A lua que nao dei

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  • Obrigada amigo. Eu tento postar seus PPS e não consigo e não sei o porquê, o site fica dando problemas. E como é em Ingles nem entendo o qu me fala e nem sei ocmo resolver a situação. Gostaria muito de posta-los pq os acho lindos!
    Ótimo final de semana, abraços, Irene.
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A lua que nao dei

  1. 1. A LUA QUE NÃO DEI 
  2. 2. Compreendo pais , e me encanto com eles , quedesejariam dar o mundo de presente aosfilhos.
  3. 3. E, no entanto, abomino os que, a cada fim de semana,dão tudo o que os filhos lhes pedem nosshoppings onde exercitam arremedos depaternidade.E não há paradoxo nisso.
  4. 4. Dar o mundo é sentir-se um poucocomo Deus, que éessa a condição de um pai.Dar futilidades como barganha de amor é,penso eu, renunciar aosagrado.
  5. 5. Volto a narrar, por me parecerapropriado à croniqueta,o que me aconteceu ao ser pai pelaprimeira vez.Lá se vão, pois, 45 anos.
  6. 6. Deslumbrado de paixão, eu olhava a menina no berço, via-asugando os seios da mãe,esperneando na banheira, dormindo como anjo de carne.
  7. 7. E, então, eu me prometia, prometendo-lhe: Dar-lhe-ei o mundo, meuamor.E não lhe dei.E foi o que me salvou do egoísmo, da tola pretensão e daestupidez deconfundir valores materiais com morais eespirituais.
  8. 8. Não dei o mundo à minha filha, mas ela quis a Lua.E não me esqueço de como ela pediu a Lua, há anos já tão distantes.
  9. 9. Eu a carregava nos braços,pequenina e apenas balbuciante, andando na calçada de nossoquarteirão, em tempos maisamenos,quando as pessoas conversavam às portasdas casas.
  10. 10. Com ela junto ao peito, sentia-me o mais feliz homemdo mundo, andando, cantarolandocantigas plenitude em plena calçada. homem jovemPois é a de ninar da felicidade um poder carregar um filho como seacariciando as próprias entranhas.
  11. 11. Minha filha era eu, e eu era ela.Um pai é, sim, um pequeno Deus, o criador.E seu filho, a criatura bem amada.
  12. 12. E foi, então, que conheci aimpotência e os alimites humanosPois a filhinha quem eu prometera o mundo ergueu os bracinhos para o alto ecomeçou a quase gritar, assanhada, deslumbrada:Dá, dá, dá...
  13. 13. Ela descobrira a Lua e a queria para si, como ursinho de pelúcia, uma luminosabola de da magia do céu enfeitado de estrelas e deDiante brincar.luar,minha filha me pediu a Lua e eu não lhe pude dar.
  14. 14. A certeza de meus limites permitiu,porém, criar um pacto entre paie filhos:se eles quisessem o impossível, fossem em buscadele.
  15. 15. Eu lhes dera a vida, asas de voar, diretrizes, crença no amor e,portanto, estímulo aosgrandes sonhos.E o sonho da primogênita começou a acontecer, num simbolismo que, ainda hoje, meamolece o coração.
  16. 16. Pois, ainda adolescente, lá se foi ela embora, querendoestudar no Exterior.Vi-a embarcar, a alma sangrando-me desaudade, avoz profética de Kalil Gibran em sussurros deconsolo:
  17. 17. Vossos filhos não são vossos filhos, mas são os filhos e as filhasda ânsia da vida de vós, mas não de vós.Eles vêm através por si mesma.E embora vivam convosco, não vos pertencem.Vós sois os arcos dos quaisvossos filhos são arremessados como flechasvivas.
  18. 18. Foi o que vivi, quando o avião decolou, minhacriança a havia uma Lua enorme, imensa.No céu, bordo.A certeza da separação foi dilacerante.Minha filha fôra buscar a Lua que eu não lhedera.
  19. 19. E eu precisava conviver com a coerência do que transmitira aos filhos:O lar não é o lugar de se ficar, mas para ondevoltar.
  20. 20. Que os filhos sejam preparados para irem-se, com a certeza de ter para ondevoltar quando o cansaço, a derrota ou odesânimo inevitáveis lhes machucarem a alma
  21. 21. Ao ver o avião, como num filme de Spielberg, sombrear a Lua,levando-me a filha querida, o salgado das lágrimas setransformou em doçurade conforto com Kalil Gibran: como pai, não dando o mundo nemLua aos filhos, me senti arqueiro earco,arremessando a flecha viva em direção ao mistério.
  22. 22. Ora, mesmo sendo avós, temos, sim e ainda, filhos a criar, pois família é uma triboem construção permanente.
  23. 23. Pais envelhecem, filhos crescem,dão-nos netos e isso é a construção, o centro do mundo onde a obrada criação se renova sem nuncacompletar-se.
  24. 24. De guerreiros que foram, pais se tornam pajés.E mães, curandeiras de alma e de corpo.
  25. 25. É quando a tribo se fortalece comconselheiros, sábios que conhecem osmistérios dagrande arquitetura familiar, com régua, esquadro, compassoE com palmatória moral para ensinar o óbvio:e fio de prumo. se o dever premia, o erro cobra.
  26. 26. Escrevo, pois, de angústias, acho que angústias depajé, de índio velho
  27. 27. A nossa construção está ruindo, pois feita em areiamovediça.É minúsculo o mundo que pais querem dar aos filhos: o dos shoppings.
  28. 28. E não há mais crianças e adolescentesdesejando a Lua como brinquedo ou comoconquista.
  29. 29. Sem sonhos, os tetos são baixos e o infinitopode ser comprado em lojas.Sem sonhos, não há necessidade de arqueirosarremessando flechas vivas.
  30. 30. Na construção familiar, temos erguidoparedes.Mas, dentro delas, haverá gente de verdade?
  31. 31. Publicada em 01/08/2008 no Correio Popular -Campinas - SPCecílio Elias Netto(escritor e jornalista)
  32. 32. "A vida é o filme que você vê através dos seus próprios olhos. Faz pouca diferença o que estáacontecendo. É como você percebe que conta." (Denis Waitley)
  33. 33. Música: Song for Peace. Kitaro.gilmargss@yahoo.com.br

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