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Como pregar doutrinas

Como pregar doutrinas

1 de 11
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1. A doutrina é mesmo importante? 7
2. A comunicação da doutrina por meio de passagens
bíblicas relevantes 17
3. A comunicação da doutrina por meio da teologia
sistemática 25
4. A comunicação da doutrina sob o ponto de vista
da teologia bíblica 35
5. O ensino da doutrina usando uma concordância 45
6. O ensino da doutrina usando ilustrações bíblicas 53
7. A interminável criação de princípios 63
Apêndice 1: Pregações expositivas ou pregações digressivas? 71
Apêndice 2: Esboço ou lista? 85
Bibliografia 89
Sumário
Como pregar doutrinas
A doutrina é mesmo importante?
1
Meus netos, então com dez e seis anos de idade, ao descobrir
que a tia ia dar à luz uma menina, tiveram uma reação imediata
de repugnância, com um alto e claro “Eca!”.
Quando a garotinha linda nasceu, a mãe dos meninos os
levou ao hospital para conhecerem a prima recém-nascida. Eles
não viam a hora de segurá-la, e se revezaram pegando-a no colo
várias vezes. Na verdade, nenhum dos dois queria deixar o ou-
tro carregar a menina. Ao saírem do hospital, dirigindo-se para
o carro, os dois disseram para a mãe: “Essa menininha é dez!”.
O que aconteceu com o “eca”?
Muitos cristãos reagem da mesma forma à doutrina por
não terem experimentado o encanto e a emoção de entender
as doutrinas, ou seja, os ensinamentos da palavra maravilhosa
de Deus; porque nunca as adotaram nem interagiram com elas.
Infelizmente, a doutrina está passando por tempos difíceis.
Não é algo novo ou exclusivo da nossa época. Preste atenção
neste lamento de um pastor proeminente do século XIX:
Em que os pastores evangélicos ficam aquém de seus ante-
cessores do século XVIII? Na doutrina. Não são tão comple-
tos, nem tão marcantes, nem tão firmes. Temem declarações
8 COMO PREGAR DOUTRINAS BÍBLICAS
enérgicas. Estão prontos demais a cercar, proteger e qualificar
todos os seus ensinamentos.1
Mais de um século depois,um teólogo avaliou (a meu ver cor-
retamente) o cenário moderno da seguinte maneira:
A nova busca pelo pragmatismo contemporâneo transformou
a natureza do ministério cristão, o trabalho dos seminários e o
funcionamento interno das lideranças denominacionais. Em
todos eles, a transformação prenuncia a morte da teologia. [...]
As editoras que apóiam as publicações teológicas vêem seus
recursos diminuírem continuamente.2
Qualquer um que folhear os catálogos de livros da atualida-
de percebe logo como essa observação é verdadeira. A propor-
ção de livros doutrinários é pequena em relação à infinidade de
outras categorias de publicações.
ALGUMAS JUSTIFICATIVAS (DESCULPAS!) PARA A NEGLIGÊNCIA
NA DOUTRINA
É provável que a objeção mais comum para expor a doutrina
seja a falta de relevância. A experiência é mais importante. Em
outras palavras, a doutrina não é prática. Ao longo da vida, par-
ticipei de um sem-número de cultos em capelas de seminários.
Pouca coisa me incomoda mais do que ouvir o pregador dizer:
“Hoje vou falar sobre algo totalmente prático. Deixo os ensi-
namentos (a doutrina) ao encargo dos professores”. Que de-
claração mais superficial! Esse pregador (e muitos outros) se
1
J. C. RYLE, Christian Leaders of the Eighteenth Century, p. 430.
2
David WELLS, “Seminaries and the Death of Theology”. The Dallas/
Forthworth Heritage, janeiro de 1999, p. 34, 49.
A DOUTRINA É MESMO IMPORTANTE? 9
esquece de que toda a prática deve ser baseada em doutrinas
bíblicas sólidas e que se espera que toda doutrina bíblica resulte
em práticas corretas. A sã doutrina e as experiências bíblicas
precisam andar juntas. Não se deve ter uma sem a outra.
Relevante significa “que tem relação significativa e demons-
trável com o assunto em questão”. Prático quer dizer “relaciona-
do à prática”. Quem alega que a doutrina não é relevante nem
prática usa esses dois termos indevidamente e pressupõe que
a própria Bíblia (da qual provém a doutrina) não é relevante
nem prática. É evidente que ninguém diria isso da Palavra de
Deus — pelo menos não em voz alta.
Não podemos nos esquecer do que a Bíblia afirma sobre si
mesma: “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o
ensino [extremamente doutrinária], para a repreensão, para a
correção, para a educação na justiça [extremamente relevan-
te], a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeita-
mente habilitado para toda boa obra [extremamente prática]”
(2Tm 3:16-17). A palavra traduzida por perfeito significa “pro-
ficiente e capaz de cumprir todas as exigências impostas à sua
vida”. Juntando a ênfase desses dois versículos, vemos que en-
sinam claramente que a doutrina bíblica, além de relevante e
prática, também fornece a proficiência necessárias à vida e as
atividades do cristão. O que não falta é relevância e praticidade.
Convém lembrar de que modo Paulo utilizou a doutrina como
base para o estilo de vida correto. Em Romanos, carta escrita a
uma igreja com a qual ele havia tido pouco contato até então, os
onze primeiros capítulos são repletos de doutrina cristã (peca-
do,salvação,santificação e escatologia).A partir do capítulo 12,
ele exorta e aconselha sobre particularidades necessárias para a
vida piedosa. Pode-se observar claramente essa mesma ordem
em Efésios (a doutrina,nos caps.1—3;a prática,nos caps. 4—6),
10 COMO PREGAR DOUTRINAS BÍBLICAS
em Colossenses (a doutrina, nos caps. 1—2; a prática, nos caps.
3—4) e, de modo menos evidente, em suas outras cartas (cf.
1Coríntios, Filipenses, 1—2Tessalonicenses).
Outra desculpa para negligenciar a doutrina advoga que não
devemos impor os ensinamentos doutrinários uma vez que é
difícil entendê-los. Somos aconselhados a “colocar as gulosei-
mas na prateleira mais baixa”. É um bom conselho para certas
ocasiões e para alguns tipos de público. Imagine, porém, o que
aconteceria se o seguíssemos sempre.Formaríamos cristãos cor-
cundas! Lembre-se de como os bebês crescem. Eles se apóiam
nas mãos e nos joelhos e engatinham; depois, tentam se levan-
tar usando um ponto de apoio e, finalmente, sozinhos. Para po-
derem locomover-se sozinhos, precisam exercitar-se, esticar-se
e tentar alcançar objetos em lugares mais altos. O mesmo acon-
tece com os cristãos. A fim de nos fortalecer, precisamos nos
exercitar e nos esticar. Para promover esse processo, nós que
ensinamos não devemos colocar as guloseimas sempre na pra-
teleira mais baixa.
Sem dúvida, algumas doutrinas são mais difíceis de compre-
ender. Mas isso não deve nos impedir de explorar as áreas mais
complexas dentro dos limites das Escrituras. Devemos ameni-
zar a doutrina do nascimento virginal só porque não entende-
mos plenamente como ele se deu? Ou devemos ignorar a
declaração sumária da doutrina de Cristo em 1Timóteo 3:16,
que inclui referências à sua encarnação, ressurreição e ascen-
são?3
Se, como tudo indica, esse texto fazia parte de um hino
cristão primitivo, também fazia parte do culto. Além disso,
3
“Evidentemente, grande é o mistério da piedade: Aquele que foi manifes-
tado na carne foi justificado em espírito, contemplado por anjos, pregado
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Como pregar doutrinas

  • 1. 1. A doutrina é mesmo importante? 7 2. A comunicação da doutrina por meio de passagens bíblicas relevantes 17 3. A comunicação da doutrina por meio da teologia sistemática 25 4. A comunicação da doutrina sob o ponto de vista da teologia bíblica 35 5. O ensino da doutrina usando uma concordância 45 6. O ensino da doutrina usando ilustrações bíblicas 53 7. A interminável criação de princípios 63 Apêndice 1: Pregações expositivas ou pregações digressivas? 71 Apêndice 2: Esboço ou lista? 85 Bibliografia 89 Sumário
  • 3. A doutrina é mesmo importante? 1 Meus netos, então com dez e seis anos de idade, ao descobrir que a tia ia dar à luz uma menina, tiveram uma reação imediata de repugnância, com um alto e claro “Eca!”. Quando a garotinha linda nasceu, a mãe dos meninos os levou ao hospital para conhecerem a prima recém-nascida. Eles não viam a hora de segurá-la, e se revezaram pegando-a no colo várias vezes. Na verdade, nenhum dos dois queria deixar o ou- tro carregar a menina. Ao saírem do hospital, dirigindo-se para o carro, os dois disseram para a mãe: “Essa menininha é dez!”. O que aconteceu com o “eca”? Muitos cristãos reagem da mesma forma à doutrina por não terem experimentado o encanto e a emoção de entender as doutrinas, ou seja, os ensinamentos da palavra maravilhosa de Deus; porque nunca as adotaram nem interagiram com elas. Infelizmente, a doutrina está passando por tempos difíceis. Não é algo novo ou exclusivo da nossa época. Preste atenção neste lamento de um pastor proeminente do século XIX: Em que os pastores evangélicos ficam aquém de seus ante- cessores do século XVIII? Na doutrina. Não são tão comple- tos, nem tão marcantes, nem tão firmes. Temem declarações
  • 4. 8 COMO PREGAR DOUTRINAS BÍBLICAS enérgicas. Estão prontos demais a cercar, proteger e qualificar todos os seus ensinamentos.1 Mais de um século depois,um teólogo avaliou (a meu ver cor- retamente) o cenário moderno da seguinte maneira: A nova busca pelo pragmatismo contemporâneo transformou a natureza do ministério cristão, o trabalho dos seminários e o funcionamento interno das lideranças denominacionais. Em todos eles, a transformação prenuncia a morte da teologia. [...] As editoras que apóiam as publicações teológicas vêem seus recursos diminuírem continuamente.2 Qualquer um que folhear os catálogos de livros da atualida- de percebe logo como essa observação é verdadeira. A propor- ção de livros doutrinários é pequena em relação à infinidade de outras categorias de publicações. ALGUMAS JUSTIFICATIVAS (DESCULPAS!) PARA A NEGLIGÊNCIA NA DOUTRINA É provável que a objeção mais comum para expor a doutrina seja a falta de relevância. A experiência é mais importante. Em outras palavras, a doutrina não é prática. Ao longo da vida, par- ticipei de um sem-número de cultos em capelas de seminários. Pouca coisa me incomoda mais do que ouvir o pregador dizer: “Hoje vou falar sobre algo totalmente prático. Deixo os ensi- namentos (a doutrina) ao encargo dos professores”. Que de- claração mais superficial! Esse pregador (e muitos outros) se 1 J. C. RYLE, Christian Leaders of the Eighteenth Century, p. 430. 2 David WELLS, “Seminaries and the Death of Theology”. The Dallas/ Forthworth Heritage, janeiro de 1999, p. 34, 49.
  • 5. A DOUTRINA É MESMO IMPORTANTE? 9 esquece de que toda a prática deve ser baseada em doutrinas bíblicas sólidas e que se espera que toda doutrina bíblica resulte em práticas corretas. A sã doutrina e as experiências bíblicas precisam andar juntas. Não se deve ter uma sem a outra. Relevante significa “que tem relação significativa e demons- trável com o assunto em questão”. Prático quer dizer “relaciona- do à prática”. Quem alega que a doutrina não é relevante nem prática usa esses dois termos indevidamente e pressupõe que a própria Bíblia (da qual provém a doutrina) não é relevante nem prática. É evidente que ninguém diria isso da Palavra de Deus — pelo menos não em voz alta. Não podemos nos esquecer do que a Bíblia afirma sobre si mesma: “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino [extremamente doutrinária], para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça [extremamente relevan- te], a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeita- mente habilitado para toda boa obra [extremamente prática]” (2Tm 3:16-17). A palavra traduzida por perfeito significa “pro- ficiente e capaz de cumprir todas as exigências impostas à sua vida”. Juntando a ênfase desses dois versículos, vemos que en- sinam claramente que a doutrina bíblica, além de relevante e prática, também fornece a proficiência necessárias à vida e as atividades do cristão. O que não falta é relevância e praticidade. Convém lembrar de que modo Paulo utilizou a doutrina como base para o estilo de vida correto. Em Romanos, carta escrita a uma igreja com a qual ele havia tido pouco contato até então, os onze primeiros capítulos são repletos de doutrina cristã (peca- do,salvação,santificação e escatologia).A partir do capítulo 12, ele exorta e aconselha sobre particularidades necessárias para a vida piedosa. Pode-se observar claramente essa mesma ordem em Efésios (a doutrina,nos caps.1—3;a prática,nos caps. 4—6),
  • 6. 10 COMO PREGAR DOUTRINAS BÍBLICAS em Colossenses (a doutrina, nos caps. 1—2; a prática, nos caps. 3—4) e, de modo menos evidente, em suas outras cartas (cf. 1Coríntios, Filipenses, 1—2Tessalonicenses). Outra desculpa para negligenciar a doutrina advoga que não devemos impor os ensinamentos doutrinários uma vez que é difícil entendê-los. Somos aconselhados a “colocar as gulosei- mas na prateleira mais baixa”. É um bom conselho para certas ocasiões e para alguns tipos de público. Imagine, porém, o que aconteceria se o seguíssemos sempre.Formaríamos cristãos cor- cundas! Lembre-se de como os bebês crescem. Eles se apóiam nas mãos e nos joelhos e engatinham; depois, tentam se levan- tar usando um ponto de apoio e, finalmente, sozinhos. Para po- derem locomover-se sozinhos, precisam exercitar-se, esticar-se e tentar alcançar objetos em lugares mais altos. O mesmo acon- tece com os cristãos. A fim de nos fortalecer, precisamos nos exercitar e nos esticar. Para promover esse processo, nós que ensinamos não devemos colocar as guloseimas sempre na pra- teleira mais baixa. Sem dúvida, algumas doutrinas são mais difíceis de compre- ender. Mas isso não deve nos impedir de explorar as áreas mais complexas dentro dos limites das Escrituras. Devemos ameni- zar a doutrina do nascimento virginal só porque não entende- mos plenamente como ele se deu? Ou devemos ignorar a declaração sumária da doutrina de Cristo em 1Timóteo 3:16, que inclui referências à sua encarnação, ressurreição e ascen- são?3 Se, como tudo indica, esse texto fazia parte de um hino cristão primitivo, também fazia parte do culto. Além disso, 3 “Evidentemente, grande é o mistério da piedade: Aquele que foi manifes- tado na carne foi justificado em espírito, contemplado por anjos, pregado entre os gentios, crido no mundo, recebido na glória.”
  • 7. A DOUTRINA É MESMO IMPORTANTE? 11 outras facetas do Deus-homem, da morte de Cristo e de sua ressurreição física incluem mistérios que jamais compreendere- mos plenamente. Evitar esses ensinamentos, porém, é matar de fome pessoas que precisam se alimentar da sã doutrina para amadurecer. No campo da profecia, às vezes se tem a impressão de que é um tema complicado e controverso demais para o público, e que deve, portanto, ser evitado. Porém, muitos aspectos da pro- fecia são simples e claros. Apocalipse 6:4, por exemplo, tem 33 palavras [tomando-se a versão Almeida Revista e Atualizada como referência]. Dessas 33 palavras, somente quatro têm três sílabas, e apenas uma tem quatro sílabas. As outras 28 têm uma ou duas sílabas e todas são de fácil compreensão. A palavra “unigênito”em João 3:16 é muito mais difícil de explicar do que a maioria das palavras em passagens proféticas. No crescimento cristão,como afirma Hebreus 5:12-14,o leite é apropriado para o estágio da infância, mas o alimento sólido é necessário para a maturidade. Nessa passagem, o autor deixa claro que o alimento sólido capacita o cristão a usar a Palavra para discernir entre o bem e o mal. Ao conhecer as verdades pro- fundas da Bíblia, podemos praticar a retidão. A verdade bíblica é ao mesmo tempo relevante e prática para a vida cristã.4 Uma terceira desculpa para não enfatizar a doutrina é que ela divide os cristãos. Isso é verdade, mas não constitui motivo legítimo para evitar o estudo e a compreensão da doutrina bíbli- ca. Há muitos temas que dividem igrejas e cristãos. Um assunto controverso nos dias de hoje é a variedade de estilos de culto — 4 “Mas o alimento sólido é para os adultos, para aqueles que, pela prática, têm as suas faculdades exercitadas para discernir não somente o bem, mas também o mal” (Hb 5:14).
  • 8. 12 COMO PREGAR DOUTRINAS BÍBLICAS música, grupos de louvor etc. E por que existem diversas deno- minações? Simplesmente porque grupos de pessoas entendem certos ensinamentos da Bíblia de formas distintas e consideram essas distinções importantes o suficiente para constituir uma denominação. Existem, por exemplo, pontos de vista diferentes acerca do batismo; ou que dons espirituais estão em vigor nos dias de hoje; ou ainda as diferentes formas de governo eclesiás- tico que refletem interpretações diversas de várias doutrinas. Se as divisões estão erradas, então, pela lógica, devemos todos vol- tar à Igreja Católica Romana. Ou, na verdade, devemos voltar à igreja do primeiro século. Mas até mesmo naquela época havia divisões. Lembramos imediatamente da igreja de Corinto, que sofreu divisões por causa de estilos de ministério (1Co 1:12-13), de ensinamentos fundamentais referentes à ressurreição corpo- ral de Cristo (1Co 15) e do uso apropriado da disciplina eclesiás- tica (2Co 2:5-11). No entanto, Paulo disse à igreja: “Porque até mesmo importa que haja partidos entre vós, para que também os aprovados se tornem conhecidos em vosso meio”(1Co 11:19). Partidos significa “grupos que escolhem determinados concei- tos”, que farão os aprovados por escolherem o conceito correto se destacarem dos outros. Convém lembrar, também, do desacordo e da separação evi- dentes entre Paulo e Barnabé quanto a levar João Marcos com eles na segunda viagem missionária (At 15:36-40). Esse de- sentendimento resultou de uma diferença de opiniões quanto à qualificação ou maturidade de Marcos, e cada lado acreditava estar certo. Nesse caso, Deus usou o desacordo para enviar dois grupos missionários em vez de um. Não é necessariamente errado haver divisão entre os cris- tãos. É admissível, mas nem sempre. Precisamos lembrar que as diferenças doutrinárias também promovem união, e, com
  • 9. A DOUTRINA É MESMO IMPORTANTE? 13 freqüência,isso é bom.Nossa responsabilidade é estudar,apren- der, ensinar e pregar a doutrina bíblica em sua totalidade. Aprendê-la e vivê-la. A DOUTRINA É IMPORTANTE E PRÁTICA A doutrina serve de alicerce para a vida cristã e de motivação para a atividade cristã. O chamado para a consagração total de nossa vida tem como base a doutrina segundo a qual fomos crucificados com Cristo (Rm 6:1-13). Sabendo que Deus não é parcial, não devemos dar tratamento preferencial nem a ricos nem a pobres na igreja (Tg 2:1-4). A esperança na volta do Senhor deve purificar nossa vida (1Jo 3:3).É pelo amor de Cristo (o amor dele por nós e o nosso por ele) que o deixamos contro- lar nossa vida (2Co 5:14). Ao conhecer a doutrina do julga- mento futuro somos motivados a persuadir as pessoas a aceitarem Cristo (2Co 5:10).Todas essas responsabilidades cristãs impor- tantes são baseadas em verdades doutrinárias. Só pela verdade podemos detectar os ensinamentos falsos e os estilos de vida incorretos e nos opor a eles.Os comportamen- tos relacionados em 1Timóteo 1:8-10 (rebeldia, impiedade, mentira, homossexualidade etc.) se opõem “à sã doutrina”. Ao nos aproximarmos do fim dos tempos, torna-se cada vez mais importante conhecer a sã doutrina, a fim de não oferecer às pessoas o que elas desejam ouvir para sentir coceira nos ouvi- dos em vez do que precisam ouvir para que não sejam desviados da verdade da Palavra de Deus (2Tm 4:1-4). Ensinar (doutrinar) os convertidos é parte necessária do cum- primento da Grande Comissão (Mt 28:19).5 5 “... ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado”. Ob- serve a ênfase dupla: “ensinar” (doutrina) e “guardar” (prática).
  • 10. 14 COMO PREGAR DOUTRINAS BÍBLICAS Sã doutrina significa, literalmente, doutrina saudável; assim, aprender, ensinar e pregar a doutrina promove o bem-estar e a integridade dos cristãos. A mesma palavra usada em 3João 2 para a saúde física é empregada nas cartas pastorais para a dou- trina espiritualmente sadia (1Tm 4:13,16; 5:17; 2Tm 1:13; 4:3; Tt 1:9,13; 2:1,7). Diante desses versículos, quem ousaria suge- rir que a doutrina não é prática? Observe que algumas dessas passagens são dirigidas a Timóteo; mas também se aplicam de maneira especial a pastores e líderes (1Tm 4:13,16; Tt 2:1,7). Algumas implicações práticas e importantes resultam da re- levância da doutrina.Em primeiro lugar, é preciso entender que toda pessoa tem um sistema doutrinário, mesmo que não se dê conta desse fato ou não o admita. Pode ser algo sistemático, desorganizado ou até mesmo desleixado, mas todos nós opera- mos com base em algum esquema doutrinário. É evidente que tanto o ateu liberal e o agnóstico quanto os calvinistas e os ar- minianos mais estruturados têm seus sistemas. Por isso, o pre- gador e o professor, o profissional e o leigo precisam ler sobre teologia não importa o tipo, lugar ou nível de seu serviço. Em segundo lugar, jamais devemos menosprezar a impor- tância da semântica. Quantas vezes ouvi um aluno tentando racionalizar uma declaração medíocre ou inexata dizendo: “É só uma questão de semântica”. Esse tipo de resposta serve, su- postamente, de desculpa para a escolha de uma palavra impre- cisa,desleixada e,por vezes,incorreta.Esse aluno está mais certo do que imagina quando diz que é uma questão de semântica, pois tudo o que dizemos e escrevemos e até o que pensamos é de caráter semântico. A semântica compreende o estudo dos significados das palavras; portanto, as palavras que emprega- mos afetam o significado que estamos tentando expressar. As- sim,ao estudar,pensar,ensinar,pregar e viver a Palavra de Deus,
  • 11. A DOUTRINA É MESMO IMPORTANTE? 15 devemos cuidar para que as palavras que usamos na comunica- ção sejam precisas, claras e corretas. Gostaria de concluir com um fato que exige reflexão séria: aquilo que ensino hoje se tornará parte da formação de pessoas, igrejas e missões amanhã. Uma vez que a doutrina das Escrituras é tão importante e re- levante, como comunicá-la de modo a gravar na mente e no co- ração e manifestá-la em nossa vida? É o que veremos a seguir.