A reescrita do_conto

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A reescrita do_conto

  1. 1. CENTRO DE ENSINO SUPERIOR DE JUIZ DE FORAMARIA CRISTINA GOMES BARBOSA DE LIMA“CHAPEUZINHO VERMELHO”:A REESCRITA DE BRAGUINHA ERUBEM ALVESJuiz de Fora2008
  2. 2. MARIA CRISTINA GOMES BARBOSA DE LIMA“CHAPEUZINHO VERMELHO”:A REESCRITA DE BRAGUINHA ERUBEM ALVESDissertação apresentada ao Centro deEnsino Superior de Juiz de Fora, comorequisito parcial para a conclusão doCurso de Mestrado em Letras, Área deConcentração: Literatura Brasileira.Linha Pesquisa: Literatura de Minas: oregional e o universalOrientador(a): Profª Drª Thereza daConceição Aparecida Domingues .Juiz de Fora2008
  3. 3. Ficha Catalográfica elaborada pela Biblioteca Esdeva – CES/JFBibliotecária: Alessandra C. C. Rother de Souza – CRB6-1944LIMA, Maria Cristina Gomes Barbosa de.Chapeuzinho Vermelho: a reescrita de Braguinha e RubemAlves Lima. [manuscrito] / Maria Cristina Gomes Barbosa de Lima. –Juiz de Fora: Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora, 2008.108 f.Dissertação (Mestrado em Letras) – Centro de Ensino Superiorde Juiz de Fora (MG), Área de concentração: Literatura brasileira.“Orientadora: Thereza Domingues”1. Literatura infantil. 2. Contos de fada – Crítica e interpretação.Perrault, Charles, 1628-1703. 3. Grimm, Jacob, 1785-1863. 4.Grimm, Wilhelm, 1786-1859. I. Centro de Ensino Superior de Juizde Fora. II. Título.CDD – 028.5
  4. 4. Todo conhecimento começa num sonho.O conhecimento nada mais é que aaventura pelo mar desconhecido, embusca da terra sonhada. Mas sonhar écoisa que não se ensina. Brota dasprofundezas da terra. Como mestre, sóposso então lhe dizer uma coisa:Conte-me seus sonhos para quesonhemos juntos.(Rubem Alves)
  5. 5. RESUMOLIMA, Maria Cristina Gomes Barbosa de. Chapeuzinho Vermelho: a reescrita deBraguinha e Rubem Alves. 116 f. Dissertação (Mestrado em Letras). Centro deEnsino Superior de Juiz de Fora, Juiz de Fora, 2008.Os contos de fada eram concebidos, em meados do século XVII, comoentretenimento dos adultos e narrados em reuniões sociais, salas de fiar, noscampos e em outros ambientes onde eles se reuniam. Somente a partir do séculoXIX é que se transformaram em literatura infantil. Muitas das preocupações quepovoam a mente das crianças são projetadas, inconscientemente, nos váriospersonagens da história alimentados por conflitos e vivenciados pelas crianças noseu processo de crescimento. A presente dissertação expõe um estudo da narraçãoficcional do conto “Chapeuzinho Vermelho” escrito por Charles Perrault e adaptadopelos Irmãos Grimm. Concluindo um exame literário das reescritas do conto nanarrativa em versos de Braguinha e na paródia de Rubem Alves. A reflexão sobre ossentimentos de alegria, desejo, medo e solidão da moralidade legitimam umahierarquia capaz de ampliar a formação e a consciência moral e sua dimensão nosdesejos contemplados e mantidos pelos autores.Palavras-chave: Literatura. Contos Infantis. Intertextualidade.
  6. 6. ABSTRACTFairy tales arose in the middle of the XVII century as entertainment for the peopleand were presented in social meetings, in open spaces and around the evening fires.It was only, starting from the XIX century that they became children´s literature. Manyof the problems in the children´s mind that are projected unconsciously in the manyof the characters of the stories and lived out by children in their growth process. Thepresent dissertation aims to study the fairy tale “Little Red Riding Hood”, written byCharles Perrault and re-written of the Grimms brothers. Finally, there are reflectionon the re-writing in Branguinha´s narrative and Rubem Alves´s parody. Theperception of the feeling of happiness, desire, worry and loneliness concerningmorality prescribes a hierarchy, capable to enlarge the formation, the moralconscienceness and this is among the contemplated desires of the authors.Keywords: Literature. Fairy tales. Re-writing. Little Red Riding Hood.
  7. 7. SUMÁRIO1 INTRODUÇÃO ………………………………………………………………… 0622.12.22.3REFLEXÕES SOBRE A LITERATURA INFANTIL .................................LITERATURA INFANTIL E SEUS CAMINHOS ........................................DIMENSÃO HISTÓRICA DA LITERATURA INFANTIL ............................DIMENSÃO EDUCATIVA DA LITERATURA INFANTIL ...........................1214222833.13.23.3CAPEUZINHO VERMELHO EM PERRAULT E GRIMM .........................A INTERTEXTUALIDADE NO CONTO ....................................................A NARRATIVA DE CHARLES PERRAULT ..............................................A NARRATIVA DOS IRMÃOS GRIMM .....................................................3541515544.14.24.3CHAPEUZINHO VERMELHO EM BRAGUINHA E RUBEM ALVES .....A PARÁFRASE DE BRAGUINHA (JOÃO DE BARRO) ...........................A REESCRITA DE RUBEM ALVES .........................................................O VALOR DE UMA BOA HISTÓRIA ........................................................586571795 CONSIDERAÇÕES FINAIS...................................................................... 84REFERÊNCIAS .................................................................................................ANEXOS ...........................................................................................................8993
  8. 8. 1 INTRODUÇÃOOs contos de fadas proporcionam grandes benefícios na formação dapersonalidade porque é através das narrativas que as crianças conseguem assimilaros conteúdos da história e compreender que é possível vencer os obstáculos esaírem vitoriosas, pois o herói sempre sai vencedor no final das narrativas. Duranteo desdobramento da trama, a criança se identifica com as personagens e passa avivenciar os episódios narrados de forma clara e simples. Os conflitos internos,inerentes a todo ser humano, como o impacto da morte, a chegada doenvelhecimento, a luta entre o bem e o mal, a inveja e tantos outros valoresabordados nos contos infantis são expostos dentro de um desfecho que oferecefinais para sempre felizes.A elaboração de caminhos para lidar com os temores e anseios que habitamo imaginário infantil é formada dentro da estrutura interna e simbólica representadapelos medos, pelos desejos, pelos amores e pelos ódios que a criança apresentanos seus sentimentos abafados dentro de sua imaturidade. Este aprendizado écaptado pela criança utilizando-se de um simbolismo intuitivo e tornando-se muitomais abrangente do que se possa acreditar. Cada vez mais surgem evidências deque os sistemas de crenças produzem efeito decisivo sobre o funcionamento do serhumano, tanto psíquico quanto fisiológico, de modo que crenças alicerçadas noespírito de esperança e de vitória são de grande ajuda na superação de dificuldades,mesmo na vida adulta.As mensagens realçadas na vitória do bem sobre o mal transportam umaverdade que independe do tempo. A criança excede as narrativas antigas para a suarealidade atual e reelabora seus conteúdos internos através da repetição da história.É por isso que é comum a criança pedir para ouvir ou ler a mesma história inúmerasvezes. Trata-se da referência que ela está usando para compreender-se, paraelaborar suas angústias ainda não resolvidas. A repetição ajuda o leitor/ouvinte aconfirmar o conteúdo que está sendo processado para que o conflito interno sejasolucionado.Outra função importante dos contos de fadas é a de resgatar o princípio davida, ou seja, a criança precisa cumprir cada etapa do seu desenvolvimento paraque sua estrutura psíquica possa crescer equilibrada. A vivência emocional
  9. 9. adquirida através dos contos de fada ajuda a regular as fases de amadurecimentodo ser humano, em oposição à ansiedade e ao acúmulo de demandas, decobranças e de pressões de toda sorte que a sociedade moderna exerce sobre osindivíduos, mesmo sobre as crianças.Os contos de fadas transmitem às crianças a mensagem de que na vida éinevitável termos de nos deparar com dificuldades, mas que se lutarmos comfirmeza, será possível vencer os obstáculos e alcançar a vitória. Ao ouvir umahistória, o imaginário da criança é acionado, e as emoções provocadas pelos medos,frustrações, amores, desejos, sentimentos atingem diretamente o seu interior. Daíporque, enquanto ouvem as histórias, as crianças se emocionam com talintensidade, que apresentam calafrios pelo corpo, sustos e passam a sonhar comlindos príncipes ou princesas.Em seus primórdios, a Literatura foi essencialmente fruto da imaginação, nosquais os elementos sobrenaturais estavam integrados às narrativas e eram tratadoscom naturalidade. Nessa época, o conhecimento científico dos fenômenos da vidanatural ou humana era inacessível à humanidade. O pensamento mágico dominavaa lógica e revelava a preocupação da sociedade com as relações humanas ao níveldo social que correspondia às fábulas. A literatura arcaica acabou se transformandoem Literatura Infantil, ou seja, a natureza mágica da narrativa atraiuespontaneamente as crianças.Dentre os contos de fadas, o conto “Chapeuzinho Vermelho”, sempre foi econtinua sendo uma das narrativas mais importantes na literatura infantil. Atravésdo prazer e das emoções que a história proporciona o simbolismo implícito na tramae a interação das personagens na narrativa, a criança passa a agirinconscientemente, atuando pouco a pouco e ajudando a resolver os conflitosinternos. É nesse sentido que a Literatura Infantil e, principalmente, os contos defadas podem ser decisivos para a formação da personalidade da criança em relaçãoa si mesma e ao mundo à sua volta.A proposição exposta sobre o conto “Chapeuzinho Vermelho” se fundamentadentro de três momentos específicos. Primeiramente, será levantado um estudoreflexivo sobre a Literatura Infantil salientando os caminhos percorridos até os diasatuais e sua dimensão histórica e educativa. Partindo desta abordagemcontemplativa sobre os rumos tomados pela Literatura Infantil, será feita uma análiseintertextual do conto “Chapeuzinho Vermelho” e as narrativas de Charles Perrault e
  10. 10. dos Irmãos Grimm. Este exame científico será finalizado com o aprofundamentoinvestigativo da paráfrase escrita por João de Barro (Braguinha) e da reescrita deRubem Alves sobre o conto. Este viés contempla a linha de pesquisa Literatura deMinas: o regional e o universal já que Rubem Alves, apesar de renome nacional, énatural da cidade de Boa Esperança, localizada no sul do Estado de Minas Gerais.Os valores apresentados no conto infantil “Chapeuzinho Vermelho” emantigas edições têm uma força estética que exerce domínio emocional raramenteencontrado nas obras contemporâneas. Perrault e os Irmãos Grimm procuraramreferir os comportamentos a serem seguidos inspirando-se em posturasmoderadoras da conduta infantil.Braguinha invadiu a narrativa ficcional do conto “Chapeuzinho Vermelho” einseriu um texto com rimas e cantigas folclóricas, levando o leitor a aventurar-se pelodesconhecido. Os anseios e os temores da sociedade moderna fizeram com queRubem Alves aprofundasse a temática da perda sob outro prisma, inserindo novasconsiderações que possibilitam discutir outros valores. O significado mais profundodos contos infantis está em trazer à tona o medo mais comum da infância, ou seja, omedo do desamparo.O estudo do conto “Chapeuzinho Vermelho” se funda nos princípios opostosentre o certo e o errado que ajudam a criança a compreender certos valores básicosda conduta humana ou do convívio social. O princípio que afirma a existência dasduas vertentes, o certo e o errado, é transmitido através de uma linguagemsimbólica que procura formar a consciência ética do leitor/ouvinte. O que as criançasencontram nos contos de fadas são, na verdade, categorias de valor que sãoperenes. O que muda é apenas o conteúdo rotulado entre o que é bom ou o que émau. Os significados dos símbolos no conto estão ligados aos eternos dilemas que ohomem enfrenta ao longo de seu amadurecimento emocional.Os franceses foram os criadores, no século XVII, do termo conte de fée, ouconto de fadas, posteriormente os ingleses renovaram com o fairy tale.Anteriormente, os contos eram passados apenas pela tradição oral, sobretudo noCentro da Europa, e iam buscar, de forma muito dispersa, elementos ligados aomito, às grandes tradições religiosas, aos símbolos e arquétipos de vários tipos, àliteratura antiga, à medieval. Os contos foram evoluindo dentro de uma tendênciaque procurou unificar as idéias e os princípios diversificados que foram sendo
  11. 11. reconstruídos e modernizados dentro de novas versões das narrativas do conto“Chapeuzinho Vermelho”.A partir do século XVII, emergiu uma tradição erudita do conto de fadas, queganhou força com as adapatações escritas por Charles Perrault , recolhidas a partirda tradição oral. O conto “Chapeuzinho Vermelho” moderno, tal como é conhecido,foi ostentado nessa tradição, promovida por pessoas como Perrault e os IrmãosGrimm. “Chapeuzinho Vermelho” passou a ser uma forma de cultura elaborada edeixou de ser uma mera literatura oral cultivada e transmitida sobretudo pelaspopulações rurais, tornando-se uma cultura de salão.A história da bela menina que vai levar algumas guloseimas para a avó dizrespeito à confrontação de uma adolescente com a sexualidade adulta. O significadooculto expresso no conto aparece através de seu simbolismo baseado em aspectosque não existiam nas versões conhecidas dos camponeses, nos séculos XVII eXVIII. Assim, a cor vermelha do capuz de “Chapeuzinho Vermelho” é representadapelo símbolo da menstruação e, a advertência da mãe para que a menina não sedesviasse do caminho, como o momento em que surge a ruptura entre o bem e omal. As pedras colocadas na barriga do lobo, depois que o caçador retira a menina esua avó, readaptado pelos Irmãos Grimm, representam a punição por infringir umtabu sexual.O pressuposto de que todo homem interage independentemente com osoutros indivíduos a partir da visão que o outro compreende do mundo e do olhardiferenciado que leitor/ouvinte irá se sensibilizar em contato com a narrativa apontapara uma análise crítica do conto levando a indagações e estudos que refletem omodo de agir e pensar da sociedade em cada época e lugar.O encantamento no conto “Chapeuzinho Vermelho” está relacionado com aimaginação e a criatividade. Não basta imaginar que uma coisa pode ser diferente, énecessário que se tenha a convicção de que algo pode ser mudado nosacontecimentos da narrativa. O conto apresenta uma dimensão ética, umentendimento que impede que o leitor se converta dentro de valores de condutasnão aceitos pela sociedade e preserve sua integridade moral. E isso é fundamentalpara que se mantenha uma cidadania sadia, ou seja, o conto “ChapeuzinhoVermelho” tem a capacidade de dizer que as coisas podem ser diferentes e que nemsempre são o que parecem.
  12. 12. A intertextualidade do conto está ligada a visão de mundo, que deve sercompartilhado. A elaboração e adaptações da narrativa pressupõem um universocultural muito amplo e complexo, pois implicam na identificação e noreconhecimento das diversas versões da obra ou trechos mais ou menosconhecidos, além de exigir a capacidade de interpretação e de ajustamento do contoàs condições e às necessidades da sociedade de determinada época.A manutenção das características gerais do conto “Chapeuzinho Vermelho”depende da experiência de vida, das vivências, das releituras e modernizações danarrativa. A transformação e readaptação da história levam a refletir a respeito daindividualidade e da coletividade em termos de criação. A paráfrase é uma imitação,na maioria das vezes ironica, de uma produção literária, em outras palavras é umaimitação que provoca risos. A reprodução do conto “Chapeuzinho Vermelho” surgiua partir de uma nova interpretação, de uma nova recriação da obra já existente e,consagrada. Seu objetivo é modificar a obra original dando um novo contexto, ouseja, passando diferentes versões para um lado mais despojado, e aproveitando osucesso da obra original para passar um pouco de alegria.A Literatura Infantil, aparentemente ingênua, é uma manifestação que seordena em múltiplas relações com a sociedade, com os sistemas de pensamento,com a realidade sócio-econômica. Como toda arte, em suas diferentesmanifestações, é produzida por meios que são históricos. Antes da escrita, a arte dapalavra era utilizada na tradição oral, nas cantigas folclóricas; com a invenção daescrita, e depois com o advento dos meios técnicos de impressão, ganhou-sevisualidade com os desenhos e figuras esboçadas nas páginas, acentuando acriação de sentido com as imagens para as narrativas.Atualmente, a Literatura Infantil tangencia convergências e fronteiras dainovação do século XXI penetrando nas questões de ordem éticas, estéticas edesenvolvendo tecnologias e efeitos de linguagens que admiram até quem nuncaouviu ou sabe sobre o conto, não como entidades isoladas, mas como a própriafigura real e imaginária da contemporaneidade. As reflexões sobre leitura e aspectosda linguagem da Literatura sob a abordagem dos signos e de suas significaçõesbusca relacionar e confrontar linguagens verbais e não verbais, reconhecendo nosdiálogos que a literatura estabelece com outras artes e outras formas derepresentação, as linguagens por meio do que o contexto histórico se exprime.Dentro desta perspectiva, vislumbra-se o processo ininterrupto de transformações da
  13. 13. literatura em constantes tentativas de se rearticular a realidade mutante dalinguagem.Na verdade, os contos populares são documentos históricos. Surgiram aolongo de muitos séculos e sofreram diferentes transformações, em diferentestradições culturais. Longe de expressarem as imutáveis operações do ser interno dohomem, sugerem que as próprias mentalidades mudaram. Os contos de fadasajudam a avaliar a distância entre universo mental moderno e o dos povosancestrais. Quando uma criança lê ou escuta a primitiva versão camponesa do"Chapeuzinho Vermelho", é capaz de voltar à origem do conto, com suasvestimentas, seu enredo e seu cenário baseado nas análises simbólicas e nosdetalhes da narrativa, ou seja, capuzes vermelhos e caçadores.
  14. 14. 2 REFLEXÕES SOBRE A LITERATURA INFANTILDesde a pré-história o homem procurou estabelecer algum tipo decomunicação evidenciando sua presença no mundo através da escrita em pedras,tabuinhas de argila, peles de animais, entre tantos outros tipos de materiais tiradosda natureza demarcados através de riscos ou garatujas, na tentativa de revelar suapassagem no tempo. Os desenhos traçados nas cavernas levaram o homem aconquistar sua hegemonia na forma de transmitir e receber mensagens através dalinguagem falada e/ou escrita.O ato de ouvir e contar as histórias acompanha o ser humano de geração emgeração, ao longo de sua existência. A literatura se manifesta conscientementeatravés da palavra, do pensamento, da idéia, da imaginação. E é a palavra oelemento indispensável no universo imaginário do ser humano, pois ela exprime efaz reunir as excentricidades de cada momento.Nelly Novaes Coelho em sua obra, Literatura Infantil: teoria, análise edidática ressalta que a “Literatura é arte e, como tal, as relações de aprendizagem evivência, que se estabelecem entre ela e o indivíduo, são fundamentais para queeste alcance sua formação integral de conscientização do eu com o outro e com omundo” (2000, p.10). O pensamento, as idéias e a imaginação, ou seja, a palavra éa base de todo discurso literário. Sua eficácia como instrumento de formaçãohumana está estritamente relacionada à leitura e ao domínio da mesma pelohomem.Os trabalhos literários documentam um papel representativo nos contosinfantis e na formação da personalidade. Muitas preocupações que povoam a mentedas crianças são projetadas, inconscientemente, nos vários personagens dashistórias alimentados por conflitos internos e vivenciados pelas crianças no seuprocesso de crescimento.As narrativas procuram reunir as necessidades básicas da humanidade: aexperiência dos adultos, a busca contínua pelo desconhecido, o prazer de aventurar-se e seus efeitos como as alegrias, os desconfortos, as revelações e as tristezas,visto que parte do poder das histórias deriva não só das palavras como dasrepresentações morais que as acompanham, tornando-se parte do pensamento edas expressões cotidianas. Os contos infantis transpõem desejos e almejam uma
  15. 15. orientação moral clara e positiva paralela à mensagem passada e compreendidapelo leitor.Enquanto narrativa destinada ao público, os contos de fadas surgiram naEuropa durante a Idade Média originários de relatos orais que ficaram registrados namemória dos povos e foram transmitidos através dos tempos. Muitos contos revelamafinidade com ritos dos povos primitivos, onde para alcançar outra etapa da vida,submetia-se o ser humano a inúmeras provas que comprovariam ou não o seuamadurecimento. Os heróis das histórias eram apresentados sempre em situaçãoinferior no meio em que viviam e somente com o auxílio de “elementos mágicos”conseguiam superar as dificuldades.A sustentação do conto está definida dentro de virtudes, desejos, apetites easpirações criadas a partir das identidades que permitem produzir finais parasempre felizes. Onde cada texto torna um instrumento facilitador que conduz o leitora enfrentar seus medos e desembaraçar-se de sentimentos hostis e desejosdanosos. Gilberto Mendonça Teles assevera na Retórica do Silêncio I que: “deve-se levar em conta que a linguagem literária não passa, portanto, de uma irrealidadeque se vale de uma outra irrealidade que a linguagem comum” (1989, p. 28).A Literatura Infantil é o princípio mágico e inaugural que se revela em cadapersonagem, cada palavra e cada sentir. Seu objetivo não é só expressar uma redede idéias através de palavras e imagens, mas levar o ser humano a pensar, adistinguir e a se posicionar moralmente diante de modelos de comportamentoconsiderados vitais. Valdecir Conte argumenta sobre a Literatura infanto-juvenilque, “[...] é uma forma particular de conhecimento da realidade, é uma certa maneirade ver o real [...] pode, ser uma excelente porta de entrada para a reflexão sobreaspectos importantes do comportamento humano e da vida em sociedade [...]”(2002, p. 40).As narrativas infantis procuram convencer o leitor através de seusargumentos e palavras. A exposição dos fatos, dos acontecimentos ou dasparticularidades relativas a um determinado assunto é uma verdadeira descrição. Aliteratura é uma fonte capaz de traçar pistas e imagens do mundo, dando acesso àsformas de ver a realidade de um outro tempo, fornecendo pistas daquilo que poderiater sido ou acontecido no passado.
  16. 16. 2.1 LITERATURA INFANTIL E SEUS CAMINHOSA Literatura Infantil é um agente formador e conscientizador de mundo,capaz de atingir duas direções do conhecimento: a da literatura propriamente ditacom o leitor atento e a da formação de um ser competente e sintonizado com astransformações do momento presente. O ser humano é um aprendiz de cultura e asnarrativas infantis são meras representações de mundo, de homem e de vida,através da palavra. A evolução da humanidade se faz ao nível da mente, daconsciência de mundo que cada um vai assimilando desde a infância.Assim, tanto a literatura oral como a escrita se tornam agentes capazes deexpressar as culturas, as heranças e os valores herdados e renovados nasociedade. E o livro passa a ser o responsável pela formação de consciência demundo das crianças, pois a condição básica do ser humano é observar ecompreender o espaço em que vive e os seres e as coisas com que convive.Por isso, a Literatura é um fenômeno da linguagem, resultante da existênciasocial e cultural e está diretamente interligada com a história e a herança cultural. Astransformações literárias ocorridas no momento atual foram semeadas dentro detemáticas tradicionais e consolidadas pelo Romantismo, na busca de reforçar o idealde indivíduo representado por heróis ou personagens que ofereciam qualidades evirtudes consagradas pela sociedade, como padrões de comportamentos quedeveriam ser imitados.Os estudos da Literatura Infantil estimulam o exercício da mente, a percepçãodo real e suas múltiplas significações, a consciência do eu em relação ao outro, aleitura de mundo nos vários níveis e a dinamização e conhecimento da língua e daexpressão verbal. Para Nelly Novaes Coelho (2000), a criança é um ser educável, oser humano é um aprendiz da cultura.Toda história apresentada leva o leitor a um diálogo constante com o texto,conscientizando-o gradativamente na formação interior de sua responsabilidademoral defrontada no seu convívio social. Coelho afirma em sua obra LiteraturaInfantil que: “conhecer a Literatura que cada época destinou às crianças é conheceros ideais e valores ou desvalores cada sociedade se fundamentou” (2000, p. 27). Aleitura é assimilada dentro da escrita criativa e sintonizada com as transformações
  17. 17. do momento presente, reorganizando o próprio conhecimento ou consciência demundo.A literatura contemporânea tem por objetivo alterar ou transformar aconsciência crítica do leitor. Até pouco tempo, a Literatura Infantil estava habituada acriar belas obras literárias destinadas apenas à mera distração e prazer das criançasem ler, folhear ou ouvir agradáveis histórias. As criações literárias eram reduzidasem seu valor intrínseco, mas conseguiam atingir seu objetivo, que era atrair opequeno leitor e levá-lo a participar das diferentes experiências de vida no campo domaravilhoso.A arte do autor/escritor em inventar a matéria literária ou manipular osprocessos estruturais resultou no encadeamento, na seqüência narrativa, nodesenvolvimento e no ritmo de sua ação apresentadas através de fragmentosvividos dentro da visão de mundo. Na ficção contemporânea surgiu uma formahíbrida de linguagem, resultante da visão realista que procurou reproduzir umaexperiência vivida no mundo real como sendo simbólica.Neste realismo mágico, segundo Nelly Novaes Coelho, “o cotidiano maiscomum passa a conviver com um elemento estranho ou maravilhoso que ali é vistocomo absolutamente natural” (2000, p. 82). A linguagem simbólica pode serexpressa através da utilização de animais que representam idéia, intenções ou pelautilização de seres inanimados presentes também no reino vegetal, que passam aadquirir vida e falam ou agem como humanos. A representação de uma situaçãovivida pelo ser humano pode ser analogicamente transposta dentro de um todonarrativo e ideológico.Em seu guia para desenvolver habilidades e obter sucesso na apresentaçãode uma história Vânia Dohme declara que:as histórias podem ir além do encantamento, quando escolhidas, estudadase preparadas adequadamente, podem ter a função de educar. Elasencerram lições de vida, dando contexto a situações, sentimentos e valoresque, quando isolados, são difíceis de serem compreendidas pelas crianças.Estas narrações, tão saborosamente recebidas, desencadeiam processosmentais que levarão a formação de conceitos capazes de nortear odesenvolvimento em valores éticos e voltados para a formação da auto-estima e a cooperação social (2000, p. 5).
  18. 18. A Literatura Infantil é uma representação artística que se apropria dosimbólico utilizando-se de caminhos que exaltem os anseios, as angústias, osconflitos e as buscas do homem. “Faz, então, emergir uma liberdade de espírito,algo como deixar acontecer as coisas do mundo, sem o compromisso da culpa. Mas,está para além da catarse e da sublimação, porque é capaz de tornar-se a própriavida” (CAVALCANTI, 2002, p.12).As disposições das narrativas literárias destinadas às crianças estão noâmago da linguagem poética, no jogo de palavras, no ritmo, na sonoridade que jácompõe e cria uma realidade própria. Elas são mais do que uma simples estruturadiscursiva, extrapolam o universo concreto, aprofundando-se nas construções doimaginário de cada leitor. A relação do leitor com o mundo estabelece-se a partir daentrada do simbólico, levando-o a refletir a respeito de um determinado assunto eressaltando a importância do imaginário. A Literatura Infantil se faz da palavra paraalém dela. A palavra é apenas o fio condutor que permite traçar caminhos deintegração entre o eu, o outro e o mundo.Joana Cavalcanti em Caminhos da literatura infantil e juvenil asseveraque:as narrativas sempre se constituíram relato essencial da capacidadehumana de fabular, fantasiar e criar. Desde sempre o homem narrou. Não édifícil imaginar a reação dos primeiros seres humanos ao depararem ouniverso desconhecido, estranho e diferente deles mesmos e por issoameaçador, ou mesmo o olhar de contemplação mergulhado na luz do solou nas sombras do luar, ou mesmo o pensamento, ainda não totalmenteelaborado pelo ser racional que se erguia nos tempos primevos (2002, p.19).As histórias infantis foram inicialmente destinadas aos adultos e, com otempo, se transformaram em literatura para pequenos. Nasceram no meio popular ese expandiram em diversas adaptações. Todas tinham a intenção de passardeterminados valores ou padrões que deveriam ser respeitados e incorporados pelasociedade. As fábulas, os mitos e as lendas folclóricas sempre agradam a todos,porque possuem uma linguagem metafórica facilmente percebida e assimilada,podendo atualizar-se continuamente. Os valores são repassados dentro de umpensamento mágico e comunicável.
  19. 19. A mentalidade popular e a infantil identificam-se entre si através de umaconsciência primária na apreensão do eu interior ou da realidade exterior, ou seja, osentimento do eu predomina sobre a percepção do outro. Em conseqüência, asrelações entre ambos são estabelecidas através da sensibilidade, dos sentidos edas emoções.Tanto o homem rudimentar quanto a criança possuem uma consciência a-histórica da realidade em que estão inseridos, pois compreendem apenas opresente. A linguagem poética empregada nos primórdios utilizava padrões depensamento ou de conduta abstratos e difíceis de serem compreendidos ouassimilados, fazendo surgir uma linguagem literária que procurou comparar asimagens, os símbolos e as representações.As grandes obras literárias existentes levam a Literatura Infantil a abrangerartística e pedagogicamente o leitor, visto que provocam emoções, dão prazer oudivertem e, acima de tudo, modificam a consciência de mundo. A Literaturadestinada às crianças pode transformar-se em uma aventura espiritual capaz demodificar toda obra e os valores a serem repassados por ela. Ou, pode transformar-se em uma literatura meramente informativa, preservando o leitor e servindo apenascomo uma atividade mental descompromissada, dentro de um sistema de regrasque busca entreter o indivíduo.O importante é que todo discurso literário procure transmitir valores paraserem incorporados como verdades pelas novas gerações. O ideal é: divertir, darprazer e emocionar, mas também ensinar modos de ver o mundo, de viver, depensar, de reagir, de criar. Por meio das histórias o leitor se defronta com situaçõesfictícias e percebe as várias alternativas oferecidas, tornando-se capaz de anteveras conseqüências que determinada situação acarretará, montando seu própriocódigo moral a partir de sua vivência.A formação do caráter do leitor agita o raciocínio infantil, interrogando-o efazendo-o se posicionar. O exercício da imaginação ajuda na formação dapersonalidade, na medida em que possibilita fazer conjecturas, combinações evisualizações. A criatividade está diretamente ligada à quantidade de referênciasque cada ser humano possui. Por isso, é preciso ter olhos para ver a realidade dasociedade que a cerca, identificando as atitudes corretas e reprimindo as danosas.A busca da identidade e da conscientização do homem dentro de situaçõesfantasiosas nas narrativas, nos sons, nos ritmos e nos pensamentos dos contos
  20. 20. infantis expressa uma busca de caracteres propriamente solidários. Há, também,uma exposição por uma nova visão de mundo que caminha na busca daautodescoberta do “eu” em relação ao “outro”. Este resgate das origens éreinventado através do lastro popular arcaico e de um apelo visual gráficorepresentado verbalmente e fundamentado dentro de uma estrutura organizada deidéias e de imagens.Os contos infantis são uma fonte incomparável de aventura e suspense, queexcitam a imaginação. É um erro compará-los a mera transmissão de lições de vidasobre o comportamento desejável para alcançar o sucesso na vida por meio deconselhos, pois “[...] há dramas sérios que refletem eventos que acontecem nomundo interior da criança” (CASHDAN, 2000, p. 25).As narrativas ajudam a criança a lidar com os conflitos internos, travandolutas com o próprio “eu”, durante o processo de crescimento. Elas são as maiseficazes e oferecem novos ‘insights’ em relação a velhos conflitos. Na obra Os 7pecados capitais nos contos de fadas, Sheldon Cashdan declara que:os contos de fadas são, essencialmente, dramas maternos nos quais as [...]figuras femininas funcionam como derivativos fantasiosos das diversões daprimeira infância. Ao transformar as divisões do eu em uma aventura quecoloca as forças do bem contra as forças do mal, os contos de fada nãoapenas ajudam as crianças a lidar com as forças negativas presentes no eu,mas também homenageiam o papel fundamental que as mães têm nagênese do próprio eu (2000, p. 45).As histórias infantis são sobretudo narrativas sobre as mulheres e sobre oimportante papel que estas desempenham na emergente percepção do eu nacriança. Ao entrarmos no século XXI, nossas idéias sobre contos de fadas e seusignificado para as crianças tendem a se modificar. Os contos de fadas sempreforam produtos da cultura e da era nas quais estão inseridos.Ao invés de apresentar mulheres passivas e/ou submissas que figuram comopersonagem principal da obra literária, os contos de fadas adotam uma tendênciafeminista e têm heroínas corajosas, estruturadas e espirituosas como em Rapunzel,A Bela e a Fera e Branca de Neve e os Sete Anões. A verdadeira magia doscontos está em conseguir extrair prazer da dor, dando vida a figuras imaginárias
  21. 21. como “lobo mau” e aflorando o medo, mas por fim sempre proporcionando o prazerde vê-lo vencido.O conto folclórico foi sendo suavizado com o passar dos anos, visto que ashistórias não tinham um final feliz. Na realidade toda fábula possui um valor moralque procura alertar as crianças sobre “quem transgride as regras se expõe aoperigo, é punido e fim de história” (CORSO; CORSO, 2006, p. 51). A construção dareescrita dos contos de fadas apresenta imagens de mulheres simples, claras eunidimensionais, de acordo com Anete Abramowicz (1998) retratando mulheresobedientes e submissas à ordem de “homem”, tornando-se consagradas dentro dequalidades exemplares, como: bondade, submissão, obediência, paciência,aceitação de uma dada situação, compaixão, generosidade e graça.Maria Tatar descreve, na sua obra sobre os Contos de fada (2004), que osenredos procuram transmitir além de uma moralidade ingênua que recompensa obom comportamento, uma trama que leva o leitor a refletir sobre seus atos. Asreescritas dos contos infantis não manifestam uma moralidade defeituosa, aocontrário, deixam claro nas lições morais que são extraídas das histórias que porvezes há uma grande dificuldade de encontrar uma mensagem compatível com afilosofia da virtude premiada e da maldade punida.A boa literatura não deve ter a pretensão de oferecer modelos decomportamento e nem receitas mágicas de felicidade; ao contrário, deve provocar oleitor, estimulá-lo a tomar posição diante de certas questões consideradas vitais. Oconto infantil registra um momento significativo na vida das personagens. A visão demundo apresentada na obra corresponde a um fragmento de vida que permite aoleitor revelar apenas uma parte do todo ao qual aquele fragmento pertence.As narrativas infantis ajudam a criança a suportar os reveses da vida e a tertranqüilidade para esperar e aceitar as características e limitações do outro, levando-as a perceber e a conviver com as variações de comportamento de cada um e aestar dispostas a ajudar e a prestar, voluntariamente, favores ao próximo.O conto permite à criança entender o seu interior e acreditar que astransformações são possíveis e desejáveis. Ela não tem consciência de que éperigoso ceder a desejos que considera inofensivos, e por isso tem que aprenderque o perigo é “ensinado a duras custas”. Os contos de fadas têm o poder detransferir para um mundo sugestivo e cheio de encantamento, no qual tudo vibra
  22. 22. tudo tem vozes: os homens, os animais, as plantas, tudo numa atmosfera serena,simples e familiar.Parte do poder das histórias deriva não só das palavras, como das imagensque as acompanham, tornando-se parte do pensamento e das expressõescotidianas. Os contos infantis conduzem os desejos e os orientam dentro de umavisão moral clara e positiva paralela à mensagem passada e compreendida peloleitor. O material arraigado no conto o protege do seu contexto histórico e revela aspeculiaridades textuais e as reviravoltas ocorridas ao longo do tempo em lugarescom culturas diferentes.Ao ingressar no mundo da fantasia e da imaginação, o espaço dos conflitos édominado e banido do imaginário infantil. A verdadeira magia do conto infantil estáem conseguir extrair prazer da dor: dando vida a figuras imaginárias e aflorando omedo, mas por fim sempre proporcionando o prazer de vê-lo vencido. O enfoqueapresentado nas primeiras versões das histórias propaga as preocupações eambições que moldavam as angústias e os desejos dos adultos daquela época.A acolhida das narrativas encerra lições de vida dá contexto a situaçõessentimentais e valores que, quando isolados, são difíceis de serem compreendidospelas crianças. Esta linguagem poética desencadeia processos mentais que levam àformação de conceitos capazes de nortear o desenvolvimento de valores éticosvoltados para a fixação da auto-estima e da cooperação social.A análise apresentada por Nelly Novaes Coelho (2000) sobre a LiteraturaInfantil salienta que o discurso narrativo encontrado nos contos infantis passa deum foco central e vai se encadeando em seqüências de efabulação, cuja ação écaptada por personagens e determinada dentro de um espaço e tempo comunicávelatravés de uma linguagem simples de ser lida ou ouvida. A representação danarrativa passa por uma realidade que é transposta espiritualmente por umsimbolismo animal resultante da fusão do real com o sobrenatural.Bruno Bettlheim (1980) ressalta em seu livro A psicanálise dos contos defadas que, o conto de fadas é orientado para o futuro e estimula a criança aabandonar seus desejos de carência infantil e conseguir uma existência maisindependente. Enquanto diverte, o conto de fadas esclarece a criança sobre simesma e favorece o desenvolvimento da personalidade e maturidade moral.O mundo contemporâneo passou a acoplar as experiências individuais àtradicional noção de sujeito. A pior característica que o livro infantil pode apresentar
  23. 23. é a de enganar a criança no que ela deveria ter como experiência na Literatura, ouseja, o acesso ao significado mais profundo e àquilo que é significativo para ela.Apenas na idade adulta é que o ser humano obtém uma compreensão mais precisae significativa da sua própria existência neste mundo visto que:as escolhas das crianças são baseadas não tanto sobre o certo versus oerrado, mas sobre quem desperta sua simpatia e quem desperta suaantipatia. Quanto mais simples e direto é um bom personagem, tanto maisfácil para a criança identificar-se com ele e rejeitar o outro mau. A criança seidentifica com o bom herói não por causa de sua bondade, mas porque acondição do herói lhe traz um profundo apelo positivo (BETTELHEIM, 1980,p. 18).Os autores ainda continuam preocupando-se muito mais com a apresentaçãodos fatos a serem narrados do que com a história em si, levando o leitor aos maisvariados desfechos. A intenção de realismo e verdade se alterna com a atração pelafantasia, pelo imaginário. Multiplicam-se os recursos de apelo à visualidade e deformas narrativas que vêm desde a origem dos tempos.Os estudos literários privilegiam e estimulam o exercício da mente, levando acriança a perceber o real em suas múltiplas significações e conscientizações do euem relação ao outro. A Literatura Infantil é o agente formador de uma novamentalidade e as histórias trazem o abstrato ao entendimento das criançasfortificando as experiências que aumentarão a sua vivência, ampliando aspossibilidades de relacionamento social.Essas histórias transmitem conhecimentos que levam ao crescimento epropõe contentamento ao mostrar o lado divertido de situações consideradas difíceisde serem entendidas. A criança aprende a dividir e compartilhar seus pertencesdentro de uma conduta de confiabilidade e cooperação com o outro de formaconsistente e produtiva. Torna-se um ser corajoso, perseverante, firme e constantenas soluções de problemas, diante de situações novas ou desafiantes, não deixandode ser afável, atenta e bem-educada.A linguagem literária da representação e/ou imaginação tem o poder deconscientizar o abstrato através de comparações, imagens e símbolos que ajudamno amadurecimento da inteligência reflexiva. A literatura infantil, “é o meio ideal nãosó para auxiliá-las a desenvolver suas potencialidades naturais, como também para
  24. 24. auxiliá-las nas várias etapas de amadurecimento que medeiam entre a infância e aidade adulta” (COELHO, 2000, p. 43).2.2 DIMENSÃO HISTÓRICA DA LITERATURA INFANTILAs primeiras narrativas infantis brasileiras eram meras traduções de obrasestrangeiras, ou adaptações para os pequenos leitores de obras destinadas aosadultos, ou reciclagem de material escolar, apelando para a tradição popular. Opensamento, as idéias, a imaginação passaram a não apresentar uma continuidadena formação do leitor. As idéias expressas no texto literário e comunicadas atravésdas imagens começaram a representar mental e verbalmente a transmissão dashistórias já existentes.Contudo, não poderiam aprofundar-se demais, pois os leitores precisavamreconhecer nas personagens os limites da temporalidade e da ação no mínimo decoerência. De acordo com Regina Zilberman, em sua obra Como e por que ler aliteratura brasileira, “o problema é que eles não tinham atrás de si uma tradiçãopara dar continuidade, pois ainda não se escreviam livros para crianças na nossapátria” (2005, p. 15).Até os dias atuais, as fábulas, os mitos e as lendas agradam às criançasdevido a sua linguagem metafórica facilmente comunicável com o pensamentomágico e mediador dos valores a serem assimilados e continuamente atualizados.Por isso, “toda obra literária que venceu o tempo e continua falando ao interesse decada nova geração, atende a outros motivos particulares que, como os que atuaramem sua origem, são decorrentes de uma verdade humana geral” (COELHO, 2000, p.45).As histórias infantis são originárias do mundo da magia, da fantasia, ondetudo se resolve de maneira fantástica escapando das limitações e incertezas davida. Adriana Sperandio Ventura P. de Castro apresenta em seu ensaio Cada contouma travessia, um estudo detalhado sobre a literatura fantástica e suas dimensõeshistóricas. De acordo com a autora,
  25. 25. estes textos refletem a evolução do homem, um percurso no qual se podeabstrair a maneira pela qual o ser humano viveu e percebeu o seu mundo.Gerados em épocas distintas (da barbárie à Civilização) e embora venhamsendo adaptados e reescritos, através dos tempos, conservam os valoresbásicos do momento que surgiram (2004, p. 22).A partir da Idade Média aparecem fontes orais que se aproximam asnarrativas destinadas às crianças, retratadas através do folclore e difundidas pelahumanidade. Nessa época a criança era considerada um ser desprezível pelosadultos, tendo que amadurecer rapidamente para ajudar nos afazeres dacomunidade, nos costumes e hábitos sociais, na participação dos jogos e festas daépoca.Os temas da vida adulta, as alegrias, a luta pela sobrevivência, aspreocupações, a sexualidade, a morte, a transgressão às regras sociais, oimaginário, as crenças, as comemorações, as indagações e asperplexidades eram vivenciadas por toda a comunidade, independente defaixas etárias (CASTRO, 2004, p. 22).Desta forma, a Literatura Infantil tem suas origens enraizadas nos contospopulares que a sociedade medieval procurou passar através de suas tendências,ideais e costumes que sobreviveram ao longo dos séculos e foram transmitidosoralmente pelos adultos à humanidade. A expressão das idéias articuladasoralmente impôs ao homem um poder sobrenatural de transformação de suaessência.O século XVII é considerado o marco da criação literária destinada aoimaginário infantil. De acordo com Castro (2004) a Literatura Infantil passou a existira partir do momento que a criança deixou de ser vista como uma miniatura humana.Com a queda do feudalismo e o surgimento de uma nova estrutura familiar onde sepreservava a educação dos filhos, a criança passou a ser acolhida dentro de suasnecessidades e características próprias.As histórias infantis escritas eram as mesmas repetidas a partir da IdadeMédia e originárias do folclore popular. Estas narrativas foram adaptadas e recriadasde forma particular por Charles Perrault e, posteriormente, suavizadas pelos IrmãosGrimm. “A estrutura popular dos contos, correspondentes à preferência e à
  26. 26. expectativa psicológica da criança, fez dessas maravilhosas histórias a primeiraexpressão da Literatura Infantil [...]” (CASTRO, 2004, p. 26). A partir dos contosapresentados por Perrault a sociedade burguesa passou a conhecer o que ficoudenominado como “Conto de fadas”.À medida que o avanço do conhecimento científico aflorou no século XVIII, aliteratura infantil deixou de ser um jogo verbal para se transformar em um jogográfico de expressão do pensamento. A modernidade passou a apresentar um novoestilo literário: o Romantismo. Assim, a literatura destinada às crianças ficouprejudicada pelo moralismo compulsivo e carregado de conceitos científicos edesinteressantes para elas.Castro consolida esta análise ao ressaltar que as,grandes obras literárias foram elaboradas dentro do espírito filosófico daépoca: instruir, educar, difundir conhecimentos; mas a despeito disso, asconsagradas Aventuras conquistaram a geração infanto-juvenil, porque,apesar dos formalismos, tanto o prazer quanto a diversão estavamsubjacentes, atingindo o lado lúdico e emocional das crianças eadolescentes (2004, p. 31) .Como nenhuma conquista do conhecimento é definitiva, no século XIX aconquista e os avanços tecnológicos influenciaram o discurso literário da sociedade.O foco das narrativas infantis passou para a esfera das questões humanas, oscontos de fadas ressurgiram com os Irmãos Grimm. A magia e o encantamentoforam abrandados e o folclore popular passou a ser a tônica da Literatura Infantil.No Brasil surgiram dois tipos de cultura: uma européia, livresca e a outrapopular, nativa. Os primeiros registros da narrativa infantil brasileira se encontramnas obras de Alberto Figueiredo Pimentel com os contos adaptados e traduzidos deoutros países intitulados Contos da Carochinha (1894). Após dois anos, foipublicado seu segundo livro Histórias da Baratinha (1896) iniciando o destino daLiteratura Infantil.Os primeiros livros brasileiros escritos para crianças no final século XIXtrouxeram mudanças significativas no âmbito da criação literária. A Literatura Infantilpassou a ser vista como uma “arte e, como tal, as relações de aprendizagem evivência, que se estabelecem entre ela e o indivíduo, são fundamentais para que
  27. 27. este alcance sua formação integral” (COELHO, 2000, p. 10). Ou seja, a literaturapassou a ser encarada como uma fonte conscientizadora e harmoniosa do eu, dooutro e do mundo.Com o desgaste do Romantismo, passou-se a utilizar linguagensinfantilizadas e a impor modelos estereotipados de pensamento e ação,caracterizando a Literatura Infantil em um ‘gênero menor’, de acordo com os estudosapontados por Coelho (2000). Simultaneamente, começou a se desenvolver o cultoàs cantigas folclóricas que divertiam adultos e crianças com a musicalidade nasrimas e a manifestação de uma situação afetiva. Passou-se a descobrir a palavracomo um divertimento, tentando sintonizar os padrões literários ao tradicional, mascamuflando o novo, ou seja, os poetas e escritores do início e meados do século XXtentaram criar, em poesia e contos infantis, novos modos de ver e dizer o novomundo em formação. Isto se deu através de uma brincadeira com a fala e com asonoridade.As obras literárias apresentadas nos meados do século XX passaram aquestionar as representações apresentadas nos contos, procurando transformar,mostrar ou denunciar os caminhos ou os comportamentos a serem assumidos ouevitados. O valor literário de uma obra passou a resultar de uma visão de mundoindagadora, aberta e com uma linguagem sintonizada que estimulava a consciênciacrítica do leitor, que desenvolvia a expressão verbal ou a criatividade e que o levavaa refletir e observar o mundo, conscientizando-o sobre a realidade ao seu redor paraatuar como um ser ativo.A Literatura Infantil começou a ser pensada no Brasil no final dos anos 70,pois, anteriormente, predominava a Literatura considerada “conceituosa”, ou seja,era apresentada apenas como procedimento didático feito através de manuais. Opioneiro na Literatura Brasileira foi Monteiro Lobato. Sua narrativa “pode serchamada de literatura da ‘libertação infantil’, e veio pelo menos meio século antes dachamada Teologia da Libertação” (CONTE, 2002, p. 11). Desde 1970, diversasexperiências, debates e propostas educativas procuram reformular a Língua e aLiteratura. E, com especial cunho polêmico, na área da Literatura Infantil.
  28. 28. Monteiro Lobato é considerado o maior clássico da Literatura Infantilbrasileira, por não ter, somente, escrito às crianças, mas por ter criado umuniverso para elas. Misturando a imaginação com o cotidiano real, mostra,como possíveis, aventuras que normalmente só poderiam existir no mundoda fantasia. [...] A realidade e fantasia, o maravilhoso e o real, são planosque coexistem, que se desenvolvem paralelamente. A fantasia parte darealidade e com ela se confunde. O mundo encantado é horizonte livre, comsuas paisagens próprias, que a criança vai percorrê-lo com liberdade. Aocriar um mundo para as crianças, Lobato estabelece o equilíbrio entre omaravilhoso e o real, neles ambos completam (CASTRO, 2004, p. 37).Um levantamento sobre a estrutura formal dos contos do século XX mostraque eles ainda apresentam processos narrativos muito antigos, que estão sendoredescobertos ou recriados lentamente. Hoje, começa a nascer uma nova tendênciaque procura estruturá-los dentro de novos processos fundidos aos antigos recursosde formalização da produção literária.Os autores ainda continuam se preocupando muito mais com a apresentaçãodos fatos a serem narrados do que com a história em si, levando o leitor aos maisvariados desfechos. A intenção de realismo e verdade se alterna com a atração pelafantasia, pelo imaginário. Multiplicam-se os recursos de apelo à visualidade e deformas narrativas que vêm desde a origem dos tempos.Os autores do século XXI tentam criar narrativas dentro de um espaçoharmonioso entre a criatividade e as relações da criança com o mundo moderno,procurando estimulá-la a descobrir novos caminhos e aguçando sua curiosidadepelo desconhecido. A ruptura com o conservadorismo torna o espaço literário umlugar onde a diversão, a brincadeira, a magia sejam uma constante do viver infantil.A capacidade de edificar julgamentos desassociados dos seus propósitos forado contexto das narrativas passa a estar em conformidade com a sensibilidade e adisponibilidade de cada um em entender as razões que levam o outro a praticardeterminada conduta ou ato, levando moralmente o leitor a construir suaincapacidade de trair, falsear ou enganar. Os textos infantis são regidos dentro deprincípios nos quais a verdade, a lealdade, o amor estão embasados nas verdadesinternas e externas das atitudes corretas.As mudanças ou maneiras de ver o mundo são muito lentas e demandamtempo para serem vivenciadas. A produção literária pós–1930 foi muito desigual noBrasil. Ao lado de tentativas de sintonizar com o novo, permanecia o tradicionalcamuflado de novo. Coelho apresenta a seguinte afirmativa:
  29. 29. claro está que isso se deu não por falta de talento, arte e criatividade porparte daqueles que sentem atraídos por esta difícil arte para crianças [...]. Averdade que a história nos ensina é que só depois que as novas idéias,valores e comportamento se impõem nos adultos como ‘verdade’vivenciada, é que esse ‘novo’ consegue ser expresso em linguagem lúdica eacessível às crianças (2000, p. 25).Então, somente nos meados do século XX que uma nova visão de mundopassou a caminhar dentro de uma postura de autodescoberta: apresenta um jogolúdico com as palavras e idéias, buscando a identidade e a conscientização desituações comuns ou fantasiosas através do resgate das origens, porémreinventando o popular arcaico.O jogo das palavras com rimas e ritmos transformados em cantigas estimulouo “olhar da descoberta” poética nas crianças. Com imagens coloridas e sonoridade,a linguagem literária transporta para a descoberta da realidade que a circunda, e elacomeça a ver e a conviver com as diferenças, a ter consciência de si mesma e domeio em que está situada. Coelho afirma que o apuro artístico nas obras literáriasdeve tocar “de imediato a sensibilidade, a curiosidade ou as sensações do fruidor. E,de preferência, de conteúdo narrativo, isto é, que expresse uma situaçãointeressante” (2000, p. 223).Os contos infantis ajudam a criança a suportar os reveses da vida e a tertranqüilidade para esperar e aceitar as características e limitações do outro, levando-a a perceber e conviver com as variações de comportamento de cada um e a estardisposta a ajudar e a prestar, voluntariamente, favores ao próximo.O conto permite à criança entender o seu interior, acreditar que astransformações são possíveis e desejáveis. A criança não tem consciência de que éperigoso ceder a desejos que considera inofensivos, e por isso tem que aprenderque o perigo é “ensinado a duras custas”. As narrativas infantis têm o poder de levá-la para um mundo sugestivo e cheio de encantamento, no qual tudo vibra tudo temvozes: os homens, os animais, as plantas, tudo numa atmosfera serena, simples efamiliar.As histórias infantis procuram resgatar informações do inconsciente coletivo,deslocando-as para as necessidades do ser humano, ou seja, surgem com umaforma de atender às exigências da humanidade frente a situações difíceis e muitasvezes alheias à compreensão. As narrativas apresentam em sua estrutura
  30. 30. elementos que se tornam significativos, como se fossem peças de um brinquedo demontar.A Literatura é um dos caminhos mais significativos para que se aprenda acaminhar com amplitude e criação; conseqüentemente uma história é sempre um“presente de amor”, pois existirá sempre a possibilidade de encontrar caminhos queensinem segredos da alma e da vida. “Os Contos de Fadas têm em comum com osmitos o fato de não possuírem propriamente um sentido. São sim estruturas quepermitem gerar sentidos, por isso toda interpretação será sempre parcial” (CORSO;CORSO, 2006, p. 28).2.3 DIMENSÃO EDUCATIVA DA LITERATURA INFANTILA evolução de um povo se faz ao nível da mente, da consciência de mundoque cada ser humano vai assimilando desde a infância. A Literatura Infantil é oagente capaz de formar a condição básica da criança de observar e compreender oespaço em que vive, levando-a a expressar suas experiências de vida.As histórias infantis sempre foram e continuarão sendo um dos elementosmais importantes na literatura destinada às crianças. A entrada no mundo simbólicotece um fio que provoca a descoberta de uma realidade capaz de ser narrada etransformada. A capacidade de representação é marcada pela dimensão simbólica ea linguagem é o ponto máximo da comunicação.Os recursos pelos quais os fatos são encadeados nas tramas sedesenvolvem em torno de uma única ação ou situação, a caracterização daspersonagens e do espaço é breve, a duração temporal é curta. É uma espécie deampliação ou síntese de todas as possibilidades de existências permitidas aohomem ou à condição humana.Os contos infantis apresentam três representações de mundo diferentes. Omundo real, onde os vícios e as virtudes são representados através do simbolismoanimal, ou seja, pela “lei do mais forte”, o mundo onde um ser é transformado emoutro, representado através de uma realidade mágica pelas fadas, princesas,bruxas, gente do povo em geral; e o mundo espiritual, que apresenta a passagem davida terrena para o céu ou para o inferno.
  31. 31. Através das histórias, as crianças aprendem a obedecer a ordenspreestabelecidas e a praticar atos que resultem no próprio aprimoramento ou de suacomunidade, apropriando-se e conhecendo os limites com relação a si próprios, aoseu mundo e ao outro. Desta forma, passam a apresentar atitudes mais coerentescom o seu pensamento e suas convicções, compartilhando os sentimentos de formaverdadeira.Maria Tatar (2004) assevera, em sua obra sobre Contos de fadas que, asnarrativas procuravam transmitir, além de uma moralidade ingênua que recompensao bom comportamento, uma trama que leva o leitor a refletir sobre seus atos. Não hádúvidas de que o fundamento de toda a virtude está na capacidade de renúncia,quando não se consegue justificar os atos através da razão. Por isso, a educaçãodeve propiciar ao aluno a aquisição de conhecimentos que melhor se adaptem aodesenvolvimento intelectual e social em todos os aspectos para adequá-loplenamente na sua atuação na sociedade.A compreensão da realidade pode ser considerada uma forma deconhecimento na qual todo ato humano estará fundamentado em determinadosvalores e interesses. O ser humano é capaz de planejar as ações, escolhê-las ejulgá-las para, posteriormente, controlá-las eticamente. Tem-se passado os mesmoscódigos morais de geração em geração, na tentativa de se garantir a integridade e acontinuidade social na formação do caráter.Há valores que são mutáveis, transitórios e efêmeros. O desvalor não oelimina, apenas o transforma em um valor negativo. De acordo com a teorianeokantiana, todo “deve-ser” funda-se num valor que, por sua vez, se fundamentano dever. Vânia Dohme, em seu trabalho literário sobre as Técnicas de contarhistórias salienta que “os valores são os fundamentos universais que regem aconduta humana. São elementos essenciais para se viver em constante evolução,baseados no autoconhecimento em direção a uma vida construtiva, satisfatória, emharmonia e cooperação com os demais” (2000, p. 22).Somente com uma postura ética o homem conseguirá refletir sobre o sentidoe o alcance de seu comportamento e será capaz de indagar a essência de seusvalores. Johannes Hessen argumenta que:
  32. 32. todo aquele que conhece os verdadeiros valores e, acima de todos, os dobem, e que possuir clara consciência valorativa, não só irá realizar o sentidoda vida geral, como saberá ainda achar sempre a melhor decisão a tomarem todas as situações concretas (1967, p. 23).Os critérios de valoração só serão conhecidos a partir do momento em que forconhecida a essência humana, ou seja, o caráter e o comportamento frente àssituações de vida. Uma vivência, uma consciência, uma qualidade, um modo de serou uma idéia podem indicar um valor. Os valores se apresentam dentro de umahierarquia e polarização, não deixando de existir uma íntima ligação entre o mundodo ser e o mundo do valor.Para Onofre de Arruda Penteado Júnior, “os cidadãos devem ser preparadospara o exercício do pensar, do assumir responsabilidades, do inquirir sobreproblemas e dificuldades, do duvidar e aprender a resolver situações problemáticas,sejam elas quais forem” (1957, p. 114). Todo pensamento humano estácondicionado pela linguagem imposta de fora, seguindo as tradições, os hábitos, asformas de comportamento de determinada sociedade, entre outros fatores.Se o homem não for capaz de conhecer a si próprio e a sociedade da qual fazparte, sua liberdade esbarrará na falta de capacidade de ação para buscar melhoresresultados para si e para os demais. Os contos de fadas atravessaram séculos egerações encantando e ensinando os valores morais às crianças e aos adultos. Amagia não está somente nos enredos cheios de suspense e finais felizes, mastambém no modo como eles foram construídos.A Literatura Infantil é o espaço privilegiado para o nascimento do sujeito edaquilo que o constitui. “Não somente porque se faz da palavra, mas principalmenteporque se expressa plenamente pelo seu estado de virtualidade, portanto de devir,de um poder vir-a-ser” (CAVALCANTI, 2002, p. 35). O simbólico apresentado nomanuscrito infantil está representado dentro de um jogo entre o ser e o não ser. Ostrabalhos literários voltados para as crianças têm um campo aberto, onde seustextos repousam sobre considerações vagas, provocadas pelo desejo do leitor.Joana Cavalcanti apresenta a seguinte consideração sobre os Caminhos daliteratura infantil e juvenil:
  33. 33. A imagem que nos salta aos olhos pelo mundo incomensurável daLiteratura, também nos proporciona uma capacidade afetiva de ver/sentir arealidade de maneira mais abrangente e sensível. O literário não apenas dizdo outro, mas do outro em nós. Então, o processo de leitura acontecedentro de um sentido de busca e reflexão, no qual ler significa questionar omundo e deixar-se questionar por ele. Ler sempre significou uma relação detroca com o universo, pois à medida que nos tornamos leitores também nostornamos capazes de ressignificar à realidade de maneira mais inteira,ampla e reflexiva (2002, p. 36-37).O texto literário não somente é uma translação do real, mas também umacaptura da intimidade do cerne humano. O homem torna-se sujeito da linguagem,transgredindo o simbólico e transformando-o em cultura. Cria mitos e símbolos pormeio de sua estruturação e representa-os através do seu desejo. Assim, a literaturaserve como um ponto mágico de representação das histórias de vida que vão seentrecruzando com as histórias coletivas e narradas pela humanidade.O discurso literário é o fio condutor para a construção de um sujeito maisconsciente da sua condição cristalina e sensível ao seu desejo na busca da trajetóriade contemplação de si próprio e do outro. Por isso, toda narrativa sempre irá contare relatar o desejo do ser humano e de sua busca constante nas três dimensões: oeu, o outro e o mundo. A Literatura é para a criança o espaço fantástico deexpansão do seu ser, do exercício pleno da capacidade simbólica, do maravilhoso edo poético.A primeira transformação no desenvolvimento da criança é aprender a andar,levando-a a uma enorme mudança na percepção de mundo. Com certeza, asegunda grande transformação talvez seja justamente a entrada no mundo daspalavras. Mas a entrada no mundo das palavras abre dentro da criança símbolosque se apresentam de maneira misteriosa, dependendo da forma como foremapresentados e estimulados. A entrada no mundo das palavras revela o grandedesafio da vida, que é aprender a escolher: o que deseja, o que escuta, o queaprender, o que memorizar e dar sentido à sua existência.Por isso, as crianças precisam ser estimuladas para o mundo da fantasia,para a convivência com o seu mundo interior, no qual guardam segredos, medos,anseios, desejos. O texto literário tem a possibilidade de ultrapassar os limites doolhar imediato e desdobrar-se no prazer de convidar o leitor a desconstruir arealidade pronta e estabelecida, a fim de reorganizá-la dentro de metáforas, dentrode uma dimensão estética máxima.
  34. 34. A Literatura Infantil tem suas raízes históricas na tradição oral, portanto aoralidade é de grande importância no mundo da leitura/palavra para a criança. Mas,também é importante que a criança perceba que a narrativa oral tem suarepresentação na escrita em diferentes formas de expressão. Assim, a escola passaa assumir um novo papel: de introduzir novos conceitos de leitura e leitor. A escolapassa a formar pessoas, construindo suas identidades culturais, desenvolvendoolhares diferentes de cidadania e de cooperação, desenvolvendo diferentes visõesde mundo ampliadas.A educação estética começa no berço [...] o contato com a arte, de maneirageral, amplia o sentido das coisas e gera uma visão de mundo maisabrangente. A convivência com as músicas, com o folclore, com os contos eas lendas redimensiona a realidade e estimula a criança no sentido depropor novas possibilidades de olhar para si e para o outro (CAVALCANTI,2002, p. 75).A tarefa da escola é a de formar leitores capazes de desenvolver um olharconsciente e transformador da realidade. Leitores simbólicos de uma realidade emque as pessoas não dispõem de tempo para a reflexão, e as mensagens devemsurgir dentro de um padrão de imagem que desbloqueie o leitor para múltiplosreferenciais, embora toda informação deva ser elaborada do ponto de vistaconceitual. Os trabalhos literários devem provocar, remexer e desconstruir o jáestabelecido para criar novas ordens.A formação de leitores dentro do espaço escolar torna-se um grande desafio!Como formar leitores críticos se a educação continua apresentando repetições,valores estanques e padrões de comportamento retrógrados? Como ensinar acriança a ler um texto, desmontá-lo para reencontá-lo em outra leitura?A Literatura não deve ter o papel de educar ou servir aos contextos deinterdisciplinaridade escolar. A experiência simbólica experimentada no texto literáriodeve provocar entusiasmo e prazer pela leitura em si, deve revelar o homem para simesmo, em toda a sua dimensão e amplitude: dor e amor.O grande desafio educacional do século XXI está em resgatar o prazer e odivertimento da Literatura. Enquanto continuar a existir narrativas onde impereposturas de imposição e julgamento e continuar sendo avaliada a capacidade de
  35. 35. leitura, a Literatura perderá seu valor! Avaliar, sim! Mas, avaliar sem cobrar, semimpor. A escola atual deve estar determinada a resgatar a cultura popular, a criarespaços para a experiência lúdica e discussões interculturais e intersemióticas.A escola do século XXI deve educar integralmente. Isto significa educar paradiversos fins, atendendo às demandas familiares, sociais, culturais, ideológicas,enfim: “educar hoje parece fazer subentender globalizar, enquadrar tudo numamesma dimensão para ser liquidificado com o mesmo propósito” (CAVALCANTI,2002, p. 78). E é na escola que se produz a leitura, que se desenvolvem aspotencialidades do futuro leitor.A escola não tem que se preparar para fazer parte da Literatura com afinalidade de reproduzir padrões e valores da ideologia dominante . Pelo contrário,deve libertar a capacidade que o ser humano tem de colocar em prática seus ideaispara transformar e renovar seus valores. Na prática, observa-se que os textosliterários, apresentados nos livros didáticos, são muitas das vezes incoerentes eexpõem apenas fragmentos ou readaptações das obras de grandes autores, ondegeralmente leva os leitores a responderem apenas algumas questões deinterpretação e gramática.Não basta que a escola promova o lúdico, a brincadeira e a leitura dentro deum clima de prazer. É fundamental que aprender a ler e a gostar de lertenha um sentido na vida de cada um. Que o leitor sinta identificado com olido, que possa exercitar-se numa aprendizagem importante sobre o mundo,as pessoas, a natureza, as lutas, a dor e o amor (CAVALCANTI, 2002, p.79).Não há receitas mágicas para que a mudança ocorra de forma significativadentro do ambiente escolar, pois isto implica em diversas mudanças e rupturas comos padrões já estabelecidos e cristalizados pela humanidade. O espaço escolar deveser reconstruído dentro de uma postura provocadora e estimulante. O ambienteescolar deve promover a criatividade, estimular a capacidade de sentir e refletir,produzir saber e conhecimento que sirvam à organização de uma sociedade maisequilibrada.A instituição escolar nunca deverá esquecer-se que as crianças gostam deouvir e ler histórias, o que lhes falta é estabelecer uma relação prazerosa com o
  36. 36. texto literário. Por isso, o professor tem que estar sensibilizado com o universo dasnarrativas, e em especial, das narrativas infantis. O acesso ao mundo da leitura eseus mais diversificados meios deve ser direito de todos, pois ler é uma capacidadeinerente a todo ser humano. O professor precisa estimular e enriquecer a emoção, ohábito e o gosto pela leitura.A escola tem o dever de promover a mudança e a liberdade de expressão, dedespertar, no aluno, o prazer estético, o gosto pela leitura, de criar espaços para avalorização do lúdico, enfim, deve valorizar um novo “olhar” sobre o mundo. JoanaCavalcanti (2002) salienta que, se deve acreditar e ter esperança de que a escolapode ser, na atualidade, o melhor espaço para que ocorra uma revolução cultural, deidéias e valores. Somente quando os professores acreditarem que a leitura é ajanela que se abre para reconhecer os infinitos mundos é que o espaço escolar faráparte do mundo da leitura.Há vários caminhos para o espaço escolar atravessar neste novo milênio,mas a formação para a leitura deve ser algo compartilhado com o desenvolvimentoda sensibilidade e da promoção da dignidade o sujeito. O professor jamais deveráesquecer-se que a Literatura apresenta uma capacidade intensa de despertarimagens; por isso, ler deve acontecer de forma integrada entre o ver, o ouvir e osentir. O mais importante é nunca perder de vista o objetivo central de toda a leitura:despertar o prazer e a consciência da leitura na vida de cada ser humano. Todoprofessor também é um mago, uma fada que deverá sensibilizar o seu aluno para aleitura, nunca deixando de levá-lo a sentir a tradição e a cultura das históriasnarradas pela humanidade.
  37. 37. 3 CHAPEUZINHO VERMELHO EM PERRAULT E GRIMMOs livros infantis são verdadeiras fontes de reflexões; além de serem vistoscomo mero entretenimento infantil, eles são um grande reservatório de novasdescobertas e de experiência de vida. A Literatura Infantil estimula um poder mágicoque existe dentro de todo ser humano: o conhecimento, visto que o homem sempretentou reencontrar o sentido da vida e responder a questões sobre sua própriaexistência.Os contos de fadas fazem parte dos livros considerados eternos e deixaramde ser ostentados como instrumento de distração das crianças passando a seremdecifrados como autênticas fontes de conhecimento do homem e de seu lugar nomundo. Nelly Novaes Coelho afirma em sua obra O conto de fadas que, “ [...] aciência está sendo levada a reconsiderar o sobrenatural, a aceitar o mistério, abuscar um novo sentido para a transcendência e remodelar a face do próprio Deus”(2003, p. 16).As narrativas modelam códigos de comportamento e trajetórias dedesenvolvimento, ao mesmo tempo em que fornecem termos que levam o serhumano a pensar sobre o que acontece no mundo. De acordo com Maria Tatar(2004) os contos de fadas revelam às crianças o que elas inconscientementesabem, ou seja, que a natureza humana não é inatamente boa, que o conflito é real,que a vida é severa antes de ser feliz, tranqüilizando-as com relação a seus própriosmedos e ao seu próprio senso de individualidade.Tão remoto quanto a origem da humanidade, o hábito de ouvir e contarhistórias não é apenas hábito que os homens foram desenvolvendo ao longo de suaexistência. A mulher sempre teve um papel de destaque nas narrativas infantis, sejacomo personagem, como fada ou como bruxa, ou simplesmente, como mãe, avó,madrasta, tia ou ama, que embalava as narrativas populares transmitidas degerações em gerações para as crianças, enquanto fiavam e teciam as lãs.As histórias infantis também preenchem e continuarão a ocupar funçõesimportantes na vida dos adultos, pois ajudam a imaginar uma outra solução para osproblemas encontrados no seu cotidiano. Em geral, simbolizam a arte feminina delidar com a narrativa, ao mesmo tempo, que ensina uma forma de usar a malícia naluta contra o poder masculino. Ao tratar das fragilidades humanas, os narradores
  38. 38. usam da fantasia para trazer à tona os problemas que os adultos enfrentamrepetidamente.Como relata Bruno Bettelheim em seu livro A psicanálise dos contos defada, “apenas na idade adulta podemos obter uma compreensão inteligente dosignificado da própria existência neste mundo a partir da própria experiência nelevivida” (1980, p.11). O pior erro que um livro infantil pode apresentar é induzir acriança na aquisição de uma experiência literária, ou seja, o acesso ao significadomais profundo daquilo que é realmente representativo para ela.A criança necessita de uma educação moral, não através de conceitosabstratos, mas sutilmente, conduzindo-a a direcionar seus atos dentro decomportamentos morais corretos. O homem moderno se encanta, até os dias atuais,com as narrativas infantis da Antigüidade e tem se dedicado a estudá-las, em buscaros seus significados mais profundos. Isto ocorre devido ao fato das histórias, oscontos de fada, serem resquícios da tradição mitológica, e os mitos se originaramdos rituais praticados nas tribos primitivas. Foram nessas comunidades primitivasque surgiram as primeiras idéias sobre o ‘poder divino’, ou seja, a força da mulher.Por esses e por outros motivos, a mulher sempre desempenhou o papelprincipal nas narrativas populares, como princesas, fadas, bruxas ou camponesasque representavam muitas das vezes a mulher proveniente de Deus, sublime,perfeita, encantadora ou sobrenatural. E o papel do narrador destes contos sempreesteve ligado à figura feminina, pois era a mulher que fiava e tecia tanto o tecido dasroupas como as narrativas folclóricas.Mariza Mendes, em sua obra intitulada Em busca dos contos perdidos,apresenta a seguinte afirmativa sobre a herança cultural dos contos e o significadodas funções femininas nos contos de Perrault:Um dos primeiros estudos científicos sobre os contos populares a merecerrespeito e prestígio internacional foi o de Vladimir Propp (1984) que, nadécada de 1920 na Rússia, dedicou-se à análise estrutural de cemnarrativas contidas na mais conhecida coletânea de contos populares.Tendo chegado, pelo método estruturalista, à surpreendente conclusão deque todas as histórias tinham a mesma seqüência de ações ou funçõesnarrativas, Propp formula, ao fim de seu trabalho, uma instigante pergunta:teriam os contos folclóricos uma origem comum, uma única fonte de ondetodos teriam surgido, apesar dos diferentes temas e diferentes versões?(2000, p. 23).
  39. 39. O resultado desta pesquisa, ressalta Mendes, foi a descoberta das práticasfundamentadas na estrutura dos povos primitivos, destacando-se os ritos deiniciação sexual e as representações de vida após a morte. Por isso, as narrativasrelatam fatos de crianças perdidas no bosque, dos heróis perseguidos e ajudadospela magia, dos lugares proibidos e outros elementos do mesmo tipo. Nas séries defenômenos que se sucedem nas histórias, a exposição da morte nos contos retrata onascimento e renascimento milagroso dos seus personagens.Esta seqüência de ações na estrutura narrativa do conto era a mesmaapresentada nas provas por que passava o iniciante ou o morto, nos rituaisrealizados pelos povos primitivos. O modo como os rituais eram realizados para osindivíduos recentemente convertidos e os sentidos das práticas a que eramsubmetidos eram um segredo entre ambas as partes. Essas narrações foram sendotransformadas nos mitos das sociedades tribais e transmitidas como preciosostesouros nos contos de fadas.O homem moderno continua com sua mente focada na crença em deuses,forças mágicas, em espíritos do bem e do mal, para poder explicar o que acontece acada um em particular e a todos em geral. Com o passar dos séculos, os mitosforam sendo narrados em ambientes comuns e entre pessoas, sem nenhumaidentificação com os rituais sagrados e se tornaram histórias de entretenimento eperderam o seu significado originário. Mendes apresenta o seguinte argumentosobre o significado dos contos infantis escritos por Charles Perrault:Essa origem comum dos contos e mitos explica ainda a semelhança entresua estrutura narrativa e a de outras formas artísticas surgidasposteriormente, como lendas heróicas e as epopéias. Assim, a culturafolclórica, nascida em uma comunidade sem classes, vem a ser, a partir dofeudalismo, propriedade da classe dominante. Esse fenômeno podeexplicar, finalmente, o uso ideológico que se faz dos contos de fada, desdea instalação do sistema educacional burguês até hoje (2000, p. 26).Para muitos estudiosos, as narrativas populares apresentam um esquemabásico da vida humana, com todas as etapas a serem vencidas da infância até afase adulta. Os contos de fadas fazem parte das obras literárias que os séculos nãoconseguem destruir e que, a cada geração são novamente reescritos e voltam aencantar leitores de todas as idades.
  40. 40. Originalmente, as histórias eram utilizados como uma forma de divertir osadultos em salas de fiar, nos campos e em reuniões sociais nos salões pariensespara a elite considerada culta, onde eram dramatizados. Já no século XVII, asnarrativas faladas se transformaram em Literatura Infantil, com a publicação, naFrança, da obra Contes de ma mère l’Oye - Contos da Mãe Gansa - (1697) porCharles Perrault, o qual continha oito histórias recolhidas da memória do povo: ABela Adormecida no Bosque, Chapeuzinho Vermelho, O Barba Azul, O Gato deBotas, As Fadas, Cinderela ou A Gata Borralheira, Henrique do Topete e oPequeno Polegar.Os contos foram apresentados em versos e Perrault atribuiu a autoria a seufilho Pierre Darmancourt, que ofereceu esses contos à Infanta, neta do rei Sol,considerado o maior monarca absolutista da França, resguardando-se de possíveiscríticas e evitando infringir o contrato de comunicação literária da época. CharlesPerrault se destacou politicamente ao lado de Colbert tornando-se superintendentede construções do Rei Luís XIV. Em segunda publicação, Perrault acrescentoutambém os contos A Pele de Asno, Grisélidis e Desejos Ridículos.Para melhor nos situarmos no tempo do surgimento desses contos, éinteressante lembrar que a França dessa época (século XVII) vivia umesplêndido momento de progresso e transformações político-culturais,enquanto o Brasil era ainda uma simples colônia, culturalmente atrasada econtinuamente disputada pelos holandeses, franceses e outros, atraídos pornossas riquezas naturais: cana-de-açúcar, pau-brasil, ouro etc. Graças àssucessivas vitórias dos portugueses contra os invasores, hoje somos umanação unificada por uma língua comum, a portuguesa [...] (COELHO, 2003,p. 22).O gênero Literatura Infantil nasceu com Charles Perrault. Mas somente noséculo XVIII, na Alemanha, os Irmãos Grimm (Jacob e Wilhelm), a partir de suaspesquisas lingüísticas, constituíram definitivamente sua expansão pela Europa eAméricas. Os Irmãos Grimm eram participantes do Círculo Intelectual de Heidelberg.Eles eram estudiosos da crítica textual, da mitologia germânica, folcloristas e seempenharam na busca das transformações lingüísticas, das antigas narrativas,lendas e sagas que permaneciam vivas e eram transmitidas de geração em geraçãopela tradição oral.
  41. 41. O conto “Chapeuzinho Vermelho” é íntimo e pessoal, relata a busca do podere de privilégios e o mais importante: de um caminho para sair da floresta e voltarcom proteção e segurança para casa. Tatar (2004) assevera que o conto continua aproporcionar a oportunidade para pensar sobre as angústias e os desejos “a quedão forma, para refletir sobre os valores condensados na narrativa e discuti-los, epara contemplar os perigos e possibilidades reveladas pela história” (p. 12).O conto de fadas é orientador para o futuro e ampara a criança no abandonode seus desejos de dependência infantil e na busca satisfatória de uma existênciaafetiva, social e moral. Na versão do conto “Chapeuzinho Vermelho” apresentadapor Perrault, há a tentativa de amedrontar a criança, para que ela tenha umcomportamento correto, esquecendo-se de aliviá-la da ansiedade de ver o lobovencer. Já os Irmãos Grimm trataram ambas as questões, ou seja, a busca pelamaturidade moral e a superação da apreensão no final do conto quando a avó e amenina são salvas e o lobo morre.Nelly Novaes Coelho (2003) relata que a adaptação dos contos infantisescritos pelos Irmãos Grimm tiveram o testemunho de uma velha camponesaKatherina Wieckmann e da descendente de franceses Jeannette Hassenpflug. Osdiversos textos selecionados entre centenas que existiam na memória do povo,serviram para seus estudos lingüísticos e formaram a primeira Coletânea daLiteratura Clássica Infantil, sendo os mais conhecidos: A Bela Adormecida, Brancade neve e os Sete Anões, Chapeuzinho Vermelho, A Gata Borralheira, O Gansode Ouro, Os Sete Corvos, Os Músicos de Bremem, A Guardadora de Gansos,Joãozinho e Maria, O Pequeno Polegar, As Três Fiandeiras, O Príncipe e oSapo entre outros.Inicialmente, suas histórias foram publicadas avulsamente entre 1812 e 1822,sendo reunidas mais tarde em um volume intitulado: Contos de Fadas paraCrianças e Adultos, e conhecido nos dias atuais como Contos de Grimm. Nasegunda edição, os Irmãos Grimm sob forte influência cristã que se fortalecia noperíodo romântico, retiraram episódios de demasiada violência ou maldade de seuscontos, principalmente daqueles que eram praticados contra crianças. O sucessodesses contos abriu caminho para a criação do gênero: Literatura Infantil.
  42. 42. A partir do século XVIII, graças ao processo dos estudos de Arqueologia,puderam ser provadas, como verdadeiras, histórias e lendas até então tidascomo inventadas ou fantasiosas, mas que realmente haviam acontecido emtempos remotos. No século XIX, a partir das escavações na Itália, sãodescobertas as cidades de Herculano e de Pompéia, que, no início denossa era (ano 79), haviam sido soterradas totalmente pelo vulcão Vesúvio.Logo depois, os arqueólogos descobriram a cidade de Tróia, destruídapelos gregos, em 1200 a. C – guerra que é tema do poema épico Ilíada, deHomero, livro-fonte de nossa civilização ocidental. Decifraram-se oshieróglifos egípcios, criados também milênios antes de Cristo.No rastro dessas descobertas, surgem também as escavações na memóriapopular nacional; difundem-se as pesquisas das narrativas populares efolclóricas por toda a Europa e pelas Américas, com base nas quais cadanação empenhava-se em descobrir suas verdadeiras raízes nacionais(COELHO, 2003. p. 29).Houve o empenho dos estudiosos durante anos em rastrear os possíveiscaminhos seguidos pelas narrativas situadas entre o século IX e o século XVI.Anterior a essas fontes foi encontrado um papiro no século XIX, pela egiptóloga Mrs.D’Orbeney, em suas escavações realizadas na Itália, um manuscrito egípciocalculado em seus estudos com aproximadamente 3.200 anos, sendo, portanto,considerado o mais antigo manuscrito encontrado.O princípio interdisciplinar da investigação literária cria novas possibilidadesde leitura de um texto, como afirma Thereza Domingues em O múltiplo Vieira:representam o questionamento sobre os métodos críticos em vigor até hápouco e manifestam ainda uma inquietação geral sobre os resultados dessacrítica [...]. Apontam não só para a possibilidade quando para a necessidadede uma análise mais abrangente da obra literária” (2001, p. 20).As diversas fontes, levadas através dos tempos, para as mais diferentesregiões pelos peregrinos, viajantes e invasores misturaram-se umas às outras ecriaram as mais diferentes narrativas clássicas e do folclore de cada nação. O textoliterário só passou a existir após sua recriação numa leitura particular.
  43. 43. 3.1 A INTERTEXTUALIDADE NO CONTOA linguagem simbólica é incerta, pois não apresenta uma única forma deapresentação. Sua constituição depende não só da intencionalidade e visão demundo daquele que cria ou imagina, como também daquele que ouve ou lê e ainterpreta. O tônus dado às narrativas infantis visava conscientizar o leitor quanto àsinjustiças que predominavam na vida cotidiana. Nelly Novaes Coelho em sua obra Oconto de fadas, apresenta a seguinte afirmativa:É o despertar da mente dos homens que leva à sua libertação interior e àconseqüente descoberta da verdade última da vida, sempre oculta pelailusão das realidades visíveis. Uma excelente lição a ser apreendida peloshomens, nestes tempos caóticos do vale-tudo e do levar vantagem (2003, p.33).Perrault, ao publicar Contos da Mãe Gansa, redescobriu as fadas e omaravilhoso. Sua sobrinha, Mlle. L’Heéritier, publicou, posteriormente, umacoletânea de narrativas maravilhosas intitulada Obras Misturadas (1696), dandoseqüência à superposição de textos apresentados pelo seu tio. Em 1698, Preschacpublicou A Rainha das Fadas e, nos salões de Paris os contos maravilhosos oucontos de fadas passaram a se destacar e no ano de 1785, foram reunidos em 41volumes, com adaptação de vários autores e a obra recebeu o nome de Gabinetede Fadas. E esta foi a última obra a marcar o final da produção literária do séculoXVIII.Dentro deste cenário de publicações, os contos infantis procuravam acalorar avitalidade rude e a violência instintiva dos séculos medievais. Com a força doCristianismo como instrumento civilizador, tornou-se fácil compreender o carátermoralizante, didático e sentencioso que marcou a maior parte das narrativas quesurgiram neste período:
  44. 44. não é fácil imaginarmos o que terá sido a violência do convívio humanonesse período medieval, quando forças selvagens opostas e poderosas sechocam, lutando pelo poder. Marcas dessa violência ficaram impressas emmuitas das narrativas maravilhosas que nasceram nessa época. Nos contospopulares medievais, o mundo feudal está representado em toda crueza(COELHO, 2003, p. 38-39).A violência e a crueldade dos contos apresentados e adaptados por CharlesPerrault e pelos Irmãos Grimm foram abrandadas, ou seja, eles procuraram limparas impurezas que continham uma grande carga de violência dos textos primitivos.As pesquisas chegaram às principais fontes desses contos, cuja primeira coletâneafoi a de Perrault, no século XVIII. De acordo com os estudos apresentados porCoelho, “Chapeuzinho Vermelho” é de origem incerta. O tema é antiqüíssimo eaparece em vários folclores. “Sua célula originária estaria no mito grego de Cronos,que engole os filhos, os quais de modo miraculoso conseguem sair de seu estômagoe o encher de pedras” (2003, p. 39), este foi exatamente o mesmo final escolhidopelos Irmãos Grimm.O mesmo enfoque também é apresentado em uma fábula latina do século XI,Fecunda ratis, que apresenta a estória de uma menina de capuz vermelho, sendodevorada pelos lobos e escapando milagrosamente da barriga do lobo e enchendo-acom pedras. Com a circulação e a produção intelectual dos textos da AntigüidadeClássica é de compreender as alterações ocorridas, tornando-os algumas vezes,irreconhecíveis.O discurso intertextual avança captando ou subvertendo outro texto, mostra-o,mas não o demarca, assimila-o para confirmá-lo ou para opor-se a ele. Comotestemunha Thereza Domingues, “a intertextualidade significa a passagem de umsistema de signos a outro, ou a presença de vários textos literários num texto, quecom eles entra em diálogo retomando-os ou contestando-os” (2001, p. 16).Apassagem do real para o imaginário não se faz da noite para o dia.Da existência histórica dos celtas para o surgimento dos romances enarrativas maravilhosas dos bretões (células primeiras dos contos defadas), houve longo tempo, durante o qual atuou a tendência para a fantasiae para o mistério, característica do espírito céltico (COELHO, 2003, p. 53).
  45. 45. Entre as descobertas feitas, uma das mais importantes foi a atuação dosceltas na execução de narrativas envolvendo o espírito mágico, as fadas e a almaobservadora dos povos primitivos que perduraram através dos séculos. As primeiraspesquisas arqueológicas que surgiram no século XIX atribuíram aos celtaspraticamente todos os vestígios culturais anteriores à cultura romana.Como todo povo da Antigüidade, os celtas também se dividiam em tribos ouclãs. Tinham uma vida simples e eram leais a sua própria cultura e as suas crençasreligiosas. Honravam os heróis e explicavam os acontecimentos pela vontade dosdeuses, aos quais ofereciam vidas humanas. Isso se devia ao fato dos celtasacreditarem na imortalidade corporal e na existência de outra vida. Os celtas nãochegaram a formar uma nação, com exceção dos celtas oriundos da Irlanda queformaram um pequeno povoado, mantiveram sua língua e nunca travaram guerras.Os demais povos indo-germânicos mantiveram sua unidade como povo graças aoprincípio transcendental em que fundavam a sua cultura.Devido à sua natureza espiritual, ligada aos mistérios, a religiosidade celtapreparou o terreno para a entrada do Cristianismo. Assim, quando Perrault começoua resgatar a literatura guardada na memória popular, “sua intenção não era escrevercontos para crianças. Seu principal alvo era valorizar o gênio moderno (francês) emrelação ao gênio antigo (dos gregos e romanos), então consagrado pela culturaoficial européia como modelo superior” (COELHO, 2003, p. 75).Perrault era um excelente tradutor, poeta, membro da Academia Francesa deLetras e ativo advogado do ministro Colbert. Participou ativamente do declínio daera clássica contra a postura de Racine, Boileau, La Fontaine e outros. Ele foi oprecursor do rompimento dos antigos valores clássicos latinos com os modernosfranceses, ou seja, reagiu contra a autoridade absoluta dos clássicos latinos, cujaarte havia se transformado em modelo exclusivo para a criação literária e artísticadesde o Renascimento e que já durava por mais de dois séculos.Foi no âmbito dessa polêmica que Perrault se empenhou em resgatar aliteratura folclórica francesa preservada do esquecimento da memória popular.Recusou a mitologia clássica pagã e defendeu a maravilhosa cristã, repeliu asuperioridade do latim sobre a língua francesa. Somente após a publicação de seuterceiro livro (1696) – A Pele de Asno, que Perrault redescobriu a narrativa popularmaravilhosa com o duplo intuito de “provar a equivalência de valores ou desabedoria entre antigos grego-latinos e os antigos nacionais, e, com esse material
  46. 46. redescoberto, divertir as crianças, principalmente, as meninas, orientando suaformação moral” (COELHO, 2003, p. 77).A época de Charles Perrault foi marcada pelo confronto entre o Racionalismo,que tentava imprimir uma nova ordem à vida e à sociedade, e o imaginário quepermeava a literatura fantasiosa. O conto “Chapeuzinho Vermelho” é uma mistura daproblemática social e existencial da época. É considerado um conto deencantamento, trata ao mesmo tempo de questões sobre a riqueza, a conquista depoder e a satisfação do corpo que estão ligados basicamente ao interior do homeme a sua busca por intermédio do amor.Mariza Mendes ressalta, em seus estudos sobre o significado das funçõesfemininas nos contos de Perrault, Em busca dos contos perdidos que:porque os seres humanos sempre tiveram mãe, a criança já nasce com acapacidade de reconhecer a figura materna e de reagir à sua presença.Essa capacidade é a realização de uma potencialidade herdada, ou seja, éo fruto das experiências passadas da raça humana (2000, p. 35).Para melhor compreender a natureza da Literatura Infantil é preciso entendera natureza dos mitos, dos modelos de pensamento e de ação preexistentes na almahumana, os arquétipos. Os mitos nascem no espaço sobrenatural dos deuses, naesfera do sagrado, os arquétipos já correspondem à esfera humana e os símbolospertencem à esfera da linguagem pelas quais os mitos e os arquétipos sãonomeados e passam a existir como verdade a ser difundida entre os homens etransmitida através dos tempos.A criação dos mitos, para o homem primitivo, foi uma necessidade religiosa.Para o homem moderno, a interpretação de tais mitos nasceu de uma necessidadecientífica de buscar a raiz de cada cultura. Os mitos são narrativas primordiais queformam um universo atravessado por lendas, parábolas, apólogos entre tantos tiposde intertextos que visam mostrar as fronteiras em que vive o homem, entre oconhecido e o mistério, entre o consciente e o inconsciente.É através dos mitos, que a evolução dos arquétipos acontece e se manifestacomo atitudes, idéias ou comportamentos no espaço humano. Como asseveraCoelho, “é nesse reservatório espiritual, que é o inconsciente coletivo, que estão os
  47. 47. motivos ou arquétipos que vivem nos contos de fadas, nos romances maravilhosos,nas novelas de cavalaria, nas lendas” (2003, p. 92).Os modelos das personagens criadas nas narrativas infantis foram a maneirapela qual o pensamento e o comportamento se transformaram em um símbolo dasexperiências humanas básicas e desejáveis no seio da sociedade da época. Todasessas imagens e figuras geradas a partir do inconsciente coletivo estão nos mitos enos contos de fada, e embora sejam percebidas racionalmente, elas continuam aconservar e transmitir por séculos e séculos, a estrutura primeira das narrativasfolclóricas.Foi através da transferência dos mitos e dos arquétipos em linguagemsimbólica que os símbolos passaram a se expressar e tornarem-se comunicáveis,pois sem esta metamorfose não existiriam as narrativas maravilhosas. Assim, asabedoria de vida contida dentro dos contos pôde ser difundida por todo o mundo econtinua originando a verdadeira literatura por intermédio de novas linguagenssimbólicas.Norma Discini expõe sobre a Intertextualidade e conto maravilhoso,afirmando que “a prática da intertextualidade, vista, portanto, como uma prática daambivalência, ou da instabilidade do discurso, aponta-nos para modalidades devariantes que respondem de maneira diversa a um querer-fazer-crer do texto-base”(2001, p. 27).Dentro desta ótica, a narrativa de Perrault sobre o conto “ChapeuzinhoVermelho” é o ponto de referência intertextual e está na raiz da cadeia do diálogoentre os demais textos. A superposição de um texto sobre o outro pode provocarcerta atualização ou modernização do primeiro texto-base. Cada texto constitui umaproposta de significação que não está inteiramente construída. A significação se dáno jogo de olhares entre o texto e seu leitor.Todas as variantes intertextuais assimiladas a partir do texto-base procuramconfirmá-lo ou confrontar-se com ele. Se o confirmam, apresentam com o texto-baseuma relação de implicação e de complementaridade. Se o confrontam, apresentamuma relação de oposição e de contrariedade ou contraditoridade. O conto“Chapeuzinho Vermelho”, dos Irmãos Grimm, é uma adaptação do texto-baseapresentado por Charles Perrault.Na prática, a intertextualidade entre o texto-base, escrito por Charles Perrault,e sua variante escrita pelos Irmãos Grimm, deve respeitar a mesma organização de

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