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Apropriações das tecnologias para a transformação social

Hernani Dimantas

Artista, escritor e ativista. Desde 1997 tem-se dedicado ao estudo, à discussão e à elaboração de
projetos colaborativos em rede, publicando um número expressivo de artigos em livros, jornais e
revistas sobre a Internet como um meio aberto à produção coletiva e destinado à troca de ideias e
conhecimento entre as pessoas. Doutor pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São
Paulo. Mestre em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Autor
dos livros: Linkania: uma Teoria de Redes (2010) e Marketing Hacker (2003). Fundador e articulador
do projeto MetaReciclagem. Fundador do lixoeletronico.org.

palavras_chave: arte, gambiarra, diy, cultura digital, escola do futuro, inclusão digital, sociedade da
colaboração, manifesto cluetrain, marketing hacker, gift economy, peer-production, ética hacker.
software livre, open design, metareciclagem



Índice
Hernani Dimantas......................................................................................................................................1

1. apropriações das tecnologias para a transformação social.....................................................................3
2. tecnologia é mato...................................................................................................................................3
3. para que serve a web?............................................................................................................................4
4. falar é fácil; silêncio é fatal....................................................................................................................5
5. multidão hiperconectada........................................................................................................................5
6. emergência; bottom up...........................................................................................................................6
7. redes livres, TAZ, linkania.....................................................................................................................7
8. todo trabalho imaterial é performance...................................................................................................9
9. transparência; distribuição.....................................................................................................................9
10. quando o paradoxo se torna o paradigma...........................................................................................10
11. gambiarra; faça você mesmo; auto-organização................................................................................11
12. inteligência coletiva...........................................................................................................................12




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1. apropriações das tecnologias para a transformação social

O meu primeiro contato com a tecnologia de computadores data o final dos anos 1980. Foi quando pela
primeira vez tive oportunidade de imergir no mundo da informática. Os computadores eram muito
diferentes dos atuais. Não se trata de uma diferença tecnológica. Mas de interface.

Entender sobre computadores à época era versar sobre tecnologia, mais precisamente sobre hardware e
software. No entanto, na prática, os computadores serviam para se fazer planilha, editar texto, processar
base de dados e para os mais sofisticados a utilização de softwares específicos para design, vídeos e
outros multimeios. Encontrar uma boa utilidade para o usuário comum não era uma tarefa corriqueira.

A Internet chega no Brasil em 1995 (antes tínhamos as BBS e Internet nas universidades). O
computador se tornou uma ferramenta de comunicação. Não era mais apenas uma ferramenta. Outros
usos são apropriados. Surge a tecnologia social. E o ator social, envolvido e participando do início
tecido social permeado por seres animados e inanimados (nem tanto assim) tem no seu uso,
apropriação, revitalização ou repotenciamento, conexões e máquinas.

A tecnologia social pode ser vista como processo, um movimento a partir da apropriação da tecnologia.
O processo de apropriação da tecnologia, então, ao adquirir dimensões e implicações políticas de
desenvolvimento para a comunidade e para a nação, suprindo necessidades e expectativas [desejos em
expansão] transforma-se em tecnologia social.

DIMANTAS, H; As Zonas de colaboração metareciclagem: pesquisa-ação em rede, 2010 em:
http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/27/27154/tde-17022011-122400/pt-br.php




2. tecnologia é mato

Tecnologia é difícil de entender. Com hardware, então, podemos até brincar. Não é tão complicado
construir uma placa dedicada. É bem tranquilo programar num Arduíno. É legal. Pra quem gosta é tudo
de bom.

Mas o que nos interessa da tecnologia é que tem ajudado a criar mundos. Há pouco tempo algumas
pessoa acreditavam em dois universos. O virtual não havia conquistado o status de real. Atualmente,
não temos mais essa confusão. Entendemos que a sociedade está conseguindo se organizar com uma
estratégia diferente. O discurso padrão já traz palavras como colaboração, crowdsourcing e muitas
vezes anarquia e liberdade. Mas, por enquanto tratar com essa ruptura no dia a dia ainda é quase uma
missão impossível. É uma questão geracional que em algumas décadas estará 100% resolvida

Pois, o que mais me interessa é o aspecto social que as ferramentas proporcionam. De certa forma, a
internet é biônica. Cabos, modems, placas fazem parte desta parafernália. É uma extensão do cérebro
humano, que artificialmente incrementa a capacidade de processar o conhecimento. Podemos


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armazenar muito mais informação, e parafraseando McLuhan, utilizar as máquinas como extensão do
homem.

Os hackers criaram uma tecnologia livre que conecta pessoas, que diminuí as distâncias e que aumenta
as conversações. Ocupamos o espaço das informações. O conhecimento se descola e se abre. O
conhecimento quer ser livre.

O choque cultural é invisível e imperceptível. É geracional. Existe um importante gap tecnológico. Mas
como entendemos que é tecnologia é mato. Cresce e se espalha a ponto de ficar ficar transparente
transita pelo ciberespaço.

Mas como contradição rompe paradigmas só com efeito da colaboração. Falo de experiências como a
do software livre que proporcionaram uma forma de colaboração onde a liberdade é a regra.
Principalmente, a liberdade de compartilhar qualquer produção na rede. Fazemos o que temos vontade.
A experiência de fazer potencializa a curiosidade de querer pesquisar, trocar, compartilhar, ensinar e
aprender. O Linux foi criado só por prazer. É assim que se faz. Experimente ;)


HIMANEN, P.,The hacker ethic: and the spirit of the informational age. New York: Randon House, 2001.
RAYMOND, E. S., The cathedral & the bazzar: musings on linux and open source by an accidental revolutionary.
Sebastopol, CA: O’Reilly & Associates, 1999. Disponível em: http://www.geocities.com/CollegePark/Union/3590/pt-
cathedral-bazaar.html




3. para que serve a web?

As pessoas entendem para que serve a TV; o Rádio; o Telefone. Mas a Web pode ser tudo isso e mais. É
e-mail, gtalk, navegar por um monte de sites, participar de listas, jogos e ouvir músicas lícita ou
ilicitamente, assistir ou publicar vídeos no youtube, passear pelo Facebook dos amigos, blogar, twittar...
enfim, participar da Internet. E deixar a rede participar de você. O compartilhamento é total.

A conversação na Internet é bem diferente daquela que se realiza ao vivo, olho no olho. Atualmente,
por exemplo, milhares de pessoas, e dentre estas milhares de brasileiros, estão utilizando o blog como
ferramenta de conversação e de informação descentralizada. Uma das consequências mais imediatas
dessa conversação recai sobre a cultura de massa. Por que assistir TV? Ler jornal? Podemos navegar
pelo youtube. Assistir aos vide os escolhemos, que os amigos indicam. Posso ler os blogs para me
atualizar. Para que esperar a velha imprensa fazer suas análises sobre a situação do planeta? No
Facebook temos um filtro que nossos amigos generosamente linkam. São tantas as alternativas para
saber o que está acontecendo no mundo que a imprensa tradicional perde, aos poucos, força e lugar
enquanto “formadora de opinião”. A cultura de rede se faz no compartilhamento, na concordância entre
pessoas, na gentileza de um hiperlink. Extrapolam os conceitos, pensamentos, missões, campanhas e
disputas.


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As pessoas conversam, criam a reputação e aparecem para o mundo. As empresas continuam caladas.
Dizem estar esperando, mas ele não sabem o que falar. Empresas não conversam. E muitos empresários
digitais acessam a rede através da secretária, que apenas imprime o que interessa (sic). Ficam
escondidos por trás do firewall corporativo. Assim, não vão muito longe. O silêncio é fatal.

A internet é uma mídia fenomenal. Mas só para quem tem paciência e conhecimento dos meandros da
rede. Os resultados aparecem para que sabe conversar. Pense a longo prazo... o tempo da web é
rápido...

DIMANTAS, H., Marketing Hacker: a revolução dos mercados. Rio de Janeiro: Garamond, 2003.




4. falar é fácil; silêncio é fatal

Os mercados são conversações, falar é barato e o silêncio é fatal. Explica como as pessoas estão se
apropriando do espaço informacional.

Entender que os mercados são conversações é tão fácil como andar de bicicleta. Conversou uma vez...
nunca mais se esquece. Falar é barato... a tecnologia facilita a distribuição da conversa. E, nesse
sentido distribui o conhecimento livremente.

Na web, existir é ser visto. Blogs, assim como seus publishers, existem para serem vistos. Sem
celebridades e olimpianos, sem emissores e receptores Somos todos apenas pessoas do ciberespaço.

Para conviver nessa rede temos que compreender essa nova dinâmica. Temos de nos entender como
pessoas num processo. Uma das ideias que a virtualidade põe de ponta-cabeça é a de identidade. Os
recursos permitem a existência de vários "eus", tornados reais. Os "eus" dependem de um repertório
socialmente construído. E temos de pensar muito nesta questão do repertório, nas tecnologias de
interação e suas possibilidades, no que é no que pode ser inteligência coletiva.

Uma sociedade em rede convive como o assincronismo. Não se vive as mesmas complexidades. Nos
mesmos momentos. Enquanto alguém descobre que participar das redes é legal. Outro já não aguenta
mais rascunhar seus cadernos digitais. No entanto, blogar (postar no twitter, no Facebook ou enviar e-
mail) é conversar. Isso tem um significado importante num espaço onde colaborar é o diferencial. Blog
é uma forma de expressão que cada um faz do jeito que quiser, no momento que quiser, no tempo que
quiser. Blog é apenas uma ferramenta.

Internet não tem a ver com computadores ou ferramentas. Tem a ver com pessoas ;)

http://www.cluetrain.com/portuguese
http://www.worldofends.com




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5. multidão hiperconectada

Contra todos os avatares da transcendência do poder soberano (e nomeadamente o do "povo
soberano"), o conceito de multidão é o de uma imanência: um monstro revolucionário das
singularidades não representáveis; parte da ideia de que qualquer corpo já é uma multidão, e, por
conseguinte, a expressão e a cooperação. É igualmente um conceito de classe, sujeito de produção e
objeto de exploração, esta definida como exploração da cooperação das singularidades, um dispositivo
materialista da multidão poderá apenas partir de um tomada prioritária do corpo e a luta contra a sua
exploração .

Neste sentido, a internet traz novidades. Permite perceber essas singularidades e entender que essa
multidão monstruosa potencializa o debate. E nos faz compreender que o poder tende à
descentralização. A catalisação da colaboração não é um caso em desenvolvimento. É uma realidade
virtual. A colaboração é um processo que não nasceu com o computador. Está na boca do povo, ronda
os asfaltos poeirentos das periferias.

A multidão se alimenta das contradições do império e, encontra na rede um ambiente propício para
expressar a sua potência. A multidão hiperconectada só se faz possível quando entendemos a ruptura
dos contêineres que estabelecem o ser como um sujeito múltiplo e engajado ou, como seres
multifacetados capazes de viver várias vidas numa só. Experimentamos as nossas singularidades (e
nossas esquizofrenias). Temos uma multidão dentro de cada pessoa.

A experiência da linkania tem ação descentralizadora. Possibilita o link, ou o relacionamento, entre as
multidões influenciando a descentralização e a fragmentação do poder. Essa multidão dialoga com a
máquina do poder soberano. A multidão emerge das relações entre pessoas. E, numa sociedade em rede,
as pessoas se interconectam e conversam entre si. As pessoas se reconhecem nesse ambiente rompendo,
assim, as hierarquias de valores que separam aqueles que alimentam o poder imperial daqueles outros
que agem em multidão.

HARDT, M.; NEGRI, Multidão: guerra e democracia na era do império. Rio de Janeiro: Record, 2005.
SUROWIECKI, J., The wisdom of crowds. New York: Anchor Books, 2005.




6. emergência; bottom up

Nesse processo de apropriação da tecnologia o que me importa é a emergência de conversas. Uma
forma de comunicação de baixo pra cima capaz de se organizar em redes sociais, no sentido mais
amplo possível. Uma conversa que se dá na participação, no compartilhamento e na disponibilização de
links, ideias, projetos, poesias, textos, vídeos e onde mais a criatividade humana consegue relacionar.
Somos seres em relação. Precisamos nos comunicar com outras pessoas. Criamos redes como formigas
preparam os formigueiros. A rede organiza a nossa civilização.

Como exemplo proponho uma análise ao Manifesto do Lixo Eletrônico; a saber, sobre a Política
Nacional de Resíduos Sólidos - proposta pela Câmara dos Deputados do Brasil - emergiu uma

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discussão entre os blogueiros brasileiros principalmente por causa de uma mudança no artigo 33, que
regulamenta a logística reversa e reciclagem obrigatória de lixo extraordinário, não mais considerando
equipamentos eletrônicos como elegíveis à política. Muitos acreditam ser essa decisão resultado de
pressão pela indústria de reciclagem, dado os altos custos para a reciclagem de lixo eletrônico.

Reagindo à adaptação do Projeto de Lei, o Coletivo Lixo Eletrônico criou o Manifesto do Lixo
Eletrônico para compartilhar ideias sobre o que a inclusão de lixo eletrônico nesta política nacional de
controle de resíduos significaria para a população brasileira e seu estilo de vida atual. Esse manifesto
atingiu um número razoável de pessoas (umas 10 mil). O suficiente para se alterar uma projeto lei. O
manifesto faz de uma organização bottom up conseguir atingir objetivos importantes.

O MetaReciclagem também aparece como uma emergência; Um grupo que se organiza em rede e tem
ação que impacta no presencial. MetaReciclagem é principalmente uma ideia. Uma ideia sobre a
reapropriação de tecnologia objetivando a transformação social. Esse conceito abrange diversas formas
de ação: da captação de computadores usados e montagem de laboratórios reciclados usando software
livre, até a criação de ambientes de circulação da informação através da internet, passando por todo tipo
de experimentação e apoio estratégico e operacional a projetos socialmente engajados ;)

http://www.lixoeletronico.org
http://rede.metareciclagem.org
JOHNSON, S., Emergência: a dinâmica de rede em formigas, cidades e softwares. Rio de Janeiro: Jorge Zahar; 2003.




7. redes livres, TAZ, linkania


redes livres: Qual é a novidade de uma cultura de redes sociais? As pessoas sempre se relacionaram
umas com as outras, ou com grupos, através de redes. Rede não é novidade. É uma configuração
padrão do ser humano ao longo da história.

Mas, nas últimas duas décadas, o conceito de rede vem sendo utilizado como uma alternativa de
organização que possibilita respostas a uma série de demandas de flexibilidade, conectividade e
descentralização da atuação social.

Com as tecnologias da comunicação e da interação as redes passam a facilitar a convivência em tempo
real à distância. Provocam e potencializam a conversação. Reconduzem a comunicação para uma
lógica de sistemas organizacionais capazes de reunir indivíduos e instituições de forma descentralizada
e participativa.

A partir do conceito da apropriação, Redes não são aprendidas, são apropriadas por comuns. Sejam
interesses ou apenas a vontade de colaborar.



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Existe a tendencia de napsterização da indústria cultural.

TAZ (Zona Autônoma Temporária): Estamos nós, que vivemos no presente, condenados a nunca
experimentar a autonomia, nunca pisarmos, nem que seja por um momento sequer, num pedaço de terra
governado apenas pela liberdade? Estamos reduzidos a sentir nostalgia pelo passado, ou pelo futuro?
Devemos esperar até que o mundo inteiro esteja livre do controle político para que pelo menos um de
nós possa afirmar que sabe o que é ser livre? Tanto a lógica quanto à emoção condenam tal suposição.
A razão diz que o indivíduo não pode lutar por aquilo que não conhece. E o coração revolta-se diante
de um universo tão cruel a ponto de cometer tais injustiças justamente com a nossa, dentre todas as
gerações da humanidade.
-- Hakim Bey, autor de TAZ

As ideias de Hakim Bey se espalharam no Brasil principalmente por meio da internet. Trata- se de
técnicas de ativismo e de revolta cotidiana. Sua filosofia faz o link entre os impulsos revolucionários e
a liberdade de ação. TAZ é a impermanência da própria existência. Redes sociais pressupõem ruptura,
desconstrução e aglutinação.

A internet é importante como uma ferramenta para criar TAZ. Mas não só: permite circular
informações clandestinas, desenvolver a pirataria e ter acesso a bens proibidos via hackers. Além de
possibilitar a existência de algumas estruturas não hierarquizadas de produção e divulgação do
conhecimento.

A cultura digital é motivada por pequenas revoluções. Essas revoluções englobam blogs, orkuts, irc's,
wikis ou qualquer outra forma de conversação. E, neguinho não tá preocupado se essa conversação vai
acabar amanhã. Que dure enquanto durar. Hakim Bey está certo. TAZ é original. Uma tática emergente
que funciona como as mais elaboradas estratégias. Este é o segredo. Nossa geração pode abrir o
caminho para a liberdade. A linkania aponta para esse atalho. Pressupõe informação pública,
conhecimento livre e conexão geral. Somos livres quando encontramos a esperança nos nossos atos.

Linkania: Um movimento de auto organização do caos. Linkania é um pensamento, uma inserção no
mundo das ideias e coisas.

O conceito de cidadania tem se esvaziado na crítica. Muitos ativistas contra a mídia de massa sentam-
se á noite nos confortáveis sofás e se deleitam com a telinha colorida plugada na Rede Globo. Novelas
da vida ociosa desfilam na frente dos seus olhos. Temos que mirar além da tática. O ativismo para
atingir tem que ir além da crítica e se constituir como um pensamento ação, a partir de uma
compreensão profunda da linkania e de um novo modelo de relações entre pessoas e entre pessoas e
tecnologias

Porque linkania tem a ver com as pessoas. Digo pessoas da forma mais abrangente. Com as tecnologias
digitais estamos experimentando percepções que não faziam parte da nossa metafísica padrão.
Experimentamos as nossas singularidades (ou as nossas esquizofrenias). Temos uma multidão dentro de
cada pessoa. A linkania faz as ligações para a auto-organização. Portanto, a linkania se contrapõe à
ideia hegeliana de cidadania. Linkania é imanente. Está ligada às pessoas. A colaboração explica o
software livre como modo de produção. Release early , release often é o modo Linus de
desenvolvimento de software. A reputação é a moeda de troca na linkania.


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Linkania... é isso. A cidadania sem cidades. A descentralização. Ação local e conexão global.

BEY, H., TAZ: zona autônoma temporária. São Paulo: Editora Conrad, 2001.
DIMANTAS, H., Linkania: a sociedade da colaboração. São Paulo: Editora Senac, 2010.




8. todo trabalho imaterial é performance

Essas relações desvelam o perfil. A identidade cultural passa a ser uma representação de indicadores.
Número de amigos no Facebook, número de posts, seguidores no twitter. Para existir online você
precisa ser visto. 'Hoje, no entanto, o pós- fordismo e o paradigma imaterial da produção adotam a
performidade, a comunicação e a colaboração como características centrais. A performance foi posta
em ação. Toda forma de trabalho que produz um bem imaterial, como uma relação ou afeto, resolvendo
problemas ou proporcionando informação, do trabalho de vendas aos serviços financeiros, é
fundamentalmente uma performance: o produto é o próprio ato em si' (Hardt e Negri, 2005). A rede
pressupõe a troca para se ter um relacionamento. Troca de links, de informações e de palavras vazias. A
relação se faz no compartilhamento.

Na Internet, principalmente analisando o estouro do Facebook, nos faz experimentar um coletivo de
individualidades. Ou seja, o network de egotrips. Nas publicações individuais as pessoas existem. Não
deixa de ser a voz individual falando mais alto. A voz humana alcança diretamente o nosso âmago, e
toca nosso espirito. As pessoas estão buscando a melhor maneira de se comunicar. E não há uma
fórmula mágica. Receitas, manuais e guias desorientam antes de tudo.

Mas o que o coletivo de individualidades tem a ver com o trabalho em si. O retorno da arte, do deleite
do amadorismo. Ressurgindo da poeira da era industrial onde o profissionalismo narcisista fez do
mundo um antro da decadência humana. As pessoas conversam com a liberdade, com transparência e,
principalmente, com autenticidade. Uma viagem pelo ego humano buscando no fundo do coração uma
nova equação de balanceamento entre a angústia e o amor.

Ao mesmo tempo, o indivíduo retoma a sua individualidade dentro de um ambiente coletivo. Onde a
reputação passa ser o principal ponto de reverberação da sua própria opinião. E a credibilidade é função
exclusiva da autenticidade individual.

DIMANTAS, H., Marketing Hacker: a revolução dos mercados. Rio de Janeiro: Garamond, 2003.
HARDT, M.; NEGRI,, Multidão: guerra e democracia na era do império. Rio de Janeiro: Record, 2005.




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9. transparência; distribuição


A ruptura dos contêineres do tempo e espaço, ou a descontaineirização da metafísica padrão nos leva a
entender a internet como um novo lugar. Um ambiente diferente. Internet não é apenas uma nova
mídia, um canal de comunicação. Existe vida inteligente por trás do monitor colorido.

Assim, não consigo desvincular a inteligência coletiva da catalisação dessas inteligências através da
internet. Pois, por trás de cada computador temos um ser humano de verdade buscando uma nova
forma de aprender e ensinar.


O círculo quadrado é a imagem do inimaginável. A Web é o círculo quadrado. Um quebra cabeça
desmontado. Partes jogadas, desmontadas. Um pedaço do céu... uma montanha... um avião passando.
Juntar todas estas imagens para criar um novo desenho. Montando uma nova realidade. Na Web
fazemos bricolage. Desmantelamos o conhecimento em partes desconexas. E recriamos com uma
forma particular. Cada um faz o seu próprio mundo.

Penso que este conceito faz sentido. Heidegger privilegia o futuro, porque é esta projeção para o advir e
o golpe da devolução no embate com a morte que lá está que o leva a pensar e à autoconscientização. O
homem pode então introduzir esse conhecimento existencial no projeto de sua vida, e assim se
apropriar da existência fazendo-a efetivamente sua, tornando-se autêntico, não mais um ente sem
raízes.

A rede passa a valorizar mais a reputação. A ética hacker faz dessa reputação uma rede distribuída,
fluída e transparente. E, sabe exigir do outro uma relação também mais transparente. Afinal, a
experiência virtual é pessoal. Depende da vontade do interlocutor de participar desse espaço onde a
informação tende ao infinitesimal infinito. ]


WEINBERGER, D., The hyperlinked metaphysis of web. 2006. Disponível em:
http://www.hyperorg.com/misc/metaphysics/




10. quando o paradoxo se torna o paradigma

"O paradoxo não é meu, o paradoxo sou eu."
Fernando Pessoa

A Internet é mídia. Um ambiente que amplifica as mensagens com eficiência. Existe nos espaços
informacionais. Uma pequena audiência que eleva a voz comum para além das fronteiras digitais.

O conceito por trás da rede não corrobora com o que havíamos aprendido, e que para desfilar pelos
mares virtuais temos que destruir alguns pensamentos viciados e aglutinar novas ideias. Quando o

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paradoxo se torna um paradigma, as melhores práticas não mais funcionam. Em tempos de mudanças
as práticas não usuais funcionam bem melhor.

A proposta é pela ruptura. O estar em rede é a dissolvência. O ser existe apenas na relação. A
virtualização do ser é o fim da caixa preta. Estive estudando um pouco de Flusser. Relembrei do
McLuhan e das máquinas como extensão do homem. Flusser tem um insight legal. as fábricas são
lugares onde sempre são produzidas novas formas de homens: primeiro, o homem-mão, depois o
homem-ferramenta, em seguida, o homem-máquina e, finalmente, o homem-aparelhos-eletrônicos.
Repetindo: essa é a história da humanidade. A máquina distende a mão do homem ao ponto do homem
se tornar a máquina, ou a máquina se torna o homem. Oras, tanto faz. Somos homem_computadores,
homem_celulares, homem_agendas_eletrônicas... somos homens.

O desafio está em romper a caixa preta. Quebrar os códigos que nos desafiam. Decifrar os protocolos
que controlam o sistema. É como se estivéssemos em Matrix e, como um bom hacker, libertado pela
pílula vermelha. Somos livres para descobrir a arquitetura do sistema, estamos livres para dominar os
sistemas... all your base are belong to us.

Parece que este é um insight utópico. Nossa! esse cara não percebeu que a sociedade do controle tomou
conta das nossas ações? Cadê a privacidade? Nossos dados estão disponíveis na rede. E, a cada
momento, a sociedade se torna refém de um sistema homem_máquina_protocolo.

A promessa da Internet é o retorno da voz. Esse retorno se dá pela apropriação da tecnologia e pelas
inúmeras possibilidades de usar o sistema homem_máquina_protocolo em benefício do sujeito e da
comunidade. O caminho do controle é o mesmo do que aquele proposto pela liberdade. Temos, então,
que mudar a abordagem, ou olhar de viés.

A experiência da linkania tem ação descentralizadora. Possibilita o link, ou o relacionamento, entre as
multidões influenciando a descentralização e a fragmentação do poder. Essa multidão é dialógica.
Conversa com o sistema homem_máquina_protocolo, porque é também parte desse sistema. A multidão
emerge das relações entre pessoas. E, numa sociedade em rede, as pessoas se interconectam e
conversam entre si. As pessoas se reconhecem nesse ambiente rompendo, assim, as hierarquias de
valores que impactam na dicotomia do controle e da liberdade.

JENKINS, H., Convergence culture: where old and new media collide. New York: NYU Press, 2008.
http://www.worldofends.com/




11. gambiarra; faça você mesmo; auto-organização

Gambiarra como um ato de fazer. Gambiarra que remixa, modifica, transforma e se mistura. São esses
os princípios que regem a cibercultura, um conjunto de práticas sociais e comunicacionais de (re)
combinações que se desvelam na apropriação das tecnologias digitais.
A Gambiarra segue além nessa possibilidades de inovações culturais. O ideal de sociedade hiper
especializada, com conhecimento compartimentado, guardado em gavetinhas e vendido em embalagens
brilhantes já deu sinais de esgotamento. A era industrial, a fordização da economia, a era do consumo,

                                                                                                        10
ou seja, os países ricos não conseguiram integrar as populações de imigrantes, criaram uma sensação de
estabilidade e prosperidade totalmente ilusória, transformaram toda produção cultural e toda solução de
problemas em comércio. Em nome do pleno emprego e de uma sociedade totalmente funcional, as
pessoas comuns perderam uma habilidade essencial: a de identificar problemas, analisar os recursos
disponíveis e com eles criar soluções.

Entra a Internet. Os meios digitais possibilitam que os recursos "tecnológicos" de criação, produção,
transformação e circulação de conhecimento e cultura sejam acessíveis. As comunidades engajadas em
projetos colaborativos, a exemplo das comunidades de software livres e de ideias, estão amadurecendo
e apontam para alternativas para a criação de uma comunicação descentralizada, independente. Esse
conhecimento está impregnado nos mutirões. No efeito puxadinho colaborativo. É só chegar para
ajudar o ser humano ser mais feliz. Uma mobilização que vai além da boa ação. É cotidiana e
despretensiosa. E tem o padrão Carnaval de qualidade.

http://makezine.com/
http://www.thingiverse.com/
http://desvio.cc

LESSIG, L., Remix: making art and commerce thrive in the hybrid economy. New York: Penguin Press, 2008.
VAN ABEL, BAS, KLAASSEN ROEL, Open Design Now: Why Design Cannot Remain Exclusive, BIS publishers,
Amsterdam, 2011

VAN KRANENBURG, R., The internet of things a critique of ambient technology and all seeing network of RFID, network
notebooks, Holland, 2008




12. inteligência coletiva

Só é possível compreender a ruptura dos paradigmas quando se participa. A web é invisível para quem
pouco acessa. E assim, não se consegue enxergar que um novo sistema está nascendo. Acredito que
esteja emergindo uma consciência inequívoca de que a construção de baixo para cima tem muito a
oferecer para o desenvolvimento do processo coletivo. Uma sociedade que sobrevive e se recria em sua
própria diversidade. E, assim, tudo muda. Crianças aprendem a colaborar, a desenvolver projetos online
e a espelhar os sonhos no ambiente Web. O mundo virtual não é diferente do nosso bom e querido
mundo presencial. Criar para a sociedade. Fazer acontecer independentemente do retorno financeiro a
curto prazo. É esta a grande novidade. O percurso é simples e virtual. Qualquer pessoa com um
computador conectado à rede e com um pouco de conhecimento tem a possibilidade de participar
voluntariamente de alguns projetos importantes. E essa, sem dúvida, é uma excelente opção.

Podemos perceber que alguma coisa está modificando os rumos da economia por meio do trabalho
imaterial. Essa forma de trabalho foi caracterizada por Hardt e Negri (2005) como produtora de
informação, conhecimento, ideias, imagens, relacionamentos e afetos. Apresentando a tendência de não
limitar-se ao domínio estritamente econômico, mas desenvolvendo a esfera social. Para os autores, o
trabalho imaterial “não cria apenas meios através dos quais a sociedade é formada e sustentada; (...)
[mas] produz diretamente relações sociais tornando-se uma força social, cultural e política”. Tal


                                                                                                                11
relação, em termos filosóficos, também envolve a criação e a reprodução de novas subjetividades na
sociedade.

Yochai Benkler (2006) em The Wealth of the Networks mencionou a coexistência de duas formas de
economia: "uma advinda das negociações no mercado tradicional onde as trocas se realizam por meio
da moeda financeira e outra denominada pelo autor por economia do compartilhamento ou peer-
production economy, advinda da transferência mútua e simultânea de informações, principalmente na
Web: mais radical, novo e difícil de acreditar por aqueles que têm observado é o crescimento efetivo,
em larga escala, dos esforços cooperativos - a produção por pares da informação, do conhecimento e da
cultura. (...) em todo o domínio da informação e da produção cultural. Nessa segunda forma o agir
econômica encontra-se vinculado a um valor e a um tipo de moeda de troca que nem sempre é da
ordem financeira. Norteamentos tais como critérios de reputação, reconhecimento, visibilidade,
vontade de participação ou cooperação são alguns valores que podemos pensar como pertinentes."

A conversação on-line está gerando novas formas de relacionamentos. Criando novas perspectivas,
novas ferramentas, e um novo tipo de incentivo intelectual. O resultado é um ganho incomensurável na
habilidade de aprender e ensinar, refletida na capacidade de brincar com seriedade. A Internet abriu as
portas para o inter-relacionamento entre pessoas modificando as estruturas de poder, antes nas mãos
das corporações, e agora, resgatadas pelas pessoas comuns.

O software livre aparece como um arcabouço filosófico. Um bom senso comum para a maioria que
costuma frequentar este ambiente cibernético. Através da internet esta filosofia foi potencializada, pois
de forma colaborativa milhares de pessoas se uniram para a criação do Linux. A grande sacada do
Linus Torvalds não foi o Linux propriamente dito, mas a disponibilização de um projeto para ser
discutido, implementado, melhorado, deletado, editado ou apenas dialogado. A comunidade de
desenvolvedores construiu um sistema operacional viável. E subversivo. Pois rompe com o modelo de
produção de software. Atualmente, para a vanguarda tecnológica, o software não é mais visto como um
bem, e sim como uma ferramenta para atingir o conhecimento.

A abundância do conhecimento, disponível livremente na rede é incrementada pelo efeito colaborativo.
Assim como as comunidades de programadores romperam as amarras com o velho sistema ao
apresentar à humanidade um novo modo de produção, a avalanche tecnológica poderia faz o mesmo
nas áreas restritas às trocas de informação e construção do conhecimento.

O caráter aberto do projeto deu ao grupo as possibilidades para exercício total da criatividade. A ideia
original estava em pontuar a ruptura dos modelos de aprendizado através de um debate transparente, a
colaboração entre os participantes, a descentralização da informação e muita paixão. Através de uma
comunicação multifacetada, multilateral, interativa e independente criamos um fluxo líquido de ideias
que alimentam um repositório de conhecimento.

BENKLER, Y., The wealth of the networks: how social production transforms markets and freedom. New Haven: Yale
University Press, 2006. Disponível em: <http://www.benkler.org/Benkler_Wealth_Of_Networks.pdf
RHEINGOLD, H., Smart mobs: the next social revolution. New York: Perseus Books, 2003.
SHIRKY, C., Here comes everybody: the power of organizing without organizations. New York: Penguin Press, 2008.




                                                                                                                  12

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Apropriacoes tecnologias final

  • 1. Apropriações das tecnologias para a transformação social Hernani Dimantas Artista, escritor e ativista. Desde 1997 tem-se dedicado ao estudo, à discussão e à elaboração de projetos colaborativos em rede, publicando um número expressivo de artigos em livros, jornais e revistas sobre a Internet como um meio aberto à produção coletiva e destinado à troca de ideias e conhecimento entre as pessoas. Doutor pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo. Mestre em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Autor dos livros: Linkania: uma Teoria de Redes (2010) e Marketing Hacker (2003). Fundador e articulador do projeto MetaReciclagem. Fundador do lixoeletronico.org. palavras_chave: arte, gambiarra, diy, cultura digital, escola do futuro, inclusão digital, sociedade da colaboração, manifesto cluetrain, marketing hacker, gift economy, peer-production, ética hacker. software livre, open design, metareciclagem Índice Hernani Dimantas......................................................................................................................................1 1. apropriações das tecnologias para a transformação social.....................................................................3 2. tecnologia é mato...................................................................................................................................3 3. para que serve a web?............................................................................................................................4 4. falar é fácil; silêncio é fatal....................................................................................................................5 5. multidão hiperconectada........................................................................................................................5 6. emergência; bottom up...........................................................................................................................6 7. redes livres, TAZ, linkania.....................................................................................................................7 8. todo trabalho imaterial é performance...................................................................................................9 9. transparência; distribuição.....................................................................................................................9 10. quando o paradoxo se torna o paradigma...........................................................................................10 11. gambiarra; faça você mesmo; auto-organização................................................................................11 12. inteligência coletiva...........................................................................................................................12 1
  • 2. 1. apropriações das tecnologias para a transformação social O meu primeiro contato com a tecnologia de computadores data o final dos anos 1980. Foi quando pela primeira vez tive oportunidade de imergir no mundo da informática. Os computadores eram muito diferentes dos atuais. Não se trata de uma diferença tecnológica. Mas de interface. Entender sobre computadores à época era versar sobre tecnologia, mais precisamente sobre hardware e software. No entanto, na prática, os computadores serviam para se fazer planilha, editar texto, processar base de dados e para os mais sofisticados a utilização de softwares específicos para design, vídeos e outros multimeios. Encontrar uma boa utilidade para o usuário comum não era uma tarefa corriqueira. A Internet chega no Brasil em 1995 (antes tínhamos as BBS e Internet nas universidades). O computador se tornou uma ferramenta de comunicação. Não era mais apenas uma ferramenta. Outros usos são apropriados. Surge a tecnologia social. E o ator social, envolvido e participando do início tecido social permeado por seres animados e inanimados (nem tanto assim) tem no seu uso, apropriação, revitalização ou repotenciamento, conexões e máquinas. A tecnologia social pode ser vista como processo, um movimento a partir da apropriação da tecnologia. O processo de apropriação da tecnologia, então, ao adquirir dimensões e implicações políticas de desenvolvimento para a comunidade e para a nação, suprindo necessidades e expectativas [desejos em expansão] transforma-se em tecnologia social. DIMANTAS, H; As Zonas de colaboração metareciclagem: pesquisa-ação em rede, 2010 em: http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/27/27154/tde-17022011-122400/pt-br.php 2. tecnologia é mato Tecnologia é difícil de entender. Com hardware, então, podemos até brincar. Não é tão complicado construir uma placa dedicada. É bem tranquilo programar num Arduíno. É legal. Pra quem gosta é tudo de bom. Mas o que nos interessa da tecnologia é que tem ajudado a criar mundos. Há pouco tempo algumas pessoa acreditavam em dois universos. O virtual não havia conquistado o status de real. Atualmente, não temos mais essa confusão. Entendemos que a sociedade está conseguindo se organizar com uma estratégia diferente. O discurso padrão já traz palavras como colaboração, crowdsourcing e muitas vezes anarquia e liberdade. Mas, por enquanto tratar com essa ruptura no dia a dia ainda é quase uma missão impossível. É uma questão geracional que em algumas décadas estará 100% resolvida Pois, o que mais me interessa é o aspecto social que as ferramentas proporcionam. De certa forma, a internet é biônica. Cabos, modems, placas fazem parte desta parafernália. É uma extensão do cérebro humano, que artificialmente incrementa a capacidade de processar o conhecimento. Podemos 2
  • 3. armazenar muito mais informação, e parafraseando McLuhan, utilizar as máquinas como extensão do homem. Os hackers criaram uma tecnologia livre que conecta pessoas, que diminuí as distâncias e que aumenta as conversações. Ocupamos o espaço das informações. O conhecimento se descola e se abre. O conhecimento quer ser livre. O choque cultural é invisível e imperceptível. É geracional. Existe um importante gap tecnológico. Mas como entendemos que é tecnologia é mato. Cresce e se espalha a ponto de ficar ficar transparente transita pelo ciberespaço. Mas como contradição rompe paradigmas só com efeito da colaboração. Falo de experiências como a do software livre que proporcionaram uma forma de colaboração onde a liberdade é a regra. Principalmente, a liberdade de compartilhar qualquer produção na rede. Fazemos o que temos vontade. A experiência de fazer potencializa a curiosidade de querer pesquisar, trocar, compartilhar, ensinar e aprender. O Linux foi criado só por prazer. É assim que se faz. Experimente ;) HIMANEN, P.,The hacker ethic: and the spirit of the informational age. New York: Randon House, 2001. RAYMOND, E. S., The cathedral & the bazzar: musings on linux and open source by an accidental revolutionary. Sebastopol, CA: O’Reilly & Associates, 1999. Disponível em: http://www.geocities.com/CollegePark/Union/3590/pt- cathedral-bazaar.html 3. para que serve a web? As pessoas entendem para que serve a TV; o Rádio; o Telefone. Mas a Web pode ser tudo isso e mais. É e-mail, gtalk, navegar por um monte de sites, participar de listas, jogos e ouvir músicas lícita ou ilicitamente, assistir ou publicar vídeos no youtube, passear pelo Facebook dos amigos, blogar, twittar... enfim, participar da Internet. E deixar a rede participar de você. O compartilhamento é total. A conversação na Internet é bem diferente daquela que se realiza ao vivo, olho no olho. Atualmente, por exemplo, milhares de pessoas, e dentre estas milhares de brasileiros, estão utilizando o blog como ferramenta de conversação e de informação descentralizada. Uma das consequências mais imediatas dessa conversação recai sobre a cultura de massa. Por que assistir TV? Ler jornal? Podemos navegar pelo youtube. Assistir aos vide os escolhemos, que os amigos indicam. Posso ler os blogs para me atualizar. Para que esperar a velha imprensa fazer suas análises sobre a situação do planeta? No Facebook temos um filtro que nossos amigos generosamente linkam. São tantas as alternativas para saber o que está acontecendo no mundo que a imprensa tradicional perde, aos poucos, força e lugar enquanto “formadora de opinião”. A cultura de rede se faz no compartilhamento, na concordância entre pessoas, na gentileza de um hiperlink. Extrapolam os conceitos, pensamentos, missões, campanhas e disputas. 3
  • 4. As pessoas conversam, criam a reputação e aparecem para o mundo. As empresas continuam caladas. Dizem estar esperando, mas ele não sabem o que falar. Empresas não conversam. E muitos empresários digitais acessam a rede através da secretária, que apenas imprime o que interessa (sic). Ficam escondidos por trás do firewall corporativo. Assim, não vão muito longe. O silêncio é fatal. A internet é uma mídia fenomenal. Mas só para quem tem paciência e conhecimento dos meandros da rede. Os resultados aparecem para que sabe conversar. Pense a longo prazo... o tempo da web é rápido... DIMANTAS, H., Marketing Hacker: a revolução dos mercados. Rio de Janeiro: Garamond, 2003. 4. falar é fácil; silêncio é fatal Os mercados são conversações, falar é barato e o silêncio é fatal. Explica como as pessoas estão se apropriando do espaço informacional. Entender que os mercados são conversações é tão fácil como andar de bicicleta. Conversou uma vez... nunca mais se esquece. Falar é barato... a tecnologia facilita a distribuição da conversa. E, nesse sentido distribui o conhecimento livremente. Na web, existir é ser visto. Blogs, assim como seus publishers, existem para serem vistos. Sem celebridades e olimpianos, sem emissores e receptores Somos todos apenas pessoas do ciberespaço. Para conviver nessa rede temos que compreender essa nova dinâmica. Temos de nos entender como pessoas num processo. Uma das ideias que a virtualidade põe de ponta-cabeça é a de identidade. Os recursos permitem a existência de vários "eus", tornados reais. Os "eus" dependem de um repertório socialmente construído. E temos de pensar muito nesta questão do repertório, nas tecnologias de interação e suas possibilidades, no que é no que pode ser inteligência coletiva. Uma sociedade em rede convive como o assincronismo. Não se vive as mesmas complexidades. Nos mesmos momentos. Enquanto alguém descobre que participar das redes é legal. Outro já não aguenta mais rascunhar seus cadernos digitais. No entanto, blogar (postar no twitter, no Facebook ou enviar e- mail) é conversar. Isso tem um significado importante num espaço onde colaborar é o diferencial. Blog é uma forma de expressão que cada um faz do jeito que quiser, no momento que quiser, no tempo que quiser. Blog é apenas uma ferramenta. Internet não tem a ver com computadores ou ferramentas. Tem a ver com pessoas ;) http://www.cluetrain.com/portuguese http://www.worldofends.com 4
  • 5. 5. multidão hiperconectada Contra todos os avatares da transcendência do poder soberano (e nomeadamente o do "povo soberano"), o conceito de multidão é o de uma imanência: um monstro revolucionário das singularidades não representáveis; parte da ideia de que qualquer corpo já é uma multidão, e, por conseguinte, a expressão e a cooperação. É igualmente um conceito de classe, sujeito de produção e objeto de exploração, esta definida como exploração da cooperação das singularidades, um dispositivo materialista da multidão poderá apenas partir de um tomada prioritária do corpo e a luta contra a sua exploração . Neste sentido, a internet traz novidades. Permite perceber essas singularidades e entender que essa multidão monstruosa potencializa o debate. E nos faz compreender que o poder tende à descentralização. A catalisação da colaboração não é um caso em desenvolvimento. É uma realidade virtual. A colaboração é um processo que não nasceu com o computador. Está na boca do povo, ronda os asfaltos poeirentos das periferias. A multidão se alimenta das contradições do império e, encontra na rede um ambiente propício para expressar a sua potência. A multidão hiperconectada só se faz possível quando entendemos a ruptura dos contêineres que estabelecem o ser como um sujeito múltiplo e engajado ou, como seres multifacetados capazes de viver várias vidas numa só. Experimentamos as nossas singularidades (e nossas esquizofrenias). Temos uma multidão dentro de cada pessoa. A experiência da linkania tem ação descentralizadora. Possibilita o link, ou o relacionamento, entre as multidões influenciando a descentralização e a fragmentação do poder. Essa multidão dialoga com a máquina do poder soberano. A multidão emerge das relações entre pessoas. E, numa sociedade em rede, as pessoas se interconectam e conversam entre si. As pessoas se reconhecem nesse ambiente rompendo, assim, as hierarquias de valores que separam aqueles que alimentam o poder imperial daqueles outros que agem em multidão. HARDT, M.; NEGRI, Multidão: guerra e democracia na era do império. Rio de Janeiro: Record, 2005. SUROWIECKI, J., The wisdom of crowds. New York: Anchor Books, 2005. 6. emergência; bottom up Nesse processo de apropriação da tecnologia o que me importa é a emergência de conversas. Uma forma de comunicação de baixo pra cima capaz de se organizar em redes sociais, no sentido mais amplo possível. Uma conversa que se dá na participação, no compartilhamento e na disponibilização de links, ideias, projetos, poesias, textos, vídeos e onde mais a criatividade humana consegue relacionar. Somos seres em relação. Precisamos nos comunicar com outras pessoas. Criamos redes como formigas preparam os formigueiros. A rede organiza a nossa civilização. Como exemplo proponho uma análise ao Manifesto do Lixo Eletrônico; a saber, sobre a Política Nacional de Resíduos Sólidos - proposta pela Câmara dos Deputados do Brasil - emergiu uma 5
  • 6. discussão entre os blogueiros brasileiros principalmente por causa de uma mudança no artigo 33, que regulamenta a logística reversa e reciclagem obrigatória de lixo extraordinário, não mais considerando equipamentos eletrônicos como elegíveis à política. Muitos acreditam ser essa decisão resultado de pressão pela indústria de reciclagem, dado os altos custos para a reciclagem de lixo eletrônico. Reagindo à adaptação do Projeto de Lei, o Coletivo Lixo Eletrônico criou o Manifesto do Lixo Eletrônico para compartilhar ideias sobre o que a inclusão de lixo eletrônico nesta política nacional de controle de resíduos significaria para a população brasileira e seu estilo de vida atual. Esse manifesto atingiu um número razoável de pessoas (umas 10 mil). O suficiente para se alterar uma projeto lei. O manifesto faz de uma organização bottom up conseguir atingir objetivos importantes. O MetaReciclagem também aparece como uma emergência; Um grupo que se organiza em rede e tem ação que impacta no presencial. MetaReciclagem é principalmente uma ideia. Uma ideia sobre a reapropriação de tecnologia objetivando a transformação social. Esse conceito abrange diversas formas de ação: da captação de computadores usados e montagem de laboratórios reciclados usando software livre, até a criação de ambientes de circulação da informação através da internet, passando por todo tipo de experimentação e apoio estratégico e operacional a projetos socialmente engajados ;) http://www.lixoeletronico.org http://rede.metareciclagem.org JOHNSON, S., Emergência: a dinâmica de rede em formigas, cidades e softwares. Rio de Janeiro: Jorge Zahar; 2003. 7. redes livres, TAZ, linkania redes livres: Qual é a novidade de uma cultura de redes sociais? As pessoas sempre se relacionaram umas com as outras, ou com grupos, através de redes. Rede não é novidade. É uma configuração padrão do ser humano ao longo da história. Mas, nas últimas duas décadas, o conceito de rede vem sendo utilizado como uma alternativa de organização que possibilita respostas a uma série de demandas de flexibilidade, conectividade e descentralização da atuação social. Com as tecnologias da comunicação e da interação as redes passam a facilitar a convivência em tempo real à distância. Provocam e potencializam a conversação. Reconduzem a comunicação para uma lógica de sistemas organizacionais capazes de reunir indivíduos e instituições de forma descentralizada e participativa. A partir do conceito da apropriação, Redes não são aprendidas, são apropriadas por comuns. Sejam interesses ou apenas a vontade de colaborar. 6
  • 7. Existe a tendencia de napsterização da indústria cultural. TAZ (Zona Autônoma Temporária): Estamos nós, que vivemos no presente, condenados a nunca experimentar a autonomia, nunca pisarmos, nem que seja por um momento sequer, num pedaço de terra governado apenas pela liberdade? Estamos reduzidos a sentir nostalgia pelo passado, ou pelo futuro? Devemos esperar até que o mundo inteiro esteja livre do controle político para que pelo menos um de nós possa afirmar que sabe o que é ser livre? Tanto a lógica quanto à emoção condenam tal suposição. A razão diz que o indivíduo não pode lutar por aquilo que não conhece. E o coração revolta-se diante de um universo tão cruel a ponto de cometer tais injustiças justamente com a nossa, dentre todas as gerações da humanidade. -- Hakim Bey, autor de TAZ As ideias de Hakim Bey se espalharam no Brasil principalmente por meio da internet. Trata- se de técnicas de ativismo e de revolta cotidiana. Sua filosofia faz o link entre os impulsos revolucionários e a liberdade de ação. TAZ é a impermanência da própria existência. Redes sociais pressupõem ruptura, desconstrução e aglutinação. A internet é importante como uma ferramenta para criar TAZ. Mas não só: permite circular informações clandestinas, desenvolver a pirataria e ter acesso a bens proibidos via hackers. Além de possibilitar a existência de algumas estruturas não hierarquizadas de produção e divulgação do conhecimento. A cultura digital é motivada por pequenas revoluções. Essas revoluções englobam blogs, orkuts, irc's, wikis ou qualquer outra forma de conversação. E, neguinho não tá preocupado se essa conversação vai acabar amanhã. Que dure enquanto durar. Hakim Bey está certo. TAZ é original. Uma tática emergente que funciona como as mais elaboradas estratégias. Este é o segredo. Nossa geração pode abrir o caminho para a liberdade. A linkania aponta para esse atalho. Pressupõe informação pública, conhecimento livre e conexão geral. Somos livres quando encontramos a esperança nos nossos atos. Linkania: Um movimento de auto organização do caos. Linkania é um pensamento, uma inserção no mundo das ideias e coisas. O conceito de cidadania tem se esvaziado na crítica. Muitos ativistas contra a mídia de massa sentam- se á noite nos confortáveis sofás e se deleitam com a telinha colorida plugada na Rede Globo. Novelas da vida ociosa desfilam na frente dos seus olhos. Temos que mirar além da tática. O ativismo para atingir tem que ir além da crítica e se constituir como um pensamento ação, a partir de uma compreensão profunda da linkania e de um novo modelo de relações entre pessoas e entre pessoas e tecnologias Porque linkania tem a ver com as pessoas. Digo pessoas da forma mais abrangente. Com as tecnologias digitais estamos experimentando percepções que não faziam parte da nossa metafísica padrão. Experimentamos as nossas singularidades (ou as nossas esquizofrenias). Temos uma multidão dentro de cada pessoa. A linkania faz as ligações para a auto-organização. Portanto, a linkania se contrapõe à ideia hegeliana de cidadania. Linkania é imanente. Está ligada às pessoas. A colaboração explica o software livre como modo de produção. Release early , release often é o modo Linus de desenvolvimento de software. A reputação é a moeda de troca na linkania. 7
  • 8. Linkania... é isso. A cidadania sem cidades. A descentralização. Ação local e conexão global. BEY, H., TAZ: zona autônoma temporária. São Paulo: Editora Conrad, 2001. DIMANTAS, H., Linkania: a sociedade da colaboração. São Paulo: Editora Senac, 2010. 8. todo trabalho imaterial é performance Essas relações desvelam o perfil. A identidade cultural passa a ser uma representação de indicadores. Número de amigos no Facebook, número de posts, seguidores no twitter. Para existir online você precisa ser visto. 'Hoje, no entanto, o pós- fordismo e o paradigma imaterial da produção adotam a performidade, a comunicação e a colaboração como características centrais. A performance foi posta em ação. Toda forma de trabalho que produz um bem imaterial, como uma relação ou afeto, resolvendo problemas ou proporcionando informação, do trabalho de vendas aos serviços financeiros, é fundamentalmente uma performance: o produto é o próprio ato em si' (Hardt e Negri, 2005). A rede pressupõe a troca para se ter um relacionamento. Troca de links, de informações e de palavras vazias. A relação se faz no compartilhamento. Na Internet, principalmente analisando o estouro do Facebook, nos faz experimentar um coletivo de individualidades. Ou seja, o network de egotrips. Nas publicações individuais as pessoas existem. Não deixa de ser a voz individual falando mais alto. A voz humana alcança diretamente o nosso âmago, e toca nosso espirito. As pessoas estão buscando a melhor maneira de se comunicar. E não há uma fórmula mágica. Receitas, manuais e guias desorientam antes de tudo. Mas o que o coletivo de individualidades tem a ver com o trabalho em si. O retorno da arte, do deleite do amadorismo. Ressurgindo da poeira da era industrial onde o profissionalismo narcisista fez do mundo um antro da decadência humana. As pessoas conversam com a liberdade, com transparência e, principalmente, com autenticidade. Uma viagem pelo ego humano buscando no fundo do coração uma nova equação de balanceamento entre a angústia e o amor. Ao mesmo tempo, o indivíduo retoma a sua individualidade dentro de um ambiente coletivo. Onde a reputação passa ser o principal ponto de reverberação da sua própria opinião. E a credibilidade é função exclusiva da autenticidade individual. DIMANTAS, H., Marketing Hacker: a revolução dos mercados. Rio de Janeiro: Garamond, 2003. HARDT, M.; NEGRI,, Multidão: guerra e democracia na era do império. Rio de Janeiro: Record, 2005. 8
  • 9. 9. transparência; distribuição A ruptura dos contêineres do tempo e espaço, ou a descontaineirização da metafísica padrão nos leva a entender a internet como um novo lugar. Um ambiente diferente. Internet não é apenas uma nova mídia, um canal de comunicação. Existe vida inteligente por trás do monitor colorido. Assim, não consigo desvincular a inteligência coletiva da catalisação dessas inteligências através da internet. Pois, por trás de cada computador temos um ser humano de verdade buscando uma nova forma de aprender e ensinar. O círculo quadrado é a imagem do inimaginável. A Web é o círculo quadrado. Um quebra cabeça desmontado. Partes jogadas, desmontadas. Um pedaço do céu... uma montanha... um avião passando. Juntar todas estas imagens para criar um novo desenho. Montando uma nova realidade. Na Web fazemos bricolage. Desmantelamos o conhecimento em partes desconexas. E recriamos com uma forma particular. Cada um faz o seu próprio mundo. Penso que este conceito faz sentido. Heidegger privilegia o futuro, porque é esta projeção para o advir e o golpe da devolução no embate com a morte que lá está que o leva a pensar e à autoconscientização. O homem pode então introduzir esse conhecimento existencial no projeto de sua vida, e assim se apropriar da existência fazendo-a efetivamente sua, tornando-se autêntico, não mais um ente sem raízes. A rede passa a valorizar mais a reputação. A ética hacker faz dessa reputação uma rede distribuída, fluída e transparente. E, sabe exigir do outro uma relação também mais transparente. Afinal, a experiência virtual é pessoal. Depende da vontade do interlocutor de participar desse espaço onde a informação tende ao infinitesimal infinito. ] WEINBERGER, D., The hyperlinked metaphysis of web. 2006. Disponível em: http://www.hyperorg.com/misc/metaphysics/ 10. quando o paradoxo se torna o paradigma "O paradoxo não é meu, o paradoxo sou eu." Fernando Pessoa A Internet é mídia. Um ambiente que amplifica as mensagens com eficiência. Existe nos espaços informacionais. Uma pequena audiência que eleva a voz comum para além das fronteiras digitais. O conceito por trás da rede não corrobora com o que havíamos aprendido, e que para desfilar pelos mares virtuais temos que destruir alguns pensamentos viciados e aglutinar novas ideias. Quando o 9
  • 10. paradoxo se torna um paradigma, as melhores práticas não mais funcionam. Em tempos de mudanças as práticas não usuais funcionam bem melhor. A proposta é pela ruptura. O estar em rede é a dissolvência. O ser existe apenas na relação. A virtualização do ser é o fim da caixa preta. Estive estudando um pouco de Flusser. Relembrei do McLuhan e das máquinas como extensão do homem. Flusser tem um insight legal. as fábricas são lugares onde sempre são produzidas novas formas de homens: primeiro, o homem-mão, depois o homem-ferramenta, em seguida, o homem-máquina e, finalmente, o homem-aparelhos-eletrônicos. Repetindo: essa é a história da humanidade. A máquina distende a mão do homem ao ponto do homem se tornar a máquina, ou a máquina se torna o homem. Oras, tanto faz. Somos homem_computadores, homem_celulares, homem_agendas_eletrônicas... somos homens. O desafio está em romper a caixa preta. Quebrar os códigos que nos desafiam. Decifrar os protocolos que controlam o sistema. É como se estivéssemos em Matrix e, como um bom hacker, libertado pela pílula vermelha. Somos livres para descobrir a arquitetura do sistema, estamos livres para dominar os sistemas... all your base are belong to us. Parece que este é um insight utópico. Nossa! esse cara não percebeu que a sociedade do controle tomou conta das nossas ações? Cadê a privacidade? Nossos dados estão disponíveis na rede. E, a cada momento, a sociedade se torna refém de um sistema homem_máquina_protocolo. A promessa da Internet é o retorno da voz. Esse retorno se dá pela apropriação da tecnologia e pelas inúmeras possibilidades de usar o sistema homem_máquina_protocolo em benefício do sujeito e da comunidade. O caminho do controle é o mesmo do que aquele proposto pela liberdade. Temos, então, que mudar a abordagem, ou olhar de viés. A experiência da linkania tem ação descentralizadora. Possibilita o link, ou o relacionamento, entre as multidões influenciando a descentralização e a fragmentação do poder. Essa multidão é dialógica. Conversa com o sistema homem_máquina_protocolo, porque é também parte desse sistema. A multidão emerge das relações entre pessoas. E, numa sociedade em rede, as pessoas se interconectam e conversam entre si. As pessoas se reconhecem nesse ambiente rompendo, assim, as hierarquias de valores que impactam na dicotomia do controle e da liberdade. JENKINS, H., Convergence culture: where old and new media collide. New York: NYU Press, 2008. http://www.worldofends.com/ 11. gambiarra; faça você mesmo; auto-organização Gambiarra como um ato de fazer. Gambiarra que remixa, modifica, transforma e se mistura. São esses os princípios que regem a cibercultura, um conjunto de práticas sociais e comunicacionais de (re) combinações que se desvelam na apropriação das tecnologias digitais. A Gambiarra segue além nessa possibilidades de inovações culturais. O ideal de sociedade hiper especializada, com conhecimento compartimentado, guardado em gavetinhas e vendido em embalagens brilhantes já deu sinais de esgotamento. A era industrial, a fordização da economia, a era do consumo, 10
  • 11. ou seja, os países ricos não conseguiram integrar as populações de imigrantes, criaram uma sensação de estabilidade e prosperidade totalmente ilusória, transformaram toda produção cultural e toda solução de problemas em comércio. Em nome do pleno emprego e de uma sociedade totalmente funcional, as pessoas comuns perderam uma habilidade essencial: a de identificar problemas, analisar os recursos disponíveis e com eles criar soluções. Entra a Internet. Os meios digitais possibilitam que os recursos "tecnológicos" de criação, produção, transformação e circulação de conhecimento e cultura sejam acessíveis. As comunidades engajadas em projetos colaborativos, a exemplo das comunidades de software livres e de ideias, estão amadurecendo e apontam para alternativas para a criação de uma comunicação descentralizada, independente. Esse conhecimento está impregnado nos mutirões. No efeito puxadinho colaborativo. É só chegar para ajudar o ser humano ser mais feliz. Uma mobilização que vai além da boa ação. É cotidiana e despretensiosa. E tem o padrão Carnaval de qualidade. http://makezine.com/ http://www.thingiverse.com/ http://desvio.cc LESSIG, L., Remix: making art and commerce thrive in the hybrid economy. New York: Penguin Press, 2008. VAN ABEL, BAS, KLAASSEN ROEL, Open Design Now: Why Design Cannot Remain Exclusive, BIS publishers, Amsterdam, 2011 VAN KRANENBURG, R., The internet of things a critique of ambient technology and all seeing network of RFID, network notebooks, Holland, 2008 12. inteligência coletiva Só é possível compreender a ruptura dos paradigmas quando se participa. A web é invisível para quem pouco acessa. E assim, não se consegue enxergar que um novo sistema está nascendo. Acredito que esteja emergindo uma consciência inequívoca de que a construção de baixo para cima tem muito a oferecer para o desenvolvimento do processo coletivo. Uma sociedade que sobrevive e se recria em sua própria diversidade. E, assim, tudo muda. Crianças aprendem a colaborar, a desenvolver projetos online e a espelhar os sonhos no ambiente Web. O mundo virtual não é diferente do nosso bom e querido mundo presencial. Criar para a sociedade. Fazer acontecer independentemente do retorno financeiro a curto prazo. É esta a grande novidade. O percurso é simples e virtual. Qualquer pessoa com um computador conectado à rede e com um pouco de conhecimento tem a possibilidade de participar voluntariamente de alguns projetos importantes. E essa, sem dúvida, é uma excelente opção. Podemos perceber que alguma coisa está modificando os rumos da economia por meio do trabalho imaterial. Essa forma de trabalho foi caracterizada por Hardt e Negri (2005) como produtora de informação, conhecimento, ideias, imagens, relacionamentos e afetos. Apresentando a tendência de não limitar-se ao domínio estritamente econômico, mas desenvolvendo a esfera social. Para os autores, o trabalho imaterial “não cria apenas meios através dos quais a sociedade é formada e sustentada; (...) [mas] produz diretamente relações sociais tornando-se uma força social, cultural e política”. Tal 11
  • 12. relação, em termos filosóficos, também envolve a criação e a reprodução de novas subjetividades na sociedade. Yochai Benkler (2006) em The Wealth of the Networks mencionou a coexistência de duas formas de economia: "uma advinda das negociações no mercado tradicional onde as trocas se realizam por meio da moeda financeira e outra denominada pelo autor por economia do compartilhamento ou peer- production economy, advinda da transferência mútua e simultânea de informações, principalmente na Web: mais radical, novo e difícil de acreditar por aqueles que têm observado é o crescimento efetivo, em larga escala, dos esforços cooperativos - a produção por pares da informação, do conhecimento e da cultura. (...) em todo o domínio da informação e da produção cultural. Nessa segunda forma o agir econômica encontra-se vinculado a um valor e a um tipo de moeda de troca que nem sempre é da ordem financeira. Norteamentos tais como critérios de reputação, reconhecimento, visibilidade, vontade de participação ou cooperação são alguns valores que podemos pensar como pertinentes." A conversação on-line está gerando novas formas de relacionamentos. Criando novas perspectivas, novas ferramentas, e um novo tipo de incentivo intelectual. O resultado é um ganho incomensurável na habilidade de aprender e ensinar, refletida na capacidade de brincar com seriedade. A Internet abriu as portas para o inter-relacionamento entre pessoas modificando as estruturas de poder, antes nas mãos das corporações, e agora, resgatadas pelas pessoas comuns. O software livre aparece como um arcabouço filosófico. Um bom senso comum para a maioria que costuma frequentar este ambiente cibernético. Através da internet esta filosofia foi potencializada, pois de forma colaborativa milhares de pessoas se uniram para a criação do Linux. A grande sacada do Linus Torvalds não foi o Linux propriamente dito, mas a disponibilização de um projeto para ser discutido, implementado, melhorado, deletado, editado ou apenas dialogado. A comunidade de desenvolvedores construiu um sistema operacional viável. E subversivo. Pois rompe com o modelo de produção de software. Atualmente, para a vanguarda tecnológica, o software não é mais visto como um bem, e sim como uma ferramenta para atingir o conhecimento. A abundância do conhecimento, disponível livremente na rede é incrementada pelo efeito colaborativo. Assim como as comunidades de programadores romperam as amarras com o velho sistema ao apresentar à humanidade um novo modo de produção, a avalanche tecnológica poderia faz o mesmo nas áreas restritas às trocas de informação e construção do conhecimento. O caráter aberto do projeto deu ao grupo as possibilidades para exercício total da criatividade. A ideia original estava em pontuar a ruptura dos modelos de aprendizado através de um debate transparente, a colaboração entre os participantes, a descentralização da informação e muita paixão. Através de uma comunicação multifacetada, multilateral, interativa e independente criamos um fluxo líquido de ideias que alimentam um repositório de conhecimento. BENKLER, Y., The wealth of the networks: how social production transforms markets and freedom. New Haven: Yale University Press, 2006. Disponível em: <http://www.benkler.org/Benkler_Wealth_Of_Networks.pdf RHEINGOLD, H., Smart mobs: the next social revolution. New York: Perseus Books, 2003. SHIRKY, C., Here comes everybody: the power of organizing without organizations. New York: Penguin Press, 2008. 12