíveis benefícios do raciocínio indutivo - permite, por exemplo, descobrir regularidades na natureza e prever resultados - as suas conclusões não são absolutamente fidedignas, pois uma hipótese, enquanto enunciado universal, não pode ser justificada por casos particulares Filosofia – 11.º ano
  • 19. 2. Ciência e Construção - Validade e Verificabilidade das Hipótese  KARL POPPER E O FALSIFICACIONISMO  Popper defende a visão falsificacionista do método científico, segundo a qual o método da ciência é o das conjeturas e refutações.  O ponto de partida da investigação científica é a colocação de problemas. Depois, o cientista propõe uma teoria para resolver os problemas que lhe interessam. Essa teoria é uma conjetura.  De seguida, importa testes a teoria. Os testes sérios consistem em tentativas de refutação, e não na procura de confirmações. Filosofia – 11.º ano
  • 20. 2. Ciência e Construção - Validade e Verificabilidade das Hipótese  KARL POPPER E O FALSIFICACIONISMO Filosofia – 11.º ano Karl Popper (1902-1994)
  • 21. 2. Ciência e Construção - Validade e Verificabilidade das Hipótese  KARL POPPER E O FALSIFICACIONISMO  Por conseguinte, para testar a teoria, deduzem-se dela certas previsões empíricas.  Se algumas das previsões fracassarem, a teoria fica refutada e será necessário encontrar uma conjetura melhor.  Se as previsões se revelarem corretas, isso significa apenas que a teoria foi corroborada. Uma teoria corroborada é aquela que sobrevive aos testes, mas o sucesso que teve no passado não nos permite concluir que ela é verdadeira. Filosofia – 11.º ano
  • 22. 2. Ciência e Construção - Validade e Verificabilidade das Hipótese Filosofia – 11.º ano
  • 23. 2. Ciência e Construção - Validade e Verificabilidade das Hipótese  Para Popper, a aceitação de uma teoria é sempre provisória; mas, por outro lado, a rejeição de uma teoria por ser concludente.  Este autor defende que uma teoria que não é suscetível de refutação não pode ser considerada científica.  Todo o teste é uma tentativa de refutar a teoria; neste sentido, a testabilidade equivale à refutabilidade.  A descoberta de novos factos, que estão de acordo com a teoria, não a confirmam mas corroboram. Popper chama corroborada a toda a hipótese que, sujeita às provas mais exigentes, resiste. A ciência progride, segundo Karl Popper, mediante o ensaio e o erro, hipóteses (conjeturas) e refutações. Logo, o método da ciência é o método das hipóteses, seguidas da tentativa de falseá-las. Filosofia – 11.º ano
  • 24. 2. Ciência e Construção - Validade e Verificabilidade das Hipótese  ATENÇÃO, para Popper:  Uma teoria falsificável ou refutável é uma teoria que tem uma propriedade de poder ser sujeita a testes e de ser verdadeira ou falsa. Uma teoria falsificada ou refutada é uma teoria que já se provou ser falsa, ou seja, foi sujeita a testes e não resistiu.  Verdade e corroboração não são a mesma coisa. Ou seja, uma teoria que passa nos testes a que foi sujeita encontra-se, tão somente, corroborada e não se pode afirmar que é verdadeira. Filosofia – 11.º ano
  • 25. 2. Ciência e Construção - Validade e Verificabilidade das Hipótese  Para Popper, uma teoria só tem estatuto de científica se for falsificável, isto é, se puder ser colocada à prova através de um teste que torne possível a sua refutação (Critério da Demarcação). Filosofia – 11.º ano “Um enunciado é científico se, e somente se, for falsificável.” Karl Popper Exemplo: Imagine que eu digo que tenho um gnomo invisível que me ajuda a elaborar respostas durante os testes e que, por conseguinte, os gnomos existem. Como posso, segundo Popper, recusar cientificidade a este enunciado? Usando o critério de falsificabilidade: não há maneira de demonstrar que a afirmação é falsa. Se a minha afirmação é infalsificável, então não é científica.
  • 26. 3. Racionalidade Científica e a Questão da Objetividade  THOMAS KUHN E O PROGRESSO DA CIÊNCIA Thomas Kuhn, filósofo norte-americano do século XX, propõe uma conceção radicalmente nova acerca da ciência e do próprio progresso científico:  Rejeita que a ciência progrida por simples acumulação de conhecimentos e sem conflitos;  Afirma que a evolução do conhecimento científico ocorre por solavancos, por abalos sucessivos, isto é, por meio de revoluções científicas. Filosofia – 11.º ano Thomas Kuhn (1922-1996) “A ciência progride por revoluções científicas”
  • 27. 3. Racionalidade Científica e a Questão da Objetividade  THOMAS KUHN E O PROGRESSO DA CIÊNCIA Ciência Normal Período em que um determinado paradigma é aceite por toda uma comunidade científica. Paradigma * Conjunto de princípios, teorias, conceitos e metodologias que orientam a investigação e a prática científica e são aceites por uma determinada comunidade de cientistas; * Conceção do mundo que, pressupondo um modo de ver e de praticar, engloba todo um conjunto de teorias, conceitos, instrumentos e métodos; * O que os membros de uma comunidade científica compartilham (suposições teóricas gerais, leis e técnicas para a explicação dessas leis, bem como os instrumentos necessários). Filosofia – 11.º ano
  • 28. 3. Racionalidade Científica e a Questão da Objetividade  THOMAS KUHN E O PROGRESSO DA CIÊNCIA Comunidade Científica Cientistas cujas investigações se baseiam em paradigmas partilhados. Empenham-se em seguir as mesmas regras e critérios de prática científica. Anomalia * Problema e/ou dificuldade que o paradigma não consegue resolver; * Facto que os cientistas não conseguem resolver dentro do paradigma tradicional; * Falhanços na prática científica normal que, quando em grande número e grau, põem em causa o paradigma. Crise Período em que a acumulação de anomalias é elevada e em que o paradigma entra em rutura. Pode tornar-se definitivamente séria quando, paralelamente, um novo paradigma começa a surgir. Filosofia – 11.º ano
  • 29. 3. Racionalidade Científica e a Questão da Objetividade  THOMAS KUHN E O PROGRESSO DA CIÊNCIA Ciência Extraordinária Prática científica que, durante os períodos de crise, se desenvolve à margem do paradigma dominante. Revolução Científica Episódio de um desenvolvimento científico não cumulativo, no qual um paradigma mais antigo é substituído, total ou parcialmente, por um novo, com ele incompatível. Filosofia – 11.º ano
  • 30. 3. Racionalidade Científica e a Questão da Objetividade  THOMAS KUHN E O PROGRESSO DA CIÊNCIA Todas as crises terminam, segundo Kuhn, de uma de três maneiras:  A ciência normal acaba por ser capaz de lidar com o problema que gerou a crise;  O problema é etiquetado, mas abandonado e deixado para uma geração futura;  Emerge um novo candidato a paradigma e batalha-se pela sua aceitação. Filosofia – 11.º ano
  • 31. 3. Racionalidade Científica e a Questão da Objetividade  THOMAS KUHN E O PROGRESSO DA CIÊNCIA O novo paradigma será muito diferente do antigo (incompatível). Os paradigmas confrontam-se, possuindo diferentes visões do mundo, e são, segundo Kuhn, incomensuráveis. Não podem ser comparados objetivamente, de modo a determinar qual é o melhor ou qual está mais próximo da verdade. No fundo, a incomensurabilidade dos paradigmas é uma consequência de eles serem radicalmente diferentes: cada paradigma tem os seus próprios conceitos, problemas e regras. Filosofia – 11.º ano
  • 32. 3. Racionalidade Científica e a Questão da Objetividade Filosofia – 11.º ano Thomas Kuhn » Segundo Thomas Kuhn, o progresso científico dá-se de um modo descontínuo, mediante saltos qualitativos e mudanças de paradigma. O surgimento de uma anomalia, que o paradigma tradicional não consegue solucionar, permitirá que se dê a rutura, com o paradigma tradicional, e um novo se instale. Logo, a ciência, para este autor, progride segundo um processo de três fases: fase normal, fase crítica e fase revolucionária. » A comunidade científica resiste à mudança de paradigma; vai tentando solucionar as sucessivas anomalias que vão surgindo, de forma a manter o paradigma tradicional. Por conseguinte, nem todas as anomalias conduzem a uma crise; a anomalia só é verdadeiramente séria e grave se resistir a todas as tentativas, empreendidas pela comunidade científica, de a removerem.
  • 33. 3. Racionalidade Científica e a Questão da Objetividade THOMAS KUHN E A OBJETIVIDADE CIENTÍFICA  Os critérios que Kuhn considera para avaliar uma teoria são de dois tipos:  Os critérios objetivos são partilhados por toda a comunidade científica e são os seguintes: exatidão, consistência, alcance, simplicidade e fecundidade.  Os critérios subjetivos, dada a natureza humana dos cientistas, também devem ser considerados, pois, perante uma mesma realidade, a interpretação e as convicções podem fazer dois cientistas trabalharem de maneira diversa e adotarem paradigmas diferentes. Pelo facto de a escolha entre paradigmas estar sujeita a critérios subjetivos relevantes, não é possível falar em objetividade em ciência. Filosofia – 11.º ano
  • 34. 3. Racionalidade Científica e a Questão da Objetividade THOMAS KUHN Vs. KARL POPPER Filosofia – 11.º ano