50218032 modulo-mtc-2011-ivana-schnitman

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  1. 1. POLICIA MILITAR DA BAHIA ACADEMIA DE POLÍCIA MILITAR UNIDADE DE DESENVOLVIMENTO EDUCACIONAL CURSO DE FORMAÇÃO DE OFICIAIS (CFO) Profª. Ivana Schnitman - 2011 - Módulo de Metodologia do Trabalho Científico
  2. 2. APRESENTAÇÃO Prezado (a) estudante Vivemos em um mundo de mudanças constantes. Face às exigências sociais atreladas ao advento da globalização surgiram novas tecnologias da informação e, com efeito, um novo perfil de homem que se pretende formar. Tais mudanças originaram novos paradigmas culturais e educativos. Desta forma, o conhecimento apresenta-se como um dos instrumentos mais valiosos para o progresso da ciência e da humanidade. A disciplina Metodologia do Trabalho Científico I busca contribuir para a compreensão das ferramentas teórico-metodológicas da investigação científica, em função da apropriação da realidade e da construção do conhecimento científico. Ela tem como abordagens centrais a classificação do conhecimento, a concepção de ciência, as metodologias de pesquisa científica, os conhecimentos e as técnicas referentes à produção dos diferentes trabalhos acadêmicos, assim como seus critérios, em uma perspectiva dialógica e crítica. As informações presentes neste material didático servirão de subsídio para a sistematização e registro dos conhecimentos apreendidos ao longo da disciplina, instrumentalizado-os sobre as normas e procedimentos importantes na concepção, desenvolvimento e organização de seus trabalhos acadêmicos. Bons Estudos! Profa. Ivana Schnitman
  3. 3. METODOLOGI A DO TRABALHO CI EN TÍFI CO I 3 SUMÁRIO 1 CONHECIMENTO E CIÊNCIA.............................................................................................. 5 1.1 Conhecimento Humano.............................................................................................5 1.1.1 Teoria do conhecimento ..............................................................................7 1.1.2 Conhecimento: conceitos e fundamentos ..................................................8 1.2 Tipos de Conhecimento...........................................................................................10 1.2.1 Conhecimento popular...............................................................................11 1.2.2 Conhecimento religioso .............................................................................12 1.2.3 Conhecimento filosófico.............................................................................12 1.2.4 Conhecimento científico ............................................................................13 1.3 A Ciência e Suas Características ...........................................................................15 1.3.1 A ciência e o fazer científico......................................................................15 1.3.2 Concepções de ciência..............................................................................17 1.4 Pesquisa Científica..................................................................................................21 1.4.1 Positivismo..................................................................................................22 1.4.2 Funcionalismo ............................................................................................23 1.4.3 Estruturalismo.............................................................................................24 1.4.4 Dialética ......................................................................................................25 1.4.5 Fenomenologia...........................................................................................26 1.4.6 Modelo holístico .........................................................................................26 2 PESQUISA E TRABALHOS ACADÊMICOS.....................................................................29 2.1 As Metodologias da Pesquisa.................................................................................29 2.1.1 Conceitos sobre pesquisa .........................................................................29 2.1.2 Classificação da pesquisa.........................................................................29 2.1.3 Tipos de pesquisa: Objetivo, procedimento e aborgagem......................30 2.2 Sistematização, Registro e Trabalhos Acadêmico ................................................34 2.2.1 Análise e interpretação de texto................................................................34 2.2.2 Tipos de análise de textos.........................................................................35 2.2.3 Resumo de texto ........................................................................................36 2.2.4 Fichamento de texto ..................................................................................37 2.2.5 Resenha......................................................................................................38 2.2.6 Artigo científico...........................................................................................40 2.3 Normas Para Apresentação de Trabalho Acadêmico...........................................43 2.3.1 Regras de apresentação ...........................................................................43 2.3.2 Numeração progressiva.............................................................................44 2.3.3 Alíneas........................................................................................................45 2.3.4 Paginação...................................................................................................45 2.3.5 Ilustrações e tabelas..................................................................................45
  4. 4. METODOLOGI A DO TRABALHO CI EN TÍFI CO I 4 2.4 Normas Para Elaboração de Citações e Referências...........................................47 2.4.1 Citação........................................................................................................47 2.4.2 Sistema de chamada .................................................................................50 2.4.3 Formas de citação......................................................................................51 2.4.4 Sistema numérico ......................................................................................52 2.4.5 Referências ................................................................................................53 2.4.6 Observações gerais:..................................................................................54 2.5 As etapas da pesquisa científica..........................................................................57 2.5.1 Análise de conteúdo...................................................................................63 2.5.2 Projeto de pesquisa científica....................................................................65 GLOSSÁRIO....................................................................................................................................70 REFERÊNCIAS ...............................................................................................................................71
  5. 5. METODOLOGI A DO TRABALHO CI EN TÍFI CO I 5 1CONHECIMENTO E CIÊNCIA O tema apresenta concepções sobre o conhecimento humano e suas classificações, além de referendar a ciência, seus princípios e características. Por fim, apresenta o que é pesquisa científica e seus meios de produção. 1.1 CONHECIMENTO HUMANO Este encontro aborda as concepções sobre conhecimento humano, enfatizando a maneira pela qual ele é produzido. Desta forma, serão debatidas as dimensões que o conhecimento assume para suprir as diferentes necessidades humanas. O conhecimento humano se processa à medida que nos defrontamos com os fatos, fenômenos e objetos no mundo, de maneira direta ou indireta. Segundo Luckesi e Passos (2002) o sujeito cognitivo se apropria diretamente do conhecimento a partir do enfrentamento entre ele mesmo e o mundo exterior mediatizado pela experiência, isto é, o sujeito é desafiado por uma nova circunstância que se apresenta e ele empreende esforços e métodos para desvelar o seu sentido e atribuir significado. Já a apropriação indireta da realidade parte da compreensão inteligível que fazemos sobre esta via entendimento já produzido por outro, isto é, existe um mediador que experimentou e comunicou o conhecimento, revelando a sua interpretação sobre a realidade. Ambas as modalidades de conhecimento são imprescindíveis para a compreensão do mundo pelo homem, são retro- alimentadas mutuamente e estão profundamente relacionadas. A educação é um recurso potencial capaz de proporcionar conhecimento ao sujeito. Entretanto ressalvo algumas experiências educativas inovadoras, o sujeito tem recebido passivamente o conhecimento que, na maioria das vezes, é imposto pela ideologia dominante, através das instituições de ensino. Neste sentido, a prática educativa não deve se restringir apenas à transmissão e manutenção do legado de conhecimentos, sobretudo, incitar o debate sobre as suas construções, relações e implicações, querem de natureza epistemológica, filosófica, histórica, cultural, éticas, morais ou sociais. O levantamento de problemas e a construção de hipóteses, a partir de conhecimentos prévios, para além da investigação de teorias, reforçam o diálogo entre os atores sociais e contribuem para a discussão e reflexão dos fatos. Neste sentido se insere a discussão sobre a educação matemática como campo de formação do sujeito e neste debate importa diferenciar o matemático do educador matemático. O primeiro, por exemplo, tende a conceber a matemática como um fim em si mesmo e, quando requerido a atuar na formação de professores de matemática, tende a promover uma educação para a matemática priorizando os conteúdos formais dela e uma prática voltada à formação de novos pesquisadores em matemática, explicam Fiorentini e Lorenzato (2006).
  6. 6. METODOLOGI A DO TRABALHO CI EN TÍFI CO I 6 O segundo - o educador matemático – concebe a matemática como um meio ou instrumento importante à formação intelectual e social de crianças, jovens e adultos e também do professor de matemática do ensino fundamental e médio e, por isso, tenta promover uma educação pela matemática. Ou seja, o educador matemático, na relação entre educação e matemática, tende a colocar a matemática a serviço da educação, priorizando esta última, mas sem estabelecer dissociação entre ambas (FIORENTINI; LORENZATO, 2006). O educador, de maneira geral, deve problematizar o conhecimento junto aos estudantes, e também as disciplinas, os conteúdos, os significados e os significantes. Isso implica desenvolvimento de um esforço político, autodisciplina e consciência crítica que lhe permita: a)Questionar toda forma de pensamento único, o que significa introduzir a suspeita sobre as representações da realidade baseadas em verdades estáveis e objetivas. b)Reconhecer, diante de qualquer fenômeno, [...] as versões da realidade que representam e as representações que tratam de influir. c)Incorporar uma visão crítica que leve a perguntar-se a quem beneficia essa visão dos fatos e a quem marginaliza... d)Introduzir, diante do estudo de qualquer fenômeno, opiniões diferenciadas, de maneira que o aluno comprove que a realidade se constrói desde pontos de vista diferentes, e que alguns se impõem frente a outros não pela força dos argumentos, mas sim pelo poder de quem os estabelece [...]. (HERNÀNDEZ, 1998, p. 33). Se o educador perseguir este pensamento e atitude, não se restringiria, apenas, à transmissão e manutenção do legado de conhecimentos materializados “pela cultura e pela existência do homem branco, ocidental, heterossexual e de classe média” (LOURO et al, 2003, p. 42), mas levaria a efeito a contestação de uma cultura hegemônica e monolítica que silencia, portanto, nega a sociedade plural, protagonizada por grupos organizados coletivamente em torno de identidades culturais. Assim, as demandas culturais e os novos paradigmas da educação levam a efeito uma nova concepção de conhecimento humano. Muitas são as concepções que demarcam um novo olhar sobre o conhecimento e a educação na atualidade: não mais a transmissão de conteúdos, e sim a formação de sujeitos cognitivos com competências e habilidades para enfrentar situações inesperadas, solucionar problemas, acompanhar o desenvolvimento do conhecimento em suas áreas de interesse e respeitar a pluralidade cultural planetária. Isso possibilitou uma revisão sobre a função social da educação, já que a educação, na perspectiva de Brandão (2003), é uma fração da experiência endoculturativa. Ela aparece sempre que há relações entre pessoas e intenções de ensinar-aprender. Sendo assim, devemos considerar que a educação abrange os processos formativos que se desenvolvem em várias esferas: na vida familiar, na convivência humana, no trabalho, nas instituições de ensino e pesquisa, nos movimentos sociais e organizações da sociedade civil e nas manifestações culturais, conforme expressa o artigo 1º da LDB (1996). Já Morin (2001) afirma que a educação é, ao mesmo tempo, transmissão do antigo e abertura da mente para receber o novo. Mas o que é o novo? Como se dá o conhecimento, afinal? Vejamos na próxima seção. PARA SABER MAIS! Sobre informação, conhecimento e sociedade em rede acessem o site: http://www.paulofreire.org/Moacir_Gadotti/Artigos/Portugues/Formacao_do_Educado r/Sociedade_rede_2004.pdf
  7. 7. METODOLOGI A DO TRABALHO CI EN TÍFI CO I 7 1.1.1 TEORIA DO CONHECIMENTO O encantamento e curiosidade do ser humano ao contemplar a Natureza, o Universo, enfim, as coisas que o cercam, dá início ao processo do conhecimento, que termina por produzir o saber de forma metódica e organizada. Isto só é possível porque existe o sujeito e o objeto. O sujeito é aquele que conhece ou está disponível a conhecer e refere-se ao sujeito cognoscente, inteligível, que possui uma consciência que lhe permite a apropriação e compreensão dos fatos, fenômenos e objetos ao seu entorno. O objeto, por sua vez, se refere àquele que está disponível a ser conhecido, ou seja, o cognoscível, caracterizado pelos artefatos da natureza em geral. Assim, a relação entre o sujeito e o objeto produz o conhecimento humano e o saber. Portanto, o termo conhecimento vem do latim e significa cognoscere, conhecer pelos sentidos. O conhecimento passa a existir quando o indivíduo traduz, pelo pensamento e linguagem, a experiência vivenciada. Portanto, o conhecimento e/ou o ato de conhecer se origina na busca de resolução dos diversos problemas humanos, bem como às inquietações inerentes ao viver. A teoria do conhecimento é como seu nome indica uma teoria, isto é, uma explicação ou interpretação filosófica do conhecimento humano. Mas, antes de filosofar sobre um objeto, é necessário examina-lo minuciosamente e decompô-lo. Uma exata observação e descrição do objeto devem preceder qualquer explicação e interpretação. É necessário, pois em nosso caso, observar com rigor e descrever com exatidão aquilo a que chamamos conhecimento, esse peculiar fenômeno de consciência. Ao conhecer, o homem procura apreender os traços gerais essenciais de um dado fenômeno, por meio da experiência e auto-reflexão. O fenômeno do conhecimento apresenta-se em seus aspectos fundamentais da seguinte maneira: no conhecimento encontram-se frente a frente o sujeito (consciência) e o objeto (mundo); o conhecimento apresenta-se como uma relação entre estes dois elementos; o dualismo sujeito e objeto pertencem à essência do conhecimento. Vejamos o esquema a seguir: A relação entre sujeito e objeto apresenta-se como uma correlação. A função do sujeito consiste em apreender o objeto e a do objeto em ser apreendido pelo sujeito. Daí se origina o conhecimento, como fruto da razão humana e das experiências vivenciadas e acumuladas pelo sujeito cognoscente. A crítica é uma ferramenta fundamental para avaliação do conhecimento existente, consequentemente, para a produção de novos conhecimentos.
  8. 8. METODOLOGI A DO TRABALHO CI EN TÍFI CO I 8 Veja, a seguir, um breve esquema sobre a noção de conhecimento nas correntes filosóficas do racionalismo, empirismos e interacionismo: 1. Racionalismo (RAZÃO) – O conhecimento é inato ao homem. Este já nasce com a razão pura, com o conhecimento, isto é, com certas noções prévias sobre as coisas que existem no mundo. O sujeito influencia o objeto. Pensador: René Descartes. S O 2. Empirismo (EXPERIÊNCIA) – O homem é semelhante a uma “tabula rasa” e, através da experiência com as coisas do mundo ele adquire e acumula conhecimentos. O objeto influencia o sujeito. Pensador: John Locke. S O 3. Interacionismo (INTERAÇÃO) – O homem modifica o meio em que vive e, ao mesmo tempo, é modificado por ele, ou seja, o homem é produto e produtor do meio no qual se insere. Há uma relação recíproca entre sujeito e objeto, eles se influenciam mutuamente. Pensador: Immanuel Kant S O Analise a charge da Mafalda... E reflita: De onde vem o conhecimento humano? ENRIQUEÇA SEUS CONHECIMENTOS! Conheça um esquema de idéias interessante sobre teoria do conhecimento acessando o site: http://www.mundodosfilosofos.com.br/vanderlei22.htm 1.1.2 CONHECIMENTO: CONCEITOS E FUNDAMENTOS O conhecimento pode ser visto como a apreensão da realidade por meio do pensamento e a capacidade de tornar lúcido ao pensamento o que se apreendeu. Para Luckesi e Passos (2002, p.15), o conhecimento pode ser definido como “elucidação da realidade”, isto é, o esforço de enfrentar o desafio da realidade, buscando o seu sentido, a sua verdade. Já Aranha e Martins (1993, p.21) definem o conhecimento como “*...+ o pensamento que resulta da relação que se estabelece entre o sujeito que conhece e o objeto a ser conhecido”.
  9. 9. METODOLOGI A DO TRABALHO CI EN TÍFI CO I 9 Enfim, conhecimento refere-se ainda a uma qualidade humana de interagir ativamente sobre o mundo a fim de garantir a sobrevivência humana. O homem, utilizando de suas capacidades, procura conhecer o mundo que o rodeia, produzindo, assim, conhecimentos. A dimensão do conhecimento abrange o ato de conhecer, representado pela relação que se estabelece entre a consciência que conhece e o mundo conhecido e o produto, resultado do conteúdo desse ato, ou seja, o saber adquirido e acumulado pelo homem ao longo da história da humanidade. Se buscarmos a palavra francesa connaissance, podemos observar que o termo conhecimento é originário da palavra nascer (naissance). Os homens são diferentes dos outros seres exatamente pela capacidade de conhecer, sua consciência. O conhecimento é uma forma de estar no mundo, e o processo do conhecimento mostra aos homens que eles jamais são seres prontos ou possuem formulações absolutas na medida em que estão sempre nascendo de novo, descortinar a realidade. Conhecer é atividade especificamente humana. Ultrapassa o mero “dar-se conta de”, e significa a apreensão, a interpretação. Conhecer supõe a presença de sujeitos; um objeto que suscita sua atenção compreensiva; o uso de instrumentos de apreensão; um trabalho de debruçar- se sobre. Como fruto desse trabalho, ao conhecer, cria-se uma representação do conhecido – que já não é mais o objeto, mas uma construção do sujeito. O conhecimento produz, assim, modelos de apreensão – que por sua vez vão instruir conhecimentos futuros (FRANÇA, 1994, p. 140). O célebre educador brasileiro Paulo Freire (1979) explica que o conhecimento não pode ser visto como um ato, através do qual, um sujeito, transformado em objeto, recebe, passivamente, os conteúdos que o outro lhe oferece ou lhe impõe. O conhecimento exige uma posição de enfrentamento e de transformação sobre a realidade, em um percurso constante de busca, portanto, de invenção e reinvenção. Ele impõe uma reflexão crítica do sujeito sobre o ato de conhecer a fim de que identifique os condicionamentos a que seu ato está submetido. Já, para o sociólogo e pensador francês Edgar Morin (1986, p. 16), O conhecimento é um fenômeno complexo e multidimensional, simultaneamente elétrico, químico, fisiológico, celular, cerebral, mental, psicológico, existencial, espiritual, cultural, lingüístico, lógico, social, histórico. Oriundo necessariamente de uma atividade cognitiva, determina uma competência de ação, constituindo-se no saber que intermédia ambos os processos. Na filosofia, conforme as palavras de Abbagnano (1970, p. 45), o conhecimento, encontra-se definido como: [...] um procedimento operacional, uma técnica de verificação de um objeto qualquer, isto é, qualquer procedimento que torne possível a descrição, o cálculo ou a previsão controlável de um objeto; e por objeto de entender-se qualquer entidade, fato, coisa, realidade ou propriedade, que possa ser submetido a tal procedimento. Ao materializar-se, o conhecimento assume diferentes formas: a do senso comum, da ciência, da filosofia, da religião. Isto corresponde aos quatro tipos de conhecimentos existentes: o senso comum ou conhecimento empírico; o conhecimento religioso; o filosófico; e o científico. Estes são os tipos mais comuns de conhecimento, muito embora alguns autores delimitem outros tipos, como o intuitivo e o mítico. Entretanto na próxima seção iremos nos ater aos quatro principais. PARA REFLETIR Afinal, o que é conhecimento? Para obter respostas a este questionamento, acesse o site: http://www.mundodosfilosofos.com.br/vanderlei22.htm
  10. 10. METODOLOGI A DO TRABALHO CI EN TÍFI CO I 10 SÍNTESE Nesta seção, vimos que o sujeito é aquele que quer conhecer; e o objeto é aquele a ser conhecido; e que a relação entre ambos resulta no conhecimento humano. Curioso é que o homem (sujeito cognoscente) é o único elemento que pode ser sujeito e objeto do conhecimento. Isto porque ele é dotado de uma consciência que lhe permite investigar e ser investigado, embora em circunstâncias distintas. Ex.: O cientista (homem) pode estudar outro homem em várias perspectivas: da sociologia, investigar o homem na interação com os grupos sociais; na medicina, analisar a fisiologia do homem e as reações químicas do organismo; na biologia, avaliar os impactos do ecossistema no homem etc. BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR LUCKESI, Cipriano Carlos; PASSOS, Elizete silva. Introdução à filosofia: aprendendo a pensar. 4. ed. São Paulo: Cortez, 2002. INDICAÇÕES DE SITES http://www.mundodosfilosofos.com.br/vanderlei22.htm http://www.paulofreire.org/Moacir_Gadotti/Artigos/Portugues/Formacao_do_Educador/Sociedade_re de_2004.pdf 1.2 TIPOS DE CONHECIMENTO Este encontro versa sobre os tipos de conhecimento humano, seus conceitos, suas características, e a importância das várias tradições e maneiras de desvendar a realidade, enfatizando o conhecimento científico. Compreender os níveis de conhecimento é um importante instrumento para maior orientação prática no dia-a-dia, superação da ignorância e da obscuridade face à realidade, libertação individual e social, além do uso dos diferentes níveis como suportes para a ação humana.
  11. 11. METODOLOGI A DO TRABALHO CI EN TÍFI CO I 11 Com o propósito de explicitar os processos de produção e os modos de apropriação do conhecimento, se insere o tema em debate. Como já evidenciado, o conhecimento pode assim ser categorizado: popular, religioso, filosófico e científico. Apesar desta separação didática no processo de apreensão da realidade do objeto, o sujeito pode penetrar nas diversas categorias, já que se encontra em contato permanente com tradições distintas de produção do conhecimento ao longo da história. 1.2.1 CONHECIMENTO POPULAR O conhecimento popular, também denominado de vulgar, empírico ou senso comum, resulta do modo espontâneo e corrente de conhecer. É o conhecimento que deu embasamento a todos os outros. Surgiu no início da caminhada empreendida pelo ser humano através de sua relação com o mundo na expectativa de sobrevivência e seguirá enquanto o ser humano existir. Para Ander-Egg (1978), as características do conhecimento popular são: "superficial, sensitivo, subjetivo, assistemático e acrítico". É superficial porque não se aprofunda nas observações, acredita no que viu e na maneira como foi contado o fato. É sensitivo porque se contenta com as aparências e emoções do cotidiano. É subjetivo porque é o próprio sujeito que organiza o saber e as experiências, tanto aqueles que as obtêm por vivência, quanto os que as aprenderam por "ouvir dizer". É assistemático porque não sistematiza as experiências e as idéias, nem tampouco a forma como as adquiriu e nem as tentativas de validá-Ias. Esta característica fundamenta-se na "organização" particular das experiências próprias do sujeito cognoscente, e não em uma sistematização das idéias, na procura de uma formulação geral que explique os fenômenos observados, aspecto que dificulta a transmissão de pessoa a pessoa, desse modo de conhecer. Finalmente, é acrítico porque sendo verdadeiro ou não, sempre recebe críticas. O conhecimento empírico não explica o "porquê" da ocorrência dos fatos ou fenômenos. Ele se basta por si só, porque se refere à sobrevivência do homem e é passado de geração a geração. O conhecimento popular, academicamente é tido ainda como, valorativo, por excelência, pois se fundamenta em uma seleção operada com base em estados de ânimo e emoções; é também verificável, visto que está limitado ao âmbito da vida diária e diz respeito àquilo que se pode perceber no dia-a-dia. Finalmente é falível e inexato, pois se conforma com a aparência e com o que se ouviu dizer a respeito do objeto. Em outras palavras, não permite a formulação de hipóteses sobre a existência de fenômenos situados além das percepções objetivas. Barros e Lehfeld (1986), classificam de conhecimento sensível o senso comum e relacionam com características as mesmas já indicadas. Apenas usam as terminologias, destituído de método, para assistemático e impregnado de projeções psicológicas para acrítico. Vejamos as classificações: a)Superficial, isto é, conforma-se com a aparência, com aquilo que se pode comprovar simplesmente estando junto das coisas, expressando-se por frases como "por que o vi", "por que o senti", "por que o disseram", "por que todo mundo o diz". b)Sensitivo, ou seja, referente às vivências, aos estados de ânimo e às emoções da vida diária. c)Subjetivo, pois é o próprio sujeito que organiza suas experiências e conhecimentos, tanto os que adquirem por vivências próprias quanto os "por ouvi dizer". d)Assistemático, pois esta "organização" das experiências não visa à sistematização das idéias, nem na forma de adquiri-las nem na tentativa de validá-las.
  12. 12. METODOLOGI A DO TRABALHO CI EN TÍFI CO I 12 e)Acrítico, pois, verdadeiros ou não, a pretensão de que esses conhecimentos o sejam não se manifesta sempre de forma crítica. 1.2.2 CONHECIMENTO RELIGIOSO O conhecimento religioso ou teológico sempre foi direcionado no sentido de se compreender a realidade do homem e do Universo. Não demonstra e nem experimenta. Explica tudo pela fé e revelação divina. Conforme Lakatos e Marconi (2003), este conhecimento se apóia em doutrinas que contêm proposições sagradas (valorativas), por terem sido reveladas pelo sobrenatural (inspiracional) e, por esse motivo, tais verdades são consideradas infalíveis, e indiscutíveis (exatas); é um conhecimento sistemático do mundo (origem, significado, finalidade e destino) como obra de um criador divino; suas evidências não são verificáveis: estão sempre implícitas uma atitude de fé perante um conhecimento revelado. Assim, o conhecimento religioso parte do princípio de que as "verdades" tratadas são infalíveis e indiscutíveis, por consistirem em "revelações" da divindade. O conhecimento teológico supõe e exige a autoridade divina; nele se fundamenta e só a ele atende; a ciência ao contrário, não supõe, não exige, não admite autoridade; a ciência só admite o que foi provado, na exata medida em que se podem comprovar experimentalmente os fatos. Santos (2002), explica que depois do senso comum este tipo de conhecimento é o mais antigo. Derivou do conhecimento mítico e se confunde com ele na explicação do princípio de tudo. Nesta fase mítica dois ramos de interpretação se estabelecem. Um admitia a existência de vários deuses para explicar, o bem, o mal, os fenômenos e as coisas. O outro admitia um só Deus soberano, criador e sustentador de tudo e de todos; e tudo, escrito, falado e registrado, era transmitido por revelação de Deus. Os livros sagrados representam este tipo de conhecimento. 1.2.3 CONHECIMENTO FILOSÓFICO O conhecimento filosófico como o próprio termo indica é originário da Filosofia. Esta palavra foi utilizada pela primeira vez por Pitágoras no século VI a.C. Em sentido etimológico, Filosofia significa devotamento à sabedoria, isto é, amigo da sabedoria, o que significa interesse em acertar nos julgamentos sobre a verdade e a falsidade, sobre o bem e o mal. A Filosofia tem como propósito questionar os problemas reais, usando princípios racionais. Ela procede de acordo com as leis formais do pensamento, tem método próprio, predominantemente dedutivo em suas colocações críticas. A filosofia pode ser definida ainda como o conjunto de estudos ou considerações que se caracterizam pela intenção de ampliar a compreensão da realidade, no sentido de apreendê-la em sua inteireza, quer pela busca da realidade capaz de abranger todas as outras, quer pela definição do instrumento capaz de apreender a realidade. Assim, podemos considerar que a filosofia indaga, traça rumos, assume posições, estruturas correntes que inspiram ou dominam mentalidades em determinados períodos, mas que, em seguida, perdem vigor diante de novas concepções, que geralmente hostilizam as anteriores, à maneira das correntes literárias, das artes em geral ou das religiões. Para Santos (2002), o conhecimento filosófico é valorativo, pois seu ponto de partida consiste em hipóteses, que não poderão ser submetidas à observação: "as hipótese filosóficas baseiam-se na experiência, portanto, este conhecimento emerge da experiência e não da experimentação"; por este motivo, o conhecimento filosófico é não verificável, já que os enunciados das hipóteses filosóficas, ao contrário do que ocorre no campo da ciência, não podem ser confirmados nem refutados.
  13. 13. METODOLOGI A DO TRABALHO CI EN TÍFI CO I 13 É racional, em virtude de consistir em um conjunto de enunciados logicamente correlacionados; é sistemático, pois suas hipóteses e enunciados visam à representação coerente da realidade estudada, em uma tentativa de apreendê-la em sua totalidade; é infalível e exato, quer na busca da realidade capaz de abranger todas as outras, quer na definição do instrumento capaz de apreender a realidade, seus postulados, assim como suas hipóteses, não são submetidos ao decisivo teste da observação (experimentação). Portanto, o conhecimento filosófico é caracterizado pelo esforço da razão pura para questionar os problemas humanos e poder discernir entre o certo e o errado, unicamente recorrendo às luzes da própria razão humana. 1.2.4 CONHECIMENTO CIENTÍFICO O conhecimento científico é representado pela Ciência e pode ser definido como o conjunto organizado de conhecimentos sobre um determinado objeto, obtidos mediante a observação, a experiência dos fatos e um método próprio. Neste sentido, são requisitos básicos do conhecimento científico: a) que o campo do conhecimento seja delimitado, bem caracterizado e formulado o assunto que se deseja investigar; b) que existam métodos adequados de pesquisa para o estudo em questão. Diferentemente do que acontece com o conhecimento vulgar, o conhecimento científico não atinge simplesmente os fenômenos em sua manifestação global, mas os atinge em suas causas, na sua constituição íntima, caracterizando-se, desta forma, pela capacidade de analisar, de explicar, de justificar, de induzir ou aplicar leis, isto é, de predizer com segurança eventos futuros. O conhecimento científico visa conhecer pelas causas, isto é, saber cientificamente, é também ser capaz de demonstrar. O conhecimento científico difere do conhecimento vulgar porque explica os fenômenos e não só os apreende. O conhecimento científico é crítico, rigoroso, objetivo, nasce da dúvida e se consolida na certeza das leis demonstradas. PARA SABER MAIS... Sobre espírito científico e descubra como se origina uma investigação científica. http://br.geocities.com/perseuscm/espiritocientifico.html Lakatos e Marconi (2003) caracterizam o conhecimento científico da seguinte forma: é real (factual) porque lida com ocorrência ou fatos, isto é, com toda "forma de existência que se manifesta de algum modo". Constitui um conhecimento contingente, pois suas proposições ou hipóteses têm sua veracidade ou falsidade conhecida através da experiência e não apenas pela razão, como ocorre com o conhecimento filosófico. É sistemático, já que se trata de um saber ordenado logicamente, formando um sistema de idéias (teorias) e não conhecimentos dispersos e desconexos. Possui a característica da verificabilidade, a tal ponto que as afirmações (hipóteses) que não podem ser comprovadas não pertencem ao âmbito da ciência. Constitui-se em conhecimento falível, em virtude de não ser definitivo, absoluto ou final e, por este motivo, é aproximadamente exato: novas proposições e o desenvolvimento de técnicas podem reformular o acervo de teoria existente. Esse tipo de conhecimento se distingue dos demais tipos apresentados, visto que oferece a verificação do fato pesquisado, é falível e sistemático. A ciência se preocupa em estabelecer as propriedades e os padrões interdependentes entre as propriedades, para construir as generalizações ou as leis.
  14. 14. METODOLOGI A DO TRABALHO CI EN TÍFI CO I 14 Não se duvida, entretanto, que muitas das disciplinas científicas existentes têm surgido das preocupações práticas da vida cotidiana, como a geometria dos problemas de medição e levantamento topográfico nos campos; a mecânica de problemas apresentados pelas artes arquitetônicas; a biologia dos problemas humanos [...] (TRUJILLO, 1982, p. 6). Assim, podemos considerar que a pesquisa científica deve ser orientada para buscar resolver ou apresentar soluções para os problemas sociais, econômicos, políticos e científicos existentes. Conforme o exposto, o conhecimento científico é estruturado, limitado e utilizam-se modelos, verificáveis, falíveis, aproximadamente exatos. Assim, concluímos que as verdades científicas são provisórias e nunca absolutas e acabadas. Barros e Lehfeld (2000, p. 38) destacaram os seguintes princípios sobre o conhecimento científico: O conhecimento científico surgiu a partir das preocupações humanas cotidianas e esse procedimento é conseqüente do bom senso organizado e sistemático. O conhecimento científico transcende o imediatamente vivido e observado, buscando a formulação de paradigmas. O conhecimento científico, considerado como um conhecimento superior exige a utilização de métodos, processos, técnicas especiais para a análise, compreensão e intervenção na realidade. A abstração e a prática hão de ser dominadas por quem pretende trabalhar cientificamente. Conforme apresentação e descrição dos tipos de conhecimento e suas características principais, vejamos, de forma breve e resumida, as características apresentadas por Santos (2002). APROFUNDE SEUS CONHECIMENTOS. Pesquisando sobre os tipos de conhecimento humano, conhecimento relacionado à educação, na perspectiva de Jean Piaget; e ainda, buscar respostas para as perguntas: “o que é o conhecimento”? ou “como os diversos tipos de conhecimento são possíveis”? Na abordagem de autores diversos, acesse os sites: http://www.puc-rio.br/sobrepuc/depto/dad/lpd/download/tiposdeconhecimento.rtf http://www.ufrgs.br/faced/slomp/edu01136/piaget-epistemo.htm
  15. 15. METODOLOGI A DO TRABALHO CI EN TÍFI CO I 15 SÍNTESE Para finalizar este encontro, apresentamos, brevemente, a concepção e a classificação de Jean Piaget sobre o conhecimento e apropriação da realidade. Ele acreditava que o conhecimento só poderia ser construído através da atuação do indivíduo com o meio ou da interação do indivíduo; e, assim, definiu três tipos de conhecimento: Conhecimento físico: conhecimento das propriedades físicas dos objetos e eventos. É um conhecimento inerente ao objeto (descoberta, através da experiência, da natureza dos objetos), resultante a ação sobre o ambiente. Conhecimento lógico-matemático: conhecimento construído pelo sujeito, mediante as experiências com os objetos. Refere-se aos conceitos elaborados sobre um grupo de objetos; e também é resultante da ação sobre o ambiente. Conhecimento social: conhecimento construído a partir de convenções estabelecidas por grupos sociais ou culturais, é um conhecimento desenvolvido através das interações entre sujeitos. BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR SANTOS, Izequias Estevam dos. Textos selecionados de métodos e técnicas de pesquisa científica. 3. ed. Rio de Janeiro: Impetus, 2002. INDICAÇÃO DE SITES http://br.geocities.com/perseuscm/espiritocientifico.html http://www.puc-rio.br/sobrepuc/depto/dad/lpd/download/tiposdeconhecimento.rtf http://www.ufrgs.br/faced/slomp/edu01136/piaget-epistemo.htm 1.3 A CIÊNCIA E SUAS CARACTERÍSTICAS Esta seção de encontros aborda as concepções existentes sobre ciência, considerando seu contexto histórico e cultural, os elementos que a caracterizam e as suas limitações no cenário contemporâneo. Analisaremos a importância da estruturação do conhecimento científico na evolução da sociedade. 1.3.1 A CIÊNCIA E O FAZER CIENTÍFICO Não podemos abordar o fazer científico sem antes considerar o que é ciência, qual o seu objetivo e o seu papel na sociedade. Estas questões são fundamentais para compreensão dos processos científicos que o estudante deve lançar mão para organizar os conhecimentos adquiridos ao longo de sua vida acadêmica.
  16. 16. METODOLOGI A DO TRABALHO CI EN TÍFI CO I 16 Vamos, então, iniciar o nosso debate com o conceito de Ciência. Ele pode ser concebido como um conjunto de conhecimentos, que se dá através da utilização adequada de métodos rigorosos, capazes de controlar os objetos, fatos e fenômenos investigados. Relaciona-se esse conhecimento aos objetos empíricos, passíveis de observação e experimentação. A etimologia da palavra ciência: Ciência (scire) é saber, conhecer. Barros e Lehfeld (2000, p. 41) explicam: “a ciência é também definida como sendo o estudo de problemas formulados adequadamente em relação a um objeto, procurando para ele soluções plausíveis, através da utilização de métodos científicos”. Para Ander-Egg (1978), em sua obra “Introdución a las técnicas de investigación social”, a ciência é um conjunto de conhecimentos racionais e prováveis, que é obtido de forma metódica, sistematizada e verificável. Já Trujillo (1974), a define da seguinte maneira: “a Ciência é todo um conjunto de atitudes e atividades racionais, dirigidas ao sistemático conhecimento com objeto limitado, capaz de ser submetido à verificação”. Assim, em todas as áreas do conhecimento humano a ciência através da pesquisa científica visa descrever, explicar e prever os fenômenos que integram a realidade em questão, tornando o mundo inteligível mediante interpretações racionais e sistemáticas em que se assegura o conhecimento científico. Entre os objetivos da ciência estão a busca do controle prático da natureza, a descrição e compreensão do mundo e a possibilidade de predição. Estes são determinados pela necessidade que o sujeito possui em compreender e controlar os fenômenos que o cercam. Portanto, é a necessidade do homem por uma compreensão mais aprofundada do mundo, bem como a necessidade de precisão para a troca de informações, que acabam levando-o à elaboração de sistemas mais estruturados de organização do conhecimento. Conforme Trujillo (1974), a ciência manifesta-se através de métodos e construções intelectuais que: Possibilitam a interpretação e a explicação adequada dos objetos, fatos e fenômenos da realidade; visam à verificação dos fenômenos, através da observação e experimentação; possibilitam a observação racional e o controle dos fatos; fundamentam os princípios da generalização ou o estabelecimento dos princípios e das leis. Segundo Ferrari (1982, p. 3), o papel da ciência na visão contemporânea é o de proporcionar: “aumento e melhoria do conhecimento; descoberta de novos fatos e fenômenos; aproveitamento espiritual, aproveitamento material do conhecimento; estabelecimento de certo tipo de controle sobre a natureza”. Assim, é do conhecimento científico e/ou da pesquisa científica que a Ciência se constitui, por isso buscamos estabelecer relação entre ambas. A pesquisa científica é um processo que começa quando se coloca um problema que precisa de solução, e para encontrá-la o sujeito, ou melhor, o especialista social, deve elaborar um projeto de pesquisa que lhe permita descobrir, explicar e, se possível, prever determinadas situações, bem como repercussões que a solução proposta há de ter no social, afirma Soriano (2004).
  17. 17. METODOLOGI A DO TRABALHO CI EN TÍFI CO I 17 PARA SABER MAIS Pesquise sobre as principais concepções de ciência na dissertação de mestrado intitulada “Evolução das concepções de alunos de ciências biológicas da UFBA sobre a natureza da ciência: influências da iniciação científica, das disciplinas de conteúdo específico e de uma disciplina de história e filosofia das ciências”. Acesse o site: http://www.ppgefhc.ufba.br/dissertacoes/eraldo2003.pdf 1.3.2 CONCEPÇÕES DE CIÊNCIA Muitos são os conceitos de ciência, pois cada autor imprime sua visão sobre o conteúdo. No que diz respeito à sua contextualização histórica, podemos dividir a ciência em três períodos, representado por suas características e paradigmas teóricos, que alteram a visão de homem, mundo, bem como ciência e método. As fases históricas são: a ciência grega, representada pelo período que vai do século VIII a.C. até o final do século XVI; a ciência moderna, do século XVII até o início do século XX e a ciência contemporânea que surge no início deste século e perdura até os dias. Ciência Grega Na Grécia antiga, a partir do século VIII a.C. e alcançando o século IV a.C. A ciência tinha como princípios fundamentais a compreensão da natureza e a busca pela verdade e pelo saber e era conhecida como “filosofia da natureza”. Nesta época, o conhecimento científico era vinculado ao campo da filosofia, tendo os grandes filósofos como cientistas. Nesta fase, não havia a distinção entre ciência e filosofia. A filosofia também conhecida como “mãe de todas as ciências”, foi responsável pela origem dos diversos ramos do conhecimento, por exemplo, a biologia, a física, a ética, a aritmética, a metafísica, a antropologia, a medicina e tantas outras ciências. O conhecimento científico produzido era demonstrado como correto e justificável através de argumentos lógicos. Nesta fase, não havia um tratamento sistemático do problema, mas sim a preocupação com a demonstração da tese, tendo como recurso usual o discurso e a lógica. Anaximandro, Heráclito, Empédocles, Tales de Mileto, Parmênides, Pitágoras, Anaxágoras, Demócrito – conhecidos como os pré-socráticos; e Sócrates, Platão e Aristóteles são alguns dos principais filósofos deste período. Ciência Moderna A ciência moderna, resultante da revolução científica do Renascimento, é caracterizada, basicamente, pela experimentação científica, o que acarretou mudança na visão de mundo, especialmente, de ciência, de verdade, de conhecimento e de método. Nesta fase, as tradições de natureza religiosa, filosófica, ou cultural, foram abandonadas, pois distorciam a verdadeira visão do mundo. A verdade passa a ter como critério, na ciência moderna, o da relação entre a assertiva dos enunciados e a evidência dos fenômenos, direcionada pelo experimento científico e seus métodos rigorosos. Dente os principais nomes da ciência moderna, estão: Bacon, Galileu, Newton, Copérnico e Kepler.
  18. 18. METODOLOGI A DO TRABALHO CI EN TÍFI CO I 18 Conheça o esquema de método de Galileu Galilei, basilar da ciência contemporânea e, consagrado neste período, segundo Santos (2002, p. 94): Ciência Contemporânea Com os teóricos contemporâneos, a exemplo de Einstein, Bohr e Heisenberg, dentre outros, o mito da pesquisa isenta de influências subjetivas foi desencorajado. A ciência moderna foi caracterizada, sobretudo, pela proposta de uma interpretação humana sobre a experiência, mais do que uma simples descrição da realidade. O cientista examina, julga e critica suas formulações, em um movimento de revisão constante, com o auxílio das novas tecnologias da informação e comunicação. No final do século XIX e início do XX, ocorre uma tomada de consciência de que a ciência necessita de reavaliação, por parte de alguns pensadores, que passaram a colocar em dúvida a validade dos métodos científicos utilizados naquela época. Desta forma, o próprio conceito de ciência é questionado, seus critérios, a noção de certeza, da relação entre ciência e realidade e a veracidade dos modelos científicos na compreensão da realidade. Além dos pensadores citados, um grande expoente da epistemologia contemporânea é Karl Popper. Este teórico defendeu a tese de que o cientista deve ocupar-se muito mais com o possível levantamento de teorias que refutem sua tese, do que com explicações e justificações que asseguram sua validade. Depois de Popper, a história da ciência é agraciada com a contribuição de Kuhn. Este teórico negou a teoria anterior e sustentou que a idéia de que a ciência progride pela ideal de refutação, que possibilitam a construção de novas teorias. Estas produzem novos paradigmas, que servem como referência para a produção de outros conhecimentos. Feyerabend chegou a uma síntese a partir das duas teses anteriores. Ele defendeu o pluralismo metodológico, desacreditando as posições positivistas, idéia de um método único, capaz de responder às indagações da pesquisa. Acredita que as normas de pesquisa são violadas, pois o cientista desenvolve aquilo que mais lhe agrada. Assim, estes três pensadores modificaram profundamente a noção de ciência como absoluta, previsível, controlável e destituída de subjetividade por quem a produz. No contexto atual, marcado pela velocidade de informações, o método científico vem sofrendo um acentuado processo de mudança. Segundo Santos (2002), o cientista moderno busca chegar à verdade perpassando as fases a seguir: a) descobrimento do problema; b) delineamento do problema; c) uso de instrumentos relevantes; d) tentativa de solução com meios identificados; e) invenção de novas idéias; f) obtenção de uma resposta aproximada; g) pesquisa das conseqüências em relação à solução obtida; h) confronto das respostas; i) correção das hipóteses; e caso a solução for incorreta começa-se um novo ciclo.
  19. 19. METODOLOGI A DO TRABALHO CI EN TÍFI CO I 19 Características da Ciência Barros e Lehfeld (2000) abordam as seguintes características como constituintes da ciência: a) racionalidade; b) coerência; c) representação do real; d) questionamento sistemático; e) analítica; f) exige investigação e utilização de métodos; g) agrupa objetos da mesma espécie para a investigação; h) é comunicável. Vejamos suas definições: Racionalidade: utilização do raciocínio analítico, lógico e sintético, desconsiderando as impressões subjetivas e a emoção. Trata-se da racionalização do conhecimento, caracterizada pela sistematização e coordenação metódica do raciocínio, observação, conclusão e aplicações frente aos fatos, fenômenos e objetos da natureza. Coerência: investigação sistemática entre a idéia e o fato, isto é, visa estabelecer concordância entre o objeto e o conhecimento, procurando aferir a verdade a uma determinada realidade. Em uma perspectiva crítica visam atingir a objetividade e à mensuração na pesquisa. Representação do Real: representa um quadro abstrato e codificado do real, isto é, o conteúdo concreto apreendido pelos sentidos, pelo pensamento sobre a realidade circundante. Questionamento Sistemático: a ciência, através de seus estudos, busca sempre sua superação. Para tanto, lança mão do questionamento contínuo, debate, justificativas, demonstrações e críticas pondo em dúvida a legitimidade dos argumentos e das razões fundamentais. Analítica: delimitação e decomposição do objetivo do estudo. Analisar significa examinar cada fragmento e/ou parte de um todo. Trata-se de um estudo pormenorizado que se empreende no exame de cada parte de um todo, tendo em vista conhecer sua natureza, suas proporções, suas funções, suas relações. Exige investigação e utilização de métodos: utilização rigorosa de estratégias para pesquisar, indagar, inquirir o fenômeno estudado. Trata-se de um caminho pelo qual se atinge determinado objetivo, lançando mão de métodos seguros e confiáveis de se validar o conhecimento. Agrupa objetos da mesma espécie para a investigação: trata-se da extensão de um princípio ou de um conceito a todos os casos a que se pode aplicar. Esta característica pode ser entendida como processo pelo qual se reconhecem caracteres comuns a vários objetos singulares, daí resulta quer na formação de um novo conceito ou idéia quer no aumento da extensão de um conceito já determinado que passe a cobrir uma nova classe de exemplos, a fim de facilitar a investigação científica. Comunicável: uma vez validadas, as descobertas científicas, são comunicadas à sociedade, pois servem de estímulo à resolução dos demais problemas individuais e sociais. Limitações da Ciência: o homem sempre empreendeu esforços para validar como verdade as descobertas sobre o mundo e, para tanto, utilizou os princípios de objetividade, universalidade e neutralidade científica para seus experimentos, visando à interpretação e explicação dos objetos, fatos e fenômenos. Entretanto como produto eminentemente humano, a ciência não se caracteriza pela perfeição. Por este fato, ela está em constante processo de renovação. Novos aparatos tecnológicos e procedimentos científicos são desvendados e promovem a descoberta de novas leis e teorias científicas.
  20. 20. METODOLOGI A DO TRABALHO CI EN TÍFI CO I 20 Na visão de Demo (2000, p. 46), A ciência é edifício bastante frágil: o melhor que pode alcançar é a oferta de apreciação continuamente cambiantes de como as coisas funcionam. Nosso conhecimento é sempre atacável e provisório. Cada nova teoria científica está condenada a ser objetada sempre pela seguinte. Sendo assim, a ciência é tão mutável como quem a produz: o homem. Toda resposta a questionamentos científicos levanta uma gama de outras discussões. O que significa dizer que é do conhecimento novo que se originam tanto outros, uma espécie de lapidação da verdade, basta fazer uma analogia com o processo de lapidação do diamante. Assim também ocorre com o conhecimento humano. Tosco no princípio, mas aos poucos, torna-se capaz de resolver uma diversidade de problemas, especialmente, a cura para doenças e revoluções tecnológicas. A ciência e a tecnologia são os pilares fundamentais para atender aos objetivos de aumento e melhoria do conhecimento humano, mas elas não poderão ser bem sucedidas senão por uma integração da ciência e da cultura e, por uma aproximação integrada, que vise sobrepujar a fragmentação que se encontra o pensamento humano, encabeçado pela concepção mecanicista do conhecimento. Na visão de Weill (1993), acumulamos conhecimentos em quantidade. Mas, sem sabedoria para usá-los, podemos destruir-nos e ao mundo no qual habitamos. O autor acredita que o homem quebrou a unidade do conhecimento e distribuiu os pedaços entre os especialistas. Para os cientistas, entregamos a natureza; aos filósofos, à mente; aos artistas, ao belo; aos teólogos e à alma. Não satisfeitos, fragmentamos a própria ciência, espalhando-a pelos domínios da matemática, da física, da química, da biologia, da medicina e de tantas outras disciplinas. O mesmo ocorreu com a filosofia, a arte e a religião, cada um desses ramos se subdividindo ao infinito. Entretanto a proposta da ciência contemporânea é de síntese e de integração entre as tradições construídas pela humanidade ao longo da história, pois devemos ter como princípio, a reorientação da ciência e da tecnologia em direção das necessidades fundamentais do homem, considerando não apenas os progressos da informática, da biotecnologia, de engenharia genética, mas a integração do pensamento e da ação humana, bem como a incorporação de uma nova consciência para a produção ética de novos conhecimentos. PARA SABER MAIS! Há progressos impensáveis na ciência. Os cientistas norte-americanos criaram um teste de HIV que dá o diagnóstico do paciente em apenas 20 minutos. O teste rápido para detecção de anticorpos contra o vírus HIV requer apenas uma gota de sangue e pode fornecer resultados precisos em tempo exíguo. O aparelho que realiza o teste já se encontra à venda nos Estados Unidos e, certamente, chegará em breve ao Brasil. http://www.medcompare.com/showcase.asp?showcaseid=91
  21. 21. METODOLOGI A DO TRABALHO CI EN TÍFI CO I 21 TEXTO COMPLEMENTAR O que é, afinal, metodologia científica? Para obter resposta a este questionamento, acesse: http://www.leffa.pro.br/textos/Metodologia_pesquisa.pdf. Este texto discute como o conhecimento científico foi construído na história, a sua natureza e relações. Pesquise a sua referência completa e discuta com seus colegas. SINTESE Sendo assim, busque outras referências (livros, internet) e comente o exemplo acima, referendando os efeitos positivos e negativos da ciência no que se refere à vida individual e coletiva, isto é, à evolução da sociedade. Acesse a Wikipédia – a enciclopédia livre da internet - e leia temas interessantes como ciência, método científico, filosofia da ciência e campos da ciência. BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR BARROS, Aidil Jesus Paes de; LEHFELD, Neide Aparecida de Souza. Fundamentos de Metodologia Científica: um guia para a iniciação científica. São Paulo: Makron Books, 2000 CARVALHO, Alex et al. Aprendendo Metodologia Científica. São Paulo: O Nome da Rosa, 2000, p. 11-69 CHAUÍ, Marilena. A preocupação com o conhecimento. In:______. Convite à filosofia. 12. ed. São Paulo: Ática, 2001, p. 109-119. INDICAÇÃO DE SITES http://www.unicamp.br/~chibeni/texdid/ciencia.doc http://pt.wikipedia.org/wiki/Ci%C3%AAncia http://saude.bol.com.br/medicina/folha/2002/11/12/02.jhtm 1.4 PESQUISA CIENTÍFICA Apresentamos, neste encontro, as concepções epistemológicas da pesquisa científica que tomaram fôlego ao longo da história e seus princípios teóricos, bem como os pensadores que as representaram. As concepções de ciência são marcadas pelo seu contexto histórico e cultural, portanto, a ciência, em sua evolução, adquiriu concepções diferenciadas e estes paradigmas influenciaram os processos que envolvem a pesquisa científica. As diversas correntes passaram a agregar a epistemologia das ciências. Como estamos nos referindo à concepção epistemológica da ciência, cabe elucidar o conceito de epistemologia; já que o conceito de ciência foi abordado em seções anteriores. A epistemologia é um ramo da filosofia que tem por objetivo principal estudar os pressupostos ou fundamentos do conhecimento científico em geral e de cada ciência em particular. A "filosofia da ciência" (o mesmo que epistemologia) é um ramo extremamente amplo cujos principais temas nem sempre há acordo entre os seus teóricos. A falta de consenso não deve ser motivo de grande preocupação ou tampouco de desistência por parte daqueles que se iniciam nas sendas do conhecimento científico. Basta observar que, apesar dos inúmeros problemas colocados pelos estudiosos da epistemologia, a ciência ocupa um lugar de especial relevância no mundo contemporâneo.
  22. 22. METODOLOGI A DO TRABALHO CI EN TÍFI CO I 22 Além do mais, não podemos esquecer que as ciências estão continuamente em formação. Certos setores ou limites de uma determinada ciência dão lugar, com o passar do tempo, a ciências novas e a novas correntes científicas. Os teóricos da ciência (epistemólogos) estudam diversas questões, tais como os diferentes tipos e evolução das teorias científicas, a lógica da linguagem científica e seus aspectos metodológicos. Sem dúvida, o primeiro grande tema da epistemologia é definir que tipo de saber é o científico e quais os paradigmas que o circundam. Várias respostas têm sido dadas a essa questão e, de uma maneira geral, nenhuma delas é plenamente absoluta. Vejamos, então, as correntes existentes e uma breve explicação de seus fundamentos. 1.4.1 POSITIVISMO Encabeçado pelo filósofo francês Auguste Comte, também considerado o pai da Sociologia, o positivismo representa uma corrente científica que tem como fundamento principal a experimentação, sob influência das ciências experimentais no início do século XIX. A Ciência é representada pela maturidade do espírito humano e a imaginação está subordinada à observação, sendo eminentemente previsível e controlável. Comte foi o grande expoente do positivismo. Ele defendeu a tese de que o homem, em seu processo de conhecimento, assume três estágios de explicação: teológico; metafísico; positivo ou científico. O primeiro é caracterizado pelas explicações mitológicas; o segundo, pelas explicações místicas; e o terceiro, pelas fundamentações científicas. Este último tem como foco central a observação; os estudos descritivos; a existência dos fenômenos; utilização de modelos matemáticos, por isso, o uso de técnicas estatísticas; as relações entre variáveis e fatos. Nessa abordagem, o pesquisador necessita observar os fenômenos com cuidado especial, a fim de quantificar suas variáveis e atingir os resultados, por meio da isenção da subjetividade. Para tanto, deverá lançar mão de alguns métodos das ciências exatas, transpondo-as às ciências sociais e humanas, o que certamente reduz a amplitude da análise. A Ciência, nesse caso, tem como propósito essencial estabelecer relações entre os fatos e descreve-los com detalhamento. Apesar de o positivismo ter ganhado grande aderência e representatividade na segunda metade do século XIX, atualmente, perdeu parte de sua influência, por causa dos contra-argumentos de outros grupos ou organizações, no século XX. Apesar de algumas críticas, esta teoria é bastante utilizada nos centros de pesquisas, por se tratar de uma elaboração sistemática e metódica acerca da realidade, especialmente, pelas pesquisas de caráter experimental e quantitativo. Auguste Comte (1798-1857) é apontado como o iniciador da "ciência", especialmente a Sociológica. Ele foi professor de matemática da Escola Politécnica (Paris) e em 1842 publicou, em seis volumes, o seu principal livro, Curso de Filosofia Positiva. Sua doutrina seguiu posteriormente um curso sensivelmente distinto após ter conhecido Clotilde de Vaux. Os fundamentos dessa nova fase do seu pensamento encontram-se no livro “Sistema de Política Positiva”, publicado, em quatro volumes, no ano de 1851. Além de se preocupar com questões práticas e morais, Comte instituiu nessa obra a "religião positivista da humanidade" que, governada por sociólogos-sacerdotes, deveria oferecer finalmente uma unidade e harmonia de pensamento, sentimentos e ações entre os homens. Muitos seguidores de Comte romperam com ele devido a essa proposta. Este pensador exerceu uma profunda influência em outros teóricos, principalmente em Herbert Spencer e Emile Durkheim. Desenvolveu uma teoria ou doutrina conhecida como positivismo ou filosofia positiva.
  23. 23. METODOLOGI A DO TRABALHO CI EN TÍFI CO I 23 1.4.2 FUNCIONALISMO Entre as décadas de 1930 e 1960, o funcionalismo foi a teoria dominante nas ciências sociais. Nos fins do século XX, perdeu grande parte de sua representatividade, mas não ficou desaparecida. Segundo essa corrente, a Ciência incorpora uma visão de sistema, portanto, ela trata de proceder a investigações sobre formas duráveis da vida sociocultural de uma dada realidade. A ciência social por excelência analisa o desempenho e posições de papéis, normas, organizações, funções etc. O sociólogo francês Émile Durkheim é o expoente do funcionalismo. Nesta corrente, à medida que há ordem, ocorre o progresso. Para ele, cada indivíduo exerce uma função específica na sociedade e sua má execução compromete o funcionamento desta. Por sociedade, entende um todo em funcionamento, como um sistema de operação. Para interpretar a sociedade, realizou estudos sobre o fato social. Este define como elemento exterior à medida que existe antes do próprio indivíduo; e coercitivo na medida em que a própria sociedade posiciona suas normas, sem a opinião dos sujeitos dela partícipes. O método funcionalista toma a sociedade como uma estrutura complexa de grupos ou indivíduos reunidos em uma trama de ações e reações sociais, isto é, como sistema de instituições sociais correlacionadas entre si, em uma relação de ação e reação. Assim, a teoria funcionalista enfatiza a existência de regras e valores comuns essenciais à manutenção (ordem) de uma sociedade. Auguste Comte, Herbert Spencer e Émile Durkheim foram os sociólogos que mais influenciaram o funcionalismo. Todos eles partem do pressuposto de que a sociedade pode ser vista como um "organismo biológico", constituído de uma estrutura orgânica ou sistêmica. Desta maneira, a sociedade é concebida como um conjunto composto de elementos que interagem entre si para a manutenção e harmonia de um todo. Os componentes do sistema contribuem significativamente para o pleno funcionamento da sociedade. O filósofo e sociólogo francês Émile Durkheim é um clássico para as ciências sociais. Suas obras são até hoje lidas e servem como referência para muitos teóricos das ciências sociais. Foi professor da Sorbonne e o primeiro professor da cadeira de sociologia nessa instituição. Através da revista por ele coordenada, L'Année Sociologique, influenciou muitas áreas do conhecimento social, como a antropologia, a história e a lingüística. Em 1893 publicou sua tese de doutoramento, A Divisão Social do Trabalho; em 1895, seu principal trabalho, As Regras do Método Sociológico. Logo em seguida, em 1897, aplicou a sua metodologia no seu livro O Suicídio, um das pesquisas mais importante na história da sociologia. A sua obra mais famosa é As Formas Elementares da Vida Religiosa (1912). Durkheim é considerado fundador da "Escola Objetiva Francesa", a qual congregava um conjunto de cientistas sociais que participavam da revista Année Sociologique, por ele fundada. O seu pensamento é usualmente classificado como "realismo sociológico", devido a sua concepção de tratar os fenômenos humanos como dotados de uma realidade específica. Durkheim também é um dos principais representantes da sociologia sistêmica, na qual há uma grande ênfase na análise dos desempenhos de sujeitos individuais ou coletivos que interagem mediante comportamentos específicos (morais, econômicos, políticos, religiosos etc.) previstos por normas reguladoras. A idéia de sistema social é norteadora nesse tipo de análise sociológica.
  24. 24. METODOLOGI A DO TRABALHO CI EN TÍFI CO I 24 1.4.3 ESTRUTURALISMO A corrente estruturalista toma a realidade social como um conjunto formal de relações. A Ciência é entendida como um procedimento teleológico da historicidade e da finalidade a se atingir, por isso, é construído através de inquisições. Por teleológico entende-se argumento, conhecimento ou explicação que relaciona um fato à sua causa final. O método funcionalista foi um dos mais utilizados para analisar a língua, a cultura e a sociedade. O Estruturalismo é melhor visto como uma abordagem geral com muitas variações diferentes, entretanto, de modo geral, ele visa explorar as inter-relações, isto é, as estruturas, através das quais o significado é produzido dentro de uma cultura. Existem marcadas diferenças entre os autores que compõem essa "escola", mas todos eles manifestam uma preocupação em analisar as estruturas sociais. Em termos gerais, o estruturalismo procura as leis universais e invariantes da humanidade que operam em todos os níveis da vida humana. Para as ciências sociais, a obra mais importante no estruturalismo foi realizada pelo antropólogo francês Claude Lévi-Strauss, nascido no ano de 1908. Ele iniciou sua carreira ensinando na Universidade de São Paulo. Lévi-Strauss analisou várias sociedades tribais. A conclusão de Lévi-Strauss é a de que as verdadeiras estruturas fundamentais da sociedade são as estruturas da mente humana. Em todo o mundo, os produtos humanos têm uma fonte básica idêntica: o sistema mental. Mas esse sistema não é produto de um processo consciente. Mais recentemente, os estudos estruturalistas adquiriram novas dimensões com os trabalhos dos "pós-estruturalistas", também conhecidos como "neo-estruturalistas". O filósofo e cientista social francês Michel Foucault é a figura mais representativa dessa corrente. A sua produção é imensa e tem despertado cada vez mais interesse pelos historiadores. Seus principais livros: História da Loucura, As Palavras e as Coisas, Arqueologia do Saber e História da Sexualidade. Suas obras têm sido amplamente divulgadas nas pesquisas em educação e sua contribuição perpassa o entendimento da cultura via as relações de poder. O filósofo Claude Lévi-Strauss foi um grande teórico do Estruturalismo. Nasceu em Bruxelas, mas chegou ao Brasil em 1930 para realizar estudos de campo com índios, o que o consagrou antropólogo. Em 1955 ganha reconhecimento nos círculos acadêmicos, tornando-se um dos intelectuais franceses mais conhecidos, especialmente por publicar a obra Tristes Trópicos, livro autobiográfico sobre seu exílio em 1930. Após muitas publicações, Lévi-Strauss passou a segunda metade da década de 1960 se dedicando a sua obra Mythologiques, distribuída em quatro volumes e merecedora de prêmios no âmbito acadêmico. É doutor honoris causa de diversas universidades pelo mundo e continua a publicar ocasionalmente volumes temáticos sobre artes, poesia, bem como experiências pretéritas.
  25. 25. METODOLOGI A DO TRABALHO CI EN TÍFI CO I 25 1.4.4 DIALÉTICA O termo dialética, no mundo antigo, representava a arte do diálogo, do contraste, e ao memso tempo, origem de idéias. A Ciência é definida como sendo o ato de se conhecer a análise do processo do fenômeno como uma parte do processo de conhecimento, realizada a partir de uma consciência crítica. A dialética não explica, não dá esquema de interpretação, ela apenas prepara os quadros da explicação. Assim sendo, a concepção dialética de Ciência reproduz um sistema de conhecimento em desenvolvimento que permite a elaboração de conceitos relativos às atividades do indivíduo e, portanto, estabelece previsões a respeito da transformação da realidade e da sociedade. Esta abordagem é uma das mais utilizadas em pesquisas nas áreas de ciências humanas e sociais, incluindo a educação, possuindo maior aplicação nestas ciências, do que em pesquisas naturais, já que estas últimas são destituídas do fenômeno histórico subjetivo que a caracteriza. Ela é aplicável nas investigações que utilizam técnicas bibliográficas e históricas com pesquisas textuais, documentais, de registros e dados empíricos, priorizando a análise do discurso. O esquema básico desta corrente é a trilogia tese, antítese e síntese. Na perspectiva da dialética Hegeliana, a combinação de uma tese com uma antítese produz uma síntese, isto é, uma nova tese. Desta maneira, o ciclo se inicia permanentemente e com ele a produção de novas idéias e teorias. Karl Marx se doutorou em filosofia (1841) pela Universidade de Berlim e estudou profundamente a teoria de Friedrich Hegel (1770- 1831) e os escritos dos socialistas franceses. Saindo da Alemanha, foi viver na França, onde conheceu Friedrich Engels (1820-1895), que se tornou seu amigo, sendo benfeitor e colaborador pelo resto de sua vida. Expulso de Paris, Marx muda-se para Londres (1849), onde permaneceu até sua morte e onde escreveu as obras marcantes para as ciências sociais e humanas. Seus principais trabalhos são: Manuscritos Econômico-Filosóficos (1844) Manifesto do Partido Comunista (em parceria com Engels, 1848), e O Capital (cujo primeiro volume foi publicado em 1867). Antes de resumirmos os fundamentos do marxismo, é necessário chamar atenção para dois aspectos importantes. O primeiro é que Marx não foi exatamente um sociólogo, embora muito do seu pensamento se enquadre nos limites da sociologia. A teoria marxista extrapola esses limites. Marx foi um pensador complexo - foi também filósofo, cientista político, revolucionário, panfletista, economista - e sua obra teve uma influência marcante em diversas disciplinas. Um outro aspecto é o de que não existe uma teoria marxista, mas várias interpretações e desdobramentos da obra de Marx. Nesse sentido, o termo "marxismo" ora se refere ao pensamento de Marx ora a um grupo variado de doutrinas filosóficas, sociais, econômicas e políticas fundadas em uma interpretação do pensamento de Marx. Uma questão amplamente debatida é a de saber se houve ou não "dois Marx". Os que defendem a tese de "dois Marx" dividem seu pensamento em dois períodos: o primeiro de orientação mais filosófica, seguindo a tradição hegeliana (o chamado "jovem Marx", em que expõe seu pensamento principalmente pelos "Manuscritos Econômico-Filosóficos”, de 1844); o segundo, o Marx de "O Capital", quando se afasta da filosofia e dedica-se a edificar uma ciência da economia política.
  26. 26. METODOLOGI A DO TRABALHO CI EN TÍFI CO I 26 1.4.5 FENOMENOLOGIA Na segunda metade do século XX nasce a fenomenologia, como oposição a separação entre sujeito e objeto do conhecimento. Nesta corrente, a ciência é definida como a proposta da compreensão representada pela intersubjetividade. A fenomenologia constitui-se em uma pré-ciência positiva em suas origens, sendo que, após Husserl, outras vertentes fenomenológicas surgiram, tais como a fenomenologia existencial, a fenomenologia transcendental e a fenomenologia dialética, que nesta seção, não se inserem como pontos centrais do nosso debate. Esta corrente tem como objetivo descrever, compreender e interpretar os fenômenos que se apresentam à percepção. Seu método compreende a percepção imediata dos fenômenos que constituem a consciência humana, em uma direção intencional e produto dos atos humanos. Alguns dos seus princípois epistemológicos são: observação e descrição do fenômeno, daquilo que se manifesta, aparece ou se oferece aos sentidos ou à consciência; ciência voltada para as coisas como elas são; possui como elemento central a intencionalidade; estabelece uma nova relação entre sujeito e objeto, sendo estes visualizados como pólos inseparáveis na construção do conhecimento e da realidade; desmistifica a visão objetiva do mundo, centrada em uma ciência neutra despojada de subjetividade, em oposição ao positivismo. Husserl foi aluno do filósofo alemão Frans Brentano, o qual influenciou fortemente suas idéias sobre a fenomenologia. Mais tarde, veio a influenciar o pensamento e as obras de Heidegger, Sartre, Derrida, entre outros. Por volta de 1887, converte-se ao cristianismo e passa a ensinar filosofia até que, ao aposentar-se, continuando ativo nas instituições de Friburgo, é surpreendido com sua demissão por causa de sua ascendência judia. 1.4.6 MODELO HOLÍSTICO Esta abordagem, segundo Barros e Lehfeld (2000), toma a natureza como reflexo da composição de energia, que, por sua vez, se expressa como mediadora e como unidade da matéria fundante de informações próprias do ser humano. Nesse sentido, o ser humano é emoção, mente e corpo, garantido por um processo progressivo de formação e de programações que se transformam em objetos vitais entre o plano real e o ideal. Nos aspectos sociais, mais amplos, essa dinâmica energética é traduzida pela expressão sociopolítica (vida), pela economia (matéria), por leis, valores e ideologias. Por conseguinte, a ciência é uma construção do conhecimento sem fragmentação, concebendo toda e qualquer realidade ligada à perspectiva de totalidade. PARA SABER MAIS, ACESSE: http://www.cuidardoser.com.br/normose-ou-anomalias-da-normalidade.htm
  27. 27. METODOLOGI A DO TRABALHO CI EN TÍFI CO I 27 TEXTO COMPLEMENTAR Leia o texto abaixo de Pierre Weill e relacione-o à abordagem holística da pesquisa apresentada por Barros e Lehfeld (2000). Para tanto, realize pesquisa em livros ou internet para consubstanciar seus argumentos, bem como evidencie sua opinião favorável ou não a este novo tipo de abordagem do conhecimento. Nunca estivemos tão perto da paz. Mas, ao mesmo tempo, jamais ela nos pareceu tão distante. Já podemos curar doenças que até bem pouco tempo atrás eram terrivelmente mortais. Das pranchetas dos cientistas brotam animais e plantas que a natureza não criou. Em laboratórios que fariam inveja a filmes de ficção científica, surgem robôs capazes de executar todo tipo de serviço, da faxina doméstica à pesquisa espacial. São olhos eletrônicos que espionam os confins do universo em busca de nossos eventuais parceiros distantes na aventura da vida. Médicos ousam substituir coração, rins e membros avariados, por órgãos biônicos criados em oficinas. Maravilhas. Ao olharmos em volta, porém damos de cara com os terríveis subprodutos desse desenvolvimento: miséria, violência e medo. A humanidade atingiu o limiar de uma nova era e vive, agora, uma espécie de dor do crescimento. Deixamos de ser crianças, mas ainda não sabemos nos portar como gente grande. Acumulamos conhecimentos em quantidade. Mas, sem sabedoria para usá-los, podemos destruir-nos e ao mundo no qual habitamos. Felizmente, uma nova consciência está se estabelecendo no espírito de grande parte das pessoas. Ela inspira outra maneira de ver as coisas em ciência, filosofia, arte e religião. Somos os espectadores privilegiados e os atores principais de mais este ato da “comédia humana”. Trata-se de um momento de síntese, integração e globalização. Nesta fase, a humanidade é chamada a colar as partes que ela mesma separou nos cinco séculos em que se submeteu a ditadura da razão. Esse esforço começa a se fazer necessário porque a crise de fragmentação chegou a limites extremos e ameaça a sobrevivência de todas as formas de vida sobre a Terra. Dividimos arbitrariamente o mundo em territórios, pelos quais matamos e morremos. Já se produziu armas nucleares que poderiam destruir várias vezes o nosso planeta. A loucura e a competição são tão ferozes que ignoram o óbvio: não haverá uma segunda Terra para ser destruída, nem ninguém ou coisa alguma para acionar o gatilho atômico depois da primeira vez. Quebramos a unidade do conhecimento e distribuímos os pedaços entre os especialistas. Para os cientistas, demos a natureza; aos filósofos, a mente; aos artistas, o belo; aos teólogos, a alma. Não satisfeitos, fragmentamos a própria ciência, espalhando-a pelos domínios da matemática, da física, da química, da biologia, da medicina e de tantas outras disciplinas. O mesmo ocorreu com a filosofia, à arte e a religião, cada um desses ramos se subdividindo ao infinito. Como conseqüência, o mundo do saber tornou-se uma verdadeira “torre de babel”, na qual os especialistas falam cada qual a sua língua e ninguém se entende. A mais ameaçadora de todas as fragmentações, no entanto foi a que dividiu os homens em corpo, emoção, razão e intuição, porque ela nos impede de raciocinar com o coração e de sentir com o cérebro. Autor da Teoria da Relatividade, o físico Albert Einstein demonstrou no início deste século que tudo no universo é formado pela mesma energia, do mesmo modo que, embora vistos como diferentes, o gelo e o vapor são em último caso apenas água. Desse modo, a fragmentação só existe no pensamento humano, cuja propriedade essencial é justamente a de classificar, dividir e fracionar, para, em seguida, estabelecer relações entre esses fragmentos. Recuperar a unidade perdida significa reconquistar a paz. Mas, desta vez, o inimigo a derrotar não é o estrangeiro. Ele mora dentro de nós. É a força que isola o homem racional de suas emoções e intuições. Foi à própria ciência moderna que começou a exigir o surgimento de uma nova consciência. Incapazes de responder às questões que eles formulavam, muitos físicos saíram em busca da psicologia, da religião e das mais importantes tradições da humanidade. Este encontro entre ciência moderna, os estudos transpessoais e as tradições espirituais constitui o que chamamos de visão holística. É importante que tenhamos uma clara noção dessa mudança de visão e das conseqüências que ela traz para a educação. WEILL, Pierre. Uma nova concepção de vida. In: A arte de viver em paz: por uma nova consciência, por uma nova educação. São Paulo: Gente, 1993. p. 17-18.
  28. 28. METODOLOGI A DO TRABALHO CI EN TÍFI CO I 28 BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR DEMO, Pedro. Metodologia Científica em Ciências Sociais. São Paulo: Atlas, 1995. INDICAÇÃO DE SITES http://www.mundodosfilosofos.com.br/comte.htm http://www.culturabrasil.org/durkheim.htm http://tiosam.com/?q=Estruturalismo www.ufrgs.br/museupsi/aula28%20maickel.ppthttp://www.culturabrasil.org/marx.htm http://www.conteudoglobal.com/personalidades/karl_marx/index.asp?action=filosofia_marx&nome= A+Filosofia+de+Marx http://www.achegas.net/numero/33/ubiracy_33.pdf
  29. 29. METODOLOGI A DO TRABALHO CI EN TÍFI CO I 29 2 PESQUISA E TRABALHOS ACADÊMICOS Este tópico apresenta as diversas metodologias da pesquisa científica, os mecanismos necessários à elaboração de trabalhos acadêmicos e as normatizações da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) sobre apresentação de trabalhos, citações e referências. 2.1 AS METODOLOGIAS DA PESQUISA Focamos o estudo sobre a pesquisa científica e seus tipos, sua validade e importância para a descoberta de novos conhecimentos. Abordaremos também os elementos necessários à elaboração de um projeto de pesquisa, buscando instrumentalizá-los para a construção de um trabalho de pesquisa acadêmica. 2.1.1 CONCEITOS SOBRE PESQUISA Inicialmente, podemos considerar que pesquisar significa buscar respostas para as mais diversas indagações e problemas humanos, sejam eles individuais ou coletivos. A pesquisa pode ser vista também como uma atividade eminentemente cotidiana, sendo considerada como uma atitude, um “questionamento sistemático crítico e criativo, mais a intervenção competente na realidade, ou o diálogo crítico permanente com a realidade em sentido teórico e prático” (DEMO, 1996, p. 34). Gil (1999, p.42) acredita que a pesquisa tem um caráter pragmático, é um “processo formal e sistemático de desenvolvimento do método científico. O objetivo fundamental da pesquisa é descobrir respostas para problemas mediante o emprego de procedimentos científicos”. PESQUISA É... Um conjunto de ações proposto para resolução de um problema, que tem por base procedimentos racionais, sistemáticos e metódicos. A pesquisa é realizada quando se tem um problema de investigação, isto é, algo ou alguma coisa que se pretende investigar. Não se esqueça desse princípio! 2.1.2 CLASSIFICAÇÃO DA PESQUISA Para realizar uma pesquisa científica é fundamental saber usar os instrumentos adequados para encontrar respostas, ou seja, formular as hipóteses ao problema levantado. Na visão de Salomon (1999), podemos graduar as pesquisas científicas em:  Pesquisas Puras – têm como intenção ir além da simples definição e descrição do problema. A partir da formulação de hipóteses claras e definidas, aplicação do método científico de coleta de dados, controle e análise, procuram inferir a interpretação, a explicação e a predição.  Pesquisas Aplicadas – se destinam a aplicar leis, teorias e modelos, na solução de problemas que exigem ação e/ou diagnóstico de uma realidade.
  30. 30. METODOLOGI A DO TRABALHO CI EN TÍFI CO I 30  Pesquisas Exploratórias e Descritivas – têm por objetivo definir melhor o problema, gerar propostas de solução, descrever comportamentos de fenômenos, definir e classificar fatos e variáveis. Não atingem o nível da explicação nem o da predição, encontrados nas pesquisas “puras” ou “teóricas”, nem do diagnóstico e/ou solução adequada dos problemas deparados nas pesquisas “aplicadas”. Na definição de Gil (2001) e Demo (1996, 2000), encontramos a classificação das pesquisas com base em seus objetivos e nos procedimentos técnicos adotados (para analisar os fatos do ponto de vista empírico, para confrontar a visão teórica com os dados da realidade, é necessário traçar o modelo conceitual e operatório). Torna-se importante determinar a metodologia e os procedimentos adotados que podem auxiliar o pesquisador no bom andamento da investigação:  Classificação que tem como base os objetivos - três grandes grupos: exploratória, descritiva e explicativa.  Classificação com base nos procedimentos: Bibliográfico, Documental, Experimental, Operacional, Estudo de caso, Pesquisa-Ação, Pesquisa Participante, Expost-Facto.  Paradigma metodológico de abordagem da pesquisa – duas grandes modalidades: Quantitativa e Qualitativa. Santos (1999) acrescenta à classificação apresentada por Gil, destacando a caracterização das pesquisas segundo as fontes de informações: pesquisa de campo, de laboratório e bibliográfica. APROFUNDE SEUS CONHECIMENTOS A classificação da pesquisa com base nos objetivos e nos procedimentos técnicos adotados, acessando o site: http://www.pedagogiaemfoco.pro.br/met02a.htm 2.1.3 TIPOS DE PESQUISA: Objetivo, procedimento e abordagem  Objetivos: Exploratória: Tem por finalidade a descoberta de práticas ou diretrizes que precisam ser modificadas e obtenção de alternativas ao conhecimento científico existente. Tem por objetivo principal a descoberta de novos princípios para substituírem as atuais teorias e leis científicas. É a coleta de dados e informações sobre um fenômeno de interesse sem grande teorização sobre o assunto, inspirando ou sugerindo uma hipótese explicativa; É a coleta de dados e informações sobre um fenômeno de interesse sem grande teorização sobre o assunto, inspirando ou sugerindo uma hipótese explicativa. Descritiva: Tem por finalidade observar, registrar e analisar os fenômenos sem, entretanto, entrar no mérito do seu conteúdo. Na pesquisa descritiva não há interferência do pesquisador, que apenas procura descobrir, a freqüência com que o fenômeno acontece. Visa descrever determinadas características de populações ou fenômenos ou o estabelecimento de relações entre variáveis. Basicamente consiste na coleta de dados através de um levantamento. Explicativa ou Hipotético-Dedutiva: Tem por objetivo ampliar generalizações, definir leis mais amplas, estruturar sistemas e modelos teóricos, relacionar hipóteses numa visão mais unitária do universo e gerar novas hipóteses por força de dedução lógica. Exige síntese e reflexão, visa identificar os fatores que contribuem para a ocorrência dos fenômenos. Explica o “porque das coisas”. Nas ciências naturais exige a utilização de métodos experimentais e, nas ciências sociais o método observacional.
  31. 31. METODOLOGI A DO TRABALHO CI EN TÍFI CO I 31  Procedimentos: Bibliográfica: É desenvolvida a partir de material já publicado, principalmente de livros, artigos de periódicos e atualmente com material disponibilizado na Internet. Embora em quase todos os estudos seja exigido algum tipo de trabalho desta natureza, há pesquisas desenvolvidas exclusivamente a partir de fontes bibliográficas. Segundo Lakatos e Marconi (2003), sua finalidade é colocar o pesquisador em contato direto com tudo o que foi escrito, dito ou filmado sobre determinado assunto, inclusive conferências seguidas de debates que tenham sido transcritos por alguma forma, quer publicadas, quer gravadas. A bibliografia pertinente oferece meios para definir, resolver, não somente problemas já conhecidos, como também explorar novas áreas nas quais os problemas não se fixaram suficientemente. Tem como objetivo permitir ao pesquisador o reforço paralelo na análise de suas pesquisas ou manipulação de suas informações. Assim, a pesquisa bibliográfica não é apenas repetição do que foi publicado sobre determinado conteúdo, mas propicia o exame de um tema sob nova abordagem, chegando a conclusões inusitadas. Documental: Tem por finalidade conhecer os diversos tipos de documentos e provas existentes sobre conhecimentos científicos. Estes documentos normalmente não receberam tratamento prévio analítico, encontram-se muitas vezes nos seus locais de origem. É efetuada essencialmente em centros de pesquisa, museus, acervos particulares e centros de documentação e registro. Experimental: Destina-se a obtenção por experimentação de novos sistemas, produtos ou processo. Quando se determina um objeto de estudo, selecionam-se as variáveis que seriam capazes de influenciá-lo, definem-se as formas de controle e observação dos efeitos que a variável produz nos objetos em estudo. Operacional: A finalidade é o desenvolvimento de métodos e técnicas para a solução de problemas complexos e para a tomada de decisões. Utiliza o conhecimento matemático, através da programação linear e não linear para a solução de problemas. A pesquisa operacional consiste na construção de modelos do sistema físico real para serem aplicadas técnicas de simulação e otimização. Estudo de caso: Quando envolve o estudo profundo e exaustivo de um ou poucos objetos de maneira que se permita o seu amplo e detalhado conhecimento. Este tipo de pesquisa, normalmente, é realizada a partir de um caso em particular e, posteriormente é realizada uma análise comparativa com outros casos, fenômenos ou padrões existentes. É amplamente utilizada no levantamento das características e parâmetros de funcionamento ou operação de sistemas e processos. Pesquisa-Ação: Investigação realizada em estreita associação com uma ação ou com a resolução de um problema coletivo, no qual os pesquisadores e os participantes representativos da situação ou do problema estão envolvidos de modo cooperativo ou participativo. Ela tende a ser vista em certos meios como desprovida da objetividade que deve caracterizar os procedimentos científicos. A pesquisa-ação não é constituída apenas pela ação ou pela participação, e sim, de discussão, fazendo avançar o debate das questões abordadas em uma dada pesquisa através dos seus atores. Caso você se interesse em um artigo da autora Selma Garrido Pimenta, cujo título é “Pesquisa-ação crítico-colaborativa”: construindo seu significado a partir de experiências com a formação docente.
  32. 32. METODOLOGI A DO TRABALHO CI EN TÍFI CO I 32 Pesquisa Participante: Segundo Demo (2000, p.21), a pesquisa prática “é ligada à práxis, ou seja, á prática histórica em termos de usar conhecimento científico para fins explícitos de intervenção; nesse sentido, não esconde sua ideologia, sem com isso necessariamente perder de vista o rigor metodológico”. Confere-se a este tipo de pesquisa um componente político e social que permite debater o processo de investigação a partir da concepção de intervenção na realidade social. Esta pesquisa se desenvolve a partir da interação entre pesquisadores e membros das situações investigadas. Conheça o histórico, a definição e a metodologia da pesquisa participante. Expost-Facto: Quando o “experimento” se realiza após os fatos. PARA SABER MAIS Sobre pesquisa, acesse os sites: http://giselacastr.vilabol.uol.com.br/pesquisapart.htm http://www.scielo.br/pdf/ep/v31n3/a13v31n3.pdf http://www.focca.com.br/cac/textocac/Estudo_Caso.htm  Abordagem: Quantitativa: Parte do pressuposto de que tudo pode ser quantificável, o que significa traduzir em números opiniões e informações para classificá-las e analisá-las. Requer o uso de recursos e de técnicas estatísticas (percentagem, média, moda, mediana, desvio-padrão, coeficiente de correlação, análise de regressão etc.). É aplicada quando se deseja conhecer a extensão do objeto de estudo e aplicam-se nos casos em que se buscam identificar o grau de conhecimento, as opiniões, impressões, seus hábitos, comportamentos, seja em relação a um produto, sua comunicação, serviço ou instituição. Ou seja, o método quantitativo oferece informações de natureza mais objetiva e aparente. Seus resultados podem refletir as ocorrências do mercado como um todo ou de seus segmentos, de acordo com a amostra com a qual se trabalha. O questionário, por exemplo, é o instrumento de coleta de dados mais utilizado. Ele pode conter questões fechadas (alternativas pré-definidas) e/ou abertas (sem alternativas e com resposta livre). Na pesquisa quantitativa, a fim de comprovar as hipóteses, os recursos de estatística nos dirão se os resultados obtidos são significativos ou descartáveis. Este tipo de pesquisa baseia-se em rígidos critérios estatísticos, que servem de parâmetro para definição do universo a ser abordado pela pesquisa. Como o nome já diz, o método quantitativo é útil para o dimensionamento de mercados, levantamento de preferências por produtos e serviços de parcelas da população, opiniões sobre temas políticos, econômicos, sociais, dentre outros aspectos. O desenvolvimento e aplicação do método quantitativo têm início com a definição dos objetivos que o cliente pretende alcançar. Em seguida faz-se o levantamento amostral do universo, ou seja, o número de entrevistas a ser realizado; elaboração aplicação de pré-teste para validação do questionário e, posteriormente, a pesquisa em campo; apuração, cruzamento e tabulação dos dados; e, por fim, elaboração de relatórios para análise estratégica. Qualitativa: Toma como princípio a existência de uma relação dinâmica entre o mundo real e o sujeito, isto é, um vínculo indissociável entre o mundo objetivo e a subjetividade do sujeito que não pode ser traduzido em números. A interpretação dos fenômenos e a atribuição de significados são básicas no processo de pesquisa qualitativa. Não requer o uso de métodos e técnicas estatísticas. O ambiente natural é a fonte direta para coleta de dados e o pesquisador é o instrumento-chave. É descritiva.
  33. 33. METODOLOGI A DO TRABALHO CI EN TÍFI CO I 33 Os pesquisadores tendem a analisar seus dados indutivamente. O processo e seu significado são os focos principais de abordagem. Este tipo de pesquisa se caracteriza por reunir ou abrigar diferentes correntes de pesquisa. Essas correntes se fundamentam em alguns pressupostos contrários ao modelo experimental e adotam métodos e técnicas de pesquisas diferentes dos estudos experimentais. Os especialistas que partilham da abordagem qualitativa em pesquisa se opõem, em geral, ao pressuposto experimental que defende um padrão único de pesquisa para todas as ciências, calcado no modelo de estudo das ciências da natureza. Estes cientistas se recusam a admitir que as ciências humanas e sociais devam-se conduzir pelo paradigma das ciências da natureza e devam legitimar seus conhecimentos por processos quantificáveis que venham a se transformar, por técnicas de mensuração, em leis e explicações gerais. A pesquisa qualitativa se diferencia dos estudos experimentais também pela forma como apreende e legítima os conhecimentos. A abordagem qualitativa parte do fundamento de que há uma relação dinâmica entre o mundo real e o sujeito, uma interdependência viva entre o sujeito e o objeto, um vínculo indissociável entre o mundo objetivo e a subjetividade do sujeito. A produção do conhecimento não se reduz aos dados isolados, conectados por uma teoria explicativa; o sujeito-observador é parte integrante do processo de conhecimento e interpreta os fenômenos, atribuindo-lhes um significado. O objeto não é um dado inerte e neutro; está possuído de significados e relações que sujeitos concretos criam em suas ações. O que não significa dizer que as pesquisas qualitativas não descartam a coleta de dados quantitativos, principalmente na etapa exploratória de campo ou nas etapas em que estes dados podem mostrar uma relação mais extensa entre fenômenos particulares. PARA SABER MAIS! Aprofundar mais o conhecimento sobre as possibilidades e limitações da pesquisa qualitativa e as relações entre a pesquisa qualitativa e quantitativa acesse. http://www.ead.fea.usp.br/cad-pesq/arquivos/C03-art06.pdf http://www.scielo.br/pdf/ptp/v22n2/a10v22n2.pdf
  34. 34. METODOLOGI A DO TRABALHO CI EN TÍFI CO I 34 2.2 SISTEMATIZAÇÃO, REGISTRO E TRABALHOS ACADÊMICO A metodologia da pesquisa científica orienta procedimentos necessários à elaboração adequada de trabalhos acadêmicos, especialmente a resenha e o artigo científico. De posse destes conhecimentos, apresentados ao longo desta seção, você garantirá maior organização e êxito em suas atividades. Antes de abordarmos os trabalhos acadêmicos - resenha e artigo científico - apresentaremos, de forma breve e sucinta algumas dicas de como realizar sistematização e registro das idéias centrais do texto ou obra que você se dispôs a analisar. 2.2.1 ANÁLISE E INTERPRETAÇÃO DE TEXTO O que devo identificar em um texto? Tema: Idéia central ou assunto tratado pelo autor, o fenômeno que se discute no decorrer do texto. Em primeiro lugar, busca-se saber do que fala o texto. A resposta a esta questão revela o tema ou assunto da unidade. Problema: A apreensão da problemática, que por assim dizer “provocou” o autor, isto é, pode ser visto como o questionamento de motivação do autor. Tese: A idéia de afirmação do autor a respeito do assunto. Captada a problemática, a terceira questão surge espontaneamente: o que o autor fala sobre o tema, ou seja, como responde à dificuldade, ao problema levantado? Que posição assume, que idéia defende o que quer demonstrar? A resposta a esta questão revela a proposição fundamental ou tese: trata-se da idéia principal defendida pelo autor. Objetivo: A finalidade que o autor busca atingir. Que mensagem ele espera transmitir com o texto? O objetivo pode estar explícito ou implícito no texto. Idéia Central: Idéia principal do texto. A cada parágrafo podemos selecionar a idéia central e as secundárias. Após a leitura sistemática de um texto ou obra e identificação dos itens acima propostos, sugerimos a elaboração de um esquema, a fim de que o estudante estruture as informações essenciais através de um esquema textual, que, por sua vez, favorece a estruturação de um esquema mental sobre o conteúdo, facilitando a assimilação deste. Para tanto, precisamos saber como se elaborar um esquema.
  35. 35. METODOLOGI A DO TRABALHO CI EN TÍFI CO I 35 2.2.2 TIPOS DE ANÁLISE DE TEXTOS Segundo Andrade (1995) os diferentes enfoques aplicáveis à análise de textos são:  Análise textual - leitura que tem por objetivo uma visão global, assinalando: estilo, vocabulário, fatos, doutrinas, época, autor, ou seja, um levantamento dos elementos importantes do texto.  Análise temática - apreensão do conteúdo ou tema, isto é, identificação da idéia central e das secundárias, processos de raciocínio, tipos de argumentação, problemas, enfim, um esquema do pensamento do autor.  Análise interpretativa - demonstração dos tipos de relações entre as idéias do autor em razão do contexto científico e filosófico de diferentes épocas; análise crítica ou avaliação; discussão e julgamento do conteúdo do texto. Esquema de Texto  Dicas de elaboração de esquema.  Refere-se ao “esqueleto” do texto.  Pode ser construído em linha vertical ou horizontal.  Utilização de símbolos diversos (chaves, colchetes, listagem por item, setas etc.).  Subordine idéias e fatos, não os reúna apenas (observar a hierarquia de palavras, frases e parágrafos-chave). Características do Esquema  Fidelidade ao original.  Estrutura lógica.  Funcionalidade de conteúdo.  Normas.  Aponte o tema do autor, destaque títulos e subtítulos.  O esquema deve possuir uma interpretação pessoal de quem o produz e não a exposição literal das palavras do autor. É necessário lembrar que cada parágrafo do texto possui: idéia central e idéias secundárias. De posse do esquema do texto, você deve organizar seu resumo. O interessante é que você não precisará voltar ao texto original, pois deve construir o seu resumo a partir de seu esquema. Lembre-se, o resumo refere-se à interpretação e apresentação das idéias principais de um texto ou obra, de forma breve, clara, lógica e sucinta.

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