1Universidade do Estado do Rio de JaneiroCentro de Ciências SociaisInstituto de Filosofia e Ciências HumanasAS ELEIÇÕES DE...
2GUILHERME ESTEVES GALVÃO LOPESAS ELEIÇÕES DE 1962 NA GUANABARA: A CONSOLIDAÇÃO DE BRIZOLA NOCENÁRIO POLÍTICO NACIONALMono...
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6“Os grandes revolucionários foram sempreperseguidos durante a vida; a sua doutrina foisempre alvo do ódio mais feroz, das...
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8Lista de figurasFigura 1 – Manchete do Correio da Manhã, com instruções sobre como pedir aimpugnação da candidatura de Br...
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10Lista de siglas e abreviaturasALEG – Assembléia Legislativa do Estado da GuanabaraALERJ – Assembléia Legislativa do Esta...
11SUMÁRIOINTRODUÇÃO..........................................................................................................
12INTRODUÇÃOLeonel de Moura Brizola (1922-2004) foi uma das personalidades políticas maisimportantes do Brasil no século X...
13foi eleito, apesar da manobra do voto vinculado e o escândalo do Proconsult,1com 34,2% dosvotos. Seu novo partido, o PDT...
14CAPÍTULO I – PERFIL PESSOAL E POLÍTICO DE LEONEL BRIZOLA1.1 – Brizola: de Carazinho a Porto AlegreNascido em 22 de janei...
15Em 1952, assumiu a Secretaria de Obras Públicas do governo Ernesto Dornelles,iniciando um grande plano de obras no estad...
16Ao fim de seu governo (1959-1962), Brizola construiu 6.302 estabelecimentos, entreescolas primárias (5.902), técnicas (2...
17Um grande passo no processo de industrialização do estado foi a criação da empresaAços Finos Piratini, empresa de capita...
18Campos. Os diretores da ITT também foram chamados para a reunião, sendo, porém, retiradosda sala com a recusa de Brizola...
19situação se agravou quando Lopes afirmou que Cordeiro de Farias seria preso ao pisar no RioGrande do Sul. Cordeiro nunca...
20CAPÍTULO II – A CONJUNTURA POLÍTICA NACIONAL E LOCAL2.1 – A transferência da capital do Rio de Janeiro para BrasíliaO fi...
212.2 – As primeiras eleições da GuanabaraNas primeiras eleições da Guanabara, em 1960, o jornalista Carlos Lacerda, que j...
222.3 – Conjuntura nacional: governo parlamentarista de João GoulartEm 1962, o presidente era João Goulart, que fora reele...
23Do outro lado, estava João Belchior Marques Goulart. Nascido em São Borja, RioGrande do Sul, em 191916. De origem estanc...
24A crise se agravou quando Jânio Quadros condecorou o líder revolucionário Ernesto“Che” Guevara com a Ordem do Cruzeiro d...
25Com o fim iminente do sistema parlamentarista, Hermes Lima, escritor e jurista ligadoao PTB, foi eleito primeiro-ministr...
262.5 – Brizola candidato a deputado federalSegundo José Gomes Talarico, Brizola já pensava em se candidatar ao legislativ...
27Para tal empreitada, não haveria a necessidade de Brizola sair do governo gaúcho, nemde transferir o domicílio eleitoral...
28CAPÍTULO III – DISPOSITIVOS ELEITORAIS VIGENTES EM 1962Em 1945, ainda durante o Estado Novo, foi decretada a chamada Lei...
29Em 1950, foi instituído o Código Eleitoral (Lei 1.164, de 24 de julho de 1950), queaperfeiçoou a Lei Agamenon. Segundo o...
30televisão deveriam reservar, diariamente nos 60 dias antes das eleições, o espaço de duashoras para veiculação de propag...
31CAPÍTULO IV - COMPOSIÇÃO DAS CHAPAS E ALIANÇAS PARTIDÁRIASNAGUANABARA PARA AS ELEIÇÕES DE 19624.1 – Alianças para o Sena...
32Para o Senado Federal, o quadro era um pouco diferente. O escolhido pela AST paraconcorrer a uma das vagas de senador fo...
33A AST lançou uma forte nominata de candidatos a deputado federal. ConstavamLeonel Brizola, Sérgio Magalhães, Eloy Dutra,...
34UDN e PTB disputaram com força máxima. A UDN apostou na reeleição do radialistaRaul Brunini, da professora Lygia Lessa B...
35Neves, além do ex-vereador e advogado Rubem Cardoso. Na chapa do PR, o médico espíritaTelêmaco Gonçalves Maia tentava re...
36CAPÍTULO V – A CAMPANHA ELEITORAL5.1 – Organização e plataforma da candidatura BrizolaPara coordenar sua campanha, Brizo...
37Na Guanabara, ex-capital federal, o número de jornais era considerável, com destaquepara O Globo, Jornal do Brasil, Últi...
38e ao seu filho João Ribeiro Dantas, que apoiou a eleição de Jânio Quadros. Sua linha políticaera ambígua, apoiando e se ...
39presidente João Goulart. O jornal dizia se basear em decisões anteriores do TSE e nalegislação eleitoral da época.42No m...
40No dia 30 de agosto, era publicado anúncio de inauguração do Comitê Central LeonelBrizola, por iniciativa do deputado fe...
41Outra importante instituição, que atuava na mesma linha que o IPES, era o IBAD –Instituto Brasileiro de Ação Democrática...
42da Mocidade Trabalhista, realizada em junho no Palácio Tiradentes, da qual Brizolaparticipou como principal atração.51Ap...
43CAPÍTULO VI – RESULTADO DAS ELEIÇÕESNo dia 7 de outubro, as eleições gerais de 1962 foram realizadas. Ainda no dia anter...
44Para o Senado Federal, a vitória foi dupla: Aurélio Viana foi eleito senador com quase25% dos votos (509.979). Gilberto ...
45Dentre os deputados estaduais eleitos pelo PTB, estavam Artur da Távola, HérculesCorrêa, José Gomes Talarico, Ib Teixeir...
46CONCLUSÃOBrizola foi o grande vencedor das eleições de 1962. Recebeu 269 mil votos, passandoa ser o deputado federal mai...
47candidatura. Dentre os candidatos que explicitavam a intenção de se candidatar à presidênciaem 1965 estavam Juscelino Ku...
48REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICASA HISTÓRICA mensagem do presidente João Goulart. [S. l]: [S. n.], [19--]. 14 p. Autordesconhec...
49FREIRE, Américo (Coord.). José Talarico. 1ª Ed. Rio de Janeiro: Editora FGV, 1998.GRAMSCI, Antonio. Os intelectuais e a ...
50FONTES CONSULTADASJORNAISA Noite, Rio de Janeiro, 4 de agosto de 1962.A Noite, Rio de Janeiro, 10 de julho de 1962.A Noi...
51IMAGENSFigura 1 – Manchete do Correio da Manhã, com instruções sobre como pedir a impugnação dacandidatura de Brizola (0...
52Figura 4 – Capa do jornal Última Hora, destacando o último comício da AST, realizado em Bangu(05/10/62, capa).Figura 5 –...
53Figura 7 – Propagandas de Brizola e outros candidatos da AST, veiculados na Última Hora (06/10/62, p.2).Figura 8 – Manch...
54TABELASTabela 1 – Resultado das eleições para deputado federal do estado da Guanabara em1962Candidato Partido Votos % #L...
As eleições de 1962 na Guanabara: a consolidação de Brizola no cenário político nacional
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As eleições de 1962 na Guanabara: a consolidação de Brizola no cenário político nacional

  1. 1. 1Universidade do Estado do Rio de JaneiroCentro de Ciências SociaisInstituto de Filosofia e Ciências HumanasAS ELEIÇÕES DE 1962 NA GUANABARA: A CONSOLIDAÇÃO DE BRIZOLA NOCENÁRIO POLÍTICO NACIONALGUILHERME ESTEVES GALVÃO LOPESRio de Janeiro2013
  2. 2. 2GUILHERME ESTEVES GALVÃO LOPESAS ELEIÇÕES DE 1962 NA GUANABARA: A CONSOLIDAÇÃO DE BRIZOLA NOCENÁRIO POLÍTICO NACIONALMonografia de conclusão do curso de graduação emHistória apresentado ao Departamento de Históriado Instituto de Filosofia e Ciências Humanas daUniversidade do Estado do Rio de Janeiro.Orientador: Prof. Dr. Oswaldo Munteal Filho.Professor Adjunto – UERJ.Rio de Janeiro2013
  3. 3. 3FOLHA DE APROVAÇÃOAS ELEIÇÕES DE 1962 NA GUANABARA: A CONSOLIDAÇÃO DE BRIZOLA NOCENÁRIO POLÍTICO NACIONALGuilherme Esteves Galvão LopesMonografia submetida ao corpo docente do Departamento de História do Instituto deFilosofia e Ciências Humanas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ, comoparte dos requisitos necessários à obtenção do grau de Bacharel.Banca examinadora:____________________________________Prof. Oswaldo Munteal Filho – Orientador_____________________________Prof. Luiz Edmundo Tavares_____________________________Prof.ª Edna Maria dos Santos
  4. 4. 4AgradecimentosAgradeço a Deus, em primeiro lugar, por todas as coisas.Aos meus pais, Vicente e Denise, por tudo que fizeram por mim. Às minhas irmãsMichele e Thalita, minha avó Matildes e toda minha família, tanto no Rio de Janeiro, quantono Ceará. Por ser extremamente grande, seria uma lista enorme de pessoas, e ainda assim meesqueceria de muita gente.À minha amada Isabelly, por caminhar comigo em todos os momentos, e me ajudar atémesmo no que não tinha conhecimento. Seu incentivo, esforço, compreensão ecompanheirismo me fizeram chegar até aqui. Obrigado por tudo, flor!Ao professor Oswaldo Munteal, mais que um orientador e mentor, um verdadeiroamigo. À professora Beatriz Vieira, pela paciência em me ajudar na organização damonografia. Aos professores Luiz Edmundo Tavares, Jaime Antunes e Celso Thompson, peloexemplo de caráter e dedicação ao ofício de historiador.Ao companheiro Wendel Pinheiro, pela imensa confiança e todo seu empenho em mefazer seu sucessor na Secretaria Estadual de Formação Política da JSPDT/RJ. Aos meusprimos Tecla Lopes de Carvalho e Luiz Ademar Lopes Muniz pela colaboração em contar ahistória de nossa família, aos meus irmãos Luana e Samuel Braun por toda a ajuda.Aos companheiros do PDT que colaboraram para a construção deste trabalho, emespecial ao Rafael Galvão, Everton Gomes, Osvaldo Maneschy, João Guilherme ParanhosMicelli, Marcelo Rotenberg, Diogo Nunes, Ione Groff e seu filho Danilo Groff Filho,Augusto Ribeiro, e à família Hasan Gomes.Aos amigos e companheiros de ofício da UERJ: Gustavo Rangel, Leandro Gavião,Vanessa Lopes, Iberê de Oliveira, Adriana Corrêa, Cristiane Lima, Jéssica Gonzaga, RosaneBarros, Alex Vasconcelos, Tamires Sol, Rose Naiff, André Guimarães, Alessa Passos,Joseanne do Carmo, Taís Costa, Mauro Sérgio, dentre tantos outros.Aos queridos Sidnei e Fernando, da Biblioteca CCS/A, e ao Denilson.Aos que quase não vejo, mas que sempre me incentivaram: Isabel Spitz, LuizHenrique Junior, Maria da Conceição Machado e família, Eduardo Riviello, Alcides NunesVieira e família, Jean Santos, Fátima e Karolyne Roberta Chagas.Ao amigo Ricardo Conolly, por disponibilizar os dados eleitorais de formaextremamente gentil.Ao André Ferreira e a todos os colegas do DETRAN/RJ.
  5. 5. 5À memória da minha avó Floripes do Vale Lopes (1920-2007), grande incentivadora, que por poucos diasinfelizmente não me viu aprovado no vestibular. A você,obrigado por tudo.Ao meu avô, Polybio Galvão Lopes (1909-1982), que,apesar de não ter conhecido, se torna sempre presentequando vou ao Ceará e dele ouço falar. Herdei dele, alémda aparência, o gosto pela política e a admiração pelafigura de Leonel de Moura de Brizola.
  6. 6. 6“Os grandes revolucionários foram sempreperseguidos durante a vida; a sua doutrina foisempre alvo do ódio mais feroz, das mais furiosascampanhas de mentiras e difamação por parte dasclasses dominantes. Mas, depois da sua morte, tenta-se convertê-los em ídolos inofensivos, canonizá-lospor assim dizer, cercar o seu nome de uma auréolade glória, para “consolo” das classes oprimidas epara o seu ludibrio, enquanto se castra a substânciado seu ensinamento revolucionário, embotando-lhe ogume, aviltando-o”.Vladimir Lênin,em O Estado e a Revolução.
  7. 7. 7As eleições de 1962 na Guanabara: a consolidação de Brizola no cenário políticonacionalRESUMONeste trabalho é abordada a consolidação de Leonel Brizola no cenário político nacional,através de sua candidatura à Câmara dos Deputados pelo PTB do antigo estado da Guanabara.O intuito é saber como e por que Brizola concorreu pela Guanabara, como foi o processo decampanha eleitoral e a plataforma política adotada, e quais seriam as motivações e objetivosde sua candidatura.Palavras-chave: Brizola. Trabalhismo. Guanabara. Reformas de Base. PTB. Eleições de 1962.Eleições de 1965. Parlamentarismo. Presidencialismo.
  8. 8. 8Lista de figurasFigura 1 – Manchete do Correio da Manhã, com instruções sobre como pedir aimpugnação da candidatura de Brizola (06/06/62, capa)........................................................ 52Figura 2 – Manchete da Última Hora sobre a convenção do PTB que escolheu Brizola eoutros candidatos do PTB (03/08/62, capa)............................................................................ 52Figura 3 – Propaganda do PTB veiculada no jornal Última Hora (05/10/62, p. 5)................ 52Figura 4 – Capa do jornal Última Hora, destacando o último comício da AST, realizadoem Bangu (05/10/62, capa)..................................................................................................... 53Figura 5 – Matéria do jornal A Noite, sobre comício da UDN (06/10/62, p. 3)..................... 53Figura 6 – Propaganda eleitoral de políticos ligados à UDN, em sua maioria financiadospelo IPES/IBAD, no jornal A Noite (06/10/62, p. 3).............................................................. 53Figura 7 – Propagandas de Brizola e outros candidatos da AST, veiculados na ÚltimaHora (06/10/62, p. 2)............................................................................................................... 54Figura 8 – Manchete da Última Hora, sobre a iminente vitória dos principais candidatos daAST (09/10/62, capa).............................................................................................................. 54
  9. 9. 9Lista de tabelasTabela 1 – Resultado das eleições para deputado federal do estado da Guanabara em 1962.... 55Tabela 2 – Resultado das eleições para deputado estadual da Guanabara em 1962.................. 56Tabela 3 – Resultado das eleições para vice-governador do estado da Guanabara em1962......58Tabela 4 – Resultado das eleições para senador do estado da Guanabara em 1962.................. 58
  10. 10. 10Lista de siglas e abreviaturasALEG – Assembléia Legislativa do Estado da GuanabaraALERJ – Assembléia Legislativa do Estado do Rio de JaneiroAST – Aliança Social Trabalhista (1962)CDU – Christlich Demokratische Union Deutschlands (União Democrata Cristã daAlemanha)ESG – Escola Superior de GuerraFMP – Frente de Mobilização PopularFPN – Frente Parlamentar NacionalistaFP – Frente Popular (1962)IBAD – Instituto Brasileiro de Ação DemocráticaIPES – Instituto de Pesquisas e Estudos SociaisISEB – Instituto Superior de Estudos BrasileirosJK – Juscelino KubitschekMTR – Movimento Trabalhista RenovadorPCB – Partido Comunista BrasileiroPDC – Partido Democrata CristãoPDT – Partido Democrático TrabalhistaPL – Partido LibertadorPR – Partido RepublicanoPRP – Partido de Representação PopularPRT – Partido Republicano TrabalhistaPSB – Partido Socialista BrasileiroPSD – Partido Social DemocráticoPSP – Partido Social ProgressistaPST – Partido Social TrabalhistaPTB – Partido Trabalhista BrasileiroPTN – Partido Trabalhista NacionalTRE – Tribunal Regional EleitoralTSE – Tribunal Superior EleitoralUDN – União Democrática Nacional
  11. 11. 11SUMÁRIOINTRODUÇÃO........................................................................................................................ 12CAPÍTULO I – PERFIL PESSOAL E POLÍTICO DE LEONEL BRIZOLA.........................141.1 – Brizola: de Carazinho a Porto Alegre.................................................................. 141.2 – O governo Brizola no Rio Grande do Sul (1959-1963)....................................... 15CAPÍTULO II – A CONJUNTURA POLÍTICA NACIONAL E LOCAL..............................202.1 – A transferência da capital do Rio de Janeiro para Brasília.................................. 202.2 – As primeiras eleições na Guanabara.................................................................... 212.3 – Conjuntura nacional: governo parlamentarista de João Goulart.......................... 222.4 – O situação do PTB da Guanabara em 1962......................................................... 252.5 – Brizola candidato a deputado federal...................................................................26CAPÍTULO III – DISPOSITIVOS ELEITORAIS VIGENTES EM 1962.............................. 28CAPÍTULO IV – COMPOSIÇÃO DAS CHAPAS E ALIANÇAS PARTIDÁRIAS NAGUANABARA PARA AS ELEIÇÕES DE 1962................................................................. 314.1 – Alianças para o Senado e o vice-governo da Guanabara..................................... 314.2 – Câmara dos Deputados.........................................................................................324.3 – Assembleia Legislativa........................................................................................ 33CAPÍTULO V – A CAMPANHA ELEITORAL..................................................................... 365.1 – Organização e plataforma da candidatura Brizola............................................... 365.2 – Jornais e rádios do estado da Guanabara..............................................................365.3 – A candidatura Brizola nos meios de comunicação e a influência doIPES/IBAD............................................................................................................................ 385.4 – Comícios e eventos de campanha........................................................................ 41CAPÍTULO VI – RESULTADO DAS ELEIÇÕES.................................................................43CONCLUSÃO.......................................................................................................................... 46REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS..................................................................................... 48FONTES CONSULTADAS..................................................................................................... 50IMAGENS................................................................................................................................ 51TABELAS.................................................................................................................................54
  12. 12. 12INTRODUÇÃOLeonel de Moura Brizola (1922-2004) foi uma das personalidades políticas maisimportantes do Brasil no século XX, além de um dos maiores líderes populares de toda nossahistória. Poucos homens tiveram um currículo tão extenso: deputado federal, deputadoestadual, secretário de estado, prefeito, três vezes governador por dois estados diferentes, duasvezes candidato à presidência da república e uma vez à vice-presidência, fundador epresidente nacional do PDT e vice-presidente da Internacional Socialista.Poucos homens também despertaram paixões como Brizola: odiado por muitos,querido por outros tantos, era ao mesmo tempo, admirado pela população mais humilde edemonizado pela mídia conservadora. Era uma figura nacional, sendo o Rio de Janeiro e o RioGrande do Sul seus principais redutos.No Rio Grande do Sul, sua terra natal, Brizola começou sua carreira política, chegouao governo do estado, ganhou notoriedade no episódio da sucessão de Jânio Quadros, mas foino Rio de Janeiro que ele protagonizou importantes acontecimentos políticos do Brasil nosúltimos 40 anos de sua vida.Em 1982, foi eleito governador do Rio nas primeiras eleições diretas após o golpe em1964. Em 1990, em seu retorno ao Palácio Guanabara, obteve consagradores 61% dos votos.Alternou seus mandatos com candidaturas à presidência da república: em 1989, a primeiraeleição presidencial depois de quase 30 anos, ficou em 3º lugar, com mais de 11 milhões devotos (15,45%). Em 1994, depois de um governo marcado por desgastes com ex-aliados ecom a TV Globo, que enfatizava os problemas de segurança pública em seu governo, Brizolarecebeu pouco mais de 2 milhões de votos (3,18%).O golpe de 1964, que cassou seu mandato e seus bens, forçou sua fuga do Brasil.Quando retornou do exílio em 1979, Brizola decidiu recomeçar sua carreira políticaexatamente onde ela havia sido interrompida: no Rio de Janeiro. 17 anos antes, ele havia sidoeleito o deputado federal mais votado da história até então, pelo antigo estado da Guanabara,fato lembrado pelas gerações mais antigas. O histórico de Brizola com o Rio de Janeiro eraantigo, e sua figura permaneceu no imaginário político carioca e fluminense durante décadas.Ao se candidatar ao governo do estado em 1982, muitos evocaram essa antiga relação,ressaltando o perfil carismático e combativo de Leonel Brizola. Ao fim da campanha, Brizola
  13. 13. 13foi eleito, apesar da manobra do voto vinculado e o escândalo do Proconsult,1com 34,2% dosvotos. Seu novo partido, o PDT, elegeu também 24 de 70 deputados estaduais, 16 de 46deputados federais, além do único senador, Roberto Saturnino Braga.Em 1990, retornou ao governo fluminense com mais votos do que todos os outroscandidatos juntos, novamente elegendo boa parte dos deputados federais e estaduais, além dosenador, o professor Darcy Ribeiro.Ao longo de vários anos, vários de seus aliados e ex-aliados ocuparam cargosimportantes da administração pública a nível estadual e nacional, como Marcello Alencar,Anthony Garotinho, Cesar Maia, Jamil Haddad, Miro Teixeira, Carlos Lupi, Manoel Dias,Albuíno Azeredo, Jaime Lerner, Waldir Pires, Alceu Collares, Dante de Oliveira, além daatual presidenta da República Dilma Rousseff, fundadora do PDT.Até seu falecimento em 2004, mesmo sem mandato desde 1994, Brizola continuousendo figura respeitada, tendo a sua opinião levada em conta em diversas questões, mantendosua firmeza de caráter e suas convicções políticas, cercado sempre de muitos amigos eadmiradores. Seu velório, realizado no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul, foi um dosmaiores já vistos na história recente do Brasil.O objetivo deste trabalho é resgatar o momento inicial da trajetória política no Rio deJaneiro, quando a atual capital fluminense ainda era o estado da Guanabara, recém-criadoapós a transferência da capital federal para Brasília. Naquele ano de 1962, além do desafio derecuperar o espaço perdido para a UDN de Carlos Lacerda e fazer com que o PTB obtivessebons resultados eleitorais, Brizola buscava firmar-se como liderança política nacional,objetivando uma futura candidatura à Presidência da República.1Para mais informações sobre as denúncias de fraude e corrupção nas eleições de 1982 no Rio de Janeiro, ver olivro Plim-Plim: A peleja de Brizola contra a fraude eleitoral, de Paulo Henrique Amorim e Maria HelenaPassos, publicado pela Editora Conrad.
  14. 14. 14CAPÍTULO I – PERFIL PESSOAL E POLÍTICO DE LEONEL BRIZOLA1.1 – Brizola: de Carazinho a Porto AlegreNascido em 22 de janeiro de 1922, na localidade de Cruzinha, em Carazinho, entãodistrito de Passo Fundo, Leonel de Moura Brizola era filho de pequenos agricultores.Batizado de Itagiba, ainda criança adotou o nome Leonel em homenagem ao revolucionárioLeonel Rocha, líder maragato na Revolução de 1923.2Seu pai, José Brizola, que lutou ao lado dos maragatos, foi morto em uma emboscadapor forças governistas (chimangos), quando Brizola era ainda bebê. Sua mãe, Oniva, cuidoude alfabetização de todos os filhos.Aos 14 anos, saiu de casa rumo à capital, e se matriculou no Instituto Agrícola deViamão, concluindo o curso 3 anos depois. Trabalhou como ascensorista, operário emrefinaria de óleo, engraxate, fiscal de moinhos e jardineiro para manter-se em Porto Alegre.Fez o supletivo de ensino médio no tradicional Colégio Julio de Castilhos, prestou oserviço militar, e em seguida foi aprovado no vestibular para a Faculdade de Engenharia deUniversidade Federal do Rio Grande do Sul.Foi ainda na faculdade que Brizola iniciou sua meteórica carreira política. Aproximou-se dos ideais getulistas, participando da fundação do Partido Trabalhista Brasileiro gaúcho eda Ala Moça do partido, em 1945.No mesmo ano, seguindo orientação do ex-presidente Getúlio Vargas, Brizola secandidatou a uma vaga na Assembléia Legislativa, sendo eleito com 3.839 votos, sendo o 11ºvotado de uma bancada de 23 deputados.Formou-se em 1949, e em 1950 se casou com Neusa Goulart, irmã de seu colega debancada, João Goulart. Brizola teve como padrinho de casamento Getúlio Vargas. No mesmoano, Brizola foi reeleito deputado estadual, sendo o mais votado do estado, com 16.691 votos.Devido a sua consagração nas urnas, no ano seguinte foi candidato à prefeitura de PortoAlegre, perdendo por diferença de apenas 1% dos votos.2Para saber mais sobre a Revolução de 1923 e suas causas, ver a dissertação de mestrado de Ledir de PaulaPereira, da UFRGS, intitulada O positivismo e o liberalismo como base doutrinária das facções políticasgaúchas na revolução federalista de 1893-1895 e entre maragatos e chimangos em 1923.
  15. 15. 15Em 1952, assumiu a Secretaria de Obras Públicas do governo Ernesto Dornelles,iniciando um grande plano de obras no estado. Em 1954, alcançou a maior votação paradeputado federal do Rio Grande do Sul até então (103.003 votos). No ano seguinte, Brizolaconquista a prefeitura de Porto Alegre, derrotando a coligação UDN-PL-PSD, que eleenfrentou no pleito de 1951.Já na prefeitura, inicia um grande plano de reestruturação administrativa e financeirada capital, contemplando também a construção de escolas públicas, principal promessa decampanha de Brizola: “nenhuma criança sem escola”.Com apenas 36 anos de idade, Brizola foi eleito governador do Rio Grande do Sul,derrotando Walter Peracchi Barcellos, da coligação UDN-PL-PSD, com uma diferença dequase 170 mil votos (670.003 a 500.944).1.2 – O governo Brizola no Rio Grande do Sul (1959-1963)Leonel Brizola assumiu o governo do estado em 29 de março de 1959, com o desafiode colocar em prática seu lema de campanha: educação popular e desenvolvimentoeconômico.3À época, o Rio Grande do Sul sofria com o desequilíbrio de sua balançacomercial na negociação de produtos agrícolas, sua principal fonte de receita, pelos produtosindustrializados, importados dos grandes centros urbanos do país. Isso demonstrava comoestava atrasado seu processo de industrialização. Além disso, o estado recebia poucosrecursos do governo federal.4Todos esses fatores dificultavam o seu desenvolvimentoeconômico, impossibilitando investimentos públicos em infra-estrutura, educação e pesquisa.No que diz respeito à educação pública, o estado do Rio Grande do Sul sofria, no anode 1959, com o déficit calculado de 273.095 vagas. Para resolver tal problema, a idéia deBrizola foi descentralizar a estrutura da Secretaria de Educação, criando as subsecretarias deEnsino Primário, Médio e Técnico, e criar, a partir dos dados educacionais existentes, o Planode Emergência de Expansão do Ensino Primário. A meta do plano era ambiciosa para arealidade gaúcha: todas as crianças entre os 7 e os 14 anos matriculadas e a erradicação doanalfabetismo no Rio Grande do Sul.53BANDEIRA, 1979, p. 57.4RUAS, 1986, p. 122.5BRAGA, 2004, p. 57.
  16. 16. 16Ao fim de seu governo (1959-1962), Brizola construiu 6.302 estabelecimentos, entreescolas primárias (5.902), técnicas (278), ginásios, colégios e escolas normais (131). Foramcontratados também de 42.153 novos professores para a rede pública estadual. O resultado foia oferta de 688.209 novas vagas nos estabelecimentos de ensino gaúchos.6Para tanto, foi necessária a parceria entre governo do estado, que fornecia o materialde construção, as prefeituras municipais, que doavam o terreno e o apoio logístico, e apopulação, que construía estes estabelecimentos em regime de mutirão. As verbas necessáriaspara a execução das obras foi possibilitada através da reserva de 15% do orçamento anual doestado, além da captação de recursos através da venda de bônus.7No campo econômico, o estado precisava de dinheiro para realizar os investimentosnecessários nos setores agrícola, de transportes, comunicações, energia elétrica, além deacelerar a industrialização. Não havia a possibilidade de aumentar a carga tributária, o quepoderia interromper de vez a retomada do desenvolvimento econômico e social do RioGrande do Sul.O governador Brizola criou o gabinete de Planejamento, composto por técnicos efuncionários públicos, com o intuito de equacionar as finanças do estado, e elaborarestratégias para o crescimento econômico.Uma das primeiras realizações foi, ainda em 1959, a criação e venda das Letras doTesouro estadual, que possuíam prazos e juros prefixados, com resgate dentro do mandato deBrizola. Foi criada também a Caixa Econômica Estadual, com o objetivo de captar recursospara investimentos sociais através das cadernetas de poupança, evitando também que o capitalgaúcho fosse depositado em outros bancos, e esses mesmos recursos fossem enviados e/ouinvestidos fora do estado.Outra iniciativa foi o fortalecimento do Banco do Estado do Rio Grande do Sul(Banrisul), e a criação, em 1961, juntamente com os estados do Paraná e Santa Catarina, doBanco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE), instituição existente até aatualidade, com o objetivo de oferecer microcrédito aos pequenos e médios empresários.Foi criada a Estrada da Produção (hoje parte da BR-386), ligando as regiões agrícolas donoroeste do estado aos portos de Rio Grande e de Porto Alegre, para facilitar o escoamento daprodução.6BANDEIRA, 1979, p. 59.7RUAS, 1986, p. 126.
  17. 17. 17Um grande passo no processo de industrialização do estado foi a criação da empresaAços Finos Piratini, empresa de capital misto, mas que possuía controle estatal (51% dasações). O objetivo era oferecer aço para as indústrias mecânica e automobilística.Em parceria com a Petrobras, a instalação da Refinaria de Petróleo Alberto Pasqualinifoi iniciada, no município de Canoas. A obra foi concluída somente no ano de 1968. Foicriada também a Usina Termelétrica de Charqueadas, e a Açúcar Gaúcho AS – AGASA,criada com o objetivo de oferecer álcool como combustível alternativo à gasolina.Mesmo após diversos investimentos e projetos nos setores educacional, bancário,rodoviário, siderúrgico e energético, o Rio Grande do Sul ainda sofria com problemas em doissetores essenciais: telefonia e energia elétrica.A energia elétrica era monopólio da Companhia de Energia Elétrica Riograndense(CEERG), controlada pela norte-americana Eletric Bond and Share, por sua vez criada pelaGeneral Electric (GE). Já os serviços de telefonia e telégrafo eram controlados pelaCompanhia Telefônica Riograndense, pertencente à multinacional International Telephoneand Telegraph (ITT).Devido aos péssimos serviços prestados, e a recusa da CEERG em realizarinvestimentos para aumentar a capacidade energética e a oferta do serviço, o governadorBrizola, com autorização do presidente Juscelino Kubitschek, expropriou a filial gaúcha daBond and Share, em decreto publicado no Diário Oficial em 13 de maio de 1959. Como aCEERG devia altas somas de impostos ao governo gaúcho, o único valor pago pela posse daempresa foi de simbólico 1 cruzeiro, depositado em banco comercial.8Sobre a Companhia Telefônica Riograndense, Brizola negociou para que parte docontrole acionário da empresa fosse repassada ao governo gaúcho. Depois de dois anos deconversações sem chegar a acordo algum, Brizola estatizou a companhia e a incorporou àrecém-criada Companhia Riograndense de Telecomunicações, em fevereiro de 1962.9Tais atitudes de Brizola geraram repercussão negativa por parte da imprensaconservadora, que passou a rotular o governador gaúcho de comunista e incendiário. Asencampações geraram também desconforto em autoridades brasileiras e norte-americanas.Mesmo tais ações sendo absolutamente legais, o embaixador norte-americano Lincoln Gordoncolocou a Justiça brasileira sob suspeita, em reunião promovida pelo chanceler brasileiro SanTiago Dantas, estando presentes também Brizola e o embaixador brasileiro nos EUA Roberto8BANDEIRA, 1979,p. 61-62.9BRAGA, 2004,p. 54-55.
  18. 18. 18Campos. Os diretores da ITT também foram chamados para a reunião, sendo, porém, retiradosda sala com a recusa de Brizola em participar da reunião com a presença deles.10Foi em 1961, porém, que aconteceu o batismo de fogo de Brizola como grandeliderança. Devido às pressões dos grupos conservadores insatisfeitos com suas atitudesambíguas, o presidente Janio Quadros renunciou à Presidência no dia 25 de agosto. OCongresso aceitou sua renúncia, e o vice João Goulart constitucionalmente deveria serempossado no cargo. Mas os ministros militares impediram, ameaçando prender Jango, queestava em missão oficial na China comunista, assim que retornasse ao Brasil.A partir daí teve início uma crise que causou instabilidade política no Brasil durantesemanas. Brizola, ao suspeitar que Jânio tivesse sido deposto, ofereceu suporte ao ex-presidente caso quisesse fazer frente ao possível golpe. Ao receber a confirmação da renúnciade Jânio Quadros, Brizola organizou a resistência ao golpe em gestação, que era dirigido nãoa Jânio, mas a Jango.11Brizola transformou o Palácio Piratini, sede do governo gaúcho, em quartel general daresistência. A partir da rádio Guaíba, organizou uma cadeia de cerca de 150 emissoras derádio do Brasil e do exterior, a chamada “Cadeia da Legalidade” ou “Rede da Legalidade”com o intuito de difundir sua pregação legalista e os comunicados sobre a tentativa de golpeem marcha.12A população se organizou, recebeu armas, armazenou mantimentos, com aexpectativa de que o pior poderia acontecer.No decorrer da crise, foram dadas ordens de bombardeio à capital gaúcha por parte doMarechal Odílio Denys, transmitidas pelo General Orlando Geisel.13Militares legalistas,porém, esvaziaram os pneus e desarmaram os aviões que atacariam Porto Alegre,impossibilitando assim a decolagem da Base Aérea de Canoas.14No episódio da Legalidade, Brizola recebeu o apoio de Mauro Borges, governador deGoiás, e de Ney Braga, governador do Paraná, que organizaram também a resistência em seusrespectivos estados.A adesão mais importante à Legalidade foi a do comandante do III Exército, generalMachado Lopes, que deu a Brizola a garantia de que seus comandados permaneceriam fiéis àConstituição, não obedecendo às ordens dos ministros militares. Com isso, o Marechal Denyssubstituiu Machado Lopes por Oswaldo Cordeiro de Farias no comando do III Exército. A10AGUIAR, 2012, p. 68.11KUNH, 2004, p. 32-33.12FERREIRA, 2005, p. 286.13RIBEIRO, [1994?], p. 47.14MARKUN, 2001, p. 208-209.
  19. 19. 19situação se agravou quando Lopes afirmou que Cordeiro de Farias seria preso ao pisar no RioGrande do Sul. Cordeiro nunca assumiu efetivamente o comando do III Exército.Paralelamente à crise militar, o Congresso tentava uma solução política, com aproposta de emenda constitucional instituindo o sistema de governo parlamentarista,garantindo assim a posse de Jango na presidência, mas com poderes reduzidos, sendo oprimeiro-ministro escolhido pelo Congresso. Resolvido o impasse, Jango retornou ao Brasil etomou posse no dia 7 de setembro, tendo ao seu lado Tancredo Neves como primeiro-ministro.Com a decisão de Jango de acatar a escolha do regime parlamentarista, Brizolaencerrou a Rede da Legalidade, e passou a fazer sistemática pregação contra o regimeparlamentarista e pelo retorno ao presidencialismo, através da realização de um plebiscitonacional.
  20. 20. 20CAPÍTULO II – A CONJUNTURA POLÍTICA NACIONAL E LOCAL2.1 – A transferência da capital do Rio de Janeiro para BrasíliaO fim dos anos 50 e início dos 60 foi um período de grandes novidades para a cidadedo Rio de Janeiro. Em 1955, o mineiro Juscelino Kubitschek foi eleito presidente pelo PSD,em chapa formada com o PTB do vice-presidente João Goulart. A sua principal realização nocomando do país foi a construção de Brasília e a transferência da capital da cidade do Riopara a “Novacap”, que se concretizou em 21 de abril de 1960.A cidade do Rio, que sempre tinha seu prefeito indicado pelo presidente enquantocapital federal, criou grandes expectativas em relação ao pleito daquele ano, pois de formaimediata sofreu com o esvaziamento político e econômico ocasionado pela transferência dacapital.Com o intuito de amenizar tal ônus, o Rio de Janeiro foi transformado em cidade-estado, a única do Brasil: o estado da Guanabara. Pelo fato de ser um estado com municípioúnico, a cidade não elegeria um prefeito, nem vereadores. Em seu lugar, seriam escolhidos ogovernador e deputados estaduais. Para a Presidência da República, Câmara dos Deputados eo Senado Federal, a votação seria como em qualquer outro estado.A exclusividade de município único diferenciaria a cidade do Rio de Janeiro de todasas outras, colocando-a em evidência no cenário nacional por seu status e sua indiscutívelinfluência cultural e artística no restante do país. Com a transferência da capital para a“Novacap”, o Rio de Janeiro continuaria sendo a “Belacap”, palco das decisões políticas maisimportantes do Brasil desde 1763, quando a sede administrativa foi deslocada de Salvadorpara ela.O primeiro teste para a população da Guanabara foi a eleição de 1960, na qual ficouexplícita a insatisfação com a decisão da transferência da capital ao eleger um candidato quefazia feroz oposição à administração central, “denunciando” o “abandono” e “descaso” dasautoridades federais em relação à cidade do Rio de Janeiro.1515MOTTA, 2004, p. 29.
  21. 21. 212.2 – As primeiras eleições da GuanabaraNas primeiras eleições da Guanabara, em 1960, o jornalista Carlos Lacerda, que jáfora vereador e deputado federal, foi eleito governador pela UDN com 357.153 votos.Lacerda, ex-militante comunista, era ferrenho adversário do ex-presidente Getúlio Vargas e deseu legado político, representado principalmente pelo PTB.Na ocasião, Lacerda enfrentou Sérgio Magalhães, membro do chamado “GrupoCompacto”, que reunia os parlamentares mais radicais do PTB, e Tenório Cavalcanti,deputado federal pelo vizinho estado do Rio de Janeiro, considerado um político folclórico e“populista”. Magalhães foi derrotado por uma diferença pequena (pouco mais de 20 milvotos), ao receber o apoio de 333.901 eleitores. Tenório obteve, pela legenda do PST, poucomais de 220 mil votos.A candidatura de Tenório Cavalcanti foi apontada como principal causa da derrota doPTB, pois o candidato buscava votos nos mesmos redutos do PTB, principalmente ossubúrbios da Zona Norte e Zona Oeste. Na antiga 12ª zona eleitoral, que englobava Pavuna eMadureira, Tenório obteve a 2ª colocação, com 32.297 votos, apenas 1.332 votos atrás deSérgio Magalhães.A maior bancada da ALEG era de políticos da UDN. Ainda em 1960, o partido elegeu9 deputados constituintes, contra 6 do PTB. Somando-se os parlamentares da UDN com os doPR (2), PDC (1) e PTN (2), que fizeram parte da aliança que elegeu Lacerda, a basegovernista era de 14 deputados, de um total de 30.Nas eleições anteriores, em 1958, quando o Rio de Janeiro ainda era o DistritoFederal, a UDN elegeu 6 vereadores contra 5 do PTB, de um total de 17. O quadro se repetiuem Brasília, onde a UDN fez a maior bancada carioca, de 6 deputados. A bancada do PTB erade 5 deputados, e os outros partidos possuíam 6 cadeiras, de um total de 17.Além do crescimento da UDN, também contribuiu para o fraco desempenho do PTB ofortalecimento de pequenas legendas partidárias, como o PRT, PTN e PST, que possuíam emsuas fileiras políticos com boa votação nos mais diversos redutos da Guanabara, e que atémesmo confundiam o eleitorado por ter a palavra “trabalhista” em seus nomes.
  22. 22. 222.3 – Conjuntura nacional: governo parlamentarista de João GoulartEm 1962, o presidente era João Goulart, que fora reeleito vice-presidente da Repúblicanas eleições de 1960. Na ocasião, o candidato a presidente pela chapa PSD-PTB-PSB-PST-PRT era o marechal Henrique Teixeira Lott, derrotado pelo candidato do PTN, Jânio Quadros,apoiado por UDN, PDC, PR e PL.Naquele pleito, Jânio Quadros obteve 48,27% dos votos,contra 32,93% do general Lott. Concorreu também Adhemar de Barros, pelo PSP, queconquistou 19,56% dos votos, num universo de 12 milhões e meio de eleitores.À época, o vice-presidente era escolhido em eleição à parte. João Goulart foi eleitocom 36,1% dos votos, percentual pouco maior que os 33,7% dados ao candidato udenistaMilton Campos. O gaúcho Fernando Ferrari, do MTR, dissidente do PTB, que conquistou17% dos sufrágios.Relativamente jovens, Jânio Quadros e João Goulart, que possuíam, respectivamente,43 e 41 anos, possuíam estilos políticos totalmente antagônicos. Nascido no Mato Grosso doSul, Jânio Quadros começou sua meteórica carreira política na cidade de São Paulo. Com 30anos, se candidatou a vereador pela capital paulistana pelo PDC. Com a cassação do PCB e deseus parlamentares, Jânio assumiu a vaga na Câmara municipal.Em 1950, foi eleito deputado estadual com 17.840 votos, o mais votado do estado deSão Paulo. Três anos depois, foi eleito prefeito da cidade de São Paulo, com mais votos queos outros candidatos juntos. No ano seguinte, se candidatou ao governo do estado, ganhandodo ex-governador Adhemar de Barros por minúscula margem de votos: 660.264 a 641.960votos. No ano de 1958, ao fim de seu mandato, se candidatou a deputado federal pelo estadodo Paraná, não assumindo a vaga.Seu perfil era conservador, declaradamente anticomunista, demonstrando forteinfluência católica. Utilizava uma linguagem simples, era adepto do chamado “corpo-a-corpo” com os eleitores, e para demonstrar simplicidade, se mostrava por vezes desleixadocom a aparência.Foi candidato com apoio de grupos políticos tradicionais, com um discursoextremamente moralista, prometendo “varrer” a corrupção do Brasil, utilizando como símbolode sua campanha uma vassoura.
  23. 23. 23Do outro lado, estava João Belchior Marques Goulart. Nascido em São Borja, RioGrande do Sul, em 191916. De origem estancieira, assumiu os negócios da família em 1943,após a morte do pai. Era bem próximo do presidente Getúlio Vargas, e recebeu dele o convitepara ingressar no recém-fundado PTB, em 1945.Em 1947, foi eleito deputado estadual com 4.150 votos, sendo colega de bancada deLeonel Brizola e Fernando Ferrari. Em 1950, no mesmo ano em que Getúlio Vargas retornouà Presidência da República, Jango, como era conhecido, foi eleito com 39.832 votos, sendo o2º mais votado do partido. No ano seguinte, assumiu a Secretaria de Interior e Justiça do RioGrande do Sul, exercendo o cargo até 1953, quando foi escolhido Ministro do Trabalho pelopresidente Vargas. Na ocasião, Jango já era presidente nacional do PTB.Assumiu posição a favor dos trabalhadores urbanos, dos institutos de previdência edos sindicatos. Devido à grande defasagem do salário mínimo desde o governo de EuricoDutra, Jango propôs aumento de 100%, que foi acatado por Vargas. A atitude, porém, gerougrande reação de setores econômicos e militares conservadores, que culminou com a renúnciade Jango do cargo, em fevereiro de 1954.Com o suicídio de Vargas, em agosto de 1954, Jango era a principal liderança dopartido a nível nacional, o que o credenciou como candidato à vice-presidência no anoseguinte, na chapa de Juscelino Kubitschek, vencedora das eleições daquele ano.Em 1961, após a posse de Jango e Jânio Quadros, ambos começaram a desagradar osconservadores. Jânio por iniciar, paralelamente a uma política interna conservadora (proibiu ouso de biquínis em concursos de beleza, dentre outros), uma política externa independente,baseada nas idéias de Araújo Castro, Afonso Arinos e San Tiago Dantas.Na OEA, o Brasil defendeu a política de não-intervenção e de autodeterminação,principalmente em relação a Cuba comunista. Restabeleceu relações diplomáticas com aUnião Soviética e a China, e se aproximou de países do bloco socialista e da África, tendonomeado o primeiro embaixador negro da história do Brasil, Raimundo Sousa Dantas, queexerceu suas funções em Gana.Já a insatisfação contra Jango era justamente por seu passado e por suas ligações comgrupos sindicalistas e de esquerda, sendo taxado diversas vezes de “comunista” e“subversivo”.16“A maioria dos livros (...) apontam o ano de 1918, mas (...) ele nasceu no dia 1º de março de 1919. A confusãose deve a uma segunda certidão de nascimento, (...) que (...) acrescentou um ano à idade (...) para que elepudesse ingressar na faculdade...” (BRAGA, 2004,p. 19).
  24. 24. 24A crise se agravou quando Jânio Quadros condecorou o líder revolucionário Ernesto“Che” Guevara com a Ordem do Cruzeiro do Sul, mais alta condecoração da República.Sofrendo pressões de grupos variados, por parte principalmente da UDN, na figura de CarlosLacerda, possuindo baixo apoio no Congresso Nacional e enfrentando críticas de gruposesquerdistas por sua política de congelamento de salários, Jânio renunciou no dia 25 de agostode 1961.O episódio gerou a crise da sucessão de Jânio, quando a Rede da Legalidade foiorganizada por Brizola com o intuito de impedir o golpe que estava se organizando paraimpedir a posse de Jango, e o impasse foi resolvido com a “solução parlamentarista” (oepisódio foi abordado no capítulo 1.2).Quando Jango assumiu a presidência, setores da esquerda, do movimento estudantil,sindicatos e subalternos das Forças Armadas iniciaram a campanha pelas chamadas reformasde base, intervenção do governo nos setores agrário, bancário, administrativo, fiscal, eleitorale urbano. Exigiam também o retorno ao regime presidencialista, e criticavam a política deconciliação de Jango com setores de oposição, representada pela escolha do pessedistaTancredo Neves como primeiro-ministro do gabinete parlamentarista.17A crise do parlamentarismo se agravou depois que Tancredo Neves renunciou aocargo para concorrer a uma cadeira na Câmara dos Deputados, em 21 de julho de 1962. Oindicado por Jango para ocupar o cargo foi San Tiago Dantas, ministro das RelaçõesExteriores. San Tiago, porém, foi rejeitado pela UDN e por parte do PSD.Em uma tentativa de conciliação, o nome do senador paulista Auro Moura Andrade foiindicado, sendo aprovado pela Câmara por 222 votos a 51 votos.18Porém, com a rejeição deSan Tiago e a eleição de Auro, ex-integrante da UDN, setores populares e sindicaisconvocaram uma greve geral, com o objetivo de impedir a posse de Auro e a possívelnomeação de um gabinete conservador. Após uma semana de distúrbios, o professorFrancisco de Paula Brochado da Rocha, ex-secretário de Brizola e membro da ala progressistado PSD, foi escolhido pela Câmara no dia 10 de julho.Brochado da Rocha, com o apoio dos sindicatos e movimentos de esquerda, envioumensagem ao Congresso para marcar a data do plebiscito sobre o sistema de governo para odia 7 de outubro, dia das eleições. O plebiscito, porém, foi marcado para 6 de janeiro de 1963,o que motivou a renúncia de Brochado da Rocha no dia 14 de setembro, causando nova grevegeral.17FERREIRA, 2008, p. 21.18Jornal do Brasil, 3 de julho de 1962.
  25. 25. 25Com o fim iminente do sistema parlamentarista, Hermes Lima, escritor e jurista ligadoao PTB, foi eleito primeiro-ministro do Brasil, com a missão apenas de garantir as eleições dodia 7 de outubro e o plebiscito no ano seguinte.192.4 – A situação do PTB da Guanabara em 1962O suicídio de Vargas em 1954, aliado à transferência da capital federal para Brasília eà vitória da UDN em 1960, colaboraram para o enfraquecimento do PTB na Guanabara. Em1962, o único senador do PTB carioca era o Marechal Aguinaldo Caiado de Castro, que haviasido chefe do Gabinete Militar do ex-presidente Getúlio Vargas, eleito no pleito de 1954. Osoutros senadores eram Gilberto Marinho, eleito pelo PSD também em 1954, e Afonso Arinosde Melo Franco, eleito em 1958, pela UDN.O nome trabalhista que mais se destacava era o de Lutero Vargas, filho de Getúlio,que fora derrotado para o Senado em 1958. Apesar disso, Lutero não era uma figura de apelopopular. Não havia, no seio do partido, nenhum nome que pudesse fazer frente ao crescimentoda UDN, que, além de governar um importante estado de federação, dava indícios de que opróprio Carlos Lacerda poderia ser seu candidato à presidência da república nas eleições de1965.Vários membros do PTB da Guanabara começaram a defender a candidatura de algumex-governador da sigla à Câmara dos Deputados após verem Juraci Magalhães, entãogovernador da Bahia, se candidatando ao Senado pela UDN carioca, com o intuito de reforçaro peso eleitoral da sigla. Um desses membros era José Gomes Talarico20, eleito 1º suplente dedeputado federal, que assumiu o mandato em diferentes ocasiões.De acordo com Talarico, ao conversar com o presidente João Goulart sobre a ideia, onome sugerido foi o de Parsifal Barroso, então governador do Ceará pelo PTB. A idéia,porém, não agradou nem a Talarico, nem a Barroso, e a partir daí o nome de Leonel Brizola,jovem governador do Rio Grande do Sul, começou a ser cogitado dentro do PTB.19Jornal do Brasil, 18 de setembro de 1962.20As informações de José Gomes Talarico, salvo quando houver outra indicação de fonte, foram extraídas dolivro José Talarico, da Coleção Conversando sobre Política, de 1998, organizado por Américo Freire epublicado pela FGV.
  26. 26. 262.5 – Brizola candidato a deputado federalSegundo José Gomes Talarico, Brizola já pensava em se candidatar ao legislativo, peloestado do Paraná. Além de ser próximo ao Rio Grande do Sul, o estado contava à época comuma colônia de cerca 100 mil gaúchos, o que poderia contribuir para uma excelente votaçãode Brizola naquele estado.Tal informação é confirmada por matérias como a veiculada ainda em 1961 noCorreio da Manhã, na qual Filisbino Rocha, indicado como coordenador da candidatura deLeonel Brizola, declarou que dirigentes do PTB paranaense se reuniriam na Guanabara paratratar da oficialização da candidatura.21Quando o desejo de que Brizola fosse candidato pela Guanabara começou a ganharcorpo, alguns dirigentes do PTB defenderam sua candidatura pelo estado de São Paulo, pois“se se trata de aumentar a bancada trabalhista na Câmara, o governador Leonel Brizoladeveria candidatar-se por São Paulo, onde há um eleitorado quatro ou cinco vezes maior que odo Rio de Janeiro, possuindo mais da metade dos trabalhadores fabris do Brasil (quase ummilhão e meio), e a influência do PTB é mínima, faltando-lhe uma cabeça de chapa”. Amesma matéria dizia que Lutero Vargas se reuniria com João Goulart e Leonel Brizola acercada decisão sobre onde seria lançada a candidatura.22Após inúmeros debates e apelos do PTB carioca, mesmo com o PTB paranaense aindaconfirmando sua candidatura a poucos meses das eleições23, Brizola optou pela Guanabaraapós a confirmação por parte de Talarico de que teria amplo apoio de candidatos do partido àAssembléia Legislativa, já que, além de não conhecer geograficamente o Rio de Janeiro, suacampanha não contaria uma grande soma de recursos financeiros. A formação das“dobradinhas” facilitaria a campanha de Brizola entre diferentes setores sociais e regiões doestado da Guanabara.Após a promessa de José Talarico de que Brizola teria de “10 a 15 deputadosestaduais” apoiando sua candidatura, Brizola concordou em disputar a vaga na Câmara dosDeputados pela Guanabara, tendo o respaldo do PTB em diversas instâncias.21Correio da Manhã, 4 de agosto de 1961, p. 4.22Diário de Notícias, 17 de abril de 1962, p. 4.23Última Hora, 16 de março de 1962, p. 4.
  27. 27. 27Para tal empreitada, não haveria a necessidade de Brizola sair do governo gaúcho, nemde transferir o domicílio eleitoral para a Guanabara, em virtude dos dispositivos eleitoraisvigentes à época do pleito.Porém, uma das maiores motivações de Brizola em concorrer pela Guanabara seria ade disputar o pleito no reduto político de Carlos Lacerda, trazendo novamente ao cenáriopolítico carioca a disputa entre UDN x PTB24, na cidade que, na condição de ex-capitalfederal transformada em cidade-estado, havia optado anos antes pelo projeto políticolacerdista de defesa do Rio de Janeiro como “capital de fato” do Brasil.2524MOTTA, 2000, p. 73.25Ibidem, p. 44-45.
  28. 28. 28CAPÍTULO III – DISPOSITIVOS ELEITORAIS VIGENTES EM 1962Em 1945, ainda durante o Estado Novo, foi decretada a chamada Lei Agamenon(Decreto-Lei Nº 7.586, de 28 de maio de 1945), elaborada por Agamenon Magalhães,ministro da Justiça do governo de Getúlio Vargas. Dentre outros pontos, a Lei Agamenonestabeleceu o Tribunal Superior Eleitoral e os Tribunais Regionais Eleitorais, órgãosnormativos e fiscalizadores do sistema eleitoral brasileiro.Foi estabelecido através desta lei o sufrágio universal obrigatório, adulto, secreto ealfabetizado, além do princípio de votação majoritária para a escolha de presidente,governadores e senadores, e proporcional para a eleição de deputados e senadores.No que diz respeito aos partidos políticos, a Lei Agamenon instituiu a obrigatoriedadede partidos em caráter nacional, abolindo os partidos locais, comuns no período da RepúblicaVelha (1889-1930), que serviam, em sua maioria, de base às oligarquias estaduais. Para queum partido político fosse registrado, eram necessárias 10 mil assinaturas em pelo menos 5estados da federação, sendo que nenhum estado poderia ter menos de 500 assinaturas.Em relação às candidaturas, o dispositivo era confuso: um mesmo candidato poderiaconcorrer por mais de um partido para os cargos disputados pelo voto majoritário (senador,prefeito, governador e presidente), mas somente por um partido ou coligação para cargosdisputados pelo voto proporcional (deputados federais e estaduais). Além disso, o candidatopoderia concorrer ao mesmo tempo para presidente, senador e deputado federal, num mesmoestado ou em mais de um. As candidaturas deveriam ser registradas por partidos oucoligações, sendo proibidas as candidaturas avulsas.Getúlio Vargas e Luís Carlos Prestes foram exemplos típicos da Lei Agamenon. Naseleições de 1945, realizadas após o fim do Estado Novo, o ex-presidente foi eleito senadorpelo PTB em São Paulo e pelo PSD no Rio Grande do Sul, e deputado pelo PTB na Bahia,Minas Gerais, Paraná, Rio de Janeiro, pelo antigo Distrito Federal (cidade do Rio de Janeiro),Rio Grande do Sul e São Paulo. Prestes foi eleito senador pelo PCB no Distrito Federal, edeputado federal também pelo Distrito Federal, Pernambuco e Rio Grande do Sul.26Com apossibilidade da candidatura fora do estado de origem, não houve necessidade de Brizolatransferir o domicílio eleitoral, como a legislação atualmente em vigor exige.26Site Eleições Pós-1945, acessado em 10 de fevereiro de 2012.
  29. 29. 29Em 1950, foi instituído o Código Eleitoral (Lei 1.164, de 24 de julho de 1950), queaperfeiçoou a Lei Agamenon. Segundo o Código, por exemplo, o registro de candidatosdeveria ser feito até 15 dias antes das eleições. A inscrição eleitoral deveria acontecer deforma individual, ao contrário da Lei Agamenon, onde poderiam ocorrer inscrições ex-officio,ou seja, o alistamento eleitoral poderia ser em massa, com empresas e entidades de classeenviando listagens de funcionários para alistá-los como eleitores, com o objetivo de acelerar oprocesso.Sobre o registro de partidos políticos, o Código Eleitoral estabeleceu as seguintesregras: para registro, o partido deveria possuir 50 mil assinaturas, em 5 ou mais unidades dafederação, com o mínimo de 1000 assinaturas em cada unidade. O Código também legislavasobre a Justiça Eleitoral, alistamento eleitoral, o sistema eleitoral, coligações, locais devotação, o rito da apuração, diplomação, funcionamento dos partidos políticos, propagandapartidária e uma enorme lista de infrações eleitorais e suas respectivas penas.Apesar do grande e por vezes confuso dispositivo eleitoral, muitas regras para aseleições eram modificadas a poucos meses da eleição, e as regras poderiam variar de estadopara estado, de acordo com cada TRE.Em junho de 1962, o TRE da Guanabara fixou normas para a realização de comíciosem espaços públicos do estado. As reuniões, liberadas a partir do dia 7 de julho, deveriam sercomunicadas à polícia, “para fins de prioridade, a fim de evitar dualidade de reunião nomesmo local, com a antecedência mínima de 24 horas”. Entre os locais liberados paracomícios estavam as praças Barão de Drumond, das Nações, Santos Dumont, General Osório,1º de Maio, Cardeal Arcoverde, Felipe Cardoso, Rio Grande do Norte e o Jardim do Méier.27Ainda em junho, no dia 27, decisão do TSE desconsiderou a necessidade dedesincompatibilização para os governadores que desejassem concorrer a outros cargos, desdeque a candidatura fosse em outro estado que não o governado.28Desta forma, Brizola secandidatou ainda exercendo o cargo de governador do Rio Grande do Sul, tendo sido eleitodeputado federal pela Guanabara no dia 7 de outubro de 1962, e cumprindo o mandato nogoverno gaúcho até 25 de março de 1963.No dia seguinte, o alistamento eleitoral para aseleições de outubro foi encerrado pelo Tribunal Regional Eleitoral da Guanabara.29No dia 3 de julho, a Câmara dos Deputados aprovou a cédula única e a condições parapropaganda eleitoral nas eleições de outubro. Segundo o projeto, as emissoras de rádio e27Última Hora, 13 de junho de 1962, p. 5.28Idem, 28 de junho de 1962, p. 4.29Última Hora, 29 de junho de 1962, p. 2.
  30. 30. 30televisão deveriam reservar, diariamente nos 60 dias antes das eleições, o espaço de duashoras para veiculação de propaganda eleitoral dos diferentes partidos políticos, segundo arepresentação nas casas parlamentares. O projeto também regulamentava a admissão eexoneração de funcionários públicos no período pré e pós-eleitoral, bem como as cores nascédulas e o registro de candidaturas, que deveriam ser efetuadas até 45 dias antes da eleição.30As normas específicas para as eleições gerais de 1962 foram explicitadas na ResoluçãoNº 7.018, de 4 de setembro do mesmo ano, com instruções sobre seções eleitorais, lugares devotação, fiscalização, início e encerramento de votação, além de preenchimento de cédulas eaplicação de multas.30Jornal do Brasil, 4 de julho de 1962, p. 3.
  31. 31. 31CAPÍTULO IV - COMPOSIÇÃO DAS CHAPAS E ALIANÇAS PARTIDÁRIASNAGUANABARA PARA AS ELEIÇÕES DE 19624.1 – Alianças para o Senado e o vice-governo da GuanabaraDe acordo com a legislação, o candidato a vice-presidente e vice-governador erameleitos separadamente, podendo ser de partidos diferentes.O PTB se aliou ao PSB para a disputa eleitoral de outubro para os cargos de deputadofederal, vice-governador e senador, formando a Aliança Social Trabalhista (AST). Para aALEG, ambos os partidos concorreram isoladamente. O objetivo da aliança era, além defortalecer a esquerda eleitoralmente frente aos partidos ideologicamente opostos, que àquelaaltura ganhavam espaço na Guanabara, lutar pela realização do plebiscito sobre o sistema degoverno.Para concorrer ao cargo de vice-governador, o indicado foi o deputado Eloy Dutra,que começou a despontar como candidato a poucos meses das eleições.31Eloy era radialista,se notabilizando ainda na década de 50 pela defesa de Getúlio Vargas, sendo eleito deputadofederal em 1958 com quase 60 mil votos, o mais votado do PTB.Para o cargo de vice-governador, Lacerda decidiu apoiar o então presidente da ALEGLopo Coelho, do PSD, com dois objetivos claros: o primeiro, de estabelecer aliança com oPSD, a fim de viabilizar a aprovação de projetos de interesses do governo. O segundo, deminimizar a polarização ideológica com o PTB, com a escolha de um candidato a vice-governador considerado neutro.32A tentativa de Lacerda, porém, falhou após o episódio daagressão de Lopo Coelho contra Roland Corbisier, intelectual do ISEB e deputado pelo PTB,no plenário da ALEG. Dirigentes do PSD estavam convencidos de que o objetivo da agressãoera distanciar o partido, dividido em relação a Lacerda, de uma possível aliança com o PTB.33Desta forma, o PSD se aliou à UDN na disputa pelo cargo de vice-governador do estado.O candidato a vice-governador pelo minúsculo PL era o jornalista Mário Martins, ex-deputado federal pela UDN, que oscilava entre a aproximação e o rompimento com CarlosLacerda.31Última Hora, 8 de junho de 1962, p. 3.32MOTTA, 2000, p. 71.33Última Hora, 23 de junho de 1962, p. 3.
  32. 32. 32Para o Senado Federal, o quadro era um pouco diferente. O escolhido pela AST paraconcorrer a uma das vagas de senador foi Aurélio Viana, então deputado federal pelo PSB deAlagoas e integrante da FPN.34Aurélio era acusado de ser comunista e de ser utilizado peloPTB com o objetivo de atrair apoios e votos dos comunistas para a legenda.35Antes de suaescolha, outros nomes cotados eram Mourão Filho, que concorreu pelo PST, o acadêmicoHermes Lima, escolhido Primeiro-Ministro para último gabinete parlamentarista em setembrode 1962, e o jurista Max da Costa Santos, ex-presidente do Conselho Federal das CaixasEconômicas durante o governo JK, que decidiu se candidatar à Câmara dos Deputados.Depois de amplos debates internos sobre o possível apoio do PTB à candidatura ao Senado deHugo Ramos, do PSD, no dia 3 de agosto o PTB decidiu que o único candidato seriaAurélio,36e também apoiaria informalmente a candidatura de Gilberto Marinho.37O candidato da UDN, Juraci Magalhães, foi eleito presidente nacional do partido em1957, e no ano seguinte foi eleito governador da Bahia. Foi revolucionário em 1930, atuandoao lado de Juarez Távora no comando do movimento no Nordeste. Após o Estado Novo,passou para a oposição, ajudando a fundar a UDN em 1945. Havia sido ainda presidente daCompanhia Vale do Rio Doce e adido militar brasileiro nos EUA. Por sua grande experiênciae pelo fato de ser uma figura nacional da UDN, se candidatou ao Senado pela Guanabara, como objetivo de consolidar o poder do partido no estado e dificultar qualquer tentativa do PTBem retomar o espaço perdido para Lacerda.Gilberto Marinho havia sido eleito senador em 1954 pelo PSD, com 260 mil votos.Pela boa relação que tinha com o governo João Goulart, apesar de ser de perfil conservador eter apoio de parte da UDN, Marinho conseguiu o apoio informal do PTB à sua reeleição.Antônio Mourão Vieira Filho foi escolhido pelo PST como candidato ao SenadoFederal. Mourão Filho era médico e foi eleito vereador mais votado pelo PSP em 1958, tendocomo base os subúrbios da Leopoldina.4.2 – Câmara dos Deputados34MOTTA, 2000, p. 72.35A Noite, 4 de agosto de 1962, p. 2.36Última Hora, 3 de agosto de 1962, p. 2.37FREIRE, 1998, p. 159.
  33. 33. 33A AST lançou uma forte nominata de candidatos a deputado federal. ConstavamLeonel Brizola, Sérgio Magalhães, Eloy Dutra, Max da Costa Santos, Breno da Silveira (ex-vereador e deputado federal), Benjamin Farah (deputado federal) e Roland Corbisier. Outrosnomes eram novidades, como Benedito Cerqueira, dirigente sindical dos metalúrgicos esecretário-geral da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Indústria, e Antonio GarciaFilho, sargento do Exército e filho de ferroviário, escolhido em convenção por um grupo de300 a 400 militares das diversas armas, empolgados com as ações de nacionalização e apregação das reformas de base feitas por Brizola. A candidatura de Garcia Filho esbarrava nalegislação da época, que não permitia que os praças das Forças Armadas votassem.38A UDN concorreu sem alianças para a Câmara dos Deputados. Os principais nomeseram o deputado estadual jornalista Fidelis Amaral Neto, ferrenho anticomunista; o ex-vereador e deputado federal Adauto Lúcio Cardoso; o jurista Aliomar Baleeiro; o ex-ministrodos Transportes Maurício Joppert; o deputado federal Eurípedes Cardoso e o ex-senador peloentão Distrito Federal Hamilton Nogueira.O PSD e o PST formaram uma coligação, a Frente Popular. Sua lista era bem maismodesta que as anteriores: Chagas Freitas, dono dos jornais O Dia e A Notícia, ex-aliado dogovernador paulista Adhemar de Barros, portanto egresso do PSP; o já deputado federalNelson Carneiro e o ex-prefeito do Distrito Federal Ângelo Mendes de Moraes. Era tambémcandidato pela FP o membro do comitê central do PCB Marco Antonio Coelho, filiado aoPST.Pelo PDC, destacavam-se apenas o general Juarez Távora, revolucionário de 1930 queposteriormente rompeu com Vargas e se alinhou ideologicamente a setores da UDN; e AfonsoArinos Filho, então deputado estadual eleito pela UDN.4.3 – Assembleia LegislativaO número de partidos disputando as eleições para a ALEG era 2 vezes maior que osque disputavam as vagas para deputado federal: 12 ao todo. Não houve a constituição dealianças, com todos os partidos disputando isoladamente as 55 vagas.38Para saber mais sobre a influência de Brizola em setores nacionalistas e progressistas das Forças Armadas, vera dissertação de mestrado de César Rolim, pela UFRGS, intitulada “Leonel Brizola e os setores subalternos dasForças Armadas brasileiras: 1961-1964”.
  34. 34. 34UDN e PTB disputaram com força máxima. A UDN apostou na reeleição do radialistaRaul Brunini, da professora Lygia Lessa Bastos, do ex-chefe de polícia Frota Aguiar e dogeneral conservador Danilo Nunes. Concorreram ainda o médico Raimundo de Brito; osadvogados Vitorino Bartlet James e Nina Ribeiro; o policial militar Édson Guimarães, combase eleitoral em Anchieta; os dentistas Geraldo Ferraz e Paulo Areal, ex-vereador do GrandeMéier; e o jurista Célio Borja.Por sua vez, o PTB lançou os jornalistas da Última Hora Saldanha Coelho e PauloAlberto de Barros (Artur da Távola) e o líder sindical e dirigente do PCB Hércules Corrêacomo candidatos à reeleição. Eram candidatos o também líder sindical José Gomes Talarico ea professora Edna Lott, filha do Marechal Henrique Lott, ainda muito prestigiado por setoresnacionalistas das forças armadas e militantes de esquerda. O primeiro havia assumidoalgumas vezes o mandato na Câmara dos Deputados, a segunda era candidata pela primeiravez. Ib Teixeira, outro jornalista da Última Hora, os funcionários públicos Rubens Macedo eLuiz Corrêa, os advogados José Dutra e Sinval Sampaio, o animador cultural OsvaldoSargentelli, o líder negro Abdias Nascimento, o dono de colégio Celso Lisboa e o ex-vereadorHorácio Cardoso Franco reforçavam o time do PTB.O PST lançou o advogado socialista Sinval Palmeira, a liderança comunista JoãoMassena Melo, o jornalista Nelson José Salim e o líder comunitário de Bangu Ubaldo deOliveira. Era também candidato o advogado Alfredo Tranjan. Pelo PSD, o cirurgião dentista etambém advogado Sami Jorge, o advogado Hugo Ramos e os empresários donos de colégiosGonzaga da Gama Filho e Miécimo da Silva eram candidatos à reeleição, tendo comocompanheiros de chapa Augusto do Amaral Peixoto Júnior, ex-prefeito do Distrito Federal eirmão do ex-governador Ernani do Amaral Peixoto, cacique do PSD; o advogado JoséBonifácio Diniz de Andrada.A escritora e colunista social Adalgisa Nery concorria a mais um mandato pelo PSB, edisputavam pelo mesmo partido o médico Jamil Haddad, o líder sindical de Irajá PedroFernandes Filho, o intelectual Bayard Boiteux e o advogado José Frejat. Pelo PRT, os ex-vereadores Antonio Luvizaro, líder comunitário de Marechal Hermes, e Manoel Navella, daregião do Catumbi e Rio Comprido, eram acompanhados por João Xavier, médicoproeminente do Engenho de Dentro.No PDC, os principais nomes eram o diplomata Álvaro Valle, os professores HélioAlonso e Gama Lima e o advogado Everardo Magalhães Castro. Pelo PSP, os principaisnomes eram os já deputados Waldemar Viana, líder sindical, e o dentista Levy Miranda
  35. 35. 35Neves, além do ex-vereador e advogado Rubem Cardoso. Na chapa do PR, o médico espíritaTelêmaco Gonçalves Maia tentava retornar ao Palácio Pedro Ernesto, acompanhado doadvogado Paulo Duque e do general Naldir Laranjeira, que tentava a reeleição.O PTN lançava o ex-vereador Amando da Fonseca, da Polícia de Vigilância, comvotos na região da Rocinha; o médico Gerson Bergher, candidato à reeleição e votado pelacomunidade judaica e o representante dos espíritas Átila Nunes. José Antonio Cesário deMelo, da região de Campo Grande e Santa Cruz, e o fiscal de renda e deputado estadualSilbert Sobrinho eram candidatos pelo PL. O médico João Machado era o principal nome doMTR.
  36. 36. 36CAPÍTULO V – A CAMPANHA ELEITORAL5.1 – Organização e plataforma da candidatura BrizolaPara coordenar sua campanha, Brizola trouxe uma equipe do Rio Grande do Sul,liderada por Jecy Sarmento, seu oficial de gabinete, que logo centralizou as ações, causandoestranhamento em parte dos aliados.39Além de José Talarico, vários candidatos a deputadoestadual faziam campanha para Brizola, como Luiz Corrêa, Paulo Alberto de Barros (Artur daTávola), Sinval Sampaio, dentre outros. O PTB também veiculou anúncios pedindo o votopara Brizola e Badger da Silveira, candidato do partido ao governo do estado do Rio deJaneiro, o que gerou confusão nos eleitores daquele estado.40No fim das eleições, Brizolaainda recebeu cerca de 60 mil votos no estado do Rio, que tiveram de ser anulados.41A principal plataforma de campanha era a pregação nacionalista a favor das reformasde base; pelo plebiscito sobre o sistema de governo, mostrando-se favorável aopresidencialismo; a Lei de Remessa de Lucros sobre o que Brizola chamava de “perdasinternacionais”, o envio indiscriminado de altas quantias para o exterior; além de denunciar atentativa de golpe arquitetado pela UDN e por setores militares contra a posse de JoãoGoulart, em 1961.O principal instrumento de comunicação de Brizola durante a campanha foi a RádioMayrink Veiga, além da cobertura do jornal Última Hora, sobre os quais veremos a seguir.5.2 – Jornais e rádios do estado da GuanabaraEm 1962, a televisão ainda era inacessível para muitos e os canais de TV eram poucos.Dessa maneira, os jornais e as rádios ainda ocupavam um grande espaço dentre os meios decomunicação, o que explica seu protagonismo em questões políticas até fins dos anos 1960.39FREIRE, 1998, p. 156-157.40Última Hora, 5 de outubro de 1962, p. 5.41FREIRE, 1998, p. 157.
  37. 37. 37Na Guanabara, ex-capital federal, o número de jornais era considerável, com destaquepara O Globo, Jornal do Brasil, Última Hora, Tribuna da Imprensa e O Dia. Eram tambémórgãos de razoável circulação o Diário de Notícias, o Correio da Manhã e A Noite. Dentre asrádios, estavam a Nacional, Mayrink Veiga, Tupi e Globo. É preciso, de antemão, conhecer ohistórico e a linha editorial da cada veículo de comunicação para entender seu papel naseleições de 1962.O jornal O Globo e a rádio homônima eram de propriedade da família Marinho, daqual se destacava Roberto Marinho. Criado em 1925, possuía uma linha políticaconservadora, demonstrando esta filiação publicamente ao apoiar, por exemplo, a tentativa dederrubada de Getúlio Vargas em 1954 e o golpe civil-militar que viria a ocorrer em 1964.O Jornal do Brasil foi criado em 1891 por Rodolfo Dantas. Em seu início, alternouentre a defesa da monarquia já deposta e a da república recém-instaurada. Assim como oconcorrente O Globo, o veículo era identificado com o conservadorismo político.A Última Hora, de 1951, era dirigida pelo jornalista Samuel Wainer. Era o maisimportante jornal de linha esquerdista, fundado com o objetivo principal de defender osegundo governo de Vargas (1951-1954) dos ataques dos jornais conservadores. Após a mortede Vargas, manteve a sua linha política, sendo o principal porta-voz da esquerda e dos setoresprogressistas e populares da sociedade.O principal rival da Última Hora era a Tribuna da Imprensa, fundada em 1949 porCarlos Lacerda. Foi durante o segundo mandato de Vargas o principal órgão de denúncias ecríticas ao governo, chegando em momentos extremos a pregar abertamente o golpe de estadocontra o presidente. Tendia politicamente para o liberal-conservadorismo, tendo em suaspáginas artigos de jornalistas como David Nasser e Amaral Neto.O jornal O Dia pertencia ao deputado Chagas Freitas, ex-aliado de Adhemar deBarros. Circulou a partir de 1951. Por ter forte apelo popular, era considerado um veículo daimprensa marrom. Chagas era sócio juntamente com Adhemar do vespertino A Notícia, demenor circulação.O Correio da Manhã começou a circular em 1901, fundado por Edmundo Bittencourt.Era de linha política liberal, fez forte oposição ao governo Vargas, e não fugia à regra comJoão Goulart. O Diário de Notícias, fundado em 1930, era dirigido por Orlando RibeiroDantas. No ano de sua fundação, apoiou a Revolução de outubro liderada por Getúlio Vargas.A partir de 1932, passou a combater Vargas até sua saída do poder, em 1945. Com a morte deseu fundador em 1953, a direção do jornal passou à sua viúva Ondina Portela Ribeiro Dantas
  38. 38. 38e ao seu filho João Ribeiro Dantas, que apoiou a eleição de Jânio Quadros. Sua linha políticaera ambígua, apoiando e se opondo ao governo João Goulart em diversos momentos.A Rádio Nacional, de 1936, foi criada como empresa privada, posteriormenteestatizada por Vargas durante o Estado Novo. Era a principal emissora do país, com aprogramação voltada principalmente para a música, jornalismo e entretenimento.Criada em 1926, a Rádio Mayrink Veiga era líder de audiência nas décadas de 1920 e1930. Com ela, houve o início da chamada “Era do Rádio” ou “Era de Ouro do Rádio”.Perdeu o posto de líder com a criação da Rádio Nacional.Fundada em 1935, a Rádio Tupi era, juntamente com o canal de televisão de mesmonome, o principal veículo do maior conglomerado de comunicação da época, os DiáriosAssociados, de propriedade de Assis Chateaubriand. Chateaubriand era notório defensor doalinhamento brasileiro ao modelo econômico liberal norte-americano, sendo uma dasprincipais figuras da emergente burguesia brasileira.5.3 – A candidatura de Brizola nos meios de comunicação e a influência do IPES/IBADDesde as encampações promovidas no Rio Grande do Sul, Brizola passou a ser alvo deataques da imprensa, em grande parte conservadora, contrárias às suas ideias e ações. Erampoucos os órgãos de comunicação onde ele possuía espaço para difundir sua pregação políticae se defender de ataques, e na maioria das vezes os espaços eram pagos.Um dos órgãos onde Brizola conseguiu espaço foi a Rádio Mayrink Veiga, ao comprarparte de seu horário. Brizola pedia aos seus simpatizantes, contribuições financeiras paramanter o programa no ar, e denunciava a influência explícita do capital estrangeiro,principalmente norte-americano, no financiamento de instituições que patrocinavamcampanhas de políticos de diversos partidos, além da compra de grandes espaços nas rádios ejornais de maior circulação.Os embates com a imprensa conservadora começaram antes mesmo da oficializaçãode sua candidatura. Em junho, o Correio da Manhã publicou em sua capa a manchete“Eleitores podem impugnar a candidatura de Brizola”, com instruções de como o pedidodeveria ser feito ao TRE da Guanabara. Segundo a matéria, Brizola não poderia se candidatarà Câmara, pois além de ainda ocupar o governo gaúcho, possuía parentesco de 2º grau com o
  39. 39. 39presidente João Goulart. O jornal dizia se basear em decisões anteriores do TSE e nalegislação eleitoral da época.42No mês seguinte, o PTB da Guanabara afirmou que a inelegibilidade de parentes deaté 2º grau do presidente da república não atingiria Brizola, “uma vez que antes da eleição doSr. João Goulart já houvera exercido o mandato de deputado. Essa exceção é feita no art. 140da Constituição, nº 1, letra C”. 43No dia 19 de agosto, um anúncio no Jornal do Brasil afirmava que Brizola, no diaanterior, já havia pedido ao PTB o registro de sua candidatura para deputado federal pelaGuanabara. Ainda no dia 19, o jornalista Franklin de Oliveira, do Diário de Notícias, escreveuo artigo Uma Voz, no qual comparava as trajetórias de Jânio Quadros e Leonel Brizola. Sobreo primeiro, Franklin falou da decepção, pois os brasileiros haviam nele depositado a confiançae Jânio, ao invés ver nos “vícios e imoralidades da nossa estrutura social” o cerne dos malesdo país, achava que o problema estava “no comportamento dos homens”. Sobre Brizola, ojornalista fez um balanço sobre seu governo no Rio Grande do Sul, totalmente transformadoapós a passagem de Brizola pelo governo, principalmente no que dizia respeito àinfraestrutura, economia, educação e reforma agrária. O artigo enfatizava a liderança jovem eentusiástica de Brizola, assim concluído:No Tribunal Regional Eleitoral da Guanabara deu entrada ontem o pedido deinscrição da candidatura do governador Brizola a deputado federal pelaBelacap.Os cariocas não vão ganhar apenas mais um paladino para suas causas. Acandidatura do jovem líder gaúcho irrompe como um pólo de atração detodas as forças progressistas nacionais. E é do solo irredento da Guanabaraque ela prorrompe como uma voz de comando. A que nos estava faltando.44A visão positiva de Franklin sobre Brizola, porém, era minoritária nos jornais, muitosdeles favorecidos pelas altas quantias vindas das propagandas de candidatos da direita,principalmente a UDN. O Correio da Manhã continuava divulgando notícias relativas apedidos de impugnação contra a candidatura de Brizola, um deles por iniciativa do advogadoLuiz Mendes de Morais Neto, também candidato a deputado federal pelo PDC.4542Correio da Manhã, 6 de junho de 1962, p. 1.43A Noite, 10 de julho de 1962, p. 2.44Diário de Notícias, 19 de agosto de 1962, p. 545Correio da Manhã, 28 de agosto de 1962, p. 6.
  40. 40. 40No dia 30 de agosto, era publicado anúncio de inauguração do Comitê Central LeonelBrizola, por iniciativa do deputado federal Miguel Leuzzi, do PTN janista. O Comitêfuncionaria diariamente, das 8h às 22h, no Largo da Lapa, 28, Centro do Rio.46Leuzzi foi umdos proprietários da Rádio Mayrink Veiga47, e nas eleições de 1962 seria eleito suplente dosenador Auro Moura Andrade (PSD-SP), o mesmo que dois anos depois declararia vaga aPresidência da República após o golpe civil-militar.Já em setembro, durante a campanha, Brizola fez denúncias de uma tentativa desuborno de um jornal da Guanabara por grupos econômicos, se dirigindo diretamente contraCarlos Lacerda, a quem chamou de “figura tétrica”, interessado em um golpe “direitista,americanista, entreguista e de negociatas”. Brizola fez ainda a ameaça de um levante popularcontra o Congresso Nacional, caso o plebiscito sobre o sistema de governo não fosse fixado.Lacerda retrucou, afirmando que a resposta às acusações de Brizola deveria ser dada porAmaral Neto. Pediu ainda uma resposta de João Goulart, e não “de seu cunhado”, dizendo quenão se meteria em “questões de família”. Lacerda também acusou Brizola de golpista e de“açambarcar arroz”.48Como governador do Rio Grande do Sul, devido às graves crises de abastecimento daGuanabara, Brizola enviava o excedente da produção de arroz para o Rio, levantandoacusações por parte de Lacerda de que estaria ele, Brizola, causando a crise do abastecimento,por ser o estado gaúcho grande produtor agrícola, com o objetivo de denegrir a imagem dogoverno da UDN.Um dos grupos denunciados por Brizola era o IPES – Instituto de Pesquisas e EstudosSociais, que surgiu no início de 1962 inicialmente como uma instituição que se proclamavacontra a radicalização política entre direita e esquerda. Logo depois, porém, o IPES montouuma ampla rede interessada em colher informações sobre a suposta infiltração comunista nogoverno Jango, contando com isso com a colaboração de militares reformados e da ativa,atuando inclusive na ESG. Tais informações seriam repassadas aos oficiais que ocupavampostos de comando, em todo o país. Somente com o trabalho de propaganda entre as ForçasArmadas, o IPES teria gasto cerca de US$ 200.000.000 a US$ 300.000.00 anualmente, entre1962 e 1964.4946Última Hora, 30 de agosto de 1962, p. 3.47LEITE FILHO, 2008, p. 251.48Jornal do Brasil, 3 de setembro de 1962, pp. 1-3.49BANDEIRA, 1977, p. 66.
  41. 41. 41Outra importante instituição, que atuava na mesma linha que o IPES, era o IBAD –Instituto Brasileiro de Ação Democrática, fundado em 1959 por Ivan Hasslocher. Em 1962, oIBAD arrendou o jornal A Noite, de média circulação na Guanabara, durante 90 dias. Entre asações à frente do jornal estavam a propaganda favorável aos candidatos financiados peloIBAD e o forte conteúdo anticomunista.Ambas as instituições recebiam grande parcela de recursos estrangeiros, com o intuitode financiar o radicalismo político de direita. Entre os doadores em comum estava a FundaçãoKonrad Adenauer, ligada à CDU alemã-ocidental. O IBAD recebeu recursos da Texaco,Shell, Coca Cola, Bayer, GE, IBM, Souza Cruz, Remington Rand, Belgo Mineira, dentreoutras empresa brasileiras, bancos e multinacionais.No dia 5 de setembro, A Noite, denunciada por Brizola e já sob comando do IBAD,divulgava nota de que expiraria naquele dia, às 18 horas, o prazo para apresentação deprocessos de impugnações contra ele e qualquer outro integrante de sua chapa. Curiosamente,na mesma página eram veiculados anúncios das candidaturas de Juarez Távora, DioclécioDuarte, Menezes Côrtes, Raymundo Padilha, Edilberto de Castro e Raul Brunini, candidatosapoiados pelo IBAD.No dia 14 do mesmo mês, por ordem do TRE carioca, tropas da polícia foramenviadas à Mayrink Veiga para coibir a “divulgação de propaganda subversiva”. Quando apolícia chegou à rádio, porém, tropas do I Exército, liderado pelo General Osvino FerreiraAlves, militar nacionalista, impediram seu acesso. Tal episódio, classificado como“intervenção de fato” pelo TRE, foi mais um capítulo das tensões entre o Governo Federal e oGoverno da Guanabara, liderado por Carlos Lacerda.50O objetivo era claro: coibir ospronunciamentos de Brizola na rádio, principal instrumento de sua campanha.5.4 – Comícios e eventos de campanhaAntes mesmo da oficialização de sua candidatura, Brizola já participava de diversoscongressos, manifestações cívicas e protestos, muitos deles organizados por sindicatos ousetores políticos ligados ao PTB. Um exemplo foi o II Congresso Nacional da Liga Nacional50Jornal do Brasil, 18 de setembro de 1962, p. 3.
  42. 42. 42da Mocidade Trabalhista, realizada em junho no Palácio Tiradentes, da qual Brizolaparticipou como principal atração.51Apesar disso, foram poucos os eventos políticos de sua campanha dos quais Brizola defato participou, colaborando para isso o fato de ainda governar o Rio Grande do Sul, além deter de cuidar de seus três filhos pequenos. Talvez o maior deles tenha sido o chamadoComício da Independência, realizado no dia 7 de setembro no Largo do Machado, Zona Sulda Guanabara. Brizola chegou à praça às 20:20h, carregado pelos populares. Oacompanhavam na tribuna Aurélio Viana, Eloy Dutra, Sergio Magalhães e o líder sindicalOsvaldo Pacheco, presidente da União dos Portuários do Brasil. O tema foi quase unânime: oretorno do sistema presidencialista e a as reformas de base. No fim do comício, Brizola foicarregado pelo público, retornando logo após para Porto Alegre.52Outro grande comício foi o último, realizado no dia 5 de outubro, em Bangu, ZonaOeste. Cerca de 20 mil pessoas participaram do evento, que reuniu candidatos da AST naPraça Primeiro de Maio. Entre as falas, denúncias contra o governo Lacerda, pregações afavor das reformas de base, do presidencialismo, além de homenagens prestadas porsindicatos, artistas e populares.53Os comícios foram um grande instrumento da AST na promoção da candidatura deBrizola, pois, mesmo impossibilitado de ir à Guanabara fazer campanha, os candidatos dacoligação falavam em seu nome e a ele sempre faziam referências. Além disso, os jornaisconservadores faziam questão de sempre manter o nome de Brizola de forma negativa nosnoticiários, o que acabou gerando efeito contrário.51Última Hora, 29 de junho de 1962, p. 352Idem, 7 de setembro de 1962, p. 2.53Idem, 5 de outubro de 1962, p. 2.
  43. 43. 43CAPÍTULO VI – RESULTADO DAS ELEIÇÕESNo dia 7 de outubro, as eleições gerais de 1962 foram realizadas. Ainda no dia anteriorao do pleito, o advogado Luiz Mendes de Morais Neto continuou sua tentativa de impedir acandidatura de Brizola, desta vez entrando com recurso contra a decisão do TRE que nãoaceitou seu pedido inicial de impugnação. Nos jornais, declarações do Ministro da Guerra,General Amaury Kruel, de que as eleições seriam livres e tranqüilas.A Última Hora divulgou, no dia seguinte ao das eleições, pesquisas do IBOPEapontando a vitória dos candidatos Eloy Dutra e Aurélio Viana, e dando como certa a boavotação de Brizola e da legenda do PTB. Já no dia 9, com apenas 195 urnas apuradas, Brizolajá tinha quase 6 mil votos, enquanto o segundo colocado, Amaral Neto, aparecia com poucomais de 2 mil. No dia 11, o mesmo jornal já divulgava Brizola com 61.214 votos.Com a iminente vitória, Eloy Dutra demonstrou que acumularia os mandatos de vice-governador e deputado federal em Brasília, afirmando que já existia um precedente naCâmara, do deputado Paulo de Tarso, “prefeito de Brasília”. Tal idéia de Eloy provocou a irada UDN, que ameaçou ir à justiça para impedir.54Poucos dias depois, o TRE declarouformalmente que diplomaria Eloy nos dois cargos.55Já admitindo a derrota, A Noite mudava o foco dos noticiários, pouco falando daapuração que ainda ocorria. No dia 9, entre sua manchetes estavam “DESORDENS NARÚSSIA POR FALTA DE COMIDA” e “JORNAL ITALIANO CLASSIFICA BRIZOLA“FIDEL DO BRASIL””.No dia 16 de outubro, a Última Hora anunciava: “BRIZOLA BATE RECORDE DEPREFERÊNCIA POPULAR NA GB: 236 MIL VOTOS CONTADOS ATÉ ESTAMADRUGADA”.No dia 19, a apuração estava praticamente encerrada. O resultado final foi totalmentefavorável ao PTB: o partido elegeu o vice-governador Eloy Dutra (484.842 votos), derrotandoo governista Lopo Coelho, que obteve 402.292 votos, uma diferença de apenas 8,08 %(49,83% contra 41,35%). O candidato do Partido Libertador, Mário Martins, teve apenas39.998 votos. Em 1960, Carlos Lacerda foi eleito governador com 357 mil votos, diferençaapertada contra Sérgio Magalhães, que teve quase 334 mil votos. Tenório veio logo atrás, com222.942 votos.54Última Hora, 12 de outubro de 1962.55Idem, 18 de outubro de 1962.
  44. 44. 44Para o Senado Federal, a vitória foi dupla: Aurélio Viana foi eleito senador com quase25% dos votos (509.979). Gilberto Marinho, do aliado PTN, obteve 431.284 votos (21,09%dos votos). Logo atrás, veio o candidato udenista Juraci Magalhães, com 371.892 (18,19%).Nas eleições anteriores, o eleito havia sido Afonso Arinos (UDN), que obteve 397.466 votos.Na ocasião, o candidato petebista era Lutero Vargas, com quase 320 mil votos.Na votação para a Assembléia Legislativa da Guanabara, a presença do PTB ficouvisível: em 1960, o partido elegeu 6 deputados de um total de 30. Em 1962, o PTB elegeu 13deputados, porém houve um aumento para 55 vagas na ALEG. A UDN conquistou 14 das 55cadeiras, e o PSD ficou com apenas 4 cadeiras, mesmo número do PST. O PSB alcançou 3cadeiras, e as outras legendas menores conseguiram juntas 17 cadeiras.Em comparação com a eleição anterior, de 1960, a votação do PTB aumentou de177.583 para 190.034 votos. Já a UDN caiu de 250.474 votos para 204.594 votos. A piorqueda foi a do PSD: de 134 mil para pouco mais de 57 mil em 1962. Com a bancada daALEG quase dobrando de uma eleição para a outra, o PSD manteve o mesmo número deassentos.A vitória avassaladora do PTB, porém, ficou reservada para a Câmara dos Deputados:em 1958, foram eleitos 5 deputados federais pelo partido, de um total de 17. Quatro anosdepois, quando a bancada federal da Guanabara aumentou 4 cadeiras, o PTB dobrou o númerode eleitos, levando mais 1 deputado do coligado PSB.Mesmo tendo o vice-governador, o principal nome da eleição na Guanabara nãopoderia ser outro: Leonel Brizola. Do alto dos seus 269.384 votos (em torno de 26% dosvotos), ele teve mais da metade de todos os votos da coligação do PTB com o PSB, e com umquociente eleitoral de 46.129 votos, levou consigo 8 candidatos da AST. Dentre eles, Brenoda Silveira, o único do PSB, eleito com 8.801 votos, e Benedito Cerqueira, o eleito menosvotado da coligação, com 3.527 votos. Em termos de comparação, Hamilton de Lacerda, oúltimo da lista da UDN, foi eleito com 7.334 votos.Para ter noção da votação expressiva de Brizola, é como se pouco mais de 1/4 doscariocas tivessem votado nele. O segundo deputado mais votado foi o udenista Amaral Neto,com 123.383 votos, com menos da metade dos votos de Brizola. No total de votos, o PTBalcançou 428.879 votos para a Câmara (em 1958, foram 252 mil votos), contra 259.206 daUDN (na eleição anterior, foram quase 280 mil), 119.841 da Frente Popular, e apenas 54.031votos do PDC, que elegeu somente 1 deputado.
  45. 45. 45Dentre os deputados estaduais eleitos pelo PTB, estavam Artur da Távola, HérculesCorrêa, José Gomes Talarico, Ib Teixeira e Edna Lott. Pela UDN, figuravam nomes comoRaul Brunini, Nina Ribeiro, Vitorino James, Ligia Lessa Bastos, e o mais votado, DaniloNunes.Pelo diminuto PSD, os quatro eleitos foram Augusto do Amaral Peixoto Júnior, JoséBonifácio, Gonzaga da Gama Filho e Miécimo da Silva. O PSB elegeu três: Adalgisa Néri,Pedro Fernandes e Jamil Haddad. No PST se destacou Sinval Palmeira, e no PSP, LevyMiranda Neves. No PRT, Antônio Luvizaro foi o mais votado. O MTR elegeu apenas umdeputado, João Machado. Destacaram-se ainda Paulo Duque e Telêmaco Gonçalves Maiapelo PR; José Antônio Cesário de Melo e Silbert Sobrinho, pelo PL; Álvaro Valle, pelo PDC;e Gerson Bergher, do PTN.Na Câmara dos Deputados, a representatividade partidária caiu de 12 para 6 partidos.Além de Brizola, alguns dos eleitos pela AST foram Sérgio Magalhães, Eloy Dutra, AntonioGarcia Filho, Benjamin Farah, Max da Costa Santos e Breno da Silveira, estes dois últimos doPSB.Pela UDN, figuravam, além de Amaral Neto, os eleitos Adauto Lúcio Cardoso,Aliomar Baleeiro, Hamilton Nogueira. Pela Frente Popular, Chagas Freitas e NelsonCarneiro. Juarez Távora foi o único eleito pelo PDC. Ainda pelo PDC, o advogado LuizMendes de Morais Neto, o mesmo que tentou impugnar a candidatura de Brizola, obtevemeros 545 votos, suficientes apenas para deixá-lo na 7ª suplência de seu partido.Alguns dos candidatos de maior expressão que não conseguiram se eleger foramOsvaldo Sargentelli, Bayard Boiteux, José Frejat, Roland Corbisier, Abdias do Nascimento,Maurício Joppert, Ângelo Mendes de Moraes, dentre outros.
  46. 46. 46CONCLUSÃOBrizola foi o grande vencedor das eleições de 1962. Recebeu 269 mil votos, passandoa ser o deputado federal mais votado do Brasil até então, e o mais votado proporcionalmenteaté os dias de hoje. Apenas em 2010, quase 50 anos depois, o deputado federal José AntônioReguffe, curiosamente filiado ao PDT, se aproximou da votação recorde alcançada porBrizola: 18,95% no Distrito Federal, equivalentes a 266.465 votos.Com a repercussão de sua votação e o excelente desempenho eleitoral do PTB daGuanabara, Brizola conseguiu o que almejava: entrar de vez para o rol de lideranças políticasdo país que possuíam capacidade de mobilizar a população e conseguir boas votações.Dono de um carisma e oratória invejáveis, Brizola ocupou palanques e rádios embusca de seu eleitorado e da consequente legitimação que ele deveria ter para alcançar postosmais altos dentro do poder, para assim colocar em prática sua pregação política.Brizola, ao se candidatar a deputado federal pela Guanabara, aceitou dois desafios: oprimeiro era o de obter uma boa votação. O segundo, derrotar a UDN dentro de seu “quintal”.Brizola não só alcançou votação recorde, mas ajudou a eleger o vice-governador do estado eum dos senadores. A UDN, que apostava no eleitorado da Guanabara visando 1965, viuCarlos Lacerda ter uma derrota humilhante no estado que ela mesma, a UDN, lutou pelacriação.Brizola também se consolidou dentro do PTB, fazendo frente ao grupo de Jango, atéentão hegemônico no partido após a morte de Vargas em 1954. Brizola deixava claro suasdiscordâncias políticas com o presidente desde a aceitação por parte de Jango da “soluçãoparlamentarista” para a crise de 1961. Sua distância com as posturas “conciliadoras” de Jangoficou explícita no slogan “Cunhado não é parente, Brizola presidente”, repetido entre osbrizolistas que sonhavam com sua candidatura à presidência. Cabe ressaltar que João Goulartse manteve distante do processo eleitoral da Guanabara.Outro fator importante foi o de Brizola ter conquistado o voto na cidade do Rio deJaneiro, um eleitorado considerado altamente consciente e politizado. Como ditoanteriormente, mesmo não sendo mais a capital do país, o Rio de Janeiro, até os dias atuais,exerce grande influência no Brasil, principalmente social e política.Brizola se firmou de vez como liderança política nacional, credenciando-se assimcomo potencial candidato a presidente da república em 1965, apesar das restrições legais à sua
  47. 47. 47candidatura. Dentre os candidatos que explicitavam a intenção de se candidatar à presidênciaem 1965 estavam Juscelino Kubitschek, pelo PSD, que desde o fim de seu mandato em 1961planejava seu retorno ao cargo; Carlos Lacerda, governador da Guanabara pela UDN,enfraquecido pela vitória do PTB em seu reduto; Magalhães Pinto, governador de MinasGerais, também da UDN, político hábil que possuía a fama de conciliador; Adhemar deBarros, o “eterno candidato”, eleito governador de São Paulo pelo PSP em 1962.Na esquerda, além de Brizola, despontava Miguel Arraes, governador de Pernambuco,que, embora filiado ao PSP adhemarista, era um político alinhado com idéias maisprogressistas. Cabe ressaltar, também, que Brizola não era unanimidade dentro do campo daesquerda, pois era acusado de ser uma figura demagoga, desagregadora e ambiciosa, capaz decolocar em risco até o governo de seu cunhado, com o intuito de favorecer suas ambiçõespessoais.56As tão sonhadas eleições presidenciais de 1965, porém, não ocorreram. O golpe civil-militar ocorrido em abril de 1964 derrubou o governo de João Goulart, cassando também asprincipais lideranças da esquerda, como Brizola, Miguel Arraes, Francisco Julião, Luís CarlosPrestes, Neiva Moreira, Gregório Bezerra, Celso Furtado, Darcy Ribeiro, além de JânioQuadros e Juscelino Kubitschek.Brizola nunca escondeu sua vontade de ser presidente do Brasil, pois mesmo após 15anos de exílio e 21 anos de ditadura, conseguiu manter sua posição de protagonista no cenáriopolítico nacional, se elegendo governador do Rio de Janeiro em duas oportunidades (1982 e1990), além de se candidatar à presidência em 1989 e 1994 e à vice-presidência na chapa deLuiz Inácio Lula da Silva (PT) em 1998, sendo derrotado em todas elas. Até o fim de suavida, era este o principal objetivo político de Leonel Brizola, fato que não se concretizou.56Essa era a opinião de lideranças da década de 60 como Sérgio Magalhães, Marcello Cerqueira e HérculesCorrêa, exposta no livro A esquerda e o golpe de 64, de Dênis de Moraes, publicado pela Editora Espaço eTempo.
  48. 48. 48REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICASA HISTÓRICA mensagem do presidente João Goulart. [S. l]: [S. n.], [19--]. 14 p. Autordesconhecido.AGUIAR, Leonardo Andrade. Brizola – Política e Legalidade. 1ª edição. Rio de Janeiro:Livre Expressão, 2012. 466 p.AMORIM, Paulo Henrique; PASSOS, Maria Helena. Plim-plim: a peleja de Brizola contra afraude eleitoral. 1ª edição. São Paulo: Conrad, 2005. 230 p.BANDEIRA, Moniz. Brizola e o Trabalhismo. 2ª edição. Rio de Janeiro: CivilizaçãoBrasileira, 1979. 205 p.______. O governo João Goulart – As lutas sociais no Brasil, 1961-1964. Rio de Janeiro:Civilização Brasileira, 1977. 187 p.BRAGA, Kenny (Coord.) et alii. Leonel Brizola: perfil, discursos e depoimentos (1922-2004).1ª edição. Porto Alegre: Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul, 2004. 626 p.______. João Goulart: perfil, discursos e depoimentos (1919-1976). 1ª edição. Porto AlegreAssembléia Legislativa do Rio Grande do Sul, 2004. 280 p.CARRION JR. Brizola: momentos de decisão. Porto Alegre: L&PM Editores, 1989. 75 p.FALCON, Francisco. História e Poder. In. CARDOSO, Ciro Flamarion; VAINFAS,Ronaldo. Domínios da História: ensaios de teoria e metodologia. Rio de Janeiro: Campus,1997.FAUSTO, Boris (org.). História Geral da Civilização Brasileira.Tomo III. O BrasilRepublicano, 10 volume: Sociedade e Política (1945-1964). Rio de Janeiro: Editora BertrandBrasil, 4ª edição, 1990.FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Aurélio: o dicionário da língua portuguesa.Curitiba: Editora Positivo, 2008. 544 p.FERREIRA, Jorge. O imaginário trabalhista: getulismo, PTB e cultura política popular1945-1964. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005. 390 p.FERREIRA, Marieta de Moraes (Org.). A força do povo: Brizola e o Rio de Janeiro. Rio deJaneiro: ALERJ, CPDOC/FGV, 2008. 228 p.
  49. 49. 49FREIRE, Américo (Coord.). José Talarico. 1ª Ed. Rio de Janeiro: Editora FGV, 1998.GRAMSCI, Antonio. Os intelectuais e a organização da cultura. Rio de Janeiro: CivilizaçãoBrasileira, 1985. 244 p.KUHN, Dione. Brizola: da legalidade ao exílio. Porto Alegre: RBS Publicações, 2004. 136 p.LEITE FILHO, FC. El Caudillo – Leonel Brizola: um perfil bibliográfico. 1ª edição. SãoPaulo: Aquariana, 2008. 544 p.MARKUN, Paulo; HAMILTON, Duda. 1961: que as armas não falem. 1ª ed. São Paulo:SENAC, 2001. 416 p.MORAES, Dênis de. A esquerda e o golpe de 64. 2ª ed. Rio de Janeiro: Espaço e Tempo,1989. 379 p.MOTTA, Marly; FREIRE, Américo; SARMENTO, Carlos Eduardo. A política carioca emquatro tempos. 1ª ed. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2004.MOTTA, Marly. Saudades da Guanabara: o campo político da cidade do Rio de Janeiro(1960-1975). 1ª ed. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2000. 164 p.PEREIRA, Ledir de Paula. O positivismo e o liberalismo como base doutrinária das facçõespolíticas gaúchas na Revolução Federalista de 1893-1895 e entre maragatos e chimangos de1923. Dissertação (Mestrado em Ciência Política). Porto Alegre: UFRGS, 2006.RIBEIRO, Darcy. Nossa herança política. [S. l.]: PDT, [1994?]. 61 p.ROLIM, César Daniel de A. Leonel Brizola e os setores subalternos das Forças ArmadasBrasileiras: 1961-1964. Dissertação (Mestrado em História). Porto Alegre: UFRGS, 2009.RUAS, Miriam Diehl. A doutrina trabalhista no Brasil (1945/1964). 1ª edição. Porto Alegre:Sergio Antonio Fabris Editor, 1986. 160 p.SKIDMORE, Thomas E. Brasil: de Getúlio a Castello (1930-1964). 1ª ed. São Paulo:Companhia das Letras, 2010. 472 p.SOUZA, Maria do Carmo Campello de. Estado e partidos políticos no Brasil (1930 a 1946).São Paulo: Alfa-Ômega, 1976. 178 p.
  50. 50. 50FONTES CONSULTADASJORNAISA Noite, Rio de Janeiro, 4 de agosto de 1962.A Noite, Rio de Janeiro, 10 de julho de 1962.A Noite, Rio de Janeiro, 9 de outubro de 1962.Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 4 de agosto de 1961.Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 6 de junho de 1962.Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 28 de agosto de 1962.Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 17 de abril de 1962.Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 19 de agosto de 1962.Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 3 de julho de 1962.Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 4 de julho de 1962.Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 3 de setembro de 1962.Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 18 de setembro de 1962.Última Hora, Rio de Janeiro, 16 de março de 1962.Última Hora, Rio de Janeiro, 8 de junho de 1962.Última Hora, Rio de Janeiro, 13 de junho de 1962.Última Hora, Rio de Janeiro, 23 de junho de 1962.Última Hora, Rio de Janeiro, 28 de junho de 1962.Última Hora, Rio de Janeiro, 29 de junho de 1962.Última Hora, Rio de Janeiro, 3 de agosto de 1962.Última Hora, Rio de Janeiro, 30 de agosto de 1962.Última Hora, Rio de Janeiro, 7 de setembro de 1962.Última Hora, Rio de Janeiro, 5 de outubro de 1962.Última Hora, Rio de Janeiro, 12 de outubro de 1962.Última Hora, Rio de Janeiro, 18 de outubro de 1962.SITESASSEMBLÉIA Legislativa do Estado do Rio de Janeiro. Disponível em<www.alerj.rj.gov.br> Acesso em: 19 de março de 2013.CÂMARA dos Deputados. Disponível em <www.camara.gov.br> Acesso em: 20 de agostode 2012.ELEIÇÕES pós-1945. Disponível em <www.eleicoespos1945.com> Acesso em: 5 de abril de2012.TRIBUNAL Regional Eleitoral do Rio de Janeiro. Disponível em <www.tre-rj.gov.br>Acesso em: 20 de março de 2013TRIBUNAL Superior Eleitoral. Disponível em <www.tse.gov.br> Acesso em: 12 de agostode 2012.
  51. 51. 51IMAGENSFigura 1 – Manchete do Correio da Manhã, com instruções sobre como pedir a impugnação dacandidatura de Brizola (06/06/62, capa).Figura 2 – Manchete da Última Hora sobre a convenção do PTB que escolheu Brizola e outros candidatosdo PTB (03/08/62, capa).Figura 3 – Propaganda do PTB veiculada no jornal Última Hora (05/10/62, p. 5).
  52. 52. 52Figura 4 – Capa do jornal Última Hora, destacando o último comício da AST, realizado em Bangu(05/10/62, capa).Figura 5 – Matéria do jornal A Noite, sobre comício da UDN (06/10/62, p. 3).Figura 6 – Propaganda eleitoral de políticos ligados à UDN, em sua maioria financiada pelo IPES/IBAD,no jornal A Noite (06/10/62, p. 3).
  53. 53. 53Figura 7 – Propagandas de Brizola e outros candidatos da AST, veiculados na Última Hora (06/10/62, p.2).Figura 8 – Manchete da Última Hora, sobre a iminente vitória dos principais candidatos da AST (09/10/62,capa).
  54. 54. 54TABELASTabela 1 – Resultado das eleições para deputado federal do estado da Guanabara em1962Candidato Partido Votos % #Leonel de Moura Brizola AST (PTB/PSB) 269.384 26,35 1Fidelis dos Santos Amaral Neto UDN 123.383 12,07 2Antônio de Pádua Chagas Freitas FP (PSD/PST) 56.657 5,54 3Sérgio de Moura MagalhãesJunior AST (PTB/PSB) 47.570 4,65 4Juarez do Nascimento Távora PDC 33.461 3,27 5Elói Ângelo Coutinho Dutra AST (PTB/PSB) 30.614 2,99 6Marco Antônio Tavares Coelho FP (PSD/PST) 21.300 2,08 7Adauto Lúcio Cardoso UDN 18.625 1,82 8Eurípedes Cardoso de Menezes UDN 17.669 1,72 9Antônio Garcia Filho AST (PTB/PSB) 16.510 1,61 10Aliomar Baleeiro UDN 13.835 1,35 11Waldir Melo Simões AST (PTB/PSB) 12.196 1,19 12Arnaldo de Castro Nogueira UDN 11.497 1,12 13Nelson de Souza Carneiro FP (PSD/PST) 11.095 1,08 14Benjamin Miguel Farah AST (PTB/PSB) 9.802 0,95 15Breno Dália da Silveira AST (PTB/PSB) 8.801 0,86 16Hamilton de Lacerda Nogueira UDN 7.334 0,71 17Max José da Costa Santos AST (PTB/PSB) 5.758 0,56 18Rubens Berardo Carneiro daCunha AST (PTB/PSB) 3.896 0,38 19Jamil Amiden AST (PTB/PSB) 3.588 0,35 20Benedito Cerqueira AST (PTB/PSB) 3.527 0,34 21Votos AST (PTB/PSB) 428.979 votos 11 cadeirasVotos UDN 259.206 votos 6 cadeirasVotos FP (PSD/PST) 119.841 votos 3 cadeirasVotos PDC 54.031 votos 1 cadeiraTOTAL: 21 cadeirasQuociente eleitoral 46.129 votosVotos nominais/legenda 862.057Votos brancos 106.645Votos nulos 53.515TOTAL: 1.022.217

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