Emmi e Leo
A sétima ond@
Nos assuntos do coração,
é importante esperar pelo momento certo...
Daniel Glattauer
Digitalizão: Carlotta e Rah
Revisão: Carlotta, Rah e Samantha.
Formatação: Books_Dreams
OBS.
O livro digitalizado é a ediç...
1
Capítulo 1
Três semanas depois
Assunto: Olá
Olá.
Dez segundos depois
FW:
ATENÇÃO. O ENDEREÇO DE E-MAIL FOI ALTERADO. O
D...
2
Assunto: Pergunta
Boa noite, senhor Administrador do Sistema. Como está? Março está frio,
não acha? Mas nós não podemos ...
3
OUTRA MULHER QUE NUNCA TENHA VISTO. Isso não, por favor! Isso só
pode ter acontecido uma vez. Preciso desta certeza para...
4
Emmi, te desejo... Meu Deus, o que posso te desejar depois de tanto tempo?
Tudo parece demasiado banal. Apesar de estar ...
5
P.P.S.: Obrigada por ter prestado atenção em mim, mais uma vez. Agora
pode voltar a me enviar o seu simpático Administra...
6
Leo «não podíamos avançar mais» Leike. Dou-me por satisfeita, pois quer
manter a memória de mim e do «nosso caso». Para ...
7
40 segundos depois
RE:
Querido Leo, é por isso que gosto tanto de você! Desculpa a minha falta
de ação. Sinto-me tão fra...
8
Capítulo 2
No dia seguinte
Assunto: Muito bem
Vamos nos encontrar.
Três minutos depois
RE:
Um homem, duas palavras! Exce...
9
40 segundos depois
FW:
Porque você quer.
30 segundos depois
RE:
E porque quer acabar com isto.
Dois minutos depois
FW:
P...
10
Um minuto depois
RE:
Leo, você ainda sente alguma coisa quando me escreve? Tenho a
sensação de que já não sente mais na...
11
No dia seguinte
Assunto: Direta ao objetivo
Olá, Leo, vamos acabar com isso: posso no sábado às 14 horas. Tenho que
lhe...
12
Assunto: Sem motivo
Ainda tem alguma luz acesa? (Não tem de responder. Só perguntei a
mim mesma. E se me pergunto isso,...
13
Boston e erguer uma barreira no armário de sentimentos criado por ele para a
Emmi, me encontre e se sente para podermos...
14
«agilidade motora», mas omite «frenética» e «nervosa». Não gosta muito dessas
características em você. Bem querida Emmi...
15
Oito minutos depois
FW:
E vamos falar sobre o que? Não sobram muitas possibilidades.
15 minutos depois
RE:
Leo, penso q...
16
Sim, agora lhe entendo, se expressou de forma clara. No que se refere a
«nós», para você tudo se resumia sempre e até h...
17
Então foi um carro de dois andares, ou um planador. Pelo ponto de vista
de hoje, é totalmente indiferente.
Dorme bem!
S...
18
Um minuto depois
FW:
Vinte e cinco.
Um minuto depois
RE:
Vinte e quatro.
40 segundos depois
FW:
E dessa vez vem mesmo!
...
19
30 segundos depois
FW:
Mas não tem que estar. Quando alguém me vê pela primeira vez sou
uma pessoa comum, que causa pou...
20
Capítulo 3
Na tarde do mesmo dia
Sem assunto
Obrigado, Emmi.
Leo
Na manhã do dia seguinte
Sem assunto
Não tem nada que ...
21
Dorme bem.
Emmi
Três minutos depois
FW:
Como é que duas Emmis idênticas podem escrever e falar num tom tão
diferente?
5...
22
Nenhuma das tuas expectativas se cumpriu, querida Emmi. Por isso,
no que se refere ao capítulo Leo, está de certa forma...
23
reservada (Por prevenção, deixei a melancolia no guarda-roupa e foi
bom assim.)
4) Te dou parabéns, Leo, por quase não ...
24
30 segundos depois
RE:
Estou. Sim. Claro. Com certeza. Porque pergunta?
40 segundos depois
FW:
Bem, apenas por interess...
25
40 segundos depois
RE:
Devo te responder com sinceridade e de forma «bastante pessoal»?
20 segundos depois
FW:
Deve.
30...
26
Capítulo 4
Quatro semanas depois
Assunto: Olá Emmi!
Olá, Emmi, por acaso passou ontem à noite com o planador pelo
apart...
27
Obrigado, Emmi. Mas, infelizmente, a felicidade não se constrói com
e-mails.
Um minuto depois
RE:
Então com o quê? Com ...
28
RE:
Bem, Leo, essa seria a tua forma de perguntar. Bem sabe que gosto de
chamar as coisas pelos nomes. Aqui vai: Como f...
29
RE:
Está bem, tem razão. Não gosto dela porque, em primeiro lugar, não a
conheço e por isso é mais fácil para mim; em s...
30
de você. Não queria nada. Não queria te ver. Para quê afinal? Você tem o
Bernhard e as crianças. E eu tenho a Pamela. Q...
31
Leo, quero me encontrar mais uma vez contigo. Mais um café. Apenas
um café num café. Mais nada. Diz sim. Podemos fazer ...
32
Leo, me diz por favor que queria ultrapassar os seus limites na tentativa
de fazer piadas de mau gosto. Se responder já...
33
Capítulo 5
Na noite seguinte
Assunto: Teste
Olá, Emmi, você recebeu esta mensagem?
Leo
30minutos depois
RE:
Sim, recebi...
34
Dorme bem, minha querida.
Na manhã seguinte
Assunto: A tua pergunta
Bom dia, Emmi. Acabei de falar ao telefone com um t...
35
30 segundos depois
RE:
Sim.
40 segundos depois
FW:
O quê?
50 segundos depois
RE:
Quero você (para um novo encontro no c...
36
20 segundos depois
FW:
Sim. Abre parêntesis. Ponto de exclamação. Ponto de exclamação. Fecha
parêntesis. Às três.
37
Capítulo 6
Por volta da meia-noite
Assunto: Você
Querido Leo, dessa vez agradeço eu (em primeiro lugar). Obrigada pela
...
38
50 minutos depois
Assunto: Três uísques e eu
Querido Leo, ainda ficamos acordados durante um bocadinho e
conversamos so...
39
Desculpa, Leo, tem razão, a frase soa um bocado tola. Se tivesse sido você
a escrevê-la, eu teria te criticado. O e-mai...
40
Três minutos depois
RE:
Acabou de responder à tua pergunta: «O que posso fazer por você?»
Acaricia o ponto em que te to...
41
Mas, já não é «um grande amor». Talvez nunca tenha sido. Mas
ficávamos muito contentes por encená-lo, por simulá-lo mut...
42
FW:
De qualquer forma, é demasiado jovem para já ter o cuidado para um dia
não te faltar o ar sob esse corpete justo, m...
43
Dois minutos depois
FW:
Reservas do vazio. Não vou conseguir senti-las, minha querida.
50 segundos depois
RE:
Você não ...
44
(e se a tecnologia tiver más intenções, estará presente a qualquer momento na
minha caixa de correio eletrônico): ATENÇ...
45
Capítulo 7
Na noite seguinte
Assunto:Leo?
Leo?
Na manhã seguinte
Assunto: Chamada de despertar
Leo?
Leo eo eo eo eo eo ...
46
Por favor, Emmi, é preferível falarmos sobre isto com calma num dos
próximos dias! Agora não pense muito nisso e vá dor...
47
Leo, começo a ficar preocupada contigo. Está com febre? Está delirando
com as tuas fantasias? Por que motivo falaria co...
48
E aí vai o pedido: Sr. Leike, encontre-se com minha mulher! Por favor, faça isso
de uma vez, de modo que termine essa a...
49
mim e às crianças de uma forma ilimitada, queria ser parte de nosso mundo, uma parte
importante, uma parte decisiva, um...
50
deles. E aí eu vejo os e-mails que ela lhe escreveu. E de repente percebo quão grande seu
desejo pode ser, quando ele é...
51
Capítulo 8
Três dias depois
Assunto: Emmi?
(Não estou à espera de uma resposta a esta pergunta. Só quero te dizer
que a...
52
Três minutos depois
FW:
EMMI!!! OBRIGADO!!!
Como está? Por favor, me diga! Ao monitor Não penso em mais nada.
Tinha que...
53
FW:
Tenho uísque. A garrafa está quase cheia. É suficiente? Emmi, por acaso
não quer me dizer qual é o seu estado de es...
54
com metade dos meus sentimentos. Ontem o fizeste brilhantemente, face à
situação tensa. Cama dividida — meia cama. Dor ...
55
Capítulo 9
Três meses depois
Assunto: Sim, eu
Olá, Leo. A enfermeira diplomada da minha psique afetada é da opinião
que...
56
citações preferidas do Leo. Quando te imagino a dizê-lo, está sempre
completamente embriagado.) Posso te confessar uma ...
57
Na manhã seguinte
Assunto: Boa escolha!
Foi a melhor escolha, Leo! Conseguiu descrever, justificar e organizar de
forma...
58
3) Porque a minha terapeuta disse que me fazia bem, e ela deve saber,
porque estudou.
4) Porque estava curiosa por sabe...
59
últimos meses, infelizmente com um atraso de alguns anos. Em primeiro lugar,
olhamos para trás da fachada da nossa rela...
Emmi e leo- A sétima onda (@mor - livro2) - daniel glattauer
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Emmi e leo- A sétima onda (@mor - livro2) - daniel glattauer

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«Pensas que não te vejo, que não te sinto. Engano. Puro engano. Quando te escrevo, seguro-te bem junto a mim.»

Emmi e Leo são os protagonistas de um amor virtual apaixonante, que passou por todo o tipo de emoções, menos a de um encontro físico. A relação, iniciada no irresistível Quando sopra o vento norte, parece ter chegado a um impasse. Leo decide partir para os EUA, renunciando a um amor impossível.
Quando regressa, longos meses depois, o encontro entre ambos concretiza-se. Mas Emmi continua casada e Leo tem em Pamela o amor estável com que sempre sonhara.
Só que, na verdade, os dois amantes nunca estiveram mais apaixonados. Conseguirão eles, por fim, vencer o destino que parece teimar em separá-los?

(O livro Quando sopra o vento norte saiu no Brasil como @mor)

Publicada em: Diversão e humor
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Emmi e leo- A sétima onda (@mor - livro2) - daniel glattauer

  1. 1. Emmi e Leo A sétima ond@ Nos assuntos do coração, é importante esperar pelo momento certo... Daniel Glattauer
  2. 2. Digitalizão: Carlotta e Rah Revisão: Carlotta, Rah e Samantha. Formatação: Books_Dreams OBS. O livro digitalizado é a edição publicada em Portugal. Tentamos “abrasileirar” o máximo que pudemos, mas se encontrarem expressões estranhas, é porque o português de Portugal não é de todo igual ao nosso, e algumas gírias são um pouco estranhas. BOA LEITURA!
  3. 3. 1 Capítulo 1 Três semanas depois Assunto: Olá Olá. Dez segundos depois FW: ATENÇÃO. O ENDEREÇO DE E-MAIL FOI ALTERADO. O DESTINATÁRIO JÁ NÃO TEM ACESSO AS MENSAGENS NESTE ENDEREÇO. OS NOVOS E-MAILS NA CAIXA DE ENTRADA SERÃO AUTOMATICAMENTE ELIMINADOS. PARA MAIS INFORMAÇÕES, CONTACTE O ADMINISTRADOR DO SISTEMA. Meio ano depois Sem assunto Olá! Dez segundos depois FW: ATENÇÃO. O ENDEREÇO DE E-MAIL FOI ALTERADO. O DESTINATÁRIO JÁ NÃO TEM ACESSO AS MENSAGENS NESTE ENDEREÇO. OS NOVOS E-MAILS NA CAIXA DE ENTRADA SERÃO AUTOMATICAMENTE ELIMINADOS. PARA MAIS INFORMAÇÕES, CONTACTE O ADMINISTRADOR DO SISTEMA. 30 segundos depois RE: Isto nunca mais acaba? Dez segundos depois FW: ATENÇÃO. O ENDEREÇO DE E-MAIL FOI ALTERADO. O DESTINATÁRIO JÁ NÃO TEM ACESSO AS MENSAGENS NESTE ENDEREÇO. OS NOVOS E-MAILS NA CAIXA DE ENTRADA SERÃO AUTOMATICAMENTE ELIMINADOS. PARA MAIS INFORMAÇÕES, CONTACTE O ADMINISTRADOR DO SISTEMA. Três dias depois
  4. 4. 2 Assunto: Pergunta Boa noite, senhor Administrador do Sistema. Como está? Março está frio, não acha? Mas nós não podemos nos queixar depois do inverno ameno que tivemos. Ah, a propósito: tenho uma pergunta. Temos um amigo em comum. Chame-se Leo Leike. Infelizmente perdi o atual endereço de e-mail dele. Não terá a amabilidade de me fazer o favor... Obrigada. Com alegre amabilidade virtual, Emmi Rothner Dez segundos depois FW: ATENÇÃO. O ENDEREÇO DE E-MAIL FOI ALTERADO. O DESTINATÁRIO JÁ NÃO TEM ACESSO AS MENSAGENS NESTE ENDEREÇO. OS NOVOS E-MAILS NA CAIXA DE ENTRADA SERÃO AUTOMATICAMENTE ELIMINADOS. PARA MAIS INFORMAÇÕES, CONTACTE O ADMINISTRADOR DO SISTEMA. 30 segundos depois RE: Posso fazer-lhe uma pequena crítica? Você é um bocadinho monótono. Um bom trabalho noturno. Emmi Rothner Dez segundos depois FW: ATENÇÃO. O ENDEREÇO DE E-MAIL FOI ALTERADO. O DESTINATÁRIO JÁ NÃO TEM ACESSO AS MENSAGENS NESTE ENDEREÇO. OS NOVOS E-MAILS NA CAIXA DE ENTRADA SERÃO AUTOMATICAMENTE ELIMINADOS. PARA MAIS INFORMAÇÕES, CONTACTE O ADMINISTRADOR DO SISTEMA. Quatro dias depois Assunto: Apenas três perguntas Senhor Administrador do Sistema, sendo sincera, estou desesperada. Preciso do endereço atual do Senhor «Utilizador» Leo Leike, preciso mesmo! Tenho de lhe fazer três perguntas URGENTEMENTE: 1) Ainda está vivo? 2) Ainda mora em Boston 3) Já tem um novo relacionamento por e-mail? Se 1) for verdade, eu lhe perdoarei 2) Mas o 3) nunca poderia lhe perdoar. Neste meio ano ele pode ter feito quinze novas tentativas com a Marlene, pode tê-la deixado ir diariamente para Boston. Pode ter-se afogado nos bancos de pelúcia de bares baratos de Boston e ter acordado todas as manhãs entre os seios de betão de uma vistosa Barbie loura, Miss Beleza de um bar qualquer de Boston. Pode ter se casado três vezes e ter tido trigêmeos de três óvulos. Só não pode ter feito uma coisa: NÃO PODE TER-SE APAIXONADO POR ESCRITO POR
  5. 5. 3 OUTRA MULHER QUE NUNCA TENHA VISTO. Isso não, por favor! Isso só pode ter acontecido uma vez. Preciso desta certeza para passar razoavelmente as noites. O vento Norte está a soprar persistentemente. Estimado Administrador do Sistema, faço uma pequena ideia do que me vai responder, mas vou pedir-lhe na mesma: saia da sombra e faça chegar a minha mensagem ao Leo Leike, com quem, garantidamente, mantém um contato próximo. E diga-lhe que pode me escrever. Bem agora tem de dizer novamente a sua lengalenga. Com os melhores cumprimentos, Emmi Rothner Dez segundos depois FW: ATENÇÃO. O ENDEREÇO DE E-MAIL FOI ALTERADO. O DESTINATÁRIO JÁ NÃO TEM ACESSO AS MENSAGENS NESTE ENDEREÇO. OS NOVOS E-MAILS NA CAIXA DE ENTRADA SERÃO AUTOMATICAMENTE ELIMINADOS. PARA MAIS INFORMAÇÕES, CONTACTE O ADMINISTRADOR DO SISTEMA. Três meses depois Assunto: Transmita, por favor Olá, Leo, tem novos inquilinos no apartamento 15? Caso você esteja em Boston, te previno: não te admires com a conta da eletricidade. Eles têm a luz acesa toda a noite. Com os votos de um bom dia e de uma boa vida. Emmi Dois minutos depois Sem assunto Olá? Um minuto depois Sem assunto Cucu, senhor administrador do Sistema, onde está? Um minuto depois Sem assunto Devo ficar preocupada ou posso ter esperança? Onze horas depois Assunto: Regresso de Boston Querida Emmi, a tua intuição é extraordinária. Estou no país há menos de uma semana. No que se refere à eletricidade: sou eu mesmo que a consumo.
  6. 6. 4 Emmi, te desejo... Meu Deus, o que posso te desejar depois de tanto tempo? Tudo parece demasiado banal. Apesar de estar cinco meses adiantado, aqui vai: Feliz natal e um Bom Ano Novo. Espero que estejas bem, pelo menos duas vezes melhor do que eu. Adieu. Leo Um dia depois Assunto: Intrigada O que foi isso? Foi alguma coisa? Se foi alguma coisa, o que quer que seja, foi o repetir de alguma coisa? Não posso acreditar. E. Três dias depois Assunto: Perplexa Leo, Leo, o que te aconteceu? Em que é que Boston te transformou? E. Um dia depois Assunto: Para concluir Querido Leo, a sensação com que me deixas há cinco dias é pior do que a que me deixou anteriormente. Contigo descobri pela primeira vez como as más sensações podem ser mesmo más. (E as boas também.) Mas esta ainda não conhecia: tornei-me inconveniente para você. Regressou de Boston, ativou o teu Outlook, está desfrutando da perspectiva de reconquistar por escrito a pátria. Já estão a chegar os primeiros e-mails entusiasmantes de assinantes do jornal equivocados. Matéria para novas aventuras espirituais com mulheres anônimas. Talvez entre elas haja uma solteira. E depois... ah, recebe correio de uma tal Emmi Rothner. O nome soa-te de certa forma familiar. Não foi a ela que quase convenceu a ir para a cama, como um encantador de serpentes virtual? A que já estava quase nos teus braços mas que, num último acesso de consciência, se manteve fatalmente longe de você. Na vertigem do desejo acabou por te escapar por um triz? Pois bem, já passaram nove meses e meio, há muito tempo que esqueceu a frustração e a mulher. É então que ela te escreve, surge na tua caixa de correio eletrônico de forma inesperada. Deseja-lhe — muito engraçado, Leo, como nos velhos tempos — no meio desta época de verão sem notícias, Feliz Natal e um Bom Ano Novo. E adeus! Ela teve a sua oportunidade. Agora há novas a pressionar. Ela incomoda, enerva. Então basta ignorar, Leo, não é? Ela já vai parar. Já está parando. Ela para, não se preocupe! P.S.: Espera que eu esteja «pelo menos duas vezes melhor do que você» Infelizmente, Leo, não sei como você está. Mas eu estou pelo menos dez vezes pior do que seria preciso para estar duas vezes melhor do que alguém. Mas claro que não tem que se preocupar com isso. Emmi.
  7. 7. 5 P.P.S.: Obrigada por ter prestado atenção em mim, mais uma vez. Agora pode voltar a me enviar o seu simpático Administrador do Sistema. Pelo menos com ele posso falar sobre o tempo sem problemas. Uma hora depois FW: Eu não devia ter respondido, querida Emmi. Agora te magoei (novamente) e não queria que isso acontecesse. NUNCA TE CONSIDERO INCONVENIENTE. Sabe isso. Caso contrário, eu seria inconveniente para mim próprio, porque você faz parte de mim. Te trago sempre comigo, a atravessar todos os continentes e todos os cenários de sentimentos, como ideal de desejo, ilusão da perfeição, conceito de amor supremo. Foi assim que esteve quase dez meses em Boston comigo, e foi assim que regressou comigo para casa. Mas, Emmi, a minha vida física, entretanto prosseguiu, tinha de prosseguir. Queria construir algo para mim. Conheci uma pessoa em Boston. Ainda é muito cedo para falar, você sabe sobre o quê. Mas queremos experimentar estar um com o outro. Ela tem um trabalho em perspectiva aqui e talvez se mude para cá. Naquela noite de pesadelo, quando o nosso «primeiro e último encontro» falhou de forma deplorável, terminei brutalmente a nossa relação virtual. Você tinha tomado uma decisão, mesmo que se recusasse a admiti-la até à última, e eu te ajudei a concretizá-la. Não sei qual é hoje a tua situação com o Bernhard, com a tua família. Também não quero saber, porque não tem nada a ver conosco. Para mim foi necessária a longa pausa sem contato. (Talvez nunca devesse tê-la terminado). Foi necessária para conservar a nossa experiência única, para manter o nosso «não-encontro» íntimo durante toda a vida. O levamos até ao limite. Não podíamos avançar mais. Também não existe continuação, muito menos nove meses mais tarde. Por favor, encara-o também desta forma, Emmi! Vamos conservar aquilo que aconteceu e deixar que fique assim, senão destruímos tudo. O teu Leo. Dez minutos depois RE: Leo, isso foi um raio de luz, um docinho, dentro de pouco tempo estará na sua melhor forma! «Emmi você é a ilusão da perfeição, mas não quero ter mais nada a ver contigo.» Compreende. Compreende. Compreende. Amanhã há mais. Lamento, mas não posso te poupar disso. Dorme bem, A tua ilusão da perfeição. No dia seguinte Assunto: Despedida digna Está bem, vou conservar aquilo que aconteceu. Vou deixar como está. Não vou destruir nada. Respeito a sua posição, querido ex-amigo dos e-mails,
  8. 8. 6 Leo «não podíamos avançar mais» Leike. Dou-me por satisfeita, pois quer manter a memória de mim e do «nosso caso». Para uma «ilusão da perfeição», na verdade sinto-me bastante imperfeita e muito desiludida, mas ainda assim sou o teu «maior conceito de amor», apesar de ser manifestamente de outro mundo. Com a Cindy de Boston (seguramente que se chama Cindy, estou mesmo a ver como ela te sussurrou ao ouvido «I´m Cindy [risinhos], but you can call me Cinderella [risinhos]»), bem, com a Cindy talvez não se encontre os pensamentos mais elevados, mas sim os conceitos terrenos do amor. Pode-se encontrar estes conceitos e pode-se sobretudo vivê-los. Levas-me contigo — pelo equilíbrio natural entre o corpo e o espírito — como «ideal de desejo», e claro que compreendo perfeitamente que tenha de ter atenção para que eu não seja um fardo demasiado para você, para não quebrar a sua imagem de desejo. Muito bem, Leo, vou tornar as coisas mais fáceis para «nós», vou facilitar a sua vida, vou facilitar a minha vida: vou parar, vou me retirar da sua vida. Não te escreverei (agora mesmo) mais e-mails. Te prometo. O teu «ideal de desejo» pode expressar apenas um único e derradeiro desejo? — APENAS UMA HORA, uma hora frente a frente. Acredita, não existe um meio de conservação melhor para aquilo que vivemos em conjunto, uma vez que o único final razoável par um «não-encontro» íntimo é o encontro. Não lhe peço nada, não espero nada de você. Só preciso ter lhe visto, falado contigo, ter te cheirado, uma vez na minha vida. Só preciso ter observado a forma como os seus lábios proferem «Emmi». Só preciso ter olhado para os teus cílios e a forma como fazem uma vênia antes de a cortina descer. Querido Leo, você tem razão, não existe uma continuação com sentido para nós. Mas existe uma despedida digna. É só o que peço, apenas isso! A tua ilusão da perfeição. Três horas depois FW: Pamela. Um minuto depois RE: ??? 30 segundos depois FW: Ela não se chama Cindy, chama-se Pamela. Sim, eu sei, não soa nada bem. É sempre perigoso quando é o pai a decidir o nome da filha. Mas o aspecto dela é bastante diferente, a sério. Dorme bem, Emmi. Leo.
  9. 9. 7 40 segundos depois RE: Querido Leo, é por isso que gosto tanto de você! Desculpa a minha falta de ação. Sinto-me tão fraca, tão, tão, tão fraca. Dorme bem. Emmi.
  10. 10. 8 Capítulo 2 No dia seguinte Assunto: Muito bem Vamos nos encontrar. Três minutos depois RE: Um homem, duas palavras! Excelente idéia, Leo, Onde? Uma hora depois seguinte FW: Num café. Um minuto depois RE: Com dez caminhos de fuga e cinco saídas de emergência. Cinco minutos depois FW: Proponho o seguinte: o grande café Huber. Nunca estivemos tão próximos um do outro como lá. (Quero dizer: em termos espaciais.) 40 segundos depois RE: Vai mandar novamente a sua bonita irmã para fazer a sondagem das Emmis? 50 segundos depois FW: Não, dessa vez vou sozinho, vou ter contigo de forma aberta e direta. Três minutos depois RE: Leo, a tua estranha determinação me irrita. Porque tão repentinamente? Porque você quer se encontrar comigo?
  11. 11. 9 40 segundos depois FW: Porque você quer. 30 segundos depois RE: E porque quer acabar com isto. Dois minutos depois FW: Porque quero que deixe de pensar que quer acabar com isso. 30 segundos depois RE: Leo, não fuja do assunto. Você quer acabar com isso! Um minuto depois FW: Queremos os dois acabar com isso. Queremos mesmo acabar com isso. Trata-se de uma «despedida digna». As palavras são suas, querida Emmi. 50 segundos depois RE: Mas não quero que se encontre comigo apenas para acabar com isso. Não sou a sua dentista! Um minuto e meio depois FW: Apesar de muitas vezes tocares exatamente nos nervos. EMMI, POR FAVOR! Vamos seguir em frente. Foi o seu desejo mais especifico, e foi um desejo válido. Você prometeu que não iríamos destruir o nosso «nós». Confio em você e no seu «nós» e no meu «nós» e no nosso «nós» em comum. Vamos nos encontrar frente a frente durante uma hora num café! Quando é que você pode? Sábado? Domingo? À hora do almoço? À tarde? Três horas depois Sem assunto Hoje já não vou receber uma resposta, Emmi? Se não, dorme bem! (Se sim, dorme bem!)
  12. 12. 10 Um minuto depois RE: Leo, você ainda sente alguma coisa quando me escreve? Tenho a sensação de que já não sente mais nada. E essa sensação não é boa. Dois minutos depois FW: Emmi, tenho muitos armários e baús cheios de sentimentos por você dentro de mim. Mas também tenho as chaves certas para eles. 40 segundos depois RE: Por acaso a chave vem de Boston e chama-se «Pamela»? 50 segundos depois FW: Não, a chave é internacional e chama-se «razão». 30 segundos depois RE: Mas, no seu caso, ela só roda num sentido. Ela só existe para fechar. E no interior dos armários os sentimentos se sufocam. 40 segundos depois FW: A minha razão zela sempre para que os meus sentimentos recebam ar suficiente. 30 segundos depois RE: Mas não podem sair para fora. Nunca são livres. Leo, te digo que tens uma casa de sentimentos limitada. Você tem de trabalhar isso. Bem, por hoje me despeço (a razão me aconselha) e vou deixar atuar em mim as palavras que você disse, ou não disse, sobre o nosso encontro iminente. Dorme bem! 20 segundos depois FW: Dorme bem, Emmi!
  13. 13. 11 No dia seguinte Assunto: Direta ao objetivo Olá, Leo, vamos acabar com isso: posso no sábado às 14 horas. Tenho que lhe dizer qual é o meu aspecto físico para não ter que ficar muito tempo me procurando? Ou quer ser encontrado por mim, sentado em algum lugar aborrecido no meio das pessoas, folheando um jornal e esperando que eu vá falar com você? Com uma conversa do gênero: «Desculpe, a cadeira está livre? Por acaso você é o tal senhor Leike com o armário de sentimentos fechado? Bem, eu sou a Emmi Rothner, fico muito contente por conhecê-lo, ou por tê-lo conhecido. E... — para fechar o jornal — ... quais são as novidades no mundo?» Duas horas depois Assunto: Desculpa Leo, perdoa o meu e-mail anterior! Foi tão, tão, tão... Não foi muito simpático. Na verdade, merecia receber uma mensagem do Administrador do Sistema. Dez minutos depois FW: Qual Administrador do Sistema? 50 segundos depois RE: Bem esquece. É uma piada comigo mesma. Sábado às 14 horas está bem para você? Um minuto depois FW: Sábado às 14 horas está bem. Boa quarta-feira, querida Emmi! 40 segundos depois RE: Isso significa: «Nesta quarta-feira não conte com mais e-mails do Leo, querida Emmi.» Sete horas depois Sem assunto: Pelo menos você mantém a sua palavra! Três horas depois
  14. 14. 12 Assunto: Sem motivo Ainda tem alguma luz acesa? (Não tem de responder. Só perguntei a mim mesma. E se me pergunto isso, também posso perguntar a você, não é?) Três minutos depois FW: Antes que dê a resposta errada, Emmi: sim, a luz ainda está acesa. Dorme bem! Um minuto depois RE: O que está fazendo? Dorme bem. 50 segundos depois FW: Estou escrevendo. Dorme bem. 40 segundos depois RE: Está escrevendo para quem? À Pamela? Dorme bem. 30 segundos depois FW: Estou escrevendo para você! Dorme bem. 20 segundos depois FW: Dorme bem. 20 segundos depois RE: Pois, claro. Dorme bem No dia seguinte Assunto: Mais dois dias Querido Leo, esse é o último e-mail que lhe envio antes de me enviar (primeiro) um. Só lhe envio para que fique sabendo. Se não responder, nos vemos depois de amanhã às 14 horas no café. Com certeza não vou andar pelo café a vaguear com um olhar lunático à procura do Leo. Vou ficar sentada numa mesinha à parte da confusão e esperar que o homem que durante dois anos construiu e destruiu sentimentos por escrito comigo, antes de partir para
  15. 15. 13 Boston e erguer uma barreira no armário de sentimentos criado por ele para a Emmi, me encontre e se sente para podermos finalmente deixar para trás de forma graciosa a aventura psicológica. Por isso lhe peço que se esforce para me reconhecer. Como sabe, você tem três hipóteses à escolha. Se não se lembra como sua irmã me descreveu, posso lhe dar algumas pistas. (Taaaaaalvez eu ainda tenha o e-mail que você me enviou daquele tempo.) Emmi número um: baixa, cabelos curtos e escuros (no entanto, poderiam ter crescido nesse ano e meio). Jovial, «encobria uma ligeira insegurança com uma arrogância cheia de dignidade», cabeça erguida, traços do rosto delicados, agilidade motora, frenética, temperamental. Emmi número dois: alta, loira, com os seios fartos, feminina, lenta nos movimentos. Emmi número três: estatura média, morena, tímida, reservada, melancólica. Bem, penso que você será capaz de me encontrar. Escreva-me ou passa bem os dois dias que faltam, meu querido. E tenha cuidado com as tuas chaves! Emmi. Dez minutos depois FW: Querida Emmi, você fez com que fosse fácil te reconhecer, talvez mais fácil do que pretendia. Acabou de me confessar que é a Emmi número um, o que eu já calculava. Quer saber porquê? Um minuto depois RE: Claro! Adoro a sua faceta de psicólogo entusiasta nas horas livres, Leo! Assim consigo te trazer de volta à vida e te coagir a escrever e-mails num estado de absoluta comunhão de sentimentos. 15 minutos depois FW: Querida Emmi número um, taaaaaalvez eu também tenha ainda os nossos e-mails daquele tempo em que fazíamos diagnósticos um do outro à distância: no caso da «Emmi dois», ignorou os atributos indicados pela minha irmã: «muito confiante,» «segura, descontraída», «observava os homens quando passavam» e características como «pernas altas magras» e «rosto bonito». Para você só era importante mencionar os movimentos lentos e os seios fartos (com qual sempre teve problemas desde que nos conhecemos). Nota-se que não gosta muito dela, por isso não é você. O mesmo acontece com a «Emmi três». Ela não te interessa. Destaca, sobretudo, a timidez dela, um traço de caráter que deve ser totalmente estranho para você. Não mencionou a «tez exótica» dela, os seus «olhos em forma de amêndoa», o «olhar dissimulado», tudo o que nela pudesse ser interessante. Só foi generosa em relação à «Emmi um», querida Emmi um. Para você é importante mencionar que os cabelos curtos escuros poderiam ter crescido, citou que «encobria uma ligeira insegurança com uma arrogância cheia de dignidade», a «cabeça erguida» e o seu temperamento. Fala de
  16. 16. 14 «agilidade motora», mas omite «frenética» e «nervosa». Não gosta muito dessas características em você. Bem querida Emmi um, estou ansioso por encontrar o cabelo escuro, a cabeça erguida e a agilidade motora na mesa do café no sábado à tarde. Até breve, Leo. Dez minutos depois RE: Se eu soubesse como consegues ser eufórico (também a escrever) quando acredita que descobriu algo, devia ter me esforçado para ser mais transparente para você, meu querido. Contudo, te dou um conselho: é melhor contar com todas as Emmis. Quem sabe como é a vida lá fora, se reflete de forma forte ou fraca aqui dentro onde as palavras devem fazer sentido. Além disso, de nós dois foi sempre você a ter problemas com as medidas do seio feminino, meu caro. Só o fato de se falar nisto provoca em você, sem dúvida, momentos de estresse. Não consigo explicar de outra forma o motivo para estar sempre a tocar no assunto dos «seios fartos», se é que posso formular isso de forma metafórica. Até breve, Emmi. Cinco minutos depois FW: Podemos discutir isso na mesa do café. Parece que não vamos chegar a conclusão nenhuma sobre o tema «seios, sim, não, fartos, pequenos», minha querida, minha cara, minha cara querida. Dez minutos depois RE: Vamos excluir os seguintes temas de conversa do nosso encontro, por favor: 1) Seios e todas as outras partes do corpo. (Não quero falar de coisas exteriores que, de qualquer forma, conseguem se ver.) 2) «Pam» (e como ela imagina o seu futuro na «velha Europa» ao lado do Leo «Armário de Sentimentos» Leike). 3) Todos os assuntos privados do Leo Leike que não digam respeito à Emmi. 4) E também todos os assuntos privados da Emmi Rothner que não digam respeito ao Leo Leike. Na hora que passarmos juntos não devemos falar de nada de ninguém alem de nós, por favor, por favor, por favor. Podemos fazer isto?
  17. 17. 15 Oito minutos depois FW: E vamos falar sobre o que? Não sobram muitas possibilidades. 15 minutos depois RE: Leo, penso que está ficando com medo novamente, com o seu medo crônico adormecido de tocar na Emmi. Gostaria muito de poder abordar o tema dos «seios grandes», estou correta? Sobre o que iremos falar? Para mim é indiferente. Falemos de experiências da nossa infância. Não vou prestar atenção à forma e conteúdo das suas palavras, apenas ao modo como as profere. Leo, quero TE VER falar. Quero TE VER enquanto te ouço. Quero TE VER respirar. Depois desse tempo todo quero passar finalmente, sim finalmente, uma hora podendo TE VER de forma mais próxima, intima, auspiciosa, contida, incessante, decomposta, realizada e como uma virtualidade por realizar, nada mais do que isso. Sete minutos depois FW: Espero que não fique desiludida por VER uma pessoa especialmente emocionante quando fala, nem quando ouve e nem quando respira (estou congestionado). Mas foi você quem quis, desejou este encontro. Três horas depois Assunto: ??? Disse (outra vez) alguma coisa errada? Boa noite. Leo No dia seguinte Assunto: Medo Bom dia, Emmi. Tenho medo. Tenho medo que se perca de uma vez o significado que eu tinha para você (e que talvez ainda tenha em parte) depois de me ver. Acredito que as minhas palavras se leiam melhor no monitor do que se revelam no meu rosto ao falar. Talvez fique chocada com a pessoa que passou dois anos desperdiçando pensamentos e sentimentos e de que forma. Foi isso que quis dizer quando ontem escrevi: «Mas foi você que quis, que desejou este encontro.» Espero que me entenda agora. Se não me responder: até amanhã. Cinco horas depois RE:
  18. 18. 16 Sim, agora lhe entendo, se expressou de forma clara. No que se refere a «nós», para você tudo se resumia sempre e até hoje a importância que VOCÊ poderia ter para MIM. Com isso, se esquece da importância que EU tenho para VOCÊ. Isto significa que tem muita importância para mim e eu tenho algum para você. Se você tiver pouca importância para mim, eu não tenho nenhuma para você. É claro que para você, nesse caso, sou dispensável fisicamente e não precisa se encontrar comigo e é por isso que o seu entusiasmo se mantém dentro de certos limites, por ser forçado a fazer isto. Quem EU sou, e aquilo que EU sou realmente, não te interessava nem minimamente. Mas, Leo, no que se refere ao seu medo, posso lhe sossegar: a importância que tem para mim está prestes a se perder mesmo antes do encontro (não sei se essa frase foi perceptível). Pode ter a aparência que quiser, meu caro. Dez minutos depois FW: É melhor esquecermos o encontro, minha cara. 20 segundos depois RE: Sim, vamos esquecer. É melhor já ativar a sua mensagem de ausência, meu caro. Dez minutos depois FW: A culpa foi minha. Nunca deveria ter voltado a responder depois de vir de Boston. Um minuto depois RE: A culpa foi minha. Nunca deveria ter escrito que havia luz no apartamento 15 às três da manhã. O que eu tenho a ver com a sua luz? Além disso, para não subestimar o significado que tem para mim: naquela altura passei por lá de táxi por acaso. Dez minutos depois FW: Na realidade, você não tem nada a ver com a minha luz, mas achei bom o seu interesse em poupar a minha eletricidade. Além disso, mesmo que a nossa situação pareça não ter importância: não é possível ver do interior de um táxi se há luz ou não no 15º andar. Um minuto depois RE:
  19. 19. 17 Então foi um carro de dois andares, ou um planador. Pelo ponto de vista de hoje, é totalmente indiferente. Dorme bem! Sete horas depois FW: Se não tiver acabado de passar por acaso de avião e não tiver visto: no apartamento 15 esta noite a luz está novamente acesa. Não consigo dormir. Dez minutos depois Assunto: algo com significado Me deixa esclarecer, Emmi. 1) Aquilo que significa para mim é, no mínimo, tanto quanto eu significo para você. 2) Precisamente por ter tanto significado para mim é que tem muito significado para mim que eu tenha muito significado para você. 3) Se não significasse tanto para mim, me seria indiferente o significado que tenho para você. 4) No entanto, como para mim não me é indiferente, isto significa que significa tanto para mim que não me pode ser indiferente o significado que para você. 5) Se soubesse o significado que tem para mim, poderia compreender por que motivo não quero perder o significado que tenho para você. 6) Conclusão um: obviamente não sabia o significado que tem para mim. 7) Conclusão dois: talvez agora já saiba. 8) Estou cansado. Dorme bem. Quatro horas depois RE: Bom dia, Leo. Nunca me disse isso e penso que nunca ninguém terá dito isso a alguém. Não apenas por não se conseguir formular isso assim (de forma elaborada) uma segunda vez, mas porque quase ninguém estaria em posição de pensar de forma tão emocional. Lhe agradeço muito. Não faz ideia do significado para mim!!! Hoje às 14 horas no café? Uma hora depois FW: Hoje às 14 horas no café. Um minuto depois RE: Daqui a quatro horas e vinte e seis minutos.
  20. 20. 18 Um minuto depois FW: Vinte e cinco. Um minuto depois RE: Vinte e quatro. 40 segundos depois FW: E dessa vez vem mesmo! 50 segundos depois RE: Certamente. E você? Dois minutos depois FW: Sim, claro. Não quero perder a nossa «despedida digna». 20 minutos depois RE: Esse foi o seu último e-mail? 20 segundos depois FW: Não. E esse foi o teu? 30 segundos depois RE: Também não. Está entusiasmado? 20 segundos depois FW: Sim. E você? 25 segundos RE: Sim, muito.
  21. 21. 19 30 segundos depois FW: Mas não tem que estar. Quando alguém me vê pela primeira vez sou uma pessoa comum, que causa pouco entusiasmo. 20 segundos depois RE: Leo, é demasiado tarde para evitar os danos! Este foi o seu último e-mail? 30 segundos FW: O penúltimo, querida Emmi. 40 segundos depois RE: Este é o meu último! Até já, querido Leo. Bem-vindo ao novo território do encontro.
  22. 22. 20 Capítulo 3 Na tarde do mesmo dia Sem assunto Obrigado, Emmi. Leo Na manhã do dia seguinte Sem assunto Não tem nada que agradecer, Leo. Emmi Doze horas depois Assunto: Foi... ... assim tão mau? Duas horas depois RE: Porque pergunta, Leo? Você sabe como foi. Estava lá. Esteve durante 67 minutos sentado fisicamente à frente da sua «ilusão da perfeição», e passou no mínimo 54 minutos desse tempo sorrindo para ela. Não vou começar a enumerar o que incluiu neste sorriso, de tão abrangente que foi o programa. Também houve uma parte considerável de embaraço na situação. Mas não, não foi mau. Não foi mau de todo. Espero que você esteja melhor da garganta. Como eu disse: tome pastilhas para a tosse, de preferência com sabor de groselha. E antes de ir para a cama gargareje com chá de sálvia! Boa noite, Emmi Dez minutos depois FW: «Não foi mau de todo.» Como foi então, querida Emmi? Cinco minutos depois RE: Leo, desde quando é que você faz perguntas emocionantes? Não era o responsável pelas respostas emocionantes? Bem, se não foi mau, como foi então, Leo? Demora o tempo que quiser.
  23. 23. 21 Dorme bem. Emmi Três minutos depois FW: Como é que duas Emmis idênticas podem escrever e falar num tom tão diferente? 50 segundos depois RE: Treino intensivo, senhor psicólogo da linguagem! Agora dorme bem, bons sonhos e respira livremente. Mais uma coisa: «Obrigado, Emmi» foi fraco, querido Leo. Muito fraco. Muito abaixo daquilo do que é capaz. Na noite do dia seguinte Assunto: O estranho Querida Emmi, há uma hora que estou a apagar fragmentos de e-mails nos quais tento descrever o que achei do nosso encontro. Não consigo organizar as minhas impressões. O que quer dizer que diga sobre você soa como algo banal, retórico, «muito abaixo daquilo de que sou capaz». Agora vou tentar de outra forma. Vou te contar o que VOCÊ achou do nosso encontro. Posso me servir, excepcionalmente da sua tabela de pontos? Então: 1) Ficou perturbada por eu ter ficado na sua frente. 2) Você ficou admirada por eu te reconhecer logo porque já sabia que eu não tinha contado com essa Emmi. 3) Pareceu estranho eu ter te dado um beijo na face como se fosse um cerimonial ensaiado entre nós durante anos. (Desviou a outra face, eu percebi.) 4) Desde o primeiro segundo teve a sensação de estar sentada diante de um estranho que alegava ser o Leo Leike, mas que não dava indicações de ser. 5) Não considerou este estranho de forma alguma desagradável. Te olhava nos olhos. Abria e fechava a boca na altura certa. Não contava histórias para se gabar. Não entrava em pânico quando surgiam as longas pausas na conversa. Não tinha mau hálito nem lhe tremiam as sobrancelhas. Era um interlocutor divertido e não era esquisito, apesar da voz rouca. No entanto, tinha que estar sempre consultando o bonito relógio verde-esmeralda, que escolheu um pulso verdadeiramente delicado, para saber durante quanto tempo mais seria forçada a fingir proximidade ou a obter uma proximidade fingida que não existia nem por sombras naquele espaço público. Não reconheceu nada em mim.Nada em mim era familiar. Nada em mim te afetou. Nada em mim te fez lembrar o escritor Leo. Nada do que havia na caixa de correio eletrônico passou para a mesa do café.
  24. 24. 22 Nenhuma das tuas expectativas se cumpriu, querida Emmi. Por isso, no que se refere ao capítulo Leo, está de certa forma não «desiludida», seria um exagero. Desencantada. Desencantada é o termo certo: «Então o Leo Leike é assim. Estou vendo. Está bem» É assim que vai pensar agora, estou correto? Uma hora depois RE: Sim, obrigada pelo elogio, querido Leo. O relógio verde é muito bonito, já o uso há muitos anos. O comprei num antiquário sérvio em Leipzig. «Funciona bem, você verá dia e noite, sempre a hora certa», prometeu ele. Na verdade, sempre que olhava para o relógio estava na hora certa. Bem, agora está novamente na hora. Com muita estima. Emmi Dez minutos depois FW: Querida Emmi, considero as tuas manobras evasivas bastante elegantes, quase coquetes. Mas você não acha que seria justo me dizer por que motivo está zangada? Seria mais fácil para mim dormir à noite, se é que você percebe. 20 minutos depois RE: Está bem, Leo. Na realidade, teria me interessado mais saber o que pensa de MIM e o que VOCÊ sentiu. Conheço um pouco melhor do que você as minhas emoções e sentimentos após o encontro. Acredite. Mas foi gentil você ter se dado ao trabalho. Dorme bem. Na noite seguinte Assunto: O ausente Querido Leo, já estou vendo que nesse momento está um pouco descontrolado a escrever. Se calhar você foi dominado pela sua descontração na mesa do café. Mas eu não quero ser desmancha-prazeres: vou te revelar como foi para VOCÊ o encontro comigo. Então: 1) Estava tão bem preparado para encarnar o Leo Leike perfeito, eloqüente, galante, confiante e tão despretensioso e digno no papel daquele que terminou a relação por e-mail, que era praticamente indiferente para você saber qual a Emmi que apareceria. 2) Te dou os parabéns, Leo, por quase não ter notado como ficou espantado por eu ter uma aparência diferente da que você pensava. 3) Te dou os parabéns, Leo, por quase não ter notado como ficou admirado por eu poder ter uma estatura média, ser morena, tímida e
  25. 25. 23 reservada (Por prevenção, deixei a melancolia no guarda-roupa e foi bom assim.) 4) Te dou parabéns, Leo, por quase não ter notado como foi difícil para você repousar as suas pupilas transparentes da cor de um rio de montanha nos meus olhos e manter o seu sorrio inofensivo, cauteloso e simpático, como quem diz, «Aceito as Emmis como forem». 5) Leo, num ranking dos cem encontros às cegas mais simpáticos, aos quais a média das Emmis entre os vinte e os sessenta daria uma segunda oportunidade — pelo menos por divertimento —, ficaria garantidamente no Top 5. (O desconto na pontuação se deve ao beijo na face, algo precipitado na sua perfeccionista casualidade. Um ponto a melhorar.) 6) Mas, é pena, é pena, é pena! Eu não sou a média das Emmis, mas sim aquela que pensava ter te conhecido, de fato, «pessoalmente», e que imaginava ter conhecido já o teu armário dos sentimentos abertos. (Por coincidência, na maior parte das vezes, as tuas garrafas de Bordéus também estavam abertas.) 7) Não, querido Leo, não te achei estranho. Não me deu oportunidade para te considerar estranho. Na realidade, nem sequer estava presente, à exceção da sua capa exterior. Você se escondeu publicamente. 8) O nosso encontro em sete palavras: eu fui tímida e você foi fechado. Uma desilusão? Sim, para ser honesta, um pouco. Os dois anos anteriores — incluindo os nove meses da tua Emmi-gração para Boston — foram um bocadinho mais ricos de conteúdo. Beijo na face. Vou me livrar da minha melancolia e tomar uma ducha. Quatro horas depois Assunto: Ah, é verdade O casaco era muito chique. O azul te fica bem. Ah, e boa viagem para Londres! (Não precisa voltar a me escrever.) Cinco minutos depois FW: Posso te fazer uma pergunta «pessoal», Emmi? 50 segundos depois RE: Bem, isso já é uma pergunta! 40 segundos depois FW: Ainda está com o Bernhard?
  26. 26. 24 30 segundos depois RE: Estou. Sim. Claro. Com certeza. Porque pergunta? 40 segundos depois FW: Bem, apenas por interesse «pessoal». 20 segundos depois RE: Em mim? 30 segundos depois FW: Nas suas circunstâncias pessoais. 50 segundos depois RE: Estou vendo. Posso te fazer também uma pergunta «pessoal», Leo? 20 segundos depois FW: Pode 20 segundos depois RE: Está arrependido de ter me visto? 30 segundos depois FW: Posso te fazer uma pergunta bastante «pessoal» a propósito disso, Emmi? 20 segundos depois RE: Pode. 30 segundos depois FW: Pensa que podia estar arrependido?
  27. 27. 25 40 segundos depois RE: Devo te responder com sinceridade e de forma «bastante pessoal»? 20 segundos depois FW: Deve. 30 segundos depois RE: Sempre pensei que não podia estar arrependido. Mas penso que se arrependeu. Dorme bem, querido escritor. 20 segundos depois FW: Desde que te vi te admiro dez vezes mais a confiança com que consegue ignorar a sua insegurança. Dorme bem, minha querida escritora. 40 segundos depois RE: Que bonito, o Leo virtual está aos poucos vindo à tona. Se alguma vez arejar o seu armário dos sentimentos, pensa na Emmi segura que ironiza a sua insegurança. 30 segundos depois RE: A «Pam» vai com você para Londres? 40 segundos depois FW: Ela já está lá. 30 segundos depois RE: Oh, que prático. Então, boa aterrissagem. Dorme bem! 20 segundos depois FW: Dorme bem, Emmi.
  28. 28. 26 Capítulo 4 Quatro semanas depois Assunto: Olá Emmi! Olá, Emmi, por acaso passou ontem à noite com o planador pelo apartamento 15 e tirou fotografias? Ou foi só um relâmpago? De qualquer modo, pensei em você e não consegui dormir. Como está? Com muita estima, Leo Cinco horas depois RE: Olá, Leo, que surpresa! Nunca pensei que, depois de um «encontro» suficientemente digerido e de um mês de silêncio, fosse capaz de me escrever. Para quem está escrevendo de fato? E em quem está pensando quando pensa em mim (já que os relâmpagos e os trovões fizerem você lembrar de mim)? Pensa no seu anterior «ideal de desejo» sem rosto e sem corpo, no teu «supremo conceito de amor», na tua «ilusão da perfeição» Ou pensa na mulher tímida com o olhar velado que estava no café? (Se responder nas próximas quatro semanas, dou mais um passo e pergunto O QUE pensa de concreto quando pensa em uma de nós.) Com muita estima, Emmi 30 minutos depois FW: Penso na Emmi que a cada meio minuto afasta mechas do cabelo imaginárias dos olhos para trás da orelha com a ponta dos dedos tão delicados, como se quisesse assim libertar o olhar do nevoeiro para finalmente as coisas de forma clara, tal como consegue descrevê-las há muito tempo. E estou sempre me questionando se esta mulher é mesmo feliz na sua vida. Dez minutos depois RE: Querido Leo, se recebesse um e-mail deste todos os dias seria a mulher mais feliz do mundo. Três minutos depois FW:
  29. 29. 27 Obrigado, Emmi. Mas, infelizmente, a felicidade não se constrói com e-mails. Um minuto depois RE: Então com o quê? Com que é que se constrói a felicidade? Me diga, gostaria muito de saber!!! Cinco minutos depois FW: Constrói-se com segurança. Convivência, coisas em comum, atenções, vivências, inspirações, idéias, crenças, desafios, objetivos. A lista está, certamente, incompleta. Três minutos depois RE: Ui, isso me parece puro estresse, me parece um decatlo moderno, uma semana desportiva dedicada à felicidade, com uma exibição das virtudes e funções que lhe são subjacentes. Prefiro receber diariamente um e-mail do Leo com uma pequena mexa imaginária de cabelo. Desejo a você uma boa noite! Que bom que ainda não me esqueceu. Um beijo na face. Emmi . No dia seguinte Assunto: pergunta Querido Leo, já sabe o que vou te perguntar! 20 minutos depois FW: Da forma decidida como colocou o ponto de exclamação, tenho uma suspeita. Um minuto depois RE: Então, Leo, o quero te perguntar? Três minutos depois FW: «Como foi em Londres?» Um minuto depois
  30. 30. 28 RE: Bem, Leo, essa seria a tua forma de perguntar. Bem sabe que gosto de chamar as coisas pelos nomes. Aqui vai: Como foram as coisas com a «Pam»? 50 segundos depois FW: Em primeiro lugar «Pam» não leva aspas. Em segundo lugar, a Pam chama-se Pamela. E terceiro lugar, a Pamela não é uma coisa! Dois minutos depois RE: Você a ama? Três horas depois Sem assunto Precisa de muito para pensar. Dez minutos depois FW: Emmi, talvez ainda seja demasiado cedo para falar disso, ou melhor, para falar sobre isso. Três minutos depois RE: Você respondeu de forma muito engenhosa, querido Leo. Agora posso escolher. O Leo quer dizer: é demasiado cedo para falar de amor? Ou quererá ter dito: é demasiado cedo para falar sobre a «Pam» com a Emmi, perdão, conversar sobre a Pamela? Cinco minutos depois FW: Seguramente, a segunda hipótese, querida Emmi. Pela tua rápida recaída em relação ao assunto «Pam», se vê perfeitamente que ainda não está preparada para conversar comigo sobre isso. Não gosta dela. Tem a sensação de que ela está te roubando o parceiro de e-mails. Estou certo? Cinco horas depois Sem assunto Agora é VOCÊ que tem de pensar durante mais tempo em como vai desfazer esta suspeita, minha querida. 15 minutos depois
  31. 31. 29 RE: Está bem, tem razão. Não gosto dela porque, em primeiro lugar, não a conheço e por isso é mais fácil para mim; em segundo lugar, porque me esforço por imaginá-la o mais horrível possível, em terceiro lugar, porque consigo; em quarto lugar: sim, porque ela está te roubando de mim, o resto de ti, o resto da escrita, a pontinha de esperança. Esperança de... de não sei o quê, apenas a esperança. Mas prometo que se você a ama, vou aprender a gostar dela. Até lá posso dizer mais umas vezes «Pam»? Não sei porquê, mas me faz bem. E o que me faz ainda melhor, meu querido, é quando você escreve «minha querida». Levo essas palavras à letra. Sim, por vezes também consigo. Dorme bem. Três minutos depois FW: Você também, minha querida. Dois dias depois Assunto: Estou escrevendo para você agora Emmmmmmmmmmi, estou bêbado. E estou só. Erro grave. Nunca se deve fazer as duas coisas. Se deve estar bêbado ou só, nunca ambos ao mesmo tempo. Erro grave. «A ama?», você perguntou. Sim, eu a amo quando está comigo. Ou digamos: eu a amaria se ela estivesse comigo. Mas ela não está comigo e eu não posso estar com ela quando ela não está comigo. Percebe, Emmi? Não posso amar sempre apenas mulheres que não estão comigo, quando eu estou com elas, quando as amo. Londres? Como foi Londres? Cinco dias de silêncio pelas saudades criadas e seis dias de medo pelas saudades posteriores. Foi assim em Londres. A Pamela que se mudar para minha casa. A chama «Pam», pode chamá-la «Pam». Só você pode! A Pamela que se mudar para minha casa. Quer viver comigo. Quer, mas será que vai fazer? Não posso viver sempre das vontades de uma mulher que amo. Quero viver com a mulher que amo. Viver e amar, ambos ao mesmo tempo. Nunca uma coisa sem a outra. Estar bêbado ou estar só, nunca as duas coisas ao mesmo tempo. Sempre uma sem a outra. Entende o que quero dizer, Emmi? Espera um pouco, vou beber mais um copo. Vinho tinto, de Bordéus, é a segunda garrafa, sabe a Emmi, como sempre. Lembras? Sabe de uma coisa, Emmi, é a única. É a única, a única, a única que... É difícil de dizer. Já estou um bocadinho bêbado. É a única que está próxima de mim mesmo não estando comigo, porque eu também estou com ela quando ela não está comigo. E tenho de te confessar mais uma coisa, Emmi. Não, não vou fazê-lo, você tem família. Tem um marido que te ama. Naquela altura traçou o caminho. Você decidiu por ele, decidiu bem. Talvez pense que te falta alguma coisa, mas não te falta nada. Tem as duas coisas, viver e amar. Eu também tenho as duas coisas: estar só e estar bêbado. Erro grave. Mas te confesso. Me obriguei mesmo, não queria gostar de você. Não queria que isso acontecesse. Não queria não gostar de você e não queria gostar
  32. 32. 30 de você. Não queria nada. Não queria te ver. Para quê afinal? Você tem o Bernhard e as crianças. E eu tenho a Pamela. Quando ela não está comigo, tenho o vinho e Bordéus. Mas agora vou te confessar uma coisa: você tem, por exemplo, um rosto maravilhoso. Parece muito mais inocente do que na forma como escreve. Não, não escreve de forma culpada, mas por vezes escreve de forma muito rígida, rígida em relação aos teus limites. O teu rosto é suave. E bonito. Não sei se é feliz ou não. Não sei, não sei, não sei. Mas deve ser. Pode viver e amar ao mesmo tempo. Estou só e estou mal. E o que tenho da Pamela, se está tão longe que deixo de sentir que ela está comigo? Me entende? Vou dormir. Mas tenho de te confessar uma coisa: ontem sonhei contigo e vi o teu verdadeiro rosto. Os seus seios me são indiferente. Seios fartos, seios pequenos, seios médio, me é indiferente. Mas não os teus olhos, nem a tua boca. E nem o teu nariz. A forma como olhou para mim, falou comigo e me cheirou. Isso não me é indiferente. E cada palavra que me escreve é agora o teu cheiro e o teu olhar e a tua boca, por assim dizer. Vou dormir. Vou te enviar o e-mail e depois vou dormir. Espero digitar na tecla certa. Está tão perto de mim, vou te dar um beijo. E agora vou dormir. Onde está a tecla? Cinco minutos depois Assunto: Te escrevi Querida Emmi, te enviei um e-mail. Espero que tenha recebido. Não, espero que não o tenha recebido. Ou espero que sim. Bem, é indiferente, é como é, quer o leia ou não. Agora vou dormir. Estou um pouco bêbado. Na noite seguinte Assunto: Você é um querido! Querido Leo, na noite passada recebi uma mensagem tua. Sabe disso? Já a leu hoje? Salvou? Se não, vou te enviá-la. É um homem amoroso! Devia se embebedar mais vezes. Quando está bêbado, é tão, tão, tão... companheiro. Emmi. Uma hora depois FW: Obrigada Emmi. Esta manhã bem cedo, de cabeça pesada e estômago vazio, descobri o que te revelei inebriado. Emmi, «posso te confessar uma coisa?» Estranhamente, não me arrependo disso. De certa forma, estou até aliviado. Disse coisas que trazia comigo há muito tempo. Estou contente por ter TE confessado estas coisas. Bem, agora vou fazer um chá de camomila. Dorme bem, minha querida. E me desculpe se exagerei. Na manhã seguinte Assunto: Segunda tentativa
  33. 33. 31 Leo, quero me encontrar mais uma vez contigo. Mais um café. Apenas um café num café. Mais nada. Diz sim. Podemos fazer melhor do que da última vez. Bom dia, meu querido. (?) Dez horas depois Assunto: Café Olá, Leo, onde está? Espero que não esteja novamente só contigo próprio num coma de vinho de Bordéus. Volto a lembrar desta manhã: vamos fazer mais uma tentativa no café, sim ou não? Eu voto a favor do «sim». E você? Em caso de empate na votação, decide quem calçar o número menor. Não me quer confessar ainda hoje qual é o seu voto (mesmo que esteja sóbrio)? Gostaria de ir para a cama com a sua resposta. Um beijo na face, Emmi, a do rosto suave. Duas horas depois Sem assunto Leo, por favor diz alguma coisa!!! Uma hora depois Sem assunto Leo, isso é mesmo necessário? Fico louca por ter de esperar respostas suas urgentes que não chegam! Escreva «sim», escreva «não», escreva «blhac», escreva qualquer coisa, mas escreva! Caso contrário, vai aterrar um planador no terraço do apartamento 15. Estou avisando! Emmi. Na manhã seguinte Assunto: Brutal Obrigada, Leo. Obrigada pela noite inesquecível. Não consegui pregar o olho. Dez segundos depois FW: ATENÇÃO. O ENDEREÇO DE E-MAIL FOI ALTERADO. O DESTINATÁRIO JÁ NÃO TEM ACESSO AS MENSAGENS NESTE ENDEREÇO. OS NOVOS E-MAILS NA CAIXA DE ENTRADA SERÃO AUTOMATICAMENTE ELIMINADOS. PARA MAIS INFORMAÇÕES, CONTACTE O ADMINISTRADOR DO SISTEMA. Três minutos depois RE:
  34. 34. 32 Leo, me diz por favor que queria ultrapassar os seus limites na tentativa de fazer piadas de mau gosto. Se responder já, ainda te perdôo este ano! Emmi. Dez segundos depois FW: ATENÇÃO. O ENDEREÇO DE E-MAIL FOI ALTERADO. O DESTINATÁRIO JÁ NÃO TEM ACESSO AS MENSAGENS NESTE ENDEREÇO. OS NOVOS E-MAILS NA CAIXA DE ENTRADA SERÃO AUTOMATICAMENTE ELIMINADOS. PARA MAIS INFORMAÇÕES, CONTACTE O ADMINISTRADOR DO SISTEMA. Um minuto depois RE: Por que está fazendo isso comigo?? Dez segundos depois FW: ATENÇÃO. O ENDEREÇO DE E-MAIL FOI ALTERADO. O DESTINATÁRIO JÁ NÃO TEM ACESSO AS MENSAGENS NESTE ENDEREÇO. OS NOVOS E-MAILS NA CAIXA DE ENTRADA SERÃO AUTOMATICAMENTE ELIMINADOS. PARA MAIS INFORMAÇÕES, CONTACTE O ADMINISTRADOR DO SISTEMA.
  35. 35. 33 Capítulo 5 Na noite seguinte Assunto: Teste Olá, Emmi, você recebeu esta mensagem? Leo 30minutos depois RE: Sim, recebi. Mas posso lhe confessar uma coisa, querido Leo? Já esteve mais próximo de mim do que nos últimos dias. O que se passa contigo? Onde esteve? O que está testando? O que tem feito? Porque me joga o administrador do sistema? Já estava pensando que tinha voltado para Boston. Dois minutos depois FW: Lamento, Emmi. Lamento muito! Aparentemente houve um erro grave informático. Desativaram inadvertidamente o meu Outlook. Talvez eu tenha deixado passar algum prazo. Há três dias que não surgem mensagens, Me escreveu? Doze minutos depois RE: Sim, Leo. Te escrevi. Te perguntei uma coisa. Esperei dois dias e meio pela sua resposta. Fiquei preocupada contigo, como nas melhores horas da sua fuga para a América. Cheguei mesmo a lhe telefonar. Não queria falar contigo, queria apenas ouvir a sua voz, mas o seu número antigo não dava sinal de chamada. Chorei por você lágrimas secas. Ri histericamente por sua causa. Pensei que o que nunca chegou começar tinha terminado pela segunda vez. Esses foram os momentos altos da minha pouco emocionante existência durante o seu grave erro informático. Como se na realidade não houvesse já motivos de separação suficientes, o sistema, que assumiu o nosso controle, acrescenta sempre mais um. É assustador o terreno em que nos movimentamos. Neste momento, estou simplesmente esgotada. Dorme bem. Que bom estar novamente aí. Bom e reconfortante. Três minutos depois FW: Querida Emmi, me dói tê-la feito sofrer, pode acreditar. Foi por um motivo de força maior; tecnologia informática. Tão depressa liga as pessoas como as separa. Contra isso somos impotentes. Perdoe-me.
  36. 36. 34 Dorme bem, minha querida. Na manhã seguinte Assunto: A tua pergunta Bom dia, Emmi. Acabei de falar ao telefone com um técnico: o «sistema» está novamente funcionando. Espero que tenha conseguido dormir. É verdade, você disse que me tinha feito uma pergunta. O queria saber? Com muita estima , Leo Uma hora depois RE: Emmi poucas palavras: Hoje às 15 horas no café? 30 minutos depois FW: Sim, mas (...). Não, sem mas. Sim! 20 minutos depois RE: Muito bem. Precisou de 30 minutos para esta cadeia casual, meu querido? APENAS trinta minutos? Posso fazer uma análise? Em primeiro lugar, um «sim» de uma confirmação aparentemente decidida. Depois uma vírgula, para o que se esperava em seguida. Depois um «mas» a representar a anunciada reserva. Em seguida, um parêntesis da arte escrita formal. Depois reticências, para uma variedade de pensamentos cheios de mistério. Depois disso, disciplina suficiente para fechar o parêntesis e embalar a confusão anônima. Em seguida, um ponto conservador para manter a ordem exterior do caos interior. De repente, um «não» desafiador a representar a aparente decisão de recusa. Novamente uma vírgula, para complementar o que estava antes. Depois um «sem» de recusa sem compromissos. Sem seguida, novamente um «mas» que se auto-anula, um «mas» que só está ali para demonstrar que já não há mais nenhum. Todas as dúvidas foram sugeridas. Nenhuma dúvida foi revelada. Todas as dúvidas foram adiadas. No final, um bravo «sim», mas (...). Não sem. Sim! É magnífica a sonoridade da sua falta de convicção. Que fascinante canto da sua tomada de decisão. Esse homem sabe exatamente que não sabe o que quer. E ele reconhece esse conhecimento como nenhum outro, passando-o as pessoas a quem diz respeito. Tudo isso nuns ridículos trinta minutos. Genial! Foi por isso que te deixaram estudar psicologia da linguagem, querido Leo. Três minutos depois FW: E você o que quer?
  37. 37. 35 30 segundos depois RE: Sim. 40 segundos depois FW: O quê? 50 segundos depois RE: Quero você (para um novo encontro no café).((Está vendo eu também domino o jogo dos parêntesis.)) 30 segundos depois FW: Para quê? Um minuto depois RE: Porque estou fazendo o mesmo que você, apesar de aparentemente só admitir a si próprio, abre parêntesis, e a mim, fecha parêntesis, quando está bêbado. 40 segundos depois FW: O quê? 30 segundos depois RE: Estou interessado em você. 40 segundos depois FW: Sim, querida Emmi. Sem mas, sem pontos, sem parêntesis. Simplesmente apenas: Sim. É verdade. Está bem claro. Estou interessado em você. Um minuto depois RE: Ótimo, querido Leo. Então, penso que estão reunidos os requisitos para um segundo encontro no café. Às três?
  38. 38. 36 20 segundos depois FW: Sim. Abre parêntesis. Ponto de exclamação. Ponto de exclamação. Fecha parêntesis. Às três.
  39. 39. 37 Capítulo 6 Por volta da meia-noite Assunto: Você Querido Leo, dessa vez agradeço eu (em primeiro lugar). Obrigada pela tarde. Obrigada por ter me deixado espreitar por uma pequena fresta o teu armário dos sentimentos. Pelo que pude ver, fiquei admirada por você ser aquilo que escreve. Leo, eu te reconheci. Voltei a te reconhecer. É o mesmo. É exatamente a mesma pessoa. É real. É real. Gosto muito de você! Dorme bem. 20 minutos depois FW: Querida Emmi, na palma da minha mão esquerda, mais ou menos no meio, onde a linha da vida curva em direção à artéria, intersectada por largas linhas em arco, se encontra um ponto. Olho para ele, mas não consigo vê-lo. Fixo-o, mas ele não se deixa agarrar. Só consigo senti-lo. Eu o sinto mesmo com os olhos fechados. Um ponto. Sinto-o com tanta força que fico tonto. Quando me concentro nele, o efeito chega aos dedos dos pés. Pica, faz cócegas, me aquece, me excita. Impulsiona o meu sistema circulatório, controla a minha pulsação e define os intervalos dos meus batimentos cardíacos. Em relação à mente, desenvolve um efeito inebriante como uma droga, aumenta a minha consciência, expande os meus horizontes. Um ponto. Eu poderia rir de alegria por me fazer tão bem. Poderia chorar de felicidade por tê-lo e por ser atingido por ele até ao mesmo ínfimo órgão. Querida Emmi, na palma da minha mão esquerda, onde se encontra o ponto, aconteceu esta tarde um contratempo, por volta das 16 horas, numa mesa de café. A minha mão quis pegar um copo de água. Ao seu encontro vieram os dedos esguios da mão macia de outra pessoa, tentaram travar, tentaram se desviar, tentaram evitar a colisão. Quase foi possível. Quase. A ponta suave de um dedo macio pousou em milésimos de segundo na palma da minha mão que ia segurar o copo de água. Daqui resultou um toque suave que eu guardei. Ninguém vai me tirá-lo. Eu te sinto. Te reconheço. Volto a te reconhecer. É a mesma. É exatamente a mesma pessoa. É real. Você é o meu ponto. Dorme bem. Dez minutos depois RE: Leo!!! Que bonito! Onde se aprende isso? Agora preciso de um uísque. Não se incomode. Vai dormir. E não se esqueça do ponto. É melhor colocar a mão fechada em volta dele. Dessa forma, fica protegido.
  40. 40. 38 50 minutos depois Assunto: Três uísques e eu Querido Leo, ainda ficamos acordados durante um bocadinho e conversamos sobre você, o profissional da Física. (Nós: três pequenos uísques e eu). Ocorreu-me e ao primeiro uísque que te esforça muito na minha presença por ser controlado no que diz respeito às palavras, gestos e olhares. Não havia necessidade, na opinião do primeiro uísque, que me conhecia bem. (Entretanto, infelizmente, foi bebido.) O segundo uísque, também desaparecido, suspeitava há muito tempo que você decidiu nunca ficar próximo de mim além da caixa de correio eletrônico e na mesa de um café bem iluminado e seguro por dezenas de testemunhas oculares. Na opinião do segundo uísque, desta vez a nossa conversa foi agradavelmente calorosa, cordial, verdadeira, pessoal, quase íntima e até meia hora mais longa do que tinha planejado. Alegadamente, teríamos boas hipóteses de manter estes encontros de domingo no café até à idade da reforma para depois jogarmos juntos Paciência ou lançarmos as cartas de Tarot, desde que os nossos companheiros participassem. (A «Pam» deve ter certamente um talento natural.) Em relação ao terceiro uísque, já um bocadinho escorregadio, questionou-se sobre os teus sentimentos físicos. (O uísque designou-os por «libido» bombástica. Eu retruquei que não seria tanto assim.) Ele quis saber se eu pensava que era realmente possível que só me achasse atraente com uma taxa de alcoolemia superior a 3,8. Com café e água não veria qualquer interesse na minha aparência. Eu contrapus: «Uísque, está muito enganado. O Leo é um homem que consegue concentrar alguns dos seus sentimentos, seja qual for a intensidade ou tipo, num único ponto no centro da palma da sua mão. De qualquer modo, é um homem a quem nunca passaria pela cabeça mostrar a uma mulher que lhe agrada ou dizer-lhe cara a cara: gosto de você! Isso para ele seria muito esquisito.» O terceiro uísque contrariou esta ideia: «Com certeza já disse isso milhares de vezes à Pamela.» Sabe o que acabei por fazer com o terceiro uísque, querido Leo? Dei cabo dele. Agora vou dormir. Bom dia! Na manhã seguinte Assunto: Então, Emmi?! Como tinha escrito no dia seguinte ao nosso encontro? Passo a citar: «΄Obrigado, Emmi΄, foi fraco. Querido Leo. Muito fraco. Muito abaixo daquilo do que é capaz.» E como te referiu ontem a noite ao nosso encontro? Passo a citar: «Com café e água não veria qualquer interesse na minha aparência.» Foi fraco, querida Emmi. Muito fraco. Muito abaixo daquilo do que é capaz. Três horas depois RE:
  41. 41. 39 Desculpa, Leo, tem razão, a frase soa um bocado tola. Se tivesse sido você a escrevê-la, eu teria te criticado. O e-mail em geral é embaraçoso. Vago sensível. Atrevido. Petulante. Tchiii! Acredita: NÃO FUI EU, FORAM OS TRÊS UÍSQUES! Estou com dores de cabeça. Vou voltar a me deitar. Tchau! Na noite seguinte Assunto: Bernhard Desculpa, Emmi. Tenho que te pedir novamente explicações (a você e aos seus uísques). Por isso te pergunto de forma seria e sem sentido de humor, de acordo com aminha disposição: Por que motivo tenho que me mostrar «interessado na sua aparência»? Por que motivo tenho que te dizer cara a cara «Gosto de você»? Por que motivo devo me aproximar mais de você do que numa mesa de café iluminada? Não pode querer que me apaixone por você «fisicamente» (ou de forma libidinosa, como mencionou o álcool)! O que ganharias com isto? Não entendo, tem que me explicar. Tem de me explicar algumas coisas, minha querida. No café voltou a esquivar-se de forma elegante. Há meses, sim, desde Boston, que é evasiva em relação a este tema. Mas agora quero saber. Sim, quero mesmo saber. Ponto de exclamação, ponto de exclamação, ponto de exclamação, ponto de exclamação. Eis a minha questão número um: Como está a tua relação? Como está com o Bernhard? Como estão as crianças? Como tem vivido? Com tem sido a sua vida? Questão número dois: Porque retomou o contato comigo em Boston? O que pensa hoje sobre as circunstâncias que levaram à nossa separação Por e- mail? Como conseguiu perdoar Bernhard? Como conseguiu me perdoar? Questão número três: O que te falta? O que posso fazer por você? O que quer fazer comigo? O que devo ser para você? Como vão ser as coisas entre nós? Vai continuar a haver alguma coisa? Até que ponto? Diga-me, por favor: ATÉ QUE PONTO? Pode demorar uns dias para responder, temos todo o tempo do mundo. Boa noite, Leo. Cinco horas depois Assunto: Impressão e marca Só mais umas palavras sobre o meu «interesse na sua aparência» inexistente ou não perceptível, querida Emmi. Organiza, por favor, os seus antigos e futuros uísques: «Gosto de você.» Estou te dizendo isto com uma taxa de alcoolemia de 0,0. Gosto de te ver. É maravilhoso olhar para você. Felizmente, posso sempre olhar para você. Não tenho apenas centenas de impressões sobre você, também tenho uma marca sua. Tenho um ponto para tocar na palma da minha mão. Consigo te observar nele. Consigo até te acariciar. Dorme bem.
  42. 42. 40 Três minutos depois RE: Acabou de responder à tua pergunta: «O que posso fazer por você?» Acaricia o ponto em que te toquei. Querido! Um minuto depois FW: Vou fazer isso. Não vou fazê-lo por você, mas sim por mim, já que só eu consigo sentir este ponto, ele me pertence, querida! 50 segundos depois RE: Está enganado, querido! A um ponto de toque pertence sempre há duas pessoas. 1) A que é tocada. 2) A que toca. Três dias depois Assunto: Questão um A Fiona vai fazer dezoito anos. No próximo ano, termina a escola. Só falo com ela em inglês e em francês para que ela possa praticar. Desde então que ela já não fala comigo. Quer ser comissária de bordo ou pianista. Eu a aconselho a combinar as duas coisas: pianista no avião, pianista voadora. Não teria concorrência. Ela é bonita, magra, tem estatura média, é loira, tem a pele clara e sardas, tal como tinha a mãe. Há meio ano «sai» com o Gregor. Sair com o Gregor significa que todas as pessoas do sexo masculino ou feminino com quem se passe as noites se chama «Gregor». Ela tem passado oficialmente todas as noites na casa dele. O pobre sabe e infelizmente não recebe nada dali. Eu pergunto: «O que fazem naquele tempo todo?» Ela ri da forma mais trocista que consegue. «Sexo» no estado insinuado continua a ser a melhor explicação para jovens que não querem dar explicações. A explicação surge por si. A Fiona não tem de dizer uma palavra. Só tem de se submeter a alguns monólogos de pedagogia sexual sobre contracepção. O Jonas tem catorze anos. Ainda é uma criança. É sensível e muito dependente. Sente falta da mãe, precisa de mim. Ele mantém a família unida, com muita firmeza e um enorme esforço. Falta-lhe energia na escola. De dois em dois dias me pergunta se eu ainda amo o pai. Leo, não faz ideia de que como ele me vê. Para ele, não há nada mais bonito do que nos ver felizes e é o nosso ponto central. Por vezes, empurra o pai para os meus braços. Quer forçar a nossa proximidade. Sente que ela está se perdendo lentamente. O Bernhard, pois, o Bernhard! O que posso dizer, Leo? Porque tenho de te dizer isto, justamente a você? Já me custa bastante a admitir para mim mesma. A nossa relação se tornou mais fria. Já não se trata de uma questão do coração, mas de uma pura disciplina mental. Não tenho nada a apontar, infelizmente. Ele nunca mostra fraquezas. É a pessoa mais bondosa e altruísta que conheço. Eu gosto dele. Estimo a sua modéstia. Aprecio a sua cortesia. O admiro pela sua calma e inteligência.
  43. 43. 41 Mas, já não é «um grande amor». Talvez nunca tenha sido. Mas ficávamos muito contentes por encená-lo, por simulá-lo mutuamente, por nos estimularmos por mostrá-lo para as crianças para que se sentissem seguros. Passados doze anos de trabalho de palco ficamos cansados dos nossos papeis de casal perfeito. O Bernhard é músico. Adora a harmonia. Precisa de harmonia. Ele vive a harmonia. NÓS a vivemos juntos. Eu tinha decidido ser uma parte do todo. Evadir-me, provoquei o colapso de tudo o que tínhamos construído. O Bernhard e as crianças já passaram uma vez por uma sutura destas. Isto eu não posso fazer. Nunca iria me perdoar. Compreende? Um dia depois Assunto: Leo? Olá querido, a conversa te afetou? Ou está esperando pacientemente pela parte da segunda e terceira questão da minha saga familiar? Cinco minutos depois FW: Fala com ele sobre isso, Emmi? Seis minutos depois RE: Não, fico calada sobre isto junto dele, Leo. Isto faz aumentar o efeito. Ambos sabemos muito bem o que se passa. Tentamos fazer o melhor. Leo, não pode pensar que sou extremamente infeliz. O meu corpete me conhece. Mantém-me firme e protege-me. Só tenho de ter atenção para que um dia não me falte o ar. Três minutos depois FW: Emmi, tem 35 anos! Cinco minutos depois RE: Trinta e cinco e meio. E o Bernhard tem 49. A Fiona tem 17. O Jonas tem 14. O Leo Leike tem 37. O Hektor, o buldogue da senhora Krämer, tem nove anos. E o Wasoljew, a pequena tartaruga da família Weibenbacher? Tenho de perguntar. Lembro-me Leo! Mas, o que você quer dizer com isso? Com 35 anos ainda não tenho idade suficiente para ser coerente? Com 35 anos ainda não tenho idade suficiente para assumir responsabilidade? Ainda não tenho idade suficiente para saber o que devo a mim mesma e às pessoas que me são queridas, o que tenho de aceitar para ser fiel a mim mesma? Quatro minutos depois
  44. 44. 42 FW: De qualquer forma, é demasiado jovem para já ter o cuidado para um dia não te faltar o ar sob esse corpete justo, minha querida. Um minuto depois RE: Desde que o Leo Leike me forneça ar fresco do exterior por e-mail e, por vezes, pessoalmente na mesa do café, não vou ficar com falta de ar. Dois minutos depois FW: Foi uma boa transição, querida Emmi. Posso te lembrar que muitas das minhas perguntas ainda estão sem resposta? Você guardou ou quer que te envie-as novamente? Três minutos depois RE: Sempre guardo tudo o me escreve, meu querido. Por hoje chega. Boa noite, Leo! É um bom ouvinte. Obrigada. No dia seguinte Assunto: Questão número três Vou manter a tua peculiar questão número dois em suspense até o fim. Prefiro saltar para o presente. O que me falta, Leo? Você. (Já antes de saber da sua existência.) O que pode fazer por mim, Leo? Estar aí. Escrever-me. Ler o que escrevo. Pensar em mim. Acariciar o ponto em que te toquei. O que quero fazer contigo, Leo? Depende da altura do dia. Sobretudo: Te ter na minha cabeça. Às vezes: Também lá embaixo. O que deve ser para mim, Leo? A pergunta é desnecessária. Você já é. Como vão ser as coisas entre nós, Leo? Vão continuar exatamente como estão até agora. Se vai continuar a ter alguma coisa? Absolutamente. Até que ponto? Até ponto nenhum. Simplesmente, continuando. Você vive a sua vida. Eu vivo a minha. O resto vivemos em conjunto. Dez minutos depois FW: Mas não sobra muito para «nós», minha querida. Três minutos depois RE: Depende de você, meu querido. Tenho grandes reservas.
  45. 45. 43 Dois minutos depois FW: Reservas do vazio. Não vou conseguir senti-las, minha querida. 50 segundos depois RE: Você não sabe o que consegue sentir, meu querido, o que consegue sentir e o que já sentiu. Não se esqueça: tem a sua disposição armários de sentimentos que pesam toneladas. Só tem de os arejar ocasionalmente. 15 minutos depois FW: O que me interessaria saber é o seguinte: os nossos dois encontros mudaram algo em você, Emmi? 40 segundos depois RE: E em você? 30 segundos depois FW: Em primeiro lugar: em você? 20 segundos depois RE: Não, em primeiro lugar: em você? Um minuto depois FW: Está bem, em primeiro lugar: em mim. Mas antes disso tem de me responder às perguntas que ainda faltam. É uma proposta justa, minha querida. Quatro minutos depois Assunto: Questão número dois Muito bem. Vamos a isto: 1) Porque retomei o contato contigo depois de Boston? Porquê? Porque os três trimestres «Boston» foram os piores desde a divisão oficial dos anos em quatro trimestres. Porque o homem das palavras tinha escapado da minha vida sem dizer uma palavra. Foi uma covardia utilizar a porta dos fundos da caixa de mensagens enviadas, encerrada com a mensagem mais terrível da comunicação atual. A frase está presente até hoje nos meus sonhos
  46. 46. 44 (e se a tecnologia tiver más intenções, estará presente a qualquer momento na minha caixa de correio eletrônico): ATENÇÃO O ENDEREÇO DE E-MAIL FOI ALTERADO, blá, blá, blá. Leo, a nossa «história» ainda não tinha terminado. A fuga nunca é o destino final, apenas um adiamento deste. Você sabe isso muito bem, caso contrário não me teria respondido nove meses e meio depois. 2) O que penso sobre as circunstâncias que levaram à nossa separação por e-mail? Leo, que pergunta é essa? Que circunstâncias seriam essas? As coisas comigo tornaram-se demais para você, demais ou de menos. De menos para o seu investimento emocional, as suas tarefas de ilusionismo. De mais para os lucros práticos, os seus reais rendimentos. A empresa Emmi já não era rentável. Perdeu a paciência em relação a mim. Essas, querido Leo, foram as circunstâncias que conduziram à nossa separação por e-mail. 3) Agora, algo intrigante: Como é que eu poderia perdoar o Bernhard? Leo, já li esta pergunta, no mínimo, vinte vezes. Não a entendo, sério que não. O QUE teria eu a perdoar ao Bernhard? O fato de ser meu marido? O fato de estar no meio do nosso amor por e-mail? Por ter forçado a sua fuga graças à sua existência? Leo, qual é o objetivo da sua pergunta? Tem que me explicar. 4) Bem, para terminar: Como é que poderia te perdoar? Oh, Leo. Eu sou influenciável. Bastam-me os teus bonitos e-mails para te perdoar tudo, inclusive os nove meses de pausa dramática. Aí está. Dez minutos depois Sem assunto Bem, meu querido, agora vai me dizer se mudou alguma coisa em você com os nossos encontros. (E, claro, o quê.) Um beijo na face e uma carícia no ponto da palma da mão, Emmi.
  47. 47. 45 Capítulo 7 Na noite seguinte Assunto:Leo? Leo? Na manhã seguinte Assunto: Chamada de despertar Leo? Leo eo eo eo eo eo eo eeeeeeeeooooooooo?? Le e e e e e e e e eeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeoooooooo? Onze horas depois Assunto: Encontro Querida Emmi, podemos nos encontrar mais uma vez? Tenho que te dizer uma coisa. É importante, penso eu. Dez minutos depois FW: Não, a Pamela não está grávida. Não tem nada a ver com a Pamela. Tem um tempinho amanhã ou depois de amanhã? Um minuto depois RE: Parece ser algo dramático! Se for uma boa notícia que tem para me dar pessoalmente assim tão de repente, então sim, «tenho um tempinho»! Dois minutos depois FW: Não é uma boa noticia. 40 segundos depois RE: Então me diz por escrito. Ainda hoje, por favor! Amanhã vou ter um dia complicado. Tenho de dormir pelo menos umas horas. Dois minutos depois FW:
  48. 48. 46 Por favor, Emmi, é preferível falarmos sobre isto com calma num dos próximos dias! Agora não pense muito nisso e vá dormir. Está bem? 40 segundos depois RE: Leo, gosto que me consolem, mas não gosto que me DESconsolem. Você não. Não desta forma. Não com as palavras «Agora não pense nisso e vá dormir». Vá lá. Me diga! 30 segundos depois FW: Emmi, por favor, acredite. Este assunto não é para ser tratado por e-mail com um beijinho de boa noite. Temos de falar cara a cara. Não é por uma questão de dias. 50 segundos depois RE: QLL,MDJ!!! (Querido Leo Leike, me diga já!!!) Dez minutos depois FW: Está bem, Emmi: o Bernhard sabe o que se passa entre nós. Pelo menos sabia. Foi por esse motivo que me afastei. Um minuto depois RE: ??? Leo, que ideia absurda é essa? O que é que o Bernhard saberia? O que teria para saber? E como poderia saber disso? Se há alguém que saberia de algo, penso que seria eu. Leo, me parece que você ficou obcecado com uma estranha teoria de conspiração. Te peço que me esclareça! Três minutos depois FW: Emmi, te peço que pergunte ao Bernhard! FALE COM ELE, POR FAVOR! Não sou eu que devo esclarecer este assunto, é ele. Não sabia que ele nunca havia te tido nada sobre isto. Não podia imaginar. Recuso-me a acreditar. Eu pensava que não queria falar comigo sobre isto, mas parece que não sabe mesmo nada. Até hoje ele não te contou. Dois minutos depois RE:
  49. 49. 47 Leo, começo a ficar preocupada contigo. Está com febre? Está delirando com as tuas fantasias? Por que motivo falaria com o Bernhard sobre você? Como pensa que seria? «Bernhard, temos de falar. O Leo Leike diz que você sabe sobre ele. Dele e de mim, para ser mais precisa. Quem é o Leo Leike? Não o conhece. É o homem que eu mesma nunca tinha visto e de quem nunca te falei. Por isso, não é possível que você o conheça. Mas agora ele insiste que você sabe sobre ele, que sabe sobre nós (...).» Leo por favor, se acalme, você esta me deixando nervosa! Um minuto depois FW: Ele leu os nossos e-mails. Depois me escreveu. Pediu-me para me encontrar uma vez contigo para depois te deixar em paz para sempre. Foi por isso que aceitei o emprego em Boston. De uma forma resumida, foi assim. Preferia ter dito isto pessoalmente. Três minutos depois RE: Não. Não pode ser. O Bernhard não é assim. Ele nunca faria isso. Diga- me que não é verdade. Não pode ser. Leo, não sabe o está fazendo. Você está mentindo. Está destruindo tudo. Isso é uma calúnia monstruosa. O Bernhard não merece. Por que está fazendo isso? Porque está destruindo tudo entre nós? Ou está fazendo um bluff? É uma piada? Que piada é essa? Dois minutos FW: Querida Emmi, já não é possível voltar atrás. Odeio-me por isso, mas só tinha duas hipóteses em aberto. Afastar-me e calar-me para sempre ou a verdade. É demasiado tarde. Imperdoavelmente tarde. É imperdoável, eu sei. Envio-te em anexo o e-mail que o Bernhard me enviou há mais de um ano, no dia 17 de junho, imediatamente após o seu «colapso» nas férias da caminhada com as crianças no Tirol do Sul. Assunto: Para o Sr. Leike Prezado Sr. Leike, Me custa muito escrever para o senhor. Confesso que me envergonha fazê-lo e, a cada linha, o constrangimento que me aflige fica cada vez maior. Eu sou Bernhard Rothner e acho que não preciso me apresentar com mais detalhes. Sr. Leike, eu me dirijo ao senhor com um grande pedido. O senhor vai ficar surpreso ou chocado quando eu lhe fizer esse pedido. Em seguida, vou tentar lhe esclarecer os motivos para tanto. Não sou nenhum grande escritor, infelizmente. Mas vou me esforçar para exprimir nesta forma, que me é tão insólita, tudo aquilo que há meses me preocupa, que aos poucos tirou minha vida dos trilhos, minha vida e da minha família, sim, também a vida de minha mulher, algo que posso avaliar corretamente, após todos os anos de nosso harmonioso casamento.
  50. 50. 48 E aí vai o pedido: Sr. Leike, encontre-se com minha mulher! Por favor, faça isso de uma vez, de modo que termine essa assombração! Nós somos pessoas adultas, não tenho que lhe dizer mais nada. Só posso lhe pedir encarecidamente: Encontre-se com ela! Eu estou sofrendo com a minha inferioridade e fraqueza. Sabe como é humilhante para mim formular essas linhas? O senhor, por sua vez, não tem o mínimo constrangimento, Sr. Leike, o senhor não tem por que se recriminar. Sim, e eu, eu também não tenho por que lhe recriminar, infelizmente, infelizmente eu não tenho. Não se pode recriminar um fantasma. O senhor não é palpável, Sr. Leike, não é tangível, o senhor não é real, o senhor é apenas uma imagem fantasmagórica da minha mulher, uma ilusão de felicidade sem fim, de delírio etéreo, de amor utópico, feita de letras. Sou impotente contra isso, só posso esperar até que o destino seja misericordioso e faça do senhor uma pessoa de carne e osso, um homem com contornos, com pontos fortes e fracos, com vulnerabilidades. Somente quando minha mulher puder vê-lo assim, como ela me vê, alguém vulnerável, uma criatura imperfeita, um exemplar das deficiências humanas, somente quando ela lhe encarar frente a frente, a sua superioridade vai se dissipar. Somente aí eu terei a chance de ficar à sua altura, Sr. Leike. Somente aí poderei lutar pela Emma. «Leo, não me force a abrir o meu álbum de família», minha mulher escreveu para o senhor uma vez. Agora eu, em vez dela, é que me sinto forçado a fazê-lo. Quando nos conhecemos, Emma tinha 23 anos, eu era professor de piano da Academia de Música, 14 anos mais velho do que ela, bem casado, pai de duas crianças adoráveis. Um acidente de trânsito deixou nossa família em ruínas, o menino de 3 anos ficou traumatizado, a menina, bem machucada, eu também fiquei com sequelas permanentes, a mãe dos meus filhos, minha mulher Joanna: morta. Se não tivesse o piano, eu teria ficado destroçado por conta disso. Mas música é vida, enquanto ela soar, nada morre para sempre. Quando se é músico e se toca, vivem-se as lembranças como se elas fossem acontecimentos. Consegui me reerguer por causa dela. E também havia meus alunos e alunas, era uma forma de distração, uma tarefa, um sentido. Sim, e de repente lá estava ela —Emma. Essa mulher jovem, cheia de vida, espirituosa, sapeca, linda, começou a juntar nossos caquinhos, por opção sua, sem nada prometer ou esperar qualquer coisa disso. Pessoas assim extraordinárias são colocadas no mundo para lutar contra a tristeza. Há pouquíssimas delas. Eu não sei como pude merecer: mas de repente ela estava ao meu lado. As crianças correram para ela. E eu também me apaixonei perdidamente. E ela? Sr. Leike, agora o senhor vai se perguntar: Sim, e Emma? Ela, a estudante de 23 anos, será que ela se apaixonou na mesma medida, justamente por esse Cavaleiro da Triste Figura de quase 40 anos, que na época só tinha seus tons e suas teclas? Essa pergunta eu não consigo responder ao senhor nem a mim mesmo. O quanto disso foi somente por admiração à minha música (à época, eu fazia realmente sucesso, era um pianista consagrado)? Quanto daquilo era pena, solidariedade, vontade de ajudar e a capacidade de estar presente nas horas mais difíceis? O quanto eu a fazia se lembrar do pai, que a havia deixado muito cedo? Em que medida ela havia ficado louca pela doce Fiona ou pela gracinha do pequeno Jonas? O quanto daquilo era a minha própria euforia, que se refletia nela, em que medida ela amava apenas o meu amor desenfreado por ela, e não a mim mesmo? Em que medida ela usufruía da certeza de que eu nunca a decepcionaria por conta de outra mulher, usufruía da minha integridade, minha fidelidade eterna, com que ela poderia sempre contar? Acredite, Sr. Leike, eu nunca ousaria me aproximar dela se não houvesse percebido que ela possuía um monte de sentimentos fortes em relação a mim, como eu em relação a ela. Ela se sentia ligada a
  51. 51. 49 mim e às crianças de uma forma ilimitada, queria ser parte de nosso mundo, uma parte importante, uma parte decisiva, uma peça central. Dois anos depois, nós nos casamos. Agora já são oito anos. (Perdoe-me, eu estraguei aqui o seu jogo de esconde-esconde, revelei milhares de segredos: a «Emmi» que o senhor conhece tem 34 anos.) Não passei um dia sem me admirar por ter essa jovem beleza vital ao meu lado. E todos os dias esperei, com temor, que isso fosse «acontecer», que aparecesse um cara mais jovem, um de seus inúmeros admiradores e adoradores. E Emma diria: «Bernhard, eu me apaixonei por outro homem. Como é que vai ser agora com a gente?» Esse trauma passou. Agora um bem pior se estabeleceu. O senhor, Sr. Leike, o tranquilo «mundo lá fora». Ilusões de amor por e-mail, um crescendo constante de sentimentos, uma saudade crescente, uma paixão inquieta, tudo isso direcionado para um alvo apenas aparentemente real, um grande objetivo, que sempre é adiado. O encontro de todos os encontros, que nunca vai acontecer, porque isso iria além das dimensões da felicidade terrena, a realização plena, sem fim, sem data de vencimento, e que só se pode vivenciar na cabeça. Contra algo assim, eu sou impotente. Sr. Leike, desde que o senhor "existe", Emma se transformou. Ela vive distraída e distante de mim. Fica horas em seu quarto e olha para o computador, para o cosmos de seu idílio. Ela vive em seu "mundo lá fora", ela vive com ele. Se ela sorri radiante, já faz tempo que não é por minha causa. Com muito esforço ela consegue esconder das crianças a sua distração. Eu percebo como ficar muito tempo comigo a deixa aflita. O senhor sabe como isso dói? Tentei superar essa fase com muita tolerância. Emma não deveria jamais se sentir enclausurada por mim. Nunca houve ciúme entre nós. Mas de repente eu não sabia mais em que frente eu poderia atacar. Não havia nada ou ninguém, nenhuma pessoa de verdade, nenhum problema real, nenhum corpo estranho visível até que descobri a raiz de tudo. Eu poderia me enterrar no chão de vergonha por ter ido tão longe: eu espionei o quarto da Emma. E numa gaveta escondida encontrei finalmente uma pasta, uma pasta grossa, cheia de papéis escritos: toda a correspondência por e-mail dela com um certo Leo Leike, tudo impresso direitinho, página por página, mensagem por mensagem. Com as mãos tremendo, copiei esses papéis e consegui deixá-los de lado por algumas semanas. Nós havíamos tido férias terríveis em Portugal. O mais novo ficou doente, a menina se apaixonou perdidamente por um instrutor de esporte. Minha mulher e eu ficamos calados por duas semanas, mas cada um de nós tentava demonstrar que estava tudo em ordem, como sempre esteve, como sempre devia estar, como mandam os costumes. Depois não consegui mais suportar. Levei a pasta quando viajei para passear com as crianças—e num ataque de autodestruição e masoquismo li todos os e- mails numa noite. Desde a morte da minha primeira mulher eu não havia passado por um tormento tão grande, pode acreditar. Quando terminei a leitura, não consegui mais levantar da cama. Minha filha chamou a emergência e me levaram para o hospital. Minha mulher me trouxe de lá para casa anteontem. Agora o senhor sabe a história toda. Sr. Leike, por favor, encontre-se com Emma! Eu agora cheguei ao cúmulo da humilhação: sim, encontre-se com ela, passe uma noite com ela, faça sexo com ela! Eu sei que vocês querem. Eu «permito» isso a vocês. O senhor tem carta branca, eu lhe poupo aqui de quaisquer escrúpulos, não encaro isso como traição. Percebo que Emma não procura apenas a proximidade mental com o senhor, mas também a física, ela quer «conhecer», acredita que precisa disso, ela anseia por isso. É um desejo irresistível da novidade, da mudança, que eu não posso oferecer a ela. Tantos homens admiraram e adoraram Emma, aparentemente ela nunca se sentiu atraída sexualmente por nenhum
  52. 52. 50 deles. E aí eu vejo os e-mails que ela lhe escreveu. E de repente percebo quão grande seu desejo pode ser, quando ele é provocado pela «pessoa certa». O senhor, Sr. Leike, é o escolhido dela. E eu quase que desejo isto a mim mesmo: Faça sexo com ela. UMA VEZ (optei por enfáticas letras maiúsculas, como minha mulher faz.) UMA VEZ, SOMENTE UMA VEZ! Permita que seja esse o fim de sua paixão construída com palavras. Fixe aí o ponto final. Coroe a sua correspondência por e-mail— e dê um basta a ela em seguida. Devolva a minha mulher, seu extraterrestre, seu intangível. Traga ela de volta ao chão. Deixe que nossa família continue a existir. Não faça isso como um favor a mim ou às minhas crianças. Faça isso por Emma, pelo bem dela. Eu peço ao senhor! Estou chegando ao fim do meu constrangedor e torturante pedido de ajuda, do meu terrível pedido de clemência. Mais um pedido para concluir, Sr. Leike. Não me entregue. Deixe-me fora de sua história. Eu quebrei a confiança de Emma, eu a enganei, li a correspondência íntima e privada dela. Já paguei por isso. Eu não poderia mais olhar em seus olhos se ela soubesse da minha espionagem. Ela não poderia mais olhar em meus olhos se soubesse que eu li. Ela odiaria a si e a mim na mesma medida. Por favor, Sr. Leike, poupe-nos disso. Mantenha em segredo esta carta. E mais uma vez: eu peço ao senhor! E agora eu lhe enviarei a carta mais horrível que escrevi na vida. Respeitosamente, Bernhard Rothner
  53. 53. 51 Capítulo 8 Três dias depois Assunto: Emmi? (Não estou à espera de uma resposta a esta pergunta. Só quero te dizer que a faço à mim mesmo minuto a minuto.) Dois dias depois Sem assunto Se te agradar, despreze cada palavra que te escrevi. Se te agradar, me odeie por cada letra que agora ainda te envio. Mas não consigo fazê-lo de outra forma. Como está, Emmi? Queria te apoiar. Gostaria muito de fazer algo com sentido para você. Gostaria de saber no que pensa e como se sente. Gostaria muito de pensar e sentir com você. Gostaria de ficar com metade de tudo isso, por ser tão desagradável. Dois dias depois Sem assunto Quer que eu deixe de te escrever? Um dia depois Sem assunto O que significa isso, Emmi? Significa: — Você mesma não sabe se deseja que eu te escreva. — É indiferente se eu te escrevo. — Definitivamente não deseja que eu te escreva. — Já não lê mais os meus e-mails. Três dias depois Assunto: Vento norte Está bem, Emmi, já entendi, não te escrevo mais. Caso (...) vento norte (...) então sabes (...) sempre. Sempre, sempre, sempre, sempre, sempre! Com muita estima. O teu Leo Cinco horas depois RE: Olá, Leo, já está dormindo?
  54. 54. 52 Três minutos depois FW: EMMI!!! OBRIGADO!!! Como está? Por favor, me diga! Ao monitor Não penso em mais nada. Tinha que terminar o relatório de um estudo e estou há horas em frente ao monitor olhando a barra de ferramentas com o símbolo da carta à espera de um milagre com quatro letras. Chegou. Ainda nem consigo acreditar. EMMI. Você voltou. 30 segundos depois RE: Posso me encontrar com você? Um minuto depois FW: Como, Emmi? Li mal? Quer vir «ao meu encontro»? Na minha casa? No apartamento 15? Porquê? Quando? 20 segundos depois RE: Agora 50 segundos depois FW: Querida Emmi, está falando sério? Está mal? Quer desabafar? É claro que pode vir, mas são duas horas da manhã. Não é melhor nos encontrarmos amanhã? Temos mais tempo e a cabeça mais fresca. (Eu, pelo menos.) 20 segundos depois RE: Posso ir? Sim ou não? Um minuto depois FW Isso soa como uma ameaça, mas sim, claro Emmi, pode vir! 30 segundos depois RE: Tem uísque ou tenho que levar uma garrafa? 40 segundos depois
  55. 55. 53 FW: Tenho uísque. A garrafa está quase cheia. É suficiente? Emmi, por acaso não quer me dizer qual é o seu estado de espírito neste momento? Só para me poder situar. 20 segundos depois RE: Irá perceber rapidamente. Até já! 40 segundos depois FW: Até já! Na noite seguinte Assunto: Chegamos ao fundo Querida Emmi, não acredito que esteja melhor hoje, nem melhor do que ontem, nem melhor do que eu. A nossa dor não diminui por estarmos obcecados em partilhar as suas possíveis causas. Aquilo que damos recebemos em troca. A sua atitude tempestuosa, a negação da sua timidez, a negação da sua ansiedade, o seu «desejo avassalador» ao qual— sabias muito bem — eu não iria querer nem poder resistir, o teu plano perfeitamente elaborado, o fato de levar as coisas ao extremo e de depois as deixar cair, como se a intimidade fosse a coisa mais inútil do mundo, a tua retirada bem calculada, o teu desaparecimento profissional — não foram medidas de retaliação. Mas um ato único de desespero. Os seus olhares depois queriam dizer: «Aqui está o que queria desde o início. Você teve o que queria.» Não, não era o que eu queria e você sabe! Nunca tínhamos estado ao mesmo tempo tão próximos e tão distantes. Chegamos ao fundo. Emmi, não consegue me enganar. Não é a pessoa confiante, poderosa, fria, que consegue transformar desta forma as fraquezas em vitórias. Puniu-me realmente apenas com a sua falta de diálogo. Aquilo que nos uniu até hoje foram as palavras. Emmi, se ainda tiver algum interesse em mim, converse comigo! Leo. Três horas depois RE: Quer palavras? Está bem, ainda tenho muitas para dizer. Ofereço-as, já não sei o que fazer com elas. Tem razão, Leo. Queria provar ao Bernhard. Queria provar à você. Queria provar a mim mesma. Agora sei: eu consigo trair. Mais ainda, consigo trair o Bernhard. E ainda mais, consigo trair o Bernhard CONTIGO. Além disso, o maior feito é conseguir trair a mim mesma ao mesmo tempo. Sim, é o que consigo fazer melhor. De resto obrigada por ter «participado». Eu sei, Leo, que não foi a sua intemperança, foi a sua compaixão. Tinha me oferecido para ficar
  56. 56. 54 com metade dos meus sentimentos. Ontem o fizeste brilhantemente, face à situação tensa. Cama dividida — meia cama. Dor dividida — dor a dobrar. Tem razão, Leo. Hoje não estou melhor. Estou pior do que nunca. Leo, não consegue imaginar o que «vocês» me fizeram. Sinto-me traída e vendida. O meu marido e o meu amante virtual selaram um pacto nas minhas costas: quando um me quer fisicamente, o outro excepcionalmente faz vista grossa. Quando um desaparece para sempre, o outro pode ficar comigo para sempre. Um devolve-me como uma descoberta ao meu marido, o proprietário legal. O outro me permite «o encontro tangível» — uma aventura sexual com uma fantasia de amor normalmente virtual, quase como uma recompensa pela descoberta. A partilha correta, a divisão perfeita, um plano pérfido. E a Emmi, retardada mental, tão submissa à família como impelida pelo amor à aventura, nunca irá ouvir uma única palavra sobre isto. Pois, pois. Leo, ainda não consigo avaliar o que isso significa para mim e o Bernhard. Provavelmente também não vai saber. O que significa para «nós» dois? Posso te dizer já. Para você, que deve ter capacidade para ler o meu íntimo como nenhuma outra pessoa, para você não deve ter havido qualquer dúvida, ou houve? Leo, não seja inocente. Não existem «milagres com quatro letras». Só existe uma consequência lógica composta por três letras. Tantas vezes o tememos, durante tanto tempo o adíamos, tantas vezes o escondemos e escrevemos sobre ele de forma breve. Agora nos apanhou e cabe a mim declará- lo: FIM.
  57. 57. 55 Capítulo 9 Três meses depois Assunto: Sim, eu Olá, Leo. A enfermeira diplomada da minha psique afetada é da opinião que podia te perguntar como está. Então, como está? O que devo dizer à atenciosa terapeuta? Que não seja algo do gênero: ATENÇÃO. O ENDEREÇO DE E-MAIL FOI ALTERADO (...)? Um beijinho, Emmi Três dias depois Assunto: Eu outra vez Olá, Leo, acabei de ler para minha terapeuta por telefone o e-mail que te escrevi na terça-feira. Ela acha que não devo me admirar por não receber nenhuma resposta. Eu respondi: «Não estou admirada.» Ela disse «Mas quer mesmo saber como ele está.» Eu: «Sim.» Ela: «Então tem de lhe perguntar de modo a que exista a possibilidade de saber.» Eu: «Ah. Mas qual será a melhor formar de perguntar?» Ela: «Simpaticamente.» Eu: «Mas eu não me sinto simpática» Ela: «Sente sim, sente-se mais simpática do que admite. Apenas não quer que ele pense que se sente simpática.» Eu: «Aquilo o que ele pensa me é indiferente» Ela: «Mas você não acredita nisso!» Eu: «Tem razão. Conhece bem as pessoas.» Ela: «Obrigada, é a minha profissão.» Eu: «Então o que eu devo fazer?». Ela: «Em primeiro lugar: faça o que achar que é bom para si. Em segundo lugar: pergunte-lhe simpaticamente como está.» Cinco minutos depois Assunto: Eu pela segunda vez Olá, Leo, desta vez com muita simpatia: como está? Consigo ser ainda mais simpática: Olá, Leo, como está? E é possível aumentar ainda mais a simpatia: Queriiiiido Leo, como está, coooomo está, então como está, como foi o Nataaal, como foi o Aaano Novo, como vai a vidaaaa, como vai o amooooor, como vai a «Pam», perdão Paaameeela? Beijinhos com a máxima simpatia, do Leo Emmi. Duas horas depois Assunto: Eu, pela terceira vez. Olá, Leo, sou eu novamente. Esquece, por favor, a palermice a que te sujeitei há pouco. Mas posso te confessar uma coisa? (É uma das minhas
  58. 58. 56 citações preferidas do Leo. Quando te imagino a dizê-lo, está sempre completamente embriagado.) Posso te confessar uma coisa? Escrever me faz muito bem! Amanhã vou dizer á minha terapeuta que escrevi ao Leo e que escrever me faz bem. Ela vai me dizer. «Mas essa foi apenas meia verdade.» Eu: «Qual seria a verdade completa?» Ela: «Deveria ter escrito de forma mais correta — "TE escrever me faz muito bem."» Eu: «Não escrevo a mais ninguém. Então escrevo que escrever me faz muito bem e isto significa automaticamente que escrever-LHE me faz muito bem.» Ela: «Mas ele não sabe.» Eu: «Sabe sim, ele me conhece.» Ela: «Eu ficaria surpresa. Você própria não se conhece, foi por isso que veio me procurar» Eu: «Qual é o valor que cobra à hora por este tipo de insulto?» Leo, absolutamente tudo faz parte da mudança, apenas as letras aqui presentes são as mesmas. Me faz bem me manter assim. Tenho a sensação de que pelo menos me mantenho fiel a mim mesma. Não tem de responder. Acho que até é melhor que não o faças. O nosso comboio comum partiu, «Boston» (e o que daí resultou) tirou-me do caminho com um ano de atraso. Estou sentada num compartimento escuro de um vagão completamente novo e estou tentando me orientar. Não faço ideia de qual é o destino da viagem, as estações ainda não estão indicadas, o próprio sentido da marcha é vago. Se olhasse pela janela com o vidro fosco por onde vejo a paisagem, então teria ocasionalmente de te dizer com prazer se reconheço algo e o que poderia ser. Está tudo em ordem? Eu sei que as minhas impressões ficam bem retidas comigo. E quando quiser me contar a tua viagem de comboio, a tua experiência de viagem no Expresso «Pam» — vou terminar. Bem, tchau e veste uma roupa quente porque supostamente o inverno está aí de novo. A brisa fria deixa a garganta áspera e o campo de visão reduzido. Só se consegue olhar em frente para o suposto destino e não para o lado, onde se encontram os olhares pelos quais vale a pena enfrentar a viagem. Emmi. Dois dias depois Assunto: Só me diga a) Se apaga as minhas mensagens sem ler. b) Se as lê e as apaga. c) Se as lê e as guarda. d) Se não as recebe. Cinco horas FW: c
  59. 59. 57 Na manhã seguinte Assunto: Boa escolha! Foi a melhor escolha, Leo! Conseguiu descrever, justificar e organizar de forma detalhada! Teve algum espasmo ao escrever a sua resposta, ficou com uma tendinite no pulso ou ainda pense em escrever alguma coisa? Cumprimentos, Emmi Dois dias depois Assunto: Análise do C Olá, Leo, é claro que sabia que a primeira e única contribuição que deste com uma letra desde dezesseis semanas iria estimular a minha fantasia. O que queria o psicólogo da linguagem Leo Leike exprimir com a sua resposta? Qual era o seu objetivo? a) Queria conquistar um lugar no meu livro pessoal dos seus recordes b) diferença entre o «c» com ponto, o «c» com parêntesis e o «c» sozinho, natural, como escreveu o Leike? c) Queria chamar a minha atenção de forma perfeccionista e minimalista para se tornar (novamente) mais interessante do que parece adequado para a situação? d) Ou foi apenas uma questão de conteúdo? Ele queria dizer: Sim leio a Emmi, continuo até a guardar a Emmi, mas definitivamente já não lhe escrevo mais? E sou suficientemente cordial para dizer isto à Emmi. Vou introduzir um caractere, faminto, mas um caractere, o mais ínfimo possível, mas, seja como for, um caractere. Vou enviar à Emmi uma perninha de galinha toda comida. Foi isso? Ansiosamente à espera de mais uma letra, Emmi Três horas depois FW: Uma pergunta também para você, querida Emmi: quando diz FIM definitivo (como há dezesseis semanas, no dia seguinte, talvez ainda lembre), o que quer dizer com isso? a) FIM? b) FIM? c) FIM? d) FIM? E porque não escolhe a a), nem a b), nem a c), nem a d)? 30 minutos depois RE: 1) Porque gosto de escrever. 2) Está bem: Porque gosto de escrever à você.
  60. 60. 58 3) Porque a minha terapeuta disse que me fazia bem, e ela deve saber, porque estudou. 4) Porque estava curiosa por saber quanto tempo iria resistir sem me responder. 5) Porque estava ainda mais curiosa por saber qual seria a resposta (Garantidamente, nunca chegaria ao «c»). 6) Porque estava e estou ainda mais curiosa por saber como está. 7) Porque esta curiosidade direcionada para fora faz bem ao clima interior, o clima no meu novo apartamento esterilizado, despojado, minúsculo, com o piano silencioso e as paredes nuas que estão sempre a projetar pontos de interrogação inquiridores. Um apartamento que com um golpe me retirou quinze anos sem com isso me tornar quinze anos mais jovem. Agora com trinta e cinco anos estou novamente no fundo, na escadaria de uma pessoa de vinte anos. Agora isto significa voltar a subir os muitos degraus. 8) Onde estávamos? Sim, no «fim», porque não me mantenho no «fim» quando digo que é o «fim»: porque vejo algumas coisas de forma um pouco diferente do que há dezesseis semanas, com caráter menos definitivo. 9) Porque o fim não é igual a fim, não é igual a fim, não é igual a fim, Leo. Porque cada fim do último fim também é um início. Tenha uma boa noite. E obrigada por ter escrito! Emmi Dez minutos depois FW: Saiu de casa, Emmi? Separou-se do Bernhard? Duas horas depois RE: Eu me mudei, me afastei um bocadinho. Fiquei distante do Bernhard. Agora temos mais ou menos a distância entre nós que corresponde à nossa relação nos últimos dois anos. Esforço-me para não deixar que as crianças sofram. Quero continuar a estar junto deles sempre que precisarem de mim. A nova situação é má para o Jonas. Devia ver o olhar dele quando me pergunta: «Porque não dorme mais aqui em casa?» Eu respondo: «O papai e eu não estamos mais nos entendendo muito bem neste momento.» Jonas: «Mas à noite isso é indiferente.» Eu: «Não quando se está separado por apenas uma estreita parede.» Jonas: «Então troco de quarto contigo. Não me incomoda estar separado do papai por apenas uma estreita parede.» O que se pode responder a isto? O Bernhard aceita os seus erros e omissões. Envergonha-se. Ele está pesaroso, deprimido, totalmente para baixo. Está tentando salvar o que ainda há para ser salvar. Conversamos muito nos
  61. 61. 59 últimos meses, infelizmente com um atraso de alguns anos. Em primeiro lugar, olhamos para trás da fachada da nossa relação: tudo estava enferrujado e era desolador. Nunca trabalhamos este aspecto, nunca colocamos ordem nisto, nunca arejamos a nossa vida, tudo foi abandonado com graves danos. Será possível algum dia reparar isto? Também falamos muito sobre você, Leo. Mas só vou te contar quando quiser saber. (Como é natural que queira saber, vamos manter o contato por e- mail. O meu plano é este!) Não quero te aborrecer, mas a minha terapeuta está mesmo convencida de que você me faz bem. Ela disse: «Não entendo porque despende tantas horas e dinheiro comigo. Com o seu Leo Leike tem tudo gratuitamente. Então, faça o favor de se dedicar a ele!» Então vou fazer o favor de me dedicar a você, querido Leo. E tenho muito gosto em convidar você para se dedicar um pouco a mim. Dorme bem. Na noite seguinte Sem assunto Querida Emmi, fico muito lisonjeado por sua psicoterapeuta confiar em mim para poder substituí-la. («Gratuitamente» seria demasiado barato, mas eu podia te fazer um bom preço.) É claro que também fico satisfeito por ela estar convencida de que te faço bem. Faça-me a amabilidade de lhe perguntar se ela também pode me garantir que VOCÊ me faz bem. Com muita estima, Leo. Uma hora depois RE: Ela só pensa no meu bem-estar, não no seu, querido Leo. Se não souber o que é bom para você e quando quiser saber, tem de arranjar um seu próprio terapeuta. Aliás, se eu fosse te aconselhar, seria muito dispendioso para você. Tenha uma noite agradável, Emmi P.S.: Leo, gostaria muito de saber como está. Não quer me dizer alguma coisa? Não quer me dar pelo menos alguma dica? Por favor! Meia hora depois FW: Dica um: Há três semanas que estou congestionado. Dica dois: Só estou sozinho há três semanas. Observação em relação a dica dois: a Pamela («Pam») está para chegar. E ficar. Dez minutos depois RE:

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