Midnight sun pt

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Midnight sun pt

  1. 1. º Capitulo - À Primeira VistaEsta era a hora do dia em que eu desejava conseguir dormir. Liceu.Ou será que a palavra certa era purgatório? Se houvesse uma maneira de compensar osmeus pecados, isto devia contar de alguma forma. O tédio não era uma coisa com a qualeu me tenha habituado. Cada dia parecia mais impossivelmente monótono do que oúltimo.Suponho que esta era a minha forma de dormir - se dormir era definido como umestado inerte entre períodos activos.Olhei para as falhas no gesso do tecto do canto mais distante do refeitório, imaginandopadrões dentro deles que não existiam. Era a única maneira de desligar as vozes quetagarelavam como a corrente de um rio dentro da minha cabeça.Várias centenas de vozes que eu ignorava por puro aborrecimento.Quando se tratava da mente humana, eu já tinha ouvido tudo e mais um pouco. Hoje,todos os pensamentos estavam a ser consumidos com o drama comum de uma novaadição ao pequeno corpo estudantil daqui. Não levou muito tempo para ouvir todos.Tinha visto o rosto a repetir-se de pensamento em pensamento sob todos os ângulos.Só uma rapariga humana normal. A excitação pela chegada dela era cansativamenteprevisível - como um objecto brilhante para uma criança. Metade do corpo estudantilmasculino já se estava a imaginar apaixonado por ela, só porque ela era algo de novopara se olhar. Tentei desligá-los ainda mais.Só existiam quatro vozes que eu bloqueava mais por cortesia do que por desgosto: aminha família, os meus dois irmãos e duas irmãs, que já estavam tão habituados à faltade privacidade quando estavam ao pé de mim que já nem pensavam nisso. Eu dava-lhestoda a privacidade que conseguia. Se pudesse evitar, não os ouvia.Eu tentava, mas ainda assim… eu sabia.A Rosalie estava a pensar, como sempre, nela mesma. Tinha visto o reflexo do seuperfil no copo de alguém, e estava a meditar sobre a sua própria perfeição. A mente de
  2. 2. Rosalie era uma piscina superficial com poucas surpresas.O Emmett estava furioso por causa de uma luta que tinha perdido contra Jasper nanoite passada. Ia usar toda a sua limitada paciência para chegar até o fim do dia deaulas e planear uma vingança. Nunca me senti muito intrusivo a ouvir os pensamentos deEmmett, porque ele nunca pensava em alguma coisa que não dissesse em voz alta oufizesse. Talvez só me sentisse culpado a ler as mentes dos outros porque sabia quehavia coisas que eles não iriam querer que eu soubesse.Se a mente de Rosalie era uma piscina superficial, então a de Emmett era uma lagoasem sombras, clara como cristal.E Jasper estava… a sofrer. Segurei um suspiro.Edward. Alice chamou-me na sua cabeça, e teve a minha atenção imediatamente. Eraexactamente como se ela me estivesse a chamar em voz alta. Eu estava feliz que onome que me foi dado tinha saído um bocado de moda ultimamente. Seria enervante,sempre que alguém pensasse num Edward qualquer, a minha cabeça virar-se-iaautomaticamente…A minha cabeça não se virou desta vez. A Alice e eu éramos bons nestas conversasprivadas. Era raro quando alguém nos apanhava. Eu mantive os meus olhos nas linhas dogesso do tecto.Como é que ele se está a aguentar? - Perguntou-me.Eu fiz uma careta só com um pequeno movimento da minha boca. Nada que pudessealertar os outros. Eu podia estar facilmente a fazer uma careta de aborrecimento.O tom mental de Alice estava alarmado agora, eu vi na mente dela que ela estava aobservar o Jasper com a sua visão periférica. Há algum perigo? Ela procurou, no futuroimediato, vasculhando por visões de monotonia para a fonte da minha careta. Eu virei aminha cabeça lentamente para a esquerda, como se estivesse a olhar para os tijolos naparede, suspirei, e depois para a direita, de volta para as falhas no teto. Só a Alicesabia que eu estava a abanar a minha cabeça.Ela relaxou. Avisa-me se piorar.
  3. 3. Mexi apenas os meus olhos, para cima em direcção do tecto, e para baixo outra vez.Obrigada por estares a fazer isto.Eu estava feliz por não ter de lhe responder em voz alta. O que é que ia dizer? ‘Oprazer é meu’? Dificilmente era isso. Eu não gostava de ouvir as lutas do Jasper. Eramesmo necessário fazer experiências como estas? Será que o caminho mais seguro nãoseria admitir que ele nunca seria capaz de lidar com a sede da mesma maneira que nósconseguíamos, e não forçar os seus limites? Para quê brincar com o desastre?Já passaram duas semanas desde a nossa última caçada. Isso não era imensamentedifícil para o resto de nós. Ocasionalmente era um bocado desconfortável - se umhumano se aproximasse demais, se o vento soprasse na direcção errada. Mas oshumanos raramente se aproximavam demais. Os instintos deles diziam-lhes o que assuas mentes conscientes nunca iriam entender: nós éramos perigosos.Jasper era muito perigoso neste momento.Nesse momento, uma rapariga pequena parou na ponta da mesa mais próxima da nossa,parando para falar com uma amiga. Alisou o cabelo curto, cor de areia, passando osdedos por ele. Os aquecedores mandaram o cheiro para a nossa direcção. Eu já estavahabituado à maneira como esse cheiro me fazia sentir - a dor seca na minha garganta, ogrito vazio no meu estômago, a contracção automática dos meus músculos, o excesso dofluxo de veneno na minha boca…Tudo isto era muito normal, geralmente fácil de ignorar. Só que era mais difícil agora,com esses sentimentos mais fortes, duplicados, enquanto acompanhava a reacção deJasper. Era uma sede gémea, e não apenas a minha.O Jasper estava a deixar que a sua imaginação divagasse. Estava a imaginar. Aimaginar-se a levantar do seu lugar ao lado de Alice e sentar-se ao lado da rapariga.Estava a pensar em inclinar-se para baixo e para a frente, como se fosse falar ao seuouvido, e os seus lábios a tocarem o arco da garganta dela. Estava a imaginar comoseria a sensação de sentir o fluxo quente do pulso dela por baixo de sua pele fina naboca dele…
  4. 4. Dei um pontapé na cadeira dele.Ele encontrou o meu olhar por um minuto e depois olhou para baixo. Eu conseguia ouvira vergonha e a rebeldia a lutar na cabeça dele.- Desculpa - Jasper murmurou.Levantei os ombros.- Não ias fazer nada - Alice murmurou-lhe, acalmando o seu desapontamento. - Eu viisso.Lutei contra a careta que teria denunciado a mentira dela. Nós tínhamos quepermanecer juntos, a Alice e eu. Não era fácil ouvir vozes ou ter visões do futuro. Duasaberrações no meio daqueles que já eram aberrações. Protegíamos os segredos um dooutro.- Ajuda um bocado se pensares neles como seres humanos - a Alice sugeriu, a sua vozalta, musical, era demasiado rápida para os ouvidos humanos entenderem, se algumdeles estivesse perto o suficiente para ouvir. - O nome dela é Whitney. Tem umairmãzinha que adora. A mãe dela convidou a Esme para aquela festa de jardim, lembras-te?- Eu sei quem ela é - Jasper disse curtamente. Virou-se para olhar por uma daspequenas janelas que eram colocadas bem em baixo das vigas à volta da grande sala. Otom dele acabou com a conversa.Ele tinha que caçar hoje à noite. Era ridículo arriscar-se desta maneira, a tentar testara sua força, a tentar construir a sua resistência. O Jasper devia simplesmente aceitaras suas limitações e lidar com elas. Os seus hábitos antigos não condiziam com oshábitos que nós escolhemos; ele não devia exigir tanto de si mesmo desta maneira.Alice suspirou baixinho e levantou-se, levando o seu tabuleiro de comida - o seuadereço, isso é que era - com ela e deixando-o sozinho. Ela sabia quando ele já estavafarto dos encorajamentos dela. Apesar de Rosalie e Emmett serem mais abertos emrelação ao seu relacionamento, eram Alice e Jasper que conheciam cada traço de humordo outro como o seu próprio. Como se conseguissem ler mentes também - só que só um
  5. 5. do outro.Edward Cullen.Reacção de reflexo. Virei-me com o som do meu nome a ser chamado, apesar de nãoestar a ser chamado, só pensado.Os meus olhos prenderam-se por uma pequena fracção de segundo com um grande parde olhos humanos, cor de chocolate num rosto pálido, com formato de coração. Eu jáconhecia o rosto, apesar de nunca o ter visto até este momento. Ele esteve em quasetodas as cabeças humanas hoje. A nova estudante, Isabella Swan. Filha do chefe depolícia da cidade, trazida para viver aqui por uma nova situação de custódia. Bella. Elacorrigia toda a gente que usava o seu nome inteiro…Desviei o olhar, aborrecido. Levei um segundo para perceber que não tinha sido elaquem pensou no meu nome.É claro que ela já se está a apaixonar pelos Cullen, ouvi o primeiro pensamentocontinuar.Agora eu reconhecia a “voz”. Jessica Stanley - já há algum tempo que não meincomodava com as suas tagarelices internas. Foi um alívio quando ela se curou da suapaixão deslocada. Era quase impossível escapar dos seus constantes, ridículos sonhosdiurnos. Desejei, naquela altura, poder explicar exactamente o que teria acontecido seos meus lábios, e os dentes atrás deles, se chegassem de alguma maneira perto dela.Isso teria silenciado aquelas fantasias incómodas. Pensar na reacção dela quase me fezsorrir.Ela nem sequer é bonita. Não sei por que é que o Eric está a olhar tanto para ela… ou oMike. Suspirou mentalmente no último nome. A nova paixão dela, o genericamentepopular Mike Newton, era completamente indiferente a ela. Aparentemente, não eratão indiferente sobre a rapariga nova. Como uma criança com um objecto brilhanteoutra vez.Isso colocou uma pontada maligna nos pensamentos de Jessica, apesar de serexternamente cordial com a recém-chegada enquanto explicava os conhecimentos
  6. 6. comuns sobre a minha família. A nova estudante devia ter perguntado sobre nós.Hoje estão todos a olhar para mim também, a Jessica pensou presumidamente numaparte. É uma sorte que Bella vá ter duas aulas comigo… aposto que Mike vai perguntaro que ela…Tentei bloquear os pensamentos antes que a mesquinharia e a insignificância medeixassem louco.- A Jessica Stanley está a dar à nova rapariga Swan todos os podres do clã Cullen-murmurei para o Emmett como distracção. Ele gargalhou por debaixo do fôlego.Espero que esteja a fazer isso bem, pensou.- Na verdade, é muito pouco criativo. Só uma pequena ponta de escândalo. Nenhummexerico horroroso. Estou um bocado desapontado.E a rapariga nova? Também está desapontada com os mexericos?Tentei ouvir o que essa rapariga nova, Bella, estava a pensar das histórias de Jessica.O que é que ela via quando olhava para a estranha família de pele pálida que erauniversalmente evitada?Era mais ou menos a minha obrigação saber a reacção dela. Eu era como um espião, porfalta de uma palavra melhor, para a minha família. Para nos proteger. Se alguémcomeçasse a suspeitar, eu podia dar-nos a oportunidade de ter um aviso prévio para nosretirarmos facilmente. Isso acontecia ocasionalmente - algum humano com uma menteactiva via-nos como personagens de um livro ou um filme. Geralmente entendiam tudomal, mas era melhor mudarmo-nos para algum sítio novo do que arriscarmos oescrutínio. Muito, muito raramente, alguém adivinhava correctamente.Nós não lhes dávamos oportunidade de testar as suas hipóteses. Simplesmentedesaparecíamos, para nos tornarmos nada mais do que uma memória assustadora…Não ouvi nada, apesar de conseguir ouvir onde a tagarelice frívola de Jessicacontinuava ali perto. Era como se não houvesse ninguém sentado ao lado dela. Queestranho, será que a rapariga nova tinha ido embora? Não parecia provável, já queJessica continuava a mexericar com ela. Olhei para cima para verificar, sentindo-me
  7. 7. meio estranho. Verificar o que os meus “ouvidos” extras me podiam dizer não era umacoisa que eu tinha que fazer.Outra vez, os meus olhos prenderam-se naqueles mesmos grandes olhos castanhos.Ela estava sentada exactamente como antes, olhando para nós, uma coisa natural afazer-se, acho, já que a Jessica ainda estava a espalhar as fofocas locais sobre osCullen.Pensar em nós também seria natural.Mas eu não ouvia nem sequer um sussurro. Um quente e convidativo vermelho deu cor àssuas bochechas quando ela olhou para baixo, desviando o olhar da embaraçosa situaçãode ser apanhada a encarar um estranho. Era bom que Jasper ainda estivesse a olharpara a janela. Eu não gostava de imaginar o que aquele simples agrupamento de sanguefaria com o seu controle.As emoções estavam tão claras como se tivessem sido escritas na testa dela: surpresa,enquanto ela, sem saber, absorvia as diferenças entre a espécie dela e a minha;curiosidade, enquanto ouvia as explicações de Jessica; e algo mais… fascínio? Não seriaa primeira vez. Nós éramos lindos para eles, a nossa presa.E depois, finalmente, vergonha, quando a apanhei a olhar para mim.E, mesmo assim, apesar de os seus pensamentos serem tão claros através dos seusolhos estranhos - estranhos por causa da profundidade deles; os olhos castanhosnormalmente pareciam vazios na sua escuridão - não conseguia ouvir nada além dosilêncio vindo do lugar onde ela estava sentada. Absolutamente nada.Senti um momento desconfortável.Isto não era uma coisa pela qual eu já tinha passado antes. Havia algo de erradocomigo? Sentia-me exactamente da mesma maneira que me sentia sempre. Preocupado,tentei ouvir melhor.Todas as vozes que estive a bloquear, passaram a gritar na minha cabeça de repente.…pergunto-me de que música é que ela gosta… talvez eu possa mencionar aquele CDnovo…, Mike Newton estava a pensar, a duas mesas de distância - fixado em Bella Swan.
  8. 8. Vejam-no só a olhar para ela! Será que já não é suficiente que tenha metade das miúdasda escola caídas por ele? Eric Yorkie estava a ter pensamentos de mágoa, tambémgirando à volta da rapariga.…tão nojento. Quase que dava para pensar que ela é famosa ou alguma coisa assim… Atéo Edward CULLEN está a olhar! A Lauren Mallory estava com tantos ciúmes que a caradela devia estar com uma cor verde como a de jade. E Jessica, a ostentar a sua novamelhor amiga. Que piada…, a rapariga continuou a soltar veneno com os pensamentos.…Aposto que toda a gente já deve ter-lhe perguntado isso. Mas eu gostava de falar comela. Vou pensar numa uma pergunta mais original…, Ashley Dowling meditou.…Talvez esteja na minha aula de Espanhol…, June Richardson desejou.…Tenho toneladas de coisas para fazer essa noite! Trigonometria e o teste de inglês.Espero que a minha mãe… Angela Weber, uma rapariga tímida, cujos pensamentos eramanormalmente gentis, era a única na mesa que não estava obcecada com aquela Bella.Conseguia ouvi-los a todos, ouvir cada coisinha insignificante que eles pensavamenquanto os pensamentos passavam nas suas mentes. Mas absolutamente nada vinha danova estudante com olhos enganosamente comunicativos.E, é claro, eu conseguia ouvir o que a rapariga dizia quando falava com Jessica. Eu nãoprecisava ouvir os pensamentos para ouvir sua voz baixa, clara, no outro lado da sala.- Qual deles é o rapaz com cabelo castanho arruivado? – Ouvi-a a perguntar, enquantodava uma olhadela pelo canto dos olhos, mas desviou rapidamente quando viu que euainda estava a olhar para ela.Se eu tivesse que esperar que o som da voz dela me pudesse ajudar a conectar aos seuspensamentos, que estavam perdidos em algum lugar onde eu não podia chegar, ficariainstantaneamente desapontado. Geralmente, os pensamentos das pessoas vinhamacompanhados por um grupo de frases que diziam completamente o contrário nas suasvozes físicas. Mas aquela voz baixa, tímida, não era familiar, não era nenhuma dascentenas de vozes que rodeavam a sala, eu tinha a certeza disso. Ela era inteiramentenova.
  9. 9. Oh, boa sorte, idiota! A Jessica pensou antes de responder à pergunta dela.- É o Edward. É lindo, como é evidente, mas não percas tempo. Ele não sai comraparigas. Pelos vistos, nenhuma das raparigas daqui é suficientemente atraente paraele – Torceu o nariz como se a fungar.Virei a minha cabeça para esconder um sorriso. A Jessica e as suas amigas não tinham amínima ideia da sorte que tinham por nenhuma delas ser particularmente apelativa paramim.Por baixo do humor passageiro, senti um estranho impulso, um que não entendiaclaramente. Tinha alguma coisa a ver com os pensamentos maldosos de Jessica, dosquais a rapariga nova não fazia ideia… Senti uma estranha urgência de me meter entreelas, para proteger aquela Bella Swan dos trabalhos obscuros da mente de Jessica. Quecoisa estranha para se sentir. A tentar entender as motivações por trás desse impulso,examinei a rapariga nova mais uma vez. Talvez fosse algum instinto de protecção queestava há muito tempo enterrado - o mais forte pelo mais fraco. Esta rapariga pareciamais frágil do que as suas novas colegas de turma. A pele dela era tão translúcida queera difícil de acreditar que ela oferecia tanta resistência ao mundo exterior. Conseguiaver o ritmo da pulsação do sangue através das veias dela, debaixo da sua membranaclara, pálida…Mas não me ia concentrar nisso. Eu era bom nesta vida que tinhaescolhido, mas eu estava com tanta sede quanto o Jasper, e era melhor não convidar atentação.Havia uma fraca linha de preocupação entre as suas sobrancelhas da qual ela nãoparecia aperceber-se.Isto era inacreditavelmente frustrante! Eu conseguia ver claramente que ela estavatensa por ter que se sentar ali, ter que conversar com estranhos, ser o centro dasatenções.Conseguia sentir a sua timidez pela maneira como segurava os seus ombros deaparência frágil, levemente encolhidos, como se estivesse à espera de ser empurrada aqualquer momento. E, mesmo assim, eu só podia sentir, só podia ver, só podia imaginar.
  10. 10. Não havia nada sem ser silêncio vindo daquela rapariga humana muito normal.Eu não conseguia ouvir nada. Porquê?- Vamos? - A Rosalie murmurou, interrompendo a minha concentração. Desviei o olharda rapariga com uma sensação de alívio. Não queria continuar a falhar naquilo - issoirritava-me. Eu não queria desenvolver nenhuma espécie de interesse especial pelosseus pensamentos simplesmente porque estavam escondidos de mim. Sem dúvida,quando eu conseguisse decifrar os seus pensamentos - e eu ia encontrar uma forma defazer isso - eles iam ser exactamente tão insignificantes e banais quanto ospensamentos de qualquer humano. Não iam valer o esforço que eu faria para osalcançar.- Então, a novata já está com medo de nós? - O Emmett perguntou, ainda à espera daresposta à pergunta anterior.Encolhi os ombros. Ele não estava interessado o suficiente para me pressionar por maisinformações. E eu também não devia estar interessado.Levantámo-nos da mesa e saímos do refeitório.Emmett, Rosalie e Jasper estavam a fingir estar no último ano; foram para as aulasdeles. Eu estava a fingir ser mais novo que eles. Fui para a minha aula de Biologia donível médio, preparando a minha mente para o tédio. Era pouco provável que o Sr.Banner, um homem com uma inteligência não mais que comum, pudesse dizer na sua aulaalguma coisa que pudesse surpreender alguém que já tinha dois níveis de graduação emmedicina.Na sala de aula, sentei-me na minha cadeira e deixei os livros - adereços de novo; elesnão tinham nada que eu já não soubesse - espalhados pela mesa. Eu era o único alunoque tinha uma mesa só para si. Os humanos não eram espertos o suficiente para saberque tinham medo de mim, mas os seus instintos de sobrevivência eram suficientes paramantê-los afastados de mim.A sala foi-se enchendo lentamente enquanto eles voltavam do almoço. Inclinei-me naminha cadeira e esperei que o tempo passasse. Outra vez, desejei ser capaz de dormir.
  11. 11. Como eu estava a pensar nela, quando Angela Weber acompanhou a rapariga nova pelaporta, o nome dela chamou a minha atenção.A Bella parece ser tão tímida quanto eu. Aposto que hoje foi muito difícil para ela. Euqueria poder dizer alguma coisa… Mas provavelmente só ia parecer uma estúpida…Boa! Mike Newton virou-se na sua cadeira para observar a entrada da rapariga.Ainda, do lugar onde Bella estava, nada. O espaço vazio onde os pensamentos deladeviam estar deixou-me irritado e enervado.Ela aproximou-se, passando pelo corredor ao meu lado para chegar à mesa doprofessor.Pobre rapariga; o lugar ao meu lado era o único que estava vazio.Automaticamente, limpei aquele que seria o lado dela da mesa, colocando os meus livrosnuma pilha. Duvidava que ela se fosse sentir muito confortável aqui. Ia ter que aguentarum longo período - nesta aula, pelo menos. Talvez, no entanto, se ela se sentasse ao meulado, eu fosse capaz de desvendar os seus segredos… não que alguma vez tivesseprecisado de tanta proximidade… não que eu fosse encontrar alguma coisa que valesse apena ouvir…Bella Swan caminhou para o fluxo do ar aquecido que soprava na minha direcção doaquecedor.O cheiro dela atingiu-me como uma bola, como um bastão de basebol. Não existenenhuma imagem violenta o suficiente para explicar a força do que aconteceu comigonaquele momento.Naquele instante, eu não era nada nem perto do humano que um dia fui, nenhum traçoda humanidade na qual eu me tentei esconder.Eu era um predador. E ela era a minha presa. Não havia mais nada neste mundo sem seressa verdade.Não havia uma sala cheia de testemunhas - na minha cabeça eles já eram danoscolaterais. Já tinha passado o mistério dos pensamentos dela. Os pensamentos dela nãosignificavam nada, ela não ia passar muito mais tempo a pensar.
  12. 12. Eu era um vampiro e ela tinha o sangue mais doce que eu já tinha cheirado em oitentaanos.Nunca imaginei que um cheiro assim pudesse existir. Se eu soubesse que existia, játinha saído à procura há muito tempo. Eu teria vasculhado o planeta por ela. Conseguiaimaginar o sabor…A sede queimou-me garganta como fogo. A minha boca estava torrada e desidratada. Ofluxo fresco de veneno não fez nada para afastar essa sensação. O meu estômagorevirou-se com fome que era um eco da sede. Os meus músculos contraíram-se paraatacar.Nem tinha passado um segundo. Ela ainda estava no mesmo passo que a tinha colocadono vento na minha direcção.Enquanto os pés dela tocavam o chão, os seus olhos deslizaram na minha direcção. Ummovimento que ela claramente estava à espera que fosse rápido. O olhar dela encontrouo meu, e eu vi-me reflectido no grande espelho dos seus olhos.O choque do rosto que eu vi salvou-lhe a vida por alguns momentos. Ela não facilitou ascoisas. Quando viu a minha expressão, o sangue apareceu-lhe nas bochechas de novo,deixando a pele dela com a cor mais deliciosa que eu já tinha visto. O cheiro era umgrosso nevoeiro no meu cérebro. Eu mal conseguia pensar através dele.Os meus pensamentos enfureceram-se, resistindo ao controle, incoerentes.Agora ela caminhava mais depressa, como se tivesse percebido que precisava deescapar. A pressa dela deixou-a desastrada - tropeçou e inclinou-se para a frente,caindo quase em cima da rapariga que se sentava à minha frente. Vulnerável, fraca. Atémais que o normal para um humano.Tentei-me concentrar no rosto que tinha visto nos olhos dela, um rosto que eureconhecia com nojo. O rosto do monstro em mim - o rosto que eu tinha afastado comdécadas de esforço e disciplina inflexível. Como ele tinha voltado à superfície comtanta facilidade agora!O cheiro invadiu-me novamente, ferindo-me os pensamentos e quase me fez saltar do
  13. 13. meu lugar.Não.A minha mão agarrou-se à borda da mesa enquanto eu me tentava segurar à cadeira.A madeira não estava à altura disso. A minha mão partiu-a e afastou-se cheia de restosde fuligem, deixando a marca dos meus dedos cravadas na madeira que restou.Destruir as provas. Essa era a regra fundamental.Rapidamente pulverizei os limites da mesa com as pontas dos dedos, sem deixar nadaalém de um buraco e uma pilha de fuligem no chão, que limpei com o meu pé.Destruir as provas. Estragos colaterais…Eu sabia o que tinha que acontecer agora. A rapariga ia ter que se vir se sentar ao meulado, e eu ia ter que matá-la.Os inocentes espectadores na sala, outras dezoito crianças e um homem, já não podiamter permissão para sair daquela sala, assim que vissem o que iam ver em breve.Fiquei rígido com o pensamento do que planeava fazer. Mesmo nos meus piores dias,nunca tinha cometido este tipo de atrocidade. Nunca matei inocentes em nenhumadestas oito décadas. E agora planeava matar vinte de uma só vez.O rosto do monstro no espelho gozou comigo.Mesmo que uma parte de mim se afastasse desse monstro, a outra parte estava a fazerplanos.Se eu matasse a rapariga primeiro, só teria uns quinze ou vinte segundos com ela antesque os outros humanos na sala começassem a reagir. Talvez um pouco mais de tempo, seeles não percebessem logo no início o que eu estava a fazer. Ela não teria tempo degritar ou de sentir dor; eu não ia matá-la cruelmente. Pelo menos podia dar-lhe isso.Uma morte rápida àquela estranha com sangue horrivelmente desejável.Mas depois eu iria ter que impedi-los de fugir. Não ia precisar de me preocupar com asjanelas, elas eram altas e demasiado pequenas para servir como escapatória paraalguém. Só a porta – bloqueio-a e eles ficarão presos.Ia ser mais lento e difícil se tentasse matá-los a todos quando estivessem em pânico e
  14. 14. a misturarem-se, movimentarem-se no caos. Nada impossível, mas iria haver muito maisbarulho. Ia dar tempo para muitos gritos. Alguém poderia ouvir… e eu seria obrigado amatar ainda mais inocentes naquela hora negra.E o sangue dela iria arrefecer enquanto eu estivesse a assassinar os outros.O cheiro castigou-me, fechando a minha garganta com uma dor seca…Então seriam as testemunhas primeiro.Planeei tudo na minha cabeça. Estaria no meio da sala, na fila mais afastada do fundo.Ia tratar do lado direito primeiro. Podia morder quatro ou cinco pescoços por segundo,fiz uma estimativa. Não seria barulhento. O lado direito seria o lado de sorte; eles nãome iam ver a chegar. Levar-me-ia, no máximo, cinco segundos a acabar com todas asvidas nesta sala.Tempo o suficiente para Bella Swan ver, num instante, o que se estava a preparar paraela. Tempo o suficiente para ela sentir medo. Tempo suficiente, talvez, se o choque nãoa congelasse no lugar, para ela tentar gritar. O gritinho suave não faria ninguémaparecer a correr.Respirei fundo, e o cheiro era como um fogo a correr nas minhas veias secas,queimando por dentro do meu peito para consumir qualquer impulso de bondade do qualeu ainda fosse capaz.Ela estava a virar-se agora. Dentro de alguns segundos, ela ia sentar-se a apenas algunscentímetros de mim.O monstro na minha cabeça sorriu com a antecipação.Alguém fechou uma pasta ao meu lado. Eu não me virei para ver qual dos humanospredestinados tinha feito isso, mas o movimento mandou uma onda de vento sem cheirona minha direcção.Por um curto segundo, fui capaz de pensar com clareza. Naquele precioso segundo, eu vidois rostos na minha cabeça, lado a lado.Um era o meu, ou o que foi um dia: o monstro de olhos vermelhos que já tinha mortotantas pessoas que já tinha parado de contar o número. Assassinatos racionalizados,
  15. 15. justificados. Um assassino de assassinos, um assassino de outros monstros, menospoderosos. Era um complexo de ser Deus, eu sabia disso - decidir quem merecia umasentença de morte. Era um compromisso comigo mesmo. Eu tinha-me alimentado desangue humano, mas apenas humanos na sua definição mais fraca. As minhas vítimaseram, nos seus violentos dias negros, tão humanos quanto eu era.O outro rosto era o de Carlisle.Não havia nenhuma semelhança entre os dois rostos.Eles eram como o dia mais claro e a noite mais escura. Não havia motivo para quehouvesse uma semelhança. Carlisle não era meu pai no sentido biológico básico. Nós nãotínhamos feições semelhantes. A similaridade na nossa cor era apenas por causa do queéramos; todos os vampiros tinham a mesma cor pálida como gelo. A similaridade da cordos nossos olhos era outra coisa - uma reflexão da nossa escolha mútua.E, mesmo assim, apesar de não haver bases para uma semelhança, eu tinha imaginadoque o meu rosto tinha começado a reflectir o dele, até um certo ponto, nos últimosestranhos setenta anos em que eu abracei a escolha dele e segui os seus passos. O meurosto não tinha mudado, mas para mim parecia que alguma da sabedoria dela haviamarcado a minha expressão, que um pouco da compaixão dele podia ser traçada noscontornos da minha boca, e que as suas sugestões de paciência estavam evidentes nasminhas sobrancelhas.Todas essas pequenas melhorias estavam escondidas no rosto do monstro. Daqui aalguns instantes, não ia haver mais nada que pudesse reflectir os anos que eu tinhapassado com o meu criador, o meu mentor, o meu pai em todas as formas que se podiacontar.Os meus olhos iam ficar a brilhar vermelhos como os do diabo; todas as semelhançasestariam perdidas para sempre.Na minha cabeça, os olhos bondosos de Carlisle não me julgavam. Eu sabia que ele meperdoaria por este terrível acto que eu ia cometer. Porque ele me amava. Porque elepensava que eu era melhor do que eu era na verdade. E ele ia continuar a amar-me,
  16. 16. mesmo agora, quando eu provasse que ele estava errado.Bella Swan sentou-se ao meu lado, os seus movimentos eram rígidos e estranhos - commedo? -, E o cheiro do sangue dela criou uma inexorável nuvem ao meu redor.Eu ia provar que meu pai estava errado sobre mim. A tristeza desse facto doía quasetanto como o fogo na minha garganta.Eu afastei-me dela com repulsa - revoltado com o monstro a implorar para atacá-la.Por que é que ela tinha que vir para aqui? Por que é que ela tinha que existir?Por que é que ela tinha que acabar com o pouco de paz que eu tinha nesta minha nãovida? Por que esta humana tinha que ter nascido? Ela ia arruinar-me.Desviei a minha cara para longe dela, enquanto uma súbita fúria, um aborrecimentoirracional passou por mim.Quem é que era esta criatura? Porquê eu, porquê agora? Por que é que eu tinha queperder tudo só porque ela escolheu aparecer nesta cidade improvável?Por que é que ela tinha que vir para cá?!Eu não queria ser o monstro! Eu não queria matar esta sala cheia de crianças indefesas!Eu não queria perder tudo o que tinha conseguido com uma vida inteira de sacrifícios enegações!Eu não ia fazer isso. Ela não me ia obrigar.O cheiro era o problema, o cheiro odiosamente apelativo do sangue dela. Se houvessealguma forma de resistir… se apenas um sopro de ar fresco pudesse limpar a minhacabeça.A Bella Swan balançou os seus longos, grossos cabelos castanhos na minha direcção.Ela era louca?! Era como se estivesse a encorajar o monstro! Incentivando-o.Não havia nenhuma brisa amigável para afastar o cheiro de mim agora. Ia estar tudoperdido em breve.Não, não havia nenhuma brisa amigável. Mas eu não precisava de respirar. Parei o fluxode ar para os meus pulmões; o alívio foi instantâneo, mas incompleto.Eu ainda tinha na memória o cheiro, o gosto no fundo da minha língua. Não ia ser capaz
  17. 17. de resistir por muito mais tempo. Mas talvez conseguisse resistir por uma hora. Umahora. Só o tempo suficiente para sair desta sala cheia de vítimas, vítimas que talveznão precisassem de ser vítimas. Se eu pudesse resistir durante uma curta hora.Ficar sem respirar era uma sensação desconfortável. O meu corpo não precisava deoxigénio, mas isso ia contra os meus instintos. Eu aproveitava-me daquele sentido muitomais do que qualquer outro quando estava stressado. Guiava-me nas caças, era oprimeiro avisar-me em casos de perigo.Não me cruzava com alguma coisa tão perigosa como eu com frequência, mas a auto-preservação era tão forte na minha espécie quanto nos humanos.Desconfortável, mas suportável. Mais suportável do que sentir o cheiro dela e nãocravar os meus dentes naquela pele bonita, fina, transparente… até ao quente, molhado,sangue?Uma hora! Só uma hora. Não vou pensar no cheiro, no gosto.A rapariga silenciosa manteve o cabelo dela entre nós, inclinando-se para a frente atéque ele se espalhou no caderno dela. Não conseguia ver o rosto dela para tentar ler asemoções dela através de seus olhos claros, profundos. Era por isso que ela estava adeixar aquele cabelo entre nós? Para esconder os olhos de mim? Por medo? Timidez?Para esconder os seus segredos de mim?A minha antiga irritação por ser incapacitado pelos seus pensamentos sem som erafraca e pálida em comparação à necessidade - e ao ódio - que me possuía agora. Euodiava esta mulher, criança ao meu lado, odiava-a com todas as forças. Odiava-a, odiavao que ela me fazia sentir - e isso ajudou um pouco.Agarrei-me a qualquer emoção que me distraísse do pensamento de qual seria o gostodela…Ódio e irritação. Impaciência. Será que aquela hora nunca mais ia passar? E quandopassasse… Então ela ia sair desta sala. E eu ia fazer o quê?Eu podia apresentar-me. Olá, meu nome é Edward Cullen. Posso acompanhar-te até atua próxima aula?
  18. 18. Ela iria dizer que sim. Era a coisa mais educada a fazer-se. Mesmo a sentir medo demim, como eu suspeitava que ela já sentia, ela iria acompanhar-me convencionalmente ecaminhar ao meu lado. Seria fácil o suficiente guiá-la na direcção errada.Havia um pedaço da floresta que me parecia bastante útil agora. Podia dizer-lhe que metinha esquecido de um livro no carro…Será que alguém ia reparar que eu fui a última pessoa com quem ela tinha sido vista?Estava a chover, como sempre. Dois casacos escuros para a chuva a moverem-se nadirecção errada não iam chamar muita atenção, nem me denunciariam.A não ser pelo fato de eu não ser o único estudante que estava consciente dela hoje -apesar de nenhum estar tão devastadoramente consciente dela quanto eu. MikeNewton, em particular, estava atento a cada movimento que ela fazia a mexer-se nacadeira - ela estava desconfortável ao meu lado, assim como qualquer um estaria, assimcomo eu já esperava antes que o cheiro dela destruísse todos os traços de preocupaçãopor caridade. Mike Newton iria reparar se ela deixasse a sala comigo.Se conseguisse aguentar uma hora, será que conseguia aguentar duas? Encolhi-me coma dor ardente que sentia na garganta.Ela ia para uma casa vazia. O chefe de polícia Swan trabalhava o dia inteiro. Euconhecia a casa dele, assim como conhecia todas as casinhas da cidade. A casa deleficava acima da encosta da floresta, sem vizinhos próximos. Mesmo se ela tivessetempo para gritar, e não teria, não ia haver ninguém por perto para ouvir.Essa era a forma mais responsável de lidar com isto. Eu tinha aguentado sete décadassem sangue humano. Se eu sustivesse a respiração, conseguia aguentar duas horas. Equando a encontrasse sozinha, não ia haver oportunidades de mais alguém se magoar. Enão há motivo para apressar a experiência, o monstro na minha cabeça concordou.Estava-me a enganar ao pensar que, se salvasse os dezanove humanos desta sala comesforço e paciência, seria menos monstro quando matasse aquela rapariga inocente.Apesar de odiá-la, eu sabia que o meu ódio era injusto. Sabia que quem realmenteodiava era eu mesmo. Ia odiar-nos aos dois ainda mais quando ela estivesse morta.
  19. 19. Consegui passar a hora desta maneira - a imaginar as melhores formas de matá-la.Tentei evitar pensar no acto de verdade. Isso ia ser demais para mim; ia acabar porperder esta batalha e matar toda a gente que visse. Então planeei a estratégia e nadamais.Isso ajudou-me a passar a hora.Uma vez, quase no fim, ela olhou para mim pela parede dos seus cabelos. Conseguiasentir o ódio injustificado a queimar-me quando olhei para os olhos dela - vi o meureflexo nos seus olhos assustados. O sangue pintou as suas bochechas antes que elaconseguisse esconder-se outra vez nos seus cabelos, e eu quase que me desfiz.Mas a campainha tocou. Salva pela campainha - que cliché. Nós os dois estávamossalvos. Ela, salva da sua morte. Eu, salvo por um curto período de tempo de ser acriatura de pesadelos que eu temia e não suportava.Não consegui caminhar tão devagar quanto devia quando saí da sala. Se alguémestivesse a olhar para mim, podia ter suspeitado que estava alguma coisa mal namaneira como eu me movia. Ninguém estava a prestar-me atenção. Todos ospensamentos humanos ainda rondavam a rapariga que estava condenada a morrer empouco mais de uma hora.Escondi-me no meu carro.Não gostava de pensar em mim mesmo a ter que me esconder. Isso soava muitocobarde. Mas esse era inquestionavelmente o caso agora.Eu não estava suficientemente disciplinado para ficar perto de humanos agora.Concentrar-me tanto em não matar um deles tinha acabado com todos os meus recursospara resistir a matar os outros. Que desperdício isso seria. Se eu tinha que dar o braçoa torcer para o monstro, podia pelo menos fazer o desafio valer a pena.Pus o CD de música que normalmente me acalmava, mas fez pouco por mim agora. Não, oque mais ajudou agora foi o ar frio, molhado, limpo que entrava com a chuva pelasminhas janelas abertas. Apesar de me conseguir lembrar do cheiro do sangue de BellaSwan com perfeita clareza, inalar o ar limpo era como lavar o interior do meu corpo
  20. 20. contra as infecções.Estava são de novo. Conseguia pensar de novo. E conseguia lutar de novo. E eu podialutar contra o que eu não queria ser.Eu não tinha que ir até casa dela. Eu não queria matá-la.Obviamente, eu era uma criatura racional, uma criatura que pensava, e eu tinha umaescolha. Havia sempre uma escolha.Não era isso que parecia na sala de aula… mas agora eu estava longe dela. Talvez, se eua evitasse muito, muito cuidadosamente, não houvesse motivos para a minha vida mudar.Eu tinha as coisas sob controlo da maneira como elas eram agora. Porque é que eu deviadeixar alguém agravante e delicioso arruinar isso? Eu não tinha que desapontar o meupai. Eu não tinha que causar stress à minha mãe, preocupação… dor. Sim, isso ia magoara minha mãe adoptiva também. E Esme era tão gentil, tão delicada e suave. Causar dor aalguém como Esme era verdadeiramente imperdoável.Era irónico que eu tivesse tido vontade de proteger aquela rapariga da ameaçadesprezível, sem dentes, dos pensamentos de Jessica Stanley. Eu era a última pessoaque iria querer servir de protector de Isabella Swan. Ela jamais precisaria deprotecção de mais alguma coisa que não fosse eu.Onde estava a Alice? Perguntei-me de repente. Ela não me tinha visto a matar arapariga Swan de alguma maneira? Porque é que ela não apareceu para ajudar - para meparar ou para me ajudar a limpar as provas, o que quer que fosse? Será que ela estavatão preocupada em livrar Jasper de problemas que ela tinha deixado passar aquelapossibilidade muito mais horrorosa? Será que eu era mais forte do que eu pensava?Será que eu realmente não teria feito nada com a rapariga?Não. Eu sabia que isso não era verdade. A Alice deve estar a concentrar-se bastante noJasper.Procurei na direcção em que eu sabia que ela estava, no pequeno edifício que era usadopara as aulas de inglês. Não me levou muito tempo localizar a sua “voz” familiar. E euestava certo. Todos os seus pensamentos estavam voltados para o Jasper, a ver todas
  21. 21. as suas pequenas escolhas a cada minuto.Desejei poder pedir-lhe os seus conselhos, mas, ao mesmo tempo, estava feliz que elanão soubesse do que eu era capaz. Que ela não soubesse do massacre que eu tinhaplaneado na hora anterior.Senti um novo ardor pelo meu corpo - o da vergonha. Eu não queria que nenhum delessoubesse.Se eu pudesse evitar a Bella Swan, se eu conseguisse não a matar - mesmo enquanto eupensava nisso, o monstro trincava e rangia os dentes, cheio de frustração - entãoninguém teria que saber. Se eu pudesse manter distância do cheiro dela…Não havia razão para que eu não tentasse, pelo menos. Fazer uma boa escolha. Tentarser o que Carlisle pensava que eu era.A última hora de escola já estava quase acabada. Decidi começar a colocar o meu novoplano em acção imediatamente. Era melhor do que ficar sentado no estacionamento,onde ela poderia passar a qualquer minuto e arruinar a minha tentativa. De novo, eusenti o ódio injusto por aquela rapariga. Eu odiava que ela tivesse aquele poderinconsciente sobre mim. Que ela conseguisse fazer-me ser algo que eu repugnava.Caminhei rapidamente - um pouco rapidamente demais, mas não havia testemunhas -através do pequeno átrio até a secretaria. Não havia razão para Bella Swan cruzar omeu caminho. Ela seria evitada como a praga que ela era.A secretaria estava vazia, com excepção da secretária, a única que eu queria ver.Ela não reparou na minha entrada silenciosa.- Sra. Cope?A mulher com o cabelo vermelho pouco natural olhou para cima e os olhos delaarregalaram-se. Apanhava-os sempre de surpresa, pequenos sinais que eles nãoconseguiam entender, independentemente de quantos de nós eles já tivessem visto.- Oh. - Ela ofegou, um pouco corada. Alisou a blusa. Tonta, pensou consigo mesma. Ele équase novo o suficiente para ser meu filho. Demasiado novo para eu pensar nele dessamaneira… - Olá, Edward. O que é que posso fazer por ti? - As suas pestanas flutuaram
  22. 22. por trás das lentes dos seus óculos grossos.Desconfortável. Mas eu sabia ser charmoso quando queria ser. Era fácil, já que eracapaz de saber instantaneamente como qualquer tom ou gesto meu era recebido.Inclinei-me para a frente, encontrei o seu olhar como se estivesse a olharprofundamente dentro dos seus olhos castanhos rasos, pequenos. Os pensamentos delajá estavam descontrolados. Isto ia ser fácil.- Estava-me a perguntar se não me podia ajudar com os meus horários - disse com aminha voz suave que era reservada a não assustar humanos.Ouvi o ritmo do coração dela a acelerar.- É claro, Edward. Como é que posso ajudar? - Demasiado jovem, demasiado jovem,repetiu para si mesma. Errada, é claro. Eu era mais velho que o avô dela. Mas, segundo aminha carta de condução, ela estava certa.- Perguntava-me se podia trocar a minha aula de Biologia para o nível mais alto deCiências. Física, talvez?- Algum problema com o Sr. Banner, Edward?- Claro que não, é só que eu já estudei aquela matéria…- Naquela escola acelerada em que estudaste no Alasca, certo. - Os seus lábios finostorceram-se enquanto ela considerava isso. Eles todos já deviam estar na faculdade. Jáouvi todos os professores a reclamarem. Notas perfeitas, nunca hesitam antes deresponder, nunca respondem errado num teste - como se encontrassem uma forma defazer batota em todas as matérias. O Sr. Varner preferiria acreditar que existealguém a copiar do que admitir que existe alguém mais inteligente que ele… Aposto quea mãe deles dá-lhes aulas… - Na verdade, Edward, a aula de física já está muito cheiaagora. O Sr. Banner odeia ter mais de vinte e cinco alunos na sala de aula…- Eu não daria nenhum problema.É claro que não. Não um Cullen perfeito.- Eu sei disso, Edward. Mas simplesmente não há lugares suficientes…- Então posso desistir da aula? Eu posso usar o período para estudos independentes.
  23. 23. - Desistir de Biologia? - A boca dela abriu-se. Isso é uma loucura. É assim tão difícilassistir a uma matéria que já conhece? DEVE haver algum problema com o Sr. Banner.Pergunto-me se devo falar sobre isso com o Bob. – Não ias ter créditos suficientespara acabar o liceu.- Posso recuperar no próximo ano.- Talvez devesses falar com os teus pais sobre isto.A porta abriu-se atrás de mim, mas quem quer que fosse não estava a pensar em mim,então ignorei a chegada e concentrei-me na Sra. Cope. Inclinei-me um pouco mais paraperto dela e abri os olhos mais um bocado. Isto funcionaria melhor se eles estivessemdourados em vez de pretos. A escuridão assustava as pessoas, tal como devia.- Por favor, Sra. Cope? - Fiz com que a minha voz ficasse mais suave e convincente, eisto podia ser consideravelmente convincente. - Não há uma outra hora à qual eu possamudar-me? Será que não existe nenhuma vaga aberta nalgum lugar? Biologia no sextotempo pode ser a única opção…Sorri-lhe, tomando o cuidado de não mostrar demasiado os dentes para não a assustar,e deixei que a expressão se suavizasse no meu rosto.O coração dela bateu mais rápido. Demasiado jovem, dizia freneticamente para simesma. - Bom, talvez eu pudesse falar com Bob, quero dizer, o Sr. Banner. Eu posso verse…Um segundo foi o que levou para tudo mudar: a atmosfera na sala, a minha missão aqui,a razão pela qual eu me inclinava para a mulher de cabelos vermelhos… O que tinha sidopor um propósito, agora era por outro.Um segundo foi só o que demorou para a Samantha Wells abrir a porta e mandar umpapel assinado para o cesto ao lado da porta e correr para fora outra vez, com pressade sair da escola. Um segundo foi tudo o que levou para que uma rajada repentina devento passasse pela porta e me viesse atingir. Um segundo foi o tempo que eu levei parame aperceber por que é que aquela primeira pessoa não me tinha atrapalhado com osseus pensamentos.
  24. 24. Virei-me, apesar de não precisar de confirmar. Virei-me lentamente, enquanto lutavapara controlar os meus músculos que se revoltavam contra mim.A Bella Swan ficou com as costas pressionadas na parede ao lado da porta, com umpapel agarrado nas mãos.Os olhos dela estavam ainda maiores do que o normal quando reparou no meu olharferoz, desumano.O cheiro dela preencheu cada pequena partícula de ar na sala pequena, quente. A minhagarganta ficou em chamas.O monstro olhou para mim pelo espelho dos olhos dela de novo, uma máscara do mal.A minha mão hesitou no ar em cima do balcão. Não teria que olhar para bater com acabeça da Sra. Cope na mesa dela com força suficiente para a matar. Duas vidas, aoinvés de vinte. Uma troca.O monstro esperou ansiosamente, faminto, que eu fizesse isso.Mas havia sempre uma escolha - tinha que haver.Parei o movimento dos meus pulmões e fixei o rosto de Carlisle à frente dos meusolhos. Virei-me para olhar para a Sra. Cope e ouvi a surpresa interna dela com amudança da minha expressão. Ela afastou-se de mim, mas o medo dela não se notou naspalavras coerentes.Usando todo o auto-controle que tinha aprendido nas minhas décadas de auto-negação,tornei a minha voz uniforme e suave. Tinha ar o suficiente nos pulmões para falar umaúltima vez, apressando as palavras.- Então esqueça. Vejo que é impossível. Muito obrigado pela sua ajuda.Virei-me e lancei-me pela porta, tentando não sentir o calor do sangue quente do corpoda rapariga enquanto passei a apenas alguns centímetros dela.Não parei até estar no meu carro, movendo-me rápido demais todo o caminho até lá.A maioria dos humanos já tinha ido embora, então não havia muitas testemunhas.Ouvi um rapaz do segundo ano, D.J. Garrett, reparar e depois não dar importância…De onde é que o Cullen saiu? Foi como se tivesse aparecido com o vento… Lá estou eu
  25. 25. com a minha imaginação outra vez. A minha mãe diz sempre…Quando deslizei para dentro do meu Volvo, os outros já estavam lá. Tentei controlar aminha respiração, mas eu estava a asfixiar por ar fresco como se estivesse a sufocar.- Edward? - A Alice perguntou com uma voz alarmada.Só lhe abanei a minha cabeça.- O que diabos é que te aconteceu? - O Emmett quis saber, distraído, por um momento,do facto de Jasper não estar numa de aceitar a sua vingança.Em vez de responder, fiz marcha-atrás com o carro. Eu tinha que sair desteestacionamento antes que a Bella me seguisse para aqui também. O meu demóniopessoal perseguir-me… Virei o carro e acelerei. Já estava nos quarenta antes de chegarà estrada. Na estrada, fiz setenta antes de chegar à esquina.Sem olhar, eu sabia que Emmett, Rosalie e Jasper se tinham virado todos para olharpara a Alice.Levantou os ombros. Ela não podia ver o que se tinha passado, só o que estava paraacontecer.Olhou para mim agora. Nós os dois estávamos a processar o que ela tinha visto na suacabeça, e ambos estávamos surpreendidos.- Tu vais-te embora? - Ela sussurrou.Os outros olharam para mim agora.- Vou? - Expirei através dos meus dentes.Ela viu então, enquanto a minha decisão ia para outro caminho e outra escolha virava omeu futuro para uma direcção mais escura.- Oh.A Bella Swan morta. Os meus olhos a brilharem, vermelhos com o sangue fresco. Aprocura que se seguiria. O tempo cuidadoso que nos levaria a esperar até que fosseseguro sair e começar tudo de novo…- Oh - ela disse outra vez. A imagem ficou mais específica. Eu vi o interior da casa doChefe Swan pela primeira vez, vi a Bella na pequena cozinha com os armários amarelos,
  26. 26. com as costas viradas para mim enquanto eu a perseguia na escuridão… deixava que oseu cheiro me guiasse até ela…- Pára! - Rugi, incapaz de aguentar mais.- Desculpa - Sussurrou com os olhos arregalados.O monstro gostou.E a visão na cabeça dela mudou outra vez. Uma avenida vazia à noite, as árvores ao ladocobertas de neve, a brilhar com os quase duzentos quilómetros por hora.- Vou ter saudades tuas - disse. - Independentemente de quão curto seja o tempo quevás ficar fora.Emmett e Rosalie trocaram um olhar apreensivo.Nós já estávamos quase na curva da longa estrada que levava à nossa casa.- Deixa-nos aqui - A Alice sugeriu. – Devias dizer isso ao Carlisle pessoalmente.Abanei a cabeça e o carro chiou quando parou de repente.Emmett, Rosalie e Jasper saíram silenciosamente; eles iam fazer com que a Aliceexplicasse tudo quando eu fosse embora. A Alice tocou-me no ombro.- Tu vais fazer a coisa acertada - murmurou. Não era uma visão desta vez, era umaordem. - Ela é a única família de Charlie Swan. Isso matá-lo-ia também.- Sim - eu disse, a concordar apenas com a última parte.Ela saiu para se juntar aos outros, as sobrancelhas dela estavam juntas por causa daansiedade.Eles enfiaram-se nas matas, desaparecendo de vista antes que eu pudesse virar ocarro.Acelerei de volta à cidade, e eu sabia que as visões na cabeça de Alice estariam apassar de negras a claras num piscar de olhos.Enquanto acelerava para Forks a mais de noventa quilómetros por hora, eu não tinhacerteza de para onde é que estava a ir. Dizer adeus ao meu pai? Ou aceitar o monstroque havia dentro de mim? A estrada a voar por baixo dos meus pneus.
  27. 27. 2º Capitulo - Livro AbertoEncostei as costas contra o banco fofo de neve, deixando o pó seco refazer-se à voltado meu peso. A minha pele tinha arrefecido para igualar-se ao ar à minha volta, e ospequenos pedaços de gelo pareciam veludo de baixo da minha pele.O céu acima de mim estava limpo, brilhante com estrelas, ficando azul em algumaspartes, e amarelo noutras. As estrelas apareceram majestosamente, em formasredondas contra o universo negro - uma vista maravilhosa. Perfeitamente bonita. Oumelhor, teria sido perfeitamente. Teria sido, se eu a estivesse realmente a ver.Eu não estava a melhorar nada, já se tinham passado seis dias, há seis dias que euestava escondido neste deserto vazio Denali, mas não estava nem perto da liberdadedesde o primeiro momento em que senti o seu perfume.Quando olhei para o céu estrelado, era como se tivesse uma obstrução entre meusolhos e a beleza dele. A obstrução era um rosto, um rosto humano pouco notável, masparecia que não o conseguia banir da minha mente.Ouvi os pensamentos a aproximarem-se antes de ouvir os passos que os acompanhavam.O som do movimento era apenas um desfalecido suspiro contra o pó.Não estava surpreendido que a Tanya me tivesse seguido até aqui. Eu sabia que elaesteve a reflectir sobre esta próxima conversa nos últimos dias, adiando até queestivesse exactamente certa do que queria dizer.Apareceu a uns 54 metros, a pular até a ponta de uma rocha escura à vista, balançando-se nas pontas dos pés A pele de Tanya estava prateada à luz das estrelas, os seuscabelos louros brilhavam palidamente, quase rosa com madeixas avermelhadas. Os seusolhos dourados brilharam rapidamente quando olhou para mim, meio enterrada na neve,e os seus lábios esticaram-se lentamente formando um sorriso.Seria perfeita. Se eu conseguisse realmente vê-la. Suspirei.Ela agachou-se até a ponta da rocha, as pontas dos dedos tocaram na rocha, e o corpo
  28. 28. dela preparou-se.Bola de neve, pensou.Lançou-se no ar, a sua forma tornou-se escura, uma sombra giratória à medida que elagirava entre mim e as estrelas. Ela curvou-se e ficou uma bola, enquanto se lançavapara o banco de neve ao meu lado.Uma grande quantidade de neve caiu em cima de mim. As estrelas ficaram pretas, e euestava enterrado, coberto de cristais de gelo.Suspirei de novo, mas não me mexi para me desenterrar. A escuridão abaixo da nevenão podia piorar nem melhorar a visão. Eu ainda via o mesmo rosto.“Edward?”E depois a neve estava a voar outra vez, assim que a Tanya me desenterrourapidamente. Limpou o pó do meu rosto imóvel, e não olhava totalmente para os meusolhos.“Desculpa.” Murmurou. “Foi uma piada.”“Eu sei. Foi engraçado.”A boca dela virou-se para baixo.“ A Irina e a Kate disseram que te devia deixar em paz. Elas acham que te estou aincomodar.”“Claro que não,” Assegurei-lhe “Pelo contrário, sou eu quem está a ser rude-abominavelmente rude. Lamento imenso.”Vais para casa, não é? Pensou.“Eu ainda… não me decidi… totalmente.”Mas não vais ficar aqui. O seu pensamento agora era melancólico, triste.“Não. Isto não parece estar… a ajudar.”Ela fez uma careta. “É por minha causa, não é?”“Claro que não,” Menti gentilmente.Não sejas cavalheiro.Sorri.
  29. 29. Faço-te sentir desconfortável, ela acusou.“Não.”Ela levantou uma sobrancelha, a sua expressão estava tão descrente que tive que merir. Um curto riso, seguido por outro suspiro.“Está bem,” eu admiti. “Um bocado.”Ela também suspirou e colocou o queixo sob as suas mãos. Os seus pensamentosestavam mortificados.“Tu és mil vezes mais amável do que as estrelas, Tanya. É claro, tu estás conscientedisso. Não deixes que a minha teimosia estrague a tua confiança.” Ri-me com aimpossibilidade disso.“Não estou habituada à rejeição,” queixou-se, com o seu lábio inferior para fora numatraente beicinho.“Claro que não,” Concordei, tentando sem muito sucesso bloquear os seus pensamentosenquanto se aprofundavam entre as suas milhares conquistas. Na sua maioria, Tanyapreferia os homens humanos - eles eram muito mais populares para uma única coisa,com a vantagem de serem suaves e quentes.Ao contrário de Carlisle, a Tanya e as suas irmãs descobriram as suas consciênciaslentamente. No final, foi o afecto pelos homens humanos que colocaram as irmãs contrao massacre. Agora os homens que elas amavam… viviam.“Quando apareceste aqui,” Tanya disse lentamente. “Eu pensei que…”Eu sabia o que ela tinha pensado. E eu devia saber que ela se ia sentir assim. Mas eu nãoestava no meu melhor para racionalizar naquele momento...“ Pensaste que eu tinha mudado de ideias.”“Sim,” Queixou-se.“Sinto-me horrível por estar a brincar com as tuas expectativas, Tanya. Eu não queria -Eu não estava a pensar. É só que eu saí… um bocado à pressa.”“Suponho que não me vais me contar o porquê…?”Sentei-me e enrolei os braços à volta das minhas pernas, encolhendo-me
  30. 30. defensivamente. “Não quero falar sobre isso.”A Tanya, Irina e Kate adaptaram-se muito bem à vida a que se comprometeram. Atémelhor, em algumas formas, que Carlisle. Apesar da proximidade louca a que secolocavam àqueles que deviam ser - e uma vez foram - as suas presas, eles nãocometiam erros. Eu estava demasiado envergonhado para admitir a minha fraqueza àTanya.“Problemas com mulheres?” - Ela perguntou ignorando a minha relutância.Fiz um sorriso obscuro “Não da forma que estás a pensar”Então ela ficou quieta. Ouvi os seus pensamentos enquanto ela os mudava, tentandodecifrar o significado das minhas palavras.“Não estás sequer perto” – Disse-lhe.“Uma pista?” – Perguntou-me.“Por favor, deixa isso, Tanya.”Ela estava quieta de novo, a especular. Ignorei-a e tentei, em vão, admirar as estrelas.Desistiu depois de um momento de silêncio e os seus pensamentos tomaram outradirecção.Se nos deixares, para onde é que vais, Edward? De volta para o Carlisle?“Não me parece” Suspirei.Para onde é que eu iria? Não conseguia imaginar algum lugar do planeta que me pudesseinteressar. Porque não importava para onde fosse, eu nunca ia para algum lugar – iaestar apenas a fugir.Eu odiava isso. Quando é que me tinha tornado tão cobarde?A Tanya pôs o seu braço à volta dos meus ombros. Eu enrijeci mas não me desviei doseu toque. Era apenas um conforto amigável. Maioritariamente.“Eu acho que vais voltar.” - Disse na sua voz com um ligeiro sotaque russo - “Nãoimporta o quê ou quem te está a assombrar. Tu vais enfrentar isso. És desse tipo.”Os seus pensamentos estavam de acordo com as suas palavras. Tentei abraçar a visãode mim que ela carregava na sua cabeça. Aquele que enfrenta as coisas de cabeça
  31. 31. levantada. Eu nunca duvidei da minha coragem, da minha habilidade de enfrentarsituações adversas. Até àquela aula terrível de biologia há pouco tempo atrás.Dei-lhe um beijo na bochecha, voltando-me rapidamente quando ela virou a cara para aminha. Ela sorriu da minha rapidez.“Obrigado, Tanya. Eu precisava de ouvir isso.”Os seus pensamentos tornaram-se petulantes “De nada, acho eu. Gostava que fossesmais razoável sobre as coisas, Edward.”“Desculpa, Tanya. Sabes que és demasiado boa para mim. Eu simplesmente… ainda nãoencontrei o que estou à procura.”“Bom, se fores embora antes que te veja outra vez. Adeus, Edward.”“Adeus, Tanya” - Enquanto dizia as palavras, eu consegui ver isso. Conseguia ver-me asair de lá, de volta para o sítio onde queria estar. - “Obrigada - de novo.”Ela levantou-se num movimento. E depois já tinha saído, desaparecendo entre a neve.Não olhou para trás. A minha rejeição incomodou-a mais do que já tinha incomodadoantes, até nos seus pensamentos. Ela não me queria ver antes de partir.Os meus lábios contorceram-se com desapontamento. Eu não gostava de magoar aTanya, apesar de os seus sentimentos não serem profundos e dificilmente puros. Dequalquer das maneiras não era algo que eu poderia corresponder. Ainda me fazia sentirmenos cavalheiro.Pus o meu queixo em cima dos joelhos e olhei para as estrelas outra vez, apesar deestar repentinamente ansioso para voltar ao meu caminho. Eu sabia que Alice me ia vera voltar para casa e ia contar aos outros. Isso iria fazê-los felizes - principalmenteCarlisle e Esme. Mas olhei para as estrelas mais uma vez, e passar o rosto na minhacabeça. Entre mim e as luzes brilhantes do céu, um par de olhos castanhos confusosestavam voltados para mim, fazendo-me questionar o que esta decisão ia significar paraela.É claro, eu não poderia ter certeza que era isso o que os seus olhos curiososprocuravam. Nem na minha imaginação eu conseguia ouvir os seus pensamentos. Os
  32. 32. olhos de Bella Swan continuavam a questionar-se e uma não obstruída visão das estrelascontinuou a invadir-me. Com um leve suspiro, eu desisti. Se eu corresse, estaria devolta ao carro do Carlisle em menos de uma hora.Numa pressa para ver a minha família - e para voltar a ser aquele Edward que enfrentaas coisas – corri através do campo de neve sem deixar pegadas.“Vai correr tudo bem” - A Alice encorajou. Os seus olhos estavam desfocados e oJasper tinha uma mão debaixo do seu cotovelo, guiando-a enquanto entrávamos norefeitório num grupo fechado. Rosalie e Emmett indicavam o caminho, o Emmettridiculamente parecido com um guarda-costas no meio de território inimigo. A Rosetambém parecia preocupada, porém, bem mais irritada do que protectora.“Claro que vai.” – Expirei pesadamente. O comportamento deles era ridículo. Se eu nãotivesse a certeza de que ia aguentar este momento, tinha ficado em casa.A repentina mudança da nossa normal, mesmo divertida manhã - tinha nevado ontem ànoite, e Emmett e Jasper estavam a tirar vantagem da minha distracção para mebombardearem com bolas de neve; quando se cansasse da minha falta de respostavirar-se-iam um para o outro - para este excesso de vigilância teria sido cómica se nãofosse tão irritante.“Ela ainda não está aqui, mas da maneira que vai entrar… não vai ficar contra o vento senos sentarmos no lugar de sempre.”“Claro que nos vamos sentar no lugar de sempre! Pára com isso Alice. Estás-me a darcabo dos nervos. Vou ficar absolutamente bem.”Ela piscou os olhos uma vez enquanto o Jasper a ajudava a sentar-se e os seus olhosfinalmente focaram-se em mim.
  33. 33. “Hum…” - Disse, soando surpreendida. “Acho que tens razão”“Claro que tenho” - Murmurei.Eu odiava estar no centro da preocupação deles. Senti uma certa solidariedade porJasper ao lembrar-me das inúmeras vezes que nós o superprotegemos. Ele percebeu derelance os meus sentimentos e sorriu.Irritante, não é?Eu assenti.Foi apenas a semana passada que esta grande e monótona sala tinha parecido tãomortalmente depressiva para mim?Pareceria quase como um sonho, um coma, estar aqui?Hoje os meus nervos estavam firmes - cordas de piano, tensas que tocam à mais levepressão. Os meus sentidos estavam super alertas, vigiei cada som, cada suspiro, cadamovimento de ar que tocava a minha pele, cada pensamento. Especialmente ospensamentos. Só havia um sentindo que eu me recusei a usar. Olfacto, é claro.Não respirei.Eu estava à espera de ouvir mais sobre os Cullen nos pensamentos que investiguei.Estive todo o dia à espera, a procurar por cada novo pensamento sobre Bella Swan tercontado a alguém, a tentar ver a direcção que o novo mexerico seguiria. Mas não havianada. Ninguém reparou que havia 5 vampiros no refeitório, exactamente como antes danova rapariga chegar. Muitos humanos aqui ainda estavam a pensar sobre aquelarapariga, os mesmos pensamentos da semana passada. Em vez de achar aquiloinalteravelmente aborrecido, eu estava fascinado.Ela não tinha dito nada a ninguém sobre mim?Era impossível que ela não tivesse reparado no meu obscuro, olhar assassino. Eu vi-areagir a isso. De certeza que a tinha assustado. Eu estava convencido de que ela tinhamencionado isso a alguém, talvez até tivesse exagerado na história um bocado parafazê-la melhor. Atribuindo-me alguns traços ameaçadores.E depois, também me viu a tentar cancelar as nossas aulas partilhadas de biologia. Ela
  34. 34. deve-se ter perguntado, depois de ver a minha expressão, se tinha sido ela a causa.Uma rapariga normal teria perguntado por aí, comparado a sua experiência com osoutros, procurado por algum terreno em comum que pudesse explicar o meucomportamento e então não se sentiria sozinha. Os humanos estão constantementedesesperados por se sentirem normais, por se encaixarem. Por se misturar com osoutros ao seu redor, como mais uma desinteressante no rebanho. Essa necessidade eraparticularmente forte durante os inseguros anos da adolescência. Aquela rapariga nãodevia ser uma excepção àquela regra.Mas ninguém nos tinha dado atenção aqui sentados, na nossa mesa normal. A Bella deviaser excepcionalmente tímida, se não tinha confidenciado a alguém. Talvez tivessefalado com o seu pai, talvez esse fosse o seu melhor relacionamento… Apesar de issosoar improvável, dado o facto de que ela tinha passado tão pouco tempo com eledurante a sua vida. Ela devia ser mais próxima da sua mãe. Mesmo assim, eu deviapassar pelo Chefe Swan numa altura qualquer e ouvir o que ele estava a pensar.“Algo novo?” - O Jasper perguntou.“Nada. Ela… não deve ter dito nada.”Todos ergueram uma sobrancelha com as novidades.“Talvez não sejas tão assustador como achas que és.” - O Emmett disse, a rir-se.“Aposto que eu a teria apavorado mais do que ISSO.”Eu rolei meus olhos até ele.“ A imaginar o porquê…?” – Ele surpreendeu-se com a minha revelação sobre o silêncioúnico da rapariga.“Já falámos disso. Eu não sei.”“Ela vem aí,” - A Alice murmurou. Eu senti o meu corpo a ficar rígido. “Tenta parecerhumano.”“Humano… dizes?” - O Emmett perguntou.Ele levantou o punho direito, girando os dedos para revelar a bola de neve que tinhaguardado na sua palma. É claro que ela não tinha derretido ali. Ele apertou-a num
  35. 35. volumoso bloco de gelo. Tinha os olhos em Jasper, mas eu vi a direcção dos seuspensamentos. E Alice também, claro. Quando ele lançou abruptamente o pedaço de geloaté ela, ela mandou-o para longe com um leve balançar dos dedos. O gelo ricocheteouatravés do corredor do refeitório; muito rápido para os olhos humanos, e fragmentou-se com um agudo barulho na parede de tijolo. O tijolo partiu-se também.As cabeças na esquina do refeitório viraram-se todas para olhar para a pilha de gelo nochão, e viraram-se para procurar sua origem. Não olharam muito mais longe do quealgumas mesas. Ninguém olhou para nós.“Muito humano, Emmett,” - A Rosalie disse de maneira fulminante. “Porque é que nãovais lá e dás um murro através da parede?”“Seria mais impressionante se fosses tu a fazer isso, querida.”Tentei-lhes prestar atenção, mantendo um sorriso fixo na minha cara como seestivesse a fazer parte da brincadeira. Não me permiti olhar na direcção onde elaestava de pé. Mas isso foi tudo que eu ouvi também.Conseguia ouvir a impaciência de Jessica com a rapariga nova, que parecia estardistraída, também, permanecendo imóvel na fila em movimento. Eu vi, nos pensamentosde Jessica, que as bochechas de Bella Swan ficaram mais uma vez rosadas com osangue.Respirei curta e rapidamente, pronto para parar de respirar se qualquer traço do seuodor tocasse no ar ao meu redor.O Mike Newton estava com as duas raparigas. Eu conseguia ouvir as duas vozes: mentale verbal, quando ele perguntou o que é que se passava com a rapariga Swan. Eu nãogostava da maneira como os seus pensamentos estavam envolvidos nela, um brilho dassuas fantasias já construídas divagaram na sua mente enquanto ele via-a a ficarsurpreendida e olhar para cima como se tivesse-se esquecido que ele estava ali.“Nada” - Ouvi Bella a dizer numa voz baixa e clara. Parecia soar como um sino sobretodos os murmúrios do refeitório, mas eu sabia que isso era só porque eu estava a ouvirde forma tão intensa.
  36. 36. “Vou só beber um sumo hoje,” ela continuou enquanto se movia para seguir com a fila.Eu não consegui evitar olhar de relance na sua direcção. Ela estava a olhar para o chão,o sangue lentamente a esvair-se do seu rosto. Olhei rapidamente para longe, paraEmmett, que agora se ria do sorriso aflito no meu rosto.Pareces doente, mano.Arranjei as minhas feições para parecer mais casual e natural.A Jessica estava a perguntar-se sobre a falta de apetite da rapariga. “Não tensfome?”“Na verdade, sinto-me um pouco enjoada.” A sua voz soou mais baixa, mas ainda assim,perfeitamente clara.Por que é que me incomodava, a preocupação protectora que repentinamente surgiu dospensamentos do Newton? O que é que importava que houvesse um timbre possessivoneles? Não me dizia exactamente respeito se Mike Newton se sentiadesnecessariamente ansioso por ela. Talvez essa fosse a maneira que todos lhecorrespondiam. Eu não tinha querido, instintivamente, protegê-la, também?Quer dizer… Antes de ter querido matá-la.Mas a rapariga estava doente?Era difícil de avaliar - ela parecia tão delicada com aquela pele translúcida… e entãoapercebi-me que me estava a preocupar também, assim como aquele rapaz estúpido, eforcei-me a não pensar sobre a saúde dela.Apesar disso, eu não gostava de vigiá-la através dos pensamentos de Mike. Troqueipara a Jessica, olhando cuidadosamente enquanto eles os três escolhiam uma mesa parase sentar. Felizmente, sentaram-se com as companhias habituais de Jessica, uma dasprimeiras mesas da sala. Não na direcção do vento, assim como Alice tinha prometido.A Alice deu-me uma cotovelada. Ela vai olhar para aqui, age como humano.Trinquei os dentes por detrás do meu sorriso.“Acalma-te Edward,” – Disse o Emmett. “Honestamente. Então matas um humano.Dificilmente isso é o fim do mundo”.
  37. 37. “Tu saberias isso.” - Murmurei.O Emmett riu-se. “Tens de aprender a ultrapassar as coisas. Como eu faço. Aeternidade é muito tempo para ficares afundado na culpa.”E então, a Alice lançou uma pequena mão cheia de gelo que tinha escondido, na caraconfiante de Emmett.Ele piscou os olhos, surpreendido, e então sorriu na antecipação.“Tu é que pediste,” – Disse-lhe Emmett, enquanto se inclinava sobre a mesa e sacudia ocabelo coberto de gelo na sua direcção. A neve, que se derretia no ar morno, lançou-sedo seu cabelo num denso banho metade líquido, metade gelo.“Ew!” - A Rose reclamou, enquanto ela e a Alice recuavam da inundação.A Alice riu-se e todos nós acompanhámo-la. Conseguia ver na mente de Alice como elatinha orquestrado este momento perfeito e eu sabia que aquela rapariga - eu tinha queparar de pensar nela daquela maneira, como se ela fosse a única rapariga do mundo -que Bella devia estar a olhar para nós enquanto nos ríamos e brincávamos, parecendofelizes e humanos e de forma tão irreal como uma pintura de Norman Rockwell.A Alice continuou a rir-se, e segurou no seu tabuleiro como um escudo. Aquela rapariga- A Bella ainda devia estar a olhar para nós… A olhar para os Cullens outra vez, - Alguém pensou, e chamou-me à atenção.Olhei automaticamente para o chamamento não intencional, e percebia que tinhareconhecido a voz assim que encontrava o seu destino – tinha-a ouvido tanto hoje.Os meus olhos deslizaram pela Jessica e passaram por ela. Focaram-se no olharpenetrante da rapariga.O que é que ela estava a pensar? A frustração parecia aumentar enquanto o tempopassava, em vez de diminuir. Eu tentei – sem saber ao certo o que estava a fazer, jáque nunca tinha tentado isto antes - sondar com a minha mente o silêncio à volta dela. Aminha audição extra vinha naturalmente para mim, sem pedir; nunca tive que a forçar.Mas agora concentrei-me, e tentei passar por qualquer escudo que houvesse à voltadela.
  38. 38. Nada a não ser silêncio.O que é que ela tem? Pensou Jessica, ecoando a minha própria frustração.“ O Edward Cullen está a olhar-te fixamente,” - Sussurrou ao ouvido da rapariga Swan,com um sorriso falso. Não houve nenhuma insinuação da irritação invejosa no seu tom. AJessica parecia ser experiente no fingimento de amizade.Fiquei à escuta, muito claramente, da resposta da rapariga.“Não parece zangado, pois não?”- Sussurrou também.Então ela tinha notado a minha reacção selvagem a semana passada. É claro que tinha.A pergunta pareceu confundir Jessica. Vi a minha própria cara nos seus pensamentosenquanto ela analisava a minha expressão, mas eu não encontrei o olhar dela. Aindaestava concentrado na rapariga, a tentar ouvir alguma coisa. A minha concentraçãointencional não parecia estar a ajudar em nada.“Não,” - A Jess disse-lhe, e eu sabia que ela estava desejosa de poder dizer que sim -como isso a envenenou por dentro, o meu olhar - apesar de não demonstrar de formaalguma na sua voz: “Devia estar?”“Acho que ele não gosta de mim,” - A rapariga respondeu-lhe num sussurro, deitando acabeça no seu braço como se estivesse subitamente cansada. Tentei entender o seumovimento, mas só pude fazer suposições. Talvez ela estivesse cansada.“Os Cullens não gostam de ninguém,” - A Jess asseguro-a - “Bem, não se mostramdelicados o suficiente para que as pessoas gostem deles.” Não costumavam mostrar. Oseu pensamento foi um rosnar de reclamação. “Mas ele continua a olhar-te fixamente.”“Pára de olhar para ele,” a rapariga disse ansiosamente, e ergueu a cabeça para ter acerteza que Jessica a obedeceu.A Jessica sorriu, mas fez o que ela pediu.A rapariga não desviou o olhar da sua mesa o resto do tempo. Eu pensei - pensei, éclaro, não podia ter a certeza - que isso foi intencional. Parecia que ela queria olharpara mim. O seu corpo deslocava-se ligeiramente na minha direcção, o seu queixocomeçava a virar-se, e então ela repreendia-se, respirava fundo e olhava fixamente
  39. 39. para qualquer pessoa que estivesse a falar.Ignorei a maior parte dos outros pensamentos à volta da rapariga, já que não eram,momentaneamente, sobre ela. O Mike Newton estava a planear uma guerra de neve noparque de estacionamento depois da escola, sem parecer perceber que a neve já tinhamudado para chuva. A agitação dos leves flocos contra o tecto já tinha tornado opadrão comum de gotas de água. Ele não conseguia mesmo ouvir a mudança? Euconseguia ouvir bastante alto.Quando a hora de almoço acabou, eu continuei no meu lugar. Os humanos saíam, e euapanhei-me a tentar distinguir o som dos passos dela do som do resto, como sehouvesse algo de importante ou incomum neles. Que estupidez.A minha família também não se mexeu para ir embora. Esperaram para ver o que eu iafazer.Ia para a aula, sentar-me ao lado da rapariga onde podia sentir a fragrânciaabsurdamente potente do seu sangue e sentir o calor da sua pulsação do ar na minhapele? Era forte o suficiente para isso? Ou já tinha tido o suficiente para um dia?- Eu… acho que está tudo bem. - A Alice disse, hesitante. - A tua mente estápreparada. Eu acho que vais conseguir aguentar por uma hora.Mas a Alice sabia muito bem a rapidez com que uma mente podia mudar.- Porquê arriscar, Edward? - O Jasper perguntou. Embora ele não se quisesse sentirpresunçoso por ser agora eu o fraco, eu conseguia ouvir que ele se sentia, só umbocado. - Vai para casa. Vai com calma.- Qual é o problema? - O Emmett discordou. - Ou ele vai ou não a vai matar. É melhoracabar com isto de uma vez, de uma maneira ou da outra.- Eu ainda não me quero mudar. - A Rosalie reclamou. – Não quero começar tudo denovo. Estamos quase a acabar o liceu, Emmett. Finalmente.Eu estava realmente dividido na decisão. Eu queria, queria muito, encarar isto decabeça, e não fugir para longe outra vez. Mas também não me queria arriscar muito.Tinha sido um erro a semana passada para Jasper ficar tanto tempo sem caçar; será
  40. 40. que isto também era um erro sem sentido?Eu não queria afastar a minha família. Nenhum deles me ia agradecer por isso.Mas eu queria ir para a minha aula de biologia. Apercebi-me que queria ver o rosto delaoutra vez.Foi isso que tomou a decisão. Aquela curiosidade. Estava irritado comigo mesmo porsentir isso. Não tinha prometido que não ia deixar que o silêncio da mente da raparigame deixasse desnecessariamente interessado nela? E mesmo assim, aqui estava eu,ainda mais desnecessariamente interessado.Eu queria saber o que é que ela estava a pensar. A mente dela era fechada mas os seusolhos eram muito abertos. Talvez eu pudesse ver por eles.- Não, Rose, eu acho que vai ficar tudo bem. - A Alice disse. - Está… a firmar-se. Eutenho noventa e três por cento de certeza de que nada de mau vai acontecer se ele forpara a aula. - Ela olhou-me curiosamente, perguntando-se o que tinha mudado nos meuspensamentos que fez a sua visão do futuro muito mais segura.Curiosidade seria o suficiente para manter a Bella Swan viva?O Emmett tinha razão - por que não acabar com isto, de uma maneira ou de outra? Eu iaenfrentar a tentação de cabeça.- Vão para as vossas aulas. - Ordenei, afastando-me da mesa. Virei-me e andei paralonge deles sem olhar para trás. Conseguia ouvir a preocupação de Alice, a censura deJasper, a aprovação de Emmett e a irritação de Rosalie a arrastarem-se às minhascostas.Respirei fundo outra vez à porta da sala de aula, e segurei o ar nos meus pulmõesenquanto entrava no espaço pequeno e quente.Não estava atrasado. O Sr. Banner ainda estava arranjar tudo para a experiência delaboratório de hoje. A rapariga sentou-se na minha - na nossa mesa, a sua cara estavavirada para baixo outra vez, a olhar para o caderno em que desenhava. Examinei osrabiscos quando me aproximei, até estava interessado naquela criação banal da suamente, mas eram coisas sem sentido. Só ondas e mais ondas. Talvez ela não se
  41. 41. estivesse a concentrar no padrão, mas a pensar noutra coisa qualquer?Puxei a minha cadeira com um barulho desnecessário, deixando-a raspar no chão delinóleo; os humanos sentiam-se sempre mais confortáveis quando algum barulhoanunciava a aproximação de qualquer outra pessoa.Eu sabia que ela tinha ouvido o som; não olhou para cima, mas a mão dela falhou numaonda do formato que ela estava a fazer, deixando-o torto.Por que é que ela não olhou para cima? Provavelmente estava assustada. Tinha quegarantir que a ia deixar com uma impressão diferente desta vez. Fazê-la pensar queantes, tinha imaginado coisas.- Olá. - Disse na voz calma que usava quando queria deixar os humanos maisconfortáveis, formando um sorriso educado com os meus lábios que não mostrarianenhum dente.Ela olhou para cima então, os seus olhos atentos, castanhos e assustados - quasedesorientados - e cheios de perguntas silenciosas. Era a mesma expressão que tinhaobstruído a minha visão durante a última semana.Enquanto encarava aqueles olhos castanhos estranhamente intensos, percebi que o ódio- o ódio que eu tinha imaginado que esta rapariga merecia por simplesmente existir -tinha evaporado. Agora sem respirar, sem sentir o seu cheiro, era difícil acreditar quealguém tão vulnerável pudesse justificar ódio.As bochechas dela começaram a corar e ela não disse nada.Mantive meus olhos nos dela, e concentrei-me só nas suas profundezas questionadoras,e tentei ignorar a cor apetitosa. Eu tinha fôlego o suficiente para falar mais um bocadosem inalar.- Chamo-me Edward Cullen. - Disse, embora soubesse que ela sabia isso. Era a maneiramais educada de começar. - Não tive a oportunidade de me apresentar na semanapassada. Deves ser a Bella Swan.Ela pareceu confusa - tinha uma pequena ruga entre os olhos novamente. Levou meiosegundo a mais do que devia para responder.
  42. 42. - Como é que sabes o meu nome? - Perguntou, e sua voz tremeu um bocado.Eu devia tê-la realmente assustado. Isso fez-me sentir culpado; ela era tão indefesa.Ri-me gentilmente - era um som que eu sabia que deixava os humanos mais à vontade.Novamente, fui cuidadoso com meus dentes.- Oh, acho que todos sabem o teu nome. – De certeza que ela tinha percebido que setinha tornado o centro das atenções neste lugar monótono. – Toda a cidade tem estadoa aguardar a tua chegada.Ela fez uma careta como se aquela informação fosse desagradável. Supus que, sendotímida como ela parecia ser, atenção ia parecer uma coisa má para ela. A maioria doshumanos sentia o oposto. Embora não se quisessem destacar numa multidão, ao mesmotempo desejavam um holofote para as suas uniformidades individuais.- Não. - Disse. – O que eu queria perguntar-te era por que motivo me chamaste Bella?- Preferes Isabella? - Perguntei, perplexo pelo facto de não conseguir ver onde é queela queria chegar com aquela pergunta. Não entendi. Obviamente, ela deixou a suapreferência clara muitas vezes naquele primeiro dia. Será que todos os humanos eramincompreensíveis sem um contexto mental como guia?- Não, gosto de Bella. - Respondeu, inclinando a cabeça levemente para um lado. A suaexpressão - se eu estivesse a ler correctamente - estava dividida entre vergonha econfusão. - Mas julgo que o Charlie… quer dizer, o meu pai, deve chamar-me Isabellanas minhas costas. Parece que é por esse nome que todas as pessoas daqui meconhecem. - A sua pele ficou num tom de rosa mais escuro.- Ah. - Disse indevidamente, e desviei rapidamente os meus olhos do seu rosto.Tinha acabado de perceber o que as perguntas dela queriam dizer: eu tinha cometidoum erro, um lapso. Se eu não tivesse ouvido todas as conversas dos outros naqueleprimeiro dia, então eu tinha-a chamado inicialmente pelo nome inteiro, como todos osoutros. Ela tinha notado a diferença.Senti-me desconfortável, ela foi muito rápida a perceber o meu erro. Bastante astuta,especialmente para alguém que deveria estar aterrorizada pela minha proximidade.
  43. 43. Mas eu tinha problemas maiores do que qualquer que fosse a suspeita que ela tivessesobre mim na sua cabeça.Eu estava a ficar sem ar. Se quisesse falar com ela de novo, eu ia ter que respirar.Ia ser difícil evitar falar. Infelizmente para ela, compartilhar esta mesa tornava-a aminha parceira de laboratório, e hoje nós teríamos que trabalhar juntos. Seriaestranho - e incompreensivelmente rude - ignorá-la enquanto fazíamos a experiência.Ia deixá-la mais suspeita, mais assustada…Inclinei-me o mais longe possível dela sem mexer a minha cadeira, virando a minhacabeça para o corredor. Prendi-me, trancando os meus músculos no lugar, e entãoaspirei um rápido peito cheio de ar, respirando apenas pela minha boca.Ah!Era genuinamente doloroso. Mesmo sem sentir o cheiro dela, eu conseguia sentir osabor dela na minha língua. A minha garganta de repente estava em chamas outra vez, anecessidade era tão forte como a daquele primeiro momento em que eu senti o cheirodela.Juntei os meus dentes e tentei recompor-me.- Comecem. - O Sr. Banner ordenou.Pareceu que foi preciso cada pequena partícula de auto-controle que tinha acumuladoem setenta anos de trabalho árduo para virar minha cabeça para a rapariga, que estavaa olhar para a mesa, e sorrir.- Primeiro, as senhoras, parceira? - Ofereci.Ela olhou para minha expressão e seu rosto ficou vazio, os olhos arregalados. Havia algode errado com a minha expressão? Ela estava assustada novamente? Ela não falou.- Ou, se desejares, posso ser eu a começar. - Disse calmamente.- Não. - Ela disse, e rosto dela passou de branco para vermelho outra vez. - Eu começo.Olhei para o equipamento na mesa, o microscópio arranhado, a caixa de slides, em vezde ver o sangue a correr por baixo da pele clara dela. Inspirei outra vez rapidamente,pelos meus dentes, e recuei quando o gosto fez a minha garganta arder.
  44. 44. - Prófase. - Disse depois de um rápido exame. E começou a remover o slide, embora malo tivesse visto.- Importas-te que dê uma espreitadela? - Instintivamente - estupidamente, como se eufosse da espécie dela – estendi-me para parar a mão que removia o slide. Por umsegundo, o calor da sua pele queimou a minha. Foi como uma corrente eléctrica -certamente muito mais quente do que meros 37 graus. O tiro de calor passou pelaminha mão e correu pelo meu braço. Ela puxou rapidamente a sua mão debaixo da minha.- Desculpa. - Murmurei por entre dentes. Como precisava de algum lugar para olhar,segurei no microscópio e olhei brevemente pelo buraco. Ela estava certa.- Prófase. - Concordei.Eu ainda estava demasiado perturbado para olhar para ela. Enquanto respirava tãocalmamente quanto conseguia por entre dentes cerrados, e ignorava a sede furiosa, eutentava-me concentrar naquela simples tarefa, escrevendo a palavra no espaçoadequado na ficha do laboratório, e trocava o primeiro slide pelo próximo.O que é que ela estava a pensar agora? Como será que ela se sentiu, quando toquei nasua mão? A minha pele deve ter parecido gelo - repulsivo. Não me admirava queestivesse tão quieta.Dei uma olhada no slide.- Anáfase. - Disse para mim mesmo enquanto escrevia na segunda linha.-Posso? - Ela perguntou.Olhei para cima, para ela, surpreendido ao ver que ela estava à espera, na expectativa,uma mão meio estendida na direcção do microscópio. Ela não parecia estar com medo.Ela pensava realmente que eu tinha errado na resposta?Não consegui evitar e sorri do seu olhar esperançoso no rosto dela enquanto lhepassava o microscópio.Olhou para o microscópio com uma vontade que desapareceu logo. Os cantos da suaboca desceram rapidamente.- Passamos ao terceiro diapositivo? - Perguntou ela, sem olhar por cima do microscópio,
  45. 45. mas com a mão estendida. Coloquei o slide seguinte na mão dela, sem deixar que a minhapele chegasse perto da dela desta vez. Sentar-me ao lado dela era como sentar-me aolado de uma lâmpada. Conseguia sentir-me a aquecer ligeiramente graças à temperaturamais alta.Ela não olhou para o slide por muito tempo. “Intérfase” disse de forma casual - talveztentando demasiado soar assim - e empurrou o microscópio na minha direcção. Ela nãotocou no papel, mas esperou que eu escrevesse a resposta. Eu verifiquei - ela estavacorrecta de novo.Terminámos desta forma, a dizer uma palavra de cada vez sem nunca nos olharmos nosolhos. Nós éramos os únicos que tinham acabado - os outros da aula estavam a ter maisdificuldade com o laboratório. O Mike Newton parecia estar a ter problemas aconcentrar-se - estava a tentar observar-me a mim e à Bella.Quem me dera que ele tivesse ficado onde quer que tenha ido. Mike pensou, olhando-mecom raiva. Hum, interessante. Não tinha reparado que o rapaz tinha mantido algumsentimento negativo em relação a mim. Isto era um novo acontecimento, tão recentequanto a chegada da nova rapariga. Ainda mais interessante, pensei - para minhaprópria surpresa - que o sentimento era mútuo.Olhei para baixo para a rapariga outra vez, perplexo pelo tamanho da devastação eviolência que, apesar de comum; sem ameaça aparente, ela estava a causar na minhavida.Não era que eu não percebesse o que é que se passava com o Mike. Na realidade ela erabonita…de uma forma diferente. Melhor do que estar bonita, a sua cara estavainteressante. Não bem simétrico. O seu queixo mais pontiagudo fora de sintonia com asmaçãs do rosto largas, fortemente ruborizadas, o claro e escuro contraste da sua pelee o seu cabelo, e depois havia os olhos. A brilhar sobre segredos silenciosos.Olhos que de repente estavam perdidos nos meus.Olhei também para ela, tentando descobrir pelo menos um dos seus segredos.- Puseste lentes de contacto? - Perguntou de repente.
  46. 46. Que pergunta estranha. “Não” Quase sorri com a ideia de tentar melhorar a minhavisão.- Oh - Murmurou. – Pensei que havia algo diferente nos teus olhos.Senti-me gelado outra vez conforme notei que aparentemente eu não era o único atentar descobrir segredos hoje.É claro que havia algo diferente nos meus olhos desde a última vez que ela tinha olhadopara eles. Para me preparar para hoje, para a tentação de hoje, passei o fim-de-semanainteiro a caçar, a matar a minha sede o máximo possível, mais do que o necessário.Afoguei-me no sangue de animais, não que fizesse muita diferença a enfrentar esteabsurdo sabor a flutuar ao redor do ar perto dela. Da última vez que tinha olhado paraela, os meus olhos tinham estado pretos pela sede. Agora, como o meu corpo nadava emsangue, os meus olhos estavam com uma cor dourada. Castanho-claro, âmbar pelo meuexcesso de alimento.Outro lapso. Se eu me tivesse apercebido do que ela quis dizer com a pergunta, podiasimplesmente ter dito que eram lentes.Sentava-me ao lado de humanos há quase dois anos nesta escola, ela foi a primeira atentar examinar-me perto o suficiente para notar a diferença da cor nos meus olhos.Os outros, enquanto admiravam a beleza da minha família, tinham a tendência de olharpara baixo rapidamente quando nós olhávamos de volta. Eles protegiam-se, bloqueavamdetalhes das nossas aparências como uma tentativa forte e instintiva de nos entender.Ignorância era uma bênção para a mente humana.Por que é que tinha de ser esta rapariga a ver tanto?O Sr. Banner aproximou-se da nossa mesa. Eu agradeci o ar puro que ele trouxe consigoantes que se pudesse misturar com o cheiro dela.- Então, Edward, - Disse enquanto olhava para as nossas respostas, - Não achaste quedeveria ser dada à Isabella a oportunidade de utilizar o microscópio?- À Bella – Corrigi-o por puro reflexo. - Na verdade, ela identificou três das cincofases representadas nos diapositivos.
  47. 47. Os pensamentos de Mr. Banner eram cépticos enquanto se virava para ela. – Járealizaste este trabalho laboratorial?Eu assisti, envolvido, quando ela sorriu, parecendo um pouco envergonhada.- Com raiz de cebola, não- Com blástula de coregono? - Perguntou.- Sim.Isso surpreendeu-o. A aula de hoje foi algo que ele foi buscar a um curso maisavançado. Ele assentiu pensativo. - Em Phoenix, estavas integrada num programa decolocação elevada?- Estava.Ela estava avançada, então, inteligente para uma humana. Isso não me surpreendeu.- Bem – Disse o Sr. Banner, franzindo o lábio. – Suponho que o facto de vocês os doisserem parceiros de laboratório seja proveitoso.Ele virou-se e foi embora a murmurar “Para que os outros possam ter uma oportunidadede aprender algo por eles mesmos.”. Eu duvidei que a rapariga conseguisse ouvir aquilo.Voltou a desenhar círculos à volta redor do caderno de apontamentos.Dois lapsos em meia hora. Uma demonstração insatisfatória da minha parte. Apesar deque eu não tinha nenhuma ideia do que a rapariga pensava de mim - Quanto medo é queela tinha, quanto é que ela suspeitava? Eu sabia que precisaria me esforçar mais daquipara a frente para fazê-la mudar a opinião sobre mim. Alguma coisa que a fizesseesquecer do nosso último ameaçador encontro.- Foi pena aquilo da neve, não foi? – Disse, repetindo o assunto que vários outros alunosjá tinham discutido. Um tópico habitual e aborrecido. O tempo - sempre seguro.Ela olhou para mim, a dúvida óbvia no seu olhar - uma reacção anormal para as minhaspalavras muito normais. “Nem por isso” – Disse, surpreendendo-me outra vez.Tentei direccionar a conversa de volta a um caminho mais comum. Ela era de um sítiomuito mais claro, mais quente. A sua pele parecia reflectir isso de alguma maneira,apesar da sua palidez, e o frio devia fazê-la sentir-se desconfortável. O meu toque
  48. 48. gelado com certeza tinha…- O frio não te agrada. - Adivinhei.- Nem o tempo chuvoso. - Assentiu.- Deve ser difícil para ti viver em Forks. - Talvez não devesses ter vindo para cá, euquis acrescentar. Talvez devesses voltar ao lugar de onde vieste.Porém, eu não tinha a certeza se era isso que eu queria. Eu ir-me-ia lembrar sempre docheiro do seu sangue – havia alguma garantia de que eu não a seguiria? Além disso, seela se fosse embora, a sua mente ia ser sempre um mistério. Um constante e insistentequebra-cabeças.- Nem fazes ideia. - Disse em voz baixa e senti-me carrancudo por um momento.As suas respostas nunca eram o que eu esperava que fossem. Isso fez-me querer fazermais perguntas.- Então, porque vieste para cá? - Eu reclamei, percebendo que meu tom de voz eramuito acusatório, não era casual o bastante para a conversa. A pergunta pareceu rude,intrometida.- É… complicado.Ela piscou os seus grandes olhos, não dando maiores informações, e eu quase explodi decuriosidade - a curiosidade queimou-me com uma força tão forte quanto a sede naminha garganta. Na realidade, estava a ficar um bocado mais fácil respirar; a agoniaestava a ficar mais tolerável enquanto me familiarizava.- Acho que consigo acompanhar-te. - Insisti. Talvez a cortesia comum a fizessecontinuar a responder às minhas perguntas desde que fosse rude o suficiente para asperguntar.Ela olhou silenciosamente para as mãos. Isso deixou-me impaciente; eu queria pôr aminha mão debaixo do seu queixo e levantar-lhe a cabeça para que pudesse ler os seusolhos. Mas fazer isso seria uma tolice da minha parte, perigoso, tocar na sua pelenovamente.Levantou os olhos subitamente. Era um alívio poder ver as emoções nos seus olhos outra
  49. 49. vez. Ela falou apressadamente, a apressar-se nas palavras.- A minha mãe casou pela segunda vez.Ah, aquilo era humano o suficiente, fácil de entender. A tristeza passou pelos seusolhos translúcidos e enrugou a testa outra vez.- Não parece ser algo assim tão complexo. - Disse. A minha voz soou gentil sem que eume esforçasse para isso. A sua tristeza fez-me sentir estranhamente impotente, adesejar que houvesse algo ao meu alcance para fazê-la sentir-se melhor. Um estranhoimpulso. - Quando é que isso aconteceu?- No passado mês de Dezembro. - Expirou pesadamente - nada mais do que um suspiro.Sustive a minha respiração quando a sua respiração quente passou no meu rosto.- E tu não gostas dele. - Supus, a pescar por mais informações.- Não, o Phil é uma boa pessoa. - Disse, corrigindo a suposição. Havia a ponta de umsorriso agora nos cantos de seus lábios. – Talvez um pouco jovem de mais, mas bastantesimpático.Ok, isto não se encaixava com o cenário que tinha imaginado na minha cabeça.- Porque não ficaste com eles? - Perguntei, a minha voz um pouco curiosa demais.Parecia que eu estava a ser bisbilhoteiro. E estava a ser, admito.- O Phil viaja muito. Ganha a vida a jogar à bola. - O pequeno sorriso cresceu; aquelaescolha de carreira divertia-a.Eu sorri, também, sem escolher fazê-lo. Não estava a tentar fazê-la sentir-se àvontade. O seu sorriso apenas me fez querer sorrir de volta - fazer parte do segredo.- Já ouvi falar dele? - Passei as fotos de posters de jogadores de basebol na minhacabeça, a perguntar-me qual deles era Phil…- Provavelmente não. Ele não joga bem. - Outro sorriso. – Joga na segunda liga edesloca-se muito.As caras na minha mente desapareceram instantaneamente e fiz uma lista depossibilidades em menos de um segundo. Ao mesmo tempo, estava a imaginar um novocenário.

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