A dialética na oficina do historiador ideias arriscadas sobre algumas questões de método

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A dialética na oficina do historiador ideias arriscadas sobre algumas questões de método

  1. 1. REVISTA Alex Callinicos Carla Luciana Silva Carlos Prado Daniel Bensaïd Eurelino Coelho Igor Gomes Santos Inés Nercesian Luiz Bernardo Pericás Marco M. Pestana Michael Löwy Nazira Correia Camely Ano 6 - Edição Nº 9 Junho 2010 - R$ 15,00 Teoria da História
  2. 2. Revista História & Luta de Classes Nº 9 – Junho de 2010 SUMÁRIO APRESENTAÇÃO..............................................................................................................................................................5 DOSSIÊ TEORIA DA HISTÓRIA A dialética na oficina do historiador: ideias arriscadas sobre algumas questões de método Eurelino Coelho...................................................................................................................................................................7 Tempos históricos e ritmos políticos Daniel Bensaïd...................................................................................................................................................................17 Breves considerações sobre o método historiográfico Luiz Bernardo Pericás.......................................................................................................................................................22 A “eficiência real”: apontamentos de Gramsci para uma história/concepção dos partidos políticos Igor Gomes Santos......................................................................................................................................................................28 Walter Benjamin contra a história progressista Carlos Prado......................................................................................................................................................................33 LÖWY-CALLINICOS: UM DEBATE IMPORTANTE...............................................................................................40 Compreender (os horrores de) a história Michael Löwy....................................................................................................................................................................41 Resposta a Michael Löwy Alex Callinicos..................................................................................................................................................................44 ARTIGOS A “queda do muro” e a morte do comunismo em Veja Carla Luciana Silva...........................................................................................................................................................46 Ernesto Che Guevara: el antiimperialismo y la construcción del socialismo en Cuba Inés Nercesian...................................................................................................................................................................55 Haiti: holocaustos coloniais e o capitalismo da piedade Nazira Correia Camely......................................................................................................................................................61 A multilateralidade da luta contra o capital: a formação da classe trabalhadora carioca do ponto de vista das associações recreativas - 1900-1920 Marco M. Pestana..............................................................................................................................................................66 NORMAS PARA AUTORES.........................................................................................................................................73 Organizadores gerais deste número: Virgínia Fontes (UFF); Eurelino Coelho (UEFS); Igor Gomes Santos (IFBA) Editor: Gilberto Calil (UNIOESTE) Comissão Editorial: Danilo Martuscelli (SP), Enrique Serra Padros (RS), Gelsom Rozentino de Almeida (RJ); Gilberto Calil (PR), Igor Gomes Santos (BA); Kênia Miranda (RJ); Lorene Figueiredo (MG), Lúcio Flávio de Almeida (SP); Virgínia Fontes (RJ) Conselho Editorial: Adalberto Paranhos (UFU), Adelmir Fiabani (UNIPAMPA), Afonso Alencastro (UFSJ), Alessandra Gasparotto (CAVG/UFPEL), Alexandre Tavares Lira (UFF), Angélica Lovatto (NEILS), Antonio Cláudio Rabello (UNIR), Antonio de Pádua Bosi (UNIOESTE), Beatriz Loner (UFPEL), Carla Luciana Silva (UNIOESTE), Carlos Zacarias de Sena Júnior (UNEB), Cláudia Trindade (FIOCRUZ), Danilo Martuscelli (UNICAMP), David Maciel (UFG); Demian Melo (UFF), Diorge Konrad (UFSM), Dulce Portilho (UEG), Edílson José Gracioli (UFU), Enrique Serra Padrós (UFRGS), Eurelino Coelho (UEFS), Fabiano Faria (RJ), Fábio Frizzo (UFF), Felipe Demier (UFF), Francisco Dominguez (Middlesex Universitty), Gabriela Rodrigues (RS), Gelsom Rozentino (UERJ), Gilberto Calil (UNIOESTE), Gilson Dantas (UEG), Gláucia Konrad (UFSM), Hélio Rodrigues (IESB e CEUB), Hélvio Mariano (UNICENTRO), Igor Gomes Santos (IFBA), Isabel Gritti (URI), Jairo Santiago, Joana El-Jaick Andrade (USP), João Raimundo Araújo (FFSD), José Pedro Cabrera (UNT), José Rodrigues (UFF), Kátia Paranhos (UFU), Kênia Miranda (UFF), Lorene Figueiredo de Oliveira (UFJF), Lúcio Flávio de Almeida (PUC-SP), Luis Fernando Guimarães Zen (UNIOESTE) Luiz Bernardo Pericás (FLACSO); Marcelo Badaró Mattos (UFF), Maria José Acedo Del´Olmo (UNIVAP), Mario Jorge Bastos (UFF), Mário José Maestri Filho (UPF), Michel Silva (UDESC), Nara Machado (PUCRS), Osvaldo Maciel (UNEAL/UFAL), Paulo Douglas Barsotti (FGV-SP e NEILS), Paulo Villaça (UFF); Paulo Zarth (UFFS/UNIJUÍ), Pedro Marinho (MAST), Renata Gonçalves (UEL), Renato Lemos (UFRJ), Ricardo Gama da Costa (FFSD), Rômulo Costa Mattos (USS); Sarah Iurkiv Ribeiro (UNIOESTE), Selma Martins Duarte (SEED-PR), Sérgio Lessa (UFAL), Sirlei Gedoz (UNISINOS), Sônia Regina Mendonça (UFF), Tarcísio Carvalho (Pedro II), Teones Pimenta de França (SEE-RJ) Theo Piñeiro (UFF), Valério Arcary (CEFET-SP), Vera Barroso (FAPA), Vicente Ribeiro (UFFS), Virgínia Fontes (UFF/FIOCRUZ), Wanderson Fábio de Melo (USP), Zilda Alves de Moura (UFMS), Zuleide Simas da Silveira (CEFET-RJ). Próximos Números: Dossiê Militares e Luta de Classes. Envio de contribuições até 30.5.2010; Violência e Criminalização. Envio de contribuições até 30.09.2010; Revolução e Contra-Revolução. Envio de contribuições até 30.03.2011. Distribuição: historiaelutadeclasses@uol.com.br. Projeto Gráfico, Capa e Diagramação: Cristiane Carla Johann. Imagem da Capa: Paranoic visage. Salvador Dalí (1935). Revisão e Edição: Gilberto Calil. Impressão: Gráfica Líder, Av. Maripá, 796 – Telefax (45 3254-1892) – 85960-000 – Marechal Cândido Rondon - PR Foram impressos 1.000 exemplares em Junho de 2010.
  3. 3. APRESENTAÇÃO 5 Teoria da História F oi comum para historiadores formados nas últimas décadas do século XX e nos primeiros anos do século XXI ouvir e repetir a recomendação sobre os perigos e riscos das teorias, principalmente na História. A sugestão era de que o historiador, na especificidade do seu ofício, deveria deixar as fontes falarem. As teorias atrapalhariam, pois traziam uma carga de perguntas, que seriam anteriores ao contato do historiador com a fonte. As hipóteses foram concebidas como recurso metodológico específico das ciências naturais e os historiadores que insistissem nelas eram aqueles que não conseguiam abandonar a velha História positivista ou apenas precisavam forçar o material empírico a confirmar suas certezas teóricas. Alguns dentre os mais argutos historiadores dessa nova geração não abdicaram completamente das teorias. Ao contrário, bateram nas portas de outros saberes, como a Antropologia, e foram tirar deles teorias e métodos para a leitura das fontes. Buscavam dar conta de outro pavor das novas gerações de historiadores: as generalizações, a objetividade, as macro-Histórias. Uma certa Antropologia surgiu aos historiadores como um remédio potente contra um suposto mal infligido pela teoria, o silenciamento do sujeito (objeto) histórico. A Antropologia podia fazer o historiador perceber os padrões, rituais e códigos simbólicos de um grupo social naquilo que ele tinha de mais específico, peculiar e característico. Assim pretendiam evitar os anacronismos e as generalizações de conceitos como classes, raça, Estado, política, sempre que as fontes indicassem sua ausência no repertório de significantes de alguns grupos sociais e, ao mesmo tempo, recusavam-se as generalizações teóricoacadêmicas que pretendiam revelar a essência, o real, ou a verdade frente as representações, práticas culturais e modos de interpretação do sujeito da sua própria História. O significante ganhou autonomia perante o signo e o significado, descolou-se e ficou "livre como um pássaro", para lembrar a fina ironia de Marx, ao falar do trabalhador "livre" assalariado em O Capital. Outra "virada" na historiografia teria sido um certo uso da Lingüística, que decretava o fim da objetividade e, de roldão, desqualificava as pretensões de qualquer teoria da História. De fato, se a teoria é uma tentativa de organizar em linhas gerais, certos princípios de pesquisa com base em observações da vida social, sofrendo e atualizando-se com as próprias questões históricas de sua época, isso significa que a teoria é tão histórica e social quanto a realidade sobre a qual se debruça. Mas não foi essa a conclusão do giro linguístico, que não admitia a historicidade: para seus arautos, nem o contexto, nem as "questões próprias de sua época", podem ser objetivamente apreendidos: reduziram todo contexto a texto, convertendo toda objetividade em subjetividade. As teorias não poderiam mais ser utilizadas como tais, pois seriam meros dispositivos de saber e poder, inventando incessantemente padrões, racionalizações, enquadramentos e generalizações das experiências que se caracterizariam justamente por serem múltiplas, irracionais, dispersas e fragmentadas. A História quase retornou aos moldes positivistas da pura e simples narrativa. Os historiadores mais jovens estavam porém algo informados dos cuidados que deveriam tomar com as fontes oficiais, com os grandes nomes, desconfiavam da História vista por cima e da História como repetição enfadonha dos vencedores. Isto é, estavam comprometidos esteticamente com uma nova História (e uma parte só com a História enquanto olhar para o passado, descompromissado com o presente) interessada pelos “de baixo”, por novas abordagens, sujeitos e objetos, porém este compromisso estético não foi acompanhado de uma guinada ética. A forma continuou a se revelar conservadora e as conclusões das pesquisas davam mostras dos limites da pura empiria. A História passou a ser encarada cada vez mais como literatura. Para fazê-la, basta uma dose de boa escrita, recurso a documentos históricos, organização destes documentos de acordo com a sua "invenção" da estória a contar e pronto! Aliás, com essa provocação começa o autor do primeiro texto da revista. Basta isso? Onde fica o método? Necessário se faz aqui pronunciar, a respeito das viradas lingüísticas ou outras, que o contexto histórico no qual se processaram tantas novidades historiográficas foi de intenso ataque ao marxismo, de ascensão histórica de novas (velhas) formas de ataque do capital sobre as organizações políticas dos trabalhadores, de mercantilização da vida humana e de decréscimo de vínculos de solidariedade e identidades entre explorados e subalternizados. Essa mercantilização, que alcança todas as esferas da vida social, não podia deixar de afetar a prática dos
  4. 4. 6 historiadores. A História passa a ser produzida e consumida tal qual a mercadoria, alienada da vida social. Na contramão deste processo de mercantilização da vida social, e explorando criticamente as novas possibilidades colocadas pelas novas correntes da História, o Materialismo Histórico soube dialogar e consolidar o desenvolvimento do conhecimento histórico durante todo o século XX. Afinal não houve teoria nas ciências humanas que não dialogasse diretamente, a favor ou contra, com esta plataforma de conhecimento. Mesmo com todas as páginas gastas para afirmar o seu fim e o seu esgotamento, seu método e conceitos fundamentais (seu espectro) ainda rondam as Ciências Humanas e as lutas sociais. Integra o dossiê também uma intervenção do marxista francês Daniel Bensaid, recentemente falecido, na qual propõe uma reavaliação do marxismo a partir da proposição de Engels de que “a historia não faz nada”, recolocando a temporalidade histórica e trazendo elementos para o estudo do tempo presente, em uma perspectiva fortemente antideterminista. História e Luta de Classes participa desse movimento de afirmação e de crítica permanente do pensamento marxista no campo da História. Este número de HLC se dedica, em seu dossiê, aos estudos da teoria da História. Dois textos, de Eurelino Coelho e Luiz Bernardo Pericás, discutem o método da História, enfocando questões como temporalidades históricas, objetividade e subjetividade, ideologias, classes e luta de classes, determinação e totalidade. Apontam-se formas de pensar e fazer a História por caminhos bem diferentes daqueles privilegiados pelo mainstream contemporâneo. Um estudo de Carlos Prado sobre a obra de Walter Benjamim discute a concepção de História deste autor, além de posicionar essa concepção frente aos debates políticos de sua época, o que teria gerado, segundo o autor, um pensamento bastante peculiar dentro do Materialismo Histórico. Gramsci é outro intelectual discutido no dossiê, em artigo de Igor Gomes que analisa hipóteses para uma metodologia de pesquisa sobre a História dos partidos políticos. Também no dossiê há dois pequenos textos de intelectuais marxistas mundialmente conhecidos, Michael Lowy e Alex Callinicos que, a propósito dos comentários do primeiro sobre um livro do segundo, debatem temas como a noção de progresso e o lugar da contingência no processo histórico. Na parte dos artigos a revista traz um estudo de Inés Nercesian sobre o pensamento de Che Guevara acerca do imperialismo. Carla Luciana Silva aborda a Revista Veja e, em perspectiva gramsciana, problematiza sua função organizativa e partidária a propósito da cobertura da crise dos regimes do Leste Europeu e da queda do Muro de Berlim. Marcos Pestana analisa os processos de constituição de culturas em comum do proletariado carioca frente às novas exigências do capital, enquanto Nazira Camely discute aspectos da herança colonial e do capitalismo contemporâneo no Haiti. Boa leitura! Junho de 2010 Eurelino Coelho Igor Gomes Santos Virgínia Fontes
  5. 5. História & Luta de Classes, Nº 9 - Junho de 2010 (7-16) - 7 A dialética na oficina do historiador: ideias arriscadas sobre algumas questões de método Eurelino Coelho1 U m artesão em sua oficina: ali está o historiador2. Seu ofício é o de narrar, sua obra é um texto. Trabalha costurando outros textos (quaisquer retalhos que se deixem interpretar são aceitos como “textos”, mas geralmente são mesmo documentos escritos) que recolheu das fontes e aos quais acrescenta cuidadosamente os seus próprios. Não há um plano prévio para orientar a costura, apenas a decisão de remexer naquele conjunto de retalhos ao invés de outro. Os retalhos são arrumados segundo possibilidades de “encaixe” descobertas no manuseio e presos uns aos outros com os fios da narrativa. Há uma exigência: é preciso haver retalhos, é preciso trabalhar com eles porque, no fim, este é o ofício. Eis, afinal, a obra terminada (ela também um retalho feito de retalhos) e submetida ao julgamento severo dos leitores: é bem escrita? O parágrafo acima é uma caricatura3. No entanto, é bem possível que grande parte da produção historiográfica contemporânea, especialmente no campo daquilo que se convencionou denominar “nova história cultural”4, possa ser reconhecida em um ou outro traço desta representação exagerada. Em casos mais extremos poderemos constatar até mesmo a defesa sem rodeios da natureza ficcional do saber histórico5. Fica logo evidente que, quanto mais a atividade dos historiadores (a produção do 1 Professor Adjunto do DCHF/UEFS, pesquisador do Laboratório de História e Memória da Esquerda e das Lutas Sociais – LABELU/UEFS. 2 Retomo e desenvolvo nestas páginas dois conjuntos de reflexões inicialmente expostas em comunicações apresentadas no V Colóquio Internacional Marx-Engels (Campinas, 2007) e no XXV Simpósio Nacional de História (Fortaleza, 2009). Críticas e sugestões que me foram apresentadas naquelas ocasiões deram-me oportunidade de corrigir erros, pelo que sou grato. Agradeço também aos alunos das turmas de Metodologia da Pesquisa em História do Mestrado em História da UEFS (2007 e 2009) com os quais foram discutidas e aprofundadas várias idéias desenvolvidas neste texto. 3 Para a qual a célebre imagem do “ofício do historiador” composta por Marc Bloch (Introdução à História. Lisboa, 3ª ed., Lisboa, Europa-América, 1976) e o livro de François Dosse (A História em Migalhas. 2a. ed., São Paulo, Ensaio, 1992) são inspirações evidentes. 4 Cf. BURKE, P. O que é história cultural? Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2005 e HUNT, Lynn. A Nova História Cultural. São Paulo, Martins Fontes, 2001. conhecimento histórico) se aproxima deste “tipo ideal”, tanto menor a importância que possui a discussão sobre o método em História. E com efeito, o debate epistemológico e teórico-metodológico encontra-se fora de moda entre os historiadores. Não se deve mais falar em método, no singular, mas em práticas e experiências plurais de construção do saber histórico, escritas da história. Propõe-se, com certa frequência, a exclusão, nos currículos universitários, da disciplina Teoria da História com o argumento de que ela é perigosa e desnecessária: questões desta ordem (teoria e metodologia) deveriam ser alcançadas em cada disciplina específica, segundo perspectivas e abordagens que serão tanto melhores quanto mais fragmentárias. Também o objeto da história conservaria uma unidade apenas precária e genérica. Instituído pelas práticas de saber, sem direito a qualquer preexistência efetiva, o objeto se torna, ele também, múltiplo e irredutível a qualquer unidade. Explodidos o método e o objeto, haveria ainda algum denominador comum, algo que autorize a referência à História como uma disciplina e aos historiadores como seus intelectuais? A erudição! Tesouro simbólico de todos os historiadores, apenas a erudição preservaria seu brilho discreto na noite paradigmática em que todos os gatos da História ficaram pardos. Assim pensam importantes intelectuais da História na atualidade, como Pesavento6. Apresentarei, nos próximos parágrafos, algumas meditações sobre o trabalho dos historiadores, sobre o seu modo de trabalhar, o seu método. Tenho em mente, num primeiro plano, os historiadores da política, mas não é impossível que as reflexões desenvolvidas aqui tenham alguma aplicabilidade também em outros domínios. Meu argumento é o de que as características do objeto da História abrem questões metodológicas inescapáveis. Procurarei demonstrar que alguns problemas epistemológicos gerais inerentes à produção do conhecimento histórico não desaparecem quando historiadores desistem de pensar neles. Muito ao contrário, lançados porta afora, retornam imediata e 5 Penso em WHITE, Hayden. Trópicos do discurso. São Paulo, Edusp, 1994. 6 Cf. PESAVENTO, Sandra Jatahy. História e História Cultural. Belo Horizonte, Autêntica, 2003, passim.
  6. 6. 8 - A dialética na oficina do historiador: idéias arriscadas sobre algumas questões de método silenciosamente pelas frestas e gretas e se instalam de novo na oficina do historiador, que age, entretanto, como se estivesse livre deles de fato. Contra esta autocomplacência proponho o retorno ao desafio de pensar sobre o método, assumindo todos os riscos. Não há certezas neste retorno ao método, mas é bom lembrar que, sendo um retorno, este caminho já foi trilhado antes e que sempre podemos aprender algo com as pistas deixadas por quem nos antecedeu. Trata-se, no fim, de pensar a história como a dialética entre a ação dos sujeitos históricos (que fazem a história) e as condições dadas em que tais sujeitos têm de agir (que eles não escolhem). Em Marx, particularmente nos textos em que ele analisou acontecimentos da história política francesa no século XIX, vamos encontrar essas pistas. mantém influente em nossos dias. Muitos historiadores contemporâneos realizam seu trabalho respeitando escrupulosamente estes limites, como os que procedem através da atualização do projeto weberiano de busca da “causação adequada”8 ou os que procuram aplicar modelos inspirados na etnografia como a “descrição densa” de Clifford Geertz9. O interesse manifestado por boa parte da História Social pela subjetividade dos agentes também pode ter exatamente este caráter nos casos em que aparece acompanhado da recusa dos “modelos generalizantes” ou “sociológicos” de explicação. Por esta via, por exemplo, as pesquisas passam a priorizar o escravo como sujeito em detrimento da escravidão como sistema, ou a identidade em detrimento das relações sociais. A História se ocupa daquilo que é singular? Feita a pergunta a um historiador do século XIX, a resposta seria, com grande probabilidade, afirmativa. Ainda hoje este poderia ser o caso quando se tratasse de história de acontecimentos, por exemplo, de História Política: Moreira César derrotado em Canudos, a greve geral de 1917 ou o golpe civil-militar de 1964 devem ser vistos como eventos únicos se é que se pretende investigar-lhes a história. Somente um acontecimento que possui história própria (que o fez acontecer do modo como aconteceu e não de outro modo) pode ser tomado como objeto da História. A hipótese contrária é, realmente, absurda: se a história de um acontecimento não é singular, então ela deveria se repetir. Mas então não se trata mais de história, que é sempre movimento, e sim da permanência de uma repetição. Por outro lado, como explicar a inexistência de dois acontecimentos históricos idênticos? A farsa não é a repetição exata da tragédia, o tio não reencarna no sobrinho, a França de 1851 não é a França de 1799. Além disso, cada acontecimento é protagonizado por sujeitos distintos, também irrepetíveis. Só mediante uma arbitrariedade metodológica se pode desconsiderar a evidência da singularidade dos sujeitos históricos. Uma maneira de livrar-se do incômodo que a singularidade do objeto provoca aos que buscam uma História científica é secundarizar o acontecimento. Através da porteira aberta pelo estruturalismo, desenvolveu-se no século XX uma História das regularidades, das normas, das restrições e das instituições. A idéia de protagonismo dos sujeitos cede passagem à problemática do assujeitamento, as estruturas saltam para o centro da explicação histórica. Invisíveis a olho nu, as estruturas se revelam somente mediante a superação da visão comum, prisioneira do empirismo e do historicismo, pelo olhar da ciência. As singularidades históricas seriam apenas efeitos combinatórios dos componentes da estrutura, variações finitas que só são possíveis em virtude da invariância estrutural. Um evento histórico não encontraria sua explicação num mero desdobramento temporal (ilusão historicista), mas na investigação da teia oculta de relações estruturais que criam o próprio espaço em que ele pode aparecer como evento. Uma hipótese igualmente difícil de ser negada. Aceitar o contrário implicaria em conformar-se com o plano das aparências, tomar o fenômeno (o evento singular) como autodeterminado. A verdade do salário não é ser ele a renda do trabalho, mas sim ser a forma pela qual o trabalho é explorado em sua relação com o capital. Somente em função desta relação de exploração (que não é evidente no plano empírico) existe o trabalho assalariado como fenômeno histórico. Esta História confinada ao singular recusa-se a operar ao modo da ciência natural, isto é, através de deduções extraídas de leis gerais. No máximo admite formular indícios, quadros conceituais obtidos por indução, de alcance e validade restritos, como sugere Ginzburg com o seu “paradigma indiciário”7. Ela se A longa duração de Braudel, o par modo de produção/formação econômico-social no marxismo althusseriano, a “história imóvel” de Emmanuel Le Roy Ladurie, a formação discursiva foucaultiana: a História aqui já não privilegia o plano dos acontecimentos singulares, mas a ordem da estrutura Dois problemas clássicos: singularidade e subjetividade 7 GINZBURG, Carlo. A Micro-história e outros ensaios. Lisboa, Difel, 1989. Carlo Ginzburg é um historiador admirável, cujas qualidades como investigador e expositor dificilmente são igualadas na atualidade. Suas obras, no entanto, parecem-me uma demonstração cabal da inaplicabilidade do “paradigma indiciário”, proposto por ele mesmo para caracterizar o trabalho do historiador. 8 Cf. WEBER, Max. Estudos críticos sobre a lógica das ciências da cultura. In: WEBER, Max. Metodologia das Ciências Sociais. 2a. ed., São Paulo, Cortez – Campinas, Edunicamp, 1993. 9 GEERTZ, Clifford. A interpretação das Culturas. Rio de Janeiro, LTC, 1989.
  7. 7. História & Luta de Classes, Nº 9 - Junho de 2010 (7-16) - 9 que os subordina completamente. Esta linhagem de pensadores da História possui também seus herdeiros. Certo, o programa braudeliano não é facilmente reprodutível nas atuais condições dos centros de humanidades. Por seu turno, o legado de Althusser desperta cada vez menos interesse entre os historiadores, e isso não apenas porque leva o seu quinhão na crise geral do marxismo do final do século XX, mas também porque não teve como responder às questões formuladas por uma geração de historiadores que decidiu mergulhar nos arquivos e que encontrou em um autor como E. P. Thompson o seu campeão na cruzada contra o que eles acreditam ser o estruturalismo. Mas a problematização das permanências, dos regramentos e das formações discursivas, ou seja, a influência dos Annales e de Foucault permanece mais viva do que nunca sobre historiadores contemporâneos. As duas formas de lidar com a questão da singularidade chocam-se contra limites que merecem ser examinados. Numa perspectiva ela (a singularidade) é admitida completamente, resultando daí uma metodologia indutiva e empirista. Tal método permite pensar o movimento, a trajetória, a transformação, mas somente dos entes singulares presos a cadeias causais finitas. Subjaz a este método uma concepção de singularidade como individualidade monádica, que pode estender-se somente até os limites da sua cadeia causal. Temos aqui um conhecimento do singular que se afirma mediante a exclusão da referência a qualquer totalidade. No limite, este modo de pensar pode começar a acreditar em subjetividades liberadas, propondo conceber o homem na esfera da liberdade e recusando qualquer abordagem orientada para a questão da determinação. Na outra perspectiva, ao contrário, a singularidade é mitigada, reduzida a efeito da estrutura. O método aqui opera dedutivamente, fazendo aparecer as teias de relação (sistemas, formações) no interior das quais são instituídos os lugares dos sujeitos e os sentidos das suas práticas. A noção de estrutura dá acesso a uma certa visão de totalidade (mesmo que seja parcial e provisória, como as “formações” foucaultianas) mas, em compensação, embota a compreensão do movimento. A lógica da estrutura é a da norma, a repetição do mesmo. Não é fácil descobrir uma lógica de movimento e transformação no interior daquilo que é descrito como algo que nunca cessa de se reproduzir. E, no entanto, há reprodução, sistema e totalidade mas também há transformação, singularidades e sujeitos na história. A exigência de dar conta de ambas as dimensões constitutivas do objeto não é eliminada pela decisão metodológica de privilegiar uma delas em detrimento da outra. Este é um dilema metodológico que se impõe a qualquer historiador, quer ele o enfrente conscientemente ou não. As limitações metodológicas mencionadas acima se tornam sérias exatamente por não reconhecerem plenamente a validade das questões formuladas do outro lado da linha que distingue a ordem da estrutura da ordem do movimento. Sem renunciar à unilateralidade de cada pressuposto, não é possível ir além da defesa da própria posição contra a posição adversária. Foi a isto que se reduziu o debate metodológico em História, nas raras ocasiões em que ele ainda é feito. Em geral, nem isto: método passou a ser o nome impropriamente atribuído à descrição de procedimentos técnicos empregados para trabalhar com as fontes. Interrompida no plano metodológico, a discussão entre os historiadores somente pode se desenvolver no plano empírico. E, com efeito, algumas reuniões de historiadores começam a ficar parecidas com feiras de artesanato erudito. Consideremos a outra questão, a da subjetividade. Uma das maiores dificuldades a serem transpostas por quem discute o método em História diz respeito a um aparente paradoxo: a dimensão subjetiva presente no objeto. Aqui é preciso dar razão à História Social: é difícil sustentar uma concepção sobre o objeto da História sem recorrer a uma problemática do sujeito. Aquele que faz a história em circunstâncias que não escolheu não é, no entanto, um simples produto direto do meio e das circunstâncias: é preciso não esquecer que “são precisamente os homens que transformam as circunstâncias” 1 0 . Pois as circunstâncias não se constituem em objeto da História exceto quando em presença de sujeitos. A diferença intransponível entre os objetos das ciências naturais e humanas é esta constituição subjetiva do objeto que preenche espaços de um mundo que era, até então, o da pura natureza com elementos não redutíveis diretamente a este mundo porque nascidos do trabalho, da moral, da cognição, da afetividade. Decerto nenhum destes elementos, tomados unilateralmente, é suficiente para fundar uma teoria do sujeito. Ela terá que se apoiar em outro conceito, como veremos. Mas não é exagerado afirmar que, onde quer que aqueles elementos não estejam de algum modo presentes, não se pode falar ali de existência humana. Considerada por este ângulo específico, a eliminação metodológica da subjetividade objetivada, que derivaria da “morte do sujeito” anunciada pelo estruturalismo, significaria o regresso à natureza e, por isso mesmo, a negação do humano como objeto de conhecimento. Tendo chegado a este ponto, é preciso advertir contra o risco de curvar a vara até a extremidade oposta: uma concepção subjetivista do objeto da 10 MARX, Karl. Teses sobre Feuerbach. In: MARX, K. e ENGELS, F. A Ideologia Alemã. São Paulo, Martins Fontes, 1989, p. 94.
  8. 8. 10 - A dialética na oficina do historiador: idéias arriscadas sobre algumas questões de método história não é menos unilateral e estéril do que a decretação metodológica da morte do sujeito. Este foi, porém, o caminho trilhado por algumas noções pósmodernas de história ou de política que propõem livrar os sujeitos de qualquer determinação exterior e pensálos como puro desejo ou liberdade11. Tampouco nos obriga, a constatação de que há uma dimensão subjetiva no objeto da História, a estar de acordo com Habermas, para quem uma racionalidade comunicativa entre sujeitos, oposta à racionalidade instrumental, poderia animar uma nova epistemologia12. Os delicados problemas da relação entre a singularidade dos eventos e a totalidade estruturada das relações, assim como a relação entre as ações históricas de sujeitos determinados e as “circunstâncias legadas e transmitidas pelo passado” têm sido tratados, como regra, em uma das três perspectivas abaixo: a) Elisão das problemáticas do sujeito e da singularidade. É a marca das abordagens estruturalistas ou influenciadas, de algum modo, pela crítica das “filosofias do sujeito”, como as pesquisas inspiradas pelas fases arqueológica e genealógica de Foucault ou pelo marxismo althusseriano. As interrogações dirigem-se para as estruturas, formações ou epistemes e, quando há processos, eles são “sem sujeito”. A despeito de importantes legados provenientes desta perspectiva, como a considerável contribuição à ampliação e complexificação da problemática do poder, ela não tem como lidar com a recorrência de questões que repõem a força dos acontecimentos e da participação decisiva dos sujeitos em certos eventos. Como seria a história da Revolução de 17 sem Lênin e as Teses de Abril? Ou a história da Segunda Guerra se fosse outro o resultado da Batalha de Stalingrado? Ou a trajetória da luta de classes no Brasil se Collor tivesse perdido a eleição em 1989 para Lula da Silva? Basta formular as perguntas para evidenciar tanto a influência decisiva de eventos singulares quanto o caráter incontornável da interferência subjetiva na dinâmica histórica. O fato de que esta interferência ocorre sempre em circunstâncias precisas e momentâneas não reduz a importância dos efeitos que a partir dali são projetados13. b) Supervalorização da subjetividade e visão da singularidade como indeterminação. No extremo oposto das perspectivas estruturalistas e assemelhadas afirma-se uma História que se reencontrou com o acontecimento e que tende a vêlo, sobretudo, como contingência. Em tais acontecimentos os sujeitos atuam em geral como soberanos e suas escolhas são o fator decisivo na inteligibilidade dos processos históricos. Com muita frequência a concepção de subjetividade (explícita ou oculta nos textos) que informa essas abordagens é liberal: o modelo é o indivíduo que age para maximizar seus interesses. Nenhum ramo da História é tão dominado por esta perspectiva como a Nova História Política, beneficiada, como explica um de seus expoentes, pelo fim da crise da História événementielle e pelo retorno da narrativa como forma de expressão do conhecimento histórico14. O risco de escorregar em reducionismos e simplificações espúrias é muito grande, como se pode ler nas interpretações do Golpe de Estado de 1964 que responsabilizam a “estratégia do confronto” dos atores políticos envolvidos15. Por outro lado, a pesquisa histórica voltada para os acontecimentos confunde-se, muitas vezes, com o “fontismo”, demitindo o historiador do trabalho de problematizar seu objeto e limitando-o a transcrever documentos e apresentar seu conteúdo enredado na forma narrativa. Este risco, naturalmente, é tanto maior quanto mais pobre é a formação teóricometodológica dos próprios historiadores. c) Soluções intermediárias ou de compromisso. Esta terceira perspectiva busca equilibrar-se sobre algum ponto fixado a certa distância de um ou outro dos pólos anteriores. Aqui os contextos estruturados e exteriores aos sujeitos aparecem com certa força, de modo a cumprirem um papel na explicação histórica. Também aos sujeitos é atribuído algum protagonismo efetivo e não mecanicamente derivado. A ênfase das narrativas oscila entre os planos paralelos em que são trabalhados o enredo e o enquadramento, o que tende a ampliar a perspectiva da cena histórica que interessa apresentar. Este tipo de abordagem é frequente nos trabalhos sobre a história das organizações e partidos de esquerda que procuram nexos entre a dinâmica da trajetória da organização, 11 Veja-se, só como exemplo, o livro de Agnes Heller e Ferenc Feher: A condição política pós-moderna. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1998. 12 Cf. HABERMAS, J. Theorie des kommunikativen Handelns. Frankfurt, Surkamp, 1981. 13 A exigência de recuperar a problemática do sujeito parece ter produzido um efeito peculiar na corrente foucaultiana, pois a obra tardia daquele autor tem sido lida como uma redescoberta do sujeito na perspectiva do “cuidado de si”. Ver os artigos reunidos por PORTOCARRERO, Vera e CASTELO BRANCO, Guilherme (orgs.) Retratos de Foucault. Rio de Janeiro, Nau, 2000. Especialmente os que compõem a terceira parte da coletânea, intitulada O último Foucault. 14 Cf. os artigos de RÉMOND, René. Uma história presente e Do político, publicados na coletânea por ele mesmo organizada: Por uma história política. Rio de Janeiro, UFRJ-FGV, 1996. 15 FERREIRA, Jorge. A estratégia do confronto: a frente de mobilização popular. Revista Brasileira de História, v. 24, n. 47, pp. 181-212.
  9. 9. História & Luta de Classes, Nº 9 - Junho de 2010 (7-16) - 11 construída a partir da documentação primária, e o ambiente histórico mais amplo em que tal trajetória aconteceu. Persiste, no entanto, alguma forma de descontinuidade entre os planos paralelos da análise, o que cria entre os elementos desses planos uma relação de exterioridade. Um capítulo de “contexto” que permanece semi-isolado no início de uma tese de doutorado, por exemplo, é uma boa imagem do hiato entre os elementos de moldura e de ação justapostos num texto de História. Não é ocioso mencionar, ademais, a ingenuidade que marca a noção de “contexto” quando ela significa apenas a descrição de um ambiente para a cena histórica. Basta lembrar que este ambiente, porque histórico, deve ser ele mesmo explicado historicamente para que esta noção de “contexto” se veja lançada numa regressão infinita. A abordagem dialética: o problema da totalidade O método que Marx expôs, de modo incompleto, na sua Introdução de 1857 é a base das reflexões que seguem. Na verdade pretendo demonstrar, mais à frente, que mesmo vários anos antes da escrita da Introdução, o método dialético já orientava as análises de Marx sobre a história política da França publicadas nos primeiros anos da década de 50. Não se trata, por conseguinte, de transpor para um domínio diferente o método concebido para a Economia Política e nem, certamente, de reivindicar a validade universal do método da Economia com base na idéia da determinação econômica. Proponho algo bem diferente, que é reconhecer a vigência do método dialético nas obras em que Marx trata de história e de política. As categorias expostas no texto de 1857 dizem respeito não apenas à Economia Política, mas ao próprio método dialético que Marx já experimentara em obras dedicadas a outros assuntos. Retomemos os problemas clássicos da singularidade e da subjetividade. Eles podem ser formulados e tratados de uma perspectiva completamente diferente das anteriores. Ao invés da unilateralidade ou do paralelismo, a dialética materialista sugere pensar uma relação de outro tipo: os termos contrários (a singularidade do acontecimento e da ação do sujeito, por um lado, e a totalidade muito mais complexa de relações da qual aquela singularidade é uma parte), exatamente porque são a negação determinada um do outro, se determinam reciprocamente. Sigamos passo a passo. O ponto de partida tem de ser sempre o evento, acessado quase sempre através das evidências documentais. Mas este evento não pode ser concebido como isolado, uma mônada auto-explicável, pois isto seria uma incongruência lógica e corresponderia a afirmar que aquele fato não tem história. Então ao eleger seu objeto e recolher suas primeiras evidências, o historiador já sabe que ele – o objeto – está preso a um conjunto de relações e que conhecer o seu objeto implica em conhecer este nó de relações a que ele está ligado. Mesmo sem conhecer ainda o conteúdo real dessas relações o historiador já sabe que elas determinam as condições de possibilidade do seu objeto, fazem com que ele exista e possa ser pensado. A relação entre a ação que faz a história (e o sujeito que a pratica) e as circunstâncias que tornam possível e efetiva esta ação aparece, aqui, como a relação entre a singularidade e a totalidade, a parte e o todo. A parte não existe, como tal, fora da relação com o todo. Assim, por exemplo, uma coisa qualquer só adquire o caráter de mercadoria (valor de troca) na medida em que é produzida e circula num meio social em que são vigentes as relações que engendram o trabalho abstrato e, tão logo seja transportada para um universo social diferente, a coisa deixa de ser mercadoria. Do mesmo modo o dinheiro, conforme exista dentro ou fora de um modo de produção de mercadorias ou o escravo, se numa sociedade escravista ou em outra qualquer, são realidades completamente diferentes. Mas seria equivocado pensar na relação da parte com o todo como sendo de subordinação unívoca. A parte é a materialização concreta, embora parcial e fragmentária, do todo, que por sua vez não pode existir senão em e através de cada parte. Destituído de suas partes, o todo deixaria de existir concretamente e assumiria uma forma ilusória. Trata-se, portanto, de uma relação necessária. O que afeta a parte (acontecimentos singulares) repercute, de algum modo no todo. De algum modo porque mediado pela própria relação da parte com o todo, que a excede não apenas em quantidade (é maior), mas em qualidade (inclui realidades distintas da parte singular). A parte participa da vida do todo, atualiza-o, inicia ou interrompe mudanças explorando as contradições mas sempre desenvolvendo as possibilidades criadas pela sua relação com ele. Todavia, uma vez que nos dispomos a conhecêla, a relação é também contraditória: a parte revela e, ao mesmo tempo, esconde o todo. Lidando com as evidências documentais próprias de seu ofício, o historiador experiente sabe que elas possuem natureza fragmentária e que revelam, do seu objeto, apenas aspectos parciais. O trabalho com as fontes faz com que apareçam partes e, de fato, somente elas aparecerão de modo evidente. Sua aparição como parte é reveladora, já, de um aspecto do todo – mas apenas de um aspecto. A relação mais profunda daquele aspecto parcial com a totalidade, no entanto, não é necessariamente evidente na própria evidência documental. Ela permanece em geral oculta até que o historiador problematize a fonte. O todo não aparece, como tal, na parte.
  10. 10. 12 - A dialética na oficina do historiador: idéias arriscadas sobre algumas questões de método Uma questão metodológica decisiva para os historiadores diz respeito à importância das evidências parciais no processo de produção do conhecimento. E, com efeito, sem o trabalho com as fontes não há pesquisa histórica que mereça esse nome. Se a interpretação das evidências exige restabelecer, no pensamento, sua conexão com o todo de relações a que elas se prendem, então o próprio todo, por seu turno, precisa se conhecido de alguma maneira. Ora, a compreensão do todo (como totalidade concreta) não pode prescindir do exame da concretude da parte, sem a qual o todo não passa de uma abstração de caráter hipotético ou, pior, simplesmente arbitrário. Este é, como todos sabem, um dos pontos quentes da crítica de Thompson a Althusser. O historiador censurou no filósofo a incapacidade de fazer o pensamento reconhecer como sua meta a apreensão da concretude singular dos fatos e dos sujeitos, o que o levava a resolver a explicação no plano da teoria pura16. Reconhecer a imprescindibilidade da análise das fontes não altera, no entanto, a exigência primordial do método dialético: superar a imanência e estabelecer um plano relacional de análise, buscar as relações das evidências (que expressam parcialmente fatos e subjetividades singulares) com a totalidade. O estudo da parte, precisamente ao descobrir e considerar a sua parcialidade, exige ultrapassar os limites finitos de cada evidência e procurar a percepção do todo. O estudo da finitude da parte e de sua história detecta a presença do todo que nela se insinua e abre caminho para a investigação que tratará de descobrir e exprimir, ao final, as múltiplas determinações ali concretamente sintetizadas. Este é, talvez, o passo mais controvertido do método, o que mais suscita dúvidas e objeções. Como pensar a totalidade, como falar dela se a posição do pensador será sempre parcial e finita, assim como o serão igualmente seus recursos de investigação e de exposição? Como manter a categoria totalidade diante do fato incontestável de que ela excede, por definição, qualquer tentativa de apreendê-la? Penso que o problema deve ser encarado em duas frentes. A primeira diz respeito à sua dimensão ontológica e pode ser expressa no questionamento dos próprios termos em que ele é habitualmente formulado. Se for concebida como soma ou inventário total de eventos, a totalidade não é apenas uma categoria impossível e inútil, é também estúpida. Não é de uma totalidade empírica que se pode falar, mas da totalidade de relações, o que é muito diferente. Estabelecemos acima a premissa de que os fatos da vida social não são mônadas nem episódios isolados, já que se articulam em nós de relações. Resta saber se as relações de que falamos existem de modo aleatório e contingente ou se podemos falar de estrutura de relações ou de relações determinadas. Neste ponto a 16 THOMPSON, E. P. A miséria da teoria ou um planetário de erros. Rio de Janeiro, Zahar, 1981. contribuição fundamental de Marx permanece sem refutação: nenhuma forma de vida social pode existir sem produzir e reproduzir as bases materiais que viabilizam a sua sobrevivência física. A conseqüência deste axioma é importantíssima, a famosa “determinação em última instância”: as múltiplas relações sociais (e toda a miríade de acontecimentos sociais a elas ligados) não são aleatórias, mas determinadas pelo pertencimento a uma totalidade estruturada que é, ela própria, determinada pelo modo de produção. “Em última instância”, como insistia Engels, para lembrar que o modo de produção não atua como causa imediata dos fenômenos sociais, mas como determinante, condição de possibilidade do conjunto das relações sociais nas quais todos os fenômenos se inscrevem. A categoria totalidade se refere, portanto, à totalidade de relações determinadas e cujo princípio de determinação se pode conhecer. O segundo aspecto do problema é de ordem epistemológica. Mesmo os mais intransigentes adversários da categoria totalidade não conseguem afastar-se dela como certamente desejariam. No caso dos historiadores é a noção de “contexto” que costuma fazer às vezes de cavalo de Tróia. Apesar de muitos abolirem o uso da categoria totalidade, os historiadores nunca deixam de fazer referências, em diversos níveis, aos espaços onde se encontram conjuntos mais amplos de sujeitos e relações. Suas narrativas e explicações perderiam elos lógicos fundamentais e dificilmente poderiam ser sustentados se tudo o que se refere ao contexto (e que, portanto, escapa ao tipo de controle direto que é possível fazer sobre o corpus documental) fosse subtraído de seus esquemas. Mas o que é o “contexto” senão uma forma ingênua de referir-se à totalidade? O que se ganha ao evitar a discussão aprofundada das categorias de análise e substituí-las por noções acolhidas sem crítica? O caso dos historiadores, porém, parece ser uma manifestação particular de um problema mais geral. Todos os sistemas explicativos, não apenas os elaborados por historiadores, defrontam-se com o mesmo dilema: para serem internamente consistentes, não podem ser completos17. É a remissão ao exterior do sistema que garante sua consistência lógica e isto pode ser verificado tanto em complicadas proposições matemáticas quanto em qualquer discurso denotativo. A mera suposição de que haverá um acordo entre o locutor e o destinatário quanto ao sentido das palavras escolhidas, suposição que é condição para a coerência de sentido da fala, baseia-se em algo exterior ao próprio discurso. A produção de sentido, para funcionar, depende não apenas do sistema e suas regras 17 O dilema foi formulado inicialmente pelo matemático Gödel mas os analistas tendem a concordar que ele se aplica a todos os sistemas formais conhecidos. Cf. NAGEL, Ernest e NEWMAN, James R. A prova de Gödel. 2ª Ed. São Paulo, Perspectiva, 2001.
  11. 11. História & Luta de Classes, Nº 9 - Junho de 2010 (7-16) - 13 (a língua, por exemplo) mas do jogo de deslizamentos e acomodações que o uso social do sistema impõe18. É por isso que a totalidade não pode ser pensada como um mero sistema de relações, passível de uma definição lógica em termos de completude ou consistência. Ela é um todo determinado e internamente contraditório, portanto aberto e “vivo”, isto é, dotado de automovimento. Mas, como tal, a totalidade é uma exigência lógica presente na enunciação de qualquer explicação, mesmo quando o enunciador não lida com ela de modo consciente e crítico. O todo é uma condição para a inteligibilidade da parte. Se o historiador não é um ficcionista e se, por conseguinte, seu pensamento se volta para o concreto na busca de apreendê-lo, as dimensões ontológica e epistemológica do problema da totalidade têm lugar em sua oficina. “O concreto é concreto porque é síntese de muitas determinações, isto é, unidade do diverso”, dizia Marx. Por isso mesmo é que pensá-lo significa reconstituir no cérebro (conceitualmente) como síntese pensada a multiplicidade de determinações de que ele se constitui. A singularidade da evidência documental e da subjetividade presente no evento vista não como mônada, mas como síntese, de um lado, e o todo orgânico de relações determinadas visto não como sistema fechado mas como totalidade aberta e contraditoriamente dinâmica, de outro, constituem dois pólos de uma relação dialética. Pensar esta relação exige preservar cada pólo: a singularidade não se dissolve no todo nem é dedutível a partir dele e, por isso mesmo, a pesquisa histórica não prescinde das evidências documentais; o todo não se reduz à soma das partes porque ele é qualitativamente distinto. Exige, porém, ao mesmo tempo, que cada pólo seja considerado a partir das relações necessárias (ontológica e epistemológica) que mantém com o pólo contrário: a parte não existe fora do todo, este não existe senão através daquela e um é condição para pensar o outro. Na oficina de Marx No início da década de 50 do século XIX este método foi aplicado por Marx no estudo de temas da História Política (contemporâneos do autor) da França. As Lutas de Classes da França de 1848 a 1850 e O Dezoito Brumário de Luís Bonaparte, sobretudo o segundo, estão entre as obras mais citadas de Marx e são geralmente lembrados como os textos clássicos da interpretação marxista da história como história da luta de classes. Quando se trata de discutir o método, 18 É este um dos pontos em que a abordagem do problema da linguagem proposta por Bakhtin supera a lingüística estrutural de Saussure. Ver BAKHTIN, M. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo, HUCITEC, 1995. porém, os debatedores sempre privilegiaram outros textos marxianos (principalmente os Manuscritos de 1844, a Introdução de 1857, o Prefácio de 1859, os Grundrisse, O Capital e seus prefácios e algumas cartas de Marx e de Engels)19. Só raramente, e para sustentar linhas secundárias de argumentação, os textos de 1850-52 são incluídos entre as fontes para o estudo do método dialético. Pois é precisamente àqueles textos que recorrerei para observar a aplicação do método de Marx ao estudo da História. Não tenho como fazer, neste espaço, uma análise detida e aprofundada das obras, como seria mais apropriado. A pretensão será, portanto, bem mais modesta: não irei além de indicar aspectos dos textos em que a presença subterrânea do método se faz notar de algum modo. Embora modesta, a empreitada tem seus riscos. O maior deles deriva de que o material de que dispomos – os textos – não nos coloca em contato direto com a oficina de Marx, ou seja, com o momento investigativo do trabalho informado pelo método. De fato o próprio Marx, acompanhando uma longa tradição filosófica, distinguiu cuidadosamente o momento da investigação (Forschung), que tem caráter analítico, do momento da exposição (Darstellung), de caráter sintético, sendo que o segundo só pode começar depois que o primeiro produziu seus resultados20. Se vamos procurar o método dialético no texto é preciso considerar que ele se manifesta ali diretamente como método de exposição, mas só indiretamente, mediado pelo próprio trabalho de síntese expresso no texto, como método de investigação. Passemos aos aspectos que queremos sublinhar. Não sem surpresa para muitos leitores que esperam confirmar a pecha de “reducionismo economicista” colada em Marx, os textos que mencionamos trazem uma história povoada de sujeitos, individuais e coletivos. Não é vazia a frase que na abertura do texto afirma que “os homens fazem a história”: a narrativa marxiana reconhece e valoriza o protagonismo dos sujeitos, nomeia-os, destaca suas características individuais, estilo, caráter, habilidades, interesses e intenções. O mesmo se pode dizer sobre os acontecimentos. Os eventos criados pela movimentação dos sujeitos na cena política francesa são acompanhados em detalhe por Marx. A profusão de fatos e sujeitos nos textos cria, paradoxalmente, 19 Ver, como exemplos em perspectivas muito distintas: Rosdolsky, R. Génesis y estructura de El Capital de Marx. 6ª ed., Buenos Aires, Siglo Veintiuno, 1989 ALTHUSSER, Louis, RANCIÈRE, Jacques e MACHEREY, Pierre. Ler O Capital. Rio de Janeiro, Zahar,1979, BENSAÏD, Daniel. Marx, o Intempestivo. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1999 e TEIXEIRA, Francisco José Soares. Pensando com Marx. São Paulo, Ensaio, 1995. 20 Posfácio à segunda edição de O Capital. In: MARX, Karl. O Capital. 2a. ed., São Paulo, Nova Cultural, 1985, vol.1 (Col. Os Economistas).
  12. 12. 14 - A dialética na oficina do historiador: idéias arriscadas sobre algumas questões de método dificuldades para leitores nossos contemporâneos que desconhecem aqueles personagens, datas e acontecimentos e terminam por “perder o fio”21. Quem imagina encontrar um pensamento que ignora ou secundariza as evidências em favor de uma teoria onisciente se assustará ao encontrar não apenas textos fartamente documentados, mas também o uso de fontes muito variadas. Ainda mais desconcertante poderá ser a constatação de que a forma de expressão literária predominante em ambos os textos é a narrativa e, para completar, uma narrativa cronologicamente orientada. A forma de exposição é, pois, distinta daquela preconizada na Introdução de 1857 e executada n'O Capital, que considera “errôneo colocar as categorias econômicas na ordem segundo a qual tiveram historicamente uma ação determinante” e propõe, ao contrário, que elas sejam determinadas “pelo relacionamento que têm umas com as outras na sociedade burguesa moderna”22. A diferença na forma de exposição indicaria uma diferença no método do Marx de 1850-52 para o de 1857? Ao contrário, penso que o método é rigorosamente o mesmo e, se a exposição é diferente isso se deve antes às diferenças substantivas nos objetos investigados e apresentados em cada uma. Na Introdução e n'O Capital o problema é dar a conhecer (expor) as determinações do modo de produção capitalista, investigadas por Marx em longos anos de intensa pesquisa. Os resultados da investigação, organizados e sistematizados em categorias, precisavam ser apresentados de modo a assegurar o objetivo central do projeto: a reconstrução cerebral do concreto (cada categoria como abstração de determinações concretas e o próprio modo de produção como “todo de pensamentos”) como síntese, “totalidade concreta, como totalidade de pensamentos, como um concreto de pensamentos, [que] é de fato um produto do pensar, do conceber”. Não era da história do capitalismo que Marx tratava, mas do capitalismo como totalidade histórica. O descarte da exposição cronológica em favor da forma categorial-sistemática diz respeito às características do objeto, neste caso o modo de produção capitalista, e não a uma imposição metodológica a priori. Ora, qual seria a forma de expressão adequada a um objeto completamente distinto – um processo, uma trajetória, um percurso cumprido, ou seja, o tipo de objeto familiar aos historiadores (ao menos a muitos deles)? Quando lidou com objetos assim, nos textos de 1850-5223, Marx optou por organizar sua exposição na forma de uma narrativa cronologicamente orientada, 21 Nas muitas vezes em que trabalhei esses livros com alunos de Graduação em História esta foi, sempre, a principal dificuldade apontada por eles para a compreensão dos textos. 22 MARX, Karl. Introdução a Para a Crítica da Economia Política. In: MARX, K., São Paulo, Nova Cultural, 1986, (col. Os Economistas), p. 19. entremeada por comentários que desdobravam aspectos teóricos. Naqueles textos o problema era como expor a dinâmica histórica da luta de classes que imprimia rápidas mudanças na forma e no conteúdo do Estado e na sociedade francesas. A investigação, embora menos profunda e mais breve que seus estudos sobre o capitalismo, também produziu resultados organizados em categorias, mas aqui a dimensão temporal (ou o sentido de processo, ou a periodização) entra como coordenada fundamental para a classificação e sistematização dos dados. No momento da exposição a tarefa do pensamento era fundamentalmente a mesma: produzir no cérebro a síntese das determinações descobertas pela pesquisa. A diferença é que, neste caso, o pensamento precisava lidar com esta dimensão fundamental do objeto – a temporalidade – e é isso que explica o recurso à narrativa como forma privilegiada (embora não a única) de expressão. Uma narrativa atenta aos sujeitos e aos acontecimentos singulares indica, com muita precisão, que a investigação esteve igualmente atenta a estes temas pois, de outro modo, não teriam sido produzidas aquelas informações. Mas os textos de Marx conduzem também ao outro lado da relação dialética que descrevemos, o lado das “condições históricas” que os sujeitos herdam sem escolha. O que devemos entender por “condições históricas” senão a totalidade de relações dentro das quais os eventos e seus sujeitos podem existir? Múltiplas relações, e não apenas as “econômicas”, são consideradas na determinação do concreto. O peso de tradições políticas do passado, uma herança cultural, merece atenção e o reconhecimento de que ela “oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos”. A imaturidade política do proletariado, condição associada à sua própria história como classe muito jovem, entra como fator explicativo de grande relevância para as derrotas de maio e junho de 1848. As inconsistências da Constituição e as manobras desastradas dos grupos parlamentares burgueses são apresentadas como fatores de peso considerável na determinação da marcha dos acontecimentos. A corporação militar, com suas características específicas e a partir dos espaços criados pelas iniciativas dos grupos parlamentares e governamentais, termina por assumir um papel de alta relevância na história. As classes têm, certamente, o papel decisivo na explicação, mas com muitas mediações. Isso porque não há qualquer imediatismo entre as classes como realidade social e sua representação política nos grupos políticos ou no Estado. Os republicanos burgueses, que desempenharam um papel decisivo na primeira fase, não representavam nenhuma das frações mais 23 E também em alguns artigos publicados em jornais, sobretudo norte-americanos, nas décadas de 50 e 60, nos quais discute temas como política internacional e colonialismo.
  13. 13. História & Luta de Classes, Nº 9 - Junho de 2010 (7-16) - 15 importantes da burguesia que eram, ambas, monarquistas. Orleanistas e legitimistas representam, juntos, os setores mais importantes da classe dominante, mas não são capazes de dar à França um governo estável, mesmo depois de esmagar política e militarmente o proletariado. Uma classe muito numerosa, mas politicamente inexpressiva, a dos pequenos proprietários camponeses, unifica-se em torno de um programa fraudulento (as idées napoléonienes de que fala Marx) e se torna a força que leva ao poder a figura caricata do sobrinho de Napoleão. É certo que ao referir-se às classes Marx pensa no todo determinado de relações que dá existência às classes, sobretudo as relações sociais de produção (“as classes são uma palavra vazia de sentido se ignorarmos os elementos em que repousam, por exemplo: o trabalho assalariado, o capital, etc.”24 Todas essas determinações remetem à totalidade histórica em que aquelas classes e a luta entre elas são elementos fundamentais e não são compreensíveis sem esta remessa. No entanto, como se vê sem dificuldades, é rigorosamente impossível deduzir a história política francesa da realidade de classes da França em meados do séc. XIX. A forma concreta da ação política das classes não corresponde diretamente à situação das classes no modo de produção, porque se enriquece de muitas outras determinações. A história política concreta da França, ao ser investigada e exposta, aparece nos textos, então, como síntese de múltiplas determinações. A rigor, a história exposta nem é mais política, no sentido de que o resultado da investigação faz a política aparecer como parte da totalidade social. Talvez o mais apropriado fosse falar de uma História Social da Política. No método dialético aplicado (à História, como à Economia Política), a totalidade, embora determinada, não opera como axioma, princípio a partir do qual, por dedução, chega-se às “leis”, mas como quadro necessário de referências. A relação entre a totalidade e os eventos e sujeitos singulares não é unívoca e mecânica, mas dialética e complexa. A teoria não fornece uma explicação a priori da história. Ela propõe questões conscientemente orientadas para direcionar o processo investigativo e fornece hipóteses para a sistematização e interpretação dos dados empíricos. Uma História com sujeitos determinados Gostaria de concluir com uma reflexão sobre a subjetividade para sublinhar o que me parece ser outra importante contribuição de Marx à faina dos historiadores. Trata-se da concepção de sujeito baseada na teoria da práxis. O sujeito é uma realidade contraditória em 24 MARX, K. Introdução... op. Cit, p, 14. vários aspectos. Tomemos dois. Ele é, num aspecto, sujeito no sentido comum, de ator/autor, sujeito de. Sua existência na história faz toda a diferença entre o mundo da natureza e o que resulta da ação humana. Esta ação, realizadora de uma obra que se distingue da e ultrapassa a natureza, não pode, a não ser por uma arbitrariedade metodológica, ser separada da subjetividade dos agentes e de tudo o que ela implica, como o fato de atribuir sentido à própria ação e ao mundo. Num outro aspecto, porém, o sujeito é sempre aquele que está submetido, sofre uma ação, é ou está sujeito a. A menos que aceitemos a idéia de que cada um de nós recebe uma alma imortal que seria a nossa verdade última, é preciso reconhecer que a subjetividade não é anterior à história do próprio sujeito. Ela só se desenvolve através da relação com o que lhe é exterior e contraposto: a objetividade (objectum; Gegen-stand). Esta relação limita e modela o sujeito, embora não completamente. Estes aspectos são contraditórios, pois um é a negação do outro, e mutuamente implicados. A condição de estar sujeito a determina de modo absoluto o que o sujeito de não pode ser, fazer ou mesmo pensar, determina seus limites: Aristóteles não poderia compreender o fundamento do valor porque as condições históricas não haviam tornado possível este conhecimento. Determina, porém, apenas de modo relativo (tendencial) o que ele efetivamente será, fará ou pensará: é hoje possível conhecer o fundamento do valor, mas nem todos conhecerão. Tendencialmente, no entanto, se pode verificar que intelectuais (economistas) organicamente vinculados à burguesia apresentarão com mais freqüência e intensidade rejeição à teoria (marxista) do valor. Não é uma lei de ferro: as trajetórias de Engels e Lukács são magníficos exemplos de que esta tendência, conquanto poderosa, não é absoluta. Os sujeitos históricos são constituídos através desta contradição (determinam-se através do seu contrário) e a história deles é, em última instância, o desenvolvimento desta contradição. Ora, se a própria subjetividade não se esgota em si mesma, ou seja, se os sujeitos não podem ser considerados como autodeterminações, a História não pode limitar seu interesse à história das subjetividades. O indivíduo isolado, a subjetividade imanente ou a natureza humana são todas, por razões semelhantes, pistas falsas para os historiadores. Uma problemática dialética do sujeito começa pela noção de que a “essência humana (...) Na sua realidade, ela é o conjunto das relações sociais”25. Se a História não tem como eclipsar a dimensão subjetiva do seu objeto, por outro lado a subjetividade não existe senão através da relação com o seu exterior, o mundo objetivo das relações sociais. Por esta via o sujeito se define como ser social e as relações sociais compõem, 25 MARX, K. Teses sobre Feuerbach... op, cit, p. 95.
  14. 14. 16 - A dialética na oficina do historiador: idéias arriscadas sobre algumas questões de método necessariamente, a outra dimensão constitutiva do objeto da História. História será, então, sempre a investigação da história do ser social, isto é, de sujeitos determinados atuando em circunstâncias determinadas. Se aceitarmos esta forma de enunciar o objeto, teremos que concordar que a questão central da História é, muito a contragosto do mainstream historiográfico, a da determinação. Inteiramente distinta da idéia de causação, a questão da determinação convida a interrogar sobre como tal ação, tal sujeito e tais circunstâncias tornaram-se aquilo mesmo que efetivamente são, como se constituiu o seu modo determinado de ser. O problema da determinação é uma outra forma de abordar a própria história do ser social. Sempre é possível levar em consideração apenas aspectos isolados da vida social ao estudar uma história qualquer. Retalhos costurados mostram, de algum modo, formas e cores que não são falsos em si mesmos. Concretamente, no entanto, a vida social é uma totalidade complexa de relações e a decisão metodológica de tomar somente um ou alguns de seus aspectos tem conseqüências que devem ser ponderadas. Claro, os historiadores podem desistir de pensar sobre o problema, declará-lo insolúvel ou indigno da sua atenção e confortarem-se com seus divertidos retalhos de retalhos. Não possuem, no entanto, meios para fazê-lo desaparecer. Em se tratando da vida social, tudo o que for tomado ou considerado à parte do conjunto de relações sociais, que é, “na realidade”, a “essência da humanidade” será portador de uma incompletude radical. A única forma de lidar com esta incompletude sem recair numa deliberada unilateralidade é abrir-se para a totalidade, detectar e registrar as marcas da determinação do singular pela totalidade social. Mas, logo que se compreende que a questão da totalidade não pode ser abordada como enumeração ou inventário, compreende-se melhor a importância do conceito de práxis. Sujeitos, ações e circunstâncias tornam-se o que são através das relações ativadas pela práxis social. “Toda vida social é essencialmente prática. Todos os mistérios que conduzem ao misticismo encontram sua solução racional na práxis humana e na compreensão dessa práxis.”26 A própria história permanece envolta em misticismo se não compreendemos a práxis. Nada seria mais equivocado do que acreditar que a idéia de práxis simplifica ou reduz o trabalho do historiador. Ao contrário, complexifica-o extraordinariamente. Saber que não pode haver vida social sem que estejam asseguradas (produzidas e reproduzidas) as condições materiais que a tornam possível, condições estas que dizem diretamente 26 Idem, ibidem, p. 96. respeito às relações de produção e à práxis, não resolve de antemão o enigma da história. Apenas repõe perante o historiador a exigência de pensar seu objeto contra o pando de fundo da totalidade da vida social da qual ele não pode ser separado, a não ser por um ato de abstração. Para uma História concebida como interrogação do automovimento do ser social (ser/relações), o método não oferece qualquer garantia prévia de resultados, mas, ao contrário, abre um conjunto de questões incontornáveis. Tais questões decorrem, por um lado, da exigência de compreender o objeto em perspectiva relacional e inscrito na totalidade. Por outro lado, decorrem da exigência de submeter as próprias categorias de análise à crítica histórica radical, desafiando em todos os níveis a ilusão positivista da neutralidade. A mais promissora perspectiva para enfrentar estas questões (categorias analíticas radicalmente historicizadas e produzidas através da atividade crítica, inteligibilidade do objeto mediante a pesquisa da sua determinação histórica e relacional) encontra-se no método dialético desenvolvido por Marx.
  15. 15. História & Luta de Classes, Nº 9 - Junho de 2010 (17-21) - 17 Tempos históricos e ritmos políticos1* Daniel Bensaïd2 A o contrário do que muitos supõem, Marx não é um “filósofo da história”. Ele foi precisamente - e muito antes da segunda Consideração intempestiva de Nietzsche, de A Eternidade pelos Astros de Blanqui; de Clio, de Peguy; das teses Sobre o conceito de história, de Walter Benjamin, ou do livro póstumo de Siegfried Kracauer A História – um dos primeiros a ter rompido categoricamente com as filosofias especulativas da história universal: providência divina, teleologia natural, ou odisséia do Espírito. Essa ruptura com respeito às “concepções verdadeiramente religiosas da história” está selada pela formulação definitiva de Engels na Sagrada Família: “A história não faz nada!”. Esta constatação lapidar põe de lado toda representação antropomórfica da história como um personagem todo poderoso que manuseia os marcos da comédia humana de costas aos seres humanos reais. Isto está desenvolvido e expresso muitas vezes na Ideologia Alemã. A história não faz nada Marx e Engels rechaçam essa visão apologética da história segundo a qual tudo o que ocorre devia necessariamente produzir-se para que o mundo seja hoje o que é e para que nós viéssemos a ser o que somos: “graças a artifícios especulativos, podese nos fazer crer que a história por vir era a meta da história passada”. Essa fatalização do devir histórico sepulta uma segunda vez “os possíveis laterais” 1 Artigo publicado em Herramienta. Revista de debate y crítica marxista, sob o título Tiempos Históricos y ritmos políticos. Buenos Aires, março de 2009, n. 40. Agradecemos aos editores da revista por autorizarem sua republicação. Tradução de Carla Luciana Silva, a partir da versão publicada em Herramienta. * Nota do Editor: Originalmente este texto foi apresentado no Colóquio “Pensare con Marx, Repensare Marx”, promovido pelo Centro de Estudos Livio Maitan, em janeiro de 2007, em Roma. A tradução manteve o formato do artigo publicado em Herramienta. Em vista disto, em algumas passagens as referências e indicações bibliográficas estão diferentes do padrão editorial usual de História & Luta de Classes. 2 Intelectual e militante marxista revolucionário, Daniel Bensaïd faleceu em janeiro de 2010. Foi dirigente da Liga Comunista Revolucionária e participou da fundação do Novo Partido Anticapitalista. Foi Professor de Filosofía na Universidade de París VIII, Saint Denis e Diretor da revista ContreTemps. A republicação do artigo se constitui em uma homenagem póstuma. (segundo a expressão de Pierre Boudieu) que, no entanto, não são menos reais (no sentido de um Reale Möglichkeit) que o fato consumado resultante de uma luta incerta. Essa crítica marxiana da razão histórica e da ideologia do progresso antecipa a crítica desapiedada feita por Blanqui ao positivismo como ideologia dominante da ordem estabelecida. Em suas notas de 1869, nas vésperas da Comuna de Paris, o indomável insurreto escrevia, com efeito: No juízo do passado ante o futuro, as memórias contemporâneas são os testemunhos, a história é o juiz, e a sentença é quase sempre uma iniqüidade, seja pela falsidade das declarações, pela sua ausência, ou pela ignorância do tribunal. Afortunadamente, a convocatória segue aberta para sempre, e à luz de novos séculos, projetada a partir de longe sobre os séculos transcorridos, denuncia os juizes tenebrosos. Assim como não é um deus ex-machina, nem um demiurgo, a história não é tampouco um tribunal. E quando pretende sê-lo, não é realmente mais que um cenáculo de juízes que se valem de falsos testemunhos. Com efeito, o recurso ao juiz da história conduz, como escreveu Maximiliano Tomba, a bloquear a questão da justiça. É o que constatava já Blanqui: De sua pretensa ciência da sociologia, assim como de sua filosofia da história, o positivismo exclui a idéia de justiça. Não admite nenhuma lei que não seja a do progresso contínuo, fatalizada. Cada coisa é excelente em seu momento, posto que ocupa seu lugar na sucessão de aperfeiçoamentos. Tudo é melhor sempre. Nenhum critério para apreciar o bom ou mau. Para Blanqui, o passado segue sendo, portanto, um campo de batalha no qual o juizo das flechas, a sorte das armas e o fato consumado não provam nada quanto à discriminação do justo e do injusto: Posto que as coisas seguiram esse curso, não teriam podido seguir outro. O fato consumado tem uma potência irresistível. É o destino mesmo. O espírito se aflige e não se atreve a se rebelar. Terrível força para os fatalistas da história, adoradores do fato consumado! Todas as atrocidades do vencedor, sua longa série de
  16. 16. 18 - Tempos históricos e ritmos políticos atentados, se transformam friamente em uma evolução regular inelutável, como a da natureza. Mas “a engrenagem das coisas humanas não é fatal como a do universo: é modificável a cada momento”. Porque, acrescentará Benjamin, cada minuto é uma estreita porta pela qual pode surgir o Messias. Ao culto que faz da História uma simples forma secularizada do antigo Destino ou da Providencia, Marx e Engels opunham, desde A Ideologia alemã, uma concepção radicalmente profana e desencantada: “a história não é mais que a sucessão de gerações que vem umas depois das outras”. Dar-lhe sentido é problema dos homens e não dos deuses. Logicamente, essa critica da Razão histórica implica uma crítica do conceito abstrato de progresso. Depois de A Ideologia alemã, em muito poucas ocasiões Marx fez considerações gerais sobre a história. A “crítica da economia política” é de fato, na prática, essa “outra escritura da história”, essa escritura profana enunciada. Apenas se encontram, ao longo de sua obra, algumas considerações dispersas a esse respeito, em particular, algumas notas telegráficas incluídas na introdução dos Grundrisse. Trata-se de notas de trabalho pessoais (um “Nota bene”, escrevia Marx), um tipo de pensamento “bruto”, não elaborado senão para ele mesmo, jogado no papel em um estilo sucinto e às vezes enigmático. Duas dessas oito breves observações merecem uma atenção especial. Na sexta, Marx recomenda: “o conceito de progresso não deve ser concebido da maneira abstrata habitual”, mas tendo em conta “o desenvolvimento desigual” entre as relações de produção, as relações jurídicas, os fenômenos estéticos; tendo em conta, portanto, os efeitos do contratempo e a não contemporaneidade. Na sétima, mais lapidarmente ainda, recorda que sua concepção da história, “se apresenta como um desenvolvimento necessário” (grifado por ele mesmo), ainda que precise, imediatamente, “Mas justificação do azar. Como. (Entre outras coisas, também da liberdade). Influência dos meios de comunicação. A história universal nem sempre existiu; a história como história universal é um resultado)”3. Trata-se de dialetizar efetivamente a necessidade em sua relação com o contingente, sem o que não haveria agora nem história nem acontecimento. A história universal já não é, pois, uma teodicéia, mas um devir, uma universalização efetiva da espécie humana, através da universalização da produção, da comunicação, da cultura, como o afirma já no Manifesto do Partido Comunista. Essa problemática é novamente confirmada na famosa carta de 1877 em resposta aos críticos russos, onde Marx rechaça “uma teoria historico-filosófico 3 MARX, Karl. Grundisse, p. 31. geral cuja suprema virtude consiste em ser suprahistorica”4. Com efeito, essa suposição de um sentido da história que se superporia à história real, a suas lutas e suas incertezas, guardava continuidade com as grandes filosofias especulativas, com as que havia rompido muito tempo antes. E essa ruptura teórica não deixa de ter conseqüências práticas. Em uma história aberta, já não existe norma histórica preestabelecida, nem desenvolvimento “normal”, que possam ser opostos a anomalias, desvios ou malformações. Provam isso as cartas a Vera Zassoulitch, projetando para a Rússia diversos desenvolvimentos possíveis que lhe evitariam recorrer o calvário do capitalismo ocidental. São cartas que abrem passagem ao estudo de Lênin sobre o desenvolvimento do capitalismo na Rússia e às teses de Parvus e Trotsky sobre o desenvolvimento desigual e combinado. Na contramão das filosofias especulativas da História universal e sua temporalidade “homogênea e vazia”, a crítica da economia política – desde os Manuscritos de 1844 até O capital, passando pelos Grundisse – se apresenta portanto como uma conceitualização do tempo e dos ritmos imanentes à lógica do capital, como uma escuta do pulso e das crises da história. Marx, segundo resume Henrik Grossman, “deve forjar em primeiro lugar todas as categorias conceituais relativas ao fator tempo: ciclo, rotação, tempo de rotação, ciclo de rotação”5. Esta crítica radical da razão histórica seguiu sendo no entanto parcial, propícia então aos malentendidos e inclusive aos contra-sentidos aos quais podem dar sustento, às vezes, ae expressões contraditórias do próprio Marx. Esses equívocos provêm em grande medida da grande questão estratégica não resolvida: Como os proletários, frequentemente descritos no Capital como seres mutilados fisica e mentalmente pelo trabalho, poderiam transformar-se em classe hegemônica na luta para a emancipação humana? A resposta parece residir em uma aposta sociológica, segundo a qual a concentração industrial acarretaria o correspondente crescimento e concentração do proletariado, com um nível crescente de resistência e organização, que se traduziria em uma elevação do nível de consciência até que a “classe política” chegaria finalmente a unir-se com a “classe social”, passando de classe-em-si para classe-para-si. Essa seqüência lógica permitiria à “classe universal” resolver o enigma estratégico da emancipação. Mas o século XX não quis confirmar essa visão otimista que permitiu a numerosos intérpretes 4 MARX, Karl. Correspondência, p. 291. Ver Henryk Grossmann, Marx, l'économie politique classique et le problème de la dynamique, Paris, Champ Libre; Stavros Tombazos, Les temps du capital, Paris, Cahiers des saisons, 1995. 5
  17. 17. História & Luta de Classes, Nº 9 - Junho de 2010 (17-21) - 19 atribuírem a Marx uma teoria determinista da História. Sua argumentação se apoiou principalmente em: Ÿ O formalismo dialético tal como aparece no penúltimo capítulo do Livro I do Capital sobre a negação da negação. Permitiu tantas simplificações que no AntiDühring Engels teve que corrigi-las (e não somente as interpretações abusivas, mas em certa medida seu espírito mesmo): “Que papel tem em Marx a negação da negação? [....] Ele não pensa em demonstrar a necessidade histórica mediante este argumento: ao contrário, é depois de haver demonstrado pela historicamente que o processo em parte já ocorreu, e em parte tem necessariamente que ocorrer, que Marx o define como um processo sujeito em sua execução a uma determinada lei dialética”6. Semelhante comentário de texto parece, no entanto, muito forçado. Mais adiante, Engels é mais claro: “Que é, pois, a negação? Uma lei extraordinariamente geral, e por isso extraordinariamente eficaz e importante que rege o desenvolvimento da natureza, da história e do pensamento [...] dito está que quando digo que o processo que recorre, por exemplo, o grão de cevada desde que germina até que morre a planta que o brota, é uma negação da negação, não prejulgo para nada o conteúdo concreto desse processo”. Claro que se ela “consiste nessa forma pueril de escrever em uma lousa um a para logo apagar-lhe, ou em dizer que uma rosa é uma rosa para afirmar em seguida que não o é, não pode sair nada, como não seja a idiotice do que se entregue a semelhantes operações”7. Ÿ A controvérsia remete também ao conceito de necessidade, de tal modo que pode ser interpretado, sobretudo a partir da “Introdução” de 1859, como necessidade mecânica, enquanto que em boa lógica dialética é indissociável da contingência que a acompanha como sua sombra; mas é um fato que às vezes resulta difícil estabelecer se Marx utiliza o conceito de necessidade em um sentido preditivo ou em um sentido performativo. O grande giro Para distinguir entre estas interpretações, os escritos políticos sobre a luta de classes na França, a colonização inglesa na Índia, as revoluções 6 AntiDühring. p. 139 AntiDühring. 146-148. 7 espanholas, ou a Guerra de Secessão, são por certo mais úteis que as especulações lógicas. O caráter central da luta de classes e seus incertos desenlaces exige, com efeito, uma parte de contingência e um conceito não mecânico de causalidade, uma causalidade aberta cujas condições iniciais determinam um campo de possibilidades, sem determinar mecanicamente qual triunfará. A lógica histórica se aparenta então mais com o caos determinista que com a física clássica: nem tudo é possível, mas existe uma pluralidade de possibilidades reais, entre as quais a luta decide. Também aqui é necessário recorrer ao Blanqui da Eternidade pelos Astros, para quem depois das derrotas decorrentes de 1832, 1848 e 1871 “somente o capítulo das bifurcações” está “aberto à esperança”. O termo “bifurcação”, pouco utilizado nessa época, tinha um brilhante futuro no vocabulário da física quântica e no das matemáticas da catástrofe de René Thom. Na época das guerras e das revoluções, esta concepção de uma história na qual o passado condiciona o presente sem determiná-lo mecanicamente, se reforçou no período que vai da Primeira à Segunda Guerra Mundial com desenvolvimentos teóricos paralelos de Gramsci e Benjamin. O primeiro sublinha: “realmente, não se pode prever cientificamente senão a luta, e não somente seus momentos concretos”. E acrescenta: “somente a luta, e não seu resultado imediato, mas aquele que se expressa em uma vitória permanente dirá o que é racional ou irracional”. O desenlace da luta e não uma norma preestabelecida determina então a racionalidade do desenvolvimento. Mas esse desenlace não se limita ao resultado imediato, às vitórias e às derrotas, que podem revelar-se a longo prazo, como simples episódios. Não se pode estabelecer senão retrospectivamente, à luz “de uma vitória permanente”. Que é então o permanente da vitória em uma história aberta, em uma luta que, diferentemente dos jogos na teoria do mesmo nome, não tem “fim de jogo”? Que é vencer para sempre se, como disse Blanqui, “a convocatória está sempre aberta”? Em Benjamin, para terminar com os sussurros anestesiantes da história, com as engrenagens e as rodas dentadas do progresso, com o juízo final do tribunal da história, a relação entre história e política é definitivamente invertida. Trata-se desde agora de abordar o passado “já não como antes, de maneira histórica, mas de maneira política, com categorias políticas”. E mais laconicamente: “a política precede desde agora à história”. A frase parece fazer eco, retirando as conseqüências, daquela de Engels que dizia que a história não faz nada. A resultante é um radical reordenamento da semântica dos tempos históricos. O presente já não é mais um elo efêmero e evanescente no encadeamento do tempo. O passado já
  18. 18. 20 - Tempos históricos e ritmos políticos não contém o germe do presente, assim como o futuro tampouco é já seu destino. O presente é o tempo por excelência da política, o tempo da ação e da decisão, a partir de onde se joga e se volta a jogar permanentemente o sentido do passado e o do futuro. É o tempo do desenlace entre uma pluralidade de possibilidades. E a política que desde agora precede à história é precisamente essa “arte do presente e do contra-tempo” (Françoise Proust), dito em outras palavras uma arte estratégica da conjuntura no momento propício. História e estratégia Essa inversão que restabelece a primazia da política sobre a história, não revela, no entanto, o que ocorre com sua relação invertida. Com a ajuda da pulverização pós-moderna dos relatos e também do tempo histórico, certos discursos teóricos retêm a idéia de uma política desenraizada de todas as determinações e condicionantes históricos, que se reduziria desde agora a uma justaposição de ações dia por dia, de seqüências flutuantes, sem vinculo lógico nem continuidade. Este estreitamento da temporalidade política ao redor de um presente efêmero continuamente recomeçado, traz como conseqüência a exclusão de todo pensamento estratégico, de um modo simétrico à forma em que o fizeram as filosofias da história. Grande aficcionado aos escritos e jogos estratégicos, Guy Debord sublinhou com energia o vínculo entre uma temporalidade histórica aberta e um pensamento estratégico capaz de deslocar-se de modo duradouro, e de integrar aos seus cálculos probabilísticos uma parte irredutível de acontecimentos contingentes. Afirmava assim que um partido ou uma vanguarda com um projeto que sofrera um grave déficit de conhecimentos históricos já não poderia orientar-se ou “ser conduzido estrategicamente”. As derrotas acumuladas no “século dos extremos” obscureceram o horizonte da espera e congelaram a história na desgraça. É a época do zapping, do quick, do fast, do rápido e do instantâneo. O tempo estratégico se debulha e se fragmenta em episódios anedóticos. A saudável reabilitação do presente se transforma assim no culto ao transitório e ao perecível, em uma sucessão de fatos sem passado nem futuro: “um eterno presente se impõe, feito de instantes efêmeros que brilham com o prestígio de uma ilusória novidade, mas não fazem mais que substituir cada vez mais rapidamente, o mesmo com o mesmo”. (Jérome Baschet). O fato é que as resistências imediatas à ContraReforma liberal carecem frequentemente de interesse e cultura histórica. Já a moda estruturalista dos anos 1960 havia conduzido a tratar o relato histórico como o parente pobre das “ciências humanas”. O gesto platônico reivindicado hoje por Alain Badiou tende a absolutizar o acontecimento para fazer dele o ato fundante de uma “sequência” autônoma, fechada por um “desastre”, sem antecedentes nem conseqüência. O imperativo categórico de uma resistência estóica se encarrega então de nos eximir de interrogantes sobre os acordos falidos da história passada assim como de projetos e sonhos para o futuro. Carpe diem. No futur. “Point de lendemanin”, já escreviam os libertinos do século XVIII (nesse caso, Dominique Vivant de Non). À pretensão de “fazer a história” (de contribuir, dito de outro modo, para a realização de um fim programado), Hannah Arendt opunha a incerteza da ação política. A seus olhos, com efeito, a substituição da história pela política atribuía a responsabilidade da ação enfrentada à “contingência deplorável do particular”. A des-fatalização da história, provocada a partir da Primeira Guerra Mundial pela derrocada dos mitos do progresso, podia no entanto revestir-se de varias formas: a da decisão incondicional em Schmitt; a da erupção messiânica em Benjamin; e finalmente a do acontecimento milagroso em Arendt: “somente uma espécie de milagre permitirá uma mudança decisiva e saudável”. Todos caem na tentação de absolutizar o acontecimento. A evenementialité regressou com força, nas retóricas pós-estruturalistas, mas a espera de um acontecimento redentor, incondicionado, surgido do Vazio ou do Nada (da eternidade?) se relaciona mais com o milagre da Imaculada Conceição. A esperança em um acontecimento absoluto e o “radicalismo passivo” do velho socialismo “ortodoxo” da II Internacional podem então unir-se inesperadamente: a revolução, como dizia Kautsky, não se prepara, não se faz. Simplesmente ocorre quando chega a hora, segundo uma lei quase natural, como um fruto maduro, ou como uma divina surpresa evenementialle. Muito longe das exigências da revolução permanente ou da continuidade estratégica na ação partidária de Lenin, a escassez de política em autores como Badiou ou Rancière é o corolário da escassez de tais erupções. O tempo quebrado da estratégia A revolução, associada ao nome de Lenin, impulsiona ao contrário, até suas ultimas conseqüências, a ruptura com a representação do tempo do relógio, “homogêneo e vazio”, segundo o qual se supõe que marcha a engrenagem do progresso. O tempo estratégico está cheio de nós e de giros, de acelerações súbitas e sensíveis detenções, de saltos para diante e salto pra trás, de síncopes e contratempos. As agulhas de seu quadrante nem sempre giram no mesmo sentido. Trata-se de um tempo quebrado, descompassado pela crise e pelos instantes a
  19. 19. História & Luta de Classes, Nº 9 - Junho de 2010 (17-21) - 21 aproveitar (como o testemunham as notas de Lenin em outubro de 1917, urgindo os dirigentes bolcheviques a tomar a iniciativa da insurreição amanhã ou depois de amanhã, porque depois seria demasiado tarde), sem o que a decisão já não teria sentido, e o papel do partido se reduziria ao de um pedagogo que acompanha a espontaneidade das massas, e não o de um estrategista organizando a retirada ou a ofensiva segundo os fluxos e refluxos da luta. Essa temporalidade da ação política tem seu próprio vocabulário: o período, concebido em suas relações com o antes e com o depois dos que se distingue; os ciclos de mobilização (às vezes a contratempo dos ciclos econômicos); a crise em que a ordem fraturada deixa escapar um leque de possibilidades; a situação (revolucionária) na qual se preparam os protagonistas da luta; a conjuntura ou o momento favorável que deve captar 'a presença de ânimo” necessária em toda estratégia. A gama destas categorias permite articular, em vez de dissociar, o acontecimento e a história, o necessário e o contingente, o social e a política. Sem tal articulação dialética, a idéia mesma de estratégia revolucionária ficaria vazia de sentido, e não restaria mais que “o socialismo fora do tempo” (Angelo Tasca), tão caro às Penélopes parlamentares. Réquiem para o tempo presente De onde viemos? De uma derrota histórica, é necessário admiti-lo, e apreciar sua dimensão, da qual a contra-ofensiva liberal do último quarto de século é tanto causa como conseqüência e coroamento. Algo se acabou com a mudança de direção do século, entre a queda do Muro de Berlim e o 11 de setembro. Algo... Mas o que? O “curto século XX” e seu ciclo de guerras e revoluções? O tempo da modernidade? Ciclo, período ou época? Fernand Braudel distingue três tipos de duração: Ÿ o acontecimento, que é “o mais caprichoso e enganoso”, inacessível (impensável?) para as ciências sociais; Ÿ“longa duração” dos movimentos a econômicos, demográficos, climáticos; Ÿciclo da conjuntura, aproximadamente o decenal, que estabeleceria um vínculo entre o acontecimento e a estrutura, o tempo longo e o tempo curto. Essa temporalização tem o inconveniente de estabelecer em uma mesma temporalidade histórica uma pluralidade de tempos sociais discordantes, sem explicar outras modalidades de tempos além da simples descrição de suas combinações e conexões. Esta unificação do tempo histórico tende assim a anular os efeitos de contratempos e da não contemporaneidade. Então: fim do “curto século vinte” ou fim do “século dos extremos”? Mudança de período ou mudança de época? Derrota histórica das políticas de emancipação ou simples alternância dos ciclos de mobilização? Hans Blumenberg destaca que somente a época Moderna se pensou como época, segundo a nova “semântica dos tempos históricos” analisada por Reinhart Koselleck. Porque de nenhuma maneira é a história mesma – que, o recordo pela ultima vez, não faz nada – a que marca ao final, recorta o tempo ou data o acontecimento, senão quem o observa a posteriori: “um giro de época é um limite imperceptível que não está vinculado a nenhuma data ou acontecimento destacado”. O homem faz a história, mas não faz a época. Representação construída de uma seqüência histórica, a delimitação de uma época segue estando, pois, indefinidamente em litígio, tal como o ilustram as distintas datações da “modernidade”. Enquanto “a frágil unidade de um período”, Kracauer a compara com a sala de espera de uma estação, onde não se estabelecem senão encontros ao azar ou aventuras passageiras. Mais que emergir o tempo, instaura uma relação paradoxal entre a continuidade histórica que representa e as rupturas que implica. Mudança de época, de período ou de ciclo, o alcance desta mudança que está em curso somente se determinará à luz do que, confusamente, está iniciando. Depois da “Belle Époque”, do período do entre-guerras e da “guerra civil européia”, dos “Trinta anos gloriosos” e a Guerra fria, da Restauração liberal... Que? Uma reorganização política se desenha. A globalização mercantil e a guerra infinita produzem novas escalas espaciais, uma nova configuração de espaços e lugares, novos ritmos de ação. Um novo paradigma quem sabe, ao qual não convém certamente chamar pós-moderno, porque a palavra parece inscrever-se em uma sucessão cronológica e na mania estéril dos pós-ismos”. Não é, portanto, mais que o princípio de algo que ainda apenas percebemos, entre o frágil “já não mais” e o “ainda não”. Será longo, anunciava o profeta Jeremias... Mas “o futuro dura muito tempo”. Outro mundo é necessário. É urgente fazê-lo possível antes que o velho mundo nos destrua e arruíne o planeta.

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