Cap 01 raio laser

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Cap 01 raio laser

  1. 1. RAIO LASER NOVELA DE DAVI VALLERIO E ALEX SPINOLA CAPÍTULO 01Escuridão. Surgem na TELA, como se datilografados, os dizeres: BRASIL, 1978.CENA 01. FACHADA DA IGREJA DA SALVAÇÃO. EXTERIOR. NOITEBreu total. O único ponto de luz, mesmo assim vacilante, emana do neon azul que circula umacruz cravada na parte mais alta da construção. LAURO, um belo rapaz de dezenove anos, comtoda a pinta de seu xará famoso, o Corona, olha ao redor.LAURO: (chama baixinho) Lídia? Lídia?Um ruído no interior da igreja chama a atenção dele. Lauro percebe que a porta está entreaberta.Ele entra.CENA 02. IGREJA DA SALVAÇÃO. SALÃO. INTERIOR. NOITEIluminação precária. RÁDIO LIGADO. Lauro torna a chamar baixinho. Uma sequência delâmpadas se acende sobre o altar. Salão enfeitado para cerimônia de casamento. Ele sorri.ALGUÉM surge às suas costas e fecha a porta de entrada. Lauro se vira abruptamente. Diantedele, VEMOS EVA, 40 anos, vestida de maneira provocante, maquiagem carregada. O SOMdas inúmeras pulseiras que lhe adornam os pulsos produz um chiado estranho, similar ao guizode uma serpente.EVA: (embriagada) Surpresa, Lauro!LAURO: Dona Eva? O que a senhora tá fazendo aqui?EVA: (provocante) Corta esse papo de senhora, garotão.LAURO: Espera aí, eu recebi um recado da Lídia, foi o Sidney quem levou...EVA: (ar de deboche) Foi uma brincadeirinha minha. O Sidney, apesar daquele jeitinho lerdodele, faz tudo o que a mamãe pede.LAURO: Como a senhora entrou aqui?EVA: (rindo maliciosa) Já falei pra você cortar esse papo de senhora, Lauro... Bem, aquelabeata de uma figa, aquela papa hóstias da Sofia Emerenciana teve que desgrudar da chave (olhaao redor) dessa espelunca por conta do casamento... (morde o lábio) muito a contragosto aquelavaca me entregou a cópia que o padreco balofo confiou a ela...LAURO: (cortando) Já chega, eu vou embora daqui!EVA: Não vai não! Hoje você é meu!
  2. 2. LAURO: O quê? Você tá louca?EVA: Tô sim, Lauro! Tô louca de amor por você, e você sabe disso!LAURO: Eu não sei do que você tá falando! Eu vou casar com a sua filha, a Lídia, esqueceu?EVA: (esfregando-se nele) Foi pra isso que eu armei esse encontro, Lauro: pra pedir que vocênão se case, pra te pedir que a gente fuja dessa cidade atrasada! Eu e você podemos dar o foradaqui! Tenho dinheiro pra isso, você sabe!Lauro se afasta de Eva, enojado.LAURO: Que loucura é essa? Eu sei das histórias que falam a seu respeito, que vive dando emcima dos garotões da cidade, mas comigo não! Ninguém tem coragem de abrir a boca. O povotem medo da má fama do seu marido...EVA: (debochada) E você acha que aquele corno não sabe de nada? É claro que sabe!LAURO: (esboçando sair) Então chegou a hora da cidade toda também saber!Num gesto brusco, Eva pega sua bolsa sobre um banco, e a vasculha, rápido. Um pequeno cantilprateado cai no chão. Eva saca de um revólver, puxa o canhão. O tambor gira.EVA: Você não vai pra lugar nenhum!CORTA PARA:CENA 03. FACHADA DA IGREJA DA SALVAÇÃO. EXTERIOR. NOITESIDNEY, um rapaz abobalhado, aproxima-se. Olhar apreensivo.CORTA PARA:CENA 04. IGREJA DA SALVAÇÃO. SALÃO. INTERIOR. NOITELauro apavorado diante Eva. Ela continua a assediá-lo.EVA: (esfrega-se nele, o acaricia com o revólver) Eu quero você, Lauro! Você finge que nãosabe, mas eu sei que você sabe! Eu sei que você sente!LAURO: (toma coragem, a empurra) Louca varrida! Eu não sinto nada! O que eu tô sentindopor você agora é pena, é novo! Sabe o que é isso, nojo? Olha pra você! Será que não seenxerga?A repulsa de Lauro deixa Eva desnorteada. Ela o encara. Um olhar triste, patético, que depois deum breve instante se enche de cólera.EVA: Desgraçado! Quem você tá pensando que eu sou? Uma idiota? Pensa que eu não vejo osseus olhares pro meu lado desde que começou a namorar a Lídia? Não vem bancar o revoltadocomigo, Lauro! Essas frescuras você pode guardar pro cretino do seu pai!LAURO: Você enlouqueceu de vez!
  3. 3. EVA: Não, eu não enlouqueci! Essa sou eu, garoto! A Eva de verdade, a Eva que não precisafingir o que não é só pra agradar esse bando de caipiras! Eu tô aqui, me abrindo pra você,falando do meu amor... E você faz pouco, debocha de mim?A porta de entrada é aberta. Eva percebe a chegada de Sidney. Assustado, ele esboça sair.EVA: (berrando) O que você tá fazendo aqui, Sidney?SIDNEY: A senhora me mandou mentir pro Lauro. Eu sabia que era mentira, eu sabia. Toda vezque a senhora fica desse jeito, a senhora mente.EVA: Cala essa boca, retardado! Entra e tranca essa porta, a chave tá aí, senão eu meto bala nacabeça do seu amiguinho!Sidney faz que não.LAURO: (desespero) Corre e chama a polícia, Sidney!EVA: Obedece a sua mãe, garoto!Sidney se aproxima. Eva pega o cantil prateado, livra-se da tampa e toma uma boa dose do seuconteúdo. Lauro perplexo diante o inusitado da situação.EVA: (ergue o cantil) Uísque puro, legítimo! Quer um trago, Sidney?SIDNEY: Eu não posso beber, eu tomo remédio.Eva fica muda. Olha para o cantil, olha para Sidney. Um sorriso maligno brota em seus lábios.EVA: Seu problema é esse, Sidney: você toma remédio demais pra problemas de menos. Dáseus remedinhos pra mamãe, dá! Você não precisa deles!Sidney retira uma cartela de comprimidos do bolso da calça. Eva dá uma gargalhada diabólica.Agora, rádio toca “Ilegal, Imoral ou Engorda”, de Roberto Carlos. Acompanhamos, em cortesdescontínuos, a loucura crescente de Eva.EVA: Querem saber de uma coisa: Quero todo mundo muito louco aqui! Você falou de verdade,Lauro, que todos iriam saber a verdade? Pois eu não acredito em verdade dita de cara limpa!Ninguém diz a verdade, de cara limpa, garoto. Vai, bebe!!Lauro se nega. Eva puxa Sidney pelos colarinhos. Aponta seu revólver para a cabeça dele.EVA: Vai! Bebe!Lauro vai recuando, tropeça e cai próximo a escadaria que conduz ao altar. Eva entrega-lhe ocantil. Apavorado, ódio nos olhos, ele bebe.EVA: Isso! Bebe mais! Bebe tudo!Eva arremessa Sidney para o lado de Lauro.EVA: Vai, Sidney, você também! Bebe porque teu mal é esse: falta de diversão!Apavorado, Sidney obedece.
  4. 4. Eva obriga Lauro e Sidney a engolirem alguns comprimidos.EVA: É isso aí! Quero tudo mundo bem doido! (gargalha alto) Super doidos, doidinhos! Eu tefalei Sidney que não era pra você estar aqui, mas você é teimoso, seu lerdinho de uma figa!Lerdinho da mamãe... (gargalha mais alto) lelé da cuca da mamãe!Os garotos já estão pra lá de Bagdá. Eva rodopia pelo salão, ao som da música. Ela olha para asimagens sacras, e tem a impressão que elas também a observa, que estão vivas, a chorarlagrimas de sangue.EVA: Isso! Bebendo, bebendo tudo! Se acabar, eu pego mais! Sei que o padreco balofo é outropinguço! Aquele lá bebe até o vinho da eucaristia, que eu sei!Ela para por alguns instantes, sorri debochada. Teve uma grande ideia. Desvairada, ela pegauma garrafa com vinho, quase cheia, que está escondida numa bancada atrás do altar, e destemodo continua a embebedá-los, ao passo que também os obriga a tirarem as roupas. Ela ri,rodopia pelo salão da igreja. A música cessa. Aos poucos, Eva parece sair de seu transe. Ela vêos garotos estirados, nus, aos pés do altar, entra em desespero. Olha ao redor, olha os trajesextravagantes que está usando. Ela cai, de joelhos. Chora lágrimas negras de rímel.EVA: O que eu fiz? O que eu fiz? Você precisa resolver isso, Eva Juarez! Precisa! Não, não temcomo voltar atrás, não tem como! Fugir, você precisa fugir, Eva!CORTA PARA:CENA 05. FACHADA DA IGREJA DA SALVAÇÃO. EXTERIOR. NOITEDetalhe das mãos trêmulas de Eva tentando acertar a chave no buraco da fechadura. Ela fecha aporta lentamente, à medida que seu ponto de vista nos revela Lauro e Sidney nus e estiradosdiante o altar. Trôpega, Eva se embrenha num bambuzal próximo a igreja. Logo Eva surgemontada num cavalo, em pleno galope. Numa rua próxima, passa ventando por SOFIAEMERENCIANA, uma senhorinha tísica, com cara de beata fervorosa.SOFIA: Lá vai o demônio!CORTA PARA:CENA 06. FAZENDA DOS JUAREZ. CAMPO ABERTO. EXTERIOR. NOITEA luminosidade tímida da lua banha o longo campo. Eva em seu cavalo. Ela chora.CENA 07. FAZENDA DOS JUAREZ. CASA GRANDE. SALA. INT. NOITEAbrimos na chegada de Eva, trôpega, na varanda da casa grande. Ela ajeita os cabelos, asroupas. Eva adentra a sala, pé ante pé. Uma voz na escuridão a assusta.SEBASTIÃO (off) De novo, Eva?SEBASTIÃO acende a luz, e isso nos revela sua figura: um sujeito abrutalhado, olhar sombrio,beirando os cinquenta anos.EVA: Não me enche, Bastião!
  5. 5. SEBASTIÃO: Não grita. Vai acordar a Lídia. Cadê o Sidney? Ele foi atrás de você.EVA: Eu tava por aí, não sei daquele retardado!SEBASTIÃO: Desse jeito, você vai colocar tudo a perder, mulher. Não sei até quando a gentevai conseguir segurar a língua desse povo. O casamento da nossa filha é amanhã, e você por aí,caçando assunto...EVA: Nossa filha, uma ova! Ela é minha filha! Você só prestou pra me dar o retardado doSidney, o lerdinho (gargalha alto) o lerdinho da mamãe!SEBASTIÃO: Vê se te avia, mulher! Vá tomar um banho gelado! Vê se arranca desse lomboesse cheiro de cachaça!EVA: (quase murmurando) Casamento, é? Isso é o que você pensa, seu frouxo. Quando opadreco chegar à igreja... (ri, demente) quero ver só se vai ter alguma merda de casamento.CORTA PARA:CENA 08. CASA DOS JUAREZ. QUARTO DE LÍDIA. INTERIOR. NOITEUm vestido de noiva debruçado sobre um baú. Lídia, uma garota brejeira, na flor da idade,quase uma sósia da famosa Brondi, está de ouvido colado na porta do quarto. Acabou de ouvir aconversa que veio da sala. Ela se afasta da porta, olha para seu vestido por alguns instantes esorri.LÍDIA: Nem acredito que vou ficar livre desse hospício!CORTA RÁPIDO PARA:CENA 09. CIDADE DE TORRENTES. VÁRIOS PLANOS. EXTERIOR. MANHÃImagens aéreas revelam a pequena cidade, espremida por uma cadeia de montanhas eserpenteada por um rio. Numa aproximação mais detalhada, percebemos que a cidade deTorrentes, apesar de jeitosa, parece congelada no tempo. Nenhum sinal de progresso.CENA 10. PAÇO MUNICIPAL. ENTRADA. EXTERIOR. MANHÃORLANDO VIANNA, um sujeito austero, perto dos 60 anos, se debate para arrancar umasequencia de panfletos colados na fachada do prédio.CORTA PARA:CENA 11. PRAÇA PRINCIPAL DE TORRENTES. CORETO. EXT. MANHÃNECO e BETO de prosa, olhares voltados para o prédio da prefeitura. Ambos são rapazes fortese rústicos, porém Neco abusa mais do estilo cowboy: chapelão, cinturão de fivela e botas devaqueiro.BETO: O prefeito tá com a macaca, Neco!NECO: Também, com o filho fresco que tem. Não sei o que a gatinha da Lídia enxergounaquele traste. Tudo chama ele de Zé Protesto, você sabe, não sabe?
  6. 6. BETO: Ele tá certo, uai! Tem que protestar mesmo, a cidade vive nesse atraso! O pai dele, comoprefeito, não faz merda nenhuma pra melhorar! As cidades por aqui são tudo melhor queTorrentes... Todo mundo fala que a gente só tamos a 110 quilômetros de Copacabana!NECO: Só 110 quilômetros, Beto? Só? Vê se te enxerga, peão! O velho é que tá certo! Tem quemanter tudo no cabresto! Modernidade só traz o que não presta, Beto! Vai por mim!BETO: Deixa o Lauro escutar essa sua prosa, Neco.NECO: Falo na cara dele! Aquilo lá não é macho pra me peitar, ô Beto? O que eu quero mesmoé a gostosinha da Lídia.BETO: Quer, é? O pai dela te capa, peão! Você bem sabe da fama dele: matador. Chegou lá dofiofó do mundo, com as malas cheias de grana.NECO: Matador merda nenhuma! É um picareta, isso sim!BETO: E mesmo assim você fica de olho espichado pra Lídia? O velho é capaz de roubar opouco que te resta.NECO: Claro que fico! Deixa ela cair na minha mão, dou-lhe um trato. Trato que aqueleafrescalhado do Lauro nunca deu. E tem mais: caso com ela e tiro o pé da lama.BETO: Pode tirar seu pangaré da chuva. A Lídia é doida pelo Lauro, os dois foram criados nacidade grande, nunca que ela vai querer ter nada com um caipira igual você.NECO: Caipira é você, sua besta! Também fui criado fora daqui, estudei na mesma escola queeles, lá no Rio de Janeiro! Não é de hoje que tô de olho nessa Lídia.BETO: (provocando) Pois vai morrer cego de tanto olhar, e também vai ter que arrumar outrojeito de pagar as dívidas que o seu velho deixou, porque daqui a pouco os dois vão tá entrandolá na igreja!NECO: E daí? Esse Lauro nunca que vai ser macho pra ela! Tá na boca do povo, e você bemsabe que esse Lauro não passa de um viadinho, isso sim! Viadinho metido a comunista! Oprefeito nem vai com as fuças da família da Lídia, aliás, ninguém vai. O velho Orlando sóaceitou esse casamento pra calar a boca do povo, e o pilantra do Sebastião aproveitou a chance,tá de olho na herança do velho!BETO: Eu não sei de nada.NECO: A Lídia quer ele é pra brincar de boneca! Macho pra ela, sou eu!BETO: (gargalha alto) Chega de prosa! Simbora, que daqui a pouco começa o casório!CORTA PARA:CENA 12. IGREJA DA SALVAÇÃO. ENTRADA. EXTERIOR. MANHÃSol já a pino. Eva, agora vestida com todo o recato que a situação pede, acompanha o marido,Sebastião Juarez. Ela está tensa, finge estar ali, no papel de esposa, mãe e mulher direita, mas naverdade não está. Convidados para a cerimônia ciscando por ali, impacientes, entre eles, a beata
  7. 7. Sofia Emerenciana. Lídia, vestida de noiva, salta de um carro, acompanhada por sua amigaAMANDA, uma jovenzinha meio brega, caipira. Lídia tensa, olhos marejados.EVA: (nervosa) Volta pro carro, Lídia!LÍDIA: Que história é essa de igreja fechada, mãe? Cadê o padre Manoel? (olha ao redor) Seráque ninguém ais tem as chaves dessa igreja? Cadê a cópia que a senhora pegou com a donaSofia Emerenciana?EVA: Sei lá de chaves! Não deixei com você, pra arrumação da igreja?LÍDIA: Não sei, não lembro! Não entreguei pra senhora?EVA: Já falei que não estou com raio de chave nenhuma, Lídia!SEBASTIÃO: (carinhoso) Lídia, o padre não é desta paróquia, deve tá atrasado. Fica calma!AMANDA: (sotaque puxado) Como ficar calma, seu Sebastião? Igreja fechada, Lauro que nãoaparece! Já vi noiva atrasada, mas noivo sumido é a primeira vez!Lídia se debulha em lágrimas.EVA: (agarrando Amanda pelo braço) Vê se não piora as coisas, Amanda! Cala essa boca!Sebastião, dá um jeito nisso! Cadê o pai do Lauro? Vai atrás do prefeito!AMANDA: (que não se emenda) É mesmo, cadê o pai do noivo, cadê o prefeito?Beto e Neco chegam. Percebem a confusão.BETO: O seu Orlando tava arrancando uns papel lá das paredes da prefeitura!NECO: (maldoso) O quê que tá acontecendo por aqui? Não vai ter mais casório, é?LÍDIA: Cala essa boca, seu cretino cafona!Orlando Vianna, pai de Lauro, chega. Todo esbaforido. Alguns panfletos na mão. Um delesescapa e vi parar aos pés de Lídia. Amanda, sempre curiosa, o recolhe. Passa os olhos pelosdizeres: “FORA A DITADURA CAPENGA DO PREFEITO. FORA A CARETICE. VOUCOMEÇAR UMA GRANDE REVOLUÇÃO. AGUARDEM!”. Ela tem dificuldades com aleitura. Mostra o panfleto para Lídia, que sorri.AMANDA: O que é caretice?LÍDIA: (aponta para Orlando) É isso aí! O Lauro nem na véspera do nosso casamento, para deaprontar.AMANDA: Parece que tem o bicho carpinteiro no fiofó! Ave Maria!ORLANDO: Que algazarra é essa?SEBASTIÃO: E é que pergunto, seu Orlando! Cadê seu filho? E o senhor também só chegaagora?
  8. 8. ORLANDO: E eu lá sei daquele moleque! Desde ontem à noite que não vejo. Olha pra isso(mostra um dos panfletos) acho que passou a noite pregando essas merdas por aí. Duvido queapareça pra esse casamento. Duvido! Aquele infeliz faz de tudo pra me afrontar! Deve táplanejando alguma coisa... Espera aí, eu pensei que ele estivesse lá pelas bandas da sua casa!Lídia apreensiva diante a sentença de Orlando Vianna.EVA: O que, prefeito? Alto lá, que a minha casa é de respeito!Sofia Emerenciana emite uma tossida seca, irônica. Um dos CONVIDADOS, já meio de porre,resolve se manifestar.CONVIDADO: Alguém dê um jeito nisso! A gente não pode ficar aqui, debaixo desse pampeirode sol, esperando! Ou arrumem um lugar pra gente ficar ou arrombe a desgraça dessa porta.Orlando e Sebastião o fulminam com um olhar.OUTRO CONVIDADO: Não precisa arrombá mais não! (aponta) O padre Manoel chegou, óialá!CORTA PARA:CENA 13. RUA PRÓXIMA À IGREJA DA SALVAÇÃO. EXT. DIAUm fusca todo cacarecado se aproxima, levantando uma nuvem de poeira. Ao volante o PADREMANOEL, um sujeito gordo, 60 anos, com um cigarro pendurado no beiço. Rosto vermelho,suor a escorrer.CORTA PARA:CENA 14. FACHADA DA IGREJA DA SALVAÇÃO. EXTERIOR. DIAPadre Manoel por ali, a acalmar os ânimos, vasculhando os bolsos da batina, a procura de suachave, a encontra. Os CONVIDADOS comemoram.CORTA PARA:CENA 15. IGREJA DA SALVAÇÃO. SALÃO. INTERIOR. DIAA porta se abre com um ranger sinistro. Sebastião é o primeiro a entrar. Dá alguns passos eempaca no meio do salão. Não vai nem para frente, nem para trás. Seus olhos se arregalam.SEBASTIÃO: (berra) Sangue de Jesus tem poder!Eva também entra. Fica ainda mais tensa. Esboça dizer algo, não consegue. Então, paradisfarçar, geme:EVA: Blasfêmia.Assustada, Lídia aproxima-se de Sebastião. Seu PONTO DE VISTA nos revela uma imagemchocante: Lauro e Sidney, nus como vieram ao mundo, abraçados e adormecidos diante o altar.LÍDIA: (desesperada) Não!!!!!
  9. 9. CORTA PARA:FIM DO CAPÍTULO 01

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