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Literatura de Viagens Fernão Mendes Pinto
Um dos  primeiros livros de viagens  conhecido em Portugal foi o  Livro de Marco Polo,  traduzido em 1502 por Valentim Fernandes. Não tardou muito que, no século XVI, começassem a aparecer obras originais portuguesas, descrevendo os novos mundos que então demos ao Mundo. Embora os autores escrevessem despreocupados com louçanias de estilo, os livros ganhavam relativo interesse por saírem autenticados com o cunho da veracidade e da novidade. A geografia, os costumes de raças humanas ignoradas, mil peripécias acontecidas em climas tão diferentes do europeu, tudo isto era um conteúdo novo a atrair a atenção da curiosíssima gente desta culta e velha Europa.
A literatura portuguesa de viagens radica na actividade dos descobrimentos marítimos e na necessidade pragmática de registar rotas, condições atmosféricas, acidentes da costa e todos os elementos que pudessem facilitar a repetição e prosseguimento dos percursos entretanto efectuados. Assim,  os roteiros e os diários de bordo, documentos técnicos para orientação náutica, são os antecedentes desta literatura , que, no entanto, começa já nesses textos a emergir em comentários que alargam a pura notação descritiva, em apontamentos de pitoresco, em descrições surpreendidas ou em segmentos narrativos que dão conta de certo empenho na relação entre o sujeito perceptivo e o mundo que lhe vai sendo revelado. Estão neste caso, no séc. XVI, o  Esmeraldo de Situ Orbis , de Duarte Pacheco Pereira, e o  Roteiro do Mar Roxo , de D. João de Castro; mas a primeira obra de interesse decisivo, e importante, é, neste capítulo, o  Roteiro da Primeira Viagem de Vasco da Gama , atribuído a Álvaro Velho, que permanece como um dos textos fundamentais de toda a literatura de viagens, seguido da  Carta a D. Manuel sobre o Descobrimento do Brasil , de Pero Vaz de Caminha.
Na sequência destas obras, aparecem autênticas relações de itinerários e percursos, por mar ou por terra, mas matricialmente desencadeados pelas viagens ultramarinas, que aliam por vezes o interesse documental a procedimentos narrativos que adquirem, sobretudo para o leitor de hoje, efeitos de ordem literária.  Por outro lado, os escritores «canónicos» (escrevendo com uma intenção determinadamente literária) centraram muitas das suas obras na problemática da viagem dos descobrimentos, como é o caso de Gil Vicente nomeadamente no  Auto da Índia  e, sobretudo, de Luís de Camões que dela faz a trama fundamental em  Os Lusíadas . Também os cronistas não podem deixar de reelaborar essa matéria, por vezes em páginas que são das mais importantes, mesmo sob o ponto de vista estético, deste capítulo: Gomes Eanes de Zurara na  Crónica da Guiné , João de Barros na  Ásia .
Caso particular desta literatura é a proliferação que, durante a segunda metade do séc. XVI, e até mais tarde, conhece um género específico das nossas letras, o do relato de naufrágios (constituído por uma narrativa específica e exclusiva de naus que naufragam, com descrição pormenorizada das reacções humanas a que o naufrágio dá lugar, e do esforço trágico, por vezes baldado, pela sobrevivência). O mais antigo que se conhece, de 1554, é o do Galeão Grande São João, conhecido por  Naufrágio de Sepúlveda ,  de autor anónimo; outros, porém, merecem beneficiar igualmente da atenção da análise literária, pela raríssima capacidade de escrita do patético, pela descrição paralela do movimento físico e psicológico, pela aliança de uma crença inabalável na missão militar e religiosa do espírito de conquista com um pendor pessimista e desenganado que neles figuram a contra-epopeia lusíada. Em toda esta literatura, porém, avulta uma obra excepcional,  a  Peregrinação  de Fernão Mendes Pinto , publicada em 1614, mas escrita antes de 1580.
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DADOS BIOGRÁFICOS
O Autor da  Peregrinação  e a sua obra confundem-se à primeira vista: Fernão Mendes Pinto é para nós o herói da  Peregrinação . Mas não deve esquecer se que o Fernão Mendes da  Peregrinação  é uma criação literária do Autor do livro. Se não houvesse documentos a autenticar a existência de Fernão Mendes Pinto nada nos garantiria que este não fosse uma pura personagem de romance.
Fernão Mendes Pinto foi, durante a primeira parte da vida, um andarilho incansável. Os principais dados desses dias de aventura deixou-os exarados numa obra que o tornou célebre —  Peregrinação.
Nasceu em Montemor-o-Velho  entre 1509 e 1511 , de família pobre, e foi muito novo para Lisboa (em 1521) servir uma fidalga.  Ano e meio depois de estar ao serviço desta dama, aconteceu qualquer coisa que o obrigou a fugir apressadamente de casa para salvar a vida. Crê-se que este perigo teria a ver com ser confidente das traições amorosas da senhora.  Correu sem parar até ao Cais da Pedra e meteu-se numa nau, que ia com um carregamento de cavalos para Setúbal. Por alturas de Sesimbra, a nau foi assaltada por piratas franceses, tendo os seus ocupantes sido desembarcados, bem chicoteados e nus, na praia alentejana de Melides. Mendes Pinto conseguiu, pouco depois, chegar a Setúbal, onde entrou ao serviço do fidalgo Francisco de Faria.
Em 1537, embarcou para a índia à cata de fortuna e onde vive diversas aventuras. Correu Diu, Meca, Etiópia, Ormuz, Goa, Malaca, Nanquim, Cochinchina, Japão, Sião, Samatra, etc. Na Índia encontra-se com S. Francisco Xavier, Jesuíta com o que colaboraria no Japão. Ingressa na ordem Jesuíta e entrega todos os seus bens à ordem e aos pobres, mas finalmente abandona a ordem.  Que fez durante estas longas peregrinações? Que ofícios desempenhou? De tudo um pouco: criado de servir e soldado, comerciante e embaixador, escravo e corsário e até jesuíta.  Algo do muito que sofreu ouçamo-lo da sua própria boca: foi  «treze vezes cativo, e dezassete vendido nas partes da índia, Etiópia, Ará­bia Feliz, China, Tartáría, Massacar, Samatra...» (Peregrinação, Cap. 1). Passados vinte anos no Oriente, resolveu regressar a Portugal, onde chegou em 1558. Casou e foi viver para o Pragal, perto de Almada.  Requereu uma tença como prémio dos seus serviços no Oriente. Esta foi-lhe concedida em carta de Janeiro de 1583.  A morte, que tantas vezes vira diante dos olhos, aí o foi buscar em 1583.
Documentário Fernão Mendes Pinto:  Uma vida em Peregrinação http://www.youtube.com/watch?v=QN8aWYbcSrU http://www.youtube.com/watch?v=xV4tSxaVRmI
PEREGRINAÇÃO  - A OBRA DE FERNÃO MENDES PINTO
http://www.youtube.com/watch?v=nzRbHxuuhbM&NR=1 http://www.youtube.com/watch?v=5XhbeFju1PM&NR=1 http://www.youtube.com/watch?v=jbrSZ8YCwuE&NR=1 http://www.youtube.com/watch?v=e2yo29imp0c&NR=1 http://www.youtube.com/watch?v=RAHTY2p-Ung Grandes Livros Peregrinação  de Fernão Mendes Pinto
Doze anos depois do regresso ao Reino (em 1569), no seu retiro do Pragal, começou Fernão Mendes Pinto a redigir uma obra, onde se misturam elementos de autobiografia, de memórias e de ficção. Deu-lhe o sugestivo título de  Peregrinação. Só foi publicada em 1614, trinta anos após a morte do autor. Quando foi publicada a obra torna-se um sucesso em toda a Europa, pelos conhecimentos amplos sobre o Oriente, tendo dezanove edições em seis línguas nos anos seguintes.
No fundo, trata-se de um conjunto de memórias autobiográficas. Na obra, o autor narra a sua vida de aventuras e desventuras e as suas viagens pelo Oriente, ao longo de 21 anos, em relatos de enorme riqueza, com descrições muito pormenorizadas dos povos, das línguas e das terras por onde passou.  Estas descrições revelam uma enorme admiração e fascínio pela grandiosidade dessas civilizações. Chegando mesmo a pôr na boca de personagens orientais críticas à cobiça e ambição dos mercadores e militares ocidentais.  Por outro lado, no Ocidente da época ninguém acreditava que o Oriente fosse assim tão rico e tão diferente quanto a tradições culturais.  Por estes factos, o autor é acusado por muitos de exagero, tendo ficado célebre o dito popular «Fernão, Mentes? Minto!» Mas hoje é consensual o valor histórico e literário da sua obra, feita de elementos verídicos e de ficção. Suspeita-se que algumas partes dos seus escritos tenham sido destruídas pelos Jesuítas através da Inquisição.
Torna-se, porém, bastante difícil distinguir nesta obra o que é produto da  imaginação  daquilo que é pura  história.  Mendes Pinto consegue dar às narrações uma roupagem tão concreta e tão cheia de vida que tudo nos parece natural e verídico. Durante muito tempo, pensou-se que a maioria das peripécias narradas no livro não passariam de deslavada mentira.  No entanto, com o descobrir do mundo oriental, sobretudo nos nossos dias, chegou-se a opinião contrária. Hoje pode-se verificar a exactidão de muitas afirmações feitas pelo escritor acerca da China e do Japão, nas quais ninguém cria.  Todavia, muitos diálogos moralizantes, cartas de várias individualidades que transcreve, discursos de personagens, etc., são pura invencionice. Hiperboliza também bastante os números, quando nos diz, por exemplo, que, «em menos de um credo», se juntaram 50000 pessoas, numa praça, para assistirem ao fim de Diogo Soares  (Peregrinação,  cap. 192).
Costumam os críticos ver nas entrelinhas da  Peregrinação  uma sátira contundente ao modo como os Portugueses se relacionavam e comerciavam com os povos orientais, e à pouca ou nenhuma coerência que havia entre as suas acções e a sua condição de cristãos. É claro que esta crítica existe. Pretendeu-a directamente o autor? No capítulo primeiro, depois de enumerar os trabalhos por que passou, só nos diz que fez «esta rude e tosca escritura, que por herança deixo a meus filhos (por­que só para eles é minha tenção escrevê-la), para que eles vejam nela estes meus trabalhos e perigos da vida que passei no discurso de vinte e um anos [...]; e daqui, por uma parte, tomem os homens motivo de se não desanimarem c'os trabalhos da vida, [...] e, por outra, me ajudem a dar graças ao Senhor Omnipotente, por usar comigo de sua infinita misericórdia.»
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Temos de concordar que os indivíduos com quem andou Fernão Mendes Pinto lá no Oriente não eram do que melhor se criava em Portugal. Geralmente, passou os dias ao lado de mercadores que pouca diferença faziam dos piratas profissionais, homens sem escrúpulos a quem só interessava ganhar dinheiro. Ora o que esses praticavam está um pouco longe de ser um reflexo perfeito da acção de todos os Portugueses. Daí o não devermos cair no exagero de generalizar o que diz Mendes Pinto acerca de si e de seus companheiros, julgando por eles os restantes civilizadores do Sol Nascente. Mesmo assim, Mendes Pinto ficava radiante, se, no meio das torturas a que os Orientais o submetiam com frequência, deparava com meia dúzia de compatriotas. Veja-se, por exemplo, o que lhe sucedeu entre os indígenas de Samatra e como o trataram depois os nossos em Malaca  (Peregrinação,  Caps. 23, 24 e 25). Foi como se saísse dum inferno e entrasse num céu. Isto quer dizer que, em Mendes Pinto, nem todos os Orientais são anjos nem todos os Portugueses procedem como selvagens.
Mas o que não podemos negar é a realidade feia e vergonhosa desses portugueses que ele nos mostra afundando barcos indefesos para os roubar, raptando noivas e violando mulheres, chacinando e queimando povoações inteiras, saqueando sarcófagos e templos, servindo com  despudor  corsários  muçulmanos,  se  calhava. O processo de que Mendes Pinto se serve para verberar os abusos cometidos pela nossa gente é engenhoso. Não faz ele as críticas em nome próprio: geralmente coloca-as, por artifício literário, na boca de nativos.
Uma destas figuras típicas é o  menino prodígio,  a cujo pai António de Faria roubou, na ilha dos Ladrões, tudo quanto tinha. Feito prisioneiro, o menino viu-se amimado pelo pirata português, que prometeu criá-lo como filho. Perante esta atitude incoerente, disse-lhe a criança: «Não cuides de mim, inda que me vejas menino, que sou tão parvo que possa cuidar de ti que, roubando-me meu pai, me hajas a mim de tratar como filho. E, se és esse que dizes, eu te peço muito, muito, muito que me deixes botar a nado a essa triste terra onde fica quem me gerou, porque esse é o meu verdadeiro pai, com o qual quero antes morrer ali naquele mato, onde o vejo estar-me chorando, como viver entre gente má como vós outros sois.» Como alguém o repreendesse pelo que dizia, continuou: «Sabeis porque vo-lo digo?  Porque vos vi a louvar a Deus, depois de fartos, com as mãos levantadas e com os beiços untados, como homens que lhes parece que basta arreganhar os dentes ao céu, sem satisfazer o que teem roubado. Pois entendei que o Senhor da Mão Poderosa não nos obriga tanto a bulir com os beiços, quanto nos defende tomar o alheio, quanto mais roubar e matar, que são dois pecados tão graves, quanto depois de mortos conhecereis, no rigoroso castigo da sua divina justiça.» Este menino não pode deixar de ser uma criação literária, até porque, nas expressões que usa, se assemelha a um profeta bíblico.
O século XVI caracteriza-se pela exaltação do homem. Se não fica mal o emprego de uma locução pleonástica e o de um paradoxo, digamos até que o século XVI começou por  humanizar o homem e  depois  divinizou-o.  Valorizadas então as faculdades humanas, o Rei da Criação erguia-se e dominava a Natureza; desafiava os próprios deuses; de nada tinha medo; transformava-se automaticamente em herói. O Classicismo só conheceu este homem. O aleijado, o medroso, o fora da lei, estes ignorou-os. Pois o homem da  Peregrinação  em nada se parece com o homem clássico: nem em virtudes morais nem em força física. Algumas dessas personagens nativas são mero produto de ficção. Quem sabe até se as criou para não arranjar problemas com quaisquer pessoas? As palavras ásperas que por intermédio delas profere, como suas, dificilmente passariam impunes; mas, como dos aborígenes, ficavam sob a responsabilidade dos mesmos.
As traições e os crimes de toda a espécie sucedem-se e são narrados com um cinismo de espantar. Por outro lado, de heroicidades, muito pouco ou nada. Que longe estão dos homens de Barros e de Camões, por exemplo, os dois náufragos portugueses que, em Lugor, no Sião, «em joelhos e com as mãos levantadas», pediram «com muitas lágrimas» a uns barqueiros que os «não deixassem morrer ali!»  (Peregrinação,  Cap. 37). O próprio autor, longe de bazofiar, arrasta-se pela obra adiante como um «pobre de mim» e considera-se quase sempre um desses «pobres estrangeiros», designação compassiva com que os naturais de coração bondoso tantas vezes se referiram aos portugueses da  Peregrinação,  vergastados pela má sorte. Cheia de humanismo pela simpatia com que olha todas as raças, a  Peregrinação  põe-nos diante dos olhos o anti-herói, o homem que tem mais medo do que coragem, o homem que, em vez de dominar a Natureza, é por ela desfeiteado a cada passo, o homem que, vencidos, sem saber como, milhentos perigos, pouco mais tem a fazer do que dar graças ao Deus que o salvou.
1. Descreve bem os exteriores geográficos da índia, China e Japão: terras, cidades, templos, palácios, choupanas, estuários e cursos de rios, enseadas, litorais lamacentos, florestas, campinas. 2. Desenha com perfeição curiosos quadros de etnografia: leis, costumes tradicionais, moral, assistência, administração de justiça, impostos em vigor, guerras, festas, bodas, funerais, o comércio e outras actividades de trabalho. 3. Não se olvida de, ou em curtas digressões ou em narrações de casos concretos, nos pintar o carácter dessas longínquas populações do Oriente: sua docilidade e crueldade, sua hospitalidade ou venalidade e interesse, sua religiosidade, etc. Graças a este exotismo com que nos surpreende do princípio ao fim, a  Peregrinação  ainda hoje se lê com deleitação e curiosidade.
Fernão Mendes Pinto não é o que positivamente se pode chamar um homem culto. Curioso, isso sim. Ouviu ler histórias chinesas, viu com olhos de lince, reteve bem na memória e lançou-se à escrita com a única preocupação de comunicar o seu pensamento. A sua linguagem, por isso, é despreocupada como a de quem fala, de cunho oral. O estilo afasta-se dos moldes clássicos na arquitectura da narração, que é desproporcionada nos quadros e deixa algumas histórias sem remate. Fere-nos os olhos da imaginação com berrante cor local, graças à acumulação de pormenores realistas, às vezes até fastidiosos. Uma vez por outra, vemo-lo usar singela linguagem figurada.
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Introdução I 1. Estrutura externa da obra 2. Resumo da obra II 1. Título 2. Classificação 3. Mensagem da obra 4. Conteúdo exótico 5. A crítica à acção dos Portugueses 6. Concepção anticlássica do homem 7. Linguagem e estilo

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Literatura de viagens de Fernão Mendes Pinto

  • 1. Literatura de Viagens Fernão Mendes Pinto
  • 2. Um dos primeiros livros de viagens conhecido em Portugal foi o Livro de Marco Polo, traduzido em 1502 por Valentim Fernandes. Não tardou muito que, no século XVI, começassem a aparecer obras originais portuguesas, descrevendo os novos mundos que então demos ao Mundo. Embora os autores escrevessem despreocupados com louçanias de estilo, os livros ganhavam relativo interesse por saírem autenticados com o cunho da veracidade e da novidade. A geografia, os costumes de raças humanas ignoradas, mil peripécias acontecidas em climas tão diferentes do europeu, tudo isto era um conteúdo novo a atrair a atenção da curiosíssima gente desta culta e velha Europa.
  • 3. A literatura portuguesa de viagens radica na actividade dos descobrimentos marítimos e na necessidade pragmática de registar rotas, condições atmosféricas, acidentes da costa e todos os elementos que pudessem facilitar a repetição e prosseguimento dos percursos entretanto efectuados. Assim, os roteiros e os diários de bordo, documentos técnicos para orientação náutica, são os antecedentes desta literatura , que, no entanto, começa já nesses textos a emergir em comentários que alargam a pura notação descritiva, em apontamentos de pitoresco, em descrições surpreendidas ou em segmentos narrativos que dão conta de certo empenho na relação entre o sujeito perceptivo e o mundo que lhe vai sendo revelado. Estão neste caso, no séc. XVI, o Esmeraldo de Situ Orbis , de Duarte Pacheco Pereira, e o Roteiro do Mar Roxo , de D. João de Castro; mas a primeira obra de interesse decisivo, e importante, é, neste capítulo, o Roteiro da Primeira Viagem de Vasco da Gama , atribuído a Álvaro Velho, que permanece como um dos textos fundamentais de toda a literatura de viagens, seguido da Carta a D. Manuel sobre o Descobrimento do Brasil , de Pero Vaz de Caminha.
  • 4. Na sequência destas obras, aparecem autênticas relações de itinerários e percursos, por mar ou por terra, mas matricialmente desencadeados pelas viagens ultramarinas, que aliam por vezes o interesse documental a procedimentos narrativos que adquirem, sobretudo para o leitor de hoje, efeitos de ordem literária. Por outro lado, os escritores «canónicos» (escrevendo com uma intenção determinadamente literária) centraram muitas das suas obras na problemática da viagem dos descobrimentos, como é o caso de Gil Vicente nomeadamente no Auto da Índia e, sobretudo, de Luís de Camões que dela faz a trama fundamental em Os Lusíadas . Também os cronistas não podem deixar de reelaborar essa matéria, por vezes em páginas que são das mais importantes, mesmo sob o ponto de vista estético, deste capítulo: Gomes Eanes de Zurara na Crónica da Guiné , João de Barros na Ásia .
  • 5. Caso particular desta literatura é a proliferação que, durante a segunda metade do séc. XVI, e até mais tarde, conhece um género específico das nossas letras, o do relato de naufrágios (constituído por uma narrativa específica e exclusiva de naus que naufragam, com descrição pormenorizada das reacções humanas a que o naufrágio dá lugar, e do esforço trágico, por vezes baldado, pela sobrevivência). O mais antigo que se conhece, de 1554, é o do Galeão Grande São João, conhecido por Naufrágio de Sepúlveda , de autor anónimo; outros, porém, merecem beneficiar igualmente da atenção da análise literária, pela raríssima capacidade de escrita do patético, pela descrição paralela do movimento físico e psicológico, pela aliança de uma crença inabalável na missão militar e religiosa do espírito de conquista com um pendor pessimista e desenganado que neles figuram a contra-epopeia lusíada. Em toda esta literatura, porém, avulta uma obra excepcional, a Peregrinação de Fernão Mendes Pinto , publicada em 1614, mas escrita antes de 1580.
  • 6.
  • 7.  
  • 9. O Autor da Peregrinação e a sua obra confundem-se à primeira vista: Fernão Mendes Pinto é para nós o herói da Peregrinação . Mas não deve esquecer se que o Fernão Mendes da Peregrinação é uma criação literária do Autor do livro. Se não houvesse documentos a autenticar a existência de Fernão Mendes Pinto nada nos garantiria que este não fosse uma pura personagem de romance.
  • 10. Fernão Mendes Pinto foi, durante a primeira parte da vida, um andarilho incansável. Os principais dados desses dias de aventura deixou-os exarados numa obra que o tornou célebre — Peregrinação.
  • 11. Nasceu em Montemor-o-Velho entre 1509 e 1511 , de família pobre, e foi muito novo para Lisboa (em 1521) servir uma fidalga. Ano e meio depois de estar ao serviço desta dama, aconteceu qualquer coisa que o obrigou a fugir apressadamente de casa para salvar a vida. Crê-se que este perigo teria a ver com ser confidente das traições amorosas da senhora. Correu sem parar até ao Cais da Pedra e meteu-se numa nau, que ia com um carregamento de cavalos para Setúbal. Por alturas de Sesimbra, a nau foi assaltada por piratas franceses, tendo os seus ocupantes sido desembarcados, bem chicoteados e nus, na praia alentejana de Melides. Mendes Pinto conseguiu, pouco depois, chegar a Setúbal, onde entrou ao serviço do fidalgo Francisco de Faria.
  • 12. Em 1537, embarcou para a índia à cata de fortuna e onde vive diversas aventuras. Correu Diu, Meca, Etiópia, Ormuz, Goa, Malaca, Nanquim, Cochinchina, Japão, Sião, Samatra, etc. Na Índia encontra-se com S. Francisco Xavier, Jesuíta com o que colaboraria no Japão. Ingressa na ordem Jesuíta e entrega todos os seus bens à ordem e aos pobres, mas finalmente abandona a ordem. Que fez durante estas longas peregrinações? Que ofícios desempenhou? De tudo um pouco: criado de servir e soldado, comerciante e embaixador, escravo e corsário e até jesuíta. Algo do muito que sofreu ouçamo-lo da sua própria boca: foi «treze vezes cativo, e dezassete vendido nas partes da índia, Etiópia, Ará­bia Feliz, China, Tartáría, Massacar, Samatra...» (Peregrinação, Cap. 1). Passados vinte anos no Oriente, resolveu regressar a Portugal, onde chegou em 1558. Casou e foi viver para o Pragal, perto de Almada. Requereu uma tença como prémio dos seus serviços no Oriente. Esta foi-lhe concedida em carta de Janeiro de 1583. A morte, que tantas vezes vira diante dos olhos, aí o foi buscar em 1583.
  • 13. Documentário Fernão Mendes Pinto: Uma vida em Peregrinação http://www.youtube.com/watch?v=QN8aWYbcSrU http://www.youtube.com/watch?v=xV4tSxaVRmI
  • 14. PEREGRINAÇÃO - A OBRA DE FERNÃO MENDES PINTO
  • 15. http://www.youtube.com/watch?v=nzRbHxuuhbM&NR=1 http://www.youtube.com/watch?v=5XhbeFju1PM&NR=1 http://www.youtube.com/watch?v=jbrSZ8YCwuE&NR=1 http://www.youtube.com/watch?v=e2yo29imp0c&NR=1 http://www.youtube.com/watch?v=RAHTY2p-Ung Grandes Livros Peregrinação de Fernão Mendes Pinto
  • 16. Doze anos depois do regresso ao Reino (em 1569), no seu retiro do Pragal, começou Fernão Mendes Pinto a redigir uma obra, onde se misturam elementos de autobiografia, de memórias e de ficção. Deu-lhe o sugestivo título de Peregrinação. Só foi publicada em 1614, trinta anos após a morte do autor. Quando foi publicada a obra torna-se um sucesso em toda a Europa, pelos conhecimentos amplos sobre o Oriente, tendo dezanove edições em seis línguas nos anos seguintes.
  • 17. No fundo, trata-se de um conjunto de memórias autobiográficas. Na obra, o autor narra a sua vida de aventuras e desventuras e as suas viagens pelo Oriente, ao longo de 21 anos, em relatos de enorme riqueza, com descrições muito pormenorizadas dos povos, das línguas e das terras por onde passou. Estas descrições revelam uma enorme admiração e fascínio pela grandiosidade dessas civilizações. Chegando mesmo a pôr na boca de personagens orientais críticas à cobiça e ambição dos mercadores e militares ocidentais. Por outro lado, no Ocidente da época ninguém acreditava que o Oriente fosse assim tão rico e tão diferente quanto a tradições culturais. Por estes factos, o autor é acusado por muitos de exagero, tendo ficado célebre o dito popular «Fernão, Mentes? Minto!» Mas hoje é consensual o valor histórico e literário da sua obra, feita de elementos verídicos e de ficção. Suspeita-se que algumas partes dos seus escritos tenham sido destruídas pelos Jesuítas através da Inquisição.
  • 18. Torna-se, porém, bastante difícil distinguir nesta obra o que é produto da imaginação daquilo que é pura história. Mendes Pinto consegue dar às narrações uma roupagem tão concreta e tão cheia de vida que tudo nos parece natural e verídico. Durante muito tempo, pensou-se que a maioria das peripécias narradas no livro não passariam de deslavada mentira. No entanto, com o descobrir do mundo oriental, sobretudo nos nossos dias, chegou-se a opinião contrária. Hoje pode-se verificar a exactidão de muitas afirmações feitas pelo escritor acerca da China e do Japão, nas quais ninguém cria. Todavia, muitos diálogos moralizantes, cartas de várias individualidades que transcreve, discursos de personagens, etc., são pura invencionice. Hiperboliza também bastante os números, quando nos diz, por exemplo, que, «em menos de um credo», se juntaram 50000 pessoas, numa praça, para assistirem ao fim de Diogo Soares (Peregrinação, cap. 192).
  • 19. Costumam os críticos ver nas entrelinhas da Peregrinação uma sátira contundente ao modo como os Portugueses se relacionavam e comerciavam com os povos orientais, e à pouca ou nenhuma coerência que havia entre as suas acções e a sua condição de cristãos. É claro que esta crítica existe. Pretendeu-a directamente o autor? No capítulo primeiro, depois de enumerar os trabalhos por que passou, só nos diz que fez «esta rude e tosca escritura, que por herança deixo a meus filhos (por­que só para eles é minha tenção escrevê-la), para que eles vejam nela estes meus trabalhos e perigos da vida que passei no discurso de vinte e um anos [...]; e daqui, por uma parte, tomem os homens motivo de se não desanimarem c'os trabalhos da vida, [...] e, por outra, me ajudem a dar graças ao Senhor Omnipotente, por usar comigo de sua infinita misericórdia.»
  • 20.
  • 21. Temos de concordar que os indivíduos com quem andou Fernão Mendes Pinto lá no Oriente não eram do que melhor se criava em Portugal. Geralmente, passou os dias ao lado de mercadores que pouca diferença faziam dos piratas profissionais, homens sem escrúpulos a quem só interessava ganhar dinheiro. Ora o que esses praticavam está um pouco longe de ser um reflexo perfeito da acção de todos os Portugueses. Daí o não devermos cair no exagero de generalizar o que diz Mendes Pinto acerca de si e de seus companheiros, julgando por eles os restantes civilizadores do Sol Nascente. Mesmo assim, Mendes Pinto ficava radiante, se, no meio das torturas a que os Orientais o submetiam com frequência, deparava com meia dúzia de compatriotas. Veja-se, por exemplo, o que lhe sucedeu entre os indígenas de Samatra e como o trataram depois os nossos em Malaca (Peregrinação, Caps. 23, 24 e 25). Foi como se saísse dum inferno e entrasse num céu. Isto quer dizer que, em Mendes Pinto, nem todos os Orientais são anjos nem todos os Portugueses procedem como selvagens.
  • 22. Mas o que não podemos negar é a realidade feia e vergonhosa desses portugueses que ele nos mostra afundando barcos indefesos para os roubar, raptando noivas e violando mulheres, chacinando e queimando povoações inteiras, saqueando sarcófagos e templos, servindo com despudor corsários muçulmanos, se calhava. O processo de que Mendes Pinto se serve para verberar os abusos cometidos pela nossa gente é engenhoso. Não faz ele as críticas em nome próprio: geralmente coloca-as, por artifício literário, na boca de nativos.
  • 23. Uma destas figuras típicas é o menino prodígio, a cujo pai António de Faria roubou, na ilha dos Ladrões, tudo quanto tinha. Feito prisioneiro, o menino viu-se amimado pelo pirata português, que prometeu criá-lo como filho. Perante esta atitude incoerente, disse-lhe a criança: «Não cuides de mim, inda que me vejas menino, que sou tão parvo que possa cuidar de ti que, roubando-me meu pai, me hajas a mim de tratar como filho. E, se és esse que dizes, eu te peço muito, muito, muito que me deixes botar a nado a essa triste terra onde fica quem me gerou, porque esse é o meu verdadeiro pai, com o qual quero antes morrer ali naquele mato, onde o vejo estar-me chorando, como viver entre gente má como vós outros sois.» Como alguém o repreendesse pelo que dizia, continuou: «Sabeis porque vo-lo digo? Porque vos vi a louvar a Deus, depois de fartos, com as mãos levantadas e com os beiços untados, como homens que lhes parece que basta arreganhar os dentes ao céu, sem satisfazer o que teem roubado. Pois entendei que o Senhor da Mão Poderosa não nos obriga tanto a bulir com os beiços, quanto nos defende tomar o alheio, quanto mais roubar e matar, que são dois pecados tão graves, quanto depois de mortos conhecereis, no rigoroso castigo da sua divina justiça.» Este menino não pode deixar de ser uma criação literária, até porque, nas expressões que usa, se assemelha a um profeta bíblico.
  • 24. O século XVI caracteriza-se pela exaltação do homem. Se não fica mal o emprego de uma locução pleonástica e o de um paradoxo, digamos até que o século XVI começou por humanizar o homem e depois divinizou-o. Valorizadas então as faculdades humanas, o Rei da Criação erguia-se e dominava a Natureza; desafiava os próprios deuses; de nada tinha medo; transformava-se automaticamente em herói. O Classicismo só conheceu este homem. O aleijado, o medroso, o fora da lei, estes ignorou-os. Pois o homem da Peregrinação em nada se parece com o homem clássico: nem em virtudes morais nem em força física. Algumas dessas personagens nativas são mero produto de ficção. Quem sabe até se as criou para não arranjar problemas com quaisquer pessoas? As palavras ásperas que por intermédio delas profere, como suas, dificilmente passariam impunes; mas, como dos aborígenes, ficavam sob a responsabilidade dos mesmos.
  • 25. As traições e os crimes de toda a espécie sucedem-se e são narrados com um cinismo de espantar. Por outro lado, de heroicidades, muito pouco ou nada. Que longe estão dos homens de Barros e de Camões, por exemplo, os dois náufragos portugueses que, em Lugor, no Sião, «em joelhos e com as mãos levantadas», pediram «com muitas lágrimas» a uns barqueiros que os «não deixassem morrer ali!» (Peregrinação, Cap. 37). O próprio autor, longe de bazofiar, arrasta-se pela obra adiante como um «pobre de mim» e considera-se quase sempre um desses «pobres estrangeiros», designação compassiva com que os naturais de coração bondoso tantas vezes se referiram aos portugueses da Peregrinação, vergastados pela má sorte. Cheia de humanismo pela simpatia com que olha todas as raças, a Peregrinação põe-nos diante dos olhos o anti-herói, o homem que tem mais medo do que coragem, o homem que, em vez de dominar a Natureza, é por ela desfeiteado a cada passo, o homem que, vencidos, sem saber como, milhentos perigos, pouco mais tem a fazer do que dar graças ao Deus que o salvou.
  • 26. 1. Descreve bem os exteriores geográficos da índia, China e Japão: terras, cidades, templos, palácios, choupanas, estuários e cursos de rios, enseadas, litorais lamacentos, florestas, campinas. 2. Desenha com perfeição curiosos quadros de etnografia: leis, costumes tradicionais, moral, assistência, administração de justiça, impostos em vigor, guerras, festas, bodas, funerais, o comércio e outras actividades de trabalho. 3. Não se olvida de, ou em curtas digressões ou em narrações de casos concretos, nos pintar o carácter dessas longínquas populações do Oriente: sua docilidade e crueldade, sua hospitalidade ou venalidade e interesse, sua religiosidade, etc. Graças a este exotismo com que nos surpreende do princípio ao fim, a Peregrinação ainda hoje se lê com deleitação e curiosidade.
  • 27. Fernão Mendes Pinto não é o que positivamente se pode chamar um homem culto. Curioso, isso sim. Ouviu ler histórias chinesas, viu com olhos de lince, reteve bem na memória e lançou-se à escrita com a única preocupação de comunicar o seu pensamento. A sua linguagem, por isso, é despreocupada como a de quem fala, de cunho oral. O estilo afasta-se dos moldes clássicos na arquitectura da narração, que é desproporcionada nos quadros e deixa algumas histórias sem remate. Fere-nos os olhos da imaginação com berrante cor local, graças à acumulação de pormenores realistas, às vezes até fastidiosos. Uma vez por outra, vemo-lo usar singela linguagem figurada.
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  • 33. Introdução I 1. Estrutura externa da obra 2. Resumo da obra II 1. Título 2. Classificação 3. Mensagem da obra 4. Conteúdo exótico 5. A crítica à acção dos Portugueses 6. Concepção anticlássica do homem 7. Linguagem e estilo