A costa dos murmúrios por cláudia

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A costa dos murmúrios por cláudia

  1. 1. “A Costa dos Murmúrios” de Lídia Jorge (Dom Quixote)O relato de uma época, onde a paisagem física e social é pintada com as palavras que mergulham na memória,impregnada de nostalgia. A fotografia de uma realidade social, enquadrada no cenário de guerra colonial nabelíssima costa moçambicana.O Prólogo, onde a Autora dá voz a Eva Lopo, começa por descrever a faustosa cerimónia da festa de casamento deEvita e Luís Alex, da qual sobressai a exuberância patente na profusão dos frutos exóticos e mariscos; destaquetambém par a outra cena, o reverso da medalha, ou o outro lado do paraíso, onde a matança dos flamingos, queconstitui uma metáfora a representar a embriaguez que leva ao desejo compulsivo de matar de onde se depreendeparecer fácil cruzar o limite de “matar para não morrer” e exercitar, a partir dali, o prazer de apertar o gatilhopara “fazer o gosto ao dedo”. Lídia Jorge consegue mostra de uma forma crua e simultaneamente bela que afacilidade com que se dizima um bando de flamingos da cor da alvorada é a mesma com que se procede à chacinade um grupo de rebeldes locais. Trata-se de uma metáfora de coragem e integridade que nem sempre se conseguereconhecer de imediato: o bando de flamingos não se desfaz facilmente, mantendo a formação em direcção aoobjectivo, apesar daqueles que ficam para trás e se afundam no pântano, caídos perante as balas do inimigo…Um tiro de revólver põe fim à introdução sob a forma de prólogo mas é o sinal que marca a partida para oromance propriamente dito…As relações entre os génerosNa relação inicial entre a protagonista, a jovem Evita e “o noivo” parece existir, nos primeiros tempos, umacumplicidade baseada numa convergência de objectivos: Luís é um matemático prestes a descobrir um novoteorema; e Evita uma mulher de letras – Filosofia e História – com uma visão que ultrapassa largamente ainteligência mediana. Na verdade, ambos são detentores de um nível intelectual bastante acima da média. Noentanto, diferem de forma diametralmente oposta no que respeita aos mecanismos de reacção. Por exemplo, achegada de Luís Alex a Moçambique é consequência de uma fuga aos problemas do quotidiano e de uma certaincapacidade em estabelecer prioridades, o que o faz mudar de convicções, de objectivos e até de “persona”,deixando de ser o homem pelo qual “...qualquer mulher se teria pendurado ao pescoço…com suspiros semelhantesaos das rajadas do Índico” .Evita, por seu lado, vê na ida para Moçambique uma forma de virar a página e recomeçar a vida a partir dehorizontes mais vastos, ao voltar as costas a um meio onde nunca poderá desenvolver o seu potencial, numauniversidade onde os dados estão viciados e impera a estultícia das mentalidades empedernidas que colocamentraves a toda e qualquer manifestação de pensamento crítico ou analítico, sobretudo vindos de uma mentefeminina. Isto porque Eva, durante uma aula de História Contemporânea, tem a audácia de fugir aos cânones eproferir uma resposta não normalizada, dissidente em relação àquilo que seria de esperar numa jovemuniversitária cujas ambições deveriam consistir em encontrar um marido com uma situação financeira atraentee ser mães. Eva, por seu turno, revela um conhecimento muito mais vasto ao revelar o acesso a informação queultrapassa em muito a que circula dentro das fronteiras do país e dos valores preconizados pelo regime, quandose refere à teoria da relatividade de Einstein, sendo a sua explicação completamente desvalorizada eridicularizada pelo professor titular da cadeira (pág. 195).Logo nos primeiros capítulos, são-nos dados indícios relativos a esta diferença de personalidades no seio docasal protagonista. Logo nas primeiras páginas, a narradora ao descrever “o noivo” atribui-lhe umacaracterística a que se associa a algo de negativo: “uns olhos de peixe”e, portanto, inexpressivos, que o afastamda humanidade. Trata-se de uma associação com um animal conotado com comportamentos esquivos, com um
  2. 2. carácter algo “escorregadio”, imprevisível. A camuflagem conferida pelos inexpressivos “olhos de peixe” ,permite-lhe, também, esconder temporariamente as “garras”, as quais só exibirá após o casamento.Helena, ou a alegoria da Beleza e da DiscórdiaDurante a festa de casamento de Luís e Evita, surge uma figura feminina que chama atenção pela belezaflamejante dos seus cabelos e se destaca de uma multidão de mulheres morenas e comuns. Helena, a quemchamam “de Tróia”, possui aquilo a que se chama uma beleza absoluta e inquestionável, a incarnação do eternofeminino. Trata-se de um tipo feminino que tem tudo para atrair a fatalidade, como dá a entender Evita, numdos inúmeros enigmáticos diálogos a quatro. Com especial incidência na cena em que estão sentados os doiscasais, à mesa do hotel, quando Evita se refere ao nome da jovem como estando associado, na cultura clássica, àexpressão da discórdia ou “a causa do conflito”.Os diálogos entre as quatro personagens principais – Luís Evita, Helena e o Capitão Forza Leal– com osrestantes intervenientes na trama permitem-nos olhar para dentro de uma mentalidade onde domina orelativismo cultural e o paternalismo colonialista, patentes na forma como os colonos se referem aos nativos –“os blacks”. Paralelamente, através do discurso de Eva Lopo como narradora, vinte anos depois da ocorrênciados acontecimentos que fazem parte integrante no romance, é-nos transmitida, de forma quase onírica, aopulência em que vivem os colonos sobretudo a classe militar e respectivas famílias, como num oásis, criadonum hotel onde se hospedam as esposas dos oficiais. Apesar do luxo aparente, os noivos têm, no entanto, de serefugiar na casa de banho para obterem alguma privacidade na noite de núpcias, em virtude da pouquíssimaespessura das paredes do hotel. O gérmen da decadência parece começar a espreitar.É, no entanto, na madrugada do casamento, enquanto os noivos se refugiam na brancura imaculada do mundoprotegido da casa de banho, que dão à costa vários corpos de gentes locais, envenenados por metanol. Estádado o início à intriga policial, à volta da qual se desenvolve o romance e cuja solução tem uma forte ligação aquestões políticas e sociais.A cortina de fumoO boato que se procura difundir para justificar a ideia de genocídio consiste, em primeiro lugar, nadesvalorização da gravidade do massacre, ao mesmo tempo que se tenta justificar a necessidade de umalimpeza étnica, a qual ajudaria a impedir uma rebelião, levando a que as pessoas aquarteladas no hotel sesintam, enganadoramente, “a salvo”.Ao enfatizar a frase “Não se consegue ter solidariedade com quem morre por estupidez como aqueles blacks”,insiste-se na ideia que se morre por não se conseguir resistir ao vício da bebida e não por se ter sido vítima deenvenenamento.A Escrita de Lídia JorgeProfundamente analítica, crítica, metafórica e enigmática, a prosa de Lídia Jorge exige uma leitura atenta paraque se possa apreender a mensagem na sua totalidade. A mulher madura que é Eva Lopo relata, como já foidito, os acontecimentos vinte anos depois destes terem ocorrido: “o tempo em que era Evita” e em que “tinha acintura fina”.Eva começa por explicar a razão pela qual alguns factos ficam retidos na memória, composta por fragmentos.“O sentido da memória não tem explicação”- Para Lídia Jorge, na pele de Eva como narradora, não existe umaexplicação racional para a memória: esta parece antes fixar-se por razões afectivas, pela forma como os factosatingem as pessoas, comparando a razão da memória à “razão do pêssego” (pág. 41):
  3. 3. “é um absurdo pensar que as pessoas são superiores às aves, às trutas, aos pêssegos (…)”;“A memória é misteriosa como o pêssego”.Mas a importância dos sentidos como a visão, o cheiro ou o som são, também, fundamentais para a fixação dosfactos na memória, condicionando a escrita ficcional da Autora.É desta forma que Eva Lopo irá recordar, ressuscitar aquela Evita que foi vinte anos antes, trazendo de volta amemória do olhar da jovem recém-casada e cheia de sonhos que era então: “Evita seria para mim um olho, ouum olhar”. Evita é, pois, uma forma de olhar o real numa dada época da vida.A outra face da moedaOutro aspecto que sobressai na obra é a submissão aparente dos habitantes locais:“Quando falavam, jamais viravam as costas” (pág. 44). Por outro lado consegue-se entrever, na cena da matançados flamingos, que esta aparente submissão tende a ser erroneamente conotada com ausência de inteligênciaque, no entanto, está relacionada com um forte sentido de grupo e paciência quase infinita, com o objectivo demanter a identidade cultural africana.A Violência de GéneroOutro tema recorrente na escrita de Lídia Jorge é a forma de tratamento a que são submetidas as mulheres noâmbito conjugal. O maior exemplo desta realidade é Helena, brutalizada, maltratada e humilhada, sob todos osaspectos, pelo marido, inclusive em público.Evita não chega a sofrer maus tratos mas, em alguns momentos ao longo da narrativa, está na eminência de oser, uma vez que Luís Alex vê no capitão o modelo de força e prestígio social que deseja, a todo o custo imitar. OCapitão Jaime Forza Leal chega a dar, inclusive, conselho a Luís Alex, sobre como tratar a mulher, o que colocaEvita em situação de risco eminente. De notar que dentro do contexto social onde decorre a acção, aquele grupode oficiais tem por hábito espancar as mulheres como ostentação de virilidade. Forza Leal chega mesmo aesbofetear a mulher durante o casamento de Luís e Evita, à frente dos convidados. O pretexto é o facto de abeleza dela chamar a atenção. Trata-se, no entanto, de uma forma de demonstrar domínio e posserelativamente à criatura com quem está casado. Pouco depois, outro militar sente necessidade de fazerexactamente o mesmo, por imitação e por sentir o reforço em ter o mesmo comportamento espelhado emalguém que ocupa uma posição social hierarquicamente superior. A mulher espancada fica a sangrar pelosouvidos. Os convidados assistem à cena, impassíveis.Um romance sobre valoresA Costa dos Murmúrios é, principalmente, um romance onde se discutem valores que assentam num continuum,onde num dos extremos está a grandiosidade e, no outro, a vileza.“…e ninguém podia indicar se era grandiosidade ou mesquinhez o impulso de pessoas que degolavam cabeças e asespetavam em paus e as agitavam em cima das habitações dos próprios degolados”.De onde se extrai a questão: “o que determina o gosto por degolar?”Ou o que determina o gosto por espancar mulheres?Luís Alex, por exemplo, decide entrar para o exército em consequência do fracasso nos estudos. Só então passaa ficar viciado na guerra, como portal de acesso ao poder, de forma a esquecer uma derrota, o desmoronar dasambições.
  4. 4. Também a propósito do holocausto de Auschwitz, em analogia com o sucedido com a Guerra no Ultramar, aAutora, na pág 141, pela voz da protagonista, deixa claro que: “…a ciência e o crime poderiam ter entre si apenasuns passos de dança ou umas flexões de ginasta; entre o bem e o mal, uma mortalha de papel de seda”.A realidade social no UltramarA análise da realidade social é outra das temáticas exploradas no romance onde a Autora aproveita parachamar a atenção para indicadores do nível de progresso de um país, como estando reflectidas nas condiçõesem vivem as classes mais desfavorecidas e, em termos de insegurança e instabilidade social, na sofisticação dossistemas de segurança nas classes sociais privilegiadas (quanto maior protecção menos a segurança).“ Se um país está à beira de uma guerra, basta observar o comportamento do burguês rico. É o único com a antenaafinada para prever o derramamento de sangue sobre uma terra” (pág 145).O direito à autodeterminação da mulher, à expressão da beleza, da feminilidade e o direito a umasexualidade autónomaA Autora disseca, sobretudo, neste romance, a sujeição, a impotência feminina, enquanto enquadrada no regimelegal do Estado Novo, usando para tal a figura de Helena, uma mulher que se destaca pelo aspecto físicoinvulgar: cabelo vermelho e olhar verde, a sobressair mediante as características físicas da mulher portuguesacomum - morenas, de olhos castanhos e pele amarelada.A mulher do capitão Forza Leal encerra em si três arquétipos diferentes, de acordo com a descrição de Evita: aBeleza, a Inocência e o Medo. Três características que a transformam num chamariz para personalidadesprepotentes que desejam por companhia um ser vulnerável a quem possam dominar.Helena , educada num colégio de freiras é desde cedo submetida, a uma educação normalizada, até na forma devestir, pouco condizente com a sua verdadeira personalidade e com o desejo de livre expressão da própriafeminilidade e sensualidade. Este conflito está patente no esforço notório que faz para “ser boa” e “obediente”,como resultado de pressões externas que a levam, por exemplo, a tornar-se na sombra do marido de forma aser aceite socialmente , comportamento que se traduz na observação de comportamentos servis, como na cenaem que tem de descascar crustáceos para o marido comer.Helena é, também, uma mulher com o pensamento crítico fortemente condicionado, estando constantemente arepetir discurso do inculcado pelo marido.Esta é uma das razões pelas quais Eva prefere que Helena não fale. Para que a imagem de Helena continue comoum quadro de beleza mítica, como símbolo da perfeição. Helena é uma mulher lúcida mas sacrifica os desejos ea liberdade de expressão, de livre circulação, de liberdade de escolha e de pensamento, como forma de auto-punição, ao recriminar-se por algo do passado, socialmente tido como reprovável.No seu discurso é notório o sarcasmo e a amargura. Helena desempenha, a dada altura, o papel da serpente queirá expulsar Eva do seu paraíso genesíaco, obrigando-a a enxergar a realidade quando lhe mostra um conjuntode fotografias que expõem as atrocidades nas quais participou Luís Alex, durante o ataque a uma aldeia.Helena é a mensageira que abre a porta para o conhecimento à até então inocente Evita.Eva é, também, uma mulher lúcida, mas mais racional que Helena, porque detentora de uma enormecapacidade dedutiva e de todo um historial que lhe permitiu desenvolver o pensamento crítico: Eva/ Evitafrequentou a universidade, tem uma cultura erudita e o hábito de colocar questões incómodas. A suacuriosidade insaciável é um dos factores que lhe permitirá desvendar o crime que tem intrigado as consciênciascolectivas dos habitantes da Costa dos Murmúrios, que são cuidadosamente desinformados por todas as
  5. 5. autoridades institucionais. Evita apercebe-se, antes de todos, juntamente com o jornalista da gazeta local, poetarevolucionário, da intencionalidade criminosa que envolve a mortandade à qual parecem estar subjacentesobjectivos relacionados com a necessidade de repressão de movimentações rebeldes, aproveitando a queminteressa, a oportunidade para efectuar uma limpeza étnica e ideológica. A suspeita agudiza-se após a morte deBernardo, o competente telefonista do PBX, cujo desaparecimento se torna muito conveniente para o Exércitooficial, pelo risco de que o negro pudesse passar informações ao inimigo. A dada altura da narrativa, pareceexistir, também, uma atracção mútua entre Eva e Helena, que será reprimida e desvanecida por condicionantesculturais.Na pág 70, durante uma discussão travada entre Evita e Alex, a jovem afirma, numa clara atitude de afirmaçãoda própria independência, que “…a atitude de vigilância da pessoa sobre si mesma é tão desonesta como umacastração e equivale a uma desconfiança da pessoa sobre si, a um conhecimento de fragilidade” e que “…Só osfrágeis se auto-punem deste modo”. Eva, ao constatar a falta de personalidade do marido, acaba por nãoconseguir respeitá-lo, principalmente quando constata a forma como o noivo enlouquece gradualmente com aguerra e a sede de poder.Na pág 71 podemos constatar a forma como se refere aos criados que trabalham na Marisqueira extrapolando aideia para todos os africanos:“…os filhos da mãe dos criados. Todos queriam trabalhar na Marisqueira para escorropicharem os copos”. LuísAlex deixa também escapar algo relativamente aos factos sucedidos durante a guerra, que confirmam aquiloque Evita teve a oportunidade de observar nas fotografias. E também se apercebe a forma como o cinismo e adesinformação proliferam ao deixar entrever na frase “Ninguém falava em guerra com seriedade”, a formacomo o léxico utilizados pelos detentores do poder visava deliberadamente atenuar a realidade dos factossempre que relacionados com uma possível rebelião: assim, “revolta” era substituída por “banditismo”; arepressão contra o pseudo-banditismo era chamada de “contra-banditismo” e de “contra-subversão”.Vinte anos depois, Eva Lopo constata a degradação do hotel Stella Maris, símbolo daquilo que acontece umpouco por todo o país, identificando-a com o saneamento dos vestígios referentes à presença portuguesa: umavingança operada pelo Tempo.No final Helena continua a ser para Evita o símbolo da beleza absoluta, apesar de ambas se terem afastado edeixado de comunicar por imposição dos respectivos maridos e das circunstâncias da vida.“Helena tinha a alma toda de fora como uma chama que se revela e consome o objecto a que foi ateada”. O capitãoForza Leal não se consegue desligar de Helena, para poder continuar a exibir o seu domínio sobre a presa. Paraele, a perda seria uma derrota um desprestígio, uma humilhação que não conseguia suportar.Evita esforça-se por afirmar a própria independência, ao assumir a própria sexualidade e o direito de fazer aspróprias escolhas ao seleccionar os parceiros.O aliadoO Jornalista d’ “ A Gazeta” da localidade tornar-se o principal aliado de Evita e, também, o seu portal para aliberdade, a janela que lhe permite vislumbrar o mundo fora da prisão do casamento. Este é, no entanto, umhomem de muitas mulheres: possui duas esposas e oito filhos.No entanto, o seu sonho mais secreto é evadir-se de África e estabelecer-se num país nórdico, onde poderáusufruir daquilo que mais ambiciona: a liberdade de expressão. Isto porque apesar de assinar uma coluna nojornal, onde publica os seus textos que assumem a forma de uma crítica velada ao regime mas que muitopoucos conseguem decifrar ,é uma situação que o satisfaz muito pouco.
  6. 6. O que desgosta o jornalista em relação à região onde habita é o facto de todas as atitudes serem camufladas. Otítulo dado ao texto é a alegoria que ilustra este mesmo comportamento colectivo, uma vez que a acção e odesenrolar das verdades que estão ocultas têm de se efectuar numa sociedade onde tudo é velado – a sociedadedo disfarce – onde nada daquilo que é realmente importante é dito às claras ou em voz alta. Onde as pessoas seexprimem através de sussurros. Murmúrios. Onde prolifera o boato. Como aquele que atribui ao vício do álcoola causa da morte dos corpos que aparecem a boiar na costa. Naquele lugar, murmura-se “como o vento doÍndico que antecede o silêncio. Um silêncio que fala.“…o silêncio falava, era mais articulado do que a voz. Um murmúrio, provindo da voragem invisível, ondulava noar com as ondas amplas e falava, mas tudo para se ouvir imensamente pouco”.Também as frases codificadas, na coluna assinada pelo jornalista, soam um pouco como os ventos quemurmuram no Índico, onde os factos menos importantes, dramáticos mas triviais, ocupam um lugar de muitomaior destaque do que aqueles que são susceptíveis de causarem maiores cataclismos sociais e culminar numareviravolta política. Esses são cuidadosamente abafados e relegados para segundo plano.A aproximação da nuvem verde de gafanhotos de que fala o jornalista ao utilizar um discurso poético paracodificar uma mensagem de conteúdo político, nuvem verde que acabará por engolir o exército ultramarino,caindo sobre este como uma chuva de gafanhotos cor de esmeralda é uma das componentes de maior valorliterário e estilístico na obra pela implicação que terá nos acontecimentos da trama, a todos os níveis, e quesublinha o génio de Lídia Jorge.“Deixai que cada homem marche para a linha da frente. Quer se morra quer se viva (tal como os gafanhotos ou osflamingos) como a guerra e a batalha beijam e murmuram”. A nuvem terrestre de soldados e a nuvem aérea degafanhotos chegam ao mesmo tempo à costa dos murmúrios.Depois virá o silêncio. Um silêncio que grita o que não se quer ouvir.Cláudia de Sousa Dias

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