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Os velhos contam que numa época passada, em algum lugar perto daqui, existiu um homem que vivia com sua mulher em quase to...
Mas houve dois longos períodos de seca, a terra rachou e as plantas morreram.
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“ Vai me abandonar?... Não posso viver sem o seu amor.”
 
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Mas, então, de repente, um vento novo e estranho soprou forte, e, sobre a sua cabeça, o céu se transformou. Nuvens negras ...
E logo o chão se encheu de gotas d´água.
E aquele homem girou o corpo em direção ao céu, para receber a chuva que, para ele, era a própria vida.
Voltou correndo para casa; pegou a sua enxada e foi para o campo.
Poucos dias depois ele já estava a semear ...
Tinha pressa.
Daquela vez, precisava colher muitas sementes...,
para com elas encher grandes sacos...,
que seriam levados para a cidade...,
onde vivia sua mulher .
Foi o que ele fez, porque, para um filho da terra, o papel de quem realmente amava era alimentar.
Quanto ao desfecho do caso de amor daquele homem por sua mulher...,
foi este..., eu imagino.
 
E quanto ao outro caso de amor, por sua terra, provavelmente ele o traduziu assim:
“ Vou continuar a amar a Terra e a cuidar dela, para que ela mesma continue a me amar e então a me alimentar.”
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Casos de Amor (quando viver é mais do que um caso de amor)

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História contada por alguns dos mais velhos camponeses do meu povo.

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Casos de Amor (quando viver é mais do que um caso de amor)

  1. 3. Confesso-me embaraçado. O título desta crônica soa pomposo demais para a simplicidade da história que estou para lhe contar. De fato, o que fiz foi ilustrar um caso que, volta e meia, é contado por algum dos cidadãos mais velhos do meu povo: camponeses por origem, homens da terra.
  2. 4. E ainda devo explicar que, embora esta terra do meu povo esteja no coração do Brasil, a sua parte mais ao norte (a partir de onde viveu o escritor Guimarães Rosa, autor do famoso livro Grande Sertão: Veredas ), há muito foi incluída no “Polígono das Secas”, referente ao estado das terras nordestinas; esta terra, então, não pode ou não pode mais ser incluída no que os próprios nordestinos chamam de “ sul maravilha” ...
  3. 5. Os velhos contam que numa época passada, em algum lugar perto daqui, existiu um homem que vivia com sua mulher em quase total isolamento. Trabalhavam de sol a sol naquela faixa de terra que haviam comprado com grande sacrifício, onde, ano após ano, tiravam o sustento.
  4. 6. Mas houve dois longos períodos de seca, a terra rachou e as plantas morreram.
  5. 7. E chegou o dia em que a mulher disse ao marido que teria de usar para comer as sementes de feijão que estavam guardadas, destinadas à lavoura ou ao plantio.
  6. 8. O homem coçou sua cabeça e retrucou: “ Se comermos estas sementes será o fim; não haverá mais qualquer esperança.” “ Esperança...”, ela sussurrou com um meio-sorriso triste. “ Vamos embora daqui. Não há mais o que fazer.”
  7. 9. “ Você me pede para abandonar minha terra e ir para a cidade?... Mas, se já não existe alimento aqui, encontraremos alimentos lá?...” Ela não pensou sequer, antes de dizer: “ Lá é outro mundo..., nem precisa de chuva. O que nós dois precisamos é arrumar emprego e, com o dinheiro, comprar os alimentos.” Ele riu e, em seguida, tristemente, disse: “ Você está delirando, pobre mulher, cidades não produzem alimentos.”
  8. 10. Enfim, depois de um longo silêncio, ela suspirou antes de arrematar: “ Eu não sei de onde os alimentos saem; só sei que eles podem ser encontrados lá, em grandes sacos nos armazéns. Olhe. Eu também estou triste, mas o que posso fazer...? Esta nossa terra já se esgotou. E se você prefere ficar aqui, fique. Eu vou-me embora.”
  9. 11. “ Vai me abandonar?... Não posso viver sem o seu amor.”
  10. 13. Completamente solitário ele passou três dias sem dormir, andando sonâmbulo pelos arredores com aquela última imagem em sua cabeça...
  11. 15. Até que decidiu ir embora também. Amava demais aquela mulher. Arrumou sua trouxa, fechou a porta de sua casa e se pôs a caminho ...
  12. 17. Mas, então, de repente, um vento novo e estranho soprou forte, e, sobre a sua cabeça, o céu se transformou. Nuvens negras pesadas de chuvas vieram..., sabe-se lá de onde.
  13. 18. E logo o chão se encheu de gotas d´água.
  14. 19. E aquele homem girou o corpo em direção ao céu, para receber a chuva que, para ele, era a própria vida.
  15. 20. Voltou correndo para casa; pegou a sua enxada e foi para o campo.
  16. 21. Poucos dias depois ele já estava a semear ...
  17. 22. Tinha pressa.
  18. 23. Daquela vez, precisava colher muitas sementes...,
  19. 24. para com elas encher grandes sacos...,
  20. 25. que seriam levados para a cidade...,
  21. 26. onde vivia sua mulher .
  22. 27. Foi o que ele fez, porque, para um filho da terra, o papel de quem realmente amava era alimentar.
  23. 28. Quanto ao desfecho do caso de amor daquele homem por sua mulher...,
  24. 29. foi este..., eu imagino.
  25. 31. E quanto ao outro caso de amor, por sua terra, provavelmente ele o traduziu assim:
  26. 32. “ Vou continuar a amar a Terra e a cuidar dela, para que ela mesma continue a me amar e então a me alimentar.”
  27. 33. Lanier Wcr

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