Neemias paixão pela fidelidade

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NEEMIAS FOI UM DOS PRFETAS QUE TEVE UMA PAIXAO MUITO FORTE PELA FIDELIDADE - TU AMAS A FIDELIDADE?

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Neemias paixão pela fidelidade

  1. 1. CB4D J. I. Pa c k er PAIXÃO PELA Fid e l id a d e Sabedoria extraída do livro de Neemias
  2. 2. J. I. Pa c k e r PAIXÃO PELA Fi d e l i d a d e Ele foi um dos m aiores líderes da Bíblia. U m hom em de ação, que cham ou para si a incrível responsabilidade de reconstruir a Jerusalém antiga. Ele era dedicado. Sábio. U m hom em zeloso, im pregnado de oração. C om isso, ajudou a estabelecer o padrão para a liderança piedosa. Todavia, não se sabe, provavelmente, nada sobre esse hom em . Ele era N eem ias. N a verdade, o seu livro no A ntigo Testam ento assem elha-se às m em órias de um líder pastoral e um estadista por excelência. N ele, N eem ias relata com o, com a bênção e a ajuda de D eus, partiu para reconstruir Jerusalém e reanim ar seus habitantes. E um relato vivo de um a renovação espiritual em prim eira pessoa. M as N eem ias tam bém pode ser lido com o um testem unho do envolvim ento de D eus com o hom em . N u m a espécie de estudo bíblico, J. I. Packer exam ina com o N eem ias guiou o povo e com o D eus guiou N eem ias — tendo com o finalidade a edificação do seu Reino. N este livro, você descobrirá um m odelo para o reavivam ento em sua igreja. Educado na Universidade de Oxford, o premiado autor Dr. James I. Packer é professor de Teologia Sistemática e H istórica na Regent College, em Vancouver, British Columbia. E também editor sênior em Christianity Today. Prega e faz conferências na Grã-Bretanha e América, e colabora frequentemente em periódicos teológicos. E autor de O Plano de Deus p ara Você, editado pela CPAD. ISBN flS-at,3-lD3ô-0
  3. 3. É inegável que N eem ias foi um líder usado por D eu s para a restauração de Israel com o nação. Para que p ossam o s entender corretamente seu livro, pre­cisam os saber tam bém o que m ovia N eem ias de form a que suas atitudes glorificassem a D eu s, e até onde foi seu com p ro m isso na restauração da cidade santa, levando-o a abandonar o con for­to do palácio para ser um reconstrutor de u m a cidade em ruínas. Fidelidade. Esta é um a palavra que indi­ca, aos olhos desavisados, um a caracte­rística quase imperceptível no trato co­tidiano, mas cuja presença é de imediato observada na vida das pessoas. Este é um livro sobre a fidelidade a D eus e aos seus propósitos, um testemunho da renovação e santificação não apenas
  4. 4. Meemías Paixão p e l a TídeRdade
  5. 5. Neemías Paixão pda Tídeãdade Sa b e d o r i a e x t r a í d a d o LIVRO DE NEEMIAS J. I. Packer Traduzido por Marta Doreto de Andrade CB4D Rio de Janeiro 2012
  6. 6. T o d o s os direitos reserv ados. C o p y r ig h t © 2 0 1 0 para a língua p o r tu ­g u esa da C a s a P u b licad o ra das A sse m b le ia s de D eu s. A p r o v a d o pelo C o n s e l h o de D outrin a. T ítu lo d o original em inglês: A Passion j o r Fuitbfulness C r o s s w a y B oo k s, W h e a t o n , Illinois, E U A Prim eira e d iç ã o em inglês: 2001 T r ad u ção : M a r t a D o r e t o de A n d ra d e P r e p a r a ç ã o d o s originais: G le y c e D u q u e Revisão: D a n ie le Pereira C a p a : Flam ir A m b r ó s i o P r o je to gráfico e ed ito r a ç ã o : F ábio L o n g o C D D : 2 48 - V id a C ristã As c ita ç õ e s b íb lica s foram e x traíd as da v e rsã o A lm eid a R evista e C o r ­rigida, e d iç ã o de 1995, da S o c i e d a d e Bíblica do Brasil, salvo in d ica ção em contrário. Para m a io res i n fo rm a ç õ es so b r e livros, revistas, p e r ió d ic o s e os últim os la n ç a m e n t o s da C P A D , visite n o s s o site: h tt p ://w w w .c p a d .c o m .b r S A C — S e rv iç o de A t e n d im e n to ao C lien te: 0 8 0 0 - 0 2 1 -7373 C a s a P u b licad o ra das A sse m b le ia s de D e u s C a i x a Po stal 331 2 0 0 0 1 - 9 7 0 , Rio de Ja n e ir o , RJ, Brasil 3a Im pressã o: 2 0 1 2 - T i r a g e m : 1.000
  7. 7. Para Fred e Elizabeth, em quem transparece muito da força de Neemias.
  8. 8. Prólogo-. A C o n s t r u ç ã o da I g r e j a O fato de eu proclam ar N eem ias com o um construtor de igreja e insistir que os cristãos lhe reconheçam essa qualidade deve fazer com que algumas so b ran ­celhas se levantem. N ã o obstante, é o que devo fazer neste livro, e desejo com eçar explicando o porquê. Portanto, faço agora uma retrospectiva de cinquenta anos. C risto Ama a Igreja Ele era um homenzinho singular, magro, ativo e impetuoso, com uma face que parecia iluminar-se quando ele falava. Suas vestes também eram esquisitas para os meus padrões de universitário, porque ele usava um hábito monástico marrom, o uniforme de um franciscano anglicano. Eu estava do lado de fora da capela da fa­culdade, esperando não ser impressionado. Mas ele capturou-me a atenção ao contar-nos como, em sua adolescência, experimentara uma conversão pessoal a Jesus Cristo, como a que eu acabara de experimentar. "E então", partilhou ele, "fiquei entusiasmado com a igreja. Pode-se dizer que caí de amores por ela". Eu nunca ouvira alguém falar assim, e as suas palavras cravaram-se em minha m e­mória. Cinquenta anos depois, ainda posso ouvi-lo proferindo-as. Ele, então, martelou o ponto de que todos os que amam a Jesus Cristo, o Senhor, devem preocupar-se profundamente com a Igre­ja, porque ela é o objeto do amor de Jesus. O eclesiocentrismo é, portanto, um meio pelo qual o cristocentrismo encontra expres­são. Estaria ele certo? Sim, não resta dúvida.
  9. 9. N e e m ia s — P a ix ã o pela F id e l id a d e O u ç a Paulo instruindo os efésios e outros crentes (há um a b o a razão para que a Epístola aos Efésios seja c o n s i­derada um a circular): "C risto am ou a igreja e a si m esm o se en tregou p o r ela, para a santificar, purificando-a com a lavagem da água, pela palavra, para a apresentar a si m e s ­m o igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa s e ­m elhante, m as santa e irrepreensível" (Ef 5.25-27). A gora, m edite nas palavras do hino, que e co a m nesta e noutras p assage n s do N o v o Testam ento: 0 único fundam ento da Igreja E Jesus Cristo, o seu Senhor-, Ela é sua nova criação Pela água e pela P alavra. D o céu Ele veio e buscou-a P ara ser sua santa noiva, Com o seu próprio sangue a comprou, E para cjue ela tivesse vida, morreu. Em seg u id a, o b se rv e que a glória presente e futura que D eu s c o n c e d e à "noiva, e sp o sa do C o r d e ir o " (Ap 21.9), c o m o prod u to final de sua m aravilh o sa graça, é, de certo p o n to de vista, o fo c o central do N o v o T estam en to , a l­c a n ç a n d o o seu clím ax nas visõ e s do v e rd ad e iro m on te S iã o ( H b 12.2 2 -2 4 ) e da N o v a Je ru salé m (Ap 21.1-22.5,- ve ja tam b ém A p 7, um a d e scriç ã o ad icion al do d estin o da Igreja). E ju nte a isto o fato de que "glória [aqui signifi­c a n d o d o x o lo g ia e louvor] na Igreja, p o r Je su s C risto , em to d a s as g e ra çõ e s, para to d o o sem pre!" (Ef 3.21) é o foco culm in ante da relig ião cristã. "N a igreja, p o r Je s u s C risto " são duas frases c o m p lem e n ta re s, e x p lica n d o e re fo rça n d o
  10. 10. Prólogo .- A Construção da Igreja um a a outra. A ssim , a Igreja que C r isto am a e sustém é a c aracte rística principal do plano de D e u s para o p r e s e n ­te e a eternidade,- e o c u id a d o p elo b e m -e sta r da Igreja, que é a e x p re ssã o do am o r p o r ela, é um d o s a sp e c to s da se m e lh a n ç a com C risto , que os c ristão s d evem sem p re cultivar. E sta m o s c e rto s em tra zer a Igreja no coração,- e s t a ­ríam o s e rra d o s se n ão o fiz é ss e m o s. A ssim c o m o d i z e ­m o s p r o v e r b ia lm e n te um ao outro: "S e me am a, am e ao m eu c a c h o r r o " , Je s u s nos diz: "Se m e am a, am e a m in h a Igreja". O que ficou claro no m o d o d aqu ele h o m e n z in h o e x ­pressar- se é que ele supunh a que os cristão s e v a n g é lico s se p re o c u p a s se m a p e n as co m suas so c ie d a d e s e irman-d ad es, e não se in te re ssasse m po r aqu ela que os Pais da Igreja c h am av am de "a gran d e igreja", e os clé rig o s de W e stm in ste r de "igreja c a tó lica visível", isto é, a c o m u ­n id ad e cristã m undial, em suas in co n táv eis e florescentes c o n g r e g a ç õ e s . Essa su p o siç ã o é ainda m uito com u m fora d o s círcu lo s ev a n g é lico s, e d e c e rto há in divíduos cujo fa ­lar e agir a têm refo rçad o. In dubitavelm en te, a falta de interesse pela Igreja é a ten tação o c u p a c io n a l de q u a l­quer um que b u sq ue nutrir a fé p e sso al e ex p erien cial em C risto , em to d a s as circunstâncias,- e é o n d e a m aioria d o s líderes da Igreja não alcan çou a ex te n são da on d a e v a n g é lica — um e sta d o de c oisas que, infelizm ente, tem sido com u m no m u nd o ocid ental, nos últim os cem anos. A o b se rv a ç ã o de m eio século, porém , m ostro u -m e que os líderes e v a n g é lico s e os fo rm ad o re s de o p in iõ e s não se ach am m a rc a d o s c o m o um só c o r p o pela indiferença para co m a igreja c a tó lica visível,- ao contrário . O ra r e 9
  11. 11. N e e m ia s — P a ix ã o p e l a F id e l id a d e plan eja r e tornar a orar pela refo rm a e a re v italiza ção da Igreja p a s so u a ser parte da te n d ê n c ia e v a n g é lica desd e o sé c u lo X V I, e ainda o é — c o m o de fato deve ser. O h o m e n z in h o estava certo: a lg o está errad o c o m os c r is ­tãos p r o fe sso s que n ão se identificam c o m a Igreja, não a am am , não investem a si m e sm o s nela, e n ão a trazem no c o ra ç ã o . O s e v a n g é lico s, "crentes" e "bíblias", e s p a lh a ­d o s p o r to d a s as d e n o m in a ç õ e s do m u n d o (e, de m o d o incidental, m u ltip lica n d o -se num a v e lo c id a d e fenom enal atualm en te) dev em con tin u ar a ser e x e m p lo de a m o r pela Igreja. M a s c o m o esse am or deve ser e n fo c a d o e m ostrad o? Aqui, infelizm ente, dividem -se os cam in hos. Para os m u i­tos que igualam a Igreja à sua form a institucional, am á-la significa entusiasm ar-se p o r sua liturgia, cerim ônias, b u ­rocracia e la b o r que lhe m an têm as rod as em m ov im en to . A q u eles que se interessam m ais p o r m an u ten ção e c u lti­vo que p o r m issões e ev a n g e lism o são ge ra lm en te in d ife ­rentes, e até m e sm o an ta gô n ic o s, a q u aisqu er atividades vo ltad a s a con v e rsõ e s e a e x p re ssõ e s de fé não in stitu cio­nalizadas — o que os e v a n g é lico s co n sid e ra m la m e n tá ­vel. O s ev an g é lico s p en sam na igreja em term os da vida com unal can a liza d a pelas form as institucionais, que para isto existem . Eles veem a igreja c o m o o p o v o d o S e n h o r reunin do-se regularm ente, para fazer as coisas que a igreja faz: louvar e orar, co m p r e g a ç õ e s e ensinamentos,- praticar a c o m u n h ã o e o c u id ad o pastoral, co m e n co rajam e n to e re sp o n sab ilid a d e mútuos,- exaltar e honrar a Je su s C risto, esp ecificam en te por m eio da Palavra, cân ticos e sa c ra ­mentos,- e estender-se, local e transculturalm ente, a fim de partilhar C risto com outros que dEle necessitam . Aqui, o 4 0
  12. 12. Prólocjo: A Construção i a Icjreja am o r pela Igreja en contra ex p re ssã o num a c on stan te b u s ­ca p o r fidelidade, san tidade e vitalidade — fervor e a n i­m ação — na vida in co rp o ra d a de c o m u n h ão co m o Pai e o Filho, po r m eio do Espírito, que é a real essên cia da igreja. D e v o ser claro e falar, diretam ente, que o discern im en to e v an g é lico parece-m e c o n c o r d a r com o N o v o T e sta m e n ­to, e que será a d o ta d o em tudo o que virá a seguir. C risto Edifica a Igreja O eclesiocentrism o do próprio Cristo manifestou-se clara­mente na primeira ocasião em que o vem os usando a palavra "Igreja". Foi num ponto decisivo de seu ministério, quando Pedro, com o porta-voz dos discípulos, respondeu a in da­g ação de Jesus, "Q uem dizeis que eu sou?", declarando: "Tu és o Cristo", o Rei enviado e ungido de Deus, o verdadeiro centro da história do mundo. A resposta de Jesus foi: "Bem-aventurado és tu, Sim ão Barjonas, porque não foi carne e sangue quem to revelou, mas meu Pai, que está nos céus. Pois tam bém eu te digo que tu és Pedro [o nom e significa 'pedra'] e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as por­tas do inferno não prevalecerão contra ela" (M t 16.15-18). P odem os deixar de lado a discussão sobre o exato significa­do das palavras de Jesus — se a pedra de fundação da Igreja é a confissão de fé de Pedro, ou o próprio Pedro, o c o n fe s­sor, no po der de sua fé,- e se "as portas do inferno" (alguma forma do p o d er da morte) deve ser entendido c o m o ataque à Igreja, ou c o m o resistência aos ataques feitos pela Igreja, ou am bas as coisas. O que nos im porta é a declaração de Jesus de que Ele, em pessoa, edificaria uma Igreja que é dEle, e ela triunfaria sobre todas as formas e poderes da morte. Procuremos enxergar o que isso significa. 1 1
  13. 13. N e e m ia s — P a ix ã o p e l a F id e l id a d e H o je , q u a n d o n ós do O c id e n te d iz e m o s "n ossa i g r e ­ja", e sta m o s n os refe rin d o , n o rm alm e n te , tan to ao e d i fí­cio (um a sala de reu n iõ es c o b e rta , um a u d itó rio ou um local de a d o r a ç ã o , às v e z e s c o m torres ou campanários,- às v e z e s n ão), ou a denom inação (um a fe d e ra ç ã o , frouxa ou firm e ; c o n g r e g a ç õ e s c o m um a m e sm a o p in iã o , ou ao m e n o s co m as m e sm a s m an eiras, c o m a lg u m a fo rm a de aju da m útua). P o d e m o s c h a m a r essas e n tid a d e s de " n o s ­sas" p o rq u e e s c o lh e m o s ligar-nos a elas. "N o s s a " s i g n i ­fica id e n tifica çã o , n ão p o s s e s s ã o . T o d a v ia , q u a n d o , em C e s a r e ia de Filip os, há q u ase d ois m ilê n io s, Je s u s disse "m inha igreja", a p o s s e s s ã o era a ideia p rin cip al do que Ele d eclaro u . O que Ele tinh a em v ista era a c o m u n id a d e u n ificad a e id e n tifica d a p o r um a m e sm a su je iç ã o a Ele — um r e c o n h e c im e n to de sua re iv in d ic a ç ã o so b re eles e de seu se n h o rio , e um elo c o m u m de amor, le a ld a d e e d e v o ç ã o a Ele. "Igreja", no te x to de M a te u s, é ekklesia, term o g r e g o c o rre n te p ara um a reu nião p ú b lica, e que a S e p tu a g in ta , tra d u çã o g r e g a do A n tig o T e sta m e n to , usa p a ra o h e b r a i­co djahal, "c o n g r e g a ç ã o " . Q a h a l era os israelitas reu n id o s em caráte r oficial, c o m o o p o v o da alian ça de Yahweh. J e o v á form ara o Israel do A n tig o T e sta m e n to , r e s g a ta n ­d o o p o v o da e sc r a v id ã o e g íp c ia e rev e lan d o -lh e a sua aliança. O p e n sa m e n to de Je s u s era claro: Ele m e sm o fo rm aria u m a c o m u n id a d e u nid a p ela c o m p r e e n s ã o c o ­m um do que P ed ro a c a b a ra de con fessar, isto é, que Je su s era o C r isto e n v ia d o e u n g id o , o Filho de D e u s, oficial e p e s so a lm e n te , o C r ia d o r e o d o n o de to d a s as co isa s, o S e n h o r de to d a vida, o d e te rm in a d o r de t o d o s os d e s t i­nos, e o S a lv a d o r de t o d o s os seus servos. D E le e de seu 1 2
  14. 14. P ró lo íjo: A C on stru ção da Igreja m in istério m e ss iâ n ic o derivaria a id e n tid a d e da Igreja,- a Ele, em sua g ló ria m essiân ica, ela daria a sua le ald a d e. Ela seria a sua Igreja em t o d o s os sen tid o s. T a m p o u c o , o fu n d ad o r da Igreja seria, de m o d o a l­gum , um r o m p e d o r do p a ssa d o . Ao con trário, a Igreja de C risto era para ser, e ag o ra o é, n ad a mais n ad a m e ­nos que a próp ria c o m u n id a d e do A n tig o T estam en to , no form ato novo e pleno, que D e u s p lan e jo u para ela desd e o princípio. É Israel in te rn a c io n a liz a d o e g lo b a lm e n te e x p a n d id o dentro, através e so b o d o m ín io de Je su s, o divino S a lv a d o r e seu Rei. É a família de D e u s Pai, c o m o tra n sp a re ce do fato de Je su s haver e n sin ad o os seus s e g u i­d ores a p en sar e falar de seu Pai C e le ste c o m o se n d o d e ­les tam b ém . Ela é a N o iv a e o C o r p o do C risto ressurreto, d e stin ad a à su prem a in tim id ad e co m Ele e a partilhar de sua vida. E o E spírito S a n to, o invisível, m as p o te n te fa-cilitad or divino, quem nos revela que Je su s C risto é real hoje, susten ta a n ossa con fian ça nEle e o n o sso am or por Ele, m o d e la e recon stró i o n o sso caráter à sua s e m e lh a n ­ça, e co n fe re -n o s h a b ilid a d e s para o m inistério m útuo no C o r p o ("C o m u n h ã o do E spírito Santo", em 2 C o rín tio s 13.13, parece significar tanto "so c ie d a d e com o Espírito" c o m o "so c ie d a d e co m os irm ãos, tra zid a p elo Espírito"). R e su m in d o , a Igreja é a c o m u n id a d e que vive na aliança, e p ela aliança, c o m o D e u s trino. C o m o o real S u m o S a c e r d o t e do R ein o de D e u s, R ein o de sa lv a ç ã o e sa n tid a d e , Je su s la n ç o u o fu n d am en to d e ssa c o m u n h ã o p o r sua m o rte e xp iató ria. A g o r a Ele é, v e rd a d e ira m e n te , m e d ia d o r da alian ça p ara to d a a c o m u n id a d e corp o ra-tiv a m e n te, b em c o m o para c a d a p a rtic ip a n te in d iv id u ­alm ente, p o r m eio do E sp írito S a n to e no p o d e r de sua Í 3
  15. 15. N e e m ia s — P a ix ã o p e l a F id e l id a d e co n tín u a v id a ressurreta. E sta era a re a lid a d e que Je su s tinh a em m e n te ao falar de 'm in h a igreja". N ã o que S im ão Pedro en tendesse bem essas coisas, qu and o con fe sso u a Je su s c o m o o C risto. O s ex egeta s j u ­d aico s daquela é p o c a não com p reen d iam que as profecias d o A n tig o T estam ento, con cern en tes a C risto, a m a lg a m a ­vam -se num p e rso n ag e m em quem o sacerd ó cio real, a ser­v id ão sofredora, e a m orte que culm inava em ressurreição e en tro n iz ação se combinavam,- e nenhum dos discípulos do Se n h or parecia ter-se c o m p e n e tra d o disso, até Ele ressur­gir dos m ortos. Jesus, porém , lendo o c o ra ç ã o de Pedro ao ouvir-lhe as palavras, en xe rg ou confiança e c o m p r o m e ti­m en to verd adeiros — fé verdadeira — que acom p a n h av am o discernim ento que o ap ó sto lo tivera do papel oficial de seu M estre. Foi c o m o se Sim ão h ou vesse dito: "O Se n h o r é aquele que con du zirá a história do m und o à sua m eta final, seja ela qual for,- é aquele que guiará a m inha história p e s ­soal ao seu fim, seja ele qual for. Eu sei que é isso o que o S e n h o r é, em b ora eu não co n h e ç a tudo o que Se n h o r p o d e fazer. Então, eu o re c o n h e ç o c o m o o C risto e, portanto, uno-m e ao Senhor". A o que Je su s re sp o n d e u declaran do que, sobre esta fun dação de fé, Ele ergueria a sua Igreja. O que Ele quis dizer co m isso? Q u a n d o falam os em construir um a igreja, pen sam o s geralm ente em tijolos e argam assa, dos quais a n ova e s ­trutura será feita,- d iz em os que ela será construída pelo ar­quiteto d esign ad o , ou pela c o n g re g a çã o , den o m in ação , ou benfeitor que a financiará, ou pela construtora que assum i­rá o projeto. T odavia, qu and o Je su s falou de construir a sua Igreja, não estava p en san d o nestes term os. Pensava, antes, no c o m p le x o p ro ce sso pelo qual a ve rd ad e so bre si m esm o 1 4
  16. 16. Prólogo-, A Construção da Igreja é recebida, c o m o os recep tores resp o n d em a ela (ou m e ­lhor, re sp o n d e m a Ele nos term os em que Pedro re sp o n ­dera), e c o m o são grad ativam ente co n fo rm ad o s a Ele, à m ed id a que partilham das coisas da Igreja, em obed iên cia à sua Palavra, so b seu senhorio, e em total dep en d ên cia do seu poder. Assim c o m o a Igreja con siste de indivíduos que, v in do pela fé e associan d o-se aos dem ais crentes, tornaram-se o p o v o do Se n h or (sua vinha, seu rebanho, seu tem plo, sua nação), a edificação da Igreja é tarefa de Jesu s, que Ele realiza m u d an d o-o s por dentro — no coração , c o m o se diz — de m o d o que o arrependim ento, a fé e a obed iên cia tornam -se, ca d a v e z mais, o pad rão de suas vidas. D e m a ­neira crescente, eles m ostram a m esm a hum ildade, pureza, am or e zelo pelas coisas de D eus, vistos em Jesus, e aten ­dem ao seu ch a m a d o para adorar, trabalhar e testem unhar em seu nom e. E não fazem isso c o m o indivíduos isolados, solitários, mas c o m o com p an h e iros-irm ão s na família de D eus, aju d an d o e en co rajan d o-se em franqueza e cuidado m útuo, que são o distintivo do "am or fraternal" (philadel-pkici: veja Rm 12.10: 1 T s 4 .9 ,- H b 13.1,- 1 Pe 1.22,-2 Pe 1.7). C o m isto, entram cad a vez mais na vida que constitui o autêntico cristianism o, a vida de c om u n h ão com o Pai C e ­leste, com o seu S a lvad or ressurreto, e uns com os outros,- e assim fazen do, são "edificados casa espiritual e sacerd ó cio santo, para oferecerdes sacrifícios espirituais, agradáveis a D eus, po r Je su s C risto" (1 Pe 2.5). Portanto, "eu edificarei a m inha igreja" (ênfase do autor) é um a m etáfora, exatam en te c o m o a prom e ssa anterior de Jesu s a Pedro — "D e ag ora em diante, serás pescador de h o ­mens" (Lc 5.10, ênfase do autor) — foi um a m etáfora. N e s ­sa ocasião, o Se n h or estava com p a ra n d o o trabalho v in ­ 1 5
  17. 17. N e e m ia s — P a ix ã o p e l a F id e l id a d e douro de Sim ão, de fa z e d o r de discípulos, à sua habilidad e de pescador. N o segu n d o caso, Ele estava d iz e n d o a Pedro que a sua própria obra graciosa — a de construir um a nova c om u n id ad e — seria co m p a ra d a à de um em preiteiro que, para erguer um a casa, co m b in a materiais brutos (pedras, tijolos, pranchas, toras) reunidos para este prop ósito. O p o n to principal na sen tença em que ocorre a m etáfora é que a ped ra de fundação, na qual a c om u n id ad e deve se firmar, isto é, o c o m p ro m isso que cad a p e ssoa dentro da Igreja deve partilhar, é a fé nEle c o m o o M e ssias divino — fé que Pedro acabara de verbalizar: "Sobre esta pedra e d i­ficarei a m inha igreja" (ênfase do autor). Entretanto, o que nos interessa ag o ra é o p ro ce sso de construir. A Palavra e o Espírito Por quais m eios o Sa lva d or edifica a sua Igreja? Isto é, c o m o Ele op era nas p e sso a s a m u dan ça que as une, tão profundam ente, num gru p o de crentes ativos em ad o ração e serviço, cujo n om e b íblico é "Igreja"? A resp o sta é: por m eio da sua Palavra (num sentido mais am plo, a Bíblia,- num fo co mais ag uçad o, o ev angelh o), e por seu Espírito, cujo papel nesta c o n e x ã o é tornar claro e p essoal o signifi­c a d o e a ap licaçã o da Palavra. A Palavra e o Espírito ju ntos — o Espírito interpretando e e v o c an d o resp o sta — são os m eios p elos quais C risto executa o seu trabalho de edificar a Igreja. Em Efésios, Paulo retrata este p ro c e sso c o m o crescimen­to da Igreja. H a v e n d o e xp licad o que C risto c o n ce d e à igreja servos d o ta d o s "querendo o ap e rfeiçoam e nto d o s santos, para a obra do ministério, para edificação do C o r p o de C risto, até que to d o s ch e g u e m o s à unid ade da fé e ao c o ­ Í 6
  18. 18. Prólocjo: A Construção da Igreja nhecim en to do Filho de Deus", ele afiança que, p o r estes m eios, d evem os crescer "em tudo naquele que é a c a b e ­ça, C risto, do qual to d o o corpo, bem ajustado e ligado pelo auxílio de todas as juntas, seg u n d o a ju sta op eraçã o de cada parte, faz o aum ento do corpo , para sua edificação em amor" (Ef 4 .12-16). Assim, em C risto, "tod o o ed ifí­cio, bem ajustado, cresce para tem p lo santo no Senhor, no qual tam bém v ó s ju ntam ente sois edificados para m orada de D e u s no Espírito" (Ef 2.20,21). À luz do retrato que Paulo faz da Igreja cre scend o c om o um c o rp o e c o m o um edifício em con strução, é lamentável que a frase "crescim ento da Igreja" seja usada, hoje, e xclu ­sivam ente para falar da e x p an são numérica, quand o a ideia exp ressad a por ela no N o v o T estam en to não é quantitati­va, mas qualitativa. E sem pre mais sábio usar a fraseologia bíblica em seu sentido bíblico. E esses textos deixam claro que o crescim ento da igreja que Paulo tinha em m ente não se tratava de recrutas sen do acrescen tad os à com u nid ad e (ele tinha outras ex p ressõ es para isso), mas da com u n id ad e sendo ajustada para o seu destino, pelo p o d e r da verd ade ensinada pelo Espírito. A perspectiva Palavra-e-Espírito de Paulo, com resp e i­to ao destino da igreja, aparece tam bém em seu discur­so aos anciãos efésios, con form e registrad o por Lucas em A tos 20 .1 7 -3 5 . U m olhar sobre essa p assage m confirmará o que viem os dizendo. Primeiro, Paulo fala de seu m inistério da Palavra: "T e s­tificando, tanto aos ju deu s c o m o aos greg os, a conversão a D eu s e a fé em n osso S e n h o r Je su s C risto" (v. 21). "... to d o s vós, por quem passei p re g an d o o Reino de D eus" (v. 25). "Porque nunca deixei de vo s anunciar to d o o con selh o 1 7
  19. 19. N e e m ia s — P a ix ã o p e la F id e l id a d e de D eus" (v. 27). Então ele fala da Igreja, e o faz de m od o a m ostrar que, para ele, a Igreja ocu p a um a p o sição c e n ­tral no p ro p ó sito de D eus. Ela é "a igreja de D eus, que ele resg ato u co m seu próp rio sangue" (v. 2 8 ); é o reb anh o de D eu s, am e a ç a d o p o r lo b o s (falsos m estres) e exigind o, por con seguinte, a m áxim a e fiel vigilância daqueles que foram d eclarad os seus guardiões. Ele refere-se, enfaticam ente, ao Espírito S a n to fazen d o d o s an ciãos supervisores para p a s ­torear a Igreja (v. 28). O que ele quer dizer é que o p r ó ­prio Espírito S a n to in specio na o p ro ce sso de sua seleção e n om eação , e a im plicação é que, se eles ag ora lhe b u s ­cam a ajuda para cum prir sua responsabilidade, a recebem . E Paulo conclui: "Agora, pois, irmãos, e n co m e n d o -v o s a D e u s e à palavra da sua graça, a ele, que é p o d e r o s o para vos edificar e dar herança entre to d o s os santificados" (v. 32, ênfase do autor). "Edificar" (ou sim p lesm en te "construir") é o m esm o v o c á b u lo de M ate u s 16.18, e aqui, c o m o em to d o o N o v o T estam en to, tem o m e sm o sentido. "Eu edificarei a minha igreja" (ênfase do autor), afirma Jesus,- e a "palavra da sua graça... p o d e r o s o para v o s edificar e dar herança entre todos os santificados" (ênfase do autor), discursa Paulo. A edificação d o s indivíduos é o ab afa m e n to do individualism o, p ois ela é precisam en te a fu n d am en taçã o d eles na rede com unal, ch a m a d a Igreja. A Palavra m inistrada, m e m o riz a d a e m a s ­tig ad a em m e d itaç ão tem o p o d e r de edificar pela aç ão do Espírito S anto. ("Exercício do po der" é o significado gre g o para "pode" ou "p o d e ro so " no v. 32). E, na Igreja na terra, este p ro c e ss o de erigir — ou edificar p o r dentro, c o m o se p o d e dizer q u an d o se e n fo ca a p e s so a — é contín uo. D e a c o rd o com a sua Palavra, Je su s edifica a sua Igreja.
  20. 20. Prólogo: A Construção da Igreja A Igreja do A n tigo T estam en to A g o ra surge um a q u e stã o sem p re form ulada p elos e stu ­d an tes da Bíblia. Je su s falou da edificação de sua Igreja u san d o o te m p o futuro: "Eu edificarei..." T o d o o e n sin a ­m en to do N o v o T e sta m e n to sobre a Igreja centraliza-se em C risto: sua vinda, m orte, ressurreição, asc e n sã o ao trono, e derram am en to do Espírito Sa n to. E ntão, a Igreja que o Filho e n ca rn a d o de D e u s está edifican do c o m e ç o u pelo seu m inistério histórico, ou D e u s estava edifican do um a Igreja nos te m p o s do A n tig o T e sta m e n to ? A r e s p o s ­ta é sim e não, d e p e n d e n d o do ân gu lo em que é p o sta a questão. Se a p ersp e ctiv a é estritam en te histórica, isto é, se está se perg u n tan d o sobre o ap arecim en to na terra de um a c o m u n id a d e que c on fessa a Je su s c o m o o C risto, a pergunta re sp o n d e a si m esm a: ob viam en te não p o d eria haver nenhum a co m u n id ad e de seg u id o re s de C risto e n ­quanto Ele não estivesse lá para ser segu ido, nem p o d e ­ria a b ê n ç ã o plena do P en teco stes ser usufruída até que o d erram am en to do Espírito Sa n to tivesse lugar. A Igreja do N o v o T estam en to é a Igreja de C risto e do Espírito Santo,- po rtan to, historicam en te falan do, a frequente d eclaração de que a Igreja c o m e ç o u no P en teco stes é verdadeira. Se, c o n tu d o , a p ersp e ctiv a é tan to te o ló g ic a qu anto histórica, isto é, se está se p e rg u n ta n d o so bre o r e la c io ­nam en to de D e u s co m diferentes in divídu os e gru p o s, em é p o c a s diferentes, a r e sp o sta à in d a g a ç ã o a b ran g e mais c o isa s do que tem sid o d e c lara d o , e torna-se claro, à m e ­did a que os d etalh es relevan tes são re e x a m in a d o s, que é m ais e n g a n o s o n egar a realid ad e de um a Igreja no A n tig o T e sta m e n to do que afirmá-la. 19
  21. 21. N e e m ia s — P a ix ã o pela F id e l id a d e O s escritores n eo testam en tários en sin am -nos a ler o A n tig o T estam en to c o m o uma testem u nh a histórica de um a era preparatória, na qual, por determ in ação divina, to d a s as coisas estavam c o o p e r a n d o para a c h e g a d a do M essias, que haveria de e stab e le ce r a nova ord em do R ei­no de D eu s neste m und o d eso rd e n ad o . Entretanto, duran ­te toda essa era, d esd e o princípio, D eu s estava tornando c o n h e c id o o gra c io so p a c to R ei-e-súditos, pelo que Ele diz aos hom ens: "Eu, seu C riador, sou o seu D e u s que os guia e os con d u z. V ocês são o meu povo, e cad a um de v o ­cês é meu, para honrar-m e e servir-me". O re la c io n a m e n ­to de D eu s com A d ão e Eva no Éden, era, neste sentido, pactuai. E qu and o D eu s con tinuou a m anter o re la c io n a ­m en to e a atrair as p e sso a s a aceitar essa aliança, apesar da tendência hum ana a falhar, ela revelou-se, na prática, um p acto de graça. "Eu, seu C riador, con tra quem vo cês pecaram , declaro-m e, todavia, o seu D eu s..." "Seu D eus" significa que D e u s se im porta c o n o s c o e está e m p e n h a d o a aben çoar-nos até o limite de sua so be ran a habilidad e, ou seja: de m o d o ilim itado. D e n tro desse p acto ou aliança, con fo rm e sugere a d im e n são R ei-e-súditos, há privação disciplinar e p u n ição à infidelidade,- con tu d o, o re la c io n a ­m en to em si é canal de b ê n ç ã o e en riquecim ento. D iz-se, verd adeiram ente, que religião bíblica é religião pactuai, no A n tigo T estam en to não m en os que no N o v o , e que, em am b o s os T estam en to s, a verd adeira religião — religião pactuai — é uma q u estão de p ro n o m e s p e s ­soais, isto é, de seres h u m an os sen do c a p a z e s de dizer: "M eu D eus", c o n h e c e n d o que D eu s se lhes dirige c o m o "meu povo", "meu se rv o ”, "meu filho", "meu só cio nesta alian ­ça". C a d a "meu" aqui é linguagem pactuai. E tam bém se 20
  22. 22. Prólogo-, A Construção da Igreja diz, co m ve racid ad e, que a Igreja do N o v o T estam en to é a co m u n id a d e do c o n ce rto co m D eus, o que nos leva a falar, naturalm ente, da co m u n id a d e do con ce rto com D e u s nos te m p o s do A n tig o T estam en to, c o m o a Igreja existente antes de C risto. E x p re ssan d o -n o s desta forma, porém , correm os à frente de nós mesmos,- care ce m o s de um m o m e n to para retroceder. Q u e m está no p acto com D eus? R esp osta: A queles que aceitam ativam ente o relacionam en to pactuai que Ele o f e ­rece e vive para Ele em aliança responsiva, que é a fé em seu sentido mais am plo. Abel, E noque e N o é , ju ntam ente c om A braão, estão entre aqueles de quem H eb re us 11.4- 16 afirma que "D eus não se en vergon ha deles, de se c h a ­mar seu D eus" (linguagem pactuai!) porque vivem para Ele em fé. D e G ê n esis 4. 25,26, inferimos que tod a a linhagem de Se te era o p o v o do pacto. G ê n esis 17 relata c o m o D eus estabeleceu, form alm ente, a sua aliança com a família de A braão, por m eio de Isaque, o que veio a se com p ro v ar com as d o z e tribos de Israel. O s livros de E x od o a Deute-ron ôm io detalham o c ó d ig o da Lei dada por D eus ao p o vo da aliança, d ep ois de resgatá-los do Egito. Este c ó d ig o centraliza-se nos D e z M an d a m en to s, que se acham estru­turados pela d eclaração introdutória: "Eu sou o Se n h or seu D eus..." (novam ente, linguagem pactuai) (Êx 20.2,- D t 5.6). As leis de D eu s são, deste m od o, a legislação do pacto. Em todas as ép ocas, apenas um a minoria de israeli­tas levava a sério a ob ed iên cia ao concerto, enquanto o restante, em b ora nacional e nom inalm ente so b a aliança divina, não se encontrava, pessoalm ente, num relacio n a­m en to pactuai co m D eus. C o n tu d o , sem pre houve alguns, um rem anescente, que viveram, trabalharam e até sofreram 21
  23. 23. N e e m ia s — P a ix ã o p e l a F id e l id a d e perdas, em fidelidade e confiança nas p rom essas de Deus, ad o rand o, oran d o e praticand o o am or ao próxim o, a m o ­ralidade pactuai em co n co rd ân cia com a Lei, e a c o m u ­nhão e o en co rajam en to mútuo. N ã o ch am ar de Igreja este rem an escente fiel do A ntigo T estam en to, qu and o os seus m em b ros relacionavam -se com D eu s precisam ente c o m o fazem os cristãos, seria realm ente estranho. Parece-nos, então, que no A ntig o T estam en to so m os con fron tad os com duas coisas. U m a é a realidade da ve r­dadeira e da falsa religião entre o p o v o do p acto oficial, a com u n id ad e que h o je cham aríam os de igreja visível. A diferença entre o ag ora e o en tão é em parte uma questão de co n h e c im e n to e, em parte, de experiência. O s fiéis do A n tig o T estam en to não sabiam tanto a respeito do C risto a quem esperavam c o m o sabem os cristãos do N o v o T e sta ­m ento, ag ora que Ele já veio,- ta m p o u c o os santos daqueles tem p os experim entaram o p o d e r transform ador de D eu s em suas vidas, c o m o os cristãos o têm e xp erim en tad o desde o d erram am ento p en tecostal do Espírito Santo. N ã o o b s ta n ­te, fé, arrependim ento, tentação, amor, dúvida, d e scre n ­ça, louvor, oração, orgulho, gratidão, apostasia, paciência, pureza de coração, autocontrole, zelo por D eu s — enfim, tod a s as virtudes p ertencentes à pie d ad e e to d o s os vícios da im piedade eram, essencialm ente, nos tem p o s do A ntigo T estam ento, os m esm os de hoje. E o A n tig o Testam en to con tém p rofundos ensin am ento s acerca deles. A o m esm o tem p o (e esta é a seg u n d a coisa que en contram os), m u i­tas das regras que D eu s estab eleceu para Israel, por m eio de M oisé s, eram sim bólicas e tem porárias, im postas por razões educacionais, até que viesse o Cristo. A gora, não mais se aplicam a ninguém. O N o v o T estam en to informa- 2 2
  24. 24. P rólogo: A Construção i a Igreja nos o que pertence a esta última categoria, e esta é um a lição que os leitores cristãos do A ntigo T estam en to devem absolutam ente aprender. Tipo e A ntítipo S e jam os, pois, específicos: um tipo nas Escrituras é um evento, um a instituição, um lugar, ob jeto , ofício, ou um a p e ssoa ex ercen d o um ofício, que representa um a realidade m aior e que, em certo sentido, é da m esm a esp écie e deve aparecer na história, em algum p o n to subsequente. Esta r e ­alidade m aior recebe o n om e de antítipo. O term o "tipo" é extraído de R o m a n o s 5.14, on de A d ão é tratado c o m o um tupos (m o d elo ) de C risto, aquele que estava por vir. (Tupo, no original gre g o , significa um cunho ou m olde). 'A n títi­po" vem de 1 Pedro 3.21, on de o batism o, en tend id o não sim plesm ente c o m o um a aplicação de água ao corp o , mas essencialm ente c o m o um a e m an ação de fé em D eus, é c h a ­m ad o de antítipo da preservação de N o é do dilúvio, por sua entrada na arca. U m tipo estabelece um sistem a para interpretar a rea­lidade maior, quand o ela aparece,- e entrementes, sim ples­m ente por existir, ele inculca o princípio do qual a realidade m aior será a suprem a instância. Q u a n d o a realidade maior chega, torna-se o fator decisivo em seu próprio campo,- de um m od o ou de outro, ela transcende e suplanta o tipo. Em term os de esp aço /tem p o, o tipo é, desde então, um a coisa do p assado, não mais determ inante do que deve ser feito ou do que acontecerá. A sua im portância bíblica, no entanto, é de valor perm anente, uma vez que provê con ce itos e c a ­tegorias para a com p reen são do antítipo. Assim, a tipologia torna-se uma espécie de manual para uso em teologia. 2 3
  25. 25. N e e m ia s — P a ix ã o p e la F id e l id a d e Existem muitos tipos nas Escrituras, mas aqueles real­m ente importantes para a interpretação do livro de N eem ias são três: Prim eiro: so b a d is p e n s a ç ã o m o s a ic a da aliança de D e u s — d is p e n s a ç ã o que a C a r ta ao s H e b re u s c h am a de "anterior" e "prim eira", e d e clara ser o b so le ta , um a v e z que C r is to já ve io ( H b 7.18,- 8.7, 1 3 ; 9 .1 ) — a c o ­m u n h ão p actu ai co m o san to D e u s de Israel era m an tid a em face d o s c o n sta n te s p e c a d o s d o s israelitas, através de um sistem a típ ic o de sacrifício s, a d m in istra d o por um s a c e r d ó c io típ ico, em um san tuário que tip ificav a a im ed iata p re se n ç a de D e u s. A m e d ia ç ã o e o m in istério sa c e rd o ta l de Je s u s C r isto , o seu sacrifício feito de um a v e z p o r to d a s, b em c o m o a sua in ce ssa n te in te rc e ssão , su p lan tam tu d o isso, c o n fo rm e e sc la re ce H e b re u s 7 a 10. N o s te m p o s de N e e m ia s , c o n tu d o , o c a m in h o p rescrito para a c o m u n h ã o c o m D e u s era a o b e d ie n te ofe rta d o s sa c rifíc io s e stip u la d o s. S e m eles, não se p o d ia e sp e ra r o favor de D eu s. S e g u n d o : so b o an tigo pacto, Israel receb eu um a terra — a Palestina — com p ro m e ssas de p ro sp e rid a d e e p r o ­te ç ã o pela fidelidade, advertências de e m p o b re c im e n to e exp u lsão p o r infidelidade, e esp erança de restauração, a p ó s um a punição seg u id a de arrepen dim en to. A própria terra era um tipo de "pátria melhor, isto é, a celestial" (H b 11.16), um país que não seria definido g e o g ra fic a m e n ­te, m as relacionalm en te, em term os de c o m u n h ã o entre C risto e o seu p o vo , e de fruição de to d a s as b o a s coisas que Ele c o n c e d e àqueles que nEle confiam e o servem. N o s te m p o s de N e e m ia s, entretanto, a terra era o lugar d e s ig n a d o para a b ê n ç ã o — um a b ê n ç ã o que abrangia o suprim ento das n ece ssid a d es, a ren o va ção de vida para um 2 4
  26. 26. Prólogo-. A Construção da Igreja p o v o en fraqu ecid o, o retorno do exílio e a recup eração das terras so b o d om ínio pag ão . Terceiro: sob o antigo pacto, Jerusalém , a cidad e de D avi e do T em plo de Sa lom ão , era recon h ecid a c o m o o lu­gar que D eu s escolhera "para ali fazer habitar o seu nome' (D t 12.11,21), o centro de ad o ração de Israel, on d e os sacrifícios deveriam ser oferecidos, os rituais de ad oração o b se rv ad o s e a presença de D eus, vista e desfrutada. S o b a nova aliança, verificam os que o próprio p o v o de Deus, em C risto, constitui o seu tem plo (Ef 2.19-22), e a sua p resença para ab en ço ar p o d e ser usufruída on de quer que os seus servos clam em por Ele por interm édio de Cristo, ou clam em a C risto c o m o o representante de D eu s (H b 4 .1 5— 10.19-22), en quanto "Jerusalém" e "Sião" referem-se a um a com u n id ad e que não é deste m und o (G1 4.26,- H b 12.22,- A p 3.12; 2 1 .2 ,1 0 ), um a com u n id ad e que agora se revela c o m o o antítipo do qual a Jerusalém terrena era tipo. N a é p o c a de N eem ias, era catego ricam e n te n e c e ssá ­rio que D eu s fosse ad orad o em Jerusalém , porque isso fora divinam ente prescrito. Portanto, Jeru salém tinha de estar em c o n d iç õ e s de honrar a D eu s publicam ente, c o m o lhe era devido. O Livro de N eem ias A go ra estam os equipad os para sintonizar-nos ao livro de N eem ias e com p reen d er tudo o que nele se encontra. O livro é parte de um a dupla com p o sta, claramente, de Es-dras e Neemias,- e é parte de um conjunto, pois é evidente que Esdras e N eem ias são um a con tinuação dos livros de Crônicas. O s cronistas revisaram a história de Israel, desde D avi até o exílio, com um foco sobre o Tem plo, a adoração 2 5
  27. 27. N e e m ia s — P a ix ã o p e la F id e l id a d e e a vida espiritual dos reis, dos sacerdotes e do povo. Esdras e N e em ias m antêm este foco. O s capítulos de 1 a 7 de N e e ­mias, bem c o m o o 1 3, parecem extraídos do seu diário,- e os capítulos de 8 a 12 assem elham -se a um registro oficial, feito por N eem ias em sua narrativa, quando, talvez c o m o uma incum bência em sua aposentadoria, ele preparou suas m e ­mórias para uma inspeção pública (ele era, acima de tudo, um político). Verem os que o capítulo 1 3 perderia muito de sua essência, se não existissem os capítulos de 8 a 12. A história contada por Neemias é fascinante. Ela trata da reconstrução dos muros de Jerusalém (caps. 1— 6), da renova­ção da adoração em Jerusalém (caps. 8— 10), do repovoam en­to da cidade (caps. 11— 12) e, finalmente, do reavivamento da renovação de Jerusalém, que, ao longo dos anos, perdera o seu fervor (cap. 13). Então, ela é, ao m esm o tempo, a história da construção literal da Jerusalém palestina (o tipo), e a história da edificação espiritual da Jerusalém com o o povo do concerto de Deus (o antítipo), a saber, a Igreja do Antigo Testamento. Por intermédio de Deus, Neemias edificou muros,- por intermédio de Neemias, Deus edificou santos. Humanamente, Neem ias é a figura-chave em ambas as histórias. Seu livro revela-o com o um líder pastoral por excelência, devoto, dinâmico, humilde, zeloso, sábio, paciente. E em todos os pontos ele parecia ser, assim com o Moisés, Paulo, Martinho Lutero, Oliver Cromwel e Winston Churchill, um pouco maior que a vida, por causa da clareza com que definia as suas metas e da energia com que as perseguia. D esse ponto de vista, o seu livro pode ser lido com o o registro pessoal de um triunfo pastoral e político. Mas pode, de igual m odo, ser lido com o um testemunho do proceder de D eus com Neem ias e com aqueles que o servem, de m od o a produzir neles vitalidade, bravura, tenacidade, generosidade e maturidade — aspectos da piedade que Deus fomenta em sua 2 6
  28. 28. Prólogo.- A Construção da Igreja igreja, e que nós reconhecemos com o semelhança de Cristo. Esta é, sem dúvida, a abordagem correta. O livro de Neem ias deve ser lido, portanto, com o um testemunho da renovação e santificação da igreja. O motivo de Neem ias para escrevê-lo foi doxológico, não vanglorioso,- foi para o louvor de Deus, não de si mesmo,- para testificar do que Deus fizera nele e por ele, não de qualquer coisa que ele pudesse reivindicar com o realização pessoal. 'Tenho glória em Jesus Cristo nas coisas que pertencem a Deus", escreveu Paulo, cinco séculos depois. "Porque não ousaria dizer coisa alguma, que Cristo por mim não tenha feito, para obediência dos gentios, por palavra e por obras" (Rm 15.17,18). D e m a­neira idêntica, Neem ias glorifica a Deus pelo que Ele fez, por meio dele, para o bem-estar espiritual dos demais,- e o objeti­vo de seu livro é levar os leitores a glorificar com ele. Parece-nos, por isso, que o m odo sábio de explorar o livro de Neem ias é estar igualmente interessado na forma com o o seu autor guiou o povo, e com o Deus guiou o seu autor. Além disso, o bem-estar da igreja deve ser mantido com o o prin­cipal foco de interesse, enquanto prosseguimos nessas duas inquirições. E nisto que devemos diligenciar, nas páginas a seguir. 27
  29. 29. P r e f a c i o à Séri e Porventura, não ardia em nós o nosso coração quan­do... nos abria as Escrituras?" Ponderavam os dois discípulos, com quem Jesus, ressuscitado, caminhara e conversara ao entardecer daquele primeiro D om ingo de Páscoa (Lc 24.32). A saudável queimação que eles experi­mentaram não era exclusividade deles,- ao contrário, todas as pessoas, de todas as eras, para quem é aberta a Palavra de D eus a conhecem . O que é ela? E uma com binação de claridade e alegria na presença de Deus, que impulsiona a adorar, trabalhar e testemunhar. Além disso, é o próprio o b ­jetivo da pregação,- e é também o propósito de Living Insigbts Bible Studies. Living Insigbts Bible Studies são, na verdade, pregações no papel. C ada livro tom a uma porção da Bíblia e busca fazê-la funcionar com o luz de Deus para esclarecer e guiar. O nome bíblico para o funcionamento da luz divina, desse m odo, é sabedoria,- daí, os subtítulos dos livros. Living Insigbts Bible Studies não são com entários: são menos, já que não tentam cobrir tudo,- e são mais, porque perseguem os temas-chave da Bíblia para nutrir a vida espiritual. Tem áticos no caráter, os livros com eçam apresentando os temas enfocados na exposição. Isso faz parte do feitio da série e estabelece a propulsão de cada livro. Espero e oro para que D eus use Living Insigbts Bible Studies com o um meio pelo qual a enaltecida com oção do caminho de Emaús seja hoje renovada. J. I. Packer
  30. 30. Sumario Prólogo.- A Construção da Igreja 7 Prefácio à Série 29 1. C onheça N eem ias 33 2. Cham ado para Servir 57 3. O Administrador I: Prosseguindo 77 4. O Adm inistrador II: D ando Continuidade 103 5. Testado para a D estruição 127 6. Tem pos de Refrigério 155 7. D e Volta ao C om eço 187 Epílogo-, Dois Impostores 2 19 Motas 237
  31. 31. 1 C o n h e ç a N e e m i a s Eu gosto dele. Ele era um homem de construção", confidenciou-me o velho construtor texano. Ale-grei- me ao ouvi-lo porque, francamente, também gosto de Neem ias. Espero que, quando chegar ao céu, pos­sa reconhecê-lo e confessar-lhe isso. O que desejo que ele saiba é que, durante o meio século em que tenho servido a Cristo, ele me tem ajudado muito, talvez mais que qualquer outro personagem bíblico, que não o próprio Senhor Jesus. Q uando, aos dezenove anos, com ecei a imaginar se Deus me quereria no ministério, foi a experiência de Neem ias que me mostrou com o se dá a orientação vocacional, e pôs-me no caminho. Q uando me encarreguei de um centro de estudo com prom etido a neutralizar a teologia liberal, foi Neem ias quem me forneceu as ideias de que eu necessitava para co ­mandar um empreendimento de D eus e lidar com a oposição fortificada. Q uando, depois disso, tornei-m e o diretor de uma fa­culdade teológica, que se achava em apuros financeiros, novam ente foi o exem plo de liderança de N eem ias que me ensinou com o fazer o meu trabalho. U m a vez que p o d e ­m os falar daquilo que vim os, quando sou convidado a pa-
  32. 32. N e e m ia s — P a ix ã o pe la F id e l id a d e lestrar sobre vocação e/ou liderança, frequentem ente levo os meus ouvintes a uma viagem pela história de N eem ias. E natural que nos afeiçoem os a alguém a quem tanto deve­m os, sinto-m e profundam ente endividado com N eem ias. N inguém deve admirar-se, então, de que eu o considere agora um am igo particular. Tam pouco sou eu o único a considerá-lo com o tal. U m livro publicado em 1986 c o ­m eça assim: Os detalhes de meu primeiro encontro com ele acham-se nublados em minha mente. Deus enviou-o a mim em meus primeiros anos na universidade, a fim de ajudar-me a superar alguns desafios formidáveis. Desde então, ele tem sido uma companhia sempre presente... Neemias pôs todo o seu ser em seu diário, que foi incor­porado ao livro que agora chamamos pelo seu nome. Lendo-o, posso sentir-lhe as batidas do coração, o tremor dos dedos e a aflição de seus gemidos... Que sabedoria a dele! E como ele incutiu em mim as lições básicas de liderança! Não es­queci nenhuma delas, e tenho volvido a ele de tempos em tempos, em busca de reafirmação. Como estudante de medicina, eu necessitava dele de modo especial. Ele era um líder. E... bem, quer eu o desejas­se quer não, tornei-me, em um tempo relativamente curto, o presidente nacional da British Inter-Varsity... Durante esse período, Neemias confortou-me e instruiu-me... Eu escolhi explanar o livro de Neemias na primeira Latin American Fello­wship o f Evangelical Students... Neemias tornou-se uma espécie de patrono do novo movimento — ou ao menos uma luz orientadora aos jovens alunos de liderança, que enfrentavam a impressionante tarefa de evangelizar um continente... 34
  33. 33. Conheça Neemias À medida que as responsabilidades se sucediam, con­tinuei fascinado e instruído pela vida e pelas palavras desse homem de ação. E conforme eu envelhecia, mais dele eu respigava. Era o homem, não o livro, que me prendia... Ele tornou-se o meu modelo de liderança.1 Q uando li pela primeira vez essas palavras de John W hite, ri sonoram ente, daquele jeito que às vezes não podem os evitar, face às coisas deleitáveis que D eus faz. Joh n W hite e eu som os quase contem porâneos e tem os muita coisa em comum: uma form ação British Inter-Varsity; genes britânicos unidos pela cidadania canadense,- uma te ­ologia evangélica, uma com pulsão pastoral e uma vocação literária,- e um lar na Loiver M ainland ojB ritish Columhia. N ão obstante, até 1986, eu não sabia que partilhávam os um re­lacionam ento paralelo a N eem ias. C ontudo, os parágrafos citados contêm palavras que parecem extraídas do meu coração. Fico im aginando quantos m ais têm sido mento-reados por N eem ias. As Falhas de Neemias N ão obstante, nem todo o mundo tem o nom e de N eem ias em sua lista de personagens bíblicos favoritos. Imagino que isso se deva a, pelo menos, duas razões: Para começar, a maioria dos cristãos conhece bem pouco sobre ele. Suas leituras do Antigo Testam ento são incom pletas, e o livro de N eem ias é um dos quais nunca chegaram perto. Sabendo que N eem ias não é m encionado no N ovo Testam ento, in­ferem que não seja im portante e não se interessam por ele. Se lhes fosse dito com o é forte o caso que o liga a M oisés 35
  34. 34. N e e m ia s — P a ix ã o p e l a F id e l id a d e com o refundador da nação, para cuja criação D eus usou M oisés, ficariam surpresos. Além disso, aqueles que conhecem algo a seu respeito formaram uma imagem desagradável dele, que os im pede de levá-lo a sério com o homem de Deus. Veem-no com o uma pessoa um tanto selvagem, que lançava a própria carga sobre os outros e nunca foi uma companhia agradável, em circuns­tância alguma. N otam as imprecações em suas orações: "Caia o seu opróbrio sobre a sua cabeça, e faze com que sejam um despojo, numa terra de cativeiro. E não cubras a sua iniquida­de, e não se risque diante de ti o seu pecado" (N e 4.4,5,- com ­pare com 6.14 e 13.29, onde "lembrar" significa "lembrar para julgamento"). Observam que, ao menos em uma ocasião, ele amaldiçoou e espancou seus compatriotas, e arrancou-lhes os cabelos (13.25). E então concluem que, dificilmente, ele era um homem bom ; decerto, não um homem de grande estatura espiritual, de quem se pode aprender lições preciosas. Qual é o comentário para tal avaliação? Primeiro, havia algumas arestas realmente ásperas em Neemias,- todo líder as possui. Com base nos quatro temperamentos, ele parece ter sido um homem colérico, rijo, indócil e franco, que se sentia extremamente feliz despendendo energia em projetos desafiadores, e que achava mais íácil jazer do que ser. Pessoas desse tipo são sempre consideradas assustadoras, em parti­cular quando, guiadas por seu zelo, falam e agem de modo excessivamente enfático — o que acontece com frequência. Segundo, Deus preparara Neem ias para uma tarefa que um homem menos franco não seria capaz de executar. E, ter­ceiro, a limpeza que Jesus fez no Tem plo e a acusação que lançou aos fariseus foram mais rudes que qualquer coisa fei­ta por Neem ias. Se acham os que a impetuosidade de Jesus 36
  35. 35. Conheça Neemias era justificada, podem os admitir a possibilidade de que a de Neem ias também o fosse. Voltarei a falar disso no momento apropriado. Todavia, não defendo que Neem ias tenha sido impecá­vel. Eu seria tolo e beiraria à blasfêmia, se o fizesse. Jesus Cris­to é o único homem sem pecado encontrado na Bíblia. Ele é a única Pessoa sem pecado que já existiu. Todos os demais servos de Deus foram criaturas caídas, pecadores salvos pela graça, e, às vezes, a sua pecaminosidade aparece. Se Neem ias tinha cabelos vermelhos, não sei; mas certamente havia nele uma intensidade rubra, que se expressava numa ferocidade não muito cristã. Esse era o defeito de sua qualidade, a limita­ção que lhe acompanhava a veemência. Todo servo de Deus falha, de um modo ou de outro, e Neem ias não era exceção à regra. Contudo, a sua força era maravilhosa. Por isso, espero que ninguém perca o interesse nesse estadista, simplesmente por havermos concordado que ele não era perfeito. A Força de N eem ias Que forças especiais vem os em N eem ias? Pelo menos três: Primeira, ele é um m odelo de Zelo p es so a l, isto é, zelo pela honra e glória de Deus. C om o o próprio N eem ias expressa em uma de suas orações, ele é um dos que "desejam temer o teu nome" (N e 1.11), e a força de sua paixão por m agni­ficar o Senhor é verdadeiramente grande. Tal zelo, em bo­ra se igualando ao de Jesus, dos salmistas e de Paulo (para não mencionar outros), é mais raro hoje do que deveria. A maioria de nós se parece mais com os mornos laodicenses, vivendo agradavelm ente em igrejas serenas, sentindo-nos confiantes porque tudo vai bem e, com isto, desgostando 3 7
  36. 36. N e e m ia s — P a ix ã o p e l a F id e l id a d e ao Senhor Jesus, pois Ele vê que, espiritualmente falando, nada está bem (veja Ap 3.14-22). A linguagem dura com que o Senhor ameaça vom itar a igreja de Laodiceia, isto é, repudiá-la e rejeitá-la, m ostra que o zelo pela casa de Deus ainda o com pele em sua glória, exatamente com o o fazia na terra, quando purificou o Tem plo (Jo 2.17). N o s dias em que D eus usava seu próprio povo com o seus executores, não apenas em guerras santas contra os pagãos, mas para disci­plinar a igreja, o sacerdote Fineias atravessou com a espada um hebreu e sua prostituta midianita. Então Deus, por meio de M oisés, aprovou-o por seu zelo, que se assem elhava ao zelo divino: "Pois zelou o meu zelo no meio deles,- de m odo que no meu zelo não consumi os filhos de Israel. Portanto, dize: Eis que lhe dou o meu concerto de paz, e ele e a sua se­mente depois dele terão o concerto do sacerdócio perpétuo,- porquanto teve zelo pelo seu D eus” (N m 25.11-13). Assim com o D eus é zeloso, os seus servos devem sê-lo. Está claro de que zelo estamos falando? N ão se trata de fanatismo,- não é selvageria,- não é entusiasmo irrespon­sável, nem qualquer forma de egoísm o agressivo. E, antes, um com prom isso humilde, reverente, m etódico e sincero, de santificar o nome de Deus e fazer-lhe a vontade. Um homem zeloso em religião é, acima de tudo, alguém que se preocupa com uma única coisa. Não basta dizer que é sério, genuíno, intransigente, radical, sincero, fervoroso em espírito. Ele vê somente uma coisa, importa-se unicamente com uma coisa, absorve-se com uma só coisa. E esta coi­sa singular é agradar a Deus. Quer morra, quer viva, tenha saúde ou esteja enfermo, seja rico ou pobre, agradável aos homens ou ofensivo, sábio ou tolo, obtenha honra ou passe 38
  37. 37. Conheça Neemias vergonha, nada disso lhe importa. O zeloso arde por uma única coisa, que é agradar a Deus e dar-lhe glória.2 Pessoas zelosas são sensíveis a situações em que a verdade e a honra de D eus se achem, de alguma forma, postas em jogo. Em vez de deixar o assunto passar à revelia, elas chamam a atenção dos outros para a questão, a fim de obrigá-los, se possível, a mudar de opinião. E o fazem até com risco pesso­al. Neem ias tinha essa espécie de zelo, com o podem os ver, e o seu zelo é exemplo a todos nós. A segunda força que encontram os em N eem ias é o seu compromisso pastoral — o com prom isso de um líder, de al­guém que impulsionava e com pelia ao serviço de com pai­xão pelo necessitado. O líder é alguém que persuade os dem ais a abraçar e desem penhar o propósito dele mesmo. Conform e H arry Truman expressou-se certa vez, o trabalho do líder é levar os outros a fazer o que não querem, e ainda gostar de fazer. Só se é um líder quando se é verdadeira­mente seguido, assim com o só se é professor se os outros aprenderem com ele. Portanto, para ser um líder, a pessoa tem de ser capaz de m otivar as outras. Senão, corre-se o risco de se tornar um ditador, usando o poder persuasivo para m anipular e explorar seus liderados. N eem ias, porém, não era assim . Ele não era um ditador nem não pouco um capacho,- não tratava rudemente as pessoas mais do que permitia que o tratassem . D a m esma forma que expressava o am or a D eus por m eio de seu zelo concentrado, expres­sava am or ao próxim o por m eio de seu cuidado com passi­vo. Conscientem ente, ele assumia a responsabilidade pelo bem -estar dos outros. Ele via a restauração de Jerusalém com o uma operação de assistência social, não m enos que 39
  38. 38. N e e m ia s — P a ix ã o p e l a F id e l id a d e uma honraria a D eus; enquanto se ocupava da construção dos muros, reservou um m om ento de seu tem po, ao m enos uma vez, para ajudar os pobres (N e 5.1-13); além disso, re­nunciou perm anentem ente ao seu direito de ser sustentado por aqueles a quem governava (5.14-18). Neemias inseriu algumas de suas orações em suas memó­rias, e isso tem gerado perplexidade. Um a delas é: "Lembra-te de mim para bem, ó meu Deus, e de tudo quanto fiz a este povo" (5.19, depois da prestação de contas de seu serviço so ­cial). Outras orações do tipo: "Lembra-te de mim" podem ser encontradas no capítulo 13, versículos 14, 22 e 31. O que se passa aqui? Teria Neemias a intenção de deixar um balanço de seus méritos no livro de Deus? Estaria pedindo para ser justifi­cado por suas obras? D e forma alguma. Ele refere-se ao que fez, simplesmente como um indício de sua integridade e sincerida­de no ministério,- uma prova de sua genuinidade como um ser­vo dos servos de Deus. Noutras palavras, uma evidência de seu vívido compromisso pastoral, de que falamos anteriormente. A terceira força que Neem ias demonstrava era a sua sa­bedoria prática, a habilidade em traçar planos realísticos e con­seguir que as coisas fossem feitas. D este ponto de vista, as memórias de Neem ias constituem um curso de habilidades administrativas. D esde que o vimos ser bem-sucedido em trocar a confortável vida que tinha com o criado de alto ní­vel (copeiro real) pela problemática função de governador de Judá, com os descontentes lamuriando-se o tempo todo enquanto ele procurava reconstruir e reorganizar Jerusalém, vemo-lo erguer-se para o desafio de cada situação com o dis­cernimento de um verdadeiro perito. Assistimo-lo obtendo do rei um salvo-conduto e penhor para materiais de constru­ção,- organizando e supervisionando a edificação dos muros,- 40
  39. 39. Conheça Neemias providenciando defesas para Jerusalém, enquanto se erguiam os muros,- acalmando os descontentes e impedindo uma ame­aça de greve dentro da força-tarefa,- mantendo o moral até que o trabalho fosse completado,- conduzindo negociações delicadas com amigos e antagonistas,- e, finalmente, impon­do e reimpondo regras não apreciadas sobre raça, serviço do Templo e observações sabáticas. Foram muitas as dores de cabeça que Neem ias teve com o homem do topo, e é admirá­vel a santa versatilidade com que lidou com cada uma dessas coisas. E as realizações de N eem ias foram tão eminentes quan­to os seus dons. Ele reconstruiu os muros arruinados de J e ­rusalém em cinquenta e dois dias, quando ninguém achava que ainda seriam reconstruídos,- restaurou a adoração re­gular no Tem plo, a instrução regular da Lei de Deus, as observâncias sabáticas e a vida familiar piedosa. Ele foi o verdadeiro refundador da vida incorporada de Israel após o exílio, depois de cem anos de tentativas frustradas de restaurá-la. A meu ver, N eem ias ocupa um lugar na histó­ria bíblica, por direito, com os m aiores líderes do povo de Deus: M oisés, D avi e Paulo. Ele foi, verdadeiram ente, um hom em admirável. Contudo, o próprio Neemias seria o primeiro a repreen­der- me, se eu deixasse o assunto por aí. Ele sabia, e insiste em seu livro, que o que ele realizou não foram meros feitos humanos, e seria um mal-entendido tratá-los como tal. As ora­ções por ajuda, com que ele pontuou sua história, mostram onde ele acreditava repousar a sua força, e onde, diariamente, buscava suporte (N e 1.4-11,- 2.4,- 4.9,- 6.9). Suas referências ao que "Deus me pôs no coração" (2.12; 7.5) revelam de onde ele sentia vir a sua visão e sabedoria. E a sua declaração "Acabou- 41
  40. 40. N e e m ia s — P a ix ã o p e l a F id e l id a d e se, pois, o muro... em cinquenta e dois dias... os nossos inimi­gos... reconheceram que o nosso Deus fizera esta obra" (6.15,16, ênfase do autor) diz tudo. D e fato, ele protesta: "N ão me deem o crédito. O que é feito por agentes humanos com o eu é feito por Deus, e Ele deve receber o louvor". Eu concordo, e espero que os meus leitores também. Soli Deo Gloria! (Somente a Deus seja a glória.) O Deus de Neemias O que faz de alguém um homem de Deus é, antes de tudo, a sua visão de Deus. Conhecerem os melhor a N eem ias se, a esta altura, derm os uma olhada em suas crenças sobre D eus, conform e reveladas em seu livro. Suponho, e agora me parece óbvio, que a unidade do livro seja produto da própria mente de N eem ias. Já vim os que a sua essência é a m em ória pessoal desse hom em de ação (capítulos 1 a 7, e 13), a qual foi acrescentado o que parece ser um registro oficial dos exercícios inaugurais da adoração na Jerusalém restaurada (capítulos 8 a 12). A lista dos construtores no ca­pítulo 3, a lista do recenseam ento no capítulo 7, a lista dos signatários no capítulo 10.1-27, e as listas dos residentes em Jerusalém e circunvizinhança, com sacerdotes e levi­tas, que encheram os capítulos 11.3— 12.26, são o tipo de material que, hoje, seria posto em apêndices. Antigam ente, porém, sim plesm ente se incorporavam todas as coisas em um texto. A suposição natural é que, com o um estadista m oderno que suspeita, ou espera, constar dos futuros livros de histórias, N eem ias tenha devotado parte de sua aposen ­tadoria a com por, numa só obra, seu testam ento político e seu testem unho pessoal,- e com esta finalidade, valeu-se do 42
  41. 41. Conheça Neemías diário que mantivera durante os seus anos de figura pública, mais as fontes oficiais, às quais um ex-governador de Judá tinha acesso direto. Sob este ponto de vista, o livro de Esdras teria, natu­ralmente, sido escrito com o um volume associado, ligando os feitos de N eem ias aos acontecim entos que com eçam no final do exílio. Seja com o for — nada disso pode ser provado com o certo — o livro de Neem ias é uma unidade e, portanto, não estamos errados em prosseguir sobre a base de que, inserindo os capítulos 8 a 12 em seu texto, Neem ias endossou, e fez seu, tudo o que eles declaram sobre Deus e seus caminhos, ainda que, originalmente, não os tenha rascunhado. O que Neem ias nos oferece de seu diário revela-nos, com o observou o puritano M atthew Henry, não apenas o trabalho de suas m ãos, mas ainda as obras de seu coração. N a verdade, o texto conta-nos mais sobre estas últimas. As obras do coração de Neem ias em fé e oração, esperança e confian­ça, aceitação de um risco santificado e uma guerra espiritual contra o que podem os reconhecer com o operação dem onía­ca, desm otivação e perturbações, expressam e refletem o seu conhecimento de Deus. E isso com eçou para ele, com o para todos, com o conhecimento sobre Deus — o conhecimento conceituai, a que cham am os teologia. A teologia, significan­do as verdades sobre Deus na mente, não é o mesmo que um relacionamento com Deus, conforme demonstra a ortodoxia dos dem ônios (T g 2.19). Sem a verdadeira teologia, embora possa haver um forte senso da realidade de Deus (com o no hinduísmo, animismo e N ova Era), não é possível entrar no pacto pelo qual conhecem os que Deus é verdadeira e eterna­mente nosso. Então, se desejam os nos aproximar de Neem ias 43
  42. 42. N e e m ia s — P a ix ã o p e l a F id e l id a d e e, com ele, enriquecer o nosso relacionamento com Deus, devemos com preender a sua teologia. H á alguns anos, ausentei-me, por duas noites, de uma conferência de teologia em N ova York que estava me abor­recendo demais. N um a das noites, fui ao M etropolitan O pera, apreciar Tannbauser , de Wagner. Durante o prim ei­ro intervalo, uma jovem senhora, sentada perto de mim, com eçou a conversar com igo sobre a produção, e, com o fãs de ópera, tornam o-nos bastante animados. Pareceu-me que o seu marido, sentado do outro lado dela, não era al­guém afeito a óperas e sentiu-se excluído. Percebi que ele estava me fitando, enquanto sua m ão agarrava firmemente o joelh o da esposa. Interpretei aquilo com o um sinal de posse. D e repente, ele arrebatou-a abruptamente, e foram sentar-se noutro lugar. Foi em baraçador. Talvez ele achasse que eu estivesse sendo atrevido. Talvez sua esposa houvesse iniciado conversas dem ais com outros homens, no passado. O u, quem sabe, ele tenha sido arrastado à opera contra a sua vontade, e precisasse descarregar a raiva em alguém. Q ualquer que tenha sido o caso, ele sentia que, naquele m om ento, a esposa estava mais próxim a de mim do que dele, e não gostou disso. D e certo m odo, o que ele sentiu tinha razão de ser (este é ponto a que eu queria chegar), porque ela e eu conhecíam os algum a coisa de ópera, en­quanto ele, sem esse conhecim ento, não com preendia o que estávam os com partilhando, nem o partilhava conosco. D a mesma forma, a m enos que conheçam os o que N eem ias conhecia de Deus, não serem os capazes de com preender e partilhar a visão e a paixão que o impeliram durante os anos de seu ministério, e fizeram dele um exem plo de liderança tão brilhante.
  43. 43. Conheça Neemias Indagam os, pois: O que N eem ias acreditava daquele a quem, mais de dez vezes, e seis vezes em oração transcrita, cham ou de "meu Deus"? Até onde ia a fé que N eem ias depo­sitava em Deus? A resposta clara vem do próprio livro. Em primeiro lugar, o Deus de Neem ias é o Criador trans­cendente, o D eus "dos céus" (1.4,5,- 2.4,20), autossustenta-dor, Todo-Poderoso e eterno ("de eternidade em eternida­de", 9.5). Ele é "grande" (8.6), "grande e terrível" (1.5,- 4.14), "grande, poderoso e terrível" (9.32), e os anjos ("o exército dos céus") o adoram (9.6). Senhor da história, D eus de julga­mento e misericórdia, "um Deus perdoador, clemente e mi­sericordioso, tardio em irar-[se], e grande em beneficência" (9.17; veja Êx 34.6,7). D eus era para Neem ias a mais sublime, permanente e penetrante de todas as realidades, bem com o a mais humilhante, enaltecedora e dominante. A base sobre a qual Neem ias empreendia grandes coisas para Deus e es­perava dele coisas grandes era que, assim com o o missionário William Carey, ele compreendera a grandeza do próprio Deus. Em segundo lugar, o Deus de Neem ias é Jeová, "o Se­nhor", o fiel Deus de Israel, o criador do pacto, o mantenedor da aliança, o cumpridor da promessa (9.8,32,33). A oração da qual nasceu o ministério de Neem ias com eça com estas palavras: "Ah! Senhor, Deus dos céus, Deus grande e terrí­vel, cjue guardas do concerto e a benignidade para com aqueles cjue te amam..." , e prossegue suplicando que Deus abençoe "teus ser­vos e o teu povo cjue resgataste [do Egito, muito tempo atrás]" (1.5,10; conferir com 9.9-25, ênfase do autor). O s prono­mes pessoais nas frases "teu povo", "nosso Deus" (4.4,20,- 6.1,1,- 10.32,34,36,37,38,39,- 13.2,18,27), e "meu Deus" (2.8,- 12.18; 5.19; 6.14; 7.5,- 13.14,22,29,31) são confirmações do relacio­namento pactuai entre Deus e os israelitas com o um fato esta- 45
  44. 44. N e e m ia s — P a ix ã o pe la F id e l id a d e belecido, e invocações dele com o uma base para a confiança, a esperança e a obediência. A aliança de Deus, assim como a do casamento, era um acordo tanto de possessão com o de autoentrega: Deus possuía Israel com o o seu povo e dava-se a eles para os abençoar com suas dádivas e orientação, en­quanto os israelitas possuíam Jeová com o o seu Deus e decla­ravam- se dEle para honrá-lo com sua adoração e serviço. A piedosa dependência de Deus, que sustém Neem ias através de sua carreira de líder, e que ele tão frequentemente verbali­za em seu livro, era uma expressão de sua fé no comprom isso pactuai de Deus para com ele e aqueles a quem liderava, assim com o o demonstra a sua declaração, ao organizar as defesas de Israel: "O nosso Deus pelejará por nós!" (4.20). E a sua fé na fidelidade de Deus não foi desapontada. O Deus de N ee­mias revelou-se com o um pactuante que nunca desaponta os seus servos. Em terceiro lugar, o Deus de Neem ias é um Deus cujas palavras de revelação são verdadeiras e fidedignas. Por meio das instruções do Espírito, entregues por intermédio de M oi­sés e os profetas, Deus dissera ao seu povo quem Ele era, o que desejava deles, com o Ele reagiria, caso se rebelassem, e o que faria quando caíssem em si e se arrependessem da rebelião. "Lembra-te, pois", orava Neemias, "da palavra que ordenaste a M oisés, teu servo, dizendo-. Vós transgredireis, e eu vos es­palharei entre os povos. E vós vos convertereis a mim, e guar­dareis os meus mandamentos, e os fareis,- então, ainda que os vossos rejeitados estejam no cabo do céu, de lá os ajuntarei e os trarei ao lugar que tenho escolhido para ali fazer habitar o meu nome" (1.8, aludindo a Lv 26, especialmente o v. 33,- D t 28.64,- 30.1-10, especialmente o v. 4). Aqui, no início de seu livro, vemos Neem ias negociando com Deus, com base 46
  45. 45. Conheça Neemias no fato de que Ele é o Deus que mantém sua palavra. Mais tarde, Esdras e Neem ias (N e 8.1-8) leem, pregam e ensinam a Lei de Deus, transformando o momento numa grande ocasião nacional, precisamente por causa do que Deus estabelecera nos livros de M oisés, mostrando que a sua vontade para Is­rael ainda estava em vigor. Por isso, era tão importante que a ignorância da Lei fosse banida, e os pecados, com etidos por descuido com a Lei fossem confessados e renunciados, e en­tão fosse feito um novo comprom isso "de que guardariam e cumpririam todos os mandamentos do Senhor, nosso Senhor, e os seus juízos e os seus estatutos" (10.29; veja caps. 9 e 10). A Lei que Deus dera ao povo do concerto, para mostrar-lhes com o agradá-lo, era para Neem ias o padrão imutável de ju s­tiça, assim com o as suas promessas eram a base imutável da esperança futura e da confiança presente. D esse m odo, N e ­emias exemplifica-nos, em termos do Antigo Testamento, o que significa viver pela convicção expressada na conhecida canção cristã: Confiar e obedecer,- Não há outro modo de ser feliz em Jesus. Então confie e obedeça. Essas três convicções sobre D eus eram, certamente, qualidades essenciais em N eem ias. Sem elas, ele nunca teria se im portado o suficiente com a honra de D eus em Jeru sa­lém, e orado para que a cidade fosse restaurada,- tam pouco teria buscado o penoso e assustador papel de líder dessa restauração, nem teria suportado o que suportou, em face da apatia e anim osidade de seus liderados. C onquanto seja claro que, pelo tem peram ento, ele fosse im perioso até o 4 7
  46. 46. N e e m ia s — P a ix ã o p e l a F id e l id a d e despotism o e inflexível até a obstinação, essas qualidades, sozinhas, nunca teriam produzido a paciência, a benevolên­cia, o senso de responsabilidade e a libertação do cinismo defensivo que o marcaram do com eço ao fim. A qualidade de N eem ias que C . S. Lewis cham ou de pertinácia na fé, o fator de continuação, traz em si algo sobrenatural, que só pode ser explicado do m odo com o o autor de Hebreus explica a perseverança de M oisés, ao desafiar o rei do Egito e conduzir os israelitas em sua peregrinação à nova terra: "Pela fé, deixou o Egito, não tem endo a ira do rei,- porque ficou firme, com o vendo o invisível" (H b 11.27). Som en­te aqueles que "veem" o grande, poderoso, gracioso e fiel D eus da aliança são capazes de suportar as pressões e agru­ras enfrentadas por M oisés e N eem ias e, por isso mesmo, arriscar a vida. Esta visão suscita esperança, eleva o moral e sustém o com prom isso, de um m odo que vai além do en­tendim ento do mundo e daqueles que, em bora na igreja, têm uma curta visão de Deus. Calcula-se que os vários lapsos do século X X em barbaris-mos político, tribal e sociológico produziram mais martírios do que aqueles vistos por qualquer um dos séculos anteriores, mesmo o segundo e o terceiro, durante os quais o cristianismo era uma religião proibida, e as perseguições oficiais rompiam uma atrás da outra. E é fato conhecido que aqueles que de­sistiram de suas vidas, em vez de desistir da fé, vieram desses círculos cristãos, onde a visão bíblica do Deus vivo havia sido ensinada e preservada. Durante quase dois séculos, as formas de cam aleão inte­lectual cham adas liberalismo, ou m odernidade, dominaram as principais igrejas do Ocidente. A raiz mestra do liberalis­mo modernista é a ideia, advinda do cham ado Iluminismo, de
  47. 47. Conheça Neemias que o mundo tem a sabedoria, e os cristãos devem sempre assimilar e ajustar-se ao que o mundo estiver ditando sobre a vida humana. O deísmo, que bane totalm ente a Deus do mun­do das ocorrências humanas, e a visão atual cham ada panteís­mo ou monismo, que o aprisiona universalmente, mas de modo im potente, são os dois pólos entre os quais tem oscilado o pensam ento liberal sobre Deus. Entretanto, nenhum desses conceitos de Deus é, ou pode ser, trinitário,- nem há espaço para qualquer crença na encarnação, na redenção objetiva, no túmulo vazio ou no soberano senhorio cósm ico do C ris­to vivo,- e tam pouco se coaduna com a afirmação de que o ensinamento bíblico é a verdade divinamente revelada. N ão é de se admirar, portanto, que o liberalismo não produza mártires nem desafiadores do status cjuo secular, mas oportu­nistas, pessoas que estão sempre encontrando razões para seguir o consenso cultural do momento, quer seja aborto, perm issividade sexual, identidade básica de todas as religi­ões, im propriedade do evangelism o e da obra missionária, quer qualquer outra coisa. N o últim o século, quando as ideias de progresso e s­tavam no ar e era possível acreditar que todos os dias e de todas as maneiras o m undo m elhorava cada vez mais, o liberalism o, que se apresentava com o um cristianism o progressivo, pode ter parecido correto. Em nossos dias, contudo, cabeças pensantes estão certas de que ele é er­rado. H oje, depois de todos os horrores vistos por nossa era, a ideia de que o m undo é o repositório da sabedoria não parece mais que uma piada de mau gosto. E a visão que considera o cristianism o de nossos pais — o cristianis­mo que produziu A gostinho, Lutero, W hitefield, Wesley, Spurgeon, Lloyd-Jones e Billy Graham — com o uma mi- 49
  48. 48. N e e m ia s — P a ix ã o p e l a F id e l id a d e xórdia de crendices obsoletas, na qual podem os melhorar, é exatam ente o que parece: um contrassenso. A única espé­cie de cristianism o que pode, razoavelm ente, reivindicar atenção para o futuro é o cristianism o em basado na Bíblia, que define D eus em term os bíblicos e oferece, não afirma­ção, mas a transform ação de nossas vidas desordenadas. U m indício de esperança em meio à vasta confusão que caracteriza a igreja m oderna é que, cada vez mais, aqueles que se professam cristãos estão recebendo a Bíblia com o a Palavra de D eus e aceitando, com grande seriedade, o D eus encontrado em suas páginas, exatam ente com o fizeram os reform adores, os puritanos e os evangélicos avivados do século XVIII. É com o se, em qualquer época da história, o Espírito Santo prom ovesse um reavivam ento. Foi assim nos dias de N eem ias, com o verem os, e ainda hoje a vida espiritual recom eça, sem pre que almas famintas se voltam, ou retornam, à Bíblia e o seu Deus. Afinal, D eus não nos abandonou. A Piedade de N eem ias Pessoas que vivem próxim as de D eus são m ais conscientes dEle que de si mesmas,- e se as cham am os de piedosas, elas geralm ente sorriem , m eneiam a cabeça, e dizem com o gostariam que isso fosse verdade. O que elas conhecem de si tem m ais a ver com fraquezas e pecados que com qualquer realização espiritual real ou im aginária. Elas re­lutam em falar de si próprias, a não ser com o instrum entos nas m ãos de Deus,- servos, cuja história é digna de m enção apenas por fazer parte da suprem a história de com o D eus exalta a si m esm o neste m undo que lhe nega a honra. 5 0
  49. 49. Conheça Neemias N eem ias parece ter sido dessa espécie de santo, e são ra­ros os vislum bres que ele nos perm ite de sua vida íntima. Ele era naturalm ente extrovertido, tanto quando Jeremias era introvertido. D e qualquer m odo, era o tipo de extro­versão que atraía o foco para assuntos que não fossem ele m esm o. Três coisas, pelo menos, podem ser especificadas sobre a vida espiritual de Neem ias, e cada uma delas é um exemplo vívido aos cristãos. Primeira, a caminhada de Neem ias com Deus era saturada de oração, e oração das mais puras e verdadeiras, a saber, o tipo de oração que busca sempre: clarear a própria visão de cjurn e do djue é D eus; celebrar a sua realidade em constante ado­ração,- e repensar, em sua presença, as necessidades e rogos a Ele trazidos, a fim de que as suas declarações tornem-se uma especificação de "santificado seja o teu nome... seja feita a tua vontade... porque teu é o reino, o poder e a glória". Conforme com eçam os a ver anteriormente, Neem ias pontua a sua histó­ria com orações ao "meu Deus", que é "nosso Deus". Ele inicia o livro com a transcrição com pleta de uma súplica pelo povo da aliança (1.5-11), finaliza-o com quatro petições "lembra-te de mim", das quais a última é efetivamente a sua assinatura (13.14,22,29,31), e, no curso da narrativa, sai um pouco do rumo para registrar várias outras orações. (Teria ele escrito essas orações no momento em que as dirigiu a Deus? Pare­ce que sim, e muita gente que ora tem achado proveito em fazer o mesmo.) E evidente que, com o escritor, ele entendia e desejava que os leitores compreendessem que somente um empreendimento iniciado em oração, e banhado em súplica do início ao fim, pode ser abençoado com o foi a reconstrução dos muros de Jerusalém. E assim ele selecionou e arranjou 51
  50. 50. N e e m ia s — P a ix ã o p e l a F id e l id a d e o seu material, de m odo a projetar essa verdade sem ter de explicá-la em palavras. Ele conta-nos de suas orações a fim de ensinar-nos, com o próprio exemplo, que a oração muda as coisas, e sem oração nada prospera. Evidentemente, Neemias aprendera isso nos anos anteriores ao início de seu livro,- en­tão, quando chegaram as más notícias de Jerusalém, ele soube que a sua primeira tarefa era, com o canta o antigo hino, "levar tudo a Deus em oração". A vida pública de Neem ias era uma efusão, bem com o uma revelação, de sua vida pessoal,- e a sua vida pessoal, con­forme mostra a sua narrativa, era embebida e m oldada em petições, nas quais a devoção a Deus, a dependência dEle, e o desejo de glorificá-lo encontravam igual expressão. Neste aspecto, ele é diante nós um m odelo vívido. "Orai sem ces­sar",- "Orando em todo tempo com toda oração e súplica no Espírito", adm oesta Paulo (1 Ts 5.17; Ef 6.18). Jesus contou aos discípulos a parábola do juiz injusto para ensinar-lhes o "dever de orar sempre e nunca desfalecer" (Lc 18.1). A vida de Neem ias aponta à mesma lição. Conversas particulares e constantes com Deus, pedindo e adorando, são tanto uma expressão natural de um coração regenerado com o uma dis­ciplina indispensável a um líder espiritual. E o exemplo de Neemias, neste ponto, deve estar gravado indelevelmente em nossas almas. Segunda, a caminhada de Neem ias com Deus envolvia solidariedade com o seu povo — os judeus, o povo de Deus — em seus pecados e necessidades. Ele era um homem de grandes talentos e personalidade marcante, ganhando o seu sustento com o oficial persa, primeiro com o copeiro real, depois como governador da província. Isto o colocava, aparentemente, a distância dos outros judeus e, com o passar dos anos, poderia 52
  51. 51. Conheça Neemias ter-lhe esfriado o entusiasmo pelo bem-estar israelita. No en­tanto, o seu comprom isso com a reconstrução de Jerusalém, tanto material quanto espiritual, nunca enfraqueceu. O seu zelo por essa causa transparece em todo o livro, e é patente desde as primeiras sentenças. O s viajantes vindos de Jerusa­lém chegaram, e Neem ias perguntou-lhes com o ia a cidade (1.1,2). Eles contaram-lhe que os muros achavam-se fendi­dos, as portas, queimadas até o chão, e a comunidade, em "grande miséria e desprezo". Ao ouvir aquilo, Neem ias passou a despender suas horas de folga, durante vários dias, em lamento, jejum, choro e oração, esperando, aparentemente, que D eus lhe mostrasse as coisas pelas quais deveria orar de m odo específico — um passo constantemente necessário na prática da intercessão (1.3,4). Então, com a mente clara e a petição formada e em foco, apresentou a Deus o rogo que o Espírito Santo o ajuda­ra a com por (1.5-11). E nesta súplica, a sua expressão de so ­lidariedade com os judeus é ilimitada e absoluta. "Faço con ­fissão pelos pecados dos filhos de Israel, que pecam os contra ti; também eu e a casa de meu pai pecam os. D e todo nos corrom pem os contra ti e não guardamos os mandamentos, nem os estatutos, nem os juízos que ordenaste a M oisés, teu servo" (1.6,7). Ele foi solidário (nós, não apenas eles) porque sabia que era assim que Deus via as coisas,- então, admitiu participação na vergonha do povo, agora sob julgamento. N isto também ele foi um m odelo para nós. A solidariedade com o um envolvimento comum, de acordo com as Escrituras — a solidariedade da família, da nação e da igreja — é algo que hoje não com preendem os bem. A cultura ocidental ensina-nos a sermos indivíduos iso­lados e a escusar-nos de ser solidários com qualquer grupo, especialmente quando a solidariedade traria má reputação. 53
  52. 52. N e e m ia s — P a ix ã o p e l a F id e l id a d e John W hite ilustra esta nossa atitude com uma história sin­gular. Quando eu estudava medicina, perdi, certa vez, uma aula prática sobre doenças venéreas. Por isso, tive de ir sozinho a uma clínica de doenças venéreas, à noite, num horário em que os alunos não costumavam frequentar. Ao entrar no edi­fício, fui recebido por um enfermeiro que eu não conhecia. Uma fila de homens esperava por tratamento. — Quero falar com o médico — pedi. — E o que todos querem — replicou ele. — Entre na fila. — Você não entendeu — protestei. — Sou aluno de medicina. — Não importa — insistiu ele. — Terá de fazer o que todos fazem. Entre na fila. Afinal, consegui explicar-lhe por que eu estava lá, mas ainda posso experimentar o sentimento de vergonha que me fez re­cusar ficar na fila com homens que tinham doenças venéreas.3 Neemias, porém, sabia com o Deus enxergava os judeus — a semente de Abraão — com o uma família, com uma respon­sabilidade e um destino comuns, e, sem hesitar, identificou-se com eles na culpa que os pusera sob julgamento. Jesus portou-se de m odo semelhante quando, com o Salvador, ficou na fila com pecadores, a fim de submeter-se ao batism o de João para arrependimento. O mesmo devemos fazer na igreja. Todos ti­vem os uma participação maior do que pensamos nas deficiên­cias e infidelidades da igreja,- por isso, não devemos nos sentir escusados de confessar a nossa participação em suas falhas. Também não devemos virar as costas à igreja, com impaciên­cia, com o fazem os chamados obreiros "paraigrejas", mas orar e trabalhar para a sua renovação, mantendo isso com o o foco 54
  53. 53. Conheça Neemias principal de nosso interesse, o tempo todo. Esta é a maior lição a ser aprendida de nosso encontro com Neemias. Terceira, a cam inhada de N eem ias com D eus trou­xe sobriedade às suas habilidades. Esta é uma característica peculiar, que exprim e hum ildade e m aturidade perante D eus. Ser hum ilde não se trata de sim ular ser indigno, m as uma form a de realism o, não apenas no que se refe­re à m aldade e aos p ecad o s de alguém , à sua estupidez e profunda necessidade da graça de D eus, mas tam bém quanto à real dim ensão de suas habilidades. O s crentes hum ildes sabem o que são, e o que não são, cap azes de fazer. Eles têm n oção tanto de seus dons quanto de suas lim itações, e assim são capazes de evitar a infidelidade de deixar enterrados os talen tos receb id os de D eus, bem com o a tem eridade de abocan h ar uma porção m aior do que a que pode m astigar. N eem ias possuía dons de lid e­rança e adm in istração, que usava até o lim ite. Sua prati-cidade visionária era um dom m aravilhoso, que produzia resultados extraordinários. A form a com o ele m otivou e dirigiu a con strução dos m uros de Jerusalém , a repopu-larização da cidade e a reorgan ização dos suprim entos do Tem plo foi de uma m agnitude im ensurável. N ão o b s­tante, quando ch egou a hora de ensinar a lei e de ter o prim eiro gesto público de ren ovada obediên cia a D eus, N eem ias ficou atrás e passou a Esdras e aos levitas o papel da liderança, intervindo apenas num m om ento de c o n ­fusão geral, para instar com o povo que celebrasse em vez de chorar (8 .9 ,1 0 ), e lim itou-se a organ izar as p ro ­cissões na ded icação dos m uros (1 2 .3 1 ,3 8 ,4 0 ). Ele tinha con sciên cia de não ser cham ado ou qualificado a pregar e ensinar, e não fez qualquer tentativa de usurpar essas 55
  54. 54. N e e m ia s — P a ix ã o p e l a F id e l id a d e funções. N isto , m ostrou-se hum ilde e m aduro, e revelou um realism o quanto aos talen tos e respon sabilidades, que faríam os bem em imitar. Eis aqui, então, três lições fundamentais para aprender­m os do serviço que N eem ias prestava a Deus, antes de pros­seguirm os com o estudo das formas de seu serviço. 56
  55. 55. 2 Ch a m a d o p a r a S e r v i r As palavras de Neemias, filho de Hacalias. E sucedeu no mês de quisleu, no ano vigésimo, estando eu em Susã, a fortaleza, que veio Hanani, um de meus ir­mãos, ele e alguns de Judá; e perguntei-lhes pelos judeus que escaparam e que restaram do cativeiro e acerca de Jerusa­lém. E disseram-me: Os restantes, que não foram levados para o cativeiro, lá na província estão em grande miséria e desprezo, e o muro de Jerusalém, fendido, e as suas portas, queimadas a fogo. E sucedeu que, ouvindo eu essas palavras, assentei-me, e chorei, e lamentei por alguns dias,- e estive jejuando e orando perante o Deus dos céus. E disse: Ah: Senhor, Deus dos céus, Deus grande e terrível, cjue guardas o concerto e a benignidade para com acjueles cjue te amam eguardam os teus mandamentos! Estejam, pois, atentos os teus ouvidos, e os teus olhos, abertos, para ouvires a oração do teu servo, cjue eu hoje faço perante ti, de dia e de noite, pelos filhos de Israel, teus servos, e jaço confissão pelos pecados dos filhos de Israel, cjue pecamos contra tit também eu e a casa de meu pai pecamos. De todo nos corrompemos contra ti e não guardamos os mandamentos, nem os estatutos, nem os juízos cjue ordenaste a Moisés, teu servo. Lembra-
  56. 56. N e e m ia s — P a ix ã o p e l a F id e l id a d e te, pois, da palavra c(ue ordenaste a Moisés, teu servo, dizendo-. Vós transgredireis, e eu vos espalharei entre os povos. E vós vos convertereis a mim, e guardareis os meus mandamentos, e os fareis, então, ainda (jue os vossos rejeitados estejam no cabo do céu, de lá os ajuntarei e os trarei ao lugar cjut tenho escolhido para ali fazer habitar o meu nome. Estes ainda são teus servos e o teu povo (jue resgataste com a tua grande força e com a tua forte mão. Ahi Senhor, estejam, pois, atentos os teus ouvidos à oração do teu servo e à oração dos teus servos cjue desejam temer o teu nome, e faze prosperar hoje o teu servo e dá-lhe graça perante este homem. Então, era eu copeiro do rei. Sucedeu, pois, no mês de nisã, no ano vigésimo do rei Artaxerxes, que estava posto vinho diante dele, e eu tomei o vinho e o dei ao rei; porém nunca, antes, estivera triste diante dele. E o rei me disse-. Por que está triste o teu rosto, pois não estás doente? Não é isso senão tristeza de coração. Então, temi muito em grande maneira e disse ao rei: Viva o rei para sempre! Como não estaria triste o meu rosto, estando a cidade, o lugar dos se­pulcros de meus pais, assolada, e tendo sido consumidas as suas portas a fogo? E o rei me disse: Que me pedes agora? Então, orei ao Deus dos céus e disse ao rei: Se é do agrado do rei, e se o teu servo é aceito em tua presença, peço-te que me envies a Judá, à cidade dos sepulcros de meus pais, para que eu a edifique. Então, o rei me disse, estando a rainha assentada junto a ele: Quanto durará a tua viagem, e quando voltarás? E aprouve ao rei enviar-me, apontando-lhe eu um certo tempo. Disse mais ao rei-, Se ao rei parece bem, deem-se-me cartas para os governadores dalém do rio, para que me deem passagem até que chegue a Judá,- como também uma carta para Asafe, guarda do jardim do 58
  57. 57. Chamado para Servir rei, para que me dê madeira para cobrir as portas do paço da casa, e para o muro da cidade, e para a casa em que eu houver de entrar. E o rei mas deu, segundo a boa mão de Deus sobre mim. (Neemias 1.1— 2.8) Agora aproximamo-nos da história de Neemias, de como Deus o levou a ser o reconstrutor de Jerusalém. Este é um exem­plo clássico de como Deus dirige os seus servos, hoje como ontem, nas tarefas ministeriais que tem em mente para eles. Já vimos, no começo do livro, que alguns aspectos na disposição das coisas no N ovo Testamento fazem contraste aos do Anti­go. Aqui, porém, há apenas continuidade. O modo corrente de Deus nos conscientizar dos papeis que deseja que desempe­nhemos em seu Reino é, essencialmente, o mesmo visto nessa narrativa de Neemias. E apropriado, portanto, apresentarmos a história na moldura cristã, onde devemos encaixá-la, ao lê-la em nossos dias. U m D u plo C ham ado O N ovo Testam ento ensina que todo cristão tem um duplo cham ado. Primeiro, Deus chama cada um de nós, individu­almente, para crer e servir. O primeiro cham ado recebe esse nome por tratar-se do convite do evangelho, que nos con vo­ca a volver do pecado para C risto e à vida eterna. Ele é, ver­dadeiramente, uma obra de poder, por meio da qual, Deus nos traz à fé pela ação do Espírito Santo, que nos ilumina pelo evangelho e move-nos a uma resposta. O capítulo X da Confissão de Westminster, intitulado "Do Cham ado Eficaz", enfoca esta ação divina de m odo bem compreensível: 59
  58. 58. N e e m i a s — P a i x ã o p e l a F i d e l i d a d e Todos aqueles a quem Deus predestinou para a vida... Ele se agrada... eficazmente, chamar por sua Palavra e seu Espíri­to, tirando-os, por Jesus Cristo, daquele estado de pecado e morte em que se acham por natureza, e transpondo-os para a graça e salvação. Ele faz isso iluminando-lhes o entendimen­to espiritual, a fim de que compreendam as coisas de Deus para a salvação,- tirando-lhes o coração de pedra e dando-lhes coração de carne,- renovando-lhes a vontade e determi­nando- a, pela sua onipotência, àquilo que é bom,- e atraindo-os eficazmente a Jesus Cristo, mas de maneira que vêm mui livremente, sendo para isto dispostos pela sua graça.1 Ao dirigir-se aos cristãos romanos com o aqueles "chama­dos para serdes de Jesus Cristo... chamados santos" (Rm 1.6,7 cf. 8.28,- 1 C o 1.2), é a esta ação divina que Paulo se refere, e ele usa regularmente o verbo "chamar", significando "trazer à fé" (veja Rm 8.30; 1 C o 1.9,26,- 7.20,24,- Gl 1.6,15,- Ef 4.4; 1 Ts 2.12; 2 Tm 1.9,- H b 9.15,- 1 Pe 2.9; 2 Pe 1.10). Em sua adoração pessoal a Deus, confissão de pecado, confiança nas promessas divinas, obediência à Palavra e busca da glória de Deus, N ee­mias oferece-nos um modelo impressionante do que significa ser "chamado" por Deus desse primeiro modo. Ele é um homem que vive para Deus,- não resta a menor dúvida quanto a isso. O segundo chamado é uma convocação a um serviço. Pau­lo está falando disso quando se apresenta aos crentes romanos como "Paulo... chamado para apóstolo" (Rm 1.1; cf 1 C o 1.1). Noutras passagens, ele enfatiza que todo cristão é dotado e chamado para alguma forma de trabalho (Rm 12.4-6,- 1 C o 12.7-11; Ef 4.7-16). Eis uma linha de ensinamento que se tor­nou bastante familiar recentemente: todos os crentes acham-se no ministério cristão, no sentido de serem chamados a desco­brir e cumprir o papel para o qual Deus os equipou. O s dons 60
  59. 59. Chamado para Servir são dados para serem usados, e a capacidade para ministrar de um modo específico constitui uma chamada prima fad e para esse ministério em particular. Foi assim com Neemias, conforme ve­remos. M as como alguém descobre a sua tarefa ministerial depois de haver conhecido o Senhor? Com o Deus nos guia à função específica para a qual nos dotou? Quatro fatores costumam vir juntos neste processo. Primeiro, há o fator bíblico. Este é, num sentido mais amplo, direcional. Coloca perante nós metas, orientações e escala de valores, que nos modelam a vida. A Bíblia nos diz, em termos gerais, o que é e o que não é digno,- que espécie de ações Deus encoraja, e quais Ele proíbe,- e quais são as coisas que preci­sam ser feitas para atender às necessidades dos santos e dos pecadores. D e fato, ela nos diz: é dentro desses limites, per­seguindo essas metas, em observância a essas prioridades, que você descobrirá o seu ministério. O fator bíblico é básico, no sentido de que Deus nunca nos guia à violação de qualquer limite espiritual, e se acharmos que estamos sendo levados a isso, precisamos de alguém com uma Bíblia para dizer-nos que estamos enganados. Em segundo lugar, vem o fator pneumático. Refiro-me aos de­sejos, dados por Deus, de um coração espiritualmente renovado, somados a qualquer toque particular que o Espírito Santo possa nos dar, ou qualquer peso de responsabilidade que Ele possa im­por acima desses desejos em geral. Vemos todos esses elementos na história de Neemias: o desejo da glória de Deus em toda a Jerusalém, que o levou a perguntar como iam as coisas na cidade (1.2), o peso e a inquietação que o levaram a chorar, jejuar e orar por sua restauração (1.4-11), e "o que o meu Deus me pôs no co­ração para fazer em Jerusalém" (2.12). Noutras palavras, o toque do Espírito Santo. 6 Í

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