O Boêmio
H. Czar Monzon
Poema ao leitor
Meu camarada leitor se tiveres compaixão em tua ciência
Perdoa as estreitas e inexperientes palavras deste...
Visto que expressão nunca foi uma das minhas mais fortes
ciências.
Mas estando ao lado de sua companhia curiosa por meus
s...
***
Do tema:
O Boêmio
Meu peito salta e grita. Um boêmio á cantar!
O poeta proclama e recita os amores de um boêmio!
Amor boêm...
***
Como o fim começou
No principio era a angustia.
Perturbei-me, estremeci de alto á baixo - de luzes em luzes, de
cor em cor...
As cortinas das experiências se abriram e os holofotes das
paixões estacionaram em mim - fui exposto!
O ator estava em pos...
Paz branca, plena paz
Ó paz, porque me deixastes querida?
Porque me abandonastes amada mãe... Não vê que sangro
tristezas,...
Modinha Nacional
Vivo das ideias torturadas no holocausto dos pensamentos,
Que apenas por saber querem que eu coma lixo po...
Atores de Quinta
Me poupem dos vossos pêsames para com minha vida se até
meu respirar é mais rápido que os vossos raciocín...
vivo, não tendo a boca amarrada no nó do saber, de uma
sabedoria de más línguas do dizer e nunca ser que me
embriaga e me ...
Mira dos dedos
É tão fácil me ofender, é tão fácil me pisar, sou uma presa
desprovida de qualquer defesa. Não tenho honras...
O Diário de Satã
Atingi um nível ilustre de vagabundagem.
Sepultado pelo dia, vivendo pelas noites, conversando com o
vent...
bolsa vazia senão por minha bíblia de boêmio, meu diário de
satã da qual neste agora estou escrevendo.
Minhas noites revel...
Mal Educado
Ó maldita lei, ó maldita censura, continuarei sendo mal
educado enquanto vossa educação for da vergonha uma
de...
bate e me lixa, mete o dedo na minha ferida, mas se eu pego e
provo tua bebida, ah eu fico porre, fico porre de tua mentir...
Eu sou foda
Ah, se eu visto essa tua moda,
Uso a tua saia, xingo tua mãe por rixa,
Te chamo de viado e tu me chama de bixa...
Número
Eu não quero ser apenas um número, mais uma quantidade
qualquer em meio a outras contagens, um resultado de
alguma ...
Neste grande jogo de raciocínio e pensamento lógico quero
subtrair o orgulho dos bilhões, a corrupção dos milhões e as
men...
Infeliz felicidade
A tristeza é meu berço, o sofrimento é a minha mãe, eu nasci
dela. É perda de tempo não sofrer, amo sof...
Poesia dos finados
Tal ato de deixar esta vida não deveria chamar-se morrer,
coitada da morte taxada de fazer com que as p...
Assim deixo a quem quer que se atreva saber quesó serei feliz
quando poeta deixar de ser e de tal coisa afirmo que morrere...
Sem título
Numa tarde de inverno enquanto sentava-me inspirado pelas
cores do céu poente, uma pequena frase surgiu atrevid...
Meu querido leitor tenha compaixão da minha falta de
faculdades, pois tentei termina-la e eu juro que a ti digo a mais
pur...
Uma noite com a inspiração
Ó meu caro leitor, já que tivestes a paciência de acompanhar-
me até este ponto, lhe contarei c...
linhas de teus sentimentos e a ortografia de tua personalidade
que tua peça á de ser escrita por ti! –
Ó minha amada inspi...
Uma malícia refinada!
Conheci naqueles dias um jovem rapaz, do qualseu nome,
mérito não encontro para neste livro escrever...
modos teatralmente amigáveis até que suas tais ingênuas
facetas de sinceridade indiretamente ofensivas ganhavam total
libe...
Poderia eu estar enganado, poderia ser que meus olhos
estivessem a enganar-me, mas não esnobo a minha cordial
desmalicia m...
Os desmandamentos do poeta
Saldo aos meus atenciosos senhores jurados pedindo lhes que
atentem ao que eu agora ressalvo, p...
Louca Loucura do Amor
Só os loucos são sábios
Só os loucos são livres
Os invejo em grande pecado,
De inveja vos louvam os ...
Tal dom chamado amor
Conheces tu aquele tal dom chamado amor? Bicho horrendo,
sujo e mal lavado, que te surpreende em tua ...
O Evangelho Segundo o Diabo
O Diabo me mordeu! - Ah, se eu hoje soubesse para onde fugia
aquele meu tão bajulado autocontr...
marcado pelo pacto negro das dúvidas. Limpai-me! Pois estou
sujo de toda paixão perturbada, cego e perdido nos becos
escur...
Quando fores meu
Quando fores meu...
Não mais precisarás suplicar,
Pois tuas lágrimas enxugarei com meus dedos.
Como um ca...
Erudita
Ó vida antiga de velhas lembranças!
Repertório de notas desafinadas e horrenda melodia de
rotinas. Alegro-me e reg...
Êxodo
Vou-me calado... Levando as magoas na mala, balas de futuras
feridas e munições de futuras guerras. Anestesiei minha...
O santo pecador
Eu quero me converter á minha religião!
A doutrina da vida, a filosofia da liberdade!
Porque eu amaldiçoei...
Minha vida poesia
As letras formaram o mundo e o grande Criador é uma rima,
Pois Deus é um livro e a vida é uma poesia da....
anteriormente tomado, em menos de um único segundo de
linha, porque...
as letras formaram o mundo e o grande Criador é uma...
A Bússola
Subo ás estrelas, contemplando o céu da liberdade e guardo a
noite no bolso largo de minha alma tão grande quant...
Poesias perdidas
Queria escrever aqui todas as minhas ideias, queria expressar
todos os meus pensamentos e tudo que passa ...
***
Tu abristes o livro de uma pequena parte de
minha vida. Minha vida boemia, boêmia vida.
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O boêmio (de h. czar monzon)

  1. 1. O Boêmio H. Czar Monzon
  2. 2. Poema ao leitor Meu camarada leitor se tiveres compaixão em tua ciência Perdoa as estreitas e inexperientes palavras deste jovem poeta Mas se tiveres ao menos um pouco de paciência Poderá ignorar as expressões por demais simples que este livreto sela. Perdoa-me da mesma forma que te perdoo, Pois eis que perdi meu tempo neste poema que lhe escrevo A fim de preencher seu tempo para inspirar-lhe imaginação em voo Ou dar-lhe um claro motivo para fechar este livro e não voltar á lê-lo. Abristes o livro de minha vida, ou de uma pequena parte dela, Não lhe conto agora, pois não sei o que nas seguintes páginas irei escrever, Mas talvez nos próximos meses e anos eu me mantenha inspirado nelas, Ou talvez nem chegue á terminar este livreto para que tu possas ler. Mas caso termine, prometo que ao final, á este detalhe lhe faço saber, Assim poderá acompanhar-me nestas loucas vívidas experiências Das amarguras de minha vida e de minha astuta ideia de escrever,
  3. 3. Visto que expressão nunca foi uma das minhas mais fortes ciências. Mas estando ao lado de sua companhia curiosa por meus segredos Tentarei lhe passar os versos das profundezas de onde venho, Mas é muito mais proveitoso que vá viver e feche este livreto, Antes a vida que essas velhas histórias de um jovem boêmio. A meus vagabundos, mas sinceros segredos tu podes revelar Neste livro que em suas mãos agora estais a segurar Então, se insistires nessas páginas realmente me acompanhar, Não verei problema em deixar as páginas de meu coração tu folhear.
  4. 4. ***
  5. 5. Do tema: O Boêmio Meu peito salta e grita. Um boêmio á cantar! O poeta proclama e recita os amores de um boêmio! Amor boêmio é amor verdadeiro, Que ama por viver e não vive para amar É amor por ser amor! Amor sem precisar ser amado! É amor em prosa e paixão em cifra, Tocando boêmiamente a canção da vida. Ó maestro boêmio, O amor és teu principal instrumento! E da orquestra dos livres amantes, És o violino do mais lindo diamante. Da mais suave opera ao mais belo soneto Tua boêmia vontade é o mais puro desejo. O amante da vida é o eterno poeta! A paixão é seu tesouro, a mais rara moeda. Se embriaga da vida e traga o amor, Tal amor boêmio é um divino louvor!
  6. 6. ***
  7. 7. Como o fim começou No principio era a angustia. Perturbei-me, estremeci de alto á baixo - de luzes em luzes, de cor em cor - esqueci-me da leve brisa dos jardins, o paraíso de meu ninho etéreo. Inclinei-me ao horizonte, aqueci minhas penas e, como pássaro capturado, despedi meu voo. Desci! Fechei minhas asas e caí... - A queda! De impacto veio a liberdade entre as grades frágeis de minha nova gaiola, brado meu ultimo discurso: grito a independência! - E morri. - Ao abrir os olhos contemplei o novo céu, as magias negras do globo me envolviam, rabisquei o borrado, e ainda dormente observei, mimei e engatinhei. Mas eu quis falar, quis andar! Quis criar e quis descobrir! - Comi o fruto proibido e a vida me flertou! - Possuído de paixão parti seduzido. Protegi-me de fortes muralhas, armei-me para a guerra. Vesti-me de meu personagem, tomei fôlego e subi escada á alto: o ensaio acabara - Quebrei a perna!
  8. 8. As cortinas das experiências se abriram e os holofotes das paixões estacionaram em mim - fui exposto! O ator estava em posição! É o circo dos problemas! O palco da vida! Malditos charlatões, maldita magia! E na montanha russa dos acontecimentos chutei, xinguei a velha puta sedutora, que levou-me e traiu-me: arrancaste a virgindade deste jovem!... Rasguei a censura e usei-a como pano de chão – Quis andar nu! Então enterrei meu tesouro em um tumulo esquecido, E assim começou mais um fim!
  9. 9. Paz branca, plena paz Ó paz, porque me deixastes querida? Porque me abandonastes amada mãe... Não vê que sangro tristezas, choro álcool de solidões? Ejeta em mim tua droga, ó branca paz, vicia-me, pois dou tudo que tenho para ter-te outra vez. Amada paz, pomba branca, neva meu inferno!Inicia meu fim! Que minha vida esteja viva e que comece o encerrar. Mata-me, salva me, livra-me deste inferno! Beija meus lábios outra vez doce dama... Embriaga-me de tua essência. Viver em dor prefiro morrer, morrer em dor prefiro viver, viver o fim, finalizar o começo! Me vicie e me coma, mas volte para mim ó paz... - Perdoo-te filho prodígio, retorna para teu lar! Pomba voa em minha mente, liberta-me da liberdade, assassine a morte, pois estou vivo, mas quero viver. Estou morto e quero morrer, morrer em ti asa branca, decompor em tua paz... O inferno me queima - molha-me! - alivia o fogo da angustia, mata minha rebeldia, ó Órion, dai-me paz... Paz branca, plena paz.
  10. 10. Modinha Nacional Vivo das ideias torturadas no holocausto dos pensamentos, Que apenas por saber querem que eu coma lixo por passatempo, E tendo minha inteligência doutrinada e sabedoria molestada Minha dama intelecto recebe cuspes e tapas na cara. Porque nessa passarela da elegância a vergonha é a principal peça de moda, Estampada na vitrine do mundo em modelos que ninguém acha foda Em manequins de carne e sangue tão mal maquiados quanto pinturas de arte moderna E mais repetitivas que frases clichês de bebedeira e baderna. Formalidade pra mim não passa de um palavrão, Daqueles maus dizeres antigos e sem graça que ninguém põe a mão Você ouve todo mundo falar, mas sabe que ninguém entende, Pior que palavras mal proferidas por gente inculta delinquentemente. O que entre os idiotas se torna um excitante divertimento Entre os burgueses é transformado em um xingamento É tão irritante quanto nossa música nacional popular, Essa modinha burra de cinco estrelas, classe A.
  11. 11. Atores de Quinta Me poupem dos vossos pêsames para com minha vida se até meu respirar é mais rápido que os vossos raciocínios, destes pesares não necessito já me bastando esse maldito velório de seus pensamentos e desse vasto silêncio de suas cabeças mais movimentadas que um túmulo empoeirado. Suas lápides estão escritas nas testas bem onde jazem e apodrecem vossas consciências nos caixões de seus crânios e no lento suicídio dos vossos cérebros mais mal aventurados que um defunto estrupado. Livrem-me de vossas falsas injúrias mais azedas que romances virtuais mal simulados, de vossas belas ternuras tão mentirosas quanto devaneios pornográficos e de vossas forçadas gentilezas mais hipócritas que os celibatos religiosos cuja perversão sexual é maior que a fortuna de uma prostituta. Não necessito de suas alegrias mais melancólicas que de um palhaço, como bobo da corte prefiro ser servo de escravos que de um rei cujo traje é uma coroa falsa de porcelana e papel, iludindo sua própria peça sem graça num teatro de horrores e travessuras, onde atores de quinta ficam medindo seus falsos atos, que antes improvisados para melhor fingir mesmo assim acabam mal interpretados. Prefiro ficar aqui, caído num beco escuro tão oco quanto suas cabeças, tão vazio quanto vossos sorrisos, como um cachorro de rua fedido, de olhar manso e de rabo caído, observando o vosso incansável ir e vir, nessa vossa entediante corrida sem linha de chegada. E nos braços de minha mãe vida, prefiro e
  12. 12. vivo, não tendo a boca amarrada no nó do saber, de uma sabedoria de más línguas do dizer e nunca ser que me embriaga e me engasga da vergonha que é tua, me xinga e me difama, filho da puta, mas filho da luta.
  13. 13. Mira dos dedos É tão fácil me ofender, é tão fácil me pisar, sou uma presa desprovida de qualquer defesa. Não tenho honras, não tenho dignidade, todos os defeitos são perfeitamente a mim cabíveis, faço jus à lei do lixo na lixeira, porque tenho o dever de assimilar a concepção de que sou culpado de tudo de ruim que acontece em minha volta. Tenho culpa até de sentir culpa, e não basta ser apenas culpado, é muito pouco para a complexidade das diversas desgraças do mundo da qual responsabilidade a mim taxam, tenho que ser acusado de todos os males a mim mesmo causados, condenado por minhas próprias angústias e executado todos os dias apenas por sofrer minha própria dor. Então qualquer um pode apontar o dedo para mim, seguir o exemplo de todos e jogar merdas em mim, ter a chance de descontar todas as amarguras em meu coração sem medo de se sentir injusto, sem se preocupar com a sua culpa, porque ainda assim eu serei o culpado dela. Não tenham mais medo de errar, pois só eu sou capaz de cometer erros, não hesitem mais em transgredir a lei, pois apenas eu posso ser um criminoso e sou eu o responsável por todos os teus problemas, porque eu sou a mira de teu dedo, tenho culpa até de ser culpado e tenho culpa até da culpa existir.
  14. 14. O Diário de Satã Atingi um nível ilustre de vagabundagem. Sepultado pelo dia, vivendo pelas noites, conversando com o vento, pelos cantos escuros escrevendo; Observando as corujas até o cantar do galo, até a despedida das estrelas em um claro intervalo. - Ah, quantos cigarros minhas estrelas já tragaram, quantas bebidas minhas luas já embriagaram! - Busquei a inspiração sob os céus das escuridões, desejei-a indiscretamente pelas trevas da noite e encontrei-a nas esquinas das paixões! Com ela vivo á vagabundar pelas ruas desertas das madrugadas assistindo o pornográfico anoitecer, flertando a puta lua simplesmente para ver a cidade se despir e seu vestido de formalidades descer, revelando suas fantasias eróticas e seus desejos desde sexo á drogas antes do fim, o triste amanhecer. Mas as noites são de festa, anoitece carnaval! Aos holofotes da deusa Nut as estrelas vestem suas fantasias coloridas, traficantes e suas mascaras brilhantes, mendigos nesta louca avenida. Vagamos pelas ruas sem nenhum objetivo senão explorar meu coração e escavar meus sentimentos, sempre á carregar minha
  15. 15. bolsa vazia senão por minha bíblia de boêmio, meu diário de satã da qual neste agora estou escrevendo. Minhas noites revelam surpresas, presentes da madrugada em devaneios: Quantos companheiros e quantos parceiros! Não tenho amigos senão os das madrugadas. Amantes, rapazes das ruas, companhias camaradas; em parcerias descaradas, amizades cruas e desinteressadas que começam na bebida e terminam no gozo das ressacas... Frequentamos cantos nefastos, de mal á mal olhado e as vontades nunca morrem ao amanhecer, antes sob as estrelas são saciados... Deito-me sem segredos com moços sagazes, porque só a inspiração me serve como parceira - a única mulher que me atrai! – e admito que até mais que meus bons rapazes... Mas, meus amantes queridos peço que não me fitem com esses olhares tão ressentidos: á vós, consoladores de minha solidão, guardo um carinho especial pelos carinhos vividos! Mas deixai este satã boemar!
  16. 16. Mal Educado Ó maldita lei, ó maldita censura, continuarei sendo mal educado enquanto vossa educação for da vergonha uma desculpa, pois a mesquinharia patriota me cospe e me chuta nessa burguesia de maus faceiros piores que bandidos sem culpa. Continuem abusando da vossa autoridade que eu abusarei de minha liberdade, pois se discretamente o conservadorismo não liberta tua mente, indiscretamente tem que ser mostrada a verdade. Por isso ando com travestis e apanho da policia, pra deixar na minha pele as marcas da tua covardia, se por isso sou xingado e de viado sou chamado, imagina se me pegam tragando as ervas da vida! Minha pouca vergonha sempre será pra vocês uma rixa, porque nesse país quem não mete o nariz na vida alheia é chamado de bixa e quem cuida do próprio rabo é chamado de ladrão, mesmo com as lutas e o suor da insatisfação. Mas meus queridos agressores á vós não guardo rancor mesmo sabendo que vosso serviço é causar dor e ainda assim vos poderia perdoar em um segundo; vocês fazem seu papel de policia que eu faço o meu de vagabundo. Então estapeiem minha cara, me deem golpes de vara, porque a sua lei desgraçada quer maquiar minha face descarada. Me
  17. 17. bate e me lixa, mete o dedo na minha ferida, mas se eu pego e provo tua bebida, ah eu fico porre, fico porre de tua mentira.
  18. 18. Eu sou foda Ah, se eu visto essa tua moda, Uso a tua saia, xingo tua mãe por rixa, Te chamo de viado e tu me chama de bixa, Mas você não acha foda. Ah se eu puxo teu rabo conformista, Essa ração sem gosto já te engasga e te vomita, Te ponho no coro do sangue com veneno de rato na comida, E você não acha foda. Ah, se eu te jogo no espelho, Te racho no meio de pulso tingido vermelho, Afio tua língua e de baixo pra cima furo tuas tripas em linha, Mas você diz que não é foda. Ah, se eu dirijo teu pai, Nas esquinas das Marias vestindo segredos, Te pego no colo e te mamo no peito, Mas você não é foda. Mas ah, se eu queimo tua Afrodite no sol, Te como no escuro e te toro no cerol, Sob o cabo de cavalo, chicote e formol. Porque eu sou foda.
  19. 19. Número Eu não quero ser apenas um número, mais uma quantidade qualquer em meio a outras contagens, um resultado de alguma soma para indicar minha numeração, uma pequena ordem de valores combinados como identidade, salvos entre tantos outros na memória de algum computador. Eu não quero ser apenas um carimbo, um registro esquecido abraçado pelas poeiras em folhas amontoadas em qualquer lugar, um mero nascimento com sinal de valores para ser corrigido e adaptado em qualquer canto. Eu não quero ser apenas mais um número dentro de uma enorme sociedade de equações, onde cidadãos e valores substituíveis são somados, divididos, triplicados e os vitoriosos são um jogo de nobrezas completamente diferente dos números anteriores, uma ordem numérica politicamente melhor apenas por se considerar de maior valor através de um resultado correto calculado através dos menores. Eu quero mostrar a esses meros números que os cálculos da igualdade na verdade devem ser matematicamente justos, que os valores mais altos das hierarquias são formados por ícones que nos são semelhantes e que eles dependem diretamente dos pequenos para tornar-se um resultado final maior e melhor.
  20. 20. Neste grande jogo de raciocínio e pensamento lógico quero subtrair o orgulho dos bilhões, a corrupção dos milhões e as mentiras das centenas para multiplicar o verdadeiro valor dos menores e humildes e dar-lhes o resultado de sustento que lhes é digno. Quero provar que o valor correto para todos os cálculos nunca foi uma única liderança de ordem numérica agregada ao final de todas as contas e que a formula perfeita da lei de justiça é capaz de ultrapassar a quantidade numérica de qualquer alto valor ou resultado de injustiça, se a mesma formula contiver todos os números em perfeito comunismo.
  21. 21. Infeliz felicidade A tristeza é meu berço, o sofrimento é a minha mãe, eu nasci dela. É perda de tempo não sofrer, amo sofrer assim como amo a própria vida que apelidam de bela; o amor ama o desamor, quem ama e não sofre é porque não sabe amar, pois a mesma é a principal fonte da tristeza e nessa, faz o amor genuíno, o próprio lar. Por isso não me ouso ser feliz, é chato demais. A felicidade é matéria de gente burra, só a dor ensina os demais, a alegria é aluna e não professora. A alegria é promiscua e sedutora, por isso todo mundo diz que é feliz, e tudo que se permite ser coletivo demais pra mim come numa mesa de privilegiado relevo servida pelo prato principal de meu total desprezo, porque gosto do que ninguém sente e gosto do que ninguém faz, falar o que ninguém pensa e trazer a tona o que ninguém traz. Assim não me considero homem triste, sou muito feliz e realizado por amar e sofrer da maneira que me consiste e acredito que devo apreciar, sem hesitar exageros, minhas qualidades depressivas, pois questão faço de ser meu admirador número um nessa vida. Caso meu querido leitor esteja agora considerando minhas escritas um tanto azedas e banais, então que faça a questão de outro livro abrir e que a este não volte a ler mais. Daqui em diante, se não concorda e nem assimila minha opinião para si, te confesso que a partir desta página este livreto não é para ti.
  22. 22. Poesia dos finados Tal ato de deixar esta vida não deveria chamar-se morrer, coitada da morte taxada de fazer com que as pessoas parem de viver. Vejo o quanto irônico é o medo da morte, principalmente daqueles que prezam a felicidade sendo que a mesma é o sentimento mais próximo do fim, na verdade. A aclamada e bendita felicidade simplesmente vem e te abandona, poucos conseguem ver que a inspiradora de vários poetas é uma má dona, por isso faço questão de por essa puta não escrever, não preciso de alegrias da qual vamos futuramente perder. Mais dama que esta só a senhora morte e, mesmo cientes de que um dia vamos morrer, ainda a chamam de falta de sorte. Felicidade é um claro sinal de futuras desgraças, morte é uma nova vida que te foi gloriosamente dada. A felicidade é o principal par da vida, pois ambas tem igualmente um fim e o sofrimento é quem nunca te deixará sozinho aqui, por isso tal sentimento tão incompreendido é associado à morte, pois não entendem que receber uma nova vida é mais que sorte. A morte é mãe biológica dos que escrevem poesia, a antecipação de uma futura ainda não existente vida, assim como disse Vinícius de Moraes “Poeta só é grande quando sofre”, só um grande poeta é verdadeiro senhor da morte.
  23. 23. Assim deixo a quem quer que se atreva saber quesó serei feliz quando poeta deixar de ser e de tal coisa afirmo que morrerei sendo e na poesia pretendo eu morrer, por isso aqui declaro meu falecimento poeticamente e afirmo que poeta bom é poeta morto somente. Termino este texto fazendo deste livro meu próprio túmulo, escrevendo antecipadamente a poesia de meu triste luto e nessa escrita, o cemitério das rimas deste boêmio finado, aproveito as ultimas linhas para confessar que aqui nestas folhas eu jazo.
  24. 24. Sem título Numa tarde de inverno enquanto sentava-me inspirado pelas cores do céu poente, uma pequena frase surgiu atrevidamente em minha mente; Exclamava aos meus ouvidos e ás ruas: “Dissiparei minhas dúvidas!”. Preparei-me para a nova jovem poesia que havia de nascer! Armei-me do lápis ao papel e á ela quis escrever... - “Dissiparei minhas duvidas!” Sim as dissiparei! - Mas após tê-las escrito em negrito, perdi-me dela e assim parei. Permaneci sentado á tentar trazer ao mundo esta criança nobre, mas poucas coisas me vieram á cabeça senão estes versos pobres: “Atingirei os céus com minha lança da persistência! Guerrearei contra as estrelas!” e em decorrer “Ferirei meu inimigo oculto no escuro céu da noite, e sua cortina de nuvens se rasgará em letras”. Balelas!... Voltei ao principio, mas encontrei-me em total miséria de palavras lúcidas, e tentei inutilmente durante horas terminar a tal frase - “Dissiparei minhas dúvidas!” – Sim, as pretendo dissipar! Mas onde estás tu travessa poesia? Por que á tomastes de mim, ó inspiração pervertida?! Dai-a para mim, conjuro-te por céus e mar! - - Mas minha rancorosa amiga deixou-me com a poesia ainda por terminar...
  25. 25. Meu querido leitor tenha compaixão da minha falta de faculdades, pois tentei termina-la e eu juro que a ti digo a mais pura verdade! - A inspiração traiu-me! – Talvez ofendida com minha delinquência, mas por misericórdia ainda trouxe-me outros versos á consciência, tão pobres da qual não ás escrevo aqui neste livreto banal, por tê-las consideradas de gosto duvidosamente literal... Mas, por via de minhas deliberadas ideias decidi repassar apenas uma delas: “Tecerei os barbantes das descobertas, desfarei o nó de minhas linhas, daquelas velhas e sujas duvidas, roupas antigas da indecisão; Costurarei para mim um vestido novo, branco de linho fino, com a ponta afiada da agulha da mente em raro véu de sabedoria - Dissiparei minhas duvidas!”. Assim foram as palavras que naquela tarde pude escrever e minha órfã poesia aqui repassei para que tu pudesses ler; a fim de doar-me um pouco á caridade a pus neste livreto mesmo inacabada, na esperança de que talvez você termine esta poesia mal amada... Assim deixo estes curtos versos, sem rima e sem cautelas, presenteando á quem quer quese disponha ou se interesse por elas.
  26. 26. Uma noite com a inspiração Ó meu caro leitor, já que tivestes a paciência de acompanhar- me até este ponto, lhe contarei como decidi escrever este livro do qual tu seguras. Certa vez, sentei-me nas estrelas dos hábitos noturnos em minha indiscreta coruja das noites, e á tragar as neblinas das madrugadas refleti sobre as desventuras de minha jovialidade, mas enquanto repousava em meus pensamentos deitado na cama de minhasreflexões, minha querida inspiração inquieta não me deixou por descansar. Fiquei á tentar reler o que já havia escrito nas páginas de meus dias, nos capítulos de meus anos, repensando minha vida e revendo minhas angustias, mas lá estava ela á me acompanhar; Cutucou-me e incomodou-me até me fazer poetar - Escreve ó poeta! Assim, encostei a cabeça no ombro de minha inspiração - rendi-me! - E aconteceu que nessa noite específica, até além das altas horas da lua namoramos e após beijar-me os lábios das ideias, ela contou-me á sussurrar: - Salve a vida tua! Ó meu amo e querido boêmio, tu que és feliz por tantas infelicidades, acalma-te que teu roteiro já esta á ser corrigido, pois eis que o drama de tua vida escreverei através de meus versos e á ti concedo que sejas escritor de tua própria estória, portanto abre as cortinas de teu teatro, endireita as
  27. 27. linhas de teus sentimentos e a ortografia de tua personalidade que tua peça á de ser escrita por ti! – Ó minha amada inspiração, minha nobre amante, agradeço o consolo que á este jovem desgraçado foi concedido!Se pretendes realmente comigo casar, então que tu permaneças sempre ao meu lado e conceda-me sempre suas nobres palavras que á elas promessa faço de dar as linhas e os versos escritos de meu coração... Inspira a poesia de minha vida para que eu inspire em seus versos até meu ultimo suspiro, pois se á ti serei poeta na vida, quanto mais ainda na morte! E então, meu caríssimo leitor, foi naquela noite que assim tornei -me poeta não porque escolhi ser, e sim porque a poesia escolheu-me não para viver minha vida, mas para que eu a vivesse.
  28. 28. Uma malícia refinada! Conheci naqueles dias um jovem rapaz, do qualseu nome, mérito não encontro para neste livro escrever. Um indivíduo incrivelmente desprezível, mas um tanto interessante, de tal forma que me colocou a questionar sobre as inconveniências pecaminosas da personalidade e, este individualmente, conquistou este espaço em meus textos por conter características desgraçadamente ilustres de tal forma que, além de dignas de todo fogo do inferno, também mereceram que por minha linguagem indelicadamente poética fossem julgadas. Nosso querido rapaz penteava seus modos igualmente bem em cachos castanhos e como artifício de sua delicada maldade vestia dos bons modos proporcionalmente atraentes a vista de suas presas. Nosso jovem cortejava as regalias da escrita, corrigia folhas e escrevia livros, lia sobre as destrezas da ignorância humana e estudava nos altares da teologia os mandamentos da manipulação, dramatizava a comédia incensada das letras e era amante indispensável das peças: Do piso glorioso dos palcos pertencia nosso ator da arte mais mentirosamente teatral. Também dominava a suspeita arte da popularidade, era amado e conhecido, falava a todos com jeito cativantemente familiar e era bem visto e bem falado por aqueles que com ele se colocavam a comunicar. Seus gracejos e delicadezas forjadas seduziam as desconfianças que dele brotavam e transformavam-nas em cegas afinidades a partir daqueles
  29. 29. modos teatralmente amigáveis até que suas tais ingênuas facetas de sinceridade indiretamente ofensivas ganhavam total liberdade de expressão e comportavam-se educadamente ao lado das palavras perfeitamente medidas para serem lançadas contra a todos que estavam a seu redor sem que percebessem, porque sua humilde bondade certamente havia sido trabalhada e planejada, talvez durante anos, até tornar-se silenciosa e astuta o suficiente para conseguir enganar a todos. A todos... Menos a mim. Uma malícia refinada! – Caracterizei eu a tal serpente que estamos a analisar. Tamanho cálculo sociopatamente bem articulado daquele pobre homem não foi suficiente para minhas características rigidamente observadoras. Eu percebia e assistia naquelas expressões exageradamente humildes um diabólico orgulho sesobressaindo entre as entrelinhas, e eu ficava ali a ouvir a inveja elogiar, vendo o ódio amar enquanto tinha que segurar em minha garganta uma gargalhada de puro deboche de tal força que parecia haver uma mão estando a me estrangular. Eu poderia dizer que tal refinada malicia comparava-se diretamente com minha luxúria de fingir não perceber e até com minha atitude de fazerem os outros acharem que eu supostamente daquilo jamais saberia, mas não iguale-me ao mais desprezível dos homens apenas por saber e fingir não saber daquela medida de malícia, por mais que essa medida fosse proporcional a minha de desmalicia.
  30. 30. Poderia eu estar enganado, poderia ser que meus olhos estivessem a enganar-me, mas não esnobo a minha cordial desmalicia maliciosamente justa, que é assim condicionada à enorme coerência de permitir que meu amigo malicioso vivesse livremente em seu nobre costume infernal, pois minha maldade inofensiva prega aos meus ouvidos uma vida de liberdades individualmente coletivas, tal qual cito em outros cantos nobres deste livro nomeando-a de minha religião desmaliciosamente divina. Uma desmalicia refinada!
  31. 31. Os desmandamentos do poeta Saldo aos meus atenciosos senhores jurados pedindo lhes que atentem ao que eu agora ressalvo, por não consentir com o que consideram poeticamente justo, acredito ser realmente irônico por minhas poesias abaixo de tal julgo. Como classificar da autêntica poesia a sua verdadeira beleza através de regras completamente arcaicas e caretas, quando a essência criativa dos versos explora a imaginação e não suas meras letras? Só quem não entende a poesia acha poder julgar suas virtudes em graus e níveis de beleza, pois só um poeta compreende que as rimas mais perfeitas estão nos versos de ser um poeta e que a rima nunca dependeu de colocações para estar certa. Poeta que é poeta sabe que a poesia não tem regra porque o próprio poeta não tem lei, pois os versos são anarquistas, vândalos e rebeldes das regrinhas toscas de português. A poesia não tem dez mandamentos, é livre biblicamente e gramaticalmente para pecar contra todos os idiomas, é pura o suficiente para corrigir qualquer dicionário. E não existem troféus, prêmios ou relevos que tenham méritos suficientes para consagrarem vitória a uma poesia, pois a mesma nunca dependeu de reconhecimento, mas sim, do próprio poeta que lhe dá vida, daquele tal que toma os lugares silenciosos e escuros como berço da inspiração e usa suas letras como ombro amigo para o coração, que faz rima de sua própria desgraça, faz poesia da poesia e faz do universo simples palavras.
  32. 32. Louca Loucura do Amor Só os loucos são sábios Só os loucos são livres Os invejo em grande pecado, De inveja vos louvam os tristes. Da loucura foi feita a razão A razão que não consegue entender Que o amor não procede do coração Mas do louco que não se importa em como viver. E na verdadeira louca loucura de amar Não se aceita amar só por prazer, Mas no próprio amor quer amando se tornar, E a razão quer em loucura se converter. Só os loucos á Deus conseguem ver O que o juízo perfeito jamais conseguirá compreender Porquesó o Criador da loucura poderia viver A mais louca loucura do próprio amor poder ser.
  33. 33. Tal dom chamado amor Conheces tu aquele tal dom chamado amor? Bicho horrendo, sujo e mal lavado, que te surpreende em tua busca em meio a florestas nevoadas, faz de seu equilíbrio fácil presa e de seus planos mero alimento. Desvia teus caminhos e te domina com correntes de medo, te cega e te castra, te arrasta para um ilusório cativeiro. Conheces tu aquele tal dom chamado amor? Espírito astuto e sedutor que invade os campos mais vulneráveis de tua mente e como a língua hipnotizante de uma serpente te faz cometer loucuras, converte todas as tuas lutas numa guerra de um homem só. Conheces tu aquele tal dom chamado amor? Rosa de fel completamente relutante ao humanismo mecânico, emoção completamente vagabunda, sentimento incrivelmente insano, digna de censura e propensa a prisão perpetua, merecedora da pior pena de morte e de ser atirada a mais distante légua. Mas, conheces tu aquele tal dom chamado amor? Talento mal educado que ultrapassa os limites impostos por vez, desmascara a face débil da ética e desrespeita todas as leis, desmoraliza completamente toda formalidade construída do principio de qualquer um que esta amando de verdade. Tal dom que te invade sem permissões e sem hesitar, tal amor que tu não conheces assim como ele ao coração que em ti está.
  34. 34. O Evangelho Segundo o Diabo O Diabo me mordeu! - Ah, se eu hoje soubesse para onde fugia aquele meu tão bajulado autocontrole nas vezes em que o diabo me mordia e me fazia transitar fora dos limites da boa paixão que sentia. Assim aconteceu que em pouco tempo em meio aos delírios que aquele amor de minha juventude me cedia, um silencioso fantasma, ressurgido de meus passados dias, voltara acabando por conseguir inseminar relutantemente em meu coração de fatigas um velho já conhecido e amargo veneno de perigosa ousadia, e pela primeira vez em tempos daquelas antigas páginas já vividas senti novamente os efeitos colaterais da insegurança há muito tempo esquecidas. Após isso nada mais fez a mais peçonhenta das bestas senão devorar-me enquanto o demônio da desconfiança beijava-me e molestava-me entre noites de pesadelos após sedar-me. Amaldiçoado seja o destruidor dos amores, a peste em pragas de minha cabeça! Tal mesma doença da ira me fez descer ao mais fundo inferno dos amantes e das safadezas, preso sob uma triste roupagem de cinzas como um mero enganado perdido entre as orgias na babilônia das traições e dos abandonados. - Salvai-me ó anjo do paraíso, ó deusa dos romances não me deixeis aqui em baixo! – Pedia eu as mais sublimes poesias de amor, aos mais perfeitos versos apaixonados. - Vês tu que meu amor está enfermo de suplicas, jogado numa lama de larvas
  35. 35. marcado pelo pacto negro das dúvidas. Limpai-me! Pois estou sujo de toda paixão perturbada, cego e perdido nos becos escuros do purgatório, arrependido de minhas falas! Mas no exílio, os deuses com minhas dores não se importaram, fui deixado com as ferida da fúria onde demônios me invocavam e em meu corpo, sob a face do descontrole, incorporavam ao mesmo tempo em que nas turbulências dos ciúmes recorrentemente me afogavam. Por fim, acabei confessando que a chaga infeliz do ódio e a blasfêmia da infidelidade me apavoravam. Ó maldito Lúcifer, maldita ferida! A ti tanto declarei que saísses de minha vida, enviei-te ao inferno com tua serpente maldita, mas tu me condenaste as mais torturantes suspeitas do desamor, tu me atiraste por anos entre as grades enferrujadas da dor e me fizeste sentir o amargo da solidão e dos ciúmes o sabor. Poderia eu também até pressupor estas expressões exageradamente agressivas, mas quem quer que tenha rabiscado em seu diário uma juventude desapaixonadamente escrita jamais entenderá estas rimas, qualquer um que não tenha jovialmente amado jamais saberá o quão venenoso é o fel dos ciúmes no florescimento da vida; e ao tal diabo estes versos especialmente eu dedico, pois após tanto queimar nos ciúmes da carne já medo não tenho de por ele ser possuído e por essas mesmas palavras eu exorcizo esse desgraçado senhor, o Diabo maldito.
  36. 36. Quando fores meu Quando fores meu... Não mais precisarás suplicar, Pois tuas lágrimas enxugarei com meus dedos. Como um caçador te encontrarei aonde quer que estejas, E te roubarei eternamente para mim. Quando fores meu... Te levarei ao palácio de meus sonhos, E te revelarei os mais profundos segredos que só tu entenderás. Terás a chave das minhas mais profundas fantasias, E em meu jardim, mergulharás no poço de minha alma, no rio da fonte de meu coração. Quando fores meu... Serás meu pão e minha uva. Dos meus lábios tirarás teu alimento e do fruto de minha essência te darei á comer. Como vinho me embriagarei de teu corpo, E da videira de meu amor tu desfrutarás todas as noites. Quando fores meu... Nunca mais estarás sozinho. Serás meu amigo, meu amante, meu pai e minha mãe, meu irmão e minha irmã. E deitado sobre meu peito te entregarei meu maior tesouro, E o meu corpo será o gozo do teu corpo, e estarás eternamente ao meu lado.
  37. 37. Erudita Ó vida antiga de velhas lembranças! Repertório de notas desafinadas e horrenda melodia de rotinas. Alegro-me e regozijo-me ao ouvir as ultimas notas de tua entediante sinfonia. Ouçam o ensaiar deste jovem condutor! Não será esse o repertorio novo? Abandona os tímpanos deste pequeno regente, ó arcaica. Afina seus arranjos para uma nova melodia de caminhos, compõe um repertório de aventuras em novos rolos de partitura, ó desafinada! Divorcia de meus instrumentos! Pois eis que este jovem maestro espera ansiosamente a sua nova erudita, virgem e imaculada ainda intocada. É a mais nova sinfonia, a terra prometida e os timbres na harmonia de planos compõem notas da canção da vida. Conduzo violinos de regozijos, o coral de minha batuta. Rejo meu coro e orquestro a noiva erudita!
  38. 38. Êxodo Vou-me calado... Levando as magoas na mala, balas de futuras feridas e munições de futuras guerras. Anestesiei minha raiva, escondi minha face sob forte maquiagem e sequei minhas lágrimas; tampei o profundo poço de minhas lembranças, águas sujas de decepções, desesperos e rancores... Prendi a respiração e sufoquei-me. Ocultei minha tempestade numa densa neblina, calei os trovões e ofusquei a luz dos raios. Numa falsa paz e com sorrisos simulados sigo para um horizonte claro, vazio como uma folha de papel em branco á espera de ser rabiscada com sábias letras, em versos de ágeis dedos num leve e triunfante mover de pulso, esse que ainda expõe na pele certas velhas cicatrizes de antigos e profundos cortes dos meus suicídios da juventude, meus pecados da adolescência. Mas os deuses deram-me um novo quadro! Pintarei nessa tela branca uma linda combinação de tintas e a mancharei com todas as cores e formas através dos pinceis deste novo caminho e desenharei pelas linhas de uma desconhecida terra uma nova paisagem, um desenho de uma nova vida e os traços de um novo homem.
  39. 39. O santo pecador Eu quero me converter á minha religião! A doutrina da vida, a filosofia da liberdade! Porque eu amaldiçoei todas as leis, repudiei todas as regras, arranquei as garras do destino – Xinguei Deus! Criei meu livro sagrado nas folhas das letras, o alcorão de minhas poesias. Escrevi minha própria bíblia e nela medito meus ortodoxos pecados, pois assassinei todos os meus deuses, estrangulei os gigantes eternos e tornei-me meu único ídolo. E como apostolo de minhas ideias e discípulo de minha mente, Saldei a boemia, só ela concedo o meu louvor! Bendito sejas eu, o santo pecador!
  40. 40. Minha vida poesia As letras formaram o mundo e o grande Criador é uma rima, Pois Deus é um livro e a vida é uma poesia da... ...Ironia de saber que até um simples livro pode exercer perfeitamente a função onipresente e todo-poderosa do que chamam de Deus ao nos ensinar sobre a eternidade, eternidade da qual acreditamos não ser tão eterna assim quando viramos nossas páginas das épocas bem ao fim de nossos parágrafos dos longos anos, mas só o fim pode trazer- nos de volta o inicio de onde... ...as letras formaram o mundo, pois o grande Criador é uma rima, Deus é um livro! A vida é uma poesia! Poesia que dos capítulos das semanas na vida de um livro sempre tem um fim para que o mesmo possa vir a trazer um novo começar até um inicio dum novo capitulo, assim como toda uma vida de historias dependem completamente das curtas palavras de um único dia de linhas qualquer dentro de uma vida completa, um livro inteiro, pois... ...as letras formaram o mundo, o grande Criador é uma rima. Deus é um livro e a vida é uma poesia! Por isso as mais belas rimas escondem-se entre as curtas palavras que as formam e por essa mesma razão os melhores capítulos de nossas épocas não precisamser vividos ou escritos por longos parágrafos de momentos, pois todos os grandes livros são formados por pequenos instantes em curtas letras e um simples conjunto de letras consegue redefinir toda uma historia para um rumo completamente diferente do
  41. 41. anteriormente tomado, em menos de um único segundo de linha, porque... as letras formaram o mundo e o grande Criador é uma rima. Deus é um livro e a vida é uma poesia! E assim agora tu podes ver que força tem os pequenos e quão é poder o da maioria, sendo os minúsculos a própria formação de qualquer coisa que aqui exista. Assim tu podes ver que somos meras letrinhas em um eterno jogo de rimas da qual chamamos ignorantemente de coincidências da vida, porque foram essas... ...letras que formaram o mundo, o grande Criador é uma rima. E sendo Deus um livro e a vida uma poesia... ...exalto os poetas da vida, a maior das poesias! Porque não existe poeta pequeno, são os que dão vida a vida. Assim torno- me grande poeta da vida-poesia, deixando-a viver refletida nos olhos de quem lê e respirando sempre que alguém a escuta, vivendo nos rascunhos dos borrões de minha escrita e seguindo nas linhas de meu caminho em versos e folhas de rabiscos, porque foram... ...as letras que formaram o mundo, o grande Criador é uma rima, E então sendo Deus um livro e a vida uma poesia, A ti pergunto meu Deus poeta, que novas rimas a poesia trará a minha vida?
  42. 42. A Bússola Subo ás estrelas, contemplando o céu da liberdade e guardo a noite no bolso largo de minha alma tão grande quanto uma cidade, e no porão de meu coração escondo aquelas velhas fotografias, rabiscadas de tristezas e alegrias, coloridas como desenho de criança levada, rabiscos na juventude dos papeis de lembranças amassadas. E em raios de raiva, trovejando na nuvem densa da mente, fico desejando purezas e fantasiando belezas! E nublado de tristeza choveria pingos de escarlate, desceria em tempestade, abençoando a terra em águas claras de leveza e humildade. E nessa escalada na montanha estreita dos caminhos, sigo vivendo e sigo subindo, respirando e sigo voando! Nadando nos segredos de minhas lágrimas, meu suor e temor marinho, desço ao palácio das sereias de minhas ideias e perigos. Reflito por céus e mar e questiono por terras e lagos! Navegando nas incertezas, o marinheiro dos legados; Vou caçando o buscar, conhecendo o saber, á espera que a vida me viva e vivendo o viver irei balançando com o vento, meu guia seguro, minha bússola do conhecimento.
  43. 43. Poesias perdidas Queria escrever aqui todas as minhas ideias, queria expressar todos os meus pensamentos e tudo que passa em minha mente, mas certas relíquias devemser pra sempre perdidas antes que expressadas delinquentemente. Minhas ideias vão e nunca voltam, serão esquecidas caso não as registre imediatamente em tinta, por isso agora escrevo este vazio que tu talvez também sintas, essa coisa chata que agora lês sem assunto e sem porquês. Poderia escrever o interessante, me inspirar nas poesias lindas na preferência da maioria, mas sou manso de tal forma que minhas palavras se agridem numa guerra de rimas e selvageria, acabando assim por soarem um tanto grosseiras e sem alegria. Assim tenho ficado pelos cantos guardando sequelas e colecionando lembranças em prantos. Guardei-me da escrita, recolhi a velha caneta e escondi-me na vida, seria perda de tempo reescrever o que já registrei, seria burrice reviver o que já revelei. Fui caçado pelo espírito das palavras, mas ele não me encontrou onde esperava, num assento entre duas arvores gêmeas ás meias noites das estrelas, porque estive pulando, estive enraivando-me e por isso folguei as letras.
  44. 44. ***
  45. 45. Tu abristes o livro de uma pequena parte de minha vida. Minha vida boemia, boêmia vida.

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