ÁFrica na sala de aula

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ÁFrica na sala de aula

  1. 1. Programa 1 A Lei n. 10.639 na sala de aula Mônica Lima1 ENFRENTANDO OS DESAFIOS: A HISTÓRIA DA ÁFRICA E DOS AFRICANOS NO BRASIL NA NOSSA SALA DE AULA* No dia 9 de janeiro de 2003 foi aprovada a Lei n. 10.639, que tornou obrigatório o ensino sobre História e Cultura afro-brasileira, bem como de História da África e dos africanos em todos os estabelecimentos de ensino, públicos e privados, no Brasil. Nestes conteúdos estariam incluídos, ainda segundo o texto da lei, a luta dos negros no nosso país, a cultura negra brasileira e a contribuição dos negros na formação da sociedade nacional - como subtemas que passariam a ser necessários nos estudos de História do Brasil. O Conselho Nacional de Educação já emitiu parecer detalhado, de autoria da Professora Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva, regulamentando a alteração da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional2. Esta lei tem uma história. Grupos ligados ao movimento negro e representantes da comunidade acadêmica, desde há muito, reivindicam esta inclusão. Para falar apenas da história mais recente, houve um período, na década de 90, em que os estudantes de História organizavam, no ano intermediário aos seus encontros nacionais3, um Encontro Nacional de História da África. Em partes diferentes do Brasil, distantes em geral dos grandes centros4, nunca menos de quinhentos estudantes passavam uma semana às voltas com cursos, mesas-redondas e atividades ligadas ao tema. Paralelamente, a ANPUH (Associação Nacional de Professores Universitários de História) não poucas vezes se pronunciou favorável à inserção de disciplinas de História da África nos cursos universitários de História. E outras entidades e grupos, bem como intelectuais e ativistas do movimento docente, apresentaram a mesma reivindicação. Ou seja: não se pode em nenhum momento dizer que esta lei foi uma criação de um governo sem um movimento prévio que a apoiasse e a pusesse na pauta da educação brasileira. Ela resulta de um processo no qual diferentesagentes sociais atuaram para que se tornasse realidade, e por acreditarem na importância da medida. Claro que a lei não basta. Nenhuma medida legal é suficiente, se não nos debruçarmos sobre ela para refletir e se não nos engajarmos na sua execução. E neste caso, em especial, estes dois movimentos se fazem necessários. Se quisermos olhar com um certo distanciamento, podemos perguntar-nos: por que a necessidade de uma lei para fazer valer a presença de um conteúdo tão evidentemente fundamental na História geral e em especial na História de grupos humanos que participaram diretamente da formação do nosso país? A raiz deste ocultamento estava no preconceito e na ignorância sobre a vida social e a história destes grupos humanos e, sobretudo, na necessidade de domínio sobre eles, com objetivos de escravizá-los ou colonizá-los. Esta raiz, portanto, se situava na própria história das relações com os povos africanos por parte daqueles grupos
  2. 2. dominantes das sociedades nas quais nossos primeiros historiadores se espelharam para construírem os saberes oficiais sobre o Brasil. A negação desta história esteve sempre associada nitidamente a formas de controle social e dominação ideológica, além do interesse na construção de uma identidade brasileira despida de seu conteúdo racial, dentro do chamado desejo de branqueamento de nossa sociedade. Característico da segunda metade do século XIX, este desejo ainda vigora dentro de alguns setores sociais mais retrógrados, embora a luta por mudanças no campo do ensino da História tenha criado embates ao longo do século XX. Podemos observar que até hoje existem nos currículos dos cursos de História das universidades brasileiras poucas disciplinas específicas sobre África, assim como praticamente se ignora o tema nos estudos de História Geral do Ensino Fundamental e Médio. Ao tornar obrigatória sua inclusão na Educação Básica, estaremos frente a uma imensa dificuldade: que História será esta a ser apresentada, se a maioria dos professores em sala não teve contato com ela? Isto não tira a importância da medida. É certo, muitos fomos e somos aqueles que reclamaram espaços para estes temas. Mas frente a este espaço oferecido, temos que definir objetivos, discutir as abordagens - ou seja, aonde chegar, e como chegar? Responder a estas perguntas nos coloca frente a questões muito profundas. Ora, se resgatar esta memória é elaborar nova matéria-prima da nossa identidade como povo, estamos em face de um desafio: quem somos? E ainda: quem desejamos ser? Não há receitas prontas, não existe um 'como fazer', e por isso a necessidade de muitos espaços de discussão e troca intelectual - e não apenas entre os reconhecidos como "intelectuais" mas com os movimentos sociais. Não podemos, a despeito da exigência da Lei, sair repassando nas nossas salas de aula informações equivocadas, ou tratar o tema de uma maneira folclorizadae idealizada. Este é um grande temor: repetir modelos para fazer com que estes conteúdos curriculares fiquem parecidos com os que já trabalhávamos ao tratarmos da História e das contribuições culturais comumente estudadas é um caminho fácil e perigosíssimo. São temas diferentes e sua abordagem necessariamente deve ser diferenciada. Nossos alunos certamente terão muito a dizer, mas devemos ter um imenso cuidado com o senso comum, que pode surgir tanto para desvalorizar como para criar mitos - os quais, ao se desfazerem, redobrarão o peso da desilusão e do desgaste da auto-estima. Trata-se de um equilíbrio delicado entre o resgate de uma História que deverá servir para elevar o orgulho de pertencer a ela e a valorização de posturas estreitas que tendem a criar esquemas explicativos maniqueístas. Em primeiro lugar é fundamental formar-se, atualizar-se nos temas, e não partir do pouco que se sabe para ocupar um lugar que nunca esteve ocupado. Temos a responsabilidade de tratar com muito profissionalismo estes conteúdos. Por isto, devemos estudar, procurar leituras específicas e, sempre que possível, capacitar-nos em cursos e em discussões acadêmicas. Nossas precárias condições de trabalho e de vida não podem justificar uma ausência de esforço neste sentido. Estamos falando da re-escritura de uma História que nos foi negada, estamos lidando com
  3. 3. a base de uma identidade que está para ser reconstruída. O que está em jogo é mais do que nossa competência - é o nosso compromisso. É essencial cobrar das autoridades, em especial dos gestores de instituições de ensino, o apoio para fazer da iniciativa da lei uma realidade. Foi estabelecida a obrigatoriedade, mas ela não basta, para que o obrigatório se torne viável e produtivo tem que haver investimento na formação. Estudantes universitários: militem pela inclusão destes assuntos nas disciplinas dos currículos de suas faculdades, institutos, departamentos. Isto é possível, e já vem sendo feito. Professores: solicitem da rede de ensino a realização de cursos - isto é possível, e também já é realidade em alguns lugares5. Busquem e criem espaços (seminários, mesas-redondas, debates, simpósios) e cursos onde se estimule o aprofundamento no estudo destes temas e as reflexões sobre práticas pedagógicas adequadas6. Pode não ser fácil, mas é um bom caminho. Temos também que aprender a ouvir e a interagir com setores dos movimentos sociais organizados, que vêm criando, com esforço próprio, materiais pedagógicos e de divulgação sobre temas da História dos africanos no Brasil e da História da África. Com estes grupos também devemos buscar discutir e refletir sobre as concepções e conceitos deste campo do conhecimento. Não devemos nos acreditar os únicos donos deste saber. Para os professores de Educação Básica, apresentamos aqui algumas sugestões de caráter geral. Nas séries iniciais do Ensino Fundamental, pode-se introduzir temas da cultura africana e afro-brasileira através de lendas, contos, cantigas, brincadeiras. Já existe produção (livros, sobretudo) para se tomar como referência. Nas aulas de Integração Social, falar da presença dos africanos na História do Brasil para além da reação à escravidão: levá-los a ver marcas desta presença viva, nas músicas, nas festas, no vocabulário, nos hábitos alimentares. Os africanos, além de mão-de-obra, eram pessoas que produziam cultura - mas não basta dizer, isto tem que ser algo vivido para começar a abalar as velhas estruturas dos preconceitos, as quais se alimentam da ignorância. No segundo segmento do Ensino Fundamental, já podemos trabalhar com conteúdos mais precisos, falar da PréHistória - questionando o termo, pois não é a escrita que cria a história - como o tempo do processo de hominização, que se deu na África, antes que em outros lugares do planeta. Explicar os porquês, falar dos primeiros homo sapiens africanos que saíram a povoar o mundo... Não deixar de comentar todo o esplendor e a pompa do Antigo Egito - tema que fascina nesta idade - lembrando sempre que este fica na África, algo que parece tão óbvio, mas que acaba sendo esquecido. Certamente, o Egito era também lugar de desigualdades - quem disse que os africanos não as viveram em sua terra? Procurar lembrar os grandes reinos do Sudão ocidental, que durante a Idade Média ergueram cidades, com universidades, mercados de livros, contatos com o Oriente e Europa - e encantaram tantos viajantes e despertaram a cobiça de outros povos com suas minas de ouro7. E, certamente, ao estudar o tráfico de escravos, não se limitar a falar do intercâmbio de pessoas por riquezas, mas também das riquezas transportadas por estas pessoas dentro de si, no maior processo de migração forçada da História da humanidade, que levou a uma verdadeira diáspora africana pelo Novo Mundo.
  4. 4. No Ensino Médio, ao retomar alguns conteúdos, debater as grandes visões, situar o surgimento do racismo como projeto científico e político - utilizando estratégias que permitam aos alunos construir e desestruturar idéias através de pesquisas, júris simulados, dramatizações. E sempre assinalar a fratura exposta da desigualdade racial brasileira. Nunca é demais repetir: nossa pobreza tem cor, nossa exclusão tem cor. Estes dados, porém, não devem ser naturalizados. Assim como foram fruto de uma História, fazer uma outra História pode mudar o quadro. Outro ponto fundamental de caráter geral no ensino de História da África e dos africanos para estudantes brasileiros é pensar formas de ampliar sua dimensão, dando destaque aos aspectos da afro-americanidade e introduzindo elementos que aproximam e diferenciam esta parte da nossa história da história dos afro-descendentes em todo o continente. Sabemos que temos uma história comum não apenas entre África e Brasil, como entre os africanos e seus descendentes nascidos no Novo Mundo. Sabemos que nossa memória constrói nossas percepções sobre nós mesmos e sobre os outros - voltando a dizer: constrói nossa identidade. Cabe a nós multiplicar iniciativas como esta e fazer com que haja desdobramentos concretos, e que se estimule a pesquisa, a formação, a produção sobre estes temas. Trata-se de resgatar a História da África e, de uma certa maneira, africanizar a História do Brasil. SUGESTÕES BIBLIOGRÁFICAS BÂ, Amadou Hampate. Amkouell, o menino fula. São Paulo: Palas Athena/Casa das Áfricas, 2003. BELUCCI, Beluce. Introdução à História da África e da Cultura Afro-Brasileira. Rio de Janeiro: CEAA- UCAM/CCBB, 2003. CANEN, Ana. "Relações raciais e currículo. Reflexões a partir do multiculturalismo". In: Cadernos Pedagógicos PENESB n. 3. Niterói: Editora da UFF, 2001, p.65-77. LIMA, Mônica. "A África na sala de aula". In: Nossa História nº4. Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional, 2004. p.84-87. ____________. "Fazendo soar os tambores: o ensino de História da África e dos africanos no Brasil". In: Cadernos PENESB n. 5. Niterói: EdUFF, 2004. p.159-173. MATTOS, Hebe. "O ensino de História e a luta contra a discriminação racial no Brasil". In: ABREU, Martha e SOHIET, Rachel. Ensino de História. Conceitos, temáticas e metodologia. Rio de Janeiro: FAPERJ/Casa da Palavra, 2003. p.127-136. MUNANGA, Kabengele. "Construção da identidade negra no contexto da globalização". Cadernos PENESB, n. 4. Niterói: Editora da UFF, 2002. p.61-83. OLIVER, Roland. A experiência africana. Da Pré-História aos dias atuais. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1994.
  5. 5. PRIORE, Mary del e VENÂNCIO, Renato (orgs.). Ancestrais: uma introdução à história da África Atlântica. Rio de Janeiro: Campus, 2004. REIS, João José. Rebelião escrava no Brasil. A história do levante dos malês. São Paulo. Cia. das Letras, 2003 (reedição ampliada). SILVA, Alberto da Costa e. A enxada e a lança. A África antes dos portugueses. 2ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1996. ______________________ . A manilha e o libambo. A África e a escravidão, de 1500 a 1700. Rio de Janeiro: Nova Fronteira/Fundação Biblioteca Nacional, 2002. SLENNES, Robert. "Malungo, Ngoma vem! África coberta e descoberta no Brasil". São Paulo, Revista da USP, n. 12, dez./jan./fev. 1991/1992, p. 48-67. THORNTON, J. A África e os africanos na formação do mundo atlântico. Rio de Janeiro: Campus/Elsevier, 2004. NOTAS: * As idéias deste texto encontram-se desenvolvidas mais extensamente nos artigos da autora citados na bibliografia. 1 Professora de História do Colégio de Aplicação da UFRJ (Ensino Fundamental e Médio) , de História da África nos cursos de Pós-Graduação do PENESB/UFF e na Universidade Cândido Mendes(UCAM) , doutoranda em História na Universidade Federal Fluminense(UFF). 2 Parecer CNE/CP 003/2004. 3 Os ENEH - Encontros Nacionais de Estudantes de História, que se faziam a cada dois anos. 4 O III Encontro Nacional de História da África, por exemplo, foi na cidade de Aquidauana - Mato Grosso do Sul. 5 A rede pública de ensino do Estado do Rio de Janeiro, na gestão Benedita da Silva em 2002, promoveu curso de especialização em História da África para professores de História em Campos e no Rio de Janeiro, organizado pelo Centro de Estudos Afro-Asiáticos da Universidade Candido Mendes, instituição com tradição neste ramo. 6 Como os cursos de Extensão e Especialização oferecidos pelo Programa de Estudos sobre o Negro na Sociedade Brasileira / PENESB da Faculdade de Educação da Universidade Federal Fluminense. 7 No dizer de um importante historiador francês, Pierre Vilar, falar em ouro na Europa Medieval era falar da África ( em seu livro Oro y Moneda en la História, 1450-1920. Barcelona, 1974. p.61) SALTO PARA O FUTURO / TV ESCOLA WWW.TVEBRASIL.COM.BR/SALTO

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