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Uma nova vida
Era uma vez uma menina muito simpática que se ria com tudo, apesar
de ser órfã. Chamava–se Mariana e tinha uns olhos amendoados, cor de avelã,
cabelo escuro e encaracolado e um sorriso maravilhoso que demonstrava a
sua beleza natural. No orfanato, Mariana destacava-se por ser uma menina
diferente. A sua cor diferenciava-a dos outros meninos, pois era escura como
chocolate negro. Apesar de bela, não gostava da sua pele porque, às vezes,
era alvo de troça por parte dos seus colegas.
A vida naquele lugar era difícil. Com apenas oito anos, já tinha passado
por muito, mas tinha aprendido a ultrapassar os seus problemas. Estava
habituada a ter visitas, nunca esperando nada delas, pois sabia que as
crianças de tez branca eram sempre as escolhidas pelos pais que as
adotavam.
Certo dia, numa manhã de sol, Mariana recebeu a sua primeira visita.
Era uma senhora ruiva, divertida e meiga, com um sorriso simpático a alegrar o
seu rosto redondo cheio de sardas. Ao contrário da maior parte das pessoas
que visitavam o orfanato, aquela não parecia importar-se com a cor de pele da
pequena menina negra que, depois de passar o dia com ela, começou a
perceber o que era uma ‘família’.
Ao cair da noite, Mariana deitou-se na sua pequena cama e cobriu-se
com um velho cobertor. Como tinha dificuldade em adormecer, começou a
pensar no dia maravilhoso que tinha passado. Relembrou a ida ao parque, o
primeiro gelado que comeu, a primeira vez que tinha andado num baloiço e a
primeira vez que tinha sentido o amor de mãe. A pequena era muito bem
tratada pela governanta do lar que, sabendo das suas dificuldades, lhe dava
muitos doces. Mesmo assim, sentia falta de uma mãe.
A senhora que a tinha ido visitar chamava-se Francisca, tinha cerca de
vinte e oito anos e era professora numa escola primária. Apesar de lhe ter dito
que a ia adotar, Mariana não tinha muitas esperanças. Também lhe tinha dito
que vivia com o seu marido, Tomás, e que este era advogado. Mariana
estranhou essa palavra que desconhecia, mas continuou a sorrir.
No dia seguinte, Francisca apareceu novamente no orfanato e
perguntou-lhe com uma voz carinhosa:
- Mariana, queres vir viver comigo? Prometo que te tratarei bem, que
vais sentir-te em casa, que vais ser feliz connosco e, assim, construiremos uma
família.
A menina nem sabia o que haveria de responder, tanta era a felicidade e
entusiasmo que sentia naquele momento, até que deu por si agarrada à barriga
de Francisca, dizendo:
- Sim, por favor, leve-me! Não é que esteja farta de estar aqui, mas
quero mesmo muito ter uma família. Só tenho uma pergunta a fazer-lhe...
- Então, faz lá a pergunta, mas podes tratar-me por tu- pediu Francisca.
- Está bem! Então... aqui vai. Por que é que me escolheu a mim e não
fez como a maior parte das pessoas brancas e levou um menino ou uma
menina de cor branca? Por que é que me escolheu a mim, se eu sou diferente?
– questionou Mariana.
- Sabes, minha querida, às vezes, ser diferente é bom e eu gosto. Quero
dizer, adoro coisas diferentes e tu és uma das minhas preferidas! – afirmou
Francisca.
E assim foi. Depois de Mariana fazer a mala e Francisca preencher toda
a papelada necessária a comprovar que ela e o marido ficavam com a sua
guarda, seguiram caminho, rumo à nova casa.
Após terem estacionado o carro na garagem, Mariana pediu à sua mãe
adotiva para saírem de forma a poder apreciar o seu novo lar por fora.
Foi então que, de repente, Mariana se apercebeu que vivia numa casa
muito parecida com um castelo de contos de fada.
Mal abriram a porta, surgiu uma pequena criança com aproximadamente
quatro anos a gritar energicamente:
- Mamã!
A menina era baixa, magra e de tez amarelada. Tinha olhos rasgados,
os lábios muito finos e uns cabelos compridos de um castanho claro cor de
noz.
Mariana só percebeu quem era aquela rapariga quando Francisca
começou a explicar tudo:
- Maria, esta menina que veio com a mamã - apontando para Mariana - é
a tua nova irmã.
- Mariana, como já deves ter percebido, esta é a minha filha, Maria.
Logo, serás a sua irmã mais velha, portanto, porta-te bem porque, para ela,
serás um exemplo a seguir.
Vindo da cozinha, apareceu Tomás. Um homem alto e musculado, mas,
ao mesmo tempo, elegante e de tez pálida. O seu cabelo curto e loiro
assemelhava-se a raios solares. Ao ver Mariana, aproximou-se bastante
sorridente e com dois chupa-chupas na mão. Um para Mariana, para lhe dar as
boas vindas e outro para Maria, para ela não ficar ciumenta.
Passados dois anos, a governanta do orfanato resolveu fazer uma visita
para saber como a sua ex-orfã preferida se tinha adaptado à sua nova família.
A velha senhora ficou bastante feliz quando viu a menina, agora com dez anos,
a brincar no jardim com a sua irmã mais nova, Maria e o seu cão de raça
francesa, Cores.
Colorida pela variedade de tons de pele, vivia feliz, aquela família
“diferente”.
Margarida Pedrosa e Leonor Monteiro
(pseudónimos)

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  • 1. Uma nova vida Era uma vez uma menina muito simpática que se ria com tudo, apesar de ser órfã. Chamava–se Mariana e tinha uns olhos amendoados, cor de avelã, cabelo escuro e encaracolado e um sorriso maravilhoso que demonstrava a sua beleza natural. No orfanato, Mariana destacava-se por ser uma menina diferente. A sua cor diferenciava-a dos outros meninos, pois era escura como chocolate negro. Apesar de bela, não gostava da sua pele porque, às vezes, era alvo de troça por parte dos seus colegas. A vida naquele lugar era difícil. Com apenas oito anos, já tinha passado por muito, mas tinha aprendido a ultrapassar os seus problemas. Estava habituada a ter visitas, nunca esperando nada delas, pois sabia que as crianças de tez branca eram sempre as escolhidas pelos pais que as adotavam. Certo dia, numa manhã de sol, Mariana recebeu a sua primeira visita. Era uma senhora ruiva, divertida e meiga, com um sorriso simpático a alegrar o seu rosto redondo cheio de sardas. Ao contrário da maior parte das pessoas que visitavam o orfanato, aquela não parecia importar-se com a cor de pele da pequena menina negra que, depois de passar o dia com ela, começou a perceber o que era uma ‘família’. Ao cair da noite, Mariana deitou-se na sua pequena cama e cobriu-se com um velho cobertor. Como tinha dificuldade em adormecer, começou a pensar no dia maravilhoso que tinha passado. Relembrou a ida ao parque, o primeiro gelado que comeu, a primeira vez que tinha andado num baloiço e a primeira vez que tinha sentido o amor de mãe. A pequena era muito bem tratada pela governanta do lar que, sabendo das suas dificuldades, lhe dava muitos doces. Mesmo assim, sentia falta de uma mãe. A senhora que a tinha ido visitar chamava-se Francisca, tinha cerca de vinte e oito anos e era professora numa escola primária. Apesar de lhe ter dito que a ia adotar, Mariana não tinha muitas esperanças. Também lhe tinha dito que vivia com o seu marido, Tomás, e que este era advogado. Mariana estranhou essa palavra que desconhecia, mas continuou a sorrir. No dia seguinte, Francisca apareceu novamente no orfanato e perguntou-lhe com uma voz carinhosa:
  • 2. - Mariana, queres vir viver comigo? Prometo que te tratarei bem, que vais sentir-te em casa, que vais ser feliz connosco e, assim, construiremos uma família. A menina nem sabia o que haveria de responder, tanta era a felicidade e entusiasmo que sentia naquele momento, até que deu por si agarrada à barriga de Francisca, dizendo: - Sim, por favor, leve-me! Não é que esteja farta de estar aqui, mas quero mesmo muito ter uma família. Só tenho uma pergunta a fazer-lhe... - Então, faz lá a pergunta, mas podes tratar-me por tu- pediu Francisca. - Está bem! Então... aqui vai. Por que é que me escolheu a mim e não fez como a maior parte das pessoas brancas e levou um menino ou uma menina de cor branca? Por que é que me escolheu a mim, se eu sou diferente? – questionou Mariana. - Sabes, minha querida, às vezes, ser diferente é bom e eu gosto. Quero dizer, adoro coisas diferentes e tu és uma das minhas preferidas! – afirmou Francisca. E assim foi. Depois de Mariana fazer a mala e Francisca preencher toda a papelada necessária a comprovar que ela e o marido ficavam com a sua guarda, seguiram caminho, rumo à nova casa. Após terem estacionado o carro na garagem, Mariana pediu à sua mãe adotiva para saírem de forma a poder apreciar o seu novo lar por fora. Foi então que, de repente, Mariana se apercebeu que vivia numa casa muito parecida com um castelo de contos de fada. Mal abriram a porta, surgiu uma pequena criança com aproximadamente quatro anos a gritar energicamente: - Mamã! A menina era baixa, magra e de tez amarelada. Tinha olhos rasgados, os lábios muito finos e uns cabelos compridos de um castanho claro cor de noz. Mariana só percebeu quem era aquela rapariga quando Francisca começou a explicar tudo:
  • 3. - Maria, esta menina que veio com a mamã - apontando para Mariana - é a tua nova irmã. - Mariana, como já deves ter percebido, esta é a minha filha, Maria. Logo, serás a sua irmã mais velha, portanto, porta-te bem porque, para ela, serás um exemplo a seguir. Vindo da cozinha, apareceu Tomás. Um homem alto e musculado, mas, ao mesmo tempo, elegante e de tez pálida. O seu cabelo curto e loiro assemelhava-se a raios solares. Ao ver Mariana, aproximou-se bastante sorridente e com dois chupa-chupas na mão. Um para Mariana, para lhe dar as boas vindas e outro para Maria, para ela não ficar ciumenta. Passados dois anos, a governanta do orfanato resolveu fazer uma visita para saber como a sua ex-orfã preferida se tinha adaptado à sua nova família. A velha senhora ficou bastante feliz quando viu a menina, agora com dez anos, a brincar no jardim com a sua irmã mais nova, Maria e o seu cão de raça francesa, Cores. Colorida pela variedade de tons de pele, vivia feliz, aquela família “diferente”. Margarida Pedrosa e Leonor Monteiro (pseudónimos)