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FILOSOFIA 11.º ano
FILOSOFIA 11.º ano
Luís Rodrigues
O Aperfeiçoamento Biológico
do Ser Humano
Introdução
Gostaria de ser mais inteligente? Mais forte? Gostaria de viver durante
mais tempo e com boa saúde? De escolher o sexo e aparência duma
criança da qual vai ser um dos progenitores?
Há quem garanta que os avanços da ciência adiarão o
envelhecimento e a decadência do corpo. Poderemos ainda recuperar a
visão e melhorar a memória.
Quem não gostaria de ter todas estas vantagens sem precisar de
trabalhar para as obter?
O aperfeiçoamento biológico do ser humano
FILOSOFIA 11.º ano
Objeções à ideia de aperfeiçoamento biológico
Apresentam-se três objeções à ideia de aperfeiçoamento biológico do
ser humano.
O aperfeiçoamento biológico do ser humano
FILOSOFIA 11.º ano
1.ª Objeção
«Devemos dar prioridade ao que é natural face ao artificial porque o
que é natural é, em geral bom, e o que não é natural é mau.»
O aperfeiçoamento biológico do ser humano
FILOSOFIA 11.º ano
Comentário à 1.ª Objeção
Receia-se que haja desigualdade entre os seres humanos
aperfeiçoados e os que «ficam para trás». Um igual estatuto moral
depende de uma mesma natureza humana. Se se aperfeiçoar essa
natureza, não a farão em todos os seres humanos. Logo, uns «serão
mais iguais do que outros» ou deixaremos de ter um igual estatuto
moral.
O aperfeiçoamento biológico do ser humano
FILOSOFIA 11.º ano
Comentário à 1.ª Objeção
Os bioconservadores dizem que todos são iguais por natureza
reduzindo, contudo, assim o conceito de pessoa a uma caraterística
biológica. Por outro lado, considerar como bom o que é natural é fazer
da natureza humana mais uma avaliação do que um dado. Trata-se de
uma construção: é naturalmente bom o que é desejável.
As teorias sobre a natureza humana são muitas e algumas como a
de Hobbes salientam a maldade e não a tendência para o bem. E falar
de «sabedoria da natureza» é mais uma crença metafísica do que uma
justificação plausível.
O aperfeiçoamento biológico do ser humano
FILOSOFIA 11.º ano
2.ª Objeção
«Ao querermos aperfeiçoar a natureza humana estamos a “brincar a
Deus” e, por isso, a ser arrogantes.»
O aperfeiçoamento biológico do ser humano
FILOSOFIA 11.º ano
Comentário à 2.ª Objeção
Esta é uma das objeções mais usadas: o argumento do «brincar a
Deus». Modificar e intervir na natureza humana é arrogância perante o
Criador. No entanto, este argumento só será plausível para os crentes e
dificilmente convencerá os ateus ou agnósticos. Esta segunda objeção é
habitualmente reforçada pela ideia de que a natureza é boa e sábia. Seja
num contexto religioso seja num contexto secular, julga-se que cabe à
própria natureza e não ao ser humano a tarefa do aperfeiçoamento. E
nós, humanos, devemos aceitar só o que a natureza nos deu?
O aperfeiçoamento biológico do ser humano
FILOSOFIA 11.º ano
3.ª Objeção
«As intervenções técnicas da engenharia genética na natureza
humana são muito caras e só os mais favorecidos poderão beneficiar
delas. Por outro lado, não aceitar as contingências da lotaria genética e
fazer com que a natureza humana seja o resultado de escolhas
controladas artificialmente reduziria o peso de valores como a
humildade e a solidariedade. A valorização dos dons naturais de um
atleta e de um cantor é algo de que não devemos prescindir.»
O aperfeiçoamento biológico do ser humano
FILOSOFIA 11.º ano
Comentário à 3.ª Objeção
Esta é uma questão de justiça social que implicitamente
reconhece que o aperfeiçoamento é uma coisa boa. Se a intervenção
das biotecnologias for no sentido de criar seres humanos superiores
interferindo no genoma tal como ele é, o risco de desigualdade é claro.
Podemos antever uma elite de pós-humanos com mais aptidões
mentais, mais capacidade atlética, vidas mais longas e melhores, mais
capacidade para criar riqueza e, desde logo, a propensão para se
tornarem dominantes. A divisão entre humanos e pós-humanos, os
beneficiários do aperfeiçoamento, criaria um fosso e um conflito grave.
O aperfeiçoamento biológico do ser humano
FILOSOFIA 11.º ano
Contra este cenário, a aceitação dos dons da natureza é
valorizada por pensadores como Michael Sandel, por exemplo, que não
descarta as intervenções terapêuticas, mas opõe-se a técnicas de
aperfeiçoamento. Uma coisa é intervir na natureza para a restaurar, para
restaurar a saúde ou para curar, outra é querer mudar essa natureza em
nome de uma ideia de natureza humana perfeita.
Este pensador considera que se devem valorizar as capacidades
naturais humanas, o empenho, por exemplo, de um atleta que usa e
trabalha o que a natura, por sorte, lhe deu. Se cada um de nós pudesse
determinar as suas capacidades com base no aperfeiçoamento artificial,
então cada indivíduo deveria os seus sucessos e fracasso só a si mesmo,
e este conceito asfixiante de responsabilidade reduziria a solidariedade
social.
O aperfeiçoamento biológico do ser humano
FILOSOFIA 11.º ano
Comentário à 3.ª Objeção
Objeções ao aperfeiçoamento
As dúvidas sobre a segurança dos
procedimentos
Muita gente se preocupa com a segurança das tecnologias do
aperfeiçoamento e com o conhecimento limitado que mesmo os
especialistas têm sobre as consequências da engenharia genética em
certos domínios. No entanto, este argumento parece não ser suficiente
para mostrar que melhorar não é ético. Se houvesse um avanço
científico significativo, poderia confirmar-se a segurança dos
procedimentos, e as consequências do aperfeiçoamento poderiam ser
controladas. Nessa altura, não haveria nenhuma objeção em avançar
com o aperfeiçoamento.
O aperfeiçoamento biológico do ser humano
FILOSOFIA 11.º ano
O que é natural deve ter prioridade sobre o artificial.
Outra objeção ao aperfeiçoamento tem por base a ideia de que o
natural é bom e de que o não natural é mau: resumidamente,
devemos dar prioridade ao natural em detrimento do artificial.
O aperfeiçoamento biológico do ser humano
FILOSOFIA 11.º ano
Objeções ao aperfeiçoamento
Muitos consideram esta crença errada. Por exemplo, diz-se que
os alimentos que surgem naturalmente são mais seguros ou mais
saudáveis, mas em muitos casos, porém, os alimentos preparados
artificialmente são mais seguros e mais saudáveis.
Quando os processos naturais são menos dispendiosos ou provocam
menos danos no ambiente, há razões para preferi-los. No entanto, não
há razão alguma para preferir um processo natural a um processo
artificial na ausência de outras considerações relevantes. Pode-se dar
exemplos de acontecimentos naturais bons, como um brilhante pôr-do-
Sol ou uma colheita abundante. Mas, por vezes, o natural também pode
provocar grandes danos (as enchentes, as secas…), podendo mesmo
causar perdas de vidas humanas.
O aperfeiçoamento biológico do ser humano
FILOSOFIA 11.º ano
Objeções ao aperfeiçoamento
O que é natural deve ter prioridade sobre o artificial.
Também desta forma se teria de renunciar às práticas da
medicina e às suas constantes descobertas, como as vacinas e os
antibióticos. O ser humano fica naturalmente doente e é invadido por
organismos naturais como vírus e bactérias, que muitas vezes matam.
O aperfeiçoamento biológico do ser humano
FILOSOFIA 11.º ano
Objeções ao aperfeiçoamento
O que é natural deve ter prioridade sobre o artificial.
O dever de não tentar aperfeiçoar a natureza humana é
muito discutível.
Outra objeção importante é a de «brincar a Deus», já referida
anteriormente, a ideia de que, ao procedermos a certos
aperfeiçoamentos, somos culpados de arrogância.
O aperfeiçoamento biológico do ser humano
FILOSOFIA 11.º ano
Objeções ao aperfeiçoamento
«Não se espera que os seres humanos criem melhores seres
humanos, pois isso seria arrogante da sua parte. Deveriam apenas
aceitar o que Deus ou a natureza lhes deu, sem tentarem melhorá-lo.»
A pergunta é: Haverá algo de errado em intervir nos genes, modificando
assim a natureza humana e evoluir por nós próprios?
O aperfeiçoamento biológico do ser humano
FILOSOFIA 11.º ano
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O dever de não tentar aperfeiçoar a natureza humana é
muito discutível.
Lisa Bortollotti disserta acerca do possível facto da valorização da
humanidade enquanto tal. «O facto de todas as pessoas que
conhecemos serem seres humanos é apenas um acaso. Se
encontrássemos essas caraterísticas das pessoas em seres não
humanos, íamos (ou devíamos) ainda valorizá-las e estimá-las. Tais
considerações podem apoiar a ideia de que o valor intrínseco e o
estatuto moral não dependem da espécie a que os indivíduos
pertencem, mas do facto de serem pessoas, e de, enquanto tal, terem
interesses de um certo tipo.»
O aperfeiçoamento biológico do ser humano
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Aperfeiçoamento humano pró e contra

  • 1. FILOSOFIA 11.º ano FILOSOFIA 11.º ano Luís Rodrigues O Aperfeiçoamento Biológico do Ser Humano
  • 2. Introdução Gostaria de ser mais inteligente? Mais forte? Gostaria de viver durante mais tempo e com boa saúde? De escolher o sexo e aparência duma criança da qual vai ser um dos progenitores? Há quem garanta que os avanços da ciência adiarão o envelhecimento e a decadência do corpo. Poderemos ainda recuperar a visão e melhorar a memória. Quem não gostaria de ter todas estas vantagens sem precisar de trabalhar para as obter? O aperfeiçoamento biológico do ser humano FILOSOFIA 11.º ano
  • 3. Objeções à ideia de aperfeiçoamento biológico Apresentam-se três objeções à ideia de aperfeiçoamento biológico do ser humano. O aperfeiçoamento biológico do ser humano FILOSOFIA 11.º ano
  • 4. 1.ª Objeção «Devemos dar prioridade ao que é natural face ao artificial porque o que é natural é, em geral bom, e o que não é natural é mau.» O aperfeiçoamento biológico do ser humano FILOSOFIA 11.º ano
  • 5. Comentário à 1.ª Objeção Receia-se que haja desigualdade entre os seres humanos aperfeiçoados e os que «ficam para trás». Um igual estatuto moral depende de uma mesma natureza humana. Se se aperfeiçoar essa natureza, não a farão em todos os seres humanos. Logo, uns «serão mais iguais do que outros» ou deixaremos de ter um igual estatuto moral. O aperfeiçoamento biológico do ser humano FILOSOFIA 11.º ano
  • 6. Comentário à 1.ª Objeção Os bioconservadores dizem que todos são iguais por natureza reduzindo, contudo, assim o conceito de pessoa a uma caraterística biológica. Por outro lado, considerar como bom o que é natural é fazer da natureza humana mais uma avaliação do que um dado. Trata-se de uma construção: é naturalmente bom o que é desejável. As teorias sobre a natureza humana são muitas e algumas como a de Hobbes salientam a maldade e não a tendência para o bem. E falar de «sabedoria da natureza» é mais uma crença metafísica do que uma justificação plausível. O aperfeiçoamento biológico do ser humano FILOSOFIA 11.º ano
  • 7. 2.ª Objeção «Ao querermos aperfeiçoar a natureza humana estamos a “brincar a Deus” e, por isso, a ser arrogantes.» O aperfeiçoamento biológico do ser humano FILOSOFIA 11.º ano
  • 8. Comentário à 2.ª Objeção Esta é uma das objeções mais usadas: o argumento do «brincar a Deus». Modificar e intervir na natureza humana é arrogância perante o Criador. No entanto, este argumento só será plausível para os crentes e dificilmente convencerá os ateus ou agnósticos. Esta segunda objeção é habitualmente reforçada pela ideia de que a natureza é boa e sábia. Seja num contexto religioso seja num contexto secular, julga-se que cabe à própria natureza e não ao ser humano a tarefa do aperfeiçoamento. E nós, humanos, devemos aceitar só o que a natureza nos deu? O aperfeiçoamento biológico do ser humano FILOSOFIA 11.º ano
  • 9. 3.ª Objeção «As intervenções técnicas da engenharia genética na natureza humana são muito caras e só os mais favorecidos poderão beneficiar delas. Por outro lado, não aceitar as contingências da lotaria genética e fazer com que a natureza humana seja o resultado de escolhas controladas artificialmente reduziria o peso de valores como a humildade e a solidariedade. A valorização dos dons naturais de um atleta e de um cantor é algo de que não devemos prescindir.» O aperfeiçoamento biológico do ser humano FILOSOFIA 11.º ano
  • 10. Comentário à 3.ª Objeção Esta é uma questão de justiça social que implicitamente reconhece que o aperfeiçoamento é uma coisa boa. Se a intervenção das biotecnologias for no sentido de criar seres humanos superiores interferindo no genoma tal como ele é, o risco de desigualdade é claro. Podemos antever uma elite de pós-humanos com mais aptidões mentais, mais capacidade atlética, vidas mais longas e melhores, mais capacidade para criar riqueza e, desde logo, a propensão para se tornarem dominantes. A divisão entre humanos e pós-humanos, os beneficiários do aperfeiçoamento, criaria um fosso e um conflito grave. O aperfeiçoamento biológico do ser humano FILOSOFIA 11.º ano
  • 11. Contra este cenário, a aceitação dos dons da natureza é valorizada por pensadores como Michael Sandel, por exemplo, que não descarta as intervenções terapêuticas, mas opõe-se a técnicas de aperfeiçoamento. Uma coisa é intervir na natureza para a restaurar, para restaurar a saúde ou para curar, outra é querer mudar essa natureza em nome de uma ideia de natureza humana perfeita. Este pensador considera que se devem valorizar as capacidades naturais humanas, o empenho, por exemplo, de um atleta que usa e trabalha o que a natura, por sorte, lhe deu. Se cada um de nós pudesse determinar as suas capacidades com base no aperfeiçoamento artificial, então cada indivíduo deveria os seus sucessos e fracasso só a si mesmo, e este conceito asfixiante de responsabilidade reduziria a solidariedade social. O aperfeiçoamento biológico do ser humano FILOSOFIA 11.º ano Comentário à 3.ª Objeção
  • 12. Objeções ao aperfeiçoamento As dúvidas sobre a segurança dos procedimentos Muita gente se preocupa com a segurança das tecnologias do aperfeiçoamento e com o conhecimento limitado que mesmo os especialistas têm sobre as consequências da engenharia genética em certos domínios. No entanto, este argumento parece não ser suficiente para mostrar que melhorar não é ético. Se houvesse um avanço científico significativo, poderia confirmar-se a segurança dos procedimentos, e as consequências do aperfeiçoamento poderiam ser controladas. Nessa altura, não haveria nenhuma objeção em avançar com o aperfeiçoamento. O aperfeiçoamento biológico do ser humano FILOSOFIA 11.º ano
  • 13. O que é natural deve ter prioridade sobre o artificial. Outra objeção ao aperfeiçoamento tem por base a ideia de que o natural é bom e de que o não natural é mau: resumidamente, devemos dar prioridade ao natural em detrimento do artificial. O aperfeiçoamento biológico do ser humano FILOSOFIA 11.º ano Objeções ao aperfeiçoamento
  • 14. Muitos consideram esta crença errada. Por exemplo, diz-se que os alimentos que surgem naturalmente são mais seguros ou mais saudáveis, mas em muitos casos, porém, os alimentos preparados artificialmente são mais seguros e mais saudáveis. Quando os processos naturais são menos dispendiosos ou provocam menos danos no ambiente, há razões para preferi-los. No entanto, não há razão alguma para preferir um processo natural a um processo artificial na ausência de outras considerações relevantes. Pode-se dar exemplos de acontecimentos naturais bons, como um brilhante pôr-do- Sol ou uma colheita abundante. Mas, por vezes, o natural também pode provocar grandes danos (as enchentes, as secas…), podendo mesmo causar perdas de vidas humanas. O aperfeiçoamento biológico do ser humano FILOSOFIA 11.º ano Objeções ao aperfeiçoamento O que é natural deve ter prioridade sobre o artificial.
  • 15. Também desta forma se teria de renunciar às práticas da medicina e às suas constantes descobertas, como as vacinas e os antibióticos. O ser humano fica naturalmente doente e é invadido por organismos naturais como vírus e bactérias, que muitas vezes matam. O aperfeiçoamento biológico do ser humano FILOSOFIA 11.º ano Objeções ao aperfeiçoamento O que é natural deve ter prioridade sobre o artificial.
  • 16. O dever de não tentar aperfeiçoar a natureza humana é muito discutível. Outra objeção importante é a de «brincar a Deus», já referida anteriormente, a ideia de que, ao procedermos a certos aperfeiçoamentos, somos culpados de arrogância. O aperfeiçoamento biológico do ser humano FILOSOFIA 11.º ano Objeções ao aperfeiçoamento
  • 17. «Não se espera que os seres humanos criem melhores seres humanos, pois isso seria arrogante da sua parte. Deveriam apenas aceitar o que Deus ou a natureza lhes deu, sem tentarem melhorá-lo.» A pergunta é: Haverá algo de errado em intervir nos genes, modificando assim a natureza humana e evoluir por nós próprios? O aperfeiçoamento biológico do ser humano FILOSOFIA 11.º ano Objeções ao aperfeiçoamento O dever de não tentar aperfeiçoar a natureza humana é muito discutível.
  • 18. Lisa Bortollotti disserta acerca do possível facto da valorização da humanidade enquanto tal. «O facto de todas as pessoas que conhecemos serem seres humanos é apenas um acaso. Se encontrássemos essas caraterísticas das pessoas em seres não humanos, íamos (ou devíamos) ainda valorizá-las e estimá-las. Tais considerações podem apoiar a ideia de que o valor intrínseco e o estatuto moral não dependem da espécie a que os indivíduos pertencem, mas do facto de serem pessoas, e de, enquanto tal, terem interesses de um certo tipo.» O aperfeiçoamento biológico do ser humano FILOSOFIA 11.º ano Objeções ao aperfeiçoamento O dever de não tentar aperfeiçoar a natureza humana é muito discutível.