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  1. 1. 0INSTITUTO PRÓ SABERJAN CARLOS DIAS DE SANTANAO USO DOS VERBOS HAVER E TER EM ESTRUTURAS EXISTENCIAIS: DOPORTUGUÊS ARCAICO AO PORTUGUÊS FALADO NO BRASILFeira de Santana2011
  2. 2. 1JAN CARLOS DIAS DE SANTANAO USO DOS VERBOS HAVER E TER EM ESTRUTURAS EXISTENCIAIS: DOPORTUGUÊS ARCAICO AO PORTUGUÊS FALADO NO BRASILTrabalho de Conclusão de Curso, sob a forma deArtigo Científico, apresentado ao Instituto PróSaber, como requisito parcial obrigatório paraconclusão do curso de Pós-Graduação Lato Sensuem xxxxxxxx.Orientadora: Profa. Eliana PitomboFeira de Santana2011
  3. 3. 2O USO DOS VERBOS HAVER E TER EM ESTRUTURAS EXISTENCIAIS: DOPORTUGUÊS ARCAICO AO PORTUGUÊS FALADO NO BRASILJan Carlos Dias de Santana1RESUMOEsta pesquisa busca mostrar a variação haver/ter em estruturas existenciais do português, a partir de um estudobibliográfico e documental, expõem-se amostras de textos antigos e um referencial teórico embasado naLinguística Histórica. Verificou-se o uso de tais verbos na variedade arcaica do português e como a variação étratada por gramáticos brasileiros. Os resultados revelam que tal variação realmente ocorre desde o períodoarcaico da língua portuguesa, então foi desde essa época que já se apontava o fato de que a variação haver/terdesencadearia nos dias atuais um processo de mudança linguística, ocorrendo, quiçá, uma implementação daforma inovadora num futuro próximo.Palavras-chave: variação haver/ter; construções existenciais; português.INTRODUÇÃODe acordo com os estudos de alguns filólogos e linguistas historiadores da línguaportuguesa, o verbo ter, tradicionalmente utilizado em estruturas de posse, ganhou o traçosemântico de existencial, no decorrer da história da língua. Dessa forma, este verbo sedifundiu em estruturas existenciais, entrando em concorrência com o haver, tradicionalmenteexistencial.Neste sentido, a variação haver/ter em estruturas existenciais pode ser já documentadana Carta de Caminha (1500), na qual se detecta uma sentença em que ter pode receber umainterpretação existencial. Em seu estudo sobre o uso do ter sobre haver nos meados do séculoXVI, Mattos e Silva (2002a) examina a Obra pedagógica e as Décadas de João de Barros.Neste estudo, a autora encontra evidências da variação haver/ter como verbo existencial. Emoutro estudo sobre os verbos haver e ter, Mattos e Silva (2002b) analisa as Cartas de D. JoãoIII entre 1540 e 1553. Neste trabalho, a referida autora revela que “o verbo existencial, porexcelência, tal como ocorre por todo o período arcaico, é o verbo haver.” (p. 155), porém,também há ocorrências em que o ter pode formar parte de estruturas existenciais.1Especialista em Estudos Linguísticos, pela Universidade Estadual de Feira de Santana (2011); Graduado emLetras com Espanhol, pela Universidade Estadual de Feira de Santana (2009); Professor do Instituto Pró Saber eda Faculdade Regional de Filosofia, Ciências e Letras de Candeias; Membro do Grupo de Pesquisa Constituição,Variação e Mudança do/no Português (UEFS/CNPq/FAPESB) e Colaborador do Núcleo de Estudos em LínguaPortuguesa (NELP- BA).
  4. 4. 3Tratando-se do Brasil, a variação no uso de ter e haver em sentenças existenciais éfrequente na modalidade escrita da língua e, principalmente, na falada. Mas é importanteressaltar que há uma diferença em relação à frequência desta variação entre as duasmodalidades, visto que a língua escrita seja mais conservadora e preserva o uso do haver, já overbo ter é empregado em boa parte das construções existenciais na modalidade oral dalíngua.Nosso trabalho apresenta uma contextualização histórica dos verbos haver e ter nalíngua portuguesa. Do período arcaico, passamos pelo cenário brasileiro, além de trazermosalgumas informações sobre o uso de tais verbos na perspectiva da literatura gramaticalbrasileira. Por fim, à guisa de conclusão, apresentamos as considerações finais quanto aosresultados encontrados na pesquisa.ALGUNS ESCLARECIMENTOS SOBRE OS VERBOS HAVER E TEROS VALORES DOS VERBOS “AVER” E “TEER” NO PORTUGUÊS ARCAICOOs verbos aver e teer1, na história da língua portuguesa, experimentaram estruturassintático-semânticas diversas, tais como: estruturas de tempo composto; estruturaspossessivas; estruturas existenciais.Segundo Mattos e Silva (1996), nas estruturas de posse, a natureza semântica docomplemento verbal condicionava as ocorrências de teer e aver. Havia três tipos semânticospara o complemento, a saber: Propriedades inerentes (PI) ao possuidor como em: - barvas; -ceguidade; - cinqüenta anos...; Propriedades adquiríveis imateriais (PAI), morais, espirituais,intelectuais, afetivas, sociais, como em: - fé; - graça; - poderio; -poder; - ira...; Propriedades adquiríveis materiais (PAM), objetos materiais externosao possuidor, como em: - remédio; - mezinhas; - carneiros; -ovelhas...2A partir da análise da referida autora dos corpora Obra Pedagógica3, Primeira eSegunda Décadas da Ásia de João de Barros e as Cartas de D. João III (escritas entre 1541 a1O verbo aver era escrito sem o ‘h’ gráfico-etimológico e o verbo teer ainda sem a representação gráfica dafusão dos vogais idênticas.2MATOS e SILVA, 2002a, p. 125.3Edição de um conjunto de obras, a saber: Grammatica da língua portuguesa (GLP), Ortografia (ORT), Diálogoem louvor da nossa linguagem (DLNL), Diálogo da viciosa vergonha (DVV).
  5. 5. 41551), foi constatado que a difusão de teer nas estruturas possessivas se iniciou nos contextosdo tipo PAM, depois PAI e, por fim, no contexto de tipo PI. O uso de aver como verbo deposse seria resíduo arcaizante, ocorrendo em contextos sedimentados pela tradição comexpressões fixas como aver por bem – aver por meus serviços – sancta gloria aja, vejaexemplos:(1) e lhe dires de minha parte que eu ey por bem que ele os tenha,pera lhos dar quando em bõa ora ordenar (Carta 329 de 1541)(2) Como tinha ordenado que fosse, ouve por bẽ de ẽcarregar decapitãao do gualeão Sam Miguel (Carta 368 de 1551)(3) por que assy averey por muito meu serviço (Carta 323 de 1541)(4) Ey por meu serviço arrematarse o dito trato por algữus anos(Carta 355 de 1552)(5) Devemos de lembrar o que me dizieis pera me dever de cõsolar dofalecimẽto da princesa, minha filha, que santa gloria aja (Carta 335de 1548)4Dessa maneira, o verbo aver, no português arcaico, manteve o sentido de “possuir”,assim como o hăbērĕ latino, porém perdeu espaço para teer. Mattos e Silva (1996), ao estudaro tempo composto com os verbos haver/ter + particípio passado, nos revela que,provavelmente, no final do século XV era pouco usual esta estrutura na língua portuguesaapós examinar a Carta de Caminha, um testemunho lingüístico da época, e encontrar umaúnica ocorrência desta estrutura:(6) ...epor ele nõ teer ajnda comjdo poseranlhe toalhas e veolhevianda e comeo (fol. 10v, 10-11)5No entanto, a autora observou que em mais duas passagens onde o tempo compostopoderia ocorrer, o escrivão usou tempo simples:(7) ...lancamos amcoras em dirto daboca dhuữ rrio e chagariamosaesta amcorajem aas X oras pouco mais ou menos (fol. 1v, 15-17)[teríamos chegado](8) ...amdauam pela praya obra de bij ou biij sego os naujos pequenosdiseram por chegaram primeiro... (fol. 1v, 18-19) [terem chegado]64idem, 2002b, p. 151.5idem, 1996, p. 188.6idem, ibidem, p. 188-9.
  6. 6. 5Uma provável explicação do não uso do tempo composto, nesses contextos, seria o fatode o verbo “chegar” ser da classe dos verbos ergativos7. Na Carta, há ainda casos em que overbo é transitivo e ao invés de utilizar o tempo composto com o particípio passado precedidoou seguido de haver/ter, Caminha prefere o mais-que-perfeito simples, como em:(9) ...cõ huữ paao dhuữa almaadia que lhes o mar leuara (fol. 5v, 5-6)[tinha levado](10) ...ante dise ele que lhe tomara huữ deles huữas continhas (fol.8v, 29-30) [tinha tomado]8Já em meados do século XVI, a partir dos documentos analisados dos referidos corpora,Mattos e Silva (2002a, 2002b) verifica que em João de Barros, o teer é “verbo vitorioso” paraexpressões referentes ao passado e que o aver é mais usado em tempos futuros, não sendoencontrado ocorrências deste verbo em estruturas de particípio passado. Predomina no uso deteer + particípio passado de verbos [+ transitivo] a não-concordância do particípio passadocom o complemento direto (cf. (11) a (13)), como também ocorrem sequências em que osescrivães das Cartas variam na concordância (cf. (14) a (17)). É importante salientar que, noséculo XVI, o verbo ser era mais usado como auxiliar de tempo composto de verbos [-transitivo], como ocorre nas Cartas de D. João III (cf. (18) e (19)):(11) nem por eu ter dirigido a su´alteza o trabalho (DLNL 390, 12)(12) Como ô tem feito em os estudos de Coimbra (DLNL 409, 23)(13) a que tinha prometido dar (DVV 459, 3)9.........................................................................................................................(14) que vos deve teer apresentada [sua provisom] (Carta 331 de1541)(15) ...e que, tendo jaa assentada a gente que tenho mandado que vaanella, vão algữus cõ allvaraes meus pera se assentarem. (Carta 326 de1542)7Verbos do tipo morrer, nascer, partir, chegar, etc.8idem, ibidem, p. 189.9idem, 2002a, p. 131-2.
  7. 7. 6(16) pois já tendes dadas a Vosso Senhor as graças (Carta 335 de1548)(17) o que Nosso Senhor quis que fose feito, e de que elle vos játendes dado por isso muytas graças (Carta 335 de 1548)(18) Fernam d´Alvarez me deu conta que a armada da Malageta erachagada a essa cidade (Carta 323 de 1541)(19) Vi a carta que me escrevestes de XI d´este mes de março, e porella soube como erã partidas as quatro naos pera Índia (Carta 363 de1551)10Tratando-se das estruturas existenciais, ponto relevante desta proposta de estudo,podemos dizer que no período arcaico do português concorriam nesse contexto os verbos seere aver. O uso do seer, como existencial, seguia a norma latina e o aver “transformou-se” deverbo de posse para existencial, conforme Grandgent (1952, apud MATTOS e SILVA, 2002a,p. 135). Em seus estudos, a partir de dados do século XIII, a referida autora encontrapredominância de seer como verbo existencial e o uso relativo de aver. Ribeiro (1993),encontrou passagens do uso de teer, aver e seer em orações existenciais na obra d´OsLusíadas, de Camões:(20) ... e assim caminhaPara a povoação, que perto tinha (Lus. V, 29)Que aqui gente de Cristo não havia (Lus. I, 102)Um Rei, por nome Afonso, foi na Espanha (Lus. III, 23)11No século XIV, fica evidente a preferência pelo aver e raro o uso de seer existencial.Analisando a Carta de Caminha, registro do final do século XV, Mattos e Silva (1996)encontra 24 ocorrências de aver em estruturas existenciais, nem uma do verbo seer e, ainda,ressalta uma ocorrência em que o teer pode receber interpretação existencial:(21) ...se metiam [eles] en almaadias duas ou tres que hy tiinham(fol. 5, 31-32)1210idem, 2002b, p. 154.11RIBEIRO, 1993, p. 373.12MATTOS e SILVA, 1996, p. 187.
  8. 8. 7No exame da Obra Pedagógica e amostras da Primeira e Segunda Décadas, João deBarros, de meados do século XVI, Mattos e Silva (2002a), encontra evidências da variaçãohaver/ter como verbo existencial:(22) Temos mais este verbo [h]ei, [h]ás que é de genero diverso pelooficio que tem. Quando se ajunta com nome soprimos muitos verbosda língua latina que a nossa não tem: [h]ei vergonha, [h]ei medo,[h]ei frio e outros muitos significados que tem quando ô ajuntamos anomes substantivos desta calidade. (GLP 327, 9 – 328, 2).(23) Ésta lêtera N àçera de nós sérve no prinçipio e fim da sílaba enunca em fim de diçam... E muitos vezes o til ô escusa do seutrabalho quando é final de sílaba, como faz ao m. Tem máis, que àsvezes se quer dobrado em algữas dições que reçebemos dos latinos,como anno.(24) Porque partido Antã Gõçalve teue no caminho hữu temporal tãgrande, que dizia Baltazar que já vira o q desejaria, mas não sabia seo poderia contar. (Déc. I, 31, 5)(25) Concentrou-se com o infante dom Anrique sobre o que nellas[nas ilhas] tinha, e elle passouse a ilha de Madeira onde assentou suauiuienda (Déc. I, 46-38)13Esses indícios de teer existencial nos meados do século XVI também já apontam nasCartas de D. João III, coetâneo do ortógrafo João de Barros, ressaltando que o verboexistencial, por excelência, como ocorre em todo o período arcaico, é o verbo aver. Eis osexemplos:(26) por que tenho Recado que no Cabo de Geez nõ he necessáriamais gente da que tem (Carta 323 de 1541)(27) Mandovos que ffaçais asentar o dito dom Pedro de Sousa nolivro da dita matricola, no tijolo dos fidalgos cavaleyros, com a ditamoradia e cevada, Riscandose primeiro o asento d´escudeiro que temno dito livro (Carta 370 de 1557)14Assim sendo, de acordo com este esboço histórico, concluímos que, já no períodoarcaico da língua portuguesa, conviviam como verbos existenciais o ser arcaizante, o haver deuso regular e o emergente ter.13idem, 2002a, p. 137-8.14idem, 2002b, p. 156.
  9. 9. 8AS ESTRUTURAS EXISTENCIAIS NO PORTUGUÊS BRASILEIROAlguns estudos sobre o português brasileiro (PB) têm revelado que a variaçãohaver/ter, em estruturas existenciais, constitui uma das marcas que o caracteriza, porém, “taluso não constitui brasileirismo como julgam alguns, mas é herança arcaica que se projetou”.(BUENO, 1958, p. 208).Dessa forma, criaram-se condições para que o verbo ter ocupasse o lugar do haver emorações existenciais, originando um processo de competição semântica. Esta variação ocorrena modalidade escrita da língua e, principalmente, na falada porque esta modalidade setransforma mais rápido (cf. AVELAR, 2005; VITRAL, 2006; LEITE; CALLOU &MORAES, s/d.).Assim sendo, a variação haver/ter, em estruturas existenciais, está em situação demudança por causa do processo de “esvaziamento semântico” de haver na concorrência com overbo ter. Para Paiva & Duarte (2003, p. 15), “a conseqüência última dessa concorrênciapoderá ser a substituição da forma antiga pela forma nova, que se tornará categórica noâmbito de toda a comunidade de fala. [...] se espalhando por todos os grupos sociais.” Asmudanças linguísticas ocorrem em circunstâncias e segundo modalidades classificáveis,havendo a necessidade de estabelecer tipos gerais de circunstâncias, modalidades efinalidades no que diz respeito ao nível genérico da mudança. (COSERIU, 1979, p. 176 apudMATTOS e SILVA, 2008, p. 173)Conforme Silveira (apud NASCENTES, 1953, p. 162), quatro são as circunstânciasque podem explicar o uso impessoal de ter: (i) uma construção frasal em que ter tem sujeitoque não aparece logo, dando a impressão de impessoalidade; (ii) equivalência das frases nãohá dúvida, não existe dúvida, não tem dúvida; (iii) “cruzamento” semântico; (iv) uso dasegunda pessoa com sentido indefinido.Para Nascentes (1953),A substituição de haver impessoal por ter nada apresenta de espantoso. Asignificação primitiva de haver é ter (cfr. ital. avere, fr. avoir). Haver foiperdendo esta significação que depois do século XVII a perdeu de todo. Emcompensação ter foi invadindo a esfera de haver a ponto de substituí-loquase completamente na formação dos tempos compostos. Não admira queusurpasse também a função impessoal (NASCENTES, 1953, p. 163).
  10. 10. 9No português brasileiro contemporâneo, o verbo ter vem ocupando o posto de verboexistencial, saindo-se vencedor do canônico haver, ou seja, “[usurpando-se] também dafunção impessoal”.VARIAÇÃO HAVER/TER NA LITERATURA GRAMATICAL DO BRASILA gramática trata dos fatos da linguagem e, segundo a concepção prescritiva15,podemos dizer queGramática normativa é aquela que estuda apenas os fatos da língua padrão,da norma culta de uma língua, norma essa que se tornou oficial. Baseiam-se, em geral, mais nos fatos da língua escrita e dá pouca importância àvariedade oral da norma culta. [...] apresenta e dita normas de bem falar eescrever, normas para a correta utilização oral e escrita do idioma, prescreveo que se deve e o que não se deve usar na língua. Essa gramática é maisuma espécie de lei que regula o uso da língua em uma sociedade(TRAVAGLIA, 1996, p. 30-31).Desse modo, no tocante à variação haver/ter, em estruturas existenciais, a maioria dasgramáticas normativas consultadas consideram-na um erro, veja um exemplo:Dos quatro verbos auxiliares, somente ter não poder ser impessoal; constituierro grave, e todo o possível devemos fazer para evitá-lo, em empregar overbo ter com significação de existir. Não devemos permitir frases comoestas: “Não tem nada na mala.” (em vez de: “Não há nada...) – “Não tem deque.” (em vez de: “Não há de que”) – “Não tem lugar” (em vez de: “Não hálugar”) (ALMEIDA, 1975, p. 431).Alguns normativistas chegam a mencionar sobre tal variação, alegando ser uma“particularidade” do português não-padrão, como em Cegalla (1978) que afirma que “nalíngua popular brasileira é generalizado o uso de ter impessoal por haver, existir.” (p. 302) Já“na linguagem coloquial do Brasil é corrente o emprego do verbo ter como impessoal, àsemelhança de haver.” (p. 127). E para Bechara (1987),Na linguagem familiar do Brasil é freqüente o emprego do verbo ter comoimpessoal, à maneira de haver: Há bons livros na biblioteca/tem bons livrosna biblioteca. Em tal construção parece ter-se originado uma mudança naformulação da frase. A biblioteca tem bons livros, auxiliada por váriosoutros casos em que haver e ter têm aplicações comuns (BECHARA, 1987,p. 210).15Outra concepção de gramática é aquela considerada descritiva porque descreve o funcionamento de umalíngua, levando em consideração os fatos orais.
  11. 11. 10Assim sendo, na língua portuguesa, no que se refere aos verbos existenciais, a normaideal, como prescrevem as gramáticas, está se distanciando da norma real porque uma línguanão é um sistema fechado. Conforme Bagno (2005), “existe uma pressão muito grande dosdefensores da norma-padrão de fazer com que ela fique inalterada, compacta e sólida”.(p.167) Mas, mudanças ocorrem na língua ao longo de sua existência devido às variedades [-cultas] que sobem lentamente na escala social e vão sendo assimiladas pelos falantes [+/-cultos], até serem incorporados pelos falantes [+ cultos] na sua variedade.De maneira geral, as variedades utilizadas pelos falantes mais escolarizados sempreapresentam uma boa parcela de conservadorismo e inovações linguísticas. São essasinovações que os normativistas encaram como “erros”:Quando as mudanças se cristalizam nas variedades [+ cultas] e deixam seser percebidas como “erros”, quando os falantes dessas variedades aceitamsem resistência essas novas formas lingüísticas, elas acabam seincorporando à norma-padrão, passam a integrar o ideal imaginário delíngua “certa”, e ganham até status de regra obrigatória (BAGNO, 2005, p.171).É por isso que o uso de ter como verbo existencial não é considerado nos compêndiosgramaticais, porque ainda não se transformou em norma-padrão.CONSIDERAÇÕES FINAISBuscamos verificar, neste trabalho, como se configura a variação haver/ter emestruturas existenciais. O estudo evidencia que tal variação é recorrente desde o portuguêsarcaico, como é exemplificado por meio de trecho de textos antigos, continuando no falar dobrasileiro e, na fala e escrita informal do dia-a-dia, é perceptível que o verbo ter ocupa o postode verbo impessoal na maior parte das ocorrências de orações existenciais, ou seja, a variaçãohaver/ter na variedade estudada confirma a hipótese que é recorrente a alternância de taisverbos em contextos existenciais na língua portuguesa, e pesquisa sociolinguísticas relatamque está havendo, consistentemente, indícios de uma mudança linguística em curso.Por fim, o nosso objetivo é contribuir para o estudo da variação haver/ter emestruturas existenciais, a fim de mostrar que essa variação ocorre no Português Brasileiroporque é fruto de uma variação que já vinha ocorrendo desde o período arcaico da línguaportuguesa. Esperamos, também, ter contribuído para um melhor entendimento docomportamento linguístico.
  12. 12. 11REFERÊNCIASAVELAR, Juanito. Gramática, competição e padrões de variação: casos com ter/haver ede/em no português brasileiro. Campinas, SP: 2005. Disponível em:<http://www.geocities.com/gt_teoria_da_gramatica/download/anpoll2005_juanito.pdf>.Acesso em 4 dez. 2008.CÂMARA JR., Joaquim Mattoso. Dicionário de lingüística e gramática: referente à línguaportuguesa. 22 ed. Petrópilos, RJ: Vozes, 2001.DUARTE, Maria Eugênia Lamoglia. O sujeito expletivo e as construções existenciais. In:RONCARI, Cláudia; ABRAÇADO, Jussara (orgs.). Português brasileiro: contatolingüístico, heterogeneidade e história. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2006. p. 123-131.DUTRA, Cristiane de Souza. Ter e haver na norma culta de Salvador. Dissertação(Mestrado em Letras e Lingüística) Salvador:UFBA, 2000. MímeoFARACO, Carlos Alberto. Lingüística Histórica: uma introdução ao estudo da história daslínguas. São Paulo: Parábola Editorial, 2005.FARACO, Carlos Emílio; MOURA, Francisco Marto. Gramática Língua e Literatura.Volume único. São Paulo: Ática, 1999.GOMES, Henriette Ferreira; LOSE, Alícia Duhá. Documentos científicos: orientações paraelaboração e apresentação de trabalhos acadêmicos. Salvador: Edições São Bento, 2007.LEITE, Yonne; CALLOU, Dinah; MORAES, João. Processos de mudança no português doBrasil: variáveis sociais. In: CASTRO, I.; DUARTE, I. Razões e Emoções. Miscelânea deestudos em homenagem a Maria Helena Mira Mateus. Vol 1. Lisboa, ImprensaNacional/Casa da Moeda, s/d. 87-114. Disponível em:<http://www.letras.ufrj.br/posverna/docentes/62341-1.pdf> Acesso em: 4 dez. 2008.OLIVEIRA, Luciano Amaral. Manual de sobrevivência universitária. Campinas, SP:Papirus, 2004.OSÓRIO, Paulo. Lingüística histórica e história da língua: aportações teóricas emetodológicas. Lisboa, s/d. Disponível em:<http://www.fflch.usp.br/eventos/simelp/new/pdf/slp04/01.pdf> Acesso em: 4 dez. 2008.MATTOS E SILVA, Rosa Virgínia. Estruturas trecentistas: elementos para uma gramáticado português arcaico. Lisboa: IN-CM, 1989.MATTOS E SILVA, Rosa Virgínia. O português arcaico: morfologia e sintaxe. São Paulo:Contexto, 1993.MATTOS E SILVA, Rosa Virgínia. A variação haver/ter. In: A Carta de Caminha:testemunho lingüístico de 1500. MATTOS e SILVA, Rosa Virgínia (org.). Salvador:EDUFBA, 1996. p. 181-194.
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  14. 14. 13APÊNDICES(COLOCAR SE HOUVER DOCUMENTOS ELABORADOS PELO AUTORPARA REALIZAÇÃO DO TRABALHO, A FIM DE COMPLEMENTAÇÃO)
  15. 15. 14ANEXOS(COLOCAR SE HOUVER DOCUMENTOS NÃO ELABORADOS PELOAUTOR, QUE FORAM UTILIZADOS NO TRABALHO, A FIM DECOMPLEMENTAÇÃO)

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