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1. Definir psicoterapia ou tratamento psicoterapêutico.
2. Reconhecer diferentes formas de psicoterapia.
3. Caracterizar a terapia psicanalítica identificando as suas
técnicas e processos.
4. Explicitar a importância da associação livre, da interpreta-
ção dos sonhos, da resistência e da transferência no pro-
cesso terapêutico psicanalítico.
5. Caracterizar as terapias comportamentais em geral.
6. Identificar as técnicas terapêuticas mais frequentemente
usadas no processo terapêutico comportamental.
7. Caracterizar as terapias humanistas.
8. Distinguir a terapia centrada na pessoa da terapia da
Gestalt.
9. Caracterizar as terapias cognitivas.
10. Distinguir a terapia racional-emotiva de Ellis da terapia
cognitiva de Beck.
Psicoterapia, terapia psicanalítica, livre associação, interpretação
dos sonhos, resistência, transferência, psicoterapias humanistas,
terapia centrada na pessoa, atitude incondicionalmente positiva,
empatia, terapia da Gestalt, psicoterapias comportamentais, tera-
pia da aversão, dessensitização sistemática, economia da recom-
pensa, modelação, psicoterapias cognitivas, terapia racional-emo-
tiva, terapia cognitiva de Beck, psicoterapia directiva e não directiva.
1. A terapia psicanalítica.
1.1. OqueentendeFreudporlivreassociação?
1.2. Em que consiste a interpretação dos sonhos e qual a
suaimportâncianoquadrodaterapiapsicanalítica?
1.3. Qual o papel da resistência na metodologia psicanalí-
tica?
1.4. Qual o papel da transferência na metodologia psicana-
lítica?
2. As psicoterapias humanistas.
2.1. CarlRogers:Aterapiacentradanapessoa
2.1. FrederickPerls:AterapiadaGestalt.
3. Psicoterapias comportamentais.
3.1. Ocondicionamentoaversivoouterapiadaaversão.
3.2. Adessensitizaçãosistemática.
3.3. Aeconomiadarecompensa(token economy)
3.4. Amodelação.
4. Psicoterapias cognitivas.
4.1. Aterapiaracional-emotivadeAlbertEllis.
4.2. AterapiacognitivadeBeck
Psicoterapia
Termo que descreve todo e
qualquer tratamento em que
um profissional treinado uti-
liza técnicas psicológicas
para ajudar alguém que pre-
cisa de assistência, dada a
sua desadaptação emocional
e comportamental.
Um método catártico
Segundo Freud, esta “catarse”
ou libertação de tensões e
ansiedades é possível medi-
ante a consciencialização de
um conflito doloroso. Freud
observou, nos seus pacientes,
que “reviver” um incidente
traumático e perturbador
produzia uma espécie de alí-
vio emocional. Por outras pa-
lavras, esse incidente dolo-
roso perdia muita da força e
intensidade que tinha. A sua
influência no comportamento
da pessoa tornava-se bem
menor, pelo que uma vida
mais saudável era, a partir
daí, possível.
Terapia psicanalítica
Conjunto de técnicas e de
processos em que o terapeuta
tenta conduzir o paciente à
origem, até aí inconsciente,
dos seus males, ou seja, tenta
trazer os conflitos e traumas
inconscientes (recalcados) à
consciência.
Entende-se por psicoterapia o processo que consiste em trabalhar
com pessoas com o objectivo de identificar e reduzir os seus problemas emo-
cionais, melhorando a sua capacidade de adaptação e de resposta ao meio e
aos desafios deste.
A psicoterapia envolve normalmente o diálogo entre a pessoa que é
objecto da terapia e o terapeuta.
Iremos fazer um breve percurso por algumas formas de terapia psicoló-
gica mais usadas. Há várias formas de psicoterapia: terapia individual, em
que o psicoterapeuta trabalha com uma pessoa de cada vez; terapia de grupo,
que assume várias formas e em que a interacção é mais entre os elementos
do grupo do que entre estes e o psicoterapeuta. As pessoas têm a possibili-
dade de expressar as suas dificuldades interpessoais frente a frente (caso
mais evidente nas terapias de casal e nas terapias familiares, em que se
considera que o problema está mais na dinâmica do casal e da família do
que nos indivíduos em si mesmos).
Daremos unicamente atenção às terapias de tipo individual.
1.A terapia psicanalítica
O princípio que orienta a terapia psicanalítica é o de que o paciente
se pode libertar de tensões e ansiedades ao relembrar um acontecimento
traumático infantil. Tomar consciência de conflitos e traumas recalcados
(escondidos no Inconsciente) é condição essencial da cura.
Os conflitos e incidentes mais marcantes na nossa evolução psíquica
remontam, segundo Freud, à época da infância (primeira infância, sobretudo).
Os conflitos característicos da primeira infância podem ser resolvidos,
seguindo-se um desenvolvimento psíquico saudável. Mas, como acontece
muitas vezes, podem ser mal resolvidos ou mesmo não resolvidos. Isto signi-
fica que são recalcados e reprimidos, afastados para longe da nossa consciência.
Que esses conflitos se tornem inconscientes não implica de modo algum que
sejam desactivados ou deixem de existir. Com efeito, não se manifestando
directamente ao nível da consciência, tais conflitos e incidentes traumáticos
continuam a afectar o nosso comportamento e a nossa personalidade sem
disso termos consciência. Quer isto dizer que se manifestam de forma indi-
recta provocando perturbações psíquicas, desordens no comportamento e
A “cura pela palavra” foi
desenvolvida por Freud. A
técnica da livre associação
nasceu em 1892 com uma
paciente chamada Elisabeth.
Freud sugeriu que, deitada,
fechasse os olhos e pensasse
num dos sintomas de que so-
fria, tentando recordar o mo-
mento em que dele começou
a padecer. Depois de várias
tentativas sem resultado,
Elisabeth lembrou-se de algo
importante, mas não relacio-
nado com o sintoma. Surpre-
endido, Freud perguntou-lhe
porque levara tanto tempo a
revelar esse facto importan-
te. “Podia ter dito logo, mas
não pensei que fosse aquilo
que você queria’’ – disse Eli-
sabeth. Este episódio condu-
ziu Freud a mudar a forma
como conduzia as consultas.
A partir de então, decidiu
que o paciente devia dar livre
curso às suas ideias, falar
com o menor controlo possí-
vel por parte do psicanalista.
Nasceu assim o uso da livre
associação.
Livre associação
Técnica psicanalítica em que o
paciente diz o que lhe vem à
cabeça livremente, sem auto-
censura.
sofrimentos físicos. Como esses conflitos e incidentes foram recalcados (tor-
nam-se inconscientes), são, sem que o saibamos, a causa dos nossos actuais
padecimentos físicos e psíquicos. É esta “falha” que a terapia psicanalítica, no
sentido tradicional do termo, pretende colmatar.
Freud estava plenamente convicto de que, à medida que o Inconsci-
ente se torna consciente, o doente pode aperceber-se do modo como certos
acontecimentos da sua infância determinaram o seu comportamento actual.
Relembrar os traumas da infância torna o paciente capaz de resolver conflitos
que não pôde resolver no passado. Primeiro, porque se apercebe de que as
condições que determinaram esses conflitos já não existem (eram conflitos
da infância). Segundo, porque pode, confrontando-se com essas vivências
passadas, rever a atitude que tomou a seu respeito e desenvolver comporta-
mentos mais saudáveis.
Desocultar os traumas psíquicos inconscientes, isto é, trazê-los à luz da
consciência para que o paciente lide efectivamente com eles, não é tarefa fá-
cil. Tal dificuldade deve-se ao facto de o Ego ter poderosos mecanismos de
defesa que bloqueiam o acesso à consciência dos conteúdos inconscientes.
Para desbloqueá-los são necessárias técnicas que “enganem” ou ludibriem a
vigilância do Ego. As duas técnicas são a livre associação e a interpretação
dos sonhos. Além destas duas técnicas, há dois processos que acompanham
a terapia psicanalítica: a resistência e a transferência.
1.1. O que entende Freud por livre associação?
A livre associação é um dos princípios fundamentais da terapia psi-
canalítica. Consiste no facto de o psicanalista pedir ao paciente que fale aber-
tamente, de forma espontânea, dos seus desejos, recordações, pensamentos,
fantasias, sonhos, por mais embaraçosos, vulgares, irrelevantes ou mesmo sem
sentido que possam parecer. Sem censura e sem interrupção, o paciente deve
relatar pensamentos e sentimentos tal como eles ocorrem. Constitui-se assim
um puzzle cujas peças o analista, escutando atentamente, vai tentar ligar. No
seu entender, o que o paciente relata e descreve, de forma desordenada e
conforme lhe vem à mente, é um conjunto de pistas sobre o que se passa no
Inconsciente. As livres associações, aparentemente ilógicas, “sem ponta por
onde se pegue”, são expressões simbólicas de desejos, recordações e senti-
mentos recalcados no Inconsciente e que estão na origem dos problemas
psicológicos e físicos de que padece a pessoa psicanalisada.
Para tornar mais fácil a livre associação, o paciente deve estar à von-
tade: deita-se num divã ou senta-se numa cadeira confortável enquanto o
analista, que fala só quando estritamente necessário, se senta fora do seu
campo de visão. O analista intervém para, quando for caso disso, apresentar
uma interpretação do que o paciente diz e faz. O famoso divã de Freud.
1.2. Em que consiste a interpretação dos sonhos
e qual a sua importância no quadro
da terapia psicanalítica?
A descrição de sonhos mediante a técnica da livre associação é um dos
elementos da terapêutica psicanalítica. Freud dá um relevo especial à análise
e interpretação dos sonhos. Porquê? Porque a censura, durante o sono, perde
grande parte da sua eficácia na repressão das manifestações do Inconsciente.
Os sonhos são, segundo Freud, “a estrada real de acesso ao Inconsciente”,
porque, sendo suas expressões ou manifestações relativamente livres, são o
meio mais directo de acesso aos desejos, impulsos e conflitos recalcados do
paciente. Não obstante, se a vigilância da censura diminui durante o sono, ela
permanece. Por isso, os sonhos são formas disfarçadas, muitas vezes complexas
e confusas, de conflitos e impulsos inconscientes se revelarem. Há que inter-
pretar, decifrar o seu conteúdo simbólico. Como interpreta Freud os sonhos?
Distingue o seu conteúdo manifesto do seu conteúdo latente: o conteúdo
manifesto é o conjunto de acontecimentos que ocorrem durante o sonho e de
que nos lembramos na manhã seguinte (é aquilo que sonhámos); o conteúdo
latente é o significado profundo do sonho (aquilo que ele significa). Desco-
bre-se o significado profundo do sonho – o seu conteúdo latente – conside-
rando os acontecimentos do sonho e os objectos que nele surgem como
símbolos, que exprimem, em geral, desejos inconscientes (um símbolo é
aquilo que faz as vezes de, toma o lugar de). O que se verifica, a este respeito,
na terapia psicanalítica? O paciente descreve o conteúdo manifesto, consci-
ente, do sonho; o psicanalista procura interpretar e decifrar o seu significado
escondido, inconsciente, isto é, desocultar o seu conteúdo latente, conside-
rando, para esse efeito, que o que se passa no sonho simboliza ou é a mani-
festação simbólica de forças, impulsos e desejos que escapam à nossa
consciência e que a incomodariam.
1.3. Qual o papel da resistência
na metodologia psicanalítica?
Intervindo o menos possível, escutando e anotando o que o paciente
descreve acerca da sua vida real e dos seus sonhos, o analista também está
atento a súbitas mudanças de assunto, a silêncios inesperados, a reacções
ríspidas do tipo “Isso não tem importância!” ou “Só estou para aqui a dizer
disparates!”. Porquê tal atenção? Porque, segundo Freud, esses comporta-
mentos são o sinal de que o paciente está a aproximar-se da recordação de
acontecimentos importantes, potencialmente “perigosos”, e que, por isso,
mecanismos de defesa tentam mantê-los inconscientes, ocultos.
Freud deu o nome de resistência a esta tendência para evitar o con-
fronto com assuntos “ameaçadores”. A resistência é um conjunto de
manobras defensivas em grande parte inconscientes destinadas a manter na
penumbra acontecimentos e conflitos perturbadores.
No entender de Freud, a resistência é uma “espada de dois gumes”. Por
um lado, opõe-se ao esforço terapêutico, retarda o seu progresso, podendo
conduzir a um impasse (muitos pacientes têm grande dificuldade em aceitar
as interpretações do psicanalista e abandonam a terapia ou passam a faltar
frequentemente e a denotar falta de colaboração); por outro lado, onde há
resistência há agitação emocional, que assinala a eventual chegada à consci-
ência de algo até então reprimido e recalcado no Inconsciente (não há fumo
sem fogo!).
A tarefa do analista consistirá em tornar compreensível ao paciente o
fenómeno da resistência de modo que participe com empenho na libertação
das suas tensões e no esforço de compreensão de si mesmo.
1.4. Qual o papel da transferência
na metodologia psicanalítica?
A relação do paciente com o analista é outro aspecto importante da
terapia psicanalítica. O paciente pode, a certa altura, começar a relacionar-se
com o terapeuta como se ele fosse um pai excessivamente protector, uma
mãe intolerante e demasiado crítica, um irmão detestável, etc., etc.
Acontece também com frequência que o analista seja objecto de amor
e de afecto. Freud considerou sempre que o psicanalista não é o real alvo
destes sentimentos. É um alvo substituto. Os pacientes transferem para o
analista sentimentos característicos da sua relação com pessoas significati-
vamente importantes (pai, mãe, irmãos, etc.). Tal como a resistência, a trans-
ferência pode ter consequências positivas e negativas.
Resistência
A tentativa de o paciente
bloquear o tratamento ao
evitar, inconscientemente, o
“encontro” com o aconteci-
mento crucial.
Transferência
Processo mediante o qual o
paciente transfere para o psi-
canalista sentimentos que na
infância tinham por objecto
pessoas importantes (especi-
almente os pais).
EXEMPLO DE TERAPIA PSICANALÍTICA:
O CASO DO HOMEM DOS RATOS
Um dos casos mais famosos e ilustrativos da terapia psicanalítica é o
de um homem de 29 anos que, de acordo com o caso, Freud denominou de
Homem dos Ratos. Este paciente consultou Freud devido a vários medos,
obsessões e comportamentos compulsivos que se manifestavam há já seis
anos e o haviam impedido de completar os estudos universitários e uma
carreira profissional. Um dos mais reveladores sintomas consistia numa fan-
tasia obsessiva com uma horrível tortura aplicada ao seu pai e a uma mulher
que o Homem dos Ratos cortejava: um grupo de ratos esfomeados agarra-
vam-se às nádegas das vítimas abrindo caminho à dentada através das vias
naturalmente disponíveis. Freud utilizou esta fantasia juntamente com ou-
tros dados para interpretar os problemas, melhor dizendo, os sintomas do
Homem dos Ratos.
Segundo Freud, a causa imediata das perturbações comportamentais
do Homem dos Ratos era um conflito sentimental: casar ou não com a mu-
lher que era sua namorada desde os 20 anos. Incapaz de, conscientemente,
tomar uma decisão, permitira ao seu Inconsciente “resolver” o conflito tor-
nando-o demasiado doente (produzindo os seus sintomas neuróticos) para
completar os estudos e iniciar uma profissão (que eram pré-requisitos para
o casamento).A causa profunda, de acordo com a interpretação freudiana,
era um conflito edipiano inconsciente, com origem na primeira infância, tra-
duzido numa relação de amor e ódio em relação ao pai. Estas duas causas
estavam ligadas. O conflito do Homem dos Ratos acerca do casamento era
uma reencenação, uma reactualização simbólica dos sentimentos de amor e
ódio a respeito do pai. Casar com a namorada seria uma expressão de
ódio, não casar seria um acto de amor em relação ao pai.
A conexão entre os dois conflitos fora, no entender de Freud, refor-
çada pela morte do pai pouco depois de o Homem dos Ratos ter come-
çado a relação sentimental com a mulher em questão. Conhecendo a
oposição do pai ao namoro, o Homem dos Ratos inconsciente e irracional-
mente acreditou que causara a morte do pai ao manter a relação que este
detestava. Contudo, também imaginara inconscientemente e de modo
irracional que o seu pai continuava vivo e que poderia matá-lo outra vez se
casasse. Entre os vários indícios que conduziram Freud às referidas conclu-
sões destacam-se os seguintes:
• Em dado momento da terapia, Freud pediu ao Homem dos Ratos para
associar livremente o conceito “Ratos” (Ratten, em alemão) e imediata-
mente o paciente pronunciou Ratten que em alemão significa “dinheiro” e
também “índices” da Bolsa. O Homem dos Ratos havia previamente men-
cionado que a namorada tinha pouco dinheiro e que o pai desejava que ele
casasse com uma prima rica. Estes factos sugeriram a Freud que a obses-
siva fantasia dos ratos se relacionava com a oposição do pai ao namoro.
• Noutro momento da terapia, o Homem dos Ratos descreveu o relato
materno de um acontecimento que ocorrera quando ele tinha 4 anos. O
pai batera-lhe porque ele mordera a sua ama. O rapaz respondeu com
uma violenta descarga de inúmeras palavras agressivas. Tão surpreen-
dente foi esta reacção que o pai ficou especado e boquiaberto, nunca
mais lhe voltando a bater. Para a análise freudiana, este incidente possuía
grande significado. Segundo Freud, morder a ama era, para o rapaz, um
acto de natureza sexual e o castigo físico imposto pelo pai contribuíra
para o duradouro receio que o Homem dos Ratos desenvolvera pela
reacção do pai aos seus impulsos sexuais. Ao mesmo tempo, o seu apa-
rente poder sobre o pai – a sua raiva fizera com que o pai parasse e dei-
xasse de lhe bater – ajudou a fixar no Inconsciente o temor de que
poderia matar o pai zangando-se com ele, contrariando-o. Freud aper-
cebeu-se de ligações simbólicas directas entre o incidente infantil e a fan-
tasia obsessiva e horrível com os ratos: os ratos, mordendo e destruindo
o seu pai e a sua namorada, simbolizavam outra criatura pequena e que
também mordia – o pequeno rapaz que, outrora, mordera a sua querida
ama e, simbolicamente, mediante palavras agressivas, o próprio pai.
• O processo da transferência ocorreu igualmente durante a terapia. O
Homem dos Ratos descreveu a Freud uma fantasia em que o analista (Freud)
queria que o paciente casasse com a sua filha. No sonho, a filha de Freud
surgia sem olhos. Em seu lugar, estavam duas manchas cinzentas redondas.
Freud interpretou este último elemento como simbolizando dinheiro e a
fantasia como reconstrução simbólica do conflito interno do paciente, sur-
gindo o analista no lugar do pai que o pressionava para casar com uma
prima rica.
•A certa altura da terapia – que Freud considerou como o momento deci-
sivo –, o Homem dos Ratos saltou do sofá onde estava recostado durante
a sessão psicanalítica e começou furiosamente a insultar Freud. Reflectindo
posteriormente sobre este incidente, o Homem dos Ratos lembrou-se
de que a sua súbita fúria era acompanhada pelo medo de que Freud lhe
batesse e de que saltara para se defender.
A partir deste momento da análise, foi fácil convencer o paciente a
partilhar a interpretação de Freud: os seus padecimentos actuais tinham
origem naquele incidente de infância, quando, fisicamente punido pelo pai,
reagiu com tremenda agressividade verbal. Esta experiência de transferên-
cia ajudou o Homem dos Ratos a superar a resistência à ideia de que temia
e detestava o pai. A aceitação consciente destes sentimentos conduziu,
segundo Freud, à cura dos sintomas neuróticos. Numa sentida nota de
rodapé ao caso, Freud acrescentou que o Homem dos Ratos viveu saudável
por pouco tempo. Morreu pouco depois da cura nas trincheiras da Primeira
Guerra Mundial.”
[Peter Gray, Psychology, Worth, 2.a edição pp. 660-661, adaptado]
AC TIVIDADE 1
Assinale as afirmações verdadeiras (V) ou falsas (F).
Justifique a sua opção.
1. A psicanálise é uma terapia biomédica.
2. Na terapia psicanalítica, o paciente deve estar disposto a encarar os
seus problemas de um ponto de vista psicológico e a falar de acon-
tecimentos da sua vida, das suas memórias e sentimentos de forma
minuciosa e sem vergonha, confessando-se sem qualquer entrave e
autocensura.
3. Uma das condições do sucesso da terapia psicanalítica é que o
paciente se deixe hipnotizar.
4. A ideia básica do processo denominado livre associação é a de que o
material inconsciente pode ser alcançado através de uma associação
encadeada de ideias.
5. Os sonhos representam directamente conflitos e desejos incons-
cientes, sendo por isso a via real de acesso ao Inconsciente.
6. Os elementos conscientes de um sonho constituem o seu conteúdo
latente.
7. Desocultar desejos e sentimentos reprimidos é tarefa que consome
tempo, mas que se alcança com relativa facilidade.
8. Na terapia psicanalítica, o papel activo pertence ao terapeuta.
9. A transferência é uma forma de projecção.
10. A transferência é um processo crucial da terapia psicanalítica.
2.As psicoterapias humanistas
Ao contrário das psicoterapias de inspiração psicanalítica, as tera-
pias humanistas dão mais importância aos pensamentos e sentimentos
conscientes do que aos aspectos inconscientes da mente, ao presente do
que ao passado. O seu objectivo não é tanto o de curar doenças reduzindo
tensões devidas a recalcamentos, mas o de promover o crescimento pessoal e
a autocompreensão da pessoa que solicita terapia. Há duas formas de psico-
terapia humanista: a terapia centrada na pessoa (desenvolvida por Carl
Rogers – 1902-1987) e a terapia da Gestalt (criada por Frederick Perls –
1893-1970).
2.1. Carl Rogers: A terapia centrada na pessoa
Rogers acreditava que os seres humanos são naturalmente bons,
mas que a sociedade exige de nós excessivo conformismo. Habitualmente
não recebemos louvor e estima, a não ser que correspondamos às expectativas
dos outros, a não ser que sejamos como eles querem ou esperam que seja-
mos. Em suma, vivemos em geral demasiado preocupados com as expectati-
vas do meio social. Quando não nos consideramos à altura dessas expecta-
tivas, dá-se uma redução da nossa auto-estima e da nossa crença na possibi-
lidade de sermos queridos e amados pelo que somos. Isto significa que há
uma dissonância entre o nosso eu ideal – o que desejamos ser de acordo com
as expectativas dos outros – e o nosso eu real – o que realmente somos. A
necessidade de terapia surge quando uma pessoa – e Rogers nunca utiliza o
termo paciente – dá mais importância às avaliações e opiniões dos outros
sobre si do que às suas próprias. Segundo Rogers, as pessoas muitas vezes
distorcem os seus próprios sentimentos e desejos, formam uma falsa ima-
gem de si para responderem à pressão das expectativas sociais, submetem-se
para serem aceites a juízos impostos a partir do exterior. O principal objec-
tivo da terapia humanista é o de ajudar as pessoas a tornarem-se verdadeira-
mente conscientes dos seus sentimentos e desejos, do que realmente são.
Devem ser elas mesmas, ganhar controlo sobre as suas próprias vidas, em vez
de agirem meramente segundo o que os outros esperam delas e julgam que
elas devem ser.
O que é preciso em termos muito gerais para que a terapia possa
esperar algum sucesso? Dado que a sociedade pressiona o indivíduo e que os
contextos sociais são em muitos casos fonte de desconforto, é preciso criar
um ambiente terapêutico acolhedor, que aceite as pessoas como elas são.
Neste sentido, o terapeuta que se centra na pessoa deve evitar desaprovar o
Carl Rogers (1902-1987), criador
da terapia centrada na pessoa.
Terapia da Gestalt
Forma humanista e directiva
de psicoterapia que procura
confrontar os pacientes com
os seus problemas emocio-
nais e fazer com que os expri-
mam adequadamente.
que esta faz ou diz em ambiente terapêutico. Rogers pensava que esta atitude
incondicionalmente positiva favorecia e fomentava a auto-estima do indi-
víduo. O terapeuta abdicava de um papel directivo, não tentando conduzir o
indivíduo a qualquer descoberta. Este devia tentar identificar-se com o cliente.
Devia limitar-se a ouvir activamente num ambiente de empatia os proble-
mas do cliente e encorajar a autonomia, a avaliação independente dos seus
actos, pensamentos e sentimentos.
2.2. Frederick Perls: A terapia da Gestalt
Tal como a terapia centrada na pessoa, a terapia da Gestalt centra-se
no presente e na consciência, procurando que o cliente desenvolva a
consciência de si mesmo e aumente o grau de aceitação de si próprio
(fomento da auto-estima). Perls acreditava que grande parte dos problemas
psicológicos advinha do facto de o indivíduo se recusar a aceitar o que é ou
ter dificuldade em expressar os seus sentimentos e desejos. Muitas pessoas
têm medo dos juízos dos outros e isso traduz-se em comportamentos
defensivos – negamos o que somos, mascaramos o que somos para evitar o
confronto com o que os outros pensam sobre nós.
Ao contrário da terapia centrada na pessoa, esta forma de psicote-
rapia tem um carácter fortemente directivo. Muitas vezes, o terapeuta
confronta, desafia e frustra as opiniões e avaliações do seu cliente. Dá opiniões
ou sugestões acerca do problema que o seu cliente está a viver e orienta-o
na descoberta do que real e verdadeiramente pensa e sente. Uma técnica
muito usada e ilustrativa é o desempenho de papéis (role playing), uma espé-
cie de dramatização de sentimentos e conflitos ou assunção de papéis como
os de indivíduo culpado ou de criança submissa. Imaginemos que um cliente
está perturbado por um conflito com a sua mãe. O terapeuta pode reactuali-
zar ou reabrir o conflito fazendo o papel de mãe, enquanto a outra parte faz o
papel que na vida real desempenha. O cliente poderá ser encorajado a reac-
tivar os sentimentos de hostilidade em relação à figura materna, gritando,
insultando, pontapeando objectos, etc. A terapia da Gestalt defende que,
assim, será o indivíduo que vai gerir os seus conflitos, em vez de serem estes
a dominá-lo.
Embora a terapia da Gestalt seja mais directiva, deve notar-se que as
teorias humanistas referidas encorajam os indivíduos a assumirem-se e a
assumirem a responsabilidade pelas suas acções e sentimentos de modo a
compreenderem-se a si mesmos. Procuram ajudá-los a desenvolver perante
a sociedade um sentido de liberdade, tomando consciência do que estão a
fazer das suas vidas.Frederick Perls (1893-1978).
Terapia centrada
na pessoa
Forma de terapia humanista
inventada por Carl Rogers e
que procura criar, sem pres-
sionar ou dirigir o cliente, as
condições que tornem possí-
vel um real conhecimento e
aceitação de si mesmo.
AC TIVIDADE 2
Assinale as afirmações verdadeiras (V) ou falsas (F).
Justifique a sua opção.
1. A terapia humanista é uma alternativa quer à terapia psicanalítica
quer à terapia comportamentalista.
2. A terapia adoptada por Rogers centra-se nas teoria ou técnicas do
terapeuta.
3. O que distingue a terapia da Gestalt da terapia de Rogers é que só
aquela acredita que uma pessoa pode, num ambiente adequado,
ultrapassar percepções distorcidas do que é e tomar uma consciên-
cia verdadeira de si.
4. Na terapia da Gestalt, o paciente decide do que falar sem direcção
ou juízos de valor do terapeuta, sendo este mais um facilitador que
ajuda o cliente no sentido da mudança desejada.
5. Segundo a terapia da Gestalt, perder contacto com as nossas emo-
ções e a nossa «voz interior» impede o desenvolvimento de um sen-
tido de auto-aceitação.
3.Psicoterapias comportamentais
As psicoterapias comportamentais usam determinados princípios esta-
belecidos por teorias da aprendizagem como as de Watson e Skinner para
reduzir ou eliminar comportamentos desadaptados.
As psicoterapias comportamentais distinguem-se das terapias huma-
nistas e psicanalíticas pelas seguintes razões:
a) Ao contrário das terapias psicanalíticas, não acreditam que o com-
portamento seja influenciado por conflitos inconscientes.
b) Ao contrário das terapias humanistas, não encorajam as pessoas
a desenvolver uma percepção correcta dos seus sentimentos e
pensamentos.
Qual é a razão básica desta dupla rejeição? A crença de que são es-
tímulos externos como reforços e punições e não estados internos como
emoções e pensamentos que provocam comportamentos adaptados ou
desadaptados. Os comportamentos desadaptados não são o sinal ou o sin-
toma de problemas internos. Os próprios comportamentos são o sintoma dos
problemas.Assim, os indivíduos podem tomar consciência das razões por que
andam deprimidos e, contudo, continuarem deprimidos. A depressão é uma
resposta observável que está ligada directamente a aspectos observáveis do
meio (mau ambiente familiar, por exemplo, ou fracasso profissional).
Vejamos algumas técnicas usadas nesta modalidade de psicoterapia.
3.1. O condicionamento aversivo
ou terapia da aversão
Como tratar um problema de alcoolismo? O tratamento consiste em
associar estímulos segundo os princípios do condicionamento clássico.
Damos a um alcoólico uma droga que produz náuseas. Um pouco antes de a
droga começar a fazer efeito, damos ao paciente uma razoável quantidade
de uma bebida alcoólica.Assim, o gosto e o cheiro da bebida são seguidos por
náuseas.Ao fim de algum tempo, o emparelhamento sucessivo da droga indu-
tora de náuseas e da bebida alcoólica faz com que ver ou cheirar a bebida
alcoólica induza náuseas e provoque aversão. O álcool deixará de ser asso-
ciado a algo de agradável.
Terapias
comportamentais
Conjunto de técnicas tera-
pêuticas que procuram mo-
dificar através da aprendiza-
gem pensamentos, senti-
mentos e comportamentos
desadaptados. Quer os com-
portamentos sadios quer os
comportamentos doentios
estão ligados a condiciona-
mentos e aprendizagens. São
algo aprendido.
Terapia aversiva
Técnica comportamentalista
usada para condicionar as
pessoas a reagirem com aver-
são ou desagrado a substân-
cias prejudiciais.
3.2. A dessensitização sistemática
Esta técnica baseia-se no condicionamento clássico e é sobretudo usada
para tratar fobias. O «antepassado» desta técnica é o contracondiciona-
mento, inventado nos anos 40 do século XX por Mary Cover Jones. O autor
usou essa técnica para reduzir o medo que uma criança sentia na presença
de coelhos. Começou por apresentar a uma criança chamada Peter a sua co-
mida favorita. Algum tempo depois, colocou próximo da criança uma caixa
que tinha lá dentro um coelho. A pouco e pouco, as sensações agradáveis
causadas pela sua comida favorita passaram a estar associadas à presença do
coelho e o medo que este tipo de animal causava diminuiu acentuadamente.
Hoje em dia, esta técnica foi substituída pela dessensitização sistemá-
tica, inventada pelo psiquiatra Joseph Wolpe, em 1950. Esta técnica terapêu-
tica tem duas fases. Numa primeira fase, que dura várias sessões, ensina-se
ao paciente a técnica do relaxamento muscular que lhe permita atingir um
estado de calma e tranquilidade até aí desconhecido. De seguida, procede-se
à progressiva exposição ao estímulo que causa ansiedade e medo. Essa expo-
sição pode ser realizada através da imaginação ou real. Actualmente, a exposi-
ção a objectos e situações reais é considerada mais efectiva e eficaz do que a
vivência de situações imaginárias. O processo em geral consiste em submeter
o paciente a situações imaginárias ou reais cada vez mais desagradáveis e
desconfortáveis. Imaginemos que alguém sofre da fobia das alturas. O tera-
peuta começará por pedir ao paciente que relaxe imaginando que está à janela
do segundo andar de um prédio, depois à janela do terceiro, do quarto, do
quinto e assim sucessivamente até conseguir imaginar, sem se sentir ansioso,
que está na varanda do último andar de um arranha-céus. Em situações reais
relativas a pessoas com medo de cobras, pode começar-se por pedir que
procurem a palavra cobra no dicionário, que leiam a sua definição e terminar
o processo visitando a secção de répteis no jardim zoológico. Pretende-se
que, após o tratamento, os pacientes que se sentem muito ansiosos quando
pensam acerca de um objecto (cobra), quando estão perto de uma coisa ou
quando vivem uma situação (viajar de avião) possam vencer essas fobias.
3.3. A economia da recompensa (token economy)
Em alguns hospitais psiquiátricos, os pacientes tendem a perder boa par-
te das suas aptidões sociais. Referimo-nos a competências tais como saudar
outra pessoa e responder quando se é interpelado.Trata-se de formas de com-
portamento básicas e necessárias para o dia-a-dia, seja onde for. Os psicólo-
gos descobriram que é importante recompensar os pacientes imediatamente
depois de exibirem os comportamentos desejáveis. Para o fazerem, usam uma
técnica terapêutica designada economia da recompensa ou do prémio. O
comportamento desejado é recompensado com uma rifa ou uma senha que
pode depois ser trocada por reforços ou recompensas apetecíveis (doces,
dinheiro ou uma ida ao cinema).
Dessensitização
sistemática
Técnica comportamentalista
usada para tratar fobias e ou-
tros problemas de ansiedade e
que consiste em emparelhar
a gradual exposição a uma
situação que provoca ansie-
dade com o relaxamento.
Economia
da recompensa
Técnica comportamentalista
em que os pacientes partici-
pantes ganham valiosos pré-
mios ou recompensas ao en-
veredarem por comporta-
mentos definidos como dese-
jáveis.
3.4. A modelação
As terapias comportamentais até agora estudadas não faziam referência
a processos cognitivos como pensamentos e emoções no seu esforço para
modificar comportamentos desajustados. Não é o caso da terapia denomi-
nada modelação. Esta é considerada uma das formas mais eficazes de
modificação comportamental. Trata-se de, em condições controladas e pro-
tegendo devidamente o paciente, o orientar para uma progressiva aproxima-
ção ao estímulo ou situação que provoca ansiedade e medo. Como conse-
gui-lo? Imaginemos que tenho medo de cobras ou de cães. A modificação
comportamental consistiria em, ao longo de várias sessões, observar outras
pessoas a lidarem com tais animais sem que nada de mal lhes acontecesse.
Ser-me-ia depois solicitado que fizesse o mesmo. Bandura e os seus colabo-
radores mostraram que esta técnica – que corresponde a um acto tão
espontâneo e frequente na nossa vida quotidiana – pode ter taxas de
sucesso elevadas na redução do medo.
Por que razão estão aqui presentes factores internos de tipo cognitivo?
Porque o paciente, através da modelação, vai desenvolvendo autoconfiança
ou crença na sua capacidade de imitar o que observou e assim ser bem suce-
dido. Por outras palavras a auto-eficácia é a crença de que podemos dominar
a situação e, à semelhança do que aconteceu com o modelo observado,
podemos conseguir resultados positivos. Conforme vamos sendo bem suce-
didos nas progressivas aproximações à solução do problema, estes pequenos
sucessos tornam-se intrinsecamente motivantes. Bandura acreditava que a
auto-eficácia era a chave de uma terapia com bons resultados.
Modelação
Técnica terapêutica em que
se ensina uma pessoa a fazer
algo mediante a observação
e progressiva imitação de um
modelo. O terapeuta modela
o comportamento desejado e
gradualmente induz o paci-
ente a nele participar.
Terapias cognitivas
Terapias que tentam ensinar
as pessoas a pensar de forma
mais adaptada à realidade
através de uma interpretação
racional e razoável das suas
experiências e dos factos da
vida. Trata-se de ajudar as
pessoas a comportarem-se
de forma mais ajustada à
realidade mudando as suas
crenças e ideias.
AC TIVIDADE 3
Assinale as afirmações verdadeiras (V) ou falsas (F).
Justifique a sua opção.
1. Para as terapias comportamentalistas, adoptamos comportamentos
desajustados em virtude de condicionamentos.
2. Para as terapias comportamentalistas, como todo o condiciona-
mento está ligado ao ambiente que envolve o indivíduo, é preciso
agir sobre o indivíduo e também sobre o contexto social e familiar
que o envolve.
3. As terapias comportamentais dão especial importância à aprendiza-
gem como método de tratamento.
4. Na técnica da modelagem, a pessoa que sofre de uma fobia deve
observar o comportamento de outra pessoa que não sofre da
mesma fobia e ser capaz de manipular ou de enfrentar o estímulo ou
objecto que provoca ansiedade.
5. Para as terapias comportamentalistas em geral, trata-se de compre-
ender os problemas do paciente, procurando identificar a situação ou
o estímulo que está na origem do comportamento doentio ou pelo
menos indesejável, de identificar as circunstâncias que o mantêm e
de agir em consonância com esses dados.
6. A dessensitização sistemática é uma forma de tratamento para
fobias em que se ensina ao paciente técnicas de relaxamento e se
lhe pede para imaginar ou se aproximar real e gradualmente das
situações que o amedrontavam.
7. João rói as unhas e continua em idade pouco apropriada a chuchar
no dedo. Os pais decidem colocar um líquido apimentado nas pontas
dos dedos para eliminar ou reduzir tal comportamento. Estão a
utilizar a terapia da aversão.
Terapias cognitivas
Terapias que tentam ensinar
as pessoas a pensar de forma
mais adaptada à realidade
através de uma interpretação
racional e razoável das suas
experiências e dos factos da
vida. Trata-se de ajudar as
pessoas a comportarem-se
de forma mais ajustada à
realidade, mudando as suas
crenças e ideias.
4.Psicoterapias cognitivas
As terapias cognitivas baseiam-se na seguinte crença: são, em
grande parte, as nossas cognições e pensamentos que estão na origem de
comportamentos desajustados e de problemas psicológicos. Imaginemos
que Henrique, jovem de 12 anos, julga que é um inútil. Pensa que é um fra-
casso quer para os seus professores quer para os seus pais por não ter ainda
decidido a sua vida profissional. Mas na realidade exagera esses aspectos
negativos e esquece os positivos. O seu tipo de comportamento é muito
comum em indivíduos que sofrem de depressão.
O objectivo das terapias cognitivas é o de mudar cognições distorcidas
(«Não presto», «Não valho nada», «Ninguém gosta de mim pelo que sou,
mas só pelo que tenho») de modo a eliminar comportamentos desadaptados.
O alvo das terapias cognitivas são os pensamentos e crenças conscientes
dos pacientes, utilizando uma abordagem directiva muito vincada na
relação com o paciente.
4.1. A terapia racional-emotiva de Albert Ellis
Ellis acreditava que desenvolvemos perturbações psicológicas por
causa das nossas crenças, em especial as que são irracionais e autodestruti-
vas.A terapia proposta por Ellis baseia-se na famosa teoria ABC das emoções.
A designa o acontecimento Activante que se dá na vida da pessoa, como, por
exemplo, um divórcio conturbado, um despedimento ou o fracasso no acesso
à universidade. B é a crença (Belief) que se forma na mente do paciente. C é
a consequência emocional dessa crença. O terapeuta trabalha com o paciente
para, no caso de isso lhe parecer verdadeiro, o convencer de que o factor B,
responsável pela passagem de A a C, resulta de uma percepção distorcida da
realidade. Suponhamos que um indivíduo acredita irracionalmente que todas
as pessoas devem gostar dele e se sente infeliz quando alguém não corres-
ponde a esse desejo. O primeiro passo consistirá em tentar convencê-lo de
que é descabido querer que todos gostem de nós e de que é normal que nem
toda a gente goste de nós. O terapeuta desafia activamente aquilo que o
paciente pensa. Conseguindo-se que o paciente admita a irracionalidade da
sua crença, trata-se de o libertar dela para que esses pensamentos não ocor-
ram de novo. Escusado será dizer que um longo trabalho espera o terapeuta
e o paciente. As nossas crenças tornam-se muitas vezes hábitos e manifes-
tam-se automaticamente, a não ser que enfrentem uma resistência activa.
Vejamos outro exemplo: Alberto vê um anúncio de emprego no jornal e fica
entusiasmado porque acredita que aquele é o emprego certo para si e ele a
pessoa certa para o lugar. Candidata-se imediatamente. A partir daí, espera
todos os dias que o telefone toque a convocá-lo para uma entrevista. Con-
Crenças irracionais
mais frequentes
segundo Ellis
1. Devemos ter amor sincero
e sermos sempre objecto de
aprovação por parte das pes-
soas que são significativas;
2. Temos de provar a toda a
hora que somos competen-
tes ou devemos ter muita
competência nalguma coisa;
3. A vida é aterradora, horrí-
vel ou catastrófica quando as
coisas não correm do modo
que queremos.
Aaron Beck e Albert Ellis, dois dos
principais proponentes da terapia
cognitiva e ambos psicanalistas
desencantados.
tudo, algumas semanas mais tarde recebe uma carta informando-o de que o
seu perfeito emprego fora oferecido a outro candidato. Fica devastado.
Ellis argumentaria que Alberto não deveria ter ficado infeliz e depri-
mido por não ter conseguido o emprego nem interpretar a situação como si-
nal de falta de capacidade. Deve antes pensar que havia dezenas de candi-
datos ao lugar com muita experiência e competência. Mais, deve convencer-
-se de que a empresa que não o contratou perdeu um valioso empregado.
EXEMPLO DE CRENÇA IRRACIONAL
E ATITUDE TERAPÊUTICA DE ALBERT ELLIS
Um jovem queixa-se de ser um fracasso e dá como garantido que não
vai entrar na faculdade que deseja porque esta exige altas classificações. Eis
um excerto da sessão terapêutica:
Ellis – A faculdade em que deseja entrar exige médias elevadas.
Jovem – Sim, muito elevadas. Não vou entrar, não vou conseguir.
Ellis – Diga-me que resultados tem obtido.
Jovem – Nos dois anos anteriores obtive média de 19 a todas as
disciplinas.
Ellis – É uma óptima média. O que aconteceu este ano para estar
tão pessimista?
Jovem – Nas classificações resultantes dos exames obtive 3 notas
de 19 e duas de 18.
Ellis – Qual é a média necessária para ingressar?
Jovem – 18,7.
Ellis – Repare bem na média que tem. Não é claro que tem mais do
que o suficiente para entrar? Parece extremamente óbvio.
Jovem – (aparentemente surpreendido) A sério?
São crenças irracionais – contrárias à razão e à lógica – que conduzem
a comportamentos desajustados e causadores de depressão como a que
apresentava este jovem. Este jovem julgava-se erradamente um incapaz – sem
competência para atingir um objectivo. Outras pessoas apresentam desejos
irracionais do tipo tudo ou nada,como,por exemplo:«Quero que toda a gente
goste de mim e me aprecie sempre». É evidente a irracionalidade deste de-
sejo, que conduz directamente na pessoa deprimida a uma crença irracional:
como não se pode agradar a gregos e troianos, a pessoa acaba por concluir
irracionalmente, devido à referida distorção cognitiva, que ninguém gosta dela.
Assim, o método terapêutico de Ellis ensina os seus pacientes a detecta-
rem crenças que distorcem a realidade e são autoderrotantes, desafia essas
crenças (as interpretações de determinadas situações) e incita-os a desen-
volverem crenças alternativas racionais, mais próximas da realidade e mais
favoráveis à auto-estima do indivíduo.
Terapia
racional-emotiva
Forma de psicoterapia criada
por Albert Ellis na qual o tera-
peuta desafia e questiona as
crenças irracionais dos seus
pacientes.
Terapia cognitiva
de Beck
Forma de terapia em que o
terapeuta colabora com o
paciente para descobrir pa-
drões de pensamento nega-
tivos (distorções cognitivas)
que impedem um funciona-
mento psicológico saudável.
4.2. A terapia cognitiva de Beck
Aaron Beck é um psicoterapeuta americano que se especializou no tra-
tamento de depressões. Estava convicto de que as pessoas deprimidas têm
uma visão negativa de si mesmas, do seu mundo e do seu futuro. É frequente
interpretarem os acontecimentos de forma distorcida. São muito dadas à auto-
censura. As interpretações distorcidas que fazem das situações, são alimen-
tadas por «pensamentos automáticos», ou seja, por frases de teor negativo
que constantemente repetem a si mesmos ( «Não sou capaz de fazer amigos»)
e que ocorrem mesmo que sejam contrárias à realidade objectiva. Há um pro-
blema com esses pensamentos automáticos: são rapidamente aceites pela
pessoa deprimida e são repetidos tantas vezes que se tornam parte do habi-
tual modo de pensar do indivíduo. Por outro lado, apesar de provocarem
emoções desagradáveis, não temos geralmente consciência plena da sua
influência nas nossas reacções emocionais.
UM EXEMPLO DA TERAPIA DE AARON BECK
Uma mulher apresenta-se deprimida, dizendo que não presta para
nada porque o seu marido já não lhe dá atenção. Eis um excerto da entre-
vista com Beck:
Mulher – Sinto-me péssima. Sem o João não sou nada.
Beck – Fale-me do seu casamento.
Mulher – Horrível. Sempre a discutir por tudo e por nada.
Beck – E sem esse casamento, se ele acabasse, sentir-se-ia perdida,
sem valor?
Mulher – Não sou nada sem o João.
Beck – Diga-me como era antes de conhecer e casar com o João.
Também se sentia sem valor?
Mulher – Não. Bem pelo contrário. Sentia-me óptima, era muito
apreciada.
Beck – Tente pensar correctamente no significado dessa diferença.
Antes de conhecer o João muita gente gostava de si – e suponho
que também posso referir-me a namorados…
Mulher – Claro, isso era verdade.
Beck – Pense bem nisso.
Mulher – Se antes de conhecer o João tinha uma boa auto-estima e
me considerava valorizada, será que faz sentido dizer que sem
ele não sou nada? É isso que quer que eu pense? Devo estar a
reduzir a minha vida a uma pessoa.
A terapia de Beck é mais suave do que a de Ellis. Não informa imedia-
tamente os seus pacientes sobre os seus pensamentos desajustados. De uma
forma que alguns comentadores consideram socrática, tenta que sejam os
pacientes a descobrir esses pensamentos e a corrigi-los. Prefere este proce-
dimento à terapia directiva porque torna possível que os pacientes se aper-
cebam de que podem corrigir pensamentos inadequados e não dependerem
sempre do psicoterapeuta.
VARIEDADES DE TERAPIAS PSICOLÓGICAS (PSICOTERAPIAS)
TERAPIA
PSICANALÍTICA
Forma de psicoterapia fundada e desenvolvida por Sigmund
Freud e cujo objectivo é trazer as influências inconscientes do
nosso comportamento ao nível da consciência. As técnicas fun-
damentais são a associação livre e a interpretação dos sonhos. Os
processos que a acompanham são a resistência e a transferência.
A terapia é desde o início demorada e em certa medida onerosa.
Freud observou, nos seus pacientes, que “reviver” um inci-
dente traumático e perturbador, normalmente com origem na
infância, produzia uma espécie de alívio emocional. Por outras
palavras, esse incidente doloroso perdia muita da força e inten-
sidade que tinha. A sua influência no comportamento da pessoa
tornava-se bem menor, pelo que uma vida mais saudável era, a
partir daí, possível.
TERAPIAS
HUMANISTAS
Terapias que acentuam a importância do presente e não do
passado, da consciência e não do Inconsciente. Partem da con-
vicção de que cada indivíduo dotado de um potencial próprio de
crescimento pode resolver os seus problemas desde que desen-
volva um genuíno conhecimento de si. Centram-se mais na pro-
moção do desenvolvimento do indivíduo do que no tratamento
de perturbações comportamentais.
As duas formas mais conhecidas são a terapia centrada na
pessoa de Carl Rogers, que pretende encaminhar o cliente para
a sua verdadeira auto-descoberta de uma forma não directiva, e
a terapia da Gestalt de Perls, que se baseia numa atitude mais
directiva, que pode incluir o confronto com as ideias do cliente e
a frustração de certos comportamentos.
VARIEDADES DE TERAPIAS PSICOLÓGICAS (PSICOTERAPIAS)
TERAPIAS
COMPORTAMENTAIS
Terapias que visam mudar comportamentos problemáticos
partindo do princípio de que foram aprendidos e que podem por
isso ser desaprendidos, desde que se criem condições individuais
e sociais que o permitam. O seu modelo teórico é, em parte, o
comportamentalismo ou behaviorismo. Trata-se de uma reedu-
cação ou de uma re-aprendizagem de comportamentos adap-
tados.
Entre várias técnicas utilizadas, salientam-se a terapia
aversiva, a dessensitização sistemática, a economia da
recompensa e a modelação, sendo que esta é uma técnica
psicoterapêutica de tipo cognitivo-comportamental.
TERAPIAS
COGNITIVAS
Formas de psicoterapia que partem do princípio de que cog-
nições erradas – crenças irracionais e padrões de pensamento
distorcidos – constituem a razão de ser dos problemas de
funcionamento mental e comportamental dos indivíduos.
As duas formas de psicoterapia cognitiva são a terapia
racional-emotiva de Ellis e a terapia cognitiva de Beck. A
terapia racional-emotiva de Albert Ellis é um tipo de psico-
terapia na qual o terapeuta desafia e questiona as crenças
irracionais dos seus pacientes, sendo por isso mais directiva do
que a de Beck.
A terapia de Beck é uma forma de terapia em que o tera-
peuta colabora com o paciente para descobrir padrões de pensa-
mento negativos (distorções cognitivas) que impedem um
funcionamento psicológico saudável.
AC TIVIDADE 4
Assinale as afirmações verdadeiras (V) ou falsas (F).
Justifique a sua opção.
1. O objectivo das terapias cognitivas é o de ajudar as pessoas a con-
trolarem distúrbios emocionais e comportamentais como a ansie-
dade e a depressão, ensinando ou promovendo formas mais ade-
quadas de pensar sobre as suas experiências e de as interpretar.
2. A psicoterapia cognitiva de Albert Ellis é mais directiva do que a de
Aaron Beck.
3. A terapia racional-emotiva de Ellis acredita que os pacientes podem
ultrapassar os seus problemas psicológicos maximizando as crenças
racionais e minimizando as crenças irracionais.

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Algumas formas de psicoterapia

  • 1. 1. Definir psicoterapia ou tratamento psicoterapêutico. 2. Reconhecer diferentes formas de psicoterapia. 3. Caracterizar a terapia psicanalítica identificando as suas técnicas e processos. 4. Explicitar a importância da associação livre, da interpreta- ção dos sonhos, da resistência e da transferência no pro- cesso terapêutico psicanalítico. 5. Caracterizar as terapias comportamentais em geral. 6. Identificar as técnicas terapêuticas mais frequentemente usadas no processo terapêutico comportamental. 7. Caracterizar as terapias humanistas. 8. Distinguir a terapia centrada na pessoa da terapia da Gestalt. 9. Caracterizar as terapias cognitivas. 10. Distinguir a terapia racional-emotiva de Ellis da terapia cognitiva de Beck. Psicoterapia, terapia psicanalítica, livre associação, interpretação dos sonhos, resistência, transferência, psicoterapias humanistas, terapia centrada na pessoa, atitude incondicionalmente positiva, empatia, terapia da Gestalt, psicoterapias comportamentais, tera- pia da aversão, dessensitização sistemática, economia da recom- pensa, modelação, psicoterapias cognitivas, terapia racional-emo- tiva, terapia cognitiva de Beck, psicoterapia directiva e não directiva. 1. A terapia psicanalítica. 1.1. OqueentendeFreudporlivreassociação? 1.2. Em que consiste a interpretação dos sonhos e qual a suaimportâncianoquadrodaterapiapsicanalítica? 1.3. Qual o papel da resistência na metodologia psicanalí- tica? 1.4. Qual o papel da transferência na metodologia psicana- lítica? 2. As psicoterapias humanistas. 2.1. CarlRogers:Aterapiacentradanapessoa 2.1. FrederickPerls:AterapiadaGestalt. 3. Psicoterapias comportamentais. 3.1. Ocondicionamentoaversivoouterapiadaaversão. 3.2. Adessensitizaçãosistemática. 3.3. Aeconomiadarecompensa(token economy) 3.4. Amodelação. 4. Psicoterapias cognitivas. 4.1. Aterapiaracional-emotivadeAlbertEllis. 4.2. AterapiacognitivadeBeck
  • 2. Psicoterapia Termo que descreve todo e qualquer tratamento em que um profissional treinado uti- liza técnicas psicológicas para ajudar alguém que pre- cisa de assistência, dada a sua desadaptação emocional e comportamental. Um método catártico Segundo Freud, esta “catarse” ou libertação de tensões e ansiedades é possível medi- ante a consciencialização de um conflito doloroso. Freud observou, nos seus pacientes, que “reviver” um incidente traumático e perturbador produzia uma espécie de alí- vio emocional. Por outras pa- lavras, esse incidente dolo- roso perdia muita da força e intensidade que tinha. A sua influência no comportamento da pessoa tornava-se bem menor, pelo que uma vida mais saudável era, a partir daí, possível. Terapia psicanalítica Conjunto de técnicas e de processos em que o terapeuta tenta conduzir o paciente à origem, até aí inconsciente, dos seus males, ou seja, tenta trazer os conflitos e traumas inconscientes (recalcados) à consciência. Entende-se por psicoterapia o processo que consiste em trabalhar com pessoas com o objectivo de identificar e reduzir os seus problemas emo- cionais, melhorando a sua capacidade de adaptação e de resposta ao meio e aos desafios deste. A psicoterapia envolve normalmente o diálogo entre a pessoa que é objecto da terapia e o terapeuta. Iremos fazer um breve percurso por algumas formas de terapia psicoló- gica mais usadas. Há várias formas de psicoterapia: terapia individual, em que o psicoterapeuta trabalha com uma pessoa de cada vez; terapia de grupo, que assume várias formas e em que a interacção é mais entre os elementos do grupo do que entre estes e o psicoterapeuta. As pessoas têm a possibili- dade de expressar as suas dificuldades interpessoais frente a frente (caso mais evidente nas terapias de casal e nas terapias familiares, em que se considera que o problema está mais na dinâmica do casal e da família do que nos indivíduos em si mesmos). Daremos unicamente atenção às terapias de tipo individual. 1.A terapia psicanalítica O princípio que orienta a terapia psicanalítica é o de que o paciente se pode libertar de tensões e ansiedades ao relembrar um acontecimento traumático infantil. Tomar consciência de conflitos e traumas recalcados (escondidos no Inconsciente) é condição essencial da cura. Os conflitos e incidentes mais marcantes na nossa evolução psíquica remontam, segundo Freud, à época da infância (primeira infância, sobretudo). Os conflitos característicos da primeira infância podem ser resolvidos, seguindo-se um desenvolvimento psíquico saudável. Mas, como acontece muitas vezes, podem ser mal resolvidos ou mesmo não resolvidos. Isto signi- fica que são recalcados e reprimidos, afastados para longe da nossa consciência. Que esses conflitos se tornem inconscientes não implica de modo algum que sejam desactivados ou deixem de existir. Com efeito, não se manifestando directamente ao nível da consciência, tais conflitos e incidentes traumáticos continuam a afectar o nosso comportamento e a nossa personalidade sem disso termos consciência. Quer isto dizer que se manifestam de forma indi- recta provocando perturbações psíquicas, desordens no comportamento e
  • 3. A “cura pela palavra” foi desenvolvida por Freud. A técnica da livre associação nasceu em 1892 com uma paciente chamada Elisabeth. Freud sugeriu que, deitada, fechasse os olhos e pensasse num dos sintomas de que so- fria, tentando recordar o mo- mento em que dele começou a padecer. Depois de várias tentativas sem resultado, Elisabeth lembrou-se de algo importante, mas não relacio- nado com o sintoma. Surpre- endido, Freud perguntou-lhe porque levara tanto tempo a revelar esse facto importan- te. “Podia ter dito logo, mas não pensei que fosse aquilo que você queria’’ – disse Eli- sabeth. Este episódio condu- ziu Freud a mudar a forma como conduzia as consultas. A partir de então, decidiu que o paciente devia dar livre curso às suas ideias, falar com o menor controlo possí- vel por parte do psicanalista. Nasceu assim o uso da livre associação. Livre associação Técnica psicanalítica em que o paciente diz o que lhe vem à cabeça livremente, sem auto- censura. sofrimentos físicos. Como esses conflitos e incidentes foram recalcados (tor- nam-se inconscientes), são, sem que o saibamos, a causa dos nossos actuais padecimentos físicos e psíquicos. É esta “falha” que a terapia psicanalítica, no sentido tradicional do termo, pretende colmatar. Freud estava plenamente convicto de que, à medida que o Inconsci- ente se torna consciente, o doente pode aperceber-se do modo como certos acontecimentos da sua infância determinaram o seu comportamento actual. Relembrar os traumas da infância torna o paciente capaz de resolver conflitos que não pôde resolver no passado. Primeiro, porque se apercebe de que as condições que determinaram esses conflitos já não existem (eram conflitos da infância). Segundo, porque pode, confrontando-se com essas vivências passadas, rever a atitude que tomou a seu respeito e desenvolver comporta- mentos mais saudáveis. Desocultar os traumas psíquicos inconscientes, isto é, trazê-los à luz da consciência para que o paciente lide efectivamente com eles, não é tarefa fá- cil. Tal dificuldade deve-se ao facto de o Ego ter poderosos mecanismos de defesa que bloqueiam o acesso à consciência dos conteúdos inconscientes. Para desbloqueá-los são necessárias técnicas que “enganem” ou ludibriem a vigilância do Ego. As duas técnicas são a livre associação e a interpretação dos sonhos. Além destas duas técnicas, há dois processos que acompanham a terapia psicanalítica: a resistência e a transferência. 1.1. O que entende Freud por livre associação? A livre associação é um dos princípios fundamentais da terapia psi- canalítica. Consiste no facto de o psicanalista pedir ao paciente que fale aber- tamente, de forma espontânea, dos seus desejos, recordações, pensamentos, fantasias, sonhos, por mais embaraçosos, vulgares, irrelevantes ou mesmo sem sentido que possam parecer. Sem censura e sem interrupção, o paciente deve relatar pensamentos e sentimentos tal como eles ocorrem. Constitui-se assim um puzzle cujas peças o analista, escutando atentamente, vai tentar ligar. No seu entender, o que o paciente relata e descreve, de forma desordenada e conforme lhe vem à mente, é um conjunto de pistas sobre o que se passa no Inconsciente. As livres associações, aparentemente ilógicas, “sem ponta por onde se pegue”, são expressões simbólicas de desejos, recordações e senti- mentos recalcados no Inconsciente e que estão na origem dos problemas psicológicos e físicos de que padece a pessoa psicanalisada. Para tornar mais fácil a livre associação, o paciente deve estar à von- tade: deita-se num divã ou senta-se numa cadeira confortável enquanto o analista, que fala só quando estritamente necessário, se senta fora do seu campo de visão. O analista intervém para, quando for caso disso, apresentar uma interpretação do que o paciente diz e faz. O famoso divã de Freud.
  • 4. 1.2. Em que consiste a interpretação dos sonhos e qual a sua importância no quadro da terapia psicanalítica? A descrição de sonhos mediante a técnica da livre associação é um dos elementos da terapêutica psicanalítica. Freud dá um relevo especial à análise e interpretação dos sonhos. Porquê? Porque a censura, durante o sono, perde grande parte da sua eficácia na repressão das manifestações do Inconsciente. Os sonhos são, segundo Freud, “a estrada real de acesso ao Inconsciente”, porque, sendo suas expressões ou manifestações relativamente livres, são o meio mais directo de acesso aos desejos, impulsos e conflitos recalcados do paciente. Não obstante, se a vigilância da censura diminui durante o sono, ela permanece. Por isso, os sonhos são formas disfarçadas, muitas vezes complexas e confusas, de conflitos e impulsos inconscientes se revelarem. Há que inter- pretar, decifrar o seu conteúdo simbólico. Como interpreta Freud os sonhos? Distingue o seu conteúdo manifesto do seu conteúdo latente: o conteúdo manifesto é o conjunto de acontecimentos que ocorrem durante o sonho e de que nos lembramos na manhã seguinte (é aquilo que sonhámos); o conteúdo latente é o significado profundo do sonho (aquilo que ele significa). Desco- bre-se o significado profundo do sonho – o seu conteúdo latente – conside- rando os acontecimentos do sonho e os objectos que nele surgem como símbolos, que exprimem, em geral, desejos inconscientes (um símbolo é aquilo que faz as vezes de, toma o lugar de). O que se verifica, a este respeito, na terapia psicanalítica? O paciente descreve o conteúdo manifesto, consci- ente, do sonho; o psicanalista procura interpretar e decifrar o seu significado escondido, inconsciente, isto é, desocultar o seu conteúdo latente, conside- rando, para esse efeito, que o que se passa no sonho simboliza ou é a mani- festação simbólica de forças, impulsos e desejos que escapam à nossa consciência e que a incomodariam. 1.3. Qual o papel da resistência na metodologia psicanalítica? Intervindo o menos possível, escutando e anotando o que o paciente descreve acerca da sua vida real e dos seus sonhos, o analista também está atento a súbitas mudanças de assunto, a silêncios inesperados, a reacções ríspidas do tipo “Isso não tem importância!” ou “Só estou para aqui a dizer disparates!”. Porquê tal atenção? Porque, segundo Freud, esses comporta- mentos são o sinal de que o paciente está a aproximar-se da recordação de acontecimentos importantes, potencialmente “perigosos”, e que, por isso, mecanismos de defesa tentam mantê-los inconscientes, ocultos.
  • 5. Freud deu o nome de resistência a esta tendência para evitar o con- fronto com assuntos “ameaçadores”. A resistência é um conjunto de manobras defensivas em grande parte inconscientes destinadas a manter na penumbra acontecimentos e conflitos perturbadores. No entender de Freud, a resistência é uma “espada de dois gumes”. Por um lado, opõe-se ao esforço terapêutico, retarda o seu progresso, podendo conduzir a um impasse (muitos pacientes têm grande dificuldade em aceitar as interpretações do psicanalista e abandonam a terapia ou passam a faltar frequentemente e a denotar falta de colaboração); por outro lado, onde há resistência há agitação emocional, que assinala a eventual chegada à consci- ência de algo até então reprimido e recalcado no Inconsciente (não há fumo sem fogo!). A tarefa do analista consistirá em tornar compreensível ao paciente o fenómeno da resistência de modo que participe com empenho na libertação das suas tensões e no esforço de compreensão de si mesmo. 1.4. Qual o papel da transferência na metodologia psicanalítica? A relação do paciente com o analista é outro aspecto importante da terapia psicanalítica. O paciente pode, a certa altura, começar a relacionar-se com o terapeuta como se ele fosse um pai excessivamente protector, uma mãe intolerante e demasiado crítica, um irmão detestável, etc., etc. Acontece também com frequência que o analista seja objecto de amor e de afecto. Freud considerou sempre que o psicanalista não é o real alvo destes sentimentos. É um alvo substituto. Os pacientes transferem para o analista sentimentos característicos da sua relação com pessoas significati- vamente importantes (pai, mãe, irmãos, etc.). Tal como a resistência, a trans- ferência pode ter consequências positivas e negativas. Resistência A tentativa de o paciente bloquear o tratamento ao evitar, inconscientemente, o “encontro” com o aconteci- mento crucial. Transferência Processo mediante o qual o paciente transfere para o psi- canalista sentimentos que na infância tinham por objecto pessoas importantes (especi- almente os pais).
  • 6. EXEMPLO DE TERAPIA PSICANALÍTICA: O CASO DO HOMEM DOS RATOS Um dos casos mais famosos e ilustrativos da terapia psicanalítica é o de um homem de 29 anos que, de acordo com o caso, Freud denominou de Homem dos Ratos. Este paciente consultou Freud devido a vários medos, obsessões e comportamentos compulsivos que se manifestavam há já seis anos e o haviam impedido de completar os estudos universitários e uma carreira profissional. Um dos mais reveladores sintomas consistia numa fan- tasia obsessiva com uma horrível tortura aplicada ao seu pai e a uma mulher que o Homem dos Ratos cortejava: um grupo de ratos esfomeados agarra- vam-se às nádegas das vítimas abrindo caminho à dentada através das vias naturalmente disponíveis. Freud utilizou esta fantasia juntamente com ou- tros dados para interpretar os problemas, melhor dizendo, os sintomas do Homem dos Ratos. Segundo Freud, a causa imediata das perturbações comportamentais do Homem dos Ratos era um conflito sentimental: casar ou não com a mu- lher que era sua namorada desde os 20 anos. Incapaz de, conscientemente, tomar uma decisão, permitira ao seu Inconsciente “resolver” o conflito tor- nando-o demasiado doente (produzindo os seus sintomas neuróticos) para completar os estudos e iniciar uma profissão (que eram pré-requisitos para o casamento).A causa profunda, de acordo com a interpretação freudiana, era um conflito edipiano inconsciente, com origem na primeira infância, tra- duzido numa relação de amor e ódio em relação ao pai. Estas duas causas estavam ligadas. O conflito do Homem dos Ratos acerca do casamento era uma reencenação, uma reactualização simbólica dos sentimentos de amor e ódio a respeito do pai. Casar com a namorada seria uma expressão de ódio, não casar seria um acto de amor em relação ao pai. A conexão entre os dois conflitos fora, no entender de Freud, refor- çada pela morte do pai pouco depois de o Homem dos Ratos ter come- çado a relação sentimental com a mulher em questão. Conhecendo a oposição do pai ao namoro, o Homem dos Ratos inconsciente e irracional- mente acreditou que causara a morte do pai ao manter a relação que este detestava. Contudo, também imaginara inconscientemente e de modo irracional que o seu pai continuava vivo e que poderia matá-lo outra vez se casasse. Entre os vários indícios que conduziram Freud às referidas conclu- sões destacam-se os seguintes: • Em dado momento da terapia, Freud pediu ao Homem dos Ratos para associar livremente o conceito “Ratos” (Ratten, em alemão) e imediata- mente o paciente pronunciou Ratten que em alemão significa “dinheiro” e também “índices” da Bolsa. O Homem dos Ratos havia previamente men- cionado que a namorada tinha pouco dinheiro e que o pai desejava que ele casasse com uma prima rica. Estes factos sugeriram a Freud que a obses- siva fantasia dos ratos se relacionava com a oposição do pai ao namoro.
  • 7. • Noutro momento da terapia, o Homem dos Ratos descreveu o relato materno de um acontecimento que ocorrera quando ele tinha 4 anos. O pai batera-lhe porque ele mordera a sua ama. O rapaz respondeu com uma violenta descarga de inúmeras palavras agressivas. Tão surpreen- dente foi esta reacção que o pai ficou especado e boquiaberto, nunca mais lhe voltando a bater. Para a análise freudiana, este incidente possuía grande significado. Segundo Freud, morder a ama era, para o rapaz, um acto de natureza sexual e o castigo físico imposto pelo pai contribuíra para o duradouro receio que o Homem dos Ratos desenvolvera pela reacção do pai aos seus impulsos sexuais. Ao mesmo tempo, o seu apa- rente poder sobre o pai – a sua raiva fizera com que o pai parasse e dei- xasse de lhe bater – ajudou a fixar no Inconsciente o temor de que poderia matar o pai zangando-se com ele, contrariando-o. Freud aper- cebeu-se de ligações simbólicas directas entre o incidente infantil e a fan- tasia obsessiva e horrível com os ratos: os ratos, mordendo e destruindo o seu pai e a sua namorada, simbolizavam outra criatura pequena e que também mordia – o pequeno rapaz que, outrora, mordera a sua querida ama e, simbolicamente, mediante palavras agressivas, o próprio pai. • O processo da transferência ocorreu igualmente durante a terapia. O Homem dos Ratos descreveu a Freud uma fantasia em que o analista (Freud) queria que o paciente casasse com a sua filha. No sonho, a filha de Freud surgia sem olhos. Em seu lugar, estavam duas manchas cinzentas redondas. Freud interpretou este último elemento como simbolizando dinheiro e a fantasia como reconstrução simbólica do conflito interno do paciente, sur- gindo o analista no lugar do pai que o pressionava para casar com uma prima rica. •A certa altura da terapia – que Freud considerou como o momento deci- sivo –, o Homem dos Ratos saltou do sofá onde estava recostado durante a sessão psicanalítica e começou furiosamente a insultar Freud. Reflectindo posteriormente sobre este incidente, o Homem dos Ratos lembrou-se de que a sua súbita fúria era acompanhada pelo medo de que Freud lhe batesse e de que saltara para se defender. A partir deste momento da análise, foi fácil convencer o paciente a partilhar a interpretação de Freud: os seus padecimentos actuais tinham origem naquele incidente de infância, quando, fisicamente punido pelo pai, reagiu com tremenda agressividade verbal. Esta experiência de transferên- cia ajudou o Homem dos Ratos a superar a resistência à ideia de que temia e detestava o pai. A aceitação consciente destes sentimentos conduziu, segundo Freud, à cura dos sintomas neuróticos. Numa sentida nota de rodapé ao caso, Freud acrescentou que o Homem dos Ratos viveu saudável por pouco tempo. Morreu pouco depois da cura nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial.” [Peter Gray, Psychology, Worth, 2.a edição pp. 660-661, adaptado]
  • 8. AC TIVIDADE 1 Assinale as afirmações verdadeiras (V) ou falsas (F). Justifique a sua opção. 1. A psicanálise é uma terapia biomédica. 2. Na terapia psicanalítica, o paciente deve estar disposto a encarar os seus problemas de um ponto de vista psicológico e a falar de acon- tecimentos da sua vida, das suas memórias e sentimentos de forma minuciosa e sem vergonha, confessando-se sem qualquer entrave e autocensura. 3. Uma das condições do sucesso da terapia psicanalítica é que o paciente se deixe hipnotizar. 4. A ideia básica do processo denominado livre associação é a de que o material inconsciente pode ser alcançado através de uma associação encadeada de ideias. 5. Os sonhos representam directamente conflitos e desejos incons- cientes, sendo por isso a via real de acesso ao Inconsciente. 6. Os elementos conscientes de um sonho constituem o seu conteúdo latente. 7. Desocultar desejos e sentimentos reprimidos é tarefa que consome tempo, mas que se alcança com relativa facilidade. 8. Na terapia psicanalítica, o papel activo pertence ao terapeuta. 9. A transferência é uma forma de projecção. 10. A transferência é um processo crucial da terapia psicanalítica.
  • 9. 2.As psicoterapias humanistas Ao contrário das psicoterapias de inspiração psicanalítica, as tera- pias humanistas dão mais importância aos pensamentos e sentimentos conscientes do que aos aspectos inconscientes da mente, ao presente do que ao passado. O seu objectivo não é tanto o de curar doenças reduzindo tensões devidas a recalcamentos, mas o de promover o crescimento pessoal e a autocompreensão da pessoa que solicita terapia. Há duas formas de psico- terapia humanista: a terapia centrada na pessoa (desenvolvida por Carl Rogers – 1902-1987) e a terapia da Gestalt (criada por Frederick Perls – 1893-1970). 2.1. Carl Rogers: A terapia centrada na pessoa Rogers acreditava que os seres humanos são naturalmente bons, mas que a sociedade exige de nós excessivo conformismo. Habitualmente não recebemos louvor e estima, a não ser que correspondamos às expectativas dos outros, a não ser que sejamos como eles querem ou esperam que seja- mos. Em suma, vivemos em geral demasiado preocupados com as expectati- vas do meio social. Quando não nos consideramos à altura dessas expecta- tivas, dá-se uma redução da nossa auto-estima e da nossa crença na possibi- lidade de sermos queridos e amados pelo que somos. Isto significa que há uma dissonância entre o nosso eu ideal – o que desejamos ser de acordo com as expectativas dos outros – e o nosso eu real – o que realmente somos. A necessidade de terapia surge quando uma pessoa – e Rogers nunca utiliza o termo paciente – dá mais importância às avaliações e opiniões dos outros sobre si do que às suas próprias. Segundo Rogers, as pessoas muitas vezes distorcem os seus próprios sentimentos e desejos, formam uma falsa ima- gem de si para responderem à pressão das expectativas sociais, submetem-se para serem aceites a juízos impostos a partir do exterior. O principal objec- tivo da terapia humanista é o de ajudar as pessoas a tornarem-se verdadeira- mente conscientes dos seus sentimentos e desejos, do que realmente são. Devem ser elas mesmas, ganhar controlo sobre as suas próprias vidas, em vez de agirem meramente segundo o que os outros esperam delas e julgam que elas devem ser. O que é preciso em termos muito gerais para que a terapia possa esperar algum sucesso? Dado que a sociedade pressiona o indivíduo e que os contextos sociais são em muitos casos fonte de desconforto, é preciso criar um ambiente terapêutico acolhedor, que aceite as pessoas como elas são. Neste sentido, o terapeuta que se centra na pessoa deve evitar desaprovar o Carl Rogers (1902-1987), criador da terapia centrada na pessoa.
  • 10. Terapia da Gestalt Forma humanista e directiva de psicoterapia que procura confrontar os pacientes com os seus problemas emocio- nais e fazer com que os expri- mam adequadamente. que esta faz ou diz em ambiente terapêutico. Rogers pensava que esta atitude incondicionalmente positiva favorecia e fomentava a auto-estima do indi- víduo. O terapeuta abdicava de um papel directivo, não tentando conduzir o indivíduo a qualquer descoberta. Este devia tentar identificar-se com o cliente. Devia limitar-se a ouvir activamente num ambiente de empatia os proble- mas do cliente e encorajar a autonomia, a avaliação independente dos seus actos, pensamentos e sentimentos. 2.2. Frederick Perls: A terapia da Gestalt Tal como a terapia centrada na pessoa, a terapia da Gestalt centra-se no presente e na consciência, procurando que o cliente desenvolva a consciência de si mesmo e aumente o grau de aceitação de si próprio (fomento da auto-estima). Perls acreditava que grande parte dos problemas psicológicos advinha do facto de o indivíduo se recusar a aceitar o que é ou ter dificuldade em expressar os seus sentimentos e desejos. Muitas pessoas têm medo dos juízos dos outros e isso traduz-se em comportamentos defensivos – negamos o que somos, mascaramos o que somos para evitar o confronto com o que os outros pensam sobre nós. Ao contrário da terapia centrada na pessoa, esta forma de psicote- rapia tem um carácter fortemente directivo. Muitas vezes, o terapeuta confronta, desafia e frustra as opiniões e avaliações do seu cliente. Dá opiniões ou sugestões acerca do problema que o seu cliente está a viver e orienta-o na descoberta do que real e verdadeiramente pensa e sente. Uma técnica muito usada e ilustrativa é o desempenho de papéis (role playing), uma espé- cie de dramatização de sentimentos e conflitos ou assunção de papéis como os de indivíduo culpado ou de criança submissa. Imaginemos que um cliente está perturbado por um conflito com a sua mãe. O terapeuta pode reactuali- zar ou reabrir o conflito fazendo o papel de mãe, enquanto a outra parte faz o papel que na vida real desempenha. O cliente poderá ser encorajado a reac- tivar os sentimentos de hostilidade em relação à figura materna, gritando, insultando, pontapeando objectos, etc. A terapia da Gestalt defende que, assim, será o indivíduo que vai gerir os seus conflitos, em vez de serem estes a dominá-lo. Embora a terapia da Gestalt seja mais directiva, deve notar-se que as teorias humanistas referidas encorajam os indivíduos a assumirem-se e a assumirem a responsabilidade pelas suas acções e sentimentos de modo a compreenderem-se a si mesmos. Procuram ajudá-los a desenvolver perante a sociedade um sentido de liberdade, tomando consciência do que estão a fazer das suas vidas.Frederick Perls (1893-1978). Terapia centrada na pessoa Forma de terapia humanista inventada por Carl Rogers e que procura criar, sem pres- sionar ou dirigir o cliente, as condições que tornem possí- vel um real conhecimento e aceitação de si mesmo.
  • 11. AC TIVIDADE 2 Assinale as afirmações verdadeiras (V) ou falsas (F). Justifique a sua opção. 1. A terapia humanista é uma alternativa quer à terapia psicanalítica quer à terapia comportamentalista. 2. A terapia adoptada por Rogers centra-se nas teoria ou técnicas do terapeuta. 3. O que distingue a terapia da Gestalt da terapia de Rogers é que só aquela acredita que uma pessoa pode, num ambiente adequado, ultrapassar percepções distorcidas do que é e tomar uma consciên- cia verdadeira de si. 4. Na terapia da Gestalt, o paciente decide do que falar sem direcção ou juízos de valor do terapeuta, sendo este mais um facilitador que ajuda o cliente no sentido da mudança desejada. 5. Segundo a terapia da Gestalt, perder contacto com as nossas emo- ções e a nossa «voz interior» impede o desenvolvimento de um sen- tido de auto-aceitação.
  • 12. 3.Psicoterapias comportamentais As psicoterapias comportamentais usam determinados princípios esta- belecidos por teorias da aprendizagem como as de Watson e Skinner para reduzir ou eliminar comportamentos desadaptados. As psicoterapias comportamentais distinguem-se das terapias huma- nistas e psicanalíticas pelas seguintes razões: a) Ao contrário das terapias psicanalíticas, não acreditam que o com- portamento seja influenciado por conflitos inconscientes. b) Ao contrário das terapias humanistas, não encorajam as pessoas a desenvolver uma percepção correcta dos seus sentimentos e pensamentos. Qual é a razão básica desta dupla rejeição? A crença de que são es- tímulos externos como reforços e punições e não estados internos como emoções e pensamentos que provocam comportamentos adaptados ou desadaptados. Os comportamentos desadaptados não são o sinal ou o sin- toma de problemas internos. Os próprios comportamentos são o sintoma dos problemas.Assim, os indivíduos podem tomar consciência das razões por que andam deprimidos e, contudo, continuarem deprimidos. A depressão é uma resposta observável que está ligada directamente a aspectos observáveis do meio (mau ambiente familiar, por exemplo, ou fracasso profissional). Vejamos algumas técnicas usadas nesta modalidade de psicoterapia. 3.1. O condicionamento aversivo ou terapia da aversão Como tratar um problema de alcoolismo? O tratamento consiste em associar estímulos segundo os princípios do condicionamento clássico. Damos a um alcoólico uma droga que produz náuseas. Um pouco antes de a droga começar a fazer efeito, damos ao paciente uma razoável quantidade de uma bebida alcoólica.Assim, o gosto e o cheiro da bebida são seguidos por náuseas.Ao fim de algum tempo, o emparelhamento sucessivo da droga indu- tora de náuseas e da bebida alcoólica faz com que ver ou cheirar a bebida alcoólica induza náuseas e provoque aversão. O álcool deixará de ser asso- ciado a algo de agradável. Terapias comportamentais Conjunto de técnicas tera- pêuticas que procuram mo- dificar através da aprendiza- gem pensamentos, senti- mentos e comportamentos desadaptados. Quer os com- portamentos sadios quer os comportamentos doentios estão ligados a condiciona- mentos e aprendizagens. São algo aprendido. Terapia aversiva Técnica comportamentalista usada para condicionar as pessoas a reagirem com aver- são ou desagrado a substân- cias prejudiciais.
  • 13. 3.2. A dessensitização sistemática Esta técnica baseia-se no condicionamento clássico e é sobretudo usada para tratar fobias. O «antepassado» desta técnica é o contracondiciona- mento, inventado nos anos 40 do século XX por Mary Cover Jones. O autor usou essa técnica para reduzir o medo que uma criança sentia na presença de coelhos. Começou por apresentar a uma criança chamada Peter a sua co- mida favorita. Algum tempo depois, colocou próximo da criança uma caixa que tinha lá dentro um coelho. A pouco e pouco, as sensações agradáveis causadas pela sua comida favorita passaram a estar associadas à presença do coelho e o medo que este tipo de animal causava diminuiu acentuadamente. Hoje em dia, esta técnica foi substituída pela dessensitização sistemá- tica, inventada pelo psiquiatra Joseph Wolpe, em 1950. Esta técnica terapêu- tica tem duas fases. Numa primeira fase, que dura várias sessões, ensina-se ao paciente a técnica do relaxamento muscular que lhe permita atingir um estado de calma e tranquilidade até aí desconhecido. De seguida, procede-se à progressiva exposição ao estímulo que causa ansiedade e medo. Essa expo- sição pode ser realizada através da imaginação ou real. Actualmente, a exposi- ção a objectos e situações reais é considerada mais efectiva e eficaz do que a vivência de situações imaginárias. O processo em geral consiste em submeter o paciente a situações imaginárias ou reais cada vez mais desagradáveis e desconfortáveis. Imaginemos que alguém sofre da fobia das alturas. O tera- peuta começará por pedir ao paciente que relaxe imaginando que está à janela do segundo andar de um prédio, depois à janela do terceiro, do quarto, do quinto e assim sucessivamente até conseguir imaginar, sem se sentir ansioso, que está na varanda do último andar de um arranha-céus. Em situações reais relativas a pessoas com medo de cobras, pode começar-se por pedir que procurem a palavra cobra no dicionário, que leiam a sua definição e terminar o processo visitando a secção de répteis no jardim zoológico. Pretende-se que, após o tratamento, os pacientes que se sentem muito ansiosos quando pensam acerca de um objecto (cobra), quando estão perto de uma coisa ou quando vivem uma situação (viajar de avião) possam vencer essas fobias. 3.3. A economia da recompensa (token economy) Em alguns hospitais psiquiátricos, os pacientes tendem a perder boa par- te das suas aptidões sociais. Referimo-nos a competências tais como saudar outra pessoa e responder quando se é interpelado.Trata-se de formas de com- portamento básicas e necessárias para o dia-a-dia, seja onde for. Os psicólo- gos descobriram que é importante recompensar os pacientes imediatamente depois de exibirem os comportamentos desejáveis. Para o fazerem, usam uma técnica terapêutica designada economia da recompensa ou do prémio. O comportamento desejado é recompensado com uma rifa ou uma senha que pode depois ser trocada por reforços ou recompensas apetecíveis (doces, dinheiro ou uma ida ao cinema). Dessensitização sistemática Técnica comportamentalista usada para tratar fobias e ou- tros problemas de ansiedade e que consiste em emparelhar a gradual exposição a uma situação que provoca ansie- dade com o relaxamento. Economia da recompensa Técnica comportamentalista em que os pacientes partici- pantes ganham valiosos pré- mios ou recompensas ao en- veredarem por comporta- mentos definidos como dese- jáveis.
  • 14. 3.4. A modelação As terapias comportamentais até agora estudadas não faziam referência a processos cognitivos como pensamentos e emoções no seu esforço para modificar comportamentos desajustados. Não é o caso da terapia denomi- nada modelação. Esta é considerada uma das formas mais eficazes de modificação comportamental. Trata-se de, em condições controladas e pro- tegendo devidamente o paciente, o orientar para uma progressiva aproxima- ção ao estímulo ou situação que provoca ansiedade e medo. Como conse- gui-lo? Imaginemos que tenho medo de cobras ou de cães. A modificação comportamental consistiria em, ao longo de várias sessões, observar outras pessoas a lidarem com tais animais sem que nada de mal lhes acontecesse. Ser-me-ia depois solicitado que fizesse o mesmo. Bandura e os seus colabo- radores mostraram que esta técnica – que corresponde a um acto tão espontâneo e frequente na nossa vida quotidiana – pode ter taxas de sucesso elevadas na redução do medo. Por que razão estão aqui presentes factores internos de tipo cognitivo? Porque o paciente, através da modelação, vai desenvolvendo autoconfiança ou crença na sua capacidade de imitar o que observou e assim ser bem suce- dido. Por outras palavras a auto-eficácia é a crença de que podemos dominar a situação e, à semelhança do que aconteceu com o modelo observado, podemos conseguir resultados positivos. Conforme vamos sendo bem suce- didos nas progressivas aproximações à solução do problema, estes pequenos sucessos tornam-se intrinsecamente motivantes. Bandura acreditava que a auto-eficácia era a chave de uma terapia com bons resultados. Modelação Técnica terapêutica em que se ensina uma pessoa a fazer algo mediante a observação e progressiva imitação de um modelo. O terapeuta modela o comportamento desejado e gradualmente induz o paci- ente a nele participar. Terapias cognitivas Terapias que tentam ensinar as pessoas a pensar de forma mais adaptada à realidade através de uma interpretação racional e razoável das suas experiências e dos factos da vida. Trata-se de ajudar as pessoas a comportarem-se de forma mais ajustada à realidade mudando as suas crenças e ideias.
  • 15. AC TIVIDADE 3 Assinale as afirmações verdadeiras (V) ou falsas (F). Justifique a sua opção. 1. Para as terapias comportamentalistas, adoptamos comportamentos desajustados em virtude de condicionamentos. 2. Para as terapias comportamentalistas, como todo o condiciona- mento está ligado ao ambiente que envolve o indivíduo, é preciso agir sobre o indivíduo e também sobre o contexto social e familiar que o envolve. 3. As terapias comportamentais dão especial importância à aprendiza- gem como método de tratamento. 4. Na técnica da modelagem, a pessoa que sofre de uma fobia deve observar o comportamento de outra pessoa que não sofre da mesma fobia e ser capaz de manipular ou de enfrentar o estímulo ou objecto que provoca ansiedade. 5. Para as terapias comportamentalistas em geral, trata-se de compre- ender os problemas do paciente, procurando identificar a situação ou o estímulo que está na origem do comportamento doentio ou pelo menos indesejável, de identificar as circunstâncias que o mantêm e de agir em consonância com esses dados. 6. A dessensitização sistemática é uma forma de tratamento para fobias em que se ensina ao paciente técnicas de relaxamento e se lhe pede para imaginar ou se aproximar real e gradualmente das situações que o amedrontavam. 7. João rói as unhas e continua em idade pouco apropriada a chuchar no dedo. Os pais decidem colocar um líquido apimentado nas pontas dos dedos para eliminar ou reduzir tal comportamento. Estão a utilizar a terapia da aversão.
  • 16. Terapias cognitivas Terapias que tentam ensinar as pessoas a pensar de forma mais adaptada à realidade através de uma interpretação racional e razoável das suas experiências e dos factos da vida. Trata-se de ajudar as pessoas a comportarem-se de forma mais ajustada à realidade, mudando as suas crenças e ideias. 4.Psicoterapias cognitivas As terapias cognitivas baseiam-se na seguinte crença: são, em grande parte, as nossas cognições e pensamentos que estão na origem de comportamentos desajustados e de problemas psicológicos. Imaginemos que Henrique, jovem de 12 anos, julga que é um inútil. Pensa que é um fra- casso quer para os seus professores quer para os seus pais por não ter ainda decidido a sua vida profissional. Mas na realidade exagera esses aspectos negativos e esquece os positivos. O seu tipo de comportamento é muito comum em indivíduos que sofrem de depressão. O objectivo das terapias cognitivas é o de mudar cognições distorcidas («Não presto», «Não valho nada», «Ninguém gosta de mim pelo que sou, mas só pelo que tenho») de modo a eliminar comportamentos desadaptados. O alvo das terapias cognitivas são os pensamentos e crenças conscientes dos pacientes, utilizando uma abordagem directiva muito vincada na relação com o paciente. 4.1. A terapia racional-emotiva de Albert Ellis Ellis acreditava que desenvolvemos perturbações psicológicas por causa das nossas crenças, em especial as que são irracionais e autodestruti- vas.A terapia proposta por Ellis baseia-se na famosa teoria ABC das emoções. A designa o acontecimento Activante que se dá na vida da pessoa, como, por exemplo, um divórcio conturbado, um despedimento ou o fracasso no acesso à universidade. B é a crença (Belief) que se forma na mente do paciente. C é a consequência emocional dessa crença. O terapeuta trabalha com o paciente para, no caso de isso lhe parecer verdadeiro, o convencer de que o factor B, responsável pela passagem de A a C, resulta de uma percepção distorcida da realidade. Suponhamos que um indivíduo acredita irracionalmente que todas as pessoas devem gostar dele e se sente infeliz quando alguém não corres- ponde a esse desejo. O primeiro passo consistirá em tentar convencê-lo de que é descabido querer que todos gostem de nós e de que é normal que nem toda a gente goste de nós. O terapeuta desafia activamente aquilo que o paciente pensa. Conseguindo-se que o paciente admita a irracionalidade da sua crença, trata-se de o libertar dela para que esses pensamentos não ocor- ram de novo. Escusado será dizer que um longo trabalho espera o terapeuta e o paciente. As nossas crenças tornam-se muitas vezes hábitos e manifes- tam-se automaticamente, a não ser que enfrentem uma resistência activa. Vejamos outro exemplo: Alberto vê um anúncio de emprego no jornal e fica entusiasmado porque acredita que aquele é o emprego certo para si e ele a pessoa certa para o lugar. Candidata-se imediatamente. A partir daí, espera todos os dias que o telefone toque a convocá-lo para uma entrevista. Con- Crenças irracionais mais frequentes segundo Ellis 1. Devemos ter amor sincero e sermos sempre objecto de aprovação por parte das pes- soas que são significativas; 2. Temos de provar a toda a hora que somos competen- tes ou devemos ter muita competência nalguma coisa; 3. A vida é aterradora, horrí- vel ou catastrófica quando as coisas não correm do modo que queremos. Aaron Beck e Albert Ellis, dois dos principais proponentes da terapia cognitiva e ambos psicanalistas desencantados.
  • 17. tudo, algumas semanas mais tarde recebe uma carta informando-o de que o seu perfeito emprego fora oferecido a outro candidato. Fica devastado. Ellis argumentaria que Alberto não deveria ter ficado infeliz e depri- mido por não ter conseguido o emprego nem interpretar a situação como si- nal de falta de capacidade. Deve antes pensar que havia dezenas de candi- datos ao lugar com muita experiência e competência. Mais, deve convencer- -se de que a empresa que não o contratou perdeu um valioso empregado. EXEMPLO DE CRENÇA IRRACIONAL E ATITUDE TERAPÊUTICA DE ALBERT ELLIS Um jovem queixa-se de ser um fracasso e dá como garantido que não vai entrar na faculdade que deseja porque esta exige altas classificações. Eis um excerto da sessão terapêutica: Ellis – A faculdade em que deseja entrar exige médias elevadas. Jovem – Sim, muito elevadas. Não vou entrar, não vou conseguir. Ellis – Diga-me que resultados tem obtido. Jovem – Nos dois anos anteriores obtive média de 19 a todas as disciplinas. Ellis – É uma óptima média. O que aconteceu este ano para estar tão pessimista? Jovem – Nas classificações resultantes dos exames obtive 3 notas de 19 e duas de 18. Ellis – Qual é a média necessária para ingressar? Jovem – 18,7. Ellis – Repare bem na média que tem. Não é claro que tem mais do que o suficiente para entrar? Parece extremamente óbvio. Jovem – (aparentemente surpreendido) A sério? São crenças irracionais – contrárias à razão e à lógica – que conduzem a comportamentos desajustados e causadores de depressão como a que apresentava este jovem. Este jovem julgava-se erradamente um incapaz – sem competência para atingir um objectivo. Outras pessoas apresentam desejos irracionais do tipo tudo ou nada,como,por exemplo:«Quero que toda a gente goste de mim e me aprecie sempre». É evidente a irracionalidade deste de- sejo, que conduz directamente na pessoa deprimida a uma crença irracional: como não se pode agradar a gregos e troianos, a pessoa acaba por concluir irracionalmente, devido à referida distorção cognitiva, que ninguém gosta dela. Assim, o método terapêutico de Ellis ensina os seus pacientes a detecta- rem crenças que distorcem a realidade e são autoderrotantes, desafia essas crenças (as interpretações de determinadas situações) e incita-os a desen- volverem crenças alternativas racionais, mais próximas da realidade e mais favoráveis à auto-estima do indivíduo. Terapia racional-emotiva Forma de psicoterapia criada por Albert Ellis na qual o tera- peuta desafia e questiona as crenças irracionais dos seus pacientes.
  • 18. Terapia cognitiva de Beck Forma de terapia em que o terapeuta colabora com o paciente para descobrir pa- drões de pensamento nega- tivos (distorções cognitivas) que impedem um funciona- mento psicológico saudável. 4.2. A terapia cognitiva de Beck Aaron Beck é um psicoterapeuta americano que se especializou no tra- tamento de depressões. Estava convicto de que as pessoas deprimidas têm uma visão negativa de si mesmas, do seu mundo e do seu futuro. É frequente interpretarem os acontecimentos de forma distorcida. São muito dadas à auto- censura. As interpretações distorcidas que fazem das situações, são alimen- tadas por «pensamentos automáticos», ou seja, por frases de teor negativo que constantemente repetem a si mesmos ( «Não sou capaz de fazer amigos») e que ocorrem mesmo que sejam contrárias à realidade objectiva. Há um pro- blema com esses pensamentos automáticos: são rapidamente aceites pela pessoa deprimida e são repetidos tantas vezes que se tornam parte do habi- tual modo de pensar do indivíduo. Por outro lado, apesar de provocarem emoções desagradáveis, não temos geralmente consciência plena da sua influência nas nossas reacções emocionais. UM EXEMPLO DA TERAPIA DE AARON BECK Uma mulher apresenta-se deprimida, dizendo que não presta para nada porque o seu marido já não lhe dá atenção. Eis um excerto da entre- vista com Beck: Mulher – Sinto-me péssima. Sem o João não sou nada. Beck – Fale-me do seu casamento. Mulher – Horrível. Sempre a discutir por tudo e por nada. Beck – E sem esse casamento, se ele acabasse, sentir-se-ia perdida, sem valor? Mulher – Não sou nada sem o João. Beck – Diga-me como era antes de conhecer e casar com o João. Também se sentia sem valor? Mulher – Não. Bem pelo contrário. Sentia-me óptima, era muito apreciada. Beck – Tente pensar correctamente no significado dessa diferença. Antes de conhecer o João muita gente gostava de si – e suponho que também posso referir-me a namorados… Mulher – Claro, isso era verdade. Beck – Pense bem nisso. Mulher – Se antes de conhecer o João tinha uma boa auto-estima e me considerava valorizada, será que faz sentido dizer que sem ele não sou nada? É isso que quer que eu pense? Devo estar a reduzir a minha vida a uma pessoa.
  • 19. A terapia de Beck é mais suave do que a de Ellis. Não informa imedia- tamente os seus pacientes sobre os seus pensamentos desajustados. De uma forma que alguns comentadores consideram socrática, tenta que sejam os pacientes a descobrir esses pensamentos e a corrigi-los. Prefere este proce- dimento à terapia directiva porque torna possível que os pacientes se aper- cebam de que podem corrigir pensamentos inadequados e não dependerem sempre do psicoterapeuta. VARIEDADES DE TERAPIAS PSICOLÓGICAS (PSICOTERAPIAS) TERAPIA PSICANALÍTICA Forma de psicoterapia fundada e desenvolvida por Sigmund Freud e cujo objectivo é trazer as influências inconscientes do nosso comportamento ao nível da consciência. As técnicas fun- damentais são a associação livre e a interpretação dos sonhos. Os processos que a acompanham são a resistência e a transferência. A terapia é desde o início demorada e em certa medida onerosa. Freud observou, nos seus pacientes, que “reviver” um inci- dente traumático e perturbador, normalmente com origem na infância, produzia uma espécie de alívio emocional. Por outras palavras, esse incidente doloroso perdia muita da força e inten- sidade que tinha. A sua influência no comportamento da pessoa tornava-se bem menor, pelo que uma vida mais saudável era, a partir daí, possível. TERAPIAS HUMANISTAS Terapias que acentuam a importância do presente e não do passado, da consciência e não do Inconsciente. Partem da con- vicção de que cada indivíduo dotado de um potencial próprio de crescimento pode resolver os seus problemas desde que desen- volva um genuíno conhecimento de si. Centram-se mais na pro- moção do desenvolvimento do indivíduo do que no tratamento de perturbações comportamentais. As duas formas mais conhecidas são a terapia centrada na pessoa de Carl Rogers, que pretende encaminhar o cliente para a sua verdadeira auto-descoberta de uma forma não directiva, e a terapia da Gestalt de Perls, que se baseia numa atitude mais directiva, que pode incluir o confronto com as ideias do cliente e a frustração de certos comportamentos.
  • 20. VARIEDADES DE TERAPIAS PSICOLÓGICAS (PSICOTERAPIAS) TERAPIAS COMPORTAMENTAIS Terapias que visam mudar comportamentos problemáticos partindo do princípio de que foram aprendidos e que podem por isso ser desaprendidos, desde que se criem condições individuais e sociais que o permitam. O seu modelo teórico é, em parte, o comportamentalismo ou behaviorismo. Trata-se de uma reedu- cação ou de uma re-aprendizagem de comportamentos adap- tados. Entre várias técnicas utilizadas, salientam-se a terapia aversiva, a dessensitização sistemática, a economia da recompensa e a modelação, sendo que esta é uma técnica psicoterapêutica de tipo cognitivo-comportamental. TERAPIAS COGNITIVAS Formas de psicoterapia que partem do princípio de que cog- nições erradas – crenças irracionais e padrões de pensamento distorcidos – constituem a razão de ser dos problemas de funcionamento mental e comportamental dos indivíduos. As duas formas de psicoterapia cognitiva são a terapia racional-emotiva de Ellis e a terapia cognitiva de Beck. A terapia racional-emotiva de Albert Ellis é um tipo de psico- terapia na qual o terapeuta desafia e questiona as crenças irracionais dos seus pacientes, sendo por isso mais directiva do que a de Beck. A terapia de Beck é uma forma de terapia em que o tera- peuta colabora com o paciente para descobrir padrões de pensa- mento negativos (distorções cognitivas) que impedem um funcionamento psicológico saudável.
  • 21. AC TIVIDADE 4 Assinale as afirmações verdadeiras (V) ou falsas (F). Justifique a sua opção. 1. O objectivo das terapias cognitivas é o de ajudar as pessoas a con- trolarem distúrbios emocionais e comportamentais como a ansie- dade e a depressão, ensinando ou promovendo formas mais ade- quadas de pensar sobre as suas experiências e de as interpretar. 2. A psicoterapia cognitiva de Albert Ellis é mais directiva do que a de Aaron Beck. 3. A terapia racional-emotiva de Ellis acredita que os pacientes podem ultrapassar os seus problemas psicológicos maximizando as crenças racionais e minimizando as crenças irracionais.