Resenha: Um discurso sobre as ciências / Como se faz uma tese

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Trabalho da disciplina Metodologia da Pesquisa. Programa de Pós-Graduação em Gestão De Unidades De Informação - PPGinfo, Universidade do Estado de Santa Catarina.

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Resenha: Um discurso sobre as ciências / Como se faz uma tese

  1. 1. UNIVERSIDADE DO ESTADO DE SANTA CATARINA CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS E DA EDUCAÇÃO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM GESTÃO DE UNIDADES DE INFORMAÇÃO - PPGinfo Disciplina: Metodologia da Pesquisa Profª: Lani Lucas Aluna: Juliana Aparecida Gulka Data: 05/08/2014 RESENHA SANTOS, Boaventura de Sousa. Um discurso sobre as ciências. 6. ed. São Paulo: Cortez, 2009. Boaventura de Sousa Santos é um sociólogo português, doutor em Sociologia do Direito pela Universidade de Yale (1973) e publicou mais de vinte livros, principalmente em português e espanhol. Entre suas obras, está “um discurso sobre as ciências”, que na edição brasileira de 2009, é objeto desta resenha. “Um discurso sobre as ciências” é a versão ampliada da Oração da Sapiência, proferida por Santos na abertura das aulas na Universidade de Coimbra (Portugal) para o ano letivo de 1985/1986. Remonta a um apanhado da história da ciência, partindo do século XVI com a revolução científica promovida por Copérnico, Galileu e Newton, perpassando também por Rousseau e Einstein. A obra é composta por três partes principais: o paradigma dominante; a crise do paradigma dominante; e o paradigma emergente. Ao tratar sobre o paradigma dominante, Santos expõem que as ciências naturais praticamente dominaram a racionalidade científica, de modo que as ciências sociais emergiram por volta do século XIX, mas não foram de todo consideradas racionais da mesma forma que as naturais o eram. Ao contrário, eram tidas como “irracionais” e “senso comum”. A lógica e a matemática fornecem instrumentos de análise e investigação rigorosos e, portanto, privilegiados, daí a ideia de quantificar remeter ao conhecimento científico. Esse modelo de ciência racional era tido como totalitário à medida que não considerava válido qualquer outro processo metodológico que levasse em conta experiências imediatas ou a própria pessoa humana.
  2. 2. Mas “tal como foi possível descobrir as leis da natureza, seria igualmente possível descobrir as leis da sociedade” (p. 32). Com precursores como Bacon, Vico e Montesquieu, o campo das ciências sociais começou a ser estabelecido, surgindo a partir daí, inclusive, uma metodologia própria para o estudo do ser humano. A partir disso, Santos fala da crise do paradigma dominante. Citando a teoria da relatividade de Einstein, a mecânica quântica, questionando a matemática como disciplina absoluta e ainda a ligação entre elementos das ciências naturais e sociais entre si, Santos aponta para uma ruptura daquilo que se entende por modelo dominante da ciência, apontando para discussões do próprio conhecimento científico. Por volta do século XX, o que se percebe é um modelo no qual ciências naturais e sociais tendem a convergir, sendo guiadas então para a transdiciplinaridade. Diante disso, Santos propõem que está emergindo um novo modelo, passível de aproximação com as humanidades, mesmo que as próprias ciências sociais tenham, em um primeiro momento, se baseado na metodologia das ciências naturais. O modelo hegemônico e totalitário de que apenas os meios das ciências naturais são absolutos é então questionado. Santos coloca que o paradigma emergente seria “um conhecimento prudente para uma vida decente”, incluindo o conhecimento propriamente dito e ainda as questões sociais. Quatro princípios surgem então para complementar essa proposta: 1) todo conhecimento científico-natural é um conhecimento científico-social; 2) todo conhecimento se denomina local e total; 3) todo conhecimento pode se dizer que é um autoconhecimento; e por fim 4) todo conhecimento científico se constrói a partir de um senso comum. O primeiro está intimamente ligado a quebra da barreira entre o conhecimento natural e o conhecimento social, para que as duas não se unam, mas se completem e promovam um conhecimento interdisciplinar. O segundo, leva em consideração que um mesmo conhecimento para ser construído leva em conta vários estilos e uma “pluralidade metodológica”, de forma que o olhar para a pesquisa precisar partir de várias perspectivas. O terceiro, por sua vez, propõe que não se separe o sujeito pesquisador do objeto pesquisado, já que a questão da neutralidade, distância ou superioridade não
  3. 3. faz mais sentido no modelo emergente. A questão é que o pesquisador, de uma forma ou de outra, acaba interferindo no objeto, seja ele das ciências naturais ou sociais, e dessa forma estabelece uma relação entre ambos. Por fim, o quarto princípio defende que é necessário existir uma reaproximação do conhecimento científico com o senso comum e, consequentemente, com o modo de viver. Santos defende que todos os conhecimentos científicos são socialmente construídos, e o paradigma emergente precisa estar aberto a contribuição de conhecimentos de diversas áreas. O autor defende que estamos passando por uma transição para a ciência pós-moderna. ECO, Umberto. Como se faz uma tese. 23. ed. São Paulo: Perspectiva, 2010. Umberto Eco é italiano, conhecido internacionalmente por suas obras publicadas em diversas temáticas. É escritor, filósofo, semioticista, crítico e romancista. Apresenta a obra “como se faz uma tese” enquanto professor, dirigindo- a aos estudantes que necessitam de auxilio para fazer a pesquisa e escrever a sua tese na universidade. Aponta que o livro, é, sobretudo aos estudantes que se encontram em situação difícil, seja porque tem pouco tempo para estudar, porque ainda não estabeleceu afinidade com um professor orientador ou ainda dificuldade em estabelecer um tema de pesquisa. “Como se faz uma tese” está estruturado em capítulos que, no decorrer da leitura, vão dando a clara ideia do caminho a percorrer para escrever um trabalho científico. Dessa forma, o autor apresenta temáticas como a utilidade da tese, como escolher a temática, o caminho da pesquisa até a redação, passando pelo levantamento bibliográfico, fichamento e estabelecendo inclusive um plano de trabalho. O autor afirma que a tese pode recuperar o sentido positivo do estudo, e que é possível sim fazer um trabalho digno, mesmo estando em situação difícil. Mas para tanto, a que se tomar alguns cuidados, como por exemplo, o acesso as fontes de consulta e que o estudante tenha afinidade com a temática.
  4. 4. Eco apresenta também, que uma tese pode ser monográfica ou panorâmica, ou seja, mais específica ou mais abrangente. No entanto, faz uma ressalva: “quanto mais se restringe o campo, melhor e com mais segurança se trabalha”. (p. 10). Outro dado importante apontado por Eco é quanto à utilização de fontes de pesquisa, que podem ser de primeira ou segunda mão. As primeiras são consideradas as obras originais, enquanto as segundas, resumos e obras escritas sobre as originais. Ainda sobre a pesquisa, o autor frisa a importância do conhecimento de idiomas, principalmente quando da necessidade de utilizar obras originais na confecção do trabalho, e não as traduzidas, que podem desviar alguns conceitos e interpretações importantes à confecção da tese. Salienta-se, no entanto, que esse fator será determinante a depender do tema e da metodologia empregados na construção da tese, sendo em alguns casos não necessário e não oferecendo prejuízo o fato de ler traduções ou ainda fontes de segunda mão. Umberto Eco se detém também em questões de orientação no estilo da confecção do trabalho, tanto em aspectos de diagramação, quanto da formatação de citações e referências bibliográficas. * * * Enquanto Boaventura de Sousa Santos faz um discurso sobre e entre as ciências, Umberto Eco apresenta uma obra mais voltada para as ciências humanas e sociais. No entanto, é possível estabelecer algumas reflexões relacionando os dois livros, pois ambos tratam de conhecimento científico. A começar pelo rigor que uma pesquisa científica exige, voltamos a discussão apresentada por Santos sobre a metodologia empregada pelas ciências naturais e tida por muito tempo como absoluta e totalitária. Eco afirma que a quantificação pode virar fetiche, ou seja, de que adianta ter dados absolutos, matemática, tabelas, se elas não forem relacionadas ou explicarem a realidade? A interpretação dos fenômenos tem tal importância quanto a sua prova, logo nos aproximamos do que Santos defende como uma convergência das ciências naturais e sociais. A metodologia empregada nas ciências sociais não carece, portanto, de rigor científico. A depender da área – direito, letras, filosofia, educação, etc. – a de se usar um ou outro caminho para se chegar ao que se pretende estudar, mas este precisa garantir que a pesquisa seja original ou que seus resultados gerem um
  5. 5. conhecimento novo acerca de algo até então não pensado daquela forma. Isso exige, naturalmente, a sistematização das ideias, o levantamento de fontes e seu tratamento adequado mediante o objeto de estudo. Eco afirma que um trabalho científico deve acrescentar algo a sociedade, ser útil e indispensável, o que vai de encontro ao quarto princípio colocado por Santos, que defende a reaproximação da ciência e do senso comum. Trata-se, como bem afirma Eco, de possuir uma pergunta que precisa ser respondida, e mesmo que o autor refira essa afirmação às teses das áreas sociais, é possível também entender que o mesmo acontece com as ciências naturais e exatas: precisa-se de algo para resolver, de um problema de pesquisa. O conhecimento científico, a luz de ciências sociais ou naturais, move o debate na academia e na sociedade, impulsiona novos estudos, define novos modos de pensar e de fazer, e no final das contas, como defende Santos, deveria traduzir- se em sabedoria de vida.

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