Os dez mandamentos esequias soares

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Os dez mandamentos esequias soares

  1. 1. V a l o r e s D ivin o s pa r a u m a S o c ie d a d e em C o n s t a n t e M u d a n ç a Eseq uias S o ares
  2. 2. V alores D ivinos para uma S ociedade em C onstante M udança Esequias S oares
  3. 3. V alores D ivinos para uma S ociedade em C onstante M udança Esequias S oares 1a Edição C94D Rio de Janeiro Outubro / 2014
  4. 4. Todos os direitos reservados. Copyright © 2014 para a língua portuguesa da Casa Publicadora das Assembleias de Deus. Aprovado pelo Conselho de Doutrina. Capa: Wagner de Almeida Projeto gráfico e editoração: Paulo Sérgio Primati Revisão: Lettera Editorial As citações biblicas foram extraídas da versão Almeida Revista e Corrigida, edição de 1995, da Sociedade Bíblica do Brasil, salvo indicação em contrário. Para maiores informações sobre livros, revistas, periódicos e os últimos lançamentos da CPAD, visite nosso site: http://www.cpad.com.br. SAC — Serviço de Atendimento ao Cliente: 0800-021-7373 Casa Publicadora das Assembleias de Deus Av. Brasil, 34.401 - Bangu - Rio de Janeiro - RJ CEP 21.852-002 1" edição: 0utubro/2014 Tiragem: 35.000 CDD 222.16 Silva, Esequias Soares da, 1955- 586s -Silv Os dez mandamentos: valores divinos para uma sociedade em cons­ tante mudança /Esequias Soares. — Rio de Janeiro: CPAD, 2014. 160p.; 21cm. Bibliografia: p. 159-160. ISBN 9788526312463
  5. 5. sumario ABREVIATURAS.....................................................................................7 INTRODUÇÃO ........................................................................................9 1 OS DEZ M ANDAM ENTOS............................................................... 13 A lei de M oisés..................................................................................14 O decálogo ....................................................................................... 17 Os códigos........................................................................................21 2 NÃO TERÁS OUTROS DEUSES ..................................................... 27 Formas de adoração p a g ã ................................................................28 A idolatria do mundo antigo ............................................................ 29 O primeiro mandamento.................................................................. 31 3 NÃO FARÃS IMAGENS DE ESCULTURAS...................................... 39 Os ídolos e as imagens.....................................................................40 O segundo mandamento..................................................................42 O Deus zeloso..................................................................................46 4 NÃO TOMARÁS O NOME DO SENHOR EM V Ã O ............ ...........49 O nome "Deus" ................................................................................ 50 Elion, Shadai e Adonai .....................................................................53 O que significa tomar o nome de Deus em vão?...............................58 5 SANTIFICARÁS O SÁ B A D O .............................................................61 O sábado ..........................................................................................62 O quarto mandamento.....................................................................66 O sábado no Novo Testamento........................................................ 69 O sábado cristão.............................................................................. 74 6 HONRARÁS PAI E M Ã E ................................................................... 77 Honra a teu pai e a tua m ã e ............................................................. 78 A promessa divina........................................................................... 83
  6. 6. 7 NÃO MATARÁS.................................................................................87 O sexto mandamento....................................................................... 88 Guerra...............................................................................................92 Suicídio.............................................................................................93 Pena de m orte...................................................................................94 8 NÃO ADULTERARÁS........................................................................99 O sétimo mandamento....................................................................100 O casamento...................................................................................104 O ensino de Jesus............................................................................ 106 9 NÃO FURTARÁS.............................................................................. 111 Propriedade e trabalho ....................................................................112 O oitavo mandamento.................................................................... 113 Legislação mosaica sobre o furto ................................................... 115 10 NÃO DARÁS FALSO TESTEMUNHO............................................121 O aspecto exegético ....................................................................... 123 O aspecto jurídico...........................................................................125 O aspecto da vida diária................................................................. 128 11 NÃO COBIÇARÁS......................................................................... 131 Exegese do décimo mandamento................................................... 133 Os fatos .......................................................................................... 135 O décimo mandamento no Novo Testamento ..................... 136 12 A IGREJA E A LEI DE D EU S.........................................................139 A lei de D e u s.................................................................................. 140 Os três tipos de lei .......................................................................... 141 Os reformadores do século 16 ........................................................142 Avaliação bíblica.............................................................................144 CONSIDERAÇÕES FINAIS................................................................... 149 APÊNDICE HISTÓRICO........................................................................ 151 REFERÊNCIAS BIB LIO G RÁFICAS 159
  7. 7. abreviaturas ARA Versão de João Ferreira de Almeida, Edição Revista e Atualizada no Brasil. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 1995. ARC Versão de João Ferreira de Almeida, Edição Revista e Corrigida. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 1998. LXX RAHLFS, Alfred; RANHART, Robert. Septuaginta, Editio Altera. Stuttgart, Germany: Deutsche Bibelgesellschaft, 2006. NTLH Nova Tradução na Linguagem de Hoje. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2006. NVI Nova Versão Internacional. São Paulo: Editora Vida, 2000. TB Tradução Brasileira. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2011. VR Versão Revisada da Tradução de João Ferreira de Almeida de Acordo com os Melhores Textos em Hebraico e Grego. Rio de Janeiro: Imprensa Bíblica Brasileira, 1994.
  8. 8. 8 I OS DEZ MANDAMENTOS - VALORES DIVINOS PARA UMA SOCIEDADE EM CONSTANTE MUDANÇA ANTIGO TESTAMENTO Gn Gênesis ÊX Êxodo Lv Levítico Nm Números Dt Deuteronômio Js Josué Jz Juizes Rt Rute 1 Sm 1 Samuel 2 Sm 2 Samuel 1 Rs 1Reis 2 Rs 2 Reis 1 Cr 1Crônicas 2 Cr 2 Crônicas Ed Esdras Ne Neemias Et Ester Jó Jó Sl Salmos Pv Provérbios Ec Eclesiastes Ct Cantares Is Isaías Jr Jeremias Lm Lamentações de Jeremias Ez Ezequiel Dn Daniel Os Oseias J1 Joel Am Amós Ob Obadias Jn Jonas Mq Miqueias Na Naum Hc Habacuque Sf Sofonias Ag Ageu Zc Zacarias Ml Malaquias NOVO TESTAMENTO Mt Mateus Mc Marcos Lc Lucas Jo João At Atos Rm Romanos 1 Co 1Coríntios 2 Co 2 Coríntios G1 Gálatas Ef Efésios Fp Filipenses Cl Colossenses 1 Ts 1Tessalonicenses 2 Ts 2 Tessalonicenses 1 Tm 1Timóteo 2 Tm 2 Timóteo Tt Tito Fm Filemon Hb Hebreus Tg Tiago 1 Pe 1 Pedro 2 Pe 2 Pedro 1 Jo 1João 2 Jo 2 João 3 Jo 3 João Jd Judas Ap Apocalipse
  9. 9. introdução A obra Os Dez Mandamentos - Valores Divinos para uma Sociedade em Constante Mudança é um comentário exegético e explicativo apresentado de forma prática para facilitar a compre­ ensão dessa parte da lei de Moisés. A lei foi dada a Israel como legislação para o povo antes de conquistar a terra de Canaã. Inúmeros preceitos permanecem ainda hoje na legislação de praticamente todos os países do planeta. Sua origem divina é indiscutível, pois aparece no relato dessa comunicação de Deus a Moisés desde Êxodo 20.1 até Levítico 27.34. Além disso, a Bíblia declara esse fato de maneira direta. O presente trabalho tem por objetivo ajudar o povo de Deus a distinguir entre lei e evangelho, lembrando que os Dez Mandamentos não são a lei, mas parte dela, que introduz o sistema legal de Moisés. A estrutura dos Dez Mandamentos se resumem no amor a Deus e ao próximo, diz respeito a Deus e à sociedade, que en­ volve pensamento, palavras e obras. O primeiro mandamento foi promulgado numa época que a idolatria norteava as nações, e a ordem "Não terás outros deuses diante de mim" era algo novo num código de leis. Trata-se do monoteísmo revelado que influenciou o mundo inteiro com a expansão do cristianismo. O segundo mandamento revela que esse único Deus deve ser entendido e adorado em termos espirituais e imateriais e que o culto e o louvor a ele com uso de representações visuais
  10. 10. são ofensivos e provocam a ira divina até a terceira e a quarta geração. Deus é espírito (Jo 4.24). É, pois, todo-importante que aquele que adora a Deus tenha a sua mente e o coração cen­ trados nesse Deus que transcende a matéria e todas as coisas criadas. É grande o risco de inverter o objeto de adoração pelas representações visuais. Por isso, a adoração cristã genuína é completamente despida de toda representação visual, como imagens de escultura (Cl 3.16). O terceiro mandamento trata daquilo que falamos com res­ peito a Deus e ao próximo e da forma pela qual usamos o nome de Deus. O quarto mandamento é de caráter social e espiritual: abrange a necessidade de descanso do trabalho para o ser hu­ mano, já que o descanso do sono noturno não é suficiente. A lei estabeleceu para Israel o sétimo dia da semana e, na graça, o sábado foi substituído pelo primeiro dia da semana, o dia da ressurreição de Jesus, e deixou de ser mandamento para ser pra­ ticado naturalmente, sem coerção alguma (At 20.7; Rm 14.2-6; Cl 2.16, 17). O mandamento de honrar pai e mãe pode servir como ponte que conecta os dois grupos de mandamentos: o compromisso do ser humano com Deus e o compromisso do ser humano com o próximo. A observação desse preceito contribui para o bem-estar da sociedade e da igreja. Os pais são representantes de Deus na vida dos filhos, pois além de terem gerado os filhos, eles os cer­ cam de cuidados especiais, provendo-os de alimentos, educação, saúde, roupa, afetos. Isso é um mistério. Desonrar e desobedecer, pois, aos pais é afrontar a Deus. Esse mandamento é extensivo às autoridades espirituais e civis. O "Não matarás" é a proteção da vida; assassinar alguém é o pior crime que uma pessoa pode cometer, e isso é um golpe contra o próprio Deus, visto que o ser humano foi feito à sua I 1 0 I OS DEZ M ANDAM ENTOS-VALORES DIVINOS PARA UM A SOCIEDADE EM CONSTANTE MUDANÇA
  11. 11. imagem (Gn 9.6). A proibição contra o adultério é um apelo à pureza sexual e à proteção da família. É o compromisso de fide­ lidade entre os casais. O mandamento seguinte proíbe o furto, remete à proteção da propriedade e de maneira indireta fala a respeito da necessidade do trabalho. Ninguém deve viver sem uma atividade; como diz o ditado, "mente desocupada é oficina de Satanás". O nono mandamento é a proteção da honra, pois dizer fal­ so testemunho contra o próximo aqui aplica-se não apenas ao perjúrio nos tribunais para prejudicar alguém, mas também à divulgação de boatos falsos e mexericos. E, finalmente, o décimo mandamento é contra o pecado do pensamento para ajudar o israelita a não violar os mandamentos anteriores do Decálogo. A ordem natural dos Dez Mandamentos é a seguinte: Deus, família e sociedade. O estudo detalhado de cada um dos manda­ mentos do Decálogo mostra de maneira inequívoca o seu valor para Israel, principalmente por ocasião de sua saída do Egito. Sua influência está por toda parte ainda hoje, no Estado e na religião, nos manuais jurídicos e teológicos. Por essa razão, o Novo Testamento não impõe sanção jurídica, mas a graça trata essas coisas no campo espiritual, implicando a comunhão com a Igreja e com Deus. A ministração da justiça é assunto do Estado. A função da lei não é salvar, mas mostrar o pecado humano, restringir o perverso e nos conduzir a Cristo, lembrando que o Decálogo é parte da lei. Esta é santa porque é de origem divina, mas a sua função deve ser compreendida por todos os cristãos. O livro Os Dez Mandamentos — Valores Divinos para uma Sociedade em Constante Mudança enfoca cada um desses pre­ ceitos com abundância de detalhes. O primeiro capítulo é uma visão panorâmica dos Dez Mandamentos. Os dez capítulos INTRODUÇÃO 1 1 I
  12. 12. OS DEZ MANDAMENTOS - VALORES DIVINOS PARA UMA SOCIEDADE EM CONSTANTE MUDANÇA seguintes tratam dos dez preceitos do Decálogo e de sua apli­ cação na vida diária, família, igreja, sociedade e trabalho. Em cada estudo são apresentados os significados de cada palavra- -chave, em hebraico e grego, os comentários dos versículos do Pentateuco vinculados ao mandamento em foco e, finalmente, a sua interpretação no Novo Testamento. É importante conhecer o sentido de cada mandamento no Novo Testamento e como eles foram adaptados à graça. O capítulo final mostra que obra de Deus para o cristão é a fé em Jesus, e não a prática dos Dez Mandamentos. Estes já estão incluídos nos dois grandes mandamentos de amar a Deus acima de todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos. Estar debaixo da graça e não debaixo da lei significa que somos livres para servir ao Senhor Jesus Cristo, mas não para pecar, visto que o cristianismo é a única religião do planeta que tem o Espírito Santo. A terceira Pessoa da Trindade guia a vida cristã e controla nossos desejos.
  13. 13. A lei de Moisés não consiste apenas num com­ pêndio religioso; trata de profecias, histórias, regis­ tros genealógicos e cronológicos, regulamentos, ritos, cerimônias, exortações, preceitos morais, civis e cerimoniais, instrução para sacerdotes, sacrifícios, ofertas, festas e o tabernáculo. A grande diversidade de conteúdo e suas várias formas de apresentação dos dados da revelação têm impressionado o espírito humano até hoje. A estrutura literária dessa parte das Escrituras Sagradas é complexa e sobre ela muitas interpretações e especulações têm sido levantadas ao longo dos séculos.
  14. 14. O Decálogo é o exemplo mais conhecido da forma categórica ou absoluta que se caracteriza pelo comando absoluto, geral­ mente pelo uso da segunda pessoa do singular no futuro ou no imperativo, e algumas vezes no plural. Isso aparece nos manda­ mentos negativos ou positivos. O mandamento com o verbo no particípio hebraico também é considerado categórico ou absoluto por muitos, como em: "Quem derramar o sangue do homem, pelo homem seu sangue será derramado" (Gn 9.6); ou: "Quem ferir alguém, que morra, ele também certamente morrerá" (Êx 21.12). As expressões "quem derramar" e "quem ferir" estão no particípio, na língua original. Mas há quem afirme que a referida forma é casuística. ALEI DE MOISÉS A lei de Moisés não é a mais antiga da história, porém é a mais importante, pois se distingue das demais na antiguidade por seu caráter espiritual e sua autoridade divina. Sobretudo, por ter chegado aos israelitas por revelação celestial. Mas sua grandeza vai além de tudo isso, pois nela Deus esboça o plano da redenção humana em Cristo. É o limiar da história do plano da salvação de toda a humanidade. A obra se inicia com a origem dos céus e da terra e vai até a morte do grande legislador dos hebreus. A lei ocupa a primeira parte do Antigo Testamento por ser a parte mais antiga das Escrituras Sagradas e devido a seu caráter peculiar como fundamento de toda a literatura bíblica. Todos os livros históricos, proféticos e poéticos do Antigo Testamento apontam retrospectivamente para a lei de Moisés "como tipo de fonte principal [que] assume a existência não meramente da lei em si, senão de um livro da lei, com o caráter e forma precisos dos cinco livros de Moisés" (KEIL & DELITZSCH, 2008). Aqui, í 1 4 I OS DEZ MANDAMENTOS - VALORES DIVINOS PARA UMA SOCIEDADE EM CONSTANTE MUDANÇA
  15. 15. OS DEZ MANDAMENTOS I 1 5 história é também lei e profecia, com implicações teológicas e significados espirituais profundos. Deus manda Moisés ficar no monte para ali lhe dar as "tábuas de pedra, e a lei, e os mandamentos que tenho escrito, para os ensinares" (Êx24.12). Uns acreditam que os termos "lei" e "manda­ mentos" sejam sinônimos que indicam o conteúdo das tábuas de pedra. Uma tradição rabínica interpreta que se trata do Decálogo e de leis adicionais. Mas só os Dez Mandamentos foram escritos em duas tábuas de pedra pelo próprio Deus (Dt 4.13; 5.22; 10.2-4). As outras partes da lei foram ditadas por Deus e escritas por Moisés (Êx 17.14; 24.4; 34.27; Dt 27.3, 8; 31.9). Aqui temos os primeiros escritos da lei que envolvem os Dez Mandamentos e a instrução sobre a construção do tabemáculo (Êx 31.18), bem como sua execução até o final do livro, incluindo a interrupção dos capítulos 32-34, que relata o culto do bezerro e a restauração do povo. Mas, a revelação prossegue até o livro de Levítico (Lv 27.34). A lei é identificada na Bíblia Hebraica como sêpher ha-torãh,' "o livro da lei" (Dt 31.16;Js 1.8); ou simplesmente ha-tôrãh,2"a lei" (Ne 8.2, 7,13). A palavra "Torá" significa basicamente, "instrução, ensino, lei" e aparece no Antigo Testamento com o sentido mais amplo de coleção ou sumário de instrução, código de lei (Êx24.12; Dt 1.5) ou regra particular (Êx 16.4). O termo se aplica também a norma ou instrução meramente humana (2 Sm 7.19) e ainda como instrução dada por humanos para a educação na literatura sapiencial (Pv 1.8; 3.1; 6.20). Esse vocábulo é usado no plural: "Estes são os estatutos, e os juízos, e as leis que deu o SENHOR entre si e os filhos de Israel, no monte Sinai, pela mão de Moi­ sés" (Lv 26.46). O plural, tôroth, "leis", aparece aqui em relação à lei de Moisés. A lei é uma só; não existe mais que uma lei. O 1 rninn iso. 2rninn.
  16. 16. plural aqui diz respeito às várias prescrições rituais: Esta é a lei do holocausto (Lv 6.9 [2]);3"E esta é a lei da oferta de manjares" (Lv 6.14, [7]); "Esta é a lei da expiação do pecado" (Lv 6.25 [18]); "E esta é a lei da expiação da culpa" (Lv 7.1). Veja ainda Lv 7.11; 11.46; 12.7; 13.59; 14.57; 15. 32; 18.4. O termo torah vem do verbo (ÍTT - yrh) ou hôrãh,4na sua forma flexionada, que indica "instruir, demonstrar, ensinar" (Êx 24.12). Trata-se, portanto, da instrução de Javé para o seu povo Israel, do guia para o bem-estar de toda nação. Ainda hoje a Torá está adaptada para ensinar a Igreja e os povos. Ela é chamada de "lei do SENHOR" ou de Javé (2 Cr 17.9; 34.14; Ne 9.3) e também de "lei de Moisés" (Js 8.31; 2 Rs 14.6; Ne 8.1), pois foi o grande legislador dos hebreus quem promulgou a lei como mediador entre Deus e o povo. Segundo Keil & Delitzsch, a divisão da lei em cinco partes, Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio, não foi obra de algum editor realizada posteriormente, mas está fundamen­ tada no plano completo do Pentateuco que deve ser considerado original. O waw conjuntivo, ou seja, a conjunção "e" em we’êleh shemôth,5"e estes são os nomes" (Êx 1.1), e em wayyiqrã’,6"e chamou" (Lv 1.1), une esses livros um ao outro, formando uma unidade literária. Os três primeiros livros mantêm a seqüência histórica linear. A revelação do Sinai termina em Levítico 27.34. Os relatos do livro de Gênesis são de natureza teológica e profé­ tica, e sua história é considerada "Torá", instrução. A estrutura essencialmente legal se concentra entre Êxodo 20 e Levítico 27, que Moisés sumariou da seguinte forma: "Estes são os mandamentos que o SENHOR ordenou a Moisés, para os I 1 6 I OS DEZ MANDAMENTOS - VALORES DIVINOS PARA UMA SOCIEDADE EM CONSTANTE MUDANÇA 3 O número entre colchetes [ ] indica o versículo na Bíblia Hebraica. 4rnin. 5nino nWi. 6
  17. 17. OS DEZ MANDAMENTOS I 1 7 filhos de Israel, no monte Sinai" (Lv 27.34). O livro de Números é o registro das jornadas no deserto, e Deuteronômio é o discurso de recapitulação sobre os quarenta anos de peregrinação no deserto que Moisés apresentou quando estava na fronteira da Terra Prometida. R. K. Harrison afirma que o termo "Torá" passou a designar todo o Pentateuco posteriormente ao exílio. Pentateuco é o termo alternativo empregado para identificar a Torá como os cinco livros de Moisés. O termo vem de duas palavras gregas: pente,7"cinco", e teuchos,sde significado amplo, como "vasilha, recipiente, urna para voto, livro". A ideia original era de instrumento, e com o tempo veio a ser usado para desig­ nar o estojo de levar rolos de papiros. Acredita-se que os judeus helenistas de Alexandria, no primeiro século d.C. empregavam o termo pentáteuchos, 9 que corresponde a expressão talmúdica chãmishãh chumeshêy-torãh,w"os cinco quintos da lei". O vocá­ bulo "Pentateuco" aparece em Tertuliano (Contra Marcião, Livro 1, 10.7) e em Orígenes, em seu comentário sobre o evangelho de João, mas logo depois disso se tornou usual entre os cristãos para designar os escritos de Moisés. 0 DECÁLOGO O Decálogo é identificado no Antigo Testamento pela expres­ são hebraica ‘ãsseret haddevãrim,11literalmente "as dez palavras". O termo só aparece três vezes na Bíblia, no Pentateuco (Êx 34.28; Dt 4.13; 10.4), traduzido por "dez mandamentos" em nossas versões, exceto na ARA (Êx 34.28). É identificado também como "estas palavras" que Javé falou (Êx 20.1; 34.27; Dt 5.22) ou ainda r néme. 8 Tfcüxoç. 9 neviáxtuxoç. 10r n lr r tín n nston. ‘•□■nrnn rntoJ.
  18. 18. "as palavras do concerto" (Êx 34.28). Estas dez palavras estão esboçadas em somente dois lugares na Bíblia, no Pentateuco (Êx 20.1-17; Dt 5.6-21). Há 17 variações no texto de Deuteronômio em relação ao Decálogo do livro de Êxodo, mas isso não altera o sentido da mensagem. Muitas delas serão explicadas no estudo específico de cada um desses mandamentos. A Septuaginta optou por traduzir dekalogos,12“decálogo", a partir de dois termos gregos: deka,13"dez", e logos,14"palavra". O termo nunca é citado no Novo Testamento em sua totalidade e os mandamentos não aparecem de acordo com a seqüência canônica (Mt 19.18, 19; Mc 10.19; Lc 18.20; Rm 13.9). O Novo Testamento, às vezes, se refere a ele como "mandamentos" (Mt 19.17; Ef 6.2). Após a Septuaginta, o termo "decálogo" só aparece no período da patrística, na Epístola a Flora, de um autor gnóstico chamado Ptolomeu, que viveu na segunda metade do séc. II., e depois em Irineu de Lião, na forma latina (Contra as Heresias, Livro IV. 15.1; 16.4), e também em Clemente de Alexandria (em sua obra Pedagogos III. 12). Depois disso, o termo se popularizou entre os cristãos. O Decálogo é a única parte do Pentateuco escrita "pelo dedo de Deus" (êx 31.18), linguagem figurada que, segundo Agostinho de Hipona, indica "pelo Espírito de Deus" e, de acordo com Cle­ mente de Alexandria, "pelo poder de Deus". É também a única porção da lei que Israel ouviu partir da voz do próprio Deus no monte quando ele transmitia essas dez palavras (Êx 19.24, 25; 20.18-20). Os demais preceitos foram transmitidos por Javé ex­ clusivamente a Moisés. Existe uma discussão acalorada sobre Êxodo 34.28: "E esteve Moisés ali com o SENHOR quarenta dias e quarenta noites; não I 1 8 I OS DEZ M ANDAMENTOS - VALORES DIVINOS PARA U M A SOCIEDADE EM CONSTANTE MUDANÇA 12AeicáA.OYO<;. 13Aéica. 14Aóyoç.
  19. 19. comeu pão, nem bebeu água, e escreveu nas tábuas as palavras do concerto, os dez mandamentos". Parece que o sujeito do verbo "escrever" é Moisés, mas o texto deve ser interpretado à luz do contexto. "O sujeito do verbo é ambíguo" (CHILDS, 1976, p. 604). Pode ser Javé ou Moisés, mas parece tratar-se do próprio Deus (Êx 34.1). Por essas duas peculiaridades, o Decálogo se reveste de um valor especial no Pentateuco, mas para o cristianismo tem o mesmo valor que qualquer outra parte do Antigo Testamento como Escritura inspirada por Deus (2 Tm 3.16). As dez palavras foram escritas pelo próprio Deus em am­ bos os lados de duas tábuas de pedra, e entregues a Moisés (Êx 31.18; 32.15, 16; Dt 4.13; 5.22; 10.2-4). Os judeus, desde Fílon de Alexandria até a atualidade, dividem os Dez Mandamentos em dois grupos de cinco, um grupo para cada tábua. Agostinho de Hipona supunha haver três mandamentos na primeira tábua e sete na segunda. Calvino e muitos da atualidade acreditam que na primeira tábua estavam gravados os quatro mandamentos relativos aos deveres do homem com Deus e, na segunda, os seis mandamentos relativos ao homem e seu próximo. Alguns interpretam que o Senhor Jesus Cristo sintetizou as tuas tábuas nos dois grandes mandamentos (Mt 22.34-40), com a ressalva do sábado, pois não há ensino no Novo Testamento para a ob­ servância do quarto mandamento. Essa questão é discutida mais adiante, no Capítulo 5. As dez palavras foram dadas a Israel logo após a libertação dos israelitas do Egito e se aplicam primariamente aos hebreus, não a toda a humanidade. Isso fica muito claro na expressão "para que se prolonguem os teu dias na terra que o SENHOR, teu Deus, te dá" (Êx 20.12; Dt 5.16), que diz respeito à terra de Canaã. E o quarto mandamento, na recapitulação em DeuteronÔmio, afirma “porque te lembrarás que foste servo na terra do Egito e que o OS DEZ MANDAMENTOS I 1 9 1
  20. 20. SENHOR, teu Deus, te tirou dali com mão forte e braço estendido; pelo que o SENHOR, teu Deus, te ordenou que guardasses o dia de sábado" (Dt 5.15). O sábado legal era o sinal do concerto en­ tre Javé e o seu povo Israel (ê x 31.13, 17). São peculiaridades do sábado no sistema mosaico que o Senhor Jesus e seus apóstolos não incluíram como parte obrigatória na fé cristã. Matar, adulterar, furtar e proferir falso testemunho já existiam nos códigos mesopotâmios e do Egito como crimes, embora os fundamentos e propósitos fossem diferentes dos revelados na lei de Moisés. Os hebreus do período Pré-Sinai sabiam que era errado desonrar a Deus pelo uso impróprio do seu nome, como era igualmente errado faltar com o respeito aos pais e cobiçar a propriedade alheia. Mas com a revelação do Sinai eles tiveram uma compreensão mais ampla desses mandamentos e passaram a entender que não se tratava de meras normas jurídicas, mas da vontade de Deus. Foi Javé quem colocou a lei no coração e na mente de todos os seres humanos, dando-lhes assim as condi­ ções necessárias para discernirem entre o certo e o errado, por meio da consciência (Rm 2.14-16). O concerto do Sinai mostra a origem divina de todos esses mandamentos. A lei de Moisés não se restringe às dez palavras. O apóstolo Paulo se refere a ela como um livro, e não como as tábuas de pedras: "Maldito todo aquele que não permanecer em todas as coisas que estão escritas no livro da lei, para fazê-las" (G1 3.10). Trata-se, portanto, do Pentateuco, pois ele não disse: "nas tábuas de pedras dessa lei". O Decálogo é parte da lei, e não a própria lei em si mesma. A declaração: "Porque a lei foi dada por Moisés" (Jo 1.17) refere-se a todo o Pentateuco, pois mais adiante é dito que Moisés escreveu acerca do Messias na lei (Jo 1.45). Quanto à divisão do decálogo, os católicos romanos e os luteranos seguiram o modelo de Agostinho de Hipona, que foi I 2 0 I OS DEZ MANDAMENTOS - VALORES DIVINOS PARA U M A SOCIEDADE EM CONSTANTE M UDANÇA
  21. 21. mantido durante a Idade Média. Os dois primeiros mandamen­ tos, "Não terás outros deuses diante de mim e "Não farás para ti imagem de escultura... Não te encurvarás a elas" (Êx 20.3-5; Dt 5.7-9), são considerados um só mandamento (o primeiro), ao passo que o décimo é dividido em dois: "Não cobiçarás a casa do teu próximo" e "Não cobiçarás a mulher do teu próximo" (Êx 20.17). Nós seguimos o sistema das igrejas reformadas, que vem dos judeus e é anterior a tudo isso (JOSEFO, Antiguidades Judaicas, Livro 3, 4.113, edição CPAD). OS CÓDIGOS Os códigos orientais eram casuísmos que se fundamentam na realidade de fatos e acontecimentos para a partir deles for­ mular suas leis. A forma casuística é a lei de precedente legal, geralmente de caráter consuetudinária, comum na legislação mesopotâmica, como os códigos de Lipit-Ishtar, Eshnunna e Ha- murabi. É a construção que emprega o recurso retórico no qual o primeiro período é condicional, conhecido como prótase, e o segundo, a apódose, só faz sentido em função do primeiro: "E será que, se ouvires a voz do SENHOR, teu Deus, tendo cuidado de guardar todos os seus mandamentos que eu te ordeno hoje, o SENHOR, teu Deus, te exaltará sobre todas as nações da terra... Será, porém, que, se não deres ouvidos à voz do SENHOR, teu Deus, para não cuidares em fazer todos os seus mandamentos e os seus estatutos, que hoje te ordeno, então, sobre ti virão todas estas maldições e te alcançarão" (Dt 28.1, 15). Veja ainda Êxodo 21.23,30; 22.8; 23.22; Levítico 5.1, 15; 19.20. Os códigos do Pentateuco são seções distintas no sistema mosaico que a crítica considera porções legais produzidas durante um longo lapso de tempo. Os críticos afirmam ter encontrado OS DEZ MANDAMENTOS ! 2 1 I
  22. 22. sete grupos: os Dez Mandamentos (Êx 20.1-17; Dt5.6-21); o que eles costumam chamar de Código da Aliança (Êx 20.22-23.33); Ritual do Decálogo (Êx 34.10-26); Código de Santidade (Lv 17- 26); Código Sacerdotal (Lv 1-16); o Código Deuteronômico (Dt 12-26); além do discurso sobre as bênçãos e as maldições (Dt 27-28). Outros expositores mais ousados chegam a afirmar que o texto se constituía dos Dez Mandamentos sem as explicações de Êxodo 20.4-6, 9-11 e DeuteronÔmio 5.9, 10, 13-15, as quais teriam sido acrescentadas posteriormente. Há, na verdade, entre os críticos judeus e cristãos mais conservadores, a ideia de que Moisés recebeu as tábuas sem as respectivas explicações, mas que Deus mandou o próprio Moisés incluí-las no livro da Lei. A novidade da crítica é que ela questiona a tradição judaico- -cristã no que diz respeito à paternidade mosaica do Pentateuco e à sua antiguidade. A fragmentação que os críticos apresentam juntamente com os seus pressupostos científicos não deve im­ pressionar ou preocupar os cristãos, pois submeter a Bíblia à ciência não nos parece sensato. A ciência modifica-se a cada nova descoberta; "o espírito científico é essencialmente uma retifica­ ção do saber, um alargamento dos quadros do conhecimento" (BACHELARD, 1968, p. 147). Muitas coisas que foram ciência no passado, hoje, não passam de bobagens; da mesma forma, o que é ciência hoje pode ser bobagem amanhã. A Bíblia, no entanto, permanece para sempre (Is 40.8). A religião cristã se fundamenta na fé e na revelação e não na ciência (Hb 11.3). Não se sabe exatamente como o texto do Pentateuco foi pro­ duzido e se desconhece também o critério adotado pelo legislador para a organização do livro. O grande problema é a falta de in­ formação de uma época tão distante. É característico da cultura oriental pensar em círculos dando ênfase ao fato ocorrido, e não à data, diferentemente da forma linear adotada no modelo oci­ 2 2 I OS DEZ MANDAMENTOS - VALORES DIVINOS PARA U M A SOCIEDADE EM CONSTANTE MUDANÇA
  23. 23. dental. A narrativa da Torre de Babel (Gn 11.1-7), por exemplo, precede cronologicamente a tabela das nações registrada em Gênesis 10; no entanto, aparece posteriormente no relato das Escrituras. Isso explica, muitas vezes, as repetições presentes nos textos bíblicos. Não se deve, portanto, fragmentar o texto atribuindo-o a diversos autores e a diversas épocas, ainda mais quando a Bíblia afirma ao longo de suas páginas a autoria mo­ saica do Pentateuco. Deus mandou Moisés escrever essas coisas num livro (Êx 17.14; 24.4-8; 34.27). A essa altura da história, os escritos eram parciais, pois a produção do texto estava ainda em andamento. Moisés escreveu as jornadas dos filhos de Israel no deserto (Nm 33.1 -49). Mas ainda está escrito que Moisés acabou de "escrever as palavras desta Lei num livro, até de todo as acabar" (Dt 31.24). Isso é ratificado em toda a Bíblia a partir da própria Torá até o Novo Testamento (Dt 31.9, 25, 26; Js 8.32-35; Jz 3.4; 1 RS 8.53, 56; Dn 9.11-13; Ml 4.4; Mt 19.7, 8; Mc 10.4, 5; Lc 5.14; Jo 1.17; 5.45-47; Rm 10.5; 1 Co.9.8, 9; 2 Co 3.15). Não há como mudar essa verdade, ainda mais com base em especulações ou interpretações sob o argumento de método científico. Assim, as sessões do Pentateuco às quais os críticos chamam de códigos são realmente detectáveis; isso não implica, contudo, a autoria de diversos autores e nem em datas posteriores. É verdade que há no Pentateuco extratos de escritores des­ conhecidos ou uma coletânea de diversos documentos, como as genealogias do Gênesis, e outros que sofreram revisão posterior por escribas e profetas igualmente inspirados, como algumas glosas, por exemplo, "e estavam, então, os cananeus na terra" (Gn 12.6); o nome "Dã" antes da formação da família de Jacó (Gn 14.14); a menção de reis em Israel, antes mesmo da conquista de Canaã (Gn 36.31); a expressão "dalém do Jordão" (Dt 1.1) enquanto Moisés nem mesmo atravessou o rio. Nada disso descaracteriza CS DEZ MANDAMENTOS 2 3 I
  24. 24. sua paternidade literária. A revelação divina foi gradativa. A au­ toridade dos massoretas posteriores do judaísmo rabínico não é a mesma dos sopherim,15"escribas", que trabalharam nas cópias e na edição dos livros no período pré-cristão. Esdras era um deles e é chamado de "escriba", sophêr16 (Ed 7.6). Os massoretas jamais ousaram modificar uma palavra das Escrituras, pois o cânon já estava fixado, uma postura diferente da dos sopherim, que eram encarregados de padronizar e revisar textos. Os livros do Antigo Testamento foram produzidos por profe­ tas, sacerdotes e sábios de Israel (Jr 18.18). Deus confiou a eles a sua revelação. A continuidade do texto, como a narrativa da morte de Moisés em Deuteronômio 34, era realizada por alguém divinamente autorizado. As glosas editoriais foram inseridas no texto sagrado por pessoas autorizadas, profetas, sacerdotes e sábios num período em que o cânon ainda estava aberto. Isso não compromete a paternidade mosaica do Pentateuco. Esses detalhes editoriais são reconhecidos pela tradição desde a antigui­ dade. Logo, não se sustentam as ideias defendidas pelos críticos liberais sobre os supostos autores do Pentateuco e as diversas datas sugeridas para a composição de cada código. Israel se rebelou contra Deus, ainda no Sinai, com o culto do bezerro de ouro. Deus renovou o concerto com os israelitas, e "estas palavras" (ê x 34.27) são as palavras do concerto descritas nos versículos 10-26. Referem-se a preceitos morais e cerimoniais do Decálogo e de outros códigos do sistema mosaico. O primeiro, o segundo e o quarto mandamentos do Decálogo reaparecem nessa renovação do concerto (Êx 34.14, 17, 21; cp. ê x 20.2-5, 8-11; Dt 5.7-19, 12-15). A guarda do sábado é o único preceito cerimonial do Decálogo, pois os sacerdotes podiam violar o sába- I 2 4 I OS DEZ MANDAMENTOS - VALORES DIVINOS PARA U M A SOCIEDADE EM CONSTANTE MUDANÇA isD-nab. 16ISO.
  25. 25. do e ficar sem culpa (Mt 12.5). Mas outros preceitos cerimoniais estão incluídos aqui: as festividades e o ritual da consagração dos primogênitos. Os críticos chamam Êxodo 34.10-26 de "Decálogo Cúltico"17e Êxodo 20.1 -17 de "Decálogo Ético". Aqui se resumem preceitos de todos os códigos da lei de Moisés. Logo, não faz sen­ tido a ideia de um texto produzido por autores diferentes durante um longo intervalo de tempo. Quanto à lei, algo precisa ser dito sobre a alegada divisão em lei moral, lei cerimonial e lei civil. Desde muito tempo qualifica- -se o Decálogo como lei moral, enquanto a parte da legislação mosaica que trata das cerimônias de sacrifícios e festas religio­ sas, entre outras, é chamada de lei cerimonial, e os preceitos de caráter jurídico são considerados lei civil. A visão tripartite da lei em preceitos morais, cerimoniais e civis não vem das Escritu­ ras. "Embora essa distinção tripartite seja antiga, seu uso como fundamento para explicar a relação entre os testamentos não é demonstravelmente derivada do Novo Testamento e provavel­ mente não é anterior a Tomás de Aquino" (CARSON, 2011, p. 179). Os judeus jamais dividiram sua lei em moral e cerimonial. Ao longo da história, eles observaram o sábado e a circuncisão com o mesmo cuidado. Jesus disse que a circuncisão está acima do sábado (Jo 7.22, 23). OS DEZ MANDAMENTOS I 2 5 1 17 Decálogo Cúltico: 1 Não farás aliança com os cananeus e nem aos seus deuses; 2 Guardarás as festas dos pães asmos; 3 Todo o primogênito é de Javé; 4 Redimirás os teus primogênitos e teus filhos; 5 Descansarás o sétimo dia da semana; 6 Três vezes no ano te apresentarás diante de Javé; 7 Não temerás a nenhum dos teus inimigos; 8 Não oferecerás coisa levedada nem deixarás para o dia seguinte o sacrifício da páscoa; 9 Oferecerás a Javé as primícias do teu fruto; 10 Não cozerás o cabrito no leite de sua mãe.
  26. 26. OUTROS DEUSES O Decálogo é monoteísta e introduz essa doutri­ na no sistema mosaico que influenciou o pensamento teológico dos antigos hebreus, vindo a se culminar com a manifestação do Filho de Deus. O monoteís­ mo aqui era uma inovação, visto que as nações da época eram politeístas. A Mesopotâmia é o berço da civilização humana e o centro irradiador da idolatria. A terra do Nilo foi grandemente afetada por essa idolatria. E Israel e seus ancestrais tiveram vínculos com as culturas mesopotâmica e egípcia.
  27. 27. Abraão veio da Mesopotâmia e a nação de Israel se formou no Egito. Como nação, Israel seguia em direção à Terra Prome­ tida, onde estavam os cananeus, idólatras como todos os seus vizinhos. A idolatria era a cultura predominante na época. Esse era o mundo religioso do Oriente Médio de então, com cultos envolvendo sacrifício de crianças e prostituição. FORMAS DE ADORAÇÃO PAGÃ São três as principais formas de adoração no paganismo do Antigo Oriente Médio: politeísmo, henoteísmo e monolatria. Foi nesse contexto que viveram os patriarcas do Gênesis e em que a nação de Israel foi formada. O politeísmo é a crença em muitos deuses. O termo deriva de duas palavras gregas, polys,18"muito", e theos,19"Deus". Era a religião dos antigos mesopotâmios, egípcios, gregos, romanos e do atual hinduísmo. O henoteísmo é uma forma primitiva de religião que admite a existência de muitos deuses; no entanto, apenas um deles tem a supremacia. O termo, aplicado em 1881 por F. Max Müller, historiador alemão das religiões, significa lite­ ralmente "um Deus", do grego heis/hen,20o numeral "um", e theos, "Deus". A forma henoteísta deve ser definida como uma crença em um Deus, mas admitindo a existência de outros deuses, como ocorre à doutrina das atuais testemunhas de Jeová. A palavra monolatria vem de monos, "único",21 e latreia,22 "serviço sagrado, culto". O termo surgiu com o orientalista ale­ mão Julius Wellhausen (1844-1918). Define-se como adoração ou culto "de uma deidade única para cada grupo étnico-político I 2 8 I OS DEZ MANDAM ENTOS-VALORES DIVINOS PARA U M A SOCIEDADE EM CONSTANTE MUDANÇA 18 IIoA.úç. 21 Movóç. 190eóç. 22 Aatpeía. 20 Eiç/év.
  28. 28. (clã, tribo, povo), não para toda a humanidade, de sorte que se admitem tantos deuses legítimos como povos" (GUERRA, 2001, p. 613). Assim, o henoteísmo deve ser entendido como uma forma de crença do qual a monolatria é o tipo correspondente de adoração. A ideia de henoteísmo e monolatria formarem um estágio intermediário entre politeísmo e monoteísmo não tem sustentação bíblica, visto que a religião original da raça humana era monoteísta. Não se conhecia a idolatria antes do dilúvio. A Bíblia afirma que todas essas formas falsas de adoração são uma degeneração do monoteísmo original (Rm 1.21-25). A IDOLATRIA DO MUNDO ANTIGO Abraão nasceu em Ur dos caldeus, cidade da Mesopotâmia (Gn 11.27-31). Seus ancestrais serviam a outros deuses (Js24.2,15). A localização geográfica é a Mesopotâmia, entre os rios Tigre e Eu- frates, no atual Iraque. Os babilônios adoravam a diversos deuses, que eram personificações da natureza, como Sin, o deus-sol de Ur e Harã; Istar, a deusa do amor e da guerra; e Enlil, deus do vento e da terra. Bel era o nome de outra divindade (do acádico, belo, "senhor"), equivalente a Baal, deus dos cananeus. Com o tempo, Bel veio a ser identificado como Marduque ou Merodaque, o patrono da cidade de Babilônia, que se tornou o principal deus no panteão babilônico (Is 46.1; Jr 51.44). Os assírios adoravam, entre outros deuses, a Adrameleque e a Nisroque (2 Rs 17.31; 19.37; Is 37.38). Os textos hieroglíficos das pirâmides enumeram cerca de duzentos deuses e relatos mitológicos. Os antigos egípcios em­ pregavam o termo Ta Neteru, "terra dos deuses", para o seu país. Havia uma proliferação de deuses e templos no Egito, e cada grande cidade contava com suas tríades de acordo com as dinas­ tias: em Ábidos, Osíris, ísis e Hórus; em Mênfis, Ptah, Sekhmet e NÃO TERÁS OUTROS DEUSES í 2 9 I
  29. 29. Nefertum, e, em Tebas, Amom, Mut e Khonsu. O templo do sol, bêth shemeshp em hebraico, "casa do sol" ür 43.13), é termo tra­ duzido por "Heliópolis" na LXX, vindo do grego, hêliou póleõs,24 "cidade do sol". Não confundir com a cidade de Bete-Semes, em judá (2 Rs 14.11). Aqui se trata da antiga cidade egípcia de Om, seu nome hebraico, ou Heliópolis, em grego (Gn 41.45, 50 LXX). A cidade era dedicada ao deus-sol, conhecido também como Rá; é a atual Tell el Hisn, 16 km ao nordeste do Cairo. Os cananeus adoravam a Baal (Jz 6.31), Baal-Berite (Jz 8.33). Seuplural é baalim. Baal era também conhecido pelas cidades onde eram cultuados: Baal-Peor, da cidade de Peor (Dt4.3; Os 9.10), Baal- -Meom, da cidade de Meom (Nm 32.38; Ez 25.9) e Baal-Zefom (Nm 33.7). Astarote ou Astarte (Jz 10.6), identificada em nossas versões como "postes sagrados", deusa cananeia da fertilidade" era deusa nacional dos sidônios (1 Rs 11.5, 33). Aparece como "bosque" na VersãoAlmeida Corrigida, "poste-ídolo" na Atualizada, e "Aserins" na Tradução Brasileira. São os ídolos de madeira e de pedras (Jr 3.9; Dt 4.28). A madeira simbolizava a fertilidade feminina, a deusa Aserá, mãe dos deuses cananeus; e a pedra representava a fertilidade masculina na religião dos cananeus. Quemos ou Camos era o deus nacional dos moabitas (Nm 21.29; Jz 11.24; 1Rs 11.7, 33; 2 Rs 23.13; Jr 48.7, 13, 46). Malcam ou Milcom (1 Rs 11.33) era o deus nacional dos amonitas. Mil- com, em hebraico milkom,25e Moloque, molech,26em hebraico, seriam dois deuses ou nomes diferentes do mesmo deus? (1 Rs 11.5, 7, 33). Parecem ser nomes alternativos. O termo malkãm27 significa "seu rei", mas a Septuaginta, a Vulgata Latina e a Peshi- ta traduzem esta palavra como nome próprio. É uma questão I 3 0 I OS DEZ MANDAMENTOS-VALORES DIVINOS PARA UM A SOCIEDADE EM CONSTANTE MUDANÇA 23 !T2. 2 6 1 ^ - 24'HÀÍou TTÓÂeuç. 27D31?!?. 25 D 3 * ? p .
  30. 30. NÃO TERÁS OUTROS DEUSES I 31 I de vocalização da palavra. As consoantes hebraicas aqui são exatamente as mesmas - mlkm) e o texto antigo era consonantal. Dagom e Baal-Zebube eram deuses dos filisteus (Jz 16.23-24; 2 Rs 1.2-3, 6,16). Os gregos do período do Novo Testamento tinham vários deuses: Zeus, o pai dos deuses; Hermes, o deus mensageiro; Afro- dite, a deusa do amor; Dionísio, o deus do vinho; Atenas, ou Pala Atenas, nascida da cabeça de Zeus, deusa padroeira da cidade de Atenas. Hesíodo, em sua obra Teogonia, a Origem dos Deuses, apresenta uma lista interminável deles. Para os romanos, o pai dos deuses era Júpiter; o deus correspondente a Hermes era Mercúrio (At 14.11-13); Afrodite era similar a Vênus e assim por diante. Esses deuses da mitologia greco-romana apresentavam os mesmos vícios e as mesmas características dos humanos: ódio, inveja, ciúme, imperfeições... eles comiam, bebiam etc. Era muito comum um homem ter o seu deus devocional, prestando-lhes cultos em particular, além de oferecer libações a outros deuses. Por isso havia nas casas romanas os penates ou nichos, espécies de altar com uma representação do deus adorado naquele lar. Em Éfeso, a deusa Diana, Ártemis para os romanos, era cultuada no templo daquela cidade, que era uma das sete maravilhas do mundo antigo. Mas os seus adoradores também tinham minia­ turas da imagem de Diana em seus penates. Demétrio, de Éfeso, era fabricante de nichos (At 19.24). Os mesmos adoradores desses deuses participavam também do culto do imperador. 0 PRIMEIRO MANDAMENTO A fórmula introdutória "Então, falou Deus todas estas pala­ vras, dizendo..." (ê x 20.1) é característica única do Decálogo, como explicou o rabino e erudito bíblico Benno Jacob: "Nós
  31. 31. não temos um segundo exemplo de tal sentença introdutória" (JACOB, 1992, p. 543). Nem mesmo na passagem paralela, a fórmula é repetida, mas aparece de maneira reduzida ao "mínimo absoluto" (CHILDS, 1976, p. 593) para se ajustar à es­ trutura da narrativa (Dt 5.5). No entanto, os outros códigos do sistema mosaico são introduzidos com um discurso de Deus a Moisés como no Código da Aliança: "Então, disse o SENHOR a Moisés"(Êx 20.22). Veja também Êxodo 34.32; Levítico 17.1; Deuteronômio 6.1. Fraseologia similar é usada para designar os Dez Mandamentos: "Estas palavras falou o SENHOR a toda a vossa congregação no monte, do meio do fogo, da nuvem e da escuridade, com grande voz, e nada acrescentou; e as escreveu em duas tábuas de pedra e a mim mas deu"(Dt 5.22), mas ela não introduz o Decálogo. Tudo isso revela a origem e a autori­ dade divina da lei. Após a fórmula introdutória, vem o que é considerado o prefácio de toda a lei: "Eu sou o SENHOR, teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão" (Êx 20.2). Alguns críticos liberais, com base numa premissa falsa sobre a composição dos diversos códigos do sistema mosaico, querem sustentar a ideia de um Deus tribal ou nacional na presente declaração. São teorias subjetivas que eles procuram submeter a métodos sistemáticos para dar uma forma acadêmica a seus pressupostos. Mas o relato da criação em Gênesis e o relato do dilúvio, por exemplo, falam por si sós sobre a soberania de Javé em todo o universo como Senhor do céu e da terra, reduzindo tais ideias a cinzas. Desde os tempos antigos, discute-se se esta declaração faz parte do primeiro mandamento. A autorrevelação de Deus aqui é significativa. Javé já se havia revelado a Moisés antes (Êx 3.14,15; 6.2, 3), mas aqui se trata de um relacionamento entre o humano e o divino, Deus e Israel. Na declaração "Eu sou o SENHOR, teu I 3 2 I OS DEZ MANDAMENTOS - VALORES DIVINOS PARA U M A SOCIEDADE EM CONSTANTE MUDANÇA
  32. 32. Deus", apesar do uso na segunda pessoa, ele se dirige à nação inteira de Israel. O nome divino está vinculado ao resgate dos israelitas da terra do Egito, a grande libertação das garras de Faraó. Esta redenção é o tema do livro de Êxodo. A "casa da servidão" é o símbolo da opressão social. O Egito era uma terra boa e abençoada, como o jardim do Éden (Gn 13.10; Dt 10.11); no entanto, passou para a história como uma caserna ou quartel de escravos. Por isso, é lembrado nas páginas da Bíblia como a "casa da servidão" (Dt5.6; 6.12; 7.8; 8.14; 13.5, 10;Js24.17; Jz 6.8; Mq 6.4). Os judeus consideram Êxodo 20.2 ou Deuteronômio 5.6 como parte do primeiro mandamento. Os três primeiros mandamentos do Decálogo dizem respeito à teologia e os demais se referem à ética. Os hebreus herdaram dos patriarcas Abraão, Isaque e Jacó o conhecimento da exis­ tência de um só Deus. O núcleo do primeiro mandamento é: "Não terás outros deuses diante de mim" (Êx 20.3; Dt 5.7). Isso aponta para o monoteísmo, apesar de alguns críticos contes­ tarem essa verdade, pois uma linha de interpretação sustenta a ideia de sistema henoteísta ou monolatria nestas palavras. Gerhard von Rad ocupa oito páginas em sua obra Teologia do Antigo Testamento para justificar esta interpretação. Ele diz: "O primeiro mandamento nada tem a ver com monoteísmo... A au- toapresentação cúltica: 'Eu sou Javé, teu Deus', pressupõe uma situação politeísta" (2006, p. 207). Assim, sua interpretação se baseia numa suposição. Von Rad considera o culto dos patriar­ cas a Javé no padrão do primeiro mandamento, mas nega ser monoteísta esta forma de adoração. Diz ainda que há inúmeros exemplos bíblicos desse suposto henoteísmo ou monolatria (Gn 31.53; Jz 11.24; 1 Sm 26.19). "O Deus de Abraão e o Deus de Naor, o Deus de seu pai, julguem entre nós. E jurou Jacó pelo Temor de Isaque, seu pai" NÃO TERÁS OUTROS DEUSES I 3 3 1
  33. 33. (Gn 31.53). O verbo "julgar", no plural yishpetü,28 "julguem" entre nós, mostra diferença entre essas divindades: o Deus de Abraão não é o mesmo de Naor. Mas no Pentateuco Samaritano o verbo está no singularyishpot,29"julgue", e da mesma forma a Septuaginta, krinei,30"julgará"; isso indica o mesmo Deus. Quem pronuncia estas palavras é Labão, de acordo com sua perspectiva politeísta que coloca o Deus de Abraão no mesmo nível da sua divindade. Naor era politeísta (Js 24.2) e jurou por seus deuses, Jacó no entanto, como monoteísta, jurou pelo Deus de Isaque, seu pai. Isso não significa que Jacó reconhecia as divindades da casa de Labão. Parece-nos forçado afirmar com base nesse relato Jacó como henoteísta ou monolátrico. "Não possuirias tu aquele que Quemos, teu deus, desapos- sasse de diante de ti? Assim possuiremos nós todos quantos o SENHOR, nosso Deus, desapossar de diante de nós" (Jz 11.24). A ignorância religiosa grassava nos dias obscuros dos juizes de Israel, um período em que não havia reis em Israel e "cada qual fazia o que parecia direito aos seus olhos" (Jz 17.6) e fraseologia similar (Jz 21.25). Foi um período de apostasia generalizada; os israelitas violavam com frequência o primeiro mandamento. Havia de tudo nessas tribos desorientadas - monolatria, heno- teísmo, politeísmo -, menos o monoteísmo do Sinai 0z 17.1-6; 18.31). Assim, a teologia sincrética de Jafé não deve surpreender a ninguém. Parece haver também uma confusão na teologia de Jefté, pois Quemos ou Camos é divindade nacional dos moabitas e não dos amonitas. Mas o território em questão era originai mente moabita é possível que o texto se refira ao período de Seom (Jz 11.18-20). I 3 4 I OS DEZ MANDAMENTOS-VALORES DIVINOS PARA UM A SOCIEDADE EM CONSTANTE MUDANÇA 2 8 1D S 0 “ KpiveX. 29 B s a í
  34. 34. NÃO TERÁS OUTROS DEUSES I 3 5 "Ouve, pois, agora, te rogo, ó rei, meu senhor, as palavras de teu servo: Se o SENHOR te incita contra mim, cheire ele a oferta de manjares; porém, se são os filhos dos homens, malditos sejam perante o SENHOR; pois eles me têm repelido hoje, para que eu não fique apegado à herança do SENHOR, dizendo: Vai, serve a outros deuses" (1 Sm 26.19). Davi pede ao rei Saul que pare com suas perseguições. Argumenta ainda que há duas razões possíveis para a inimizade entre ele e o rei: 1) Javé é quem incita Davi contra Saul; ou 2) isso vem dos homens. No primeiro caso, o problema poderia ser resolvido com uma oferta de manjares. No segundo caso, que os responsáveis sejam amaldiçoados. Davi roga a Saul "para que eu não fique apegado à herança do SENHOR, dizendo: Vai, serve a outros deuses". Em outras pala­ vras, que não o obrigue a deixar sua terra forçando-o a adorar a Dagom, pois somente Javé é o seu Deus. Israel é a sua terra, a sua herança, e ele não pretendia deixar o país. Afirmar com base nessa passagem bíblica que Javé é um Deus tribal, uma divindade nacional, é forçar a exegese. Davi mesmo declara que Javé é o Deus de toda a terra (Sl 24.1, 2). Estudos de críticos conservadores mostram que a ideia de henoteísmo no primeiro mandamento não se sustenta. Esse mandamento é considerado o mais genérico e o menos deta­ lhado do Decálogo. O rabino Benno Jacob se pronunciou sobre o assunto da seguinte forma: "Nós não podemos ajudar, mas responder porque este mandamento não era usado para prover uma lição dogmática final acerca das falsas deidades, mas isto foi precisamente o que o Decálogo procurou evitar"31(JACOB, 1992, p. 546). Ele explica. É que no Sinai só existiam Javé e Israel, e nada havia a ser dito sobre as nações e seus deuses, portanto o 31 G r ifo s o r ig in a is d o a u t o r .
  35. 35. rabino acrescenta: "Não existia outro deus para o Decálogo". A mais rudimentar regra da hermenêutica diz que nunca se deve interpretar um texto isoladamente, fora do seu contexto. Aqui, esse contexto mostra a proibição de sacrificar e servir a outros deuses é absoluta e sem concessão, o que remete ao monoteísmo (Êx 22.20; 23.13; 34.14; Dt 6.4, 14; 13.2). É assim que essas e ou­ tras passagens do Pentateuco explicam o primeiro mandamento. Existe um só Deus e Deus é um só; esse pensamento permeia a Bíblia inteira (2 Rs 19.15; Jo 17.3). Os ídolos, de fato, não são deuses (Dt 32.21; Gl 4.8). Apenas são chamados assim por existirem na mente dos seus adoradores (1 Co 8.5), mas não reais de fato. O objeto de adoração dos gentios são representações demoníacas; os pagãos adoram os próprios demônios (Lv 17.7; Dt 32.17; 1 Co 10.20). Não existe Deus além de Javé (Is 44.6; 45.5, 6). Os cristãos devem manter distância dos ídolos (1 Co 10.14; 1Jo 5.21). O monoteísmo é instituído como confissão de fé na lei de Moisés, e o Decálogo introduz esta doutrina. O monoteísmo é a crença em um só Deus, como sugere a própria palavra: monos, "único", e theos, "Deus". O termo é usado para designar a crença em um e somente um Deus. A ênfase nesta unidade contrasta de maneira visível com o henoteísmo e a monolatria, além do politeísmo. Os patriarcas do Gênesis, Abraão, Isaque e Jacó, eram monoteístas e instruíram seus descendentes nessa crença (Dt 13.6; 28.64; Jr 19.4). O Deus de Israel revelado no Antigo Testamento é o mesmo Deus do cristianismo (Mc 12.29-32). O SenhorJesus não somente ratificou o monoteísmo judaico do Antigo Testamento, como tam­ bém afirmou que o Deus Javé de Israel, mencionado em Deutero- nômio 6.4-6, é o mesmo Deus que ele veio revelar à humanidade (Jo 1.18). O monoteísmo cristão é trinitário porque a sua base é I3 6 I OS DEZ MANDAMENTOS - VALORES DIVINOS PARA U M A SOCIEDADE EM CONSTANTE MUDANÇA
  36. 36. NÃO TERÃS OUTROS DEUSES I 37 de um só Deus que subsiste em três pessoas distintas: o Pai, o Filho e o Espírito Santo (Mt 28.19). O monoteísmo judaico é cha­ mado de monoteísmo ético, pois Javé é um Deus com propósito ético e a afirmação de um só Deus é feita com base ética. Os Dez Mandamentos são chamados de "Decálogo Ético". A doutrina de Deus é uma "questão de vida ou morte", pois, Jesusdisse: "E a vida eterna é esta: que conheçam a ti só por único Deus verdadeiro e a Jesus Cristo, a quem enviaste" (Jo 17.3). O apóstolo Paulo anunciava aos gentios o mesmo Deus de seus antepassados: "O Deus de nossos pais de antemão te de­ signou para que conheças a sua vontade, e vejas aquele Justo, e ouças a voz da sua boca" (At 22.14). Veja o que ele ensina nas epístolas: "Todavia para nós há um só Deus, o Pai, de quem é tudo e para quem nós vivemos; e um só Senhor, Jesus Cristo, pelo qual são todas as coisas, e nós por ele" (1 Co 8.6); "Ora, o medianeiro não o é de um só, mas Deus é um" (Gl 3.20); "Um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, e por todos, e em todos vós" (Ef 4.6). A fé cristã não admite a existência de outro Deus além do Deus de Israel (Mc 12.32). É o monoteísmo judaico-cristão.
  37. 37. m à IMAGENS DE ESCULTURAS N o preâmbulo do primeiro mandamento Deus se identifica. O segundo mandamento é muito próximo do primeiro, ambos são de ordem espiritual e afirmam a existência de um Deus vivo, o único que deve ser adorado. Aqui Javé proíbe a adoração aos ídolos e o culto a qualquer imagem de escultura ou de pintura como objeto de adoração. É nesta forma de idolatria que o presente capítulo pretende focar.
  38. 38. Os patriarcas do Gênesis e os israelitas do deserto sabiam muito pouco sobre os atributos de Deus. A revelação divina acon­ teceu de forma gradual ao longo dos séculos, até a manifestação do Filho de Deus (Hb 1.1). Os dois primeiros mandamentos do Decálogo são os que maior impacto causaram em Israel. Deus é espírito e invisível (Jo 4.24; Cl 1.15; 1Tm 1.17) e hoje qualquer cristão sabe disso. Essa verdade é declarada na Confissão de Westminster. No entanto, foi o próprio Deus que se revelou a si mesmo sobre o seu ser e a sua natureza e nesses mandamentos temos o esboço dessa doutrina. No primeiro mandamento, Javé se identifica ao seu povo como o Deus soberano que remiu a Israel da escravidão do Egito. Aqui e no segundo mandamento, Deus revela a sua espiritualidade e ordena que somente ele deve ser adorado. Javé proíbe o uso de imagem e de qualquer representação, semelhança ou figura do próprio Deus na adoração. Essa proibição se estende também a toda e qualquer divindade falsa dos pagãos. OS ÍDOLOS E AS IMAGENS A revelação do Sinai aconteceu três meses após a saída dos israelitas do Egito. Aquela geração havia nascido e vivido na terra do Nilo até aquele momento. O Egito era um dos maiores centros de idolatria do mundo. Suas imagens de escultura e seus obeliscos impressionam o espírito humano até hoje. Esse país foi o berço da civilização de Israel, e os hebreus conviveram com a cultura dos egípcios durante muito tempo, razão pela qual deviam estar bem familiarizados com suas práticas religiosas. O profetaJeremias menciona os obeliscos e as casas dos deuses do Egito em Heliópolis muitos séculos após a promulgação da lei: "E quebrará as estátuas de Bete-Semes, que está na terra do Egito; I 4 0 I OS DEZ MANDAMENTOS - VALORES DIVINOS PARA UMA SOCIEDADE EM CONSTANTE MUDANÇA
  39. 39. NÃO FARÁS IMAGENS DE ESCULTURA I 41 e as casas dos deuses do Egito queimará" (Jr 43.13). O principal templo de Heliópolis era o de Rá, deus representado por um ho­ mem com cabeça de falcão, cuja supremacia no Egito durou mais de mil anos. Segundo os egípcios, Rá era o pai de uma família de nove deuses. Implícita estava a zoolatria - adoração aos animais pois os egípcios viam neles mais que símbolos ou emblemas; eles os consideravam receptáculos das formas do poder divino. Bete-Semes aqui é Heliópolis, uma antiga cidade egípcia de Om, seu nome hebraico, e Heliópolis, seu nome grego (Gn 41.45, 50, LXX). Situa-se atualmente 16km a noroeste do Cairo, onde se localiza o aeroporto internacional. O nome hebraico bêth shemesh significa "casa do sol", e a Septuaginta emprega hêliou póleõs, "cidade do sol" [50.13]. A Nova Tradução na Linguagem de Hoje traduz como "Heliópolis". Jeremias emprega o termo hebraico matstsêbãh32para designar "estátua", que significa "alguma coisa colocada verticalmente, coluna, pilar, estátua". O profeta se refere aos obeliscos, que são próprios do Egito (KOEHLER & BAUMGAR- TNER, vol. 1,2001, p. 621). Trata-se de um bloco de pedra postado para fins memoriais (2 Sm 18.18) ou religiosos (2 Rs 3.2; 10.26; 18.4; 23.14; Os 10.1; Mq 5.13 [12]). Os obeliscos egípcios eram ídolose também memoriais. Essa prática era proibida em Israel (Dt 16.22). Hoje, apenas oito desses obeliscos continuam de pé no Egi­ to: três no templo de Carnaque (originalmente, eram dez); um no templo de Luxor (mas havia dois, o outro está na praça da Concórdia); um no Aeroporto Internacional do Cairo, trazido de Ramessés, sua localidade original; um posto em um jardim ao lado da Torre do Cairo, trazido também de Ramessés; um na praça Matariya, no centro do Cairo, trazido das ruínas do templo do sol de Heliópolis; e o último, da 12a dinastia, está em Fayum, local 32naan.
  40. 40. em que, segundo se diz, Jacó viveu com toda a família, durante a administração de José do Egito. Existem ainda mais de dez obelis­ cos egípcios espalhados por locais variados na Europa, Vaticano, Istambul, Londres, Paris e em Nova Iorque, nos Estados Unidos, resgatados desde os romanos a partir do ano 31 a.C. 0 SEGUNDO MANDAMENTO O grande desafio de Israel era vencer a idolatria e manter a fidelidade a Javé, cumprindo o concerto do Sinai. O povo estava saindo de um contexto sociocultural completamente politeísta. Seus ancestrais lhes haviam falado sobre o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó, mas agora eles mesmos precisavam saber o que significava o compromisso de servir e adorar exclusivamente o Deus que os libertara da escravidão do Egito. A adoração a Javé devia ser algo completamente diferente dos rituais idólatras. O segundo mandamento declara: Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não te encurvarás a elas nem as servirás; porque eu, o SENHOR, teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a maldade dos pais nos filhos até à terceira e quarta geração daqueles que me aborrecem e faço misericórdia em milhares aos que me amam e guardam os meus mandamentos (ê x 20.4-6; Dt 5.8-10). Os dois termos hebraicos pessel e temunãh33dizem respeito à falsa adoração. Da palavra pessel, "imagem", deriva o verbo pãssal,34"esculpir, entalhar, lavrar" pedra ou madeira para cons­ I 4 2 I OS DEZ MANDAMENTOS - VALORES DIVINOS PARA UM A SOCIEDADE EM CONSTANTE MUDANÇA 33 b o ? e r m n n .
  41. 41. NÃO FARÁS IMAGENS DE ESCULTURA í 4 3 truir (1 Rs 5.18 [32]), escrever (Êx 34.1, 4; Dt 10.1, 3) e esculpir imagem de divindades (Hc 2.18). A Septuaginta traduziu o termo por eidõlon,35"ídolo". O termo temunãh, "forma, aparência, figura, representação, semelhança", só aparece dez vezes no Antigo Testamento (Êx20.4; Dt4.12,15,16,23,25; 5.8; Nm 12.8; Jó 4.16; Sl 17.15). Cinco vezes aparece em conexão ou paralelamente a pessel e diz respeito à proibição do uso de imagens (Êx 20.4; Dt 4.16, 23, 25; 5.8). Duas vezes é usada para esclarecer que os israelitas ouviram a voz de Javé que falava do meio do fogo no monte Sinai, mas eles só ouviram as palavras por ocasião da revelação do Sinai (Dt 4.12, 15). Três vezes é empregada de maneira independente: Moisés era o único que via a temunat YHWH,36a "semelhança de Javé" (Nm 12.8). Deus falava com ele como alguém fala a um amigo, face a face (Êx 33.11); Elifaz usa o termo para descrever uma revelação noturna (Jó 4.16) e, num paralelismo poético, a palavra é empregada de forma metafórica numa visão de Davi (Sl 17.15). O segundo mandamento diz que não se deve fazer imagem ou figura de tudo o "que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra” (Êx 20.4; Dt 5.8). Isso envolve todas as espécies de animais, aves, répteis, peixes, aves, corpos celestes, e inclui a imagem do próprio Deus (Dt 4.12-19). A menção das estátuas de macho e fêmea, "alguma escultura, semelhança de imagem, figura de macho ou de fêmea" (Dt 4.16), diz respeito às divindades masculinas e femininas. Os cananeus chamavam à madeira de pai e à pedra de mãe (Jr2.27). A madeira era o símbolo da fertilidade feminina; a deusa Aserá era a mãe dos deuses; e a pedra simbolizava a fertilidade masculina na religião dos cananeus (Dt 4.28; Jr 3.9). 35EiôwÀov. ^rnrr njan.
  42. 42. OS DEZ MANDAMENTOS - VALORES DIVINOS PARA UMA SOCIEDADE EM CONSTANTE MUDANÇA As espécies de animais mencionadas aqui (Dt 4.17-19) re­ presentavam os deuses na antiguidade (Ez 8.10). Dagom era o deus dos filisteus (Jz 16.23; 1Sm 5.7), e sua imagem consistia em metade forma de homem e metade forma de peixe. Rá era o deus- -sol, dos egípcios, e Sin, o deus-sol dos babilônios. O touro, por exemplo, era um símbolo do Egito: "Por que o deus Ápis fugiu? O seu touro não resistiu" (Jr 46.13, NVI); "Por que foi derribado o teu Touro?" (ARA). Ápis era o boi sagrado do Egito, representa­ ção de Ptah, deus da fertilidade de Mênfis. O culto do bezerro no deserto mostra que essa forma de adoração dos egípcios ainda estava no coração do povo (Êx 32.4-6; Sl 106.19, 20). As estátu­ as de Baal eram colocadas sobre touros. Esse animal era ideal para esses deuses, pois simbolizava força e fertilidade. O touro representava também outros deuses, como Baal. E, durante muito tempo, o povo judeu também se deixou influenciar pelo culto do bezerro (1 Rs 12.28-30; Os 8.5). Esses são alguns dos exemplos de divinização pagã de animais e corpos celestes. O segundo mandamento divide opiniões ainda hoje, e as interpretações são diversificadas. Os templos católicos romanos estão cheios de imagens de escultura, com fins cúlticos; por outro lado, a comunidade Amish não permite o uso de fotografia nem se deixa fotografar, pois seus membros a interpretam como produção de imagem, o que violaria o segundo mandamento. Contudo, o mandamento aqui não se refere à arte como tal. Essa proibição é específica; refere-se imagem de madeira, pedra ou metal ou forma de algum deus ou deuses das nações: "Não te encurvarás a elas nem as servirás" (Êx 20.5; Dt 5.9). Essa maneira de entender o segundo mandamento é con­ firmada ao longo do Antigo Testamento (2 Rs 21.7; Is 40.19, 20; Jr 10.14). Aqui, é uma referência à adoração (Êx 34.13, 17; Dt 27.15). O primeiro verbo tem o sentido de adorar tishthaheweh,
  43. 43. NÃO FARÁS IMAGENS DE ESCULTURA I 4 5 ou tishthahãweh,37"prostrar-se, encurvar, adorar". A Septuaginta traduz por proskyneo "adorar”,38e o termo aparece 60 vezes no Novo Testamento. O segundo verbo é ‘ãvad,39"trabalhar, servir". A Septuaginta traduziu por latreuõ,40 "prestar serviço sagrado, servir, adorar", e é o termo que aparece em Mateus 4.10. O contexto é religioso e remete à proibição de fazer imagens de escultura ou quaisquer figuras e se prostrar diante delas para as adorar. Este mandamento causou profundo impacto em Israel, de modo que a escultura é uma arte que não se desenvolveu entre os israelitas, mesmo para fins meramente culturais. Os grandes museus, como Louvre em Paris, o museu Britânico em Londres, o Neues em Berlim o Metropolitan em Nova Iorque; o museu do Cairo, entre outros, estão repletos de artes de escultura artística e religiosa, bustos de artistas, pensadores e estadistas do Egito, Mesopotâmia, Pérsia, Grécia, Fenícia e Roma, além de estátuas e estatuetas de deuses. No entanto, não existe praticamente nada nos acervos judaicos dessa natureza nesses museus. As galerias de arte estão completamente fora deste contex­ to. Trata-se de coleções de manifestações artísticas, e não é a respeito disso que fala o segundo mandamento. Os expositores da Bíblia são praticamente unânimes quanto a esta questão. Há no Antigo Testamento diversos indícios que confirmam esta in­ terpretação. Deus mesmo inspirou artistas entre os israelitas no deserto (Êx 35.30-35) e mandou Moisés levantar uma serpente de metal no deserto (Nm 21.8). O rei Salomão não encontrava artistas em Israel para a decoração do templo e do seu palácio, de modo que contratou escultores e pintores dentre os fenícios (2 Cr 2.13, 14). Ele mandou esculpir querubins na parede e tou­ 37ninnrçn (êx20.5) ournnrm n (Dt 5.9). 38ripooKwéu. 39-12SJ. “ Atrtpeúu.
  44. 44. ros e leões para decorar o templo (1 Rs 6.29; 7.29) e o palácio real (1 Rs 10.19, 20). E, quando a serpente de metal que Moisés levantou no deserto veio a ser objeto de culto com o passar do tempo, o rei Ezequias mandou destruí-la (2 Rs 18.4). 0 DEUS ZELOSO "Porque eu, o SENHOR, teu Deus, sou Deus zeloso, que visi­ to a maldade dos pais nos filhos até à terceira e quarta geração daqueles que me aborrecem e faço misericórdia em milhares aos que me amam e guardam os meus mandamentos" (Êx 20.5b-6; Dt 5.9b-10). O adjetivo hebraico qannã’,41"zeloso", aparece apenas cinco vezes no Antigo Testamento (Êx 20.5; 34.14; Dt 4.24; 5.9; 6.15), associado ao nome divino e/,42"Deus". As formulações nas cinco passagens diferem em detalhes. Nos dois textos do Decálogo e em Êxodo 34.14, as palavras ’êl qannã ’ são atributos de Javé. A menção dos deuses não acontece em Deuteronômio 4.24; 6.15. O zelo de Javé consiste no fato de ser ele o único para Israel e não compartilhar o amor e a adoração com nenhuma divindade das nações. Esse direito de exclusividade era algo inusitado na época e único na história das religiões, pois os cultos pagãos anti­ gos eram tolerantes em relação a outros deuses. O termo "zeloso" contém noções de paixão e intolerância; exprime a disposição de Javé abençoar Israel e fazê-lo prosperar, não aceitando um cora­ ção dividido. Essa linguagem é representada no relacionamento entre marido e esposa no casamento, na fidelidade (Ct 8.6) e na infidelidade (Os 1.2). As ameaças sobre as gerações daqueles que aborrecem Javé são para os descendentes que continuam envolvidos no pecado I 4 6 í OS DEZ MANDAMENTOS - VALORES DIVINOS PARA UMA SOCIEDADE EM CONSTANTE MUDANÇA 41 K 3|5.
  45. 45. NÃ O FARÁS IMAGENS DE ESCULTURA I 4 7 dos pais, as sucessivas gerações que aprenderam os pecados dos seus ancestrais e vivem ainda neles. Este princípio aparece outras vezes no Antigo Testamento além das duas passagens do Decálogo (ÊX34.7; Nm 14.18; Jr 32.18). Deus não permite que filhos inocentes sejam responsabilizados pela maldade dos pais (Dt 24.16; 2 Rs 14.6; Ez 18.2, 3, 20). O verbo "visitar",pãqad,4i em hebraico, indica uma visita, no sentido de cuidar e também de castigar. O profeta Jeremias emprega esse verbo em ambos os sentidos (Jr 23.2). A expressão "terceira e quarta geração" indica qualquer nú­ mero ou plenitude e não se refere necessariamente à numeração matemática, pois se trata de máxima comum na literatura semí- tica (Am 1.3, 6, 11, 13; 2.1, 4, 6; Pv 30.15., 18, 21, 29). O objetivo aqui é contrastar o castigo para a "terceira e quarta geração" com o propósito de Deus de abençoar a milhares de gerações. Outras máximas aparecem no Antigo Testamento com números diferentes: "dois e três” (Jó 33.29); "seis e sete" (Jó 5.19; Pv 6.16); "sete e oito" (Ec 11.2; Mq 6.5), para expressar que a medida da iniqüidade está cheia e não há como suspender a ira divina ou a plenitude de algo positivo. Os expositores da doutrina conhecida como maldição he­ reditária costumam usar de maneira isolada uma parte deste mandamento, "visito a maldade dos pais nos filhos até à terceira e quarta geração daqueles que me aborrecem", para fundamentar a sua teoria. Afirmam que, se alguém tem problemas com adul­ tério, pornografia, divórcio, alcoolismo ou tendências suicidas é porque alguém de sua família, no passado, não importa se avós, bisavós ou tataravós, teve esse problema. Nesse caso, a pessoa afetada pela maldição hereditária deve, em primeiro lugar, des­
  46. 46. cobrir em que geração seus ancestrais deram lugar ao diabo. Uma vez descoberta tal geração, pede-se perdão por ela, e, dessa forma, a maldição de família é desfeita. Uma espécie de perdão por procuração, muito parecido com o batismo pelos mortos, praticado pelos mórmons. Tal pensamento não se sustenta biblicamente; é um erro crasso. A maldição está sobre quem continuar no pecado dos pais, sobre "aqueles que me aborrecem", pontua com clareza o mandamento. Não é o que acontece com o cristão que ama a Deus. Se fomos alvejados pela graça de Deus ainda no tempo da nossa ignorância, quanto mais agora que somos reconciliados com ele? (Rm 5.8-10). Quando alguém se converte a Cristo, torna- -se nova criatura: "as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo" (2 Co 5.17). Para finalizar, convém ressaltar que, no discurso de Moisés em DeuteronÔmio, na revelação do Sinai nenhuma imagem, figura, forma ou representação foi vista pelos israelitas; eles ouviram a voz da Javé vindo do meio do fogo, mas nenhuma representação de figura foi manifestada, unicamente a Palavra (Dt 4.16,23,25). Os ídolos de madeira e de pedra dos cananeus são divindades falsas cuja adoração é terminantemente proibida (Êx 34.13; Dt 12.3; 16.21-22); Javé, entretanto, é real, mesmo que invisível (Cl 1.15; 1 Tm 1.17). "Deus é espírito" (Jo 4.24). Cultuá-lo com a mediação de imagens é colocá-lo no mesmo nível das falsas divindades, uma afronta ao verdadeiro Deus. I 4 8 I OS DEZ MANDAMENTOS - VALORES DIVINOS PARA UMA SOCIEDADE EM CONSTANTE MUDANÇA
  47. 47. /V SENHOR EM VAO A s informações sobre cada um dos dez manda­ mentos do Decálogo são fornecidas ao longo do Pen- tateuco e em muitos casos em toda a Bíblia, e aqui não é diferente. O texto não expressa de maneira explícita, mas deixa claro que diz respeito a tudo o que se refere ao nome de Deus. Há expositor que exagera ao dizer que não é possível saber o que este mandamento quer dizer com as palavras: "Não tomarás o nome do SENHOR, teu Deus, em vão; porque o SENHOR não terá por inocente o que tomar o seu nome em vão" (Êx 20.7; Dt 5.11). O contexto bíblico esclarece o que Deus está nos ensinando e mostra a abrangência do referido mandamento. Fala sobre o uso de modo trivial do nome divino, proibindo o perjúrio e toda a forma de profanação e blasfêmia do nome de Javé.
  48. 48. 0 NOME "DEUS" Os nomes de Deus não são apenas uma identificação pessoal, mas são inerentes à sua natureza e revelam suas obras e seus atributos. Não é meramente uma distinção dos deuses das nações pagãs. Quando a Bíblia faz menção do "nome de Deus", está re­ velando o poder, a grandeza e a glória do Deus Todo-Poderoso; além de mostrar seus atributos, o nome representa o próprio Deus. O nome de Deus está ligado à sua soberania e glória. Há três diferentes palavras hebraicas no Antigo Testamento para "Deus": ’êl, ’elõahe ’èlõhím.AAA Septuaginta emprega o ter­ mo grego theos, "Deus", para esses três vocábulos. Eles aparecem como nome pessoal do Deus de Israel e também como apelativos quando se referem aos deuses nas nações, razão pela qual cos­ tumamos empregar a expressão "nomes genéricos". O termo êl tem relação com ’il, ’ilu e palavras similares usadas para deidades dos antigos povos semitas. Aparecem com frequência ilu[m], ’iltu (fem.), ’ilü (pl.) nos documentos da Mesopotâmia, em acádico,45 como nomes próprios e tam­ bém como apelativos de deidade. Diversas etimologias já foram apresentadas pelos estudiosos, mas a proposta que prevalece é que ’il se deriva de uma raiz que significa "ser forte" ou "ser proeminente". É um "termo semítico muito antigo para divin­ dade" (HOLADAY, 2010, p. 20), usado para identificar o Deus de Israel (Nm 23.8). No Antigo Testamento, há 238 ocorrências de ’êl e ’êlim, (pl.) juntos, como nome alternativo de Javé (Êx 20.5; Dt 4.24; I 5 0 I OS DEZ MANDAMENTOS - VALORES DIVINOS PARA UMA SOCIEDADE EM CONSTANTE MUDANÇA 44 e E -rtK . O acádico é uma língua da antiga Mesopotâmia, falada desde o golfo Pérsico até Nínive, no norte, e substituída aos poucos pelo aramaico a partir do neoimpério babilônico fundado pelo rei Nabucodonosor.
  49. 49. 5.9); como o próprio Deus de Israel: ’êl 'êlõhêi ysrãêl,46"Deus, o Deus de Israel" (Gn 33.20) ou "El-Elohei-Israel" (TB); ’ãnôchi hã - ’ <?/ 'êlõhêi ’ãbichã, 4 7 "Eu sou Deus, o Deus de teu pai" (Gn 46.3). Vem associado a outros nomes de Deus ’êl 'elyôn, 4 8 "Deus Altíssimo" (Gn 14.19, 22); ’êl shadday,49"Deus Todo-poderoso" (Gn 17.1; 28.3). É usado também com frequência em ugarítico, mas aparece ainda em relação ao Deus de Israel e a seus atributos, como: "Deus da vista" (Gn 16.13); "Deus eterno" (Gn 21.33); "Deus ze­ loso" (Êx 20.5; 34.14); "Deus, a minha rocha” (Sl 42.9); e Deus de compaixão (Sl 99.8) etc. O substantivo ’êl e o seu plural, ’êlím, aparecem como apelativos para designar os deuses das nações (Êx 15.11; 34.14; Dt 32.12). É o nome mais usado na Bíblia para mencionar as divindades pagãs. O nome ’elõhím é plural de 'elõah e, segundo se diz, trata-se de uma forma expandida de ’<?/com a letra H. Em aramaico, é ’êlãhs0e o plural é ’èlãhínf 1o singular e o plural juntos somam 95 vezes nas porções aramaicas do Antigo Testamento. Elohim aparece 2.600 vezes no Antigo Testamento, ao passo que sua forma singular ocorre apenas 57 vezes, das quais 41 aparecem no livro de Jó, dos capítulos 3 a 40, no diálogo com os seus ami­ gos. As outras 16vezes aparecem em Deuteronômio 32.15, 17; 2 Crônicas 32.15; Neemias 9.17; Salmos 18.32; 50.22; 114.7; 139.19; Provérbios 30.5; Isaías 44.8; Daniel 11.37-39; Habacuque 1.11; 3.3. O nome Elohim apresenta os primeiros vislumbres da Trinda­ de. A declaração de Gênesis 1.1 traz o verbo no singular, "criou", e o sujeito no plural Elohim, "Deus", o que revela a unidade de Deus na Trindade. Construção similar aparece em várias partes NÃO TOMARÁSO NOME DO SENHOR EM VÃO I 5 1 I « “anto1 49 47 'nbx bxn ■pis. 48p’1?» Ss. ròs. T T '‘ pnSx.
  50. 50. do Antigo Testamento: "E disse Deus: Façamos o homem à nos­ sa imagem, conforme a nossa semelhança" (Gn 1.26); "Então disse o SENHOR Deus: Eis que o homem é como um de nós" (Gn 3.22); "Eia, desçamos e confundamos ali a sua língua" (Gn 11.7). A Trindade é vista em Elohim à luz do contexto bíblico. O Novo Testamento explicitou o que antes estava implícito no Antigo Testamento. Quando Elohim refere-se às divindades falsas traz no plural o verbo, o pronome ou o adjetivo, representando a mul­ tiplicidade. Quando, porém, aplicado ao Deus de Israel, o verbo e o seus complementos vêm geralmente no singular. Os rabinos reconheceram a pluralidade neste nome, mas, como o judaísmo é uma religião que defende o monoteísmo ab­ soluto, e não admite Jesus Cristo como o Messias de Israel, fica difícil para eles entenderem essa pluralidade. Para explicá-la, argumentam ser um plural de majestade, mas isso é uma deter­ minação rabínica posterior. A definição deplural de majestade ou de excelência, como disse, foi dada pelo rabinato posterior. Disse Shlomo ibn Yitschaki, conhecido pela sigla RASHI, grande rabino e erudito judeu (nascido em 1040): "O plural de majestade não significa haver mais de uma pessoa na divindade". Essa declara­ ção serviu para o judaísmo prosseguir sua marcha mantendo o monoteísmo absoluto sem Jesus e sem o Espírito Santo. No relato da criação e em muitas outras passagens do Antigo Testamento, Elohim é nome próprio usado como forma alter­ nativa de Javé. Segundo Umberto Cassuto,62esse nome é usado I 5 2 I OS DEZ MANDAMENTOS - VALORES DIVINOS PARA UMA SOCIEDADE EM CONSTANTE MUDANÇA 52 Moses David Cassuto, conhecido com o Umberto Cassuto (1883-1951), historiador e estudioso bíblico judeu. Desenvolveu um método de pesquisa que utiliza des­ cobertas científicas modernas para demonstrar a uniformidade do texto bíblico e assim refutou com muita propriedade a chamada Teoria da Hipótese Fragmentária. Rabino-mor de Florença, Itália, cidade onde nasceu, tornou-se professor de Hebraico da Universidade de Roma em 1933 e professor de Bíblia na Universidade Hebraica de Jerusalém a partir de 1939.
  51. 51. NÃO TOMARÁS 0 NOME DO SENHOR EM VÃO I 5 3 para se referir à ideia obscura e mais abstrata da deidade, de um Deus universal e Criador do mundo, indicando a transcendência da natureza de Deus; ao passo que Javé aparece quando as ca­ racterísticas estão claras e concretas e sugere um Deus pessoal que se relaciona diretamente com o povo. No capítulo um de Gênesis, Deus aparece como o Criador do universo físico e como o Senhor do mundo, exercendo domínio sobre todas as coisas. Tudo quanto existe veio à existência por causa exclusiva de Seu fiat, sem qualquer contato direto entre Ele e a natureza. Portanto, aplicando-se aquelas regras, aqui cabe o uso do nome Elohim (CASSUTO, 1961, p. 32). Elohim é um dos nomes próprios de Deus, mas aparece como apelativo no Antigo Testamento quando se refere a divindades falsas, por exemplo os deuses do Egito (Êx 12.2) e de outras nações (Dt 13.7,8; Jz 6.10). A palavra é usada com relação às imagens dos cultos pagãos (Êx 20.23). As Escrituras fazem uso irregular de Elohim em referência a seres sobrenaturais (1 Sm 28.13) e juizes (SI 82.6). Aparece também, cerca de 20 vezes, com relação às divindades pagãs individuais. ELION, SHADAI E ADONAI O Antigo Testamento emprega outros nomes para identificar o Deus Javé de Israel. São eles: ‘elyôn, "Altíssimo"; shadday, "Todo-poderoso" e ’ãdhonãy,S3"Senhor". O nome composto ’êl ‘elyôn significa "Deus Altíssimo". Elion designa Deus como o Alto e Excelente, o Deus Glorioso. Éum dos
  52. 52. nomes genéricos porque ele também é aplicado a governantes, mas nunca vem acompanhado de artigo quando se refere ao Deus de Israel. Abraão adorava a El Shadai, "Deus Todo-Poderoso" (Gn 17.1); e Melquisedeque, rei e sacerdote de Salém, era ado­ rador de El Elion (Gn 14.19-20). Quando Abraão se encontrou com Melquisedeque, descobriu que seu Deus era o mesmo de Melquisedeque, apenas conhecido por um nome diferente ( ê x 6.3). Em Gênesis 14.19-20, esse nome vem acompanhado de "El", mas, às vezes, aparece sozinho (Is 14.14). O Deus de Israel é também identificado como ’êl shadday, "Deus Todo-Poderoso". Shadai é o "nome de uma deidade" (KO- EHLER BAUMGARTNER, vol. II, 2001, p. 1420). Segundo Holaday, é o nome de deidade identificado com Javé (2010, p. 514); e, de acordo com Gesenius, "mais poderoso, Todo-poderoso, um epí- teto de Jeová, às vezes com El" (1982, p. 806). Aparece 48 vezes no texto hebraico das Escrituras, sete delas antecedido de El. Esse era um nome apropriado para o período patriarcal, du­ rante o qual os patriarcas viviam numa terra estranha e estavam rodeados pelas nações hostis. Eles precisavam saber que o seu Deus era o Todo-poderoso (Gn 17.1). O termo aparece com frequ­ ência na era patriarcal; só no livro de Jó ocorre 31 vezes. Êxodo 6.3 nos mostra que Deus era conhecido pelos patriarcas por esse nome. Deus se revelou primeiro aos patriarcas do Gênesis com nome El Shadai e, após o Sinai, os hebreus identificaram o seu libertador Javé com o El Shadai dos seus antepassados. As duas formas do nome hebraico ’ãdhonay ou ’ãdhônay,54"o Senhor, Adonai", aparecem no Antigo Testamento com "o" breve e com "o" longo (Is 6.1; Jz 13.8). O termo ocorre quase 450 vezes no Antigo Testamento, 310 vezes em conexão com o tetragrama I 5 4 I OS DEZ MANDAMENTOS - VALORES DIVINOS PARA UMA SOCIEDADE EM CONSTANTE MUDANÇA 54'J Í K OU ’3VtK.
  53. 53. e 134 vezes sozinho. É um nome próprio e significa literalmente "meu senhor" e, segundo Gesenius, é "somente usado para Deus" (1982, p. 12); forma "reservada como uma designação para Javé" (JENNI & WESTERMANN, vol. 1, 2001, p. 24). Adonai, "Senhor", é um nome divino e expressa a soberania de Deus no Univer­ so. A desinência -ay indica plural, como acontece com o nome Elohim; o judaísmo considera Adonai comopluralis excellentiae. É diferente de ’ãdhôn,S5"senhor, dono", referindo-se geralmente a homens, ou com o sufixo ’ãdhõní, s 6 "meu senhor", forma pela qual Sara se dirigia a Abraão e Ana se dirigia a Eli (Gn 18.12; 1 Sm 1.15, 26). Javé, o nome pessoal do Deus de Israel, é escrito pelas quatro consoantes mrP (YHWH) — o tetragrama. A escrita hebraica foi usada durante todo o período do Antigo Testamento sem as vo­ gais. Elas nada mais são do que sinais gráficos diacríticos, criados pelos rabinos entre os séculos 5 e 9, e que são colocados sobre, sob e no meio de cada consoante. Até hoje, esses sinais ajudam muito na leitura de qualquer texto hebraico; todavia, quem já conhece a língua não precisa mais deles. Êxodo 3.14 revela que Deus é o que tem existência própria, ou seja, existe por si mesmo. É o imutável, o que causa todas as coisas, é autoexistente, aquele que é, que era e o que há de vir, o eterno. Até hoje, os judeus religiosos preferem chamar Deus de "O ETERNO", como se encontra na edição de 1988 da Bíblia na Linguagem de Hoje e na edição da Sêfer da Bíblia Hebraica em lugar do tetragrama. Aqui, Deus explicou a Moisés o significado do nome Iavé. Desde o patriarca Abraão até ao período do reino dividido, era costume invocar a Javé mediante o uso do seu nome (Gn 12.8; NÃO TOMARÁS 0 NOME DO SENHOR EM VÃO I 5 5 I 55Tinit.
  54. 54. 13.4; 21.33; 1 Rs 18.24). Era necessário conhecer o nome para que se pudesse estabelecer um relacionamento de comunhão. Veja que Jacó perguntou ao anjo com quem lutava o seu nome (Gn 32.29). Manoá, o pai de Sansão, fez a mesma pergunta com o propósito de estabelecer um relacionamento espiritual (Jz 13.11- 17). Com Moisés, não foi diferente: Então, disse Moisés a Deus: Eis que quando vier aos filhos de Israel e lhes disser: O Deus de vossos pais me enviou a vós; e eles me disserem: Qual é o seu nome? Que lhes direi? E disse Deus a Moisés: EU SOU O QUE SOU. Disse mais: Assim dirás aos filhos de Israel: EU SOU me enviou a vós. E Deus disse mais a Moisés: Assim dirás aos filhos de Israel: O SENHOR, o Deus de vossos pais, o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó, me enviou a vós; este é meu nome eternamente, e este é meu memorial de geração em geração (ê x 3.13-15). Javé estabeleceu um memorial ao seu nome, anunciado aqui, mas concretizado por ocasião da promulgação da lei, quando foi oficializado o concerto do Sinai (Êx 20.24). Aqui está a base do tetragrama YHWH. No texto hebraico, encontramos a frase ’ehyeh asher 'ehyeh;57"EU SOU O QUE SOU". A substituição do “y ” de ‘ehyeh pelo w do tetragrama vem de hãwãh,58forma arcaica e sinônimo de hãyâh,59 "ser, estar, existir, tornar-se, acontecer", cuja primeira pessoa do imperfeito60 é ‘ehweh, e cuja terceira pessoa é yhweh. Na poesia hebraica, usa-se com frequência a forma reduzida I 5 6 I OS DEZ MANDAMENTOS - VALORES DIVINOS PARA UMA SOCIEDADE EM CONSTANTE MUDANÇA 57 r p r t K i B x r r n K . ^ r n n . * > r r n . 60 O verbo hebraico apresenta-se somente em dois tempos: o dà ação ou do estado per­ feito, terminado, que é o perfeito, e o da ação ou do estado não terminado, imperfeito, o qual serve ao mesmo tempo como futuro. Assim, o imperfeito aqui não é o mesmo que em nossa língua.
  55. 55. NÃO TOMARÁS 0 NOME DO SENHOR EM VÃO I 5 7 Yah. "Já é o seu nome; exultai diante dele" (Sl 68.4, TB).61 Isso pode explicar a presença da letra "a" no nome Yahweh. "Parece provável que a pronúncia original tenha sido YaHWeH, tanto por causa da forma verbal correspondente, o imperfeito de hãwãh, arcaicamente escrito yahweh, como de representações mais re­ centes desse nome em grego pelas palavras iaoue e iabe" (HAR- RIS; ARCHER, JR.; WALTKE, 1998, p. 346). A partir de 300 a.C. o nome Adonai passou gradualmente a ser mais usado que o tetragrama até que o nome Javé tornou- -se completamente impronunciável pelos judeus. Para evitar a vulgarização do nome e para que a forma não fosse tomada em vão, eles pronunciavam por reverência ’ãdhonãy cada vez que encontravam o tetragrama no texto sagrado, na leitura da sina­ goga. Na Idade Média, os rabinos inseriram no tetragrama as vogais de adhonay (HARRIS; ARCHER, JR.; WALTKE, 1998, p. 347). As vogais de 'H S ( adõnãy) são ( , = « ) ; ( = o) e (., = ã). Elas foram inseridas no tetragrama sagrado, resultando na seguinte forma: nin O resultado disso é a pronúncia "YeHoWaH". Mas os judeus ainda hoje pronunciam "Adonai" para lembrar na leitura bíblica na sinagoga que esse nome é inefável. Esse enxerto no tetragrama resultou no nome híbrido YEHOWAH, que a partir de 1520 os reformadores difundiram como "Jeová". A forma híbrida "Jeová" não é bíblica, mas foi assim que o nome passou para a cultura ocidental; aos poucos, contudo, esse nome vem sendo substituído pela forma Iavé ou Javé. Os nomes Adonai e Javé são tão sagrados para os judeus que eles evitam pronunciá-los na rua ou no cotidiano. O segundo nem 61 A forma reduzida de Yahweh é Yah. Esta palavra aparece ligada ao verbo hebraico bbn (hillêt), "louvar" (BAUMGARTNER, 2001, vol. I, p. 248). O imperativo, halelü, juntado ao Yah, forma a palavra m_y?n; (haleluyah), ou, em grego, àUriXouía, (allêlouia), "louvai a Yah!"; portanto, "louvai ao SENHOR!" ou, ainda, "Louvai a YAHWEH! .
  56. 56. mesmo nas sinagogas é pronunciado, e no dia a dia eles chamam Deus de há-shêm,62"o Nome" (Lv 24.11, TB; 2 Sm 6.2). Nos manuscritos da Septuaginta, encontramos kyrios,63"dono, senhor, o Senhor" (BALZ & SCHNEIDER, 2001, vol. I, p. 2437), no lugar de ’ãdõnã(y) e yhvh. Alguns fragmentos gregos de origem judaica apresentam o tetragrama, mas outros usam kyrios. Isso não é novidade. Jerônimo (347-420) "conhece a prática de, em manuscritos gregos, inserir o nome de Deus (Yahweh) com ca­ racteres hebraicos" (WÜRTHWEIN, 2013, p. 262). A Septuaginta, como tradução, foi submetida a revisões e recensões e, por isso, até hoje ninguém sabe qual foi exatamente o texto original ou o que foi alterado no transcorrer dos séculos. Uns afirmam que o nome kyrios é original: "Assim, no contexto de uma revisão arcaizante e hebraizante, o tetragrama parece ter sido inserido na tradução antiga no lugar de Kyrios" (op. cit., p. 262). Mas, para outros, é de origem cristã ou teria vindo dos judeus. O certo é que ambos foram usados desde a origem da tradução. 0 QUE SIGNIFICA TOMAR 0 NOME DE DEUS EM VÃO? Há diversas interpretações sobre o terceiro mandamento do Decálogo. Tomar o nome de Deus em vão, em hebraico, lashshãw‘,64"em vão" (êx 20.7; Dt 5.11), fala sobre a honra e a santificação do nome de Deus. O termo shaw ‘ aparece 52 vezes no Antigo Testamento e seu significado é vasto: "fraude, engano, inutilidade, inútil, imprestável, falsidade, desonestidade, futili­ dade, vacuidade". Seguem alguns exemplos: sem valor, "trazer ofertas vãs” (Is 1.13, ARA); sem resultado, "De nada adiantou cas­ tigar" (Jr2.30, NVI); palavras vazias, falsas, "confiam na vaidade" I 5 8 I OS DEZ MANDAMENTOS - VALORES DIVINOS PARA UMA SOCIEDADE EM CONSTANTE MUDANÇA “ d®n. 63Kúpioç.
  57. 57. NÃO TOMARÁS 0 NOME DO SENHOR EM VÃO I 5 9 (Is 59.4) ou "confiam no que é nulo" (AR A); informação falsa, falsa testemunha (Êx 23.1; Dt 5.20); além de "vaidade" ür 18.15), usado em relação aos ídolos. Alguns expositores afirmam que o significado original dessa palavra era a magia: "É possível de se imaginar que também em Israel houve épocas de propensão a fazer uso do nome de Javé para fins de práticas obscuras e nocivas à comunidade" (RAD, 2006, p. 181). No entanto, parece que o cerne deste mandamento é proibir o costume de juramento falso, pois o verdadeiro jura­ mento se fazia mediante a invocação do nome de Deus (Lv 19.12). Era uma necessidade imperiosa que todos falassem a verdade, como o dever de cada um honrar o compromisso assumido com os homens e diante de Deus. É dever de todos cumprir os votos feitos a Deus; a lei é clara sobre essa responsabilidade (Nm 30.2; Dt 23.21). Essa exigência divina se faz necessária por causa da inclinação humana à men­ tira. Era grande a falsidade no relacionamento entre familiares e amigos. Ninguém podia confiar em ninguém, já que a falta de sinceridade era a marca do povo. Não era uma questão de desvio ocasional, mas de estilo de vida (Jr 9.2-5). Uma sociedade não pode viver numa decadência dessa; a vida se torna insuportável. Mas as autoridades religiosas de Israel classificaram os jura­ mentos em duas categorias: os que podiam ser descumpridos e os que não podiam. Há uma lista deles em Mateus 5.33-37; 23.16- 22. O Senhor Jesus reprovou com veemência essa violação dos escribas e fariseus. A interpretação rabínica da época permitia violar o terceiro mandamento e fazer de conta que ele não havia sido violado. O terceiro mandamento é um apelo à santificação do nome de Deus. Na oração "Pai Nosso", Jesus nos ensinou a abrir a ora­ ção santificando o nome de Deus: "Santificado seja o teu nome
  58. 58. I 60 I OS DEZ MANDAMENTOS - VALORES DIVINOS PARA UMA SOCIEDADE EM CONSTANTE MUDANÇA (Mt 6.9). Isso nada tem que ver com a pronúncia do nome Javé. Os teólogos das testemunhas de Jeová estão equivocados ao defen­ derem a doutrina da vindicação do nome Jeová, pois o tetragrama nem mesmo aparece no texto grego do Novo Testamento. Deus é absolutamente santo, sua santidade é infinita e inigualável; ele é santo em si mesmo, em sua essência e natureza. Assim, as palavras de Jesus estão fundamentadas no Antigo Testamento (Sl 30.4; 97.12; 111.9; Is 29.23; Ez 36.20-23). Tal atributo é a ca­ racterística prima de Javé, e isso expressava o pensamento do povo. O mandamento não visa tornar o nome de Deus santo, pois ele já é santo, mas significa reconhecer e reverenciar a Deus pelo que ele é. Não se trata de uma petição para que o povo em geral reconheça isso, mas para que expresse a reverência que a sua santidade exige (Lv 11.44; 19.2; 20.7; 1 Pe 1.16).
  59. 59. 0 SABADO O quarto m andam ento é um a ponte que liga os m andam entos teológicos com os m andam entos éticos. O s três primeiros preceitos do Decálogo di­ zem respeito à responsabilidade do hom em com o Criador; os dem ais falam sobre o com prom isso do hom em com o seu próximo. A guarda do sábado fica entre esse dois grupos, pois a lei é clara em m ostrar seu caráter social e humanitário e tam bém sua função religiosa.
  60. 60. As controvérsias em torno deste mandamento se referem à sua interpretação. O que acontece é que existe o sábado insti­ tucional e o sábado legal, e quem não consegue separar estas duas instituições terminam radicalizando indo aos extremos. Esse é o principal problema dos sabatistas da atualidade, como os adventistas do sétimo dia. Todos os mandamentos do Decálogo dependem de definições e de como aplicá-los na vida diária, e essas instruções são dadas no próprio sistema mosaico. Mas as definições nem sempre são conclusivas. Por exemplo, o que a Bíblia define como trabalho? O mandamento de santificar o sá­ bado é mais bem compreendido quando se analisa o propósito pelo qual ele foi dado. 0 SÁBADO O substantivo hebraico shabbat,6B"sábado", ou sábbaton,66em grego, "sábado, semana", indica no calendário de Israel o sétimo dia da semana marcado pelo descanso do trabalho para cerimô­ nias religiosas especiais, além de significar um período de sete dias, uma semana (BAUER, 2000, p. 909). O termo shabbãtôn67 significa "sabatismo, guarda ou observância do sábado", pois a desinência -ôn é característica de substantivo abstrato. Ele aparece no relato da criação: "E, havendo Deus acabado no dia sétimo a sua obra, que tinha feito, descansou no sétimo dia de toda a sua obra, que tinha feito. E abençoou Deus o dia sétimo e o santificou; porque nele descansou de toda a sua obra, que Deus criara e fizera" (Gn 2.2, 3). Deus celebrou o sétimo dia após a criação e abençoou este dia e o santificou. Gênesis é o livro das origens de todas as coisas: I 6 2 I OS DEZ MANDAMENTOS - VALORES DIVINOS PARA UM A SOCIEDADE EM CONSTANTE MUDANÇA 65naç. 66DáppaTOv. 67]inatç.

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