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25Com efeito, a sexualidade se inscreve na fantasia, antes de mais nada.Esseé o campo por excelência do erotismo.Não exist...
26discurso do sexo, foi imensa a prolixidade que nossa civilização exigiu eorganizou.(FOUCAULT,2007,p.39).Assim, tem-se um...
27Assim, a família, reproduzindo a moral cristã no processo de socializaçãodo indivíduo, atribui papéis estereotipados par...
28Nesse sentido, aponta Chauí (1984), a tragédia de Édipo, quando Freudelabora o conceito de Complexo de Édipo1, passa a s...
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49vinte e um e vinte e oito anos. A escolha dos sujeitos foi realizada de formaaleatória, após o contato inicial, no qual ...
50consentimento, no qual se apresentavam os objetivos da pesquisa, bem como agarantia do anonimato dos entrevistados, e um...
51parece estar bem com sua homossexualidade, diz não tem mais medo e nem receiodos preconceitos dos outros.Lamarca tem 23 ...
52CAPITULO III: “GUETO” HOMOSSEXUAL: AS PERCEPÇÕES E OSPOSICIONAMENTOS DOS SUJEITOS DA PESQUISAA partir dos discursos capt...
53Os conflitos internos de dúvidas e culpa que os homossexuais sentem nomomento da descoberta de sua homossexualidade, est...
54Assim, para esses sujeitos, a descoberta da homossexualidade, implicaromper com os papéis sociais e sexuais interiorizad...
55não aceitar.Na realidade, a minha tia, quando ela descobriu, eu moro com aminha tia. (...) aí foi quando eu comecei a se...
56homossexualidade, baseada numa concepção tradicional de que a sexualidade, forados limites da binaridade homem-mulher, é...
O “GUETO” PARA HOMOSSEXUAIS: Desvendando preconceitos e significados
O “GUETO” PARA HOMOSSEXUAIS: Desvendando preconceitos e significados
O “GUETO” PARA HOMOSSEXUAIS: Desvendando preconceitos e significados
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O “GUETO” PARA HOMOSSEXUAIS: Desvendando preconceitos e significados
O “GUETO” PARA HOMOSSEXUAIS: Desvendando preconceitos e significados
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O “GUETO” PARA HOMOSSEXUAIS: Desvendando preconceitos e significados

  1. 1. 9UNIVERSIDADE ESTADUAL DO CEARÁRITA MARIA ALVES VASCONCELOSO “GUETO” PARA HOMOSSEXUAIS DEFORTALEZA: DESVENDANDO PRECONCEITOS ESIGNIFICADOSFORTALEZA-CEARÁ2009
  2. 2. 10RITA MARIA ALVES VASCONCELOSO “GUETO” PARA HOMOSSEXUAIS DEFORTALEZA: DESVENDANDO PRECONCEITOS ESIGNIFICADOSMonografia apresentada ao Curso deServiço Social do Centro de Estudos SocaisAplicados da Universidade Estadual doCeara, como requisito parcial para obtençãodo grau de bacharel em Serviço Social.Orientadora: Profª Ms. Alessandra SilvaXavier
  3. 3. 11FORTALEZA-CEARÁ2009RITA MARIA ALVES VASCONCELOSO “GUETO” PARA HOMOSSEXUAIS DE FORTALEZA; DESVENDANDOPRECONCEITOS E SIGNIFICADOSMonografia apresentada ao Curso deServiço Social do Centro de Estudos SocaisAplicados da Universidade Estadual doCeara, como requisito parcial para obtençãodo grau de bacharel em Serviço Social.Aprovado em: ___/____/____BANCA EXAMINADORAProfª Ms. Alessandra Silva XavierUniversidade Estadual do CearáProfª Ms.Maria Darcy de Deus Martins
  4. 4. 12Universidade Estadual do CearáProfª. Esp. Ana Ivete de Araújo NogueiraUniversidade Estadual do CearáDedico esse trabalho ao meu “sobrinho-filho” Getúlio, portudo que ele é e representa para mim.Por estar sempre
  5. 5. 13ao meu lado, nos momentos que mais preciso.Pelavaliosa ajuda na realização e conclusão desse trabalho, esobretudo, por ter acreditado em mim e me incentivadocom seu imenso amor.AGRADECIMENTOSAgradeço a Deus, pela vida, e pelos sinais de sua presença em momentos dealegria, e sobretudo, nas dificuldades.Ao meu pai pelo amor e carinho dedicado em toda minha infância, sentimentos queforam fundamentais na minha formação humana, seus ensinamentos e exemplosfizeram de mim o que sou hoje.A minha mãe, exemplo de dedicação e luta, meu muito obrigada.Aos meus treze sobrinhos e sobrinhas (filhos/filhas) que eu tanto amo, e que dealguma forma contribuíram para realização desse trabalho.Pelo carinho e apoio emtodos os momentos.Agradeço, especialmente pela ajuda direta no desenvolvimentodo trabalho: Cristina (Tininha), Érica, Mariana, Leandro e Márcio.A todos meus irmãos, sempre tão dispostos a me ajudar.Em especial, agradeço aminha irmã Fátima (Neném) e ao meu irmão Assis (Tiza), por terem sempreacreditado em mim, me apoiando e incentivando e me ajudando de todas asformas.O apoio e ajuda deles, foram fundamentais para a conclusão desse trabalho.A minha prima Susana, pela ajuda na digitação do trabalho.
  6. 6. 14A minha querida cunhada Keila, pela disposição em me ajudar na árdua busca dematerial bibliográfico.As amigas Mercedes, Pimenta, Valéria e Eliete, pelas constantes conversas ecompartilhamentos das angústias.Às amigas Claudiana, Ítala, Inah, Katiane e Kelly, por suas amizades incondicionais,por terem me proporcionado momentos maravilhosos ao longo da minha formaçãoacadêmica, pelo apoio, incentivo e ajuda na realização desse trabalho.Ao meu querido amigo Renato, sempre tão presente em minha vida, meincentivando, apoiando, ajudando e compartilhando as angústias.Ao amigo Eduardo, mesmo distante, agradeço pelo carinho e apoio.Ao meu amigo Evaldo, sempre tão solícito e disposto a me ajudar quando maisprecisei.A equipe de profissionais da instituição na qual desenvolvo atividade de estágio –Defesa Civil de Fortaleza – pelo aprendizado e amizade.Em especial, a ElisângelaMedeiros e ao Alísio Santiago, por compreender minha ausência, para conclusão damonografia.Agradeço a minha orientadora Alessandra Silva Xavier, pela ajuda na realização eorientação desta pesquisa.Aos membros da banca examinadora pela delicadeza em aceitar o convite econtribuir para o aprimoramento da minha pesquisa.Ao Grupo de Resistência Asa Branca, pelo acolhimento e apoio com materialbibliográfico.Aos sujeitos participantes da pesquisa, por compartilharem comigo uma parte desuas vidas, contribuindo com os resultados do estudo.
  7. 7. 15"Afinal de contas só existe uma raça: a humanidade”George Moore
  8. 8. 16RESUMOO presente estudo tem como objetivo compreender, interpretar e analisar as percepções eos posicionamentos dos homossexuais sobre o “gueto” homossexual em Fortaleza.Paraabordar a temática, realizei, em um primeiro momento, pesquisas bibliográfica e documentalbuscando fundamentação teórica em livros e artigos que tratam das categorias sexualidade,homossexualidade, preconceito e discriminação, e “gueto” homossexual.No segundomomento, realizei pesquisa de campo no Grupo de Resistência Asa Branca (GRAB) comquatro homossexuais que fazem parte do Projeto SAGAS/GRAB – Fortaleza-Ce.Para tanto,adotei a abordagem qualitativa por meio de entrevista semi-estruturada e observaçãodireta.Após análise dos discursos dos homossexuais, sujeitos do estudo, pude apreenderque: a relação com a família, no momento da descoberta da homossexualidade, torna-seconflituosa, entretanto com o tempo vai se modificando, e os sentimentos de medo ,negação e raiva, dos sujeitos em relação à família vão sendo superados, embora na maioriadas vezes, haja certo distanciamento dos familiares com a vida íntima do individuo, mas háharmonia e boa convivência nessa relação; os homossexuais fora dos espaços delimitadossofrem discriminação das mais variadas formas, desde piadas de mau gosto, xingamentos,agressões verbais até a perda de emprego; o “gueto” homossexual para os sujeitos dapesquisa, representa um espaço de proteção contra o preconceito e a discriminação, eainda, um local onde eles desenvolvem um sentimento de pertencimento a um grupo socialde referência.Espero que esse estudo possa contribuir para que a sociedade Fortalezenseaprenda a viver com as diferenças, respeitando os diferentes, e essencialmente, osprotagonistas desse estudo – os homossexuais. E ainda, contribuir para que o ServiçoSocial, diante dos dados dessa pesquisa, se empenhe na luta pela transformação social,essencialmente no respeito às diferenças, uma vez que seu Código de Ética profissional temcomo princípios fundamentais, entre outros, “opção por um projeto profissional vinculado aoprocesso de construção de uma nova ordem societária (...)” e “empenho na eliminação detodas as formas de preconceito, incentivando o respeito à diversidade, à participação degrupos socialmente discriminados e á discussão das diferenças” (CFESS,1993).Palavras-chave: sexualidade, homossexualidade e “gueto”.
  9. 9. 17SUMÁRIOINTRODUÇÃO ......................................................................................................9CAPÍTULO I : ENFOQUES SOBRE SEXUALIDADE HOMOSSEXUALIDADE E“GUETO” ...........................................................................................................121.1. Sexualidade: construto sócio-histórico-cultural............................................121.2. Identidade sexual.........................................................................................171.3.Os saberes sobre a homossexualidade........................................................221.3.1. Concepção clerical da homossexualidade................................................231.3.2. Concepção da medicina............................................................................251.4. Homossexualidade e o “gueto” ...................................................................27CAPÍTULO II: PASSOS METODOLÓGICOS DA INVESTIGAÇÃO ..................312.1 Aproximação com o objeto – “gueto” ...........................................................312.2 Natureza do estudo ......................................................................................332.3.Campo da pesquisa ......................................................................................352.4. Sujeitos da pesquisa e trajetória metodológica............................................38CAPÍTULO III : ”GUETO” HOMOSSEXUAL: AS PERCEPÇÃOES E OSPOSICIONAMENTOS DOS SUJEITOS DA PESQUISA....................................423.1.A descoberta da homossexualidade .............................................................423.2.A relação com a família.................................................................................443.3.Tipos de discriminação sofrida fora dos espaços delimitados ......................473.4.Visão sobre o “gueto” ...................................................................................48
  10. 10. 18CONSIDERAÇÕES FINAIS................................................................................51REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS..................................................................55APÊNDICES.......................................................................................................59APÊNDICE A Termo de Consentimento Livre e Esclarecido ........................60APÊNDICE B Roteiro de entrevistas ...............................................................61
  11. 11. 19INTRODUÇÃOEsta pesquisa tem como objetivo central, compreender, interpretar eanalisar as percepções e os posicionamentos dos homossexuais sobre o “gueto”homossexual em Fortaleza.O ponto primordial que me impulsionou a pesquisar sobre tal temática, foiter presenciado, diversas vezes, uma pessoa da família, pela qual tenho grandeestima, sendo vítima de preconceito e discriminação, por conta de sua orientaçãosexual.Essa pessoa tornou-se ponte para atrair para o meu convívio, vários outroshomossexuais, dos quais me tornei muita amiga e confidente.Fato esse, que só fezaumentar minha indignação, pois, convivendo com o maior número de pessoas deorientação sexual e afetiva por pessoas do mesmo sexo, tenho presenciado commuita freqüência situações de constrangimento, que essas pessoas têm passadopor causa de sua orientação sexual. Por vezes, quando estou em algum local comalguns deles, observo manifestações preconceituosas e discriminatórias, nomomento eles disfarçam, fingem que não foi com eles, mas depois acabam meconfidenciando, que se sentiram bastante incomodados com tal situação.O fato decisivo para o empreendimento em torno do “gueto” homossexual,foi uma situação de extrema violência, pela qual passou um desses amigos.Ele foiexpulso brutalmente, por um segurança, de um local dito “hetero”, por estar apenasconversando de forma mais íntima com outra pessoa do mesmo sexo que oseu.Fato que nos deixou profundamente indignados, surgindo a partir daí váriasdiscussões entre nós sobre preconceito e discriminação contrahomossexuais.Durante as discussões, alguns apontavam como solução para fugirdessas manifestações preconceituosa e discriminatória, a escolha por freqüentarlocais voltados exclusivamente para o público homossexual.Já, outros, assim comoeu, questionavam esse tipo de solução que os empurravam para um confinamento –o “gueto” homossexual - aceitando passivamente a violência social de rejeição erepressão, uma vez que o “gueto” não elimina a ameaça social dirigida aoshomossexuais.A partir de então, as discussões sobre o “gueto” homossexual tornou-se uma constante no nosso grupo de amigos, havendo divergência de
  12. 12. 20opiniões.Onde uns, apontam que o “gueto” é um espaço para diversão e para aliberdade de expressão da homossexualidade, outros, consideram uma segregaçãoforçada, pelo preconceito, pela discriminação e pela homofobia de uma sociedadeintolerante, que não sabe viver com a diversidade, pensamento por mimcompartilhado.Por essas razões aqui expressas, eu cursando Serviço Social naUniversidade Estadual do Ceará (UECE), fui levada a refletir sobre o “gueto”homossexual, e buscar com mais afinco, através de pesquisa bibliográfica e decampo, conhecimento para desvendar os reais significados do “gueto” homossexualem Fortaleza - objetivo central dessa pesquisa.Devo destacar aqui, a relevância desse estudo para o Serviço Social, umavez que o Código de Ética profissional tem como principio fundamental, entre outros,o reconhecimento da liberdade como valor ético central.Nesse sentido , o assistentesocial deve ter todo o empenho na eliminação de toda forma de preconceito,incentivando o respeito à diversidade, à participação de grupos socialmentediscriminados e á discussão das diferenças.Para além da análise critica darealidade, a dimensão ética da prática do Serviço Social, deve agir em busca datransformação social, em que, a democracia, a defesa dos direitos humanos e orespeito às diferenças, estejam sempre presentes no fazerprofissional.(CFESS,1993)Assim, os resultados obtidos nesse estudo, podem contribuir para oServiço Social viabilizar políticas públicas para o público LGBTT (Lésbicas, Gays,Travestis e Transexuais), pois no conjunto de deveres que estão postos para oassistente social em seu Código de Ética, destaca-se, entre outros, “empenhar-se naviabilização dos direitos sociais dos usuários, através dos programas e políticaspúblicas.” (CFESS, 1993)Vale salientar aqui, que o percurso metodológico para realização desteestudo foi bastante árduo, pois o tema em questão dispõe de pouquíssimo materialbibliográfico.Este trabalho está constituído em quatro capítulos.No primeiro capítulointitulado “Enfoques sobre sexualidade – homossexualidade e “gueto”, trago a
  13. 13. 21discussão teórica em torno da sexualidade, da homossexualidade e do “gueto”,abordando aspectos sócio-histórico- cultural.Procuro mostrar que a sexualidadehumana, como um fenômeno sociocultural, tem sido regulada por instituições comoa igreja, a família e Estado, e como a cultura patriarcal machista com apredominância do domínio masculino, tem influenciado na negação e desvalorizaçãodos homossexuais.E o que tem levado os homossexuais a buscarem, cada vez maisos “guetos” homossexuais.No segundo capítulo, denominado “Passos metodológicos dainvestigação”, apresento toda a trajetória metodológica da investigação.Inicialmentemostro como foi feito a aproximação com o objeto de estudo, em seguida descrevo anatureza do estudo.Na seqüência, descrevo o campo de pesquisa.E, por último,exponho os sujeitos da pesquisa e a trajetória metodológica da investigação.No terceiro e último capítulo, “Gueto” homossexual:as percepções e osposicionamentos dos sujeitos da pesquisa”, faço a análise das percepções e dosposicionamentos dos homossexuais entrevistados, articulando suas falas com aliteratura consultada, para elucidar os objetivos do estudo.Nas considerações finais, são apresentados os principais resultadosidentificados na realização do estudo.Esse é o momento de descoberta dasperguntas iniciais da pesquisa.
  14. 14. 22CAPÍTULO I: ENFOQUES SOBRE SEXUALIDADE -HOMOSSEXUALIDADE E “GUETO”1.1 Sexualidade: construto sócio-histórico-culturalA sexualidade é uma temática sobre a qual há bastante discussão,diversos autores têm adotado diferentes enfoques destacando elementosimportantes quando na sua discussão.Um dos pontos de enfoque apontado por Loiola (2005) diz respeito àcompreensão da sexualidade como um construto sócio-histórico-cultural dossujeitos. Sem desconsiderar o aspecto biológico - que acaba por restringir àsexualidade a reprodução - prioriza o entendimento da sexualidade a partir dainteração do sujeito com a sociedade, com a história e com a cultura a que pertence.Destarte, o entendimento da sexualidade está para além da funçãoprocriativa, onde se tem uma compreensão que abrange todas as suas significaçõese funções na vida humana.É preciso compreender, que para além da perspectiva reprodutiva, asexualidade é “uma construção dos sujeitos concretos (homens e mulheres)”(LOIOLA, 2005, p.50). Apesar da influência do contexto sócio-histórico-cultural,estes sujeitos, são portadores de uma subjetividade que os permite vivenciar asdiversas manifestações da sexualidade.Entretanto, as funções e significados acerca da sexualidade variam, aolongo da história humana, e estas variações irão produzir efeitos sobre a formacomo serão aceitos ou questionados determinados comportamentos sexuais.Assim, o entendimento da sexualidade subsiste numa concepção binária, em que aexistência dos dois sexos (masculino e feminino) está intrinsecamente ligada àprocriação. Dessa forma, a história da sexualidade apresenta-se como um fenômenosociocultural que determina os papéis sociais e os comportamentos sexuais dosindivíduos, ou seja, uma padronização de conduta que controla a subjetividade dosindivíduos.
  15. 15. 23Os padrões de comportamentos sociais e sexuais são regulados pelacultura, sendo esta a mediadora das ações realizadas pelos indivíduos em seucotidiano. A cultura aqui referendada é a cultura ocidental, que traz em seu cerne oestabelecimento de uma ordem sexual patriarcal e machista com a predominânciado domínio masculino sobre o feminino, onde cabe aos homens o ditame dosvalores e das normas de sociabilidade.A sexualidade revela-se, assim, como um fenômeno sociocultural, em queos papéis sociais e sexuais dos sujeitos são regulados por instituições como a igreja,a família e o Estado.A igreja cristã, considerando o sexo como tendo uma funçãoexclusivamente procriativa, reprimiu todas as práticas que perturbasse as finalidadesatribuídas à procriação. Conforme Loiola (2005) a Igreja cristã:a partir de uma série de estratégias castradora da vida: confundiu aessência da vitalidade humana, a sexualidade, rotulando-a de perversão,fornicação, bestialidade, pecado sodomia, heresia, dentre outros tantosatributos; sacrificou várias personalidades através da ‘santa’ inquisição,levando-as à fogueira, quando não , à guilhotina.Publicou todas essasbarbaridades aos ‘quatros canto do mundo’ em nome do amor divino.Usou afogueira e a guilhotina durante a inquisição, posteriormente o celibato e aconfissão, decretou e publicou a morte, mas não conseguiu o êxitoesperado - eximir a necessidade do desejo sexual, muito embora tenhaproduzido subjetivamente uma sexualidade extremamente negativa.(p.55)Dessa forma, a igreja regula a vida do sujeito, impondo-lhe, com rigorviolento, os preceitos cristãos, baseada na concepção da articulação entre o sexo ea expulsão do homem do “paraíso”, onde se deu o pecado original. A mulherculpabilizada por tal pecado é vista como mais sensual e mais sexuada que ohomem, portanto, mais fraca e sujeita a sucumbir às tentações do prazer carnal. Apartir dessa ideologia, indica Pinheiro (2003, p.29):colocam-se as mazelas do mundo na relação sexual livre e prazerosaassociando o sexo, a mulher e o gênero feminino ao pecado.Por trás destaideologia, estão as bases da criação do sistema patriarcal, no qual ohomem nega à mulher e o prazer ( oprimindo o gênero feminino) e exalta opoder e o trabalho ( exaltando o masculino).Assim, para a igreja católica, herdeira das tradições bíblicas, a misériaque oprime os homens é conseqüência do pecado original cometido por Adão, mascom grande cooperação de uma mulher: Eva. Esse pecado foi transmitido a todos oshomens afetando a morte de suas almas e distanciando-os de Deus. Com a
  16. 16. 24descoberta da nudez, pelo pecado original, o homem descobre o sexo e seenvergonha dele.Nesse sentido, destaca Santos (2008):A dimensão sexual parece constranger e assombrar a Igreja por ocultarimplicações outras que extrapolam o campo da sexualidade.Representações de Deus, da salvação e do pecado podem de fato estar emjogo em torno dessa problemática. Além de uma questão moral, a Igreja sevê imobilizada diante de um emaranhado de questões dogmáticas. Por issomudanças na moral sexual encontram resistências e impossibilidades.Outro fator a ser considerado é a construção ideológica católica em torno dopoder da Igreja como ‘sustentáculo da verdade’. Abrir mão de certasposições colocaria em xeque este poder e seu domínio sobre os fiéis. (p.9).Segundo Chauí (1984) o Dicionário de Psicanálise de Laplanche ePontalis, aponta a sexualidade como:polimorfa, polivalente, ultrapassa a necessidade fisiológica e tem a ver coma simbolização do desejo. Não se reduz aos órgãos genitais ( ainda queestes possam ser privilegiados na sexualidade adulta) porque qualquerregião do corpo é susceptível de prazer sexual, desde que tenha sidoinvestida de erotismo na vida de alguém, e porque a satisfação sexual podeser alcançada sem a união genital.(p.15).Dessa forma, a sexualidade humana, à luz da psicanálise, ultrapassa adimensão biológica, e as “tentativas de supressão das pulsões são sempre falhas eos fenômenos substitutivos que emergem em conseqüência desta ‘supressão’constituem as doenças nervosas.” (SANTOS, 2008, p.6). A tentativa de inibir odesejo sexual pode causar no indivíduo, debilidade ou adoecimento. Visto que, aconstituição do sujeito não pode ser separada da sua sexualidade. Entretanto, amoral cristã com todo seu rigor repressivo, não conseguiu arrancar do sujeito suanecessidade sexual, os “impulsos e desejos desconhecem barreiras para suasatisfação”. (SANTOS, 2008, p.4).Mesmo estabelecendo uma relação negativa, no que concerne ao sexo, “o podernão ‘pode’ nada contra o sexo e os prazeres, salvo dizer-lhes não” (FOUCAULT,2007, p.93).Como indica Loiola (2005) à psicanálise “elastece a sexualidade noâmbito das relações sociais, desfamiliariza a binaridade do sexo-reprodução (...)privilegia o gozo e o prazer como seus atributos principais.” (p.67). Desse modo, apsicanálise foge da visão biologizante da sexualidade humana, ressaltando aimportância da fantasia:
  17. 17. 25Com efeito, a sexualidade se inscreve na fantasia, antes de mais nada.Esseé o campo por excelência do erotismo.Não existiria, pois, sexualidade semfantasia,sendo esta a sua matéria-prima.Seria, então, a partir da fantasiacomo fundamento, que aquela pode assumir formas comportamentaisdiversificadas.O comportamento seria, pois, o elo final de uma longa cadeiade relações, que se inscreveriam primordialmente na fantasia do sujeito, osexo seria, portanto, um efeito distante do sexual, por mais paradoxal quepossa parecer esta afirmação.Em contrapartida, se existe algo deenigmático e de absurdo no erotismo, a fantasia seria o lugar desse enigmae de iluminação dessa obscuridade (BIRMAN, citado por LOIOLA,2005,p.67-68).Foucault (2007) aponta que as práticas sexuais no início do século XVIInão procuravam o segredo, entretanto, com o advento do capitalismo a burguesiavitoriana encerra a sexualidade, ou seja, a sexualidade:Muda-se para dentro de casa. A família conjugal a confisca. E absorve-a,inteiramente, na seriedade da função de reproduzir. Em torno do sexo, secala. O casal, legítimo e procriador, ditam a lei.Impõe-se como modelo, fazreinar a norma, detém a verdade, guarda o direito de falar, reservando-se oprincípio do segredo.(FOUCAULT,2007,p.9).Com a Contra–Reforma a Igreja católica intensifica o sacramento daconfissão em todos os países católicos, impondo ”regras meticulosas de exame desi mesmo.” (FOUCAULT, 2007, p.25). Nessa nova pastoral, o bom cristão deve,durante a confissão, mencionar em detalhes “todas as insinuações da carne:pensamentos, desejos, imaginações voluptuosas, deleites, movimentos simultâneosda alma e do corpo”. (FOUCAULT, 2007, p.25).A confissão no Ocidente, foi umasdas técnicas mais valorizadas para produzir a verdade sobre o sexo.Como bemressalta Loiola:o confessionário ocupa o lugar central para o discurso da sexualidade cristã,haja vista que todo cristão teria essa obrigação para com sua igreja, demodo que esse espaço configurou-se num lugar interroga-tivo epunitivo.(2006,p.46-47).Foucault (2007) aponta que nas sociedades modernas, o sexo não temsido condenado a permanecer na obscuridade, pelo contrário, há uma explosãodiscursiva sobre ele, entretanto:tais discursos sobre o sexo não se multiplicaram fora do poder ou contraele, porém lá onde ele se exercia e como meio para seu exercício; criaram-se em todo canto incitações a falar; em toda parte dispositivos para ouvir eregistrar, procedimentos para observar, interrogar e formular. Desenfurnam-no e obrigam-no a uma existência discursiva.Do singular imperativo, queimpõe a cada um fazer de sua sexualidade um discurso permanente, aosmúltiplos mecanismos que, na ordem da economia, da pedagogia, damedicina e da justiça incitam, extraem, organizam e institucionalizam o
  18. 18. 26discurso do sexo, foi imensa a prolixidade que nossa civilização exigiu eorganizou.(FOUCAULT,2007,p.39).Assim, tem-se uma proliferação de discursos sobre o sexo, que secaracteriza pela busca do conhecimento da sexualidade como estratégia de controledo indivíduo e da população. E ainda, destaca Foucault, a sociedade capitalista:não reagiu ao sexo com uma recusa em reconhecê-lo. Ao contrário,instaurou todo um aparelho para produzir discursos verdadeiros sobreele.(...) também empreendeu a formulação de sua verdaderegulada.(2007,p.78-79).De acordo com Foucault (1977) citado por Chauí (1984) a partir do séculoXVIII, foram utilizadas quatro estratégias nas relações de saber e poder sobre o sexo1)histerização do corpo feminino (hipersexualizada e fecunda, a mulher sedistribui em dois papéis, a mãe e a histérica);2) pedagogização do sexoinfantil (a criança é um ser sexuado polimorfo, desconhecendo asexualidade saudável, de modo que suas práticas sexuais colocam emrisco sua vida, sua sanidade mental e da futura prole; o risco principal é amasturbação); 3)socialização das condutas de procriação ou regulaçãodemográfica(interdição das práticas anticoncepcionais pelo Estado e pelamedicina);4)psiquiatrização do prazer perverso(que de pecado e vício, setorna doença).(CHAUÍ,1984,p.184-185).Dessa forma, a pedagogia, a medicina, a psiquiatria, a economia e oEstado fizeram da família o espaço fundamental para a sexualização dos corpos.A família proclamada pelo pensamento religioso judaico–cristão é umainstituição natural dos homens, permanente e criada por Deus. (GURGEL, 1999).Nessa perspectiva, a família como primeiro grupo responsável pela socialização dosujeito, promove a educação das crianças estabelecendo papéis sociais e sexuaisde meninos e meninas de acordo com o sexo biológico e com os preceitos cristãos –estimula nos meninos a expressão sexual e nas meninas a reclusão e a repressão –reforçando, assim, os valores promulgados pela igreja cristã.Assim, a moralizaçãodo sexo faz-se preferencialmente pela família.Como aponta Loiola (2005) a família:inicia a inserção da criança no mundo adulto a partir das normas eprescrições interpretadas da ‘carta sagrada’ legitimada pela igreja.Comsuas estratégias seguidas da ritualização em todo o processo socializadorconstitui desde a apresentação do indivíduo representante de Deus naTerra até o casamento, exercendo a função de cristalizar nassubjetividades a doutrina disciplinadora da conduta dos homens emulheres,... , limitada à reprodução da espécie. (p.56).
  19. 19. 27Assim, a família, reproduzindo a moral cristã no processo de socializaçãodo indivíduo, atribui papéis estereotipados para o homem e para a mulher de formadesigual, onde o papel atribuído ao homem é sempre mais valorizado do que opapel da mulher.Nesse sentido, destaca Trevisan: “criaram-se corpos doutrinários enormas severas, com o intuito de sedimentar a família enquanto espaço fundamentalpara defesa da catolicidade.” (2007,p.110).O Estado, por seu turno, absorve os valores moralistas da igreja cristã,em parceria com a família e com a escola e dotado de recursos formais e legaisreproduz o machismo e a binaridade dos sexos.Deste modo, o Estado (e o Estado aqui referendado é o Estado burguês,que direciona suas ações seguindo a lógica do capital -consumo e obtenção delucro) ao mesmo tempo em que, em nome da moral e dos bons costumes,castra aspossibilidades de prazer dos sujeitos, expõe o corpo humano para a venda demercadorias com o objetivo de obter lucro.Assim, banaliza a sexualidade dossujeitos transformando-a em mercadoria. (LOIOLA,2005).A sexualidade, segundo Costa (1994), é um aspecto conflituoso econtroverso da vida do ser humano, e na cultura ocidental, criam-se modelos paraclassificar as pessoas, na maioria das vezes baseadas em preconceitos, nãopermitindo que as mesmas sejam como são. Tais moldes se referem aos papéissociais determinados para o masculino e feminino, que desconsideram a dinâmicada sexualidade, sua multiplicidade, variável de pessoa para pessoa, não sendo umaexperiência estanque ao longo da vida.1.2. Identidade sexualComo vemos o sexo durante algum tempo considerado como algomeramente biológico e natural, passa por transformações, ao ser deslocado doplano natural para o plano cultural. Esse deslocamento, segundo os antropólogos eos psicanalistas, acontece a partir da proibição do incesto. (CHAUÍ, 1984).
  20. 20. 28Nesse sentido, aponta Chauí (1984), a tragédia de Édipo, quando Freudelabora o conceito de Complexo de Édipo1, passa a ser o tema central na discussãoda sexualidade e de sua repressão.Nye (2002) aponta que Freud acreditava que a estrutura e ofuncionamento básicos da personalidade humana- embora tenha certa flexibilidade-são formados durante os primeiros cincos ou seis anos de vida. Assim, boa parte doque o sujeito é como adulto é determinado por suas experiências na infância.Chauí (1984) indica que Freud classificou as fases da libido, segundo aorigem do prazer, as regiões prazerosas do corpo e os objetos. A primeira fase éoral, onde a atividade se centraliza na boca, e o prazer vem do ato de comer ousugar e da ingestão de alimentos. A segunda fase é anal, tem como órgão do prazero ânus, e o prazer se dão pela retenção e expulsão das fezes. A terceira fase é afálica ou genital, que tem como fonte de prazer os órgãos genitais, o prazer vem damasturbação e das fantasias.Para Freud, segundo indicam Santos, Xavier e Nunes (2008) a fase fálicaé decisiva na formação da personalidade do sujeito. Nesta fase, onde se organiza oComplexo de Édipo, quando:o menino percebe a presença do órgão masculino, manipula-o obtendosatisfação libidinal.A menina também percebe a diferença anatômica sexuale ressente-se por não possuir algo que os meninos possuem. Em ambos oscasos a mãe é o primeiro objeto de amor.Nesse processo, o meninomantém um desejo incestuoso pela mãe.O pai é percebido como rival quelhe impede o acesso ao objeto desejado(mãe).Temendo ser punido com aperda dos órgãos genitais(angústia de castração) e do lugar fálico em quese encontra, o menino terá que recalcar o desejo incestuoso pela mãe eidentificar-se com o pai, escolhendo-o como modelo de papel masculino, eentão internalizar regras e normas impostas pela autoridade paterna (apessoa que ocupa esse lugar). A situação feminina é distinta. Ao percebera ausência do pênis, desenvolve um sentimento de inferioridade, tendoinveja e desejando o órgão masculino. Atribui à mãe a culpa por ter sidogerada assim e rivaliza com ela.Ao mesmo tempo precisa se identificar coma mãe para obter o amor do pai.Depois, esse desejo pelo pai deve sedissipar a fim de que possa sair da situação edípica, havendo um grandedeslocamento de energia libidinal que leva consigo para o inconsciente, ossentimentos conflituosos experimentados nessa fase, e as vivências infantisorais, anais e fálica (SANTOS, XAVIER e NUNES,2008,p.47-48).1Trata-se de um sistema ou de uma rede intrincada (donde, complexo) de afetos e fantasias que a criançapossui, entre os três e quatro anos, ao perceber que faz parte de uma tríada ou relação triangular constituída porela, pela mãe e pelo pai (CHAUÍ, 1984, p.63)..
  21. 21. 29Assim, nesta fase o falo representa, tanto para os meninos como para asmeninas, a onipotência. Entretanto, a menina desenvolve um sentimento deinferioridade, por perceber que não possui o pênis, e o menino, por medo dacastração, desiste de seu objeto de desejo – a mãe.De acordo com Freud (1967) citado por Chauí (1984) há diferenças nasuperação do complexo de Édipo:No menino, o complexo será vencido graças ao medo da castração pelopai,como punição do desejo incestuoso.Para conservar o pênis, o meninoaceita renunciar a mãe.Na menina, a solução será mais demorada porqueprecisa aceitar e conseguir um substituto para o pai, o que só lhe serápossível puberdade (p.70).Assim, a ameaça da castração faz com que os meninos resolvam deforma definitiva e completa o complexo de Édipo, já as meninas, por não seremmotivadas pelo medo da castração, prolongam a superação do complexo de Édipoaté a puberdade.Nye (2002) adverte que a solução do complexo de Édipo do menino podetomar rumos diferentes. Como, por exemplo, o sentimento de desagrado do meninopelo pai pode permanecer e prolongar-se para todas as figuras de autoridade. Nessesentido, indica Nye (2002, p.25):Entre os pensamentos de Freud sobre a homossexualidade estava aidéia de que ela pode resultar de uma intensa ligação erótica com amãe, especialmente na ausência de um pai forte; a identificação coma mãe em vez de com o pai, é uma possibilidade nesses casos.Desse modo, a homossexualidade pode ser resultado das marcasdeixadas na vida adulta pelo modo como foi experimentado o complexo de Édipo e aproibição do incesto na infância. Parisotto (2003) indica que Freud tinha algunspressupostos acerca da identidade sexual, bem como dos fenômenosHeterossexualidade/Homossexualidade. Entre alguns desses pressupostos, Freudconsiderava que tanto a hetero como a homossexualidade se desenvolvemsocialmente, e que a homossexualidade incluía fenômenos de ordens diversas, masafirmava ainda que os indivíduos possuem sempre uma corrente libidinosahomossexual e heterossexual, mas que a determinação da orientação dominante vaidepender de questões diversas.
  22. 22. 30Nesse contexto, na psicanálise:entende-se a sexualidade do adulto como decorrente de um processo dedesenvolvimento ordenado a partir de diversos aspectos, desde o biológico,atravessando o aprendizado cultural, até as representações mentais queestão perpassadas por conflitos referentes à situação edípica. É nesta área– dos conflitos, das representações mentais, das fantasias –, que está paraalém da objetividade e que está presente em toda atividade sexual, que apsicanálise tem oferecido sua maior contribuição. (PARISOTTO, 2003,P.84)Ao tratar sobre o sexo, Calligaris (1997) aponta que se este for definidopelos órgãos externos e por sua função procriativa, temos ainda hoje, dois sexosbiológicos: homem e mulher.Entretanto, ressalta Calligaris, a identidade de gênero não estárelacionada somente ao sexo biológico, mas a uma variedade de fatores.Nesse sentido, por mais que as pesquisas procurem mostrar que aorientação sexual2tem fundamento biológico, não se pode esquecer da influênciacultural que promove a divisão dos sujeitos em categorias sexuais.Segundo Costa (1993) desde o século XIX, passamos a acreditar que ossujeitos estavam naturalmente divididos em heterossexuais, homossexuais ebissexuais. A crença nesta classificação é fruto do vocabulário sexual de nossacultura, que nos induz a produzirmos modos de identificarmos moralmente, a nós eaos outros. As identificações sexuais de cada indivíduo são determinadas pelacrença nos dispositivos lingüísticos. Entretanto, é preciso, aponta Costa (1993)abandonar o vocabulário que deu origem a esta crença, que classifica o indivíduoem heterossexual, homossexual e bissexual, e buscar definir os sentimentos, de2Orientação sexual é a atração afetiva e/ou sexual que uma pessoa sente pela outra. A orientação sexual existenum continuum que varia desde a homossexualidade exclusiva até a heterossexualidade exclusiva, passandopelas diversas formas de bissexualidade. Embora tenhamos a possibilidade de escolher se vamos demonstrar, ounão, os nossos sentimentos, os psicólogos não consideram que orientação sexualseja uma opção consciente que possa ser modificada por um ato de vontade (BRASIL, 2004, p. 29).
  23. 23. 31acordo com os padrões éticos de cada um, redescrevendo um novo modo de amar edesejar sexualmenteConforme enfatiza Graner (2008) tem-se encontrado, mesmo que emcomunidades geográfica e socialmente diferenciadas, por meio da história e dacultura, distinções significativas entre homem e mulher. Ao homem, por possuir ofalo, geralmente associa-se a idéia de domínio, poder e de liberdade sexual, emcontrapartida, a figura da mulher encontra-se frequentemente associada à idéia defraqueza, sujeição e recato sexual.Assim, o órgão genital (o pênis ou a vagina) vai simbolizar a afirmativa deidentidade do indivíduo, em que a sociedade a qual pertence traça um roteiro devida determinando:o seu identificar-se, sentir-se, comportar-se e vestir-e.Mesmo com as‘revoluções’ dos costumes,idéias e papéis sociais, ainda persiste paramuitos a idéia de que um ‘pênis’ significa,como regra: homem, roupa dehomem (azul, gravata, calça, sem adornos), brinquedos/objetos dehomem(outdoor e violentos/ativos), trabalho de homem( mecânicos, exatos,físicos e de comando), comportamento de homem( virilidade, truculênciacorporal), etc.Enquanto que uma ‘vagina’ significa, também como regra:mulher, roupa de mulher( rosa, laço, saia, adornos), brinquedos/objetos demulher (indoor epacíficos/passivos), trabalho de mulher ( delicados,subjetivos, mentais e de agregação), comportamento demulher(feminilidade, delicadeza corporal) etc.( GRANER,2008, p.77)Ainda tratando a respeito de sexualidade e sexo, e seus significadossocioculturais, há no trabalho de Graner (2008), reflexões sobre o tema, apontandoque sexo é:O conjunto de desejos, afinidades, projeções, sonhos e ações, e o ‘sexo’que o ‘EU’ exercita através do corpo, mente e espírito pode tantorepresentar prazer, gozo, liberdade, vaidade, autonomia,orgulho ou furorcomo dor, frigidez, prisão, perversão, dependência, vergonha ou apatia. (p.76)Nesse mesmo trabalho, a referida autora destaca a noção de gênero,entendido como um conjunto de concepções, valores e praticas que se consensuamassociados a praticas sexuais e sociais do sexo oposto, evidenciando a busca decompreensão das relações sociais entre homens e mulheres.Nesse contexto, surge o conceito de identidade de gênero, que comoindica Graner (2008) é o:
  24. 24. 32auto conhecimento emocional definido através da afinidade maior com oque socialmente se convencionou reconhecer como masculino e/oufeminino, podendo ou não corresponder à demarcação sexual atribuída àpessoa pelo coletivo no momento de seu nascimento( dada tanto pelapercepção de seu órgão genital como pelo estabelecimento de suaexistência jurídica.) ( p.79).O homem nasce em uma estrutura social objetiva que lhe impõemsignificativos que se encarregam de sua socialização.Assim, a criança interioriza ospapéis e as atitudes dos outros significativos – as pessoas mais próximas -tornando-se capaz de auto-identificar-se.Desse modo, ela não só absorve os papéise atitudes dos outros significativos, como assume o mundo deles.A criança na socialização primaria identifica-se com os outrossignificativos, por não ter escolha, já que os outros significativos são definidosantecipadamente pela sociedade.O mundo dos pais é interiorizado por ela, comosendo o único mundo possível existente.”Os outros significativos na vida doindivíduo são os principais agentes da conservação de sua realidade subjetiva”(BERGER e LUCKMANN, 1985, p.200).1.3. Os saberes sobre a homossexualidadeA história tem mostrado que a homossexualidade não é um fenômenorecente, das tribos às civilizações, sempre existiu homossexual, entretanto, a formacomo é tratada se diferencia de um momento histórico para outro.Segundo Loiola (2006), na Grécia antiga, as relações homossexuais,apesar de se submeterem a postulados legais, eram livres, desde que tais relaçõesse realizassem entre pessoas de idades diferenciadas, um adulto e um jovem, sob opretexto do mais velho educar e proteger o mais novo.Na Grécia e em Roma antigas, a homofilia (o termo homossexualidade érecente) masculina era tolerada e, por vezes, até estimulada. Nessas sociedades, amulher considerada naturalmente passiva, o jovem livre, do sexo masculino,considerado passivo pela pouca idade, e o escravo, considerado passivo por suacondição de dominado e por obrigação, faziam com que as relações homofílicas sófossem admitidas entre um homem livre adulto e um jovem livre ou um escravo,jovem ou adulto. O jovem, pela idade, podia ser livre e passivo sem desonra; o
  25. 25. 33escravo, por sua condição desonrosa, só podia ser passivo; um homem, livre adultoque se prestasse a uma relação homofílica no papel passivo era considerado imorale indigno, entretanto, comportando-se como ativo na relação sexual, era livre paramanter relações com jovens, por não afetar sua masculinidade; com mulheres, porserem inferiores; e com escravos, por não serem considerados cidadãos (CHAUÍ,1984).Com o advento do Cristianismo, o Império romano, que antes celebrava abissexualidade, passa a condenar as práticas homoeróticas. Os códigos de conduta,a moral e a ética impostas pela Igreja, aliada ao império, segregam os indivíduosque estão fora dos padrões socialmente estabelecidos. O tribunal do Santo Ofício,instituído na Europa, perseguia aqueles que praticavam heresia e ahomossexualidade estava incluída dentre estas práticas.Na Europa dos séculos XVI, XVII e XVIII, não apenas a Espanha,Portugal, França e Itália católicos, mas também a Inglaterra, Suíça e Holandaprotestantes puniam severamente a sodomia seus praticantes eram condenados apunições como: multas, prisão, confisco de bens, banimento da cidade ou do País,trabalho forçado, execração e açoite público até a castração, amputação dasorelhas, morte na forca, morte por fogueira e afogamento (TREVISAN, 2007).1.3.1. Concepção clerical da homossexualidadeA religião cristã, sempre restringiu a sexualidade à função procriativa, ouseja, qualquer atividade sexual que não tivesse finalidade procriadora eraconsiderada pecaminosa. Assim, aponta Gurgel (1999), foi desenvolvido um códigode ética sexual pelos primeiros padres da Igreja cristã – Clemente, Orígenes,Jerônimo e Agostinho – estabelecendo o princípio de que o sexo praticado parafinalidade não procriativa era uma violação da natureza. Desta forma, ahomossexualidade passa a ser condenada como um pecado, visto que sua práticarepresenta uma transgressão à ordem natural e divina das coisas.
  26. 26. 34A Igreja faz uso de textos bíblicos para determinar pecados condenáveis.Como o livro de Levítico do Antigo Testamento, que sobre a sodomia3aponta que:“Não te aproximaras dum homem como se fosse mulher, porque é umaabominação.” (Lv. 18,22); e “Aquele que pecar com um homem, como se fosse umamulher, ambos cometeram uma coisa execranda, sejam punidos de morte; o seusangue caia sobre eles.” (LV.20,13).Também no livro I Coríntios do NovoTestamento, há referências à condenação da homossexualidade: “nem osefeminados, nem os sodomitas (...) possuirão o reino de Deus”.(I Cor.6,10). AEpístola de São Paulo aos Romanos (1, 26-27), no Novo Testamento, deixa clara acondenação que o apóstolo Paulo faz a prática homossexual, considerando comoum desregramento cometido contra a natureza:Por isso Deus entregou-os a paixões de ignomínia.Efetivamente, as suaspróprias mulheres mudaram o uso natural em outro uso, que é contra anatureza, e ,do mesmo modo, também os homens, deixando o uso naturalda mulher, arderam nos seus desejos mutuamente, cometendo homenscom homens a torpeza e recebendo em si mesmos a paga que era devidaao seu desregramento.(BÍBLIA, 1983).É mister destacar aqui, o trabalho de Gafo (1985) apontado por Loiola(2006), sobre o cristianismo e a homossexualidade, em que ele faz uma divisão dahistória cristã em quatro fases:a primeira compreende os primeiros setes séculos da cristandade – onde asinfluências do mito da cidade de Sodoma influenciam e/ou justificamdecisivamente na criação dos códigos de condutas e determinaçõespunitivas para os pecadores, ainda no Império Romano.A segunda fase (..)entre os séculos VII e XI – é aqui que se Distingue com maior clareza asatitudes consideradas homossexuais:’ toques, afetos, masturbação mútua,conexão interfemural e sodomia’ – a homossexualidade é considerada umpecado grave a homossexualidade feminina tem citação inédita.A terceirafase (...) séculos XI e XIII – neste período é definido por alguns santos opecado antinatural, incluindo a homossexualidade e outras práticas como amasturbação.Santo Alberto Magno e Sto.Tomás de Aquino são expoentes(...) para a solidez da moral cristã nesse período; a quarta fase(...) séculosXIV e XX – período de afirmação da moral cristã com um profundoacirramento da aversão à homossexualidade, haja vista a proclamação dosexo exclusivamente para a procriação.( LOIOLA,2006,p.43).Diante de tal consideração, percebe-se que a moral cristã teminfluenciado sobremaneira as condutas dos sujeitos, determinando o uso do sexopara procriação, punindo e condenado como um pecado contra a natureza, aspráticas sexuais com finalidades não procriativas, entre elas destaca-se a3Termo utilizado na Bíblia, para designar as relações homossexuais masculinas, em Sodoma, tidas comorelações contra a natureza. (ARIÈS, 1985).
  27. 27. 35homossexualidade. A abominação do prazer homossexual pela instituição cristã,“determina a dualidade nas relações entre os homens e as mulheres (...), fixa oestabelecimento dos papéis sexuais e sociais eliminando a possibilidade dahomossexualidade” (LOIOLA, 2006, p.47).O depoimento de Roberto, em entrevista cedida a Paiva (2007), confirmaa influência que a moral cristã tem na direção das condutas dos sujeitos:A questão da homossexualidade ocupa todos os lugares da minha vida.(...).A minha memória homoerótica vai aos três anos de idade, pelomenos.(...).Desde a primeira infância, segunda infância, puberdade,adolescência, eu sempre soube que eu era diferente e sabia qual era essadiferença.Daí ter sofrido terrivelmente, porque fui criado sob a ética católica,quer dizer, judaico-cristã, no catolicismo romano, indo para a missa tododomingo não sei mais o quê , e que dizia sobre aquilo que eu sentia dediferente em mim, e que era a minha peculiaridade, a minha essência,eraque aquilo era proibido, era sujo, era pecaminoso. Se insistisse naquilo euiria ser condenado ao fogo do inferno,etc.(...).Participava de grupos deorações e pedia a Deus que me curasse então diretamente.Me sentiaculpado porque me masturbava tendo desejos por homens.Mas o própriocontato com a religião me afundava cada vez mais, me fazendo me sentiruma nulidade total como ser humano...(p.123-125)Esse posicionamento da igreja, com variações mínimas ao longo dahistoria, tem influenciado e motivado diversas discussões ao redor do mundo, acercada Homossexualidade, bem como do surgimento de grupos de discussões acerca dopróprio papel da igreja no controle do pensamento e opiniões da sociedade.1.3.2. Concepção da medicinaA partir do século XIX, irrompe na Europa e no Brasil a preocupaçãomédica com a homossexualidade. A ciência médica passa a exercer um controleterapêutico que substitui o antigo controle religioso. A homossexualidade, antes tidacomo pecado, vício ou crime, passíveis de castigos ou de penas, passa a serconsiderada uma patologia, que necessita da intervenção e do cuidado do médicoou do psiquiatra (TREVISAN, 2007).Começaram a abundar na Europa e no Brasil, em meados do século XIX,abordagens cientificas sobre as perversões sexuais. A psiquiatria, com largaexperiência no trato da loucura, passa a enquadrar os desvios à norma não mais
  28. 28. 36como crimes e sim como doenças. O pederasta, agora considerado doente, não eramais culpado por transgredir a norma, do ponto de vista jurídico.Nesse período, a medicina iniciou estudos acerca das causas dahomossexualidade, e apresentou duas causas principais: biológicas, destacando ahereditariedade e os defeitos congênitos e defeitos hormonais; e causas de cunhosocial. Uma vez que havia causas endócrinas e orgânicas, os médicos viam, dessaforma, a possibilidade de cura, pela correção hormonal, por exemplo. E, além disso,se fosse observada que as causas eram de caráter social, haveria “medidaspedagógicas” de correção. (FRY e MACRAE, 1983)No Brasil, as investidas psiquiátricas contra os homossexuais nuncachegaram a criar instituições especializadas, nem por isso as sugestões decrescente psiquiatrização da prática homossexual deixaram de ser, a partir dadécada de 1920, periodicamente reiteradas por autoridades médico-policiais do país,preocupadas com a defesa da sociedade sadia. Apesar de não haver, no CódigoPenal Brasileiro, nenhuma menção à homossexualidade como crime, a medicinalegal se achava no direito de sugerir ação médico-correcional para os delinqüenteshomossexuais, além de punição do crime específico de que eram acusados (FRY eMACRAE, 1983). Em parte isso se dava porque as visões da medicina e da ciênciaaliavam-se à visão tradicionalista da Igreja, e assim continuava perseguição aoshomossexuais.A partir do início do século XX, a medicina toma para si o direito de falarsobre homossexualidade e suas causas, procurando determina-la, “diagnosticá-la”,procurando intervenções. Assim, a homossexualidade passa de crime, pecado, para,a partir de então, ser considerada doença. (FRY e MACRAE, 1983). Nesse período,a medicina começou a destacar a homossexualidade como patologia que trariaconsigo a possibilidade de outras doenças, surgindo os homossexuais ”esquizóidese paranóides”, por exemplo.Na década de 30, no Brasil, a idéia da homossexualidade como patologiaganhava força. Entretanto, médicos, psicólogos e sexologistas, ao tratarem dessatemática em seus escritos, recorriam aos ensinamentos da Igreja Católica sobre aimoralidade do homoerotismo como referencia de fundo para argumentar que eram
  29. 29. 37necessárias atitudes sociais mais tolerantes para com os indivíduos depravadossobre as quais escreviam (GREEN, 2000).Nos anos 60, os movimentos de jovens e estudantes propiciaram váriasdiscussões na sociedade e na mídia sobre a sexualidade, os papéis de gênero e ahomossexualidade.A discussão acerca dos saberes sobre a diversidade sexual no Brasil,ganha força nos anos 70, quando se dá início ao movimento comunitáriohomossexual. Associações e grupos se multiplicavam pelo País, na luta pelosdireitos humanos de gays, lésbicas, transgêneros e bissexuais (GLTB).De acordocom os dados do programa Brasil sem homofobia (2004), atualmente, há cerca de140 grupos espalhados por todo o território nacional.Em 1973, em grande parte devida ás pressões dos movimentoshomossexuais, a homossexualidade deixou de ser classificada como doença pelaAssociação Americana de Psiquiatria. Médicos e psicoterapeutas passam a aceitar aidéia de que a homossexualidade é uma orientação sexual tão aceitável como aheterossexualidade (FRY e MACRAE, 1983).1.4. Homossexualidade e o “gueto”O que vemos hoje, ao lado dos avanços dados no trato da questãohomossexual no decorrer da história, é uma crescente manifestação homofóbica4que vai desde assassinatos de homossexuais, até a utilização de simples símbolosque confirmam a discriminação e o preconceito.A apreensão do conceito de preconceito aqui, é a indicada por Rodrigues,Assmar e Jablonski (1999), que traz sua definição como uma atitude hostil ounegativa com relação a um determinado grupo, já a discriminação refere-se acomportamentos (expressões verbais, condutas agressivas,etc.)4O termo homofobia é utilizado para descrever a aversão aos sujeitos que têm orientação sexual e afetiva porpessoas do mesmo sexo.A homofobia é uma ideologia anti-homossexual que se manifesta de múltiplasformas:agressão física, chantagem e extorsão, xingamentos, ofensas verbais, discriminação, constrangimento,humilhação e assassinato.(LOIOLA, 2006).
  30. 30. 38Para fugir da violência e da intolerância da sociedade contra suasubjetividade homossexual, os homossexuais têm buscado cada vez mais espaçosonde possam expressar sua sexualidade, livres de discriminação e preconceito – o“gueto” homossexual. Para Loiola (2006) o “gueto” homossexual, ao mesmo tempoem que contribui para a socialização com outros indivíduos de mesma orientaçãosexual, segrega-os.Assim, o “gueto”:constitui-se como o lugar que se consolida a segregação,onde serãomanifestados, livremente, os sentimentos interiorizados, inibidos peladinâmica social.É o lugar fechado, onde os iguais na (orientação sexual) seencontram, ou os diferentes do mundo sistematizado se escondem.(LOIOLA,2006, p.92)A dinâmica social acaba impondo ao homossexual, desde muito cedo, aidéia de que a homossexualidade é algo inferior, sujo, pervertido. O homossexual,internalizando essas idéias, acaba por sentir-se segregado, buscando os “guetos”como locais de livre expressão, entre os “iguais”. São locais nos quais se vive,sexual e socialmente, a homossexualidade, sem nenhuma repressão. Dessamaneira, os indivíduos se agrupam nos “guetos”, cedendo à pressão social, parasentirem-se aceitos e não sofrerem punições.(RODRIGUES, ASSMAR eJABLONSKI, 2001).Para Trevisan (2007) discutir as causas da homossexualidade é algodispensável e equivocado. A homossexualidade é fato consumado, não precisa dejustificação causal. Ao questionar a origem de algo diferente, já se está sugerindo aidéia de um desvio da normalidade.Nesse sentido:(...) criar conceitos fechados de homossexual (ou bissexual) acabariaservindo mais aos objetivos da normatização do que a uma real liberaçãoda sexualidade, inclusive por incentivar diretamente a política do gueto, doseparatismo e do racismo sexual, numa discriminação às avessas(TREVISAN, 2007, p. 36).Desse modo, os homossexuais, considerados desviantes danormatividade padronizada, buscam espaços onde possam expressar livrementesua sexualidade livres de discriminações e preconceitos.
  31. 31. 39Numa sociedade como a nossa em que a identidade homossexual éestigmatizada, a criação do ”gueto“ (bares, discotecas, saunas e outros espaçosdirecionados para o público homossexual) tem sido uma estratégia utilizada peloshomossexuais não só para socialização de pessoas com mesma orientação sexual,mas também para proteção contra manifestações discriminatórias, preconceituosase homofóbicas. Assim, o “gueto” homossexual passa a ser um ambiente socialseguro, onde o individuo pode expressar sua sexualidade sem preocupação ouansiedade.Esses espaços – “os guetos” – para além de um local de diversão sãocriados pela rejeição da sociedade as manifestações públicas da subjetividade doshomossexuais. Nesse sentido, é mister destacar a definição clássica de “gueto”apontada por Pollak (1985) como “bairros urbanos habitados por grupos segregadosdo restante da sociedade, levando uma vida econômica relativamente autônoma edesenvolvendo uma cultura própria” (p.70).O uso do termo “gueto” nesse trabalho refere-se aos locais nos quais oshomossexuais se encontram para, além da diversão, se reconhecer como sujeitosatravés da interação com outras pessoas que compartilham uma experiência similarde segregação social e para vivenciarem sua sexualidade livre de preconceito ediscriminação.O termo ”gueto” tem sido usado por diversas ciências. Mas, de uma formageral, há convergência de significado, como uma área:urbana restrita, uma rede de instituições ligadas a grupos específicos e umaconstelação cultural e cognitiva (valores, formas de pensar oumentalidades) que implica tanto em isolamento sócio-moral de umacategoria estigmatizada quanto o truncamento sistemático do espaço e dasoportunidades de vida de seus integrantes.(WACQUANT, 2004, p.156).O referido autor indica que o uso do termo se tornou disseminado eaplicado conforme o senso comum que prevalece nas sociedades, de modo que nãohá definição precisa do mesmo nas diversas áreas do conhecimento.A palavra “gueto” foi inicialmente utilizada para referir-se à consignaçãoforçada de judeus por autoridades políticas e religiosas da cidade. Nesses casos, osjudeus viviam em áreas cedidas e restritas, onde praticavam seus negócios e
  32. 32. 40seguiam seus costumes. O termo deriva de giudecca, borghetto ou gietto, do idiomaitaliano. Seu significado passou por várias modificações, das quais se destaca autilização do termo para referir-se aos locais específicos dos homossexuais ‘ emresposta ao estigma e à libertação gay’ (LEVINE citado por WACQUANT, 2004,p.157).Wacquant (2004) indica que para a categoria dominante a finalidade do“gueto” é circunscrever e controlar, o que se traduz no que Max Weber chamou de‘cercamento excludente’ da categoria dominada “(WACQUANT, 2004, p.158). Paraos dominados o “gueto” tem o papel de integrar e proteger, pois proporciona asocialização de seus membros e livra-os do contato permanente com osdominantes.Para Pinheiro (2003), os “guetos” são:Locais criados pela rejeição social da expressão pública destasubjetividade, o que força as pessoas a buscar lugares para a suaexpressão, com uma cultura própria, extremamente apartada. Desta forma,o gueto surge como espaço público de afirmação da subjetividade e daexistência da comunidade homoerótica. (p.59)Nunan e Jablonski (2002) indicam que os homossexuais procuram os“guetos”, pela segregação forçada por causa da discriminação, por preferir mantercontato com pessoas similares compartilhando identidade e por poder ser elesmesmos, mostrando sua orientação sexual sem preocupação ou ansiedade.Toda essa situação de rejeição social que acaba empurrando oshomossexuais para os “guetos”, estimula as relações de objeto.Ou seja, oshomossexuais acabam tendo de contentar-se com relações passageiras e com acoisificação das relações.Viver uma relação afetiva mais sólida implica em ter que seexpor, enfrentando toda uma carga de preconceito que isso pode produzir, uma vezque, uma relação mais humana e edificante existe para além do “gueto”.
  33. 33. 41CAPÍTULO II: PASSOS METODOLÓGICOS DA INVESTIGAÇÃO2.1. Aproximação com o objeto – “gueto”Para me aproximar do objeto, realizei visitas a duas boates destinadas aopúblico LGBTT. Fiz observação direta no “gueto” homossexual, compreendendo queesse tipo de observação tem por objetivo registrar e recolher todos os componentesda vida social do meio observado e que se apresentem à percepção do observador.Dessa forma, pude testemunhar os comportamentos, atitudes, praticas dosindivíduos nos próprios locais em que tais fatos acontecem, sem alterar o seu ritmonatural ou cotidiano (PERETZ, 2000).Na boate “A”, o espaço físico é pequeno, mas aconchegante, com doisandares, os dois destinados à dança. Há um bar que vende diversos tipos debebidas, nos dois ambientes. Luzes se espalham por todo o local, de baixaintensidade, e das mais variadas cores, com direito a globo luminoso e jogos de luz.Um DJ realiza a seqüência de musicas, e não há pausas entre elas. Em algunsmomentos, percebi certa preferência por alguns cantores, que não identifiquei quemeram, mas o publico gritava, dando resposta que tinham aprovado a escolha do DJ.O público, eminentemente masculino, veste as mais variadas roupas, dediversos estilos, e alguns utilizam óculos escuros, alem de gel no cabelo e outros atémaquiagem. Observei presença restrita de travestis, e um deles falou que eles nãosão muito bem vindos naquela boate (preconceito???). Por conta do intenso barulhoda musica, não consegui distinguir bem as conversas, nem esmiuçar a linguagem,mas percebi que há uma variação também grande de estilos e linguagens, com usode expressões próprias, e alguns se tratam e se abordam no feminino ( “Dá licençaque estou precisando ir ao banheiro, estou morta de apertada”). Esse uso dofeminino para tratar de si e dos outros foi algo muito comum que observei no lugar.Brigas, não vi. O lugar é calmo, e muito raramente se vê discussão ou seprecisa de apoio da segurança, me informa um dos freqüentadores. O que mais
  34. 34. 42observei foi muita dança, todos parecem envolvidos pela musica, muito contagiante.Observei poucos casais, que se beijam e se abraçam livremente. A presença decasais só aumentou no fim da noite, dentro da madrugada, e um amigo informa queé a hora que todos procuram alguém pra beijar.Há um local denominado de dark room, no qual a luminosidade é mínima,e os freqüentadores têm mais “liberdade” com seus parceiros, e um amigo informaque nesse local há muito sexo, livre. Passei pelo local, mas não consegui enxergarmuita coisa.Há alguns que tiram a blusa, e dançam entre os demais, e geralmentesão pessoas de corpos muito bonitos, “malhados”.O ambiente funciona ate seis da manha, quando então a casa fecha.Permaneci no local ate três da manha, e amigos ainda me criticaramporque fui “muito cedo”.A boate “B”, os cenários são relativamente parecidos, mas há, nessa,outros ambientes, e esses pude observar com mais clareza. Há uma sala em quesão exibidos filmes de natureza pornográfica, e segundo alguns amigos que meacompanharam, há sessões de masturbação coletiva e individual, livremente e nafrente de demais pessoas. Não entrei nesse ambiente,mas pela descrição eobservação externa à sala, o ambiente é sempre cheio, e há uma rotatividadegrande para dentro e fora dessa sala. Há também um dark room, em frente à sala decinema pornográfico. Dessa a sala, há também um grande fluxo de freqüentadores,mas observei que a permanência dentro dessa sala é mais rápida do que na sala decinema. Alguns amigos me informaram que muitos vão apenas para observar, e nãoparticipam ativamente. Percebi ainda que, como no caso da boate “A”, o publico éeminentemente masculino, mas vi algumas mulheres no local. Na parte da frente daboate, há uma pista de dança, e mais uma vez, observei muito envolvimento com amúsica e com a dança no local. Na parte de trás da boate, há um local de ar livre,onde se vendem bebidas e há musica ao vivo, o “pagode”, e os freqüentadoresdispõem também de espaço para dança. Lateralmente, há banheiros coletivos, e,amigos novamente descreveram que nesses banheiros o sexo acontecepublicamente. Segundo amigos que freqüentam mais assiduamente o local, essa
  35. 35. 43boate é mais comumente freqüentada por pessoas de classe social mais baixa,devido , sobretudo, ao valor da entrada, mais acessível que a da boate “A”.2.2 Natureza do estudoAo realizar uma pesquisa, cabe ao pesquisador, questionar a realidadecompreendendo que qualquer conhecimento é apenas recorte e que ao lado dapreocupação empírica deve haver a preocupação teórica, uma vez que é preciso terconhecimento teórico para captar a realidade. A realidade existe independente dainterpretação, entretanto, para conhecê-la é preciso interpretá-la (DEMO, 1999).É mister destacar que enquanto a teoria coloca a discussão sobreconcepções de realidade, o método coloca a discussão sobre concepções deciências.Portanto, na pesquisa é essencial também a preocupação metodológica,visto que ela é um dos horizontes estratégicos da pesquisa, uma vez que alcança acapacidade de discutir de forma criativa, caminhos alternativos para a ciência. Ométodo é que vai diferenciar a ciência de outros saberes, pois a ciência é assumidacomo conhecimento metódico, cuidadoso e testado.Andery (1996) aponta que o conhecimento em Marx:(...) não se produz, portanto a partir de um simples reflexo do fenômeno, talcomo este aparece para o homem; o conhecimento tem que desvendar, nofenômeno aquilo que lhe é constitutivo e que é em principio obscuro; ométodo para a produção desse conhecimento assume, assim, um caráterfundamental: deve permitir tal desvendamento, deve permitir que sedescubra por trás da aparência o fenômeno tal como é realmente, e mais, oque determina, inclusive, que ele apareça da forma como o faz. (ANDERY,1996, p. 413).Assim, em Marx, para construir conhecimento é preciso desvendar nofenômeno o que lhe é constitutivo, procurando descobrir o que está por trás daaparência, considerando que os fenômenos constituem-se, fundam-se etransformam-se a partir de múltiplas determinações.Desse modo, Marx com seu método materialista, histórico e dialético, nosdá suporte para compreendermos o real e construirmos conhecimento. A partir
  36. 36. 44dessa compreensão, a pesquisa social a que me propus realizar, foi norteada pelométodo materialista, histórico e dialético de Marx.Para elucidar o objeto que tomei para investigação realizei uma pesquisabibliográfica e documental buscando informações e conhecimento através daliteratura especializada.Na pesquisa de campo, visando abranger a complexidade do objeto, aabordagem foi feita através de uma pesquisa qualitativa, buscando descobrir osignificado das ações e das relações que se ocultam nas estruturas sociais, captar ouniverso das percepções das emoções e das interpretações dos informantes no seucontexto (MARTINELLI, 1999).A técnica utilizada para obtenção das informações foi a entrevista semi-estruturada, contendo questões abertas, visando captar as falas espontâneas dossujeitos participantes da pesquisa. Tal entrevista permite que o entrevistado falelivremente sobre os assuntos que vão surgindo, como desdobramento do tema,dando oportunidade para que o mesmo coloque outras questões relacionadas com aquestão central. (HAGUETTE, 1999).Dessa forma, a investigação teve como principal instrumento de coleta dedados a entrevista na qual foram feitas as seguintes perguntas aos homossexuaisparticipantes da pesquisa: Como você se percebeu homossexual?A família sabe desua orientação sexual?Como reagiu ao saber?O que os amigos significam paravocê?Você possui mais amigos homossexuais ou heterossexuais?Qual o lugar quevocê prefere freqüentar? Por quê?O que o “gueto” representa para você?Quais ostipos de discriminação você sofre fora dos “guetos”?Você acha que oshomossexuais devem se expor ou não?O que seria mais incomodo para você nareação das pessoas?Há algo em que você tenha vergonha?O que você pensaacerca da sua orientação sexual?Como você se sente?As pessoas costumam teralguma reação a você por conta da sua orientação sexual?Você acha que o públicoLGBTT freqüenta um determinado tipo de lugar?Quais as características desselugar?Por que as pessoas freqüentam?Essas perguntas, portanto, instigam e movem essa pesquisa que temcomo objetivo geral desvendar os reais significados do “gueto” homossexual em
  37. 37. 45Fortaleza, e como objetivos específicos:desvelar o significado do “gueto” para oshomossexuais; identificar os tipos de discriminações sofridas pelos homossexuaisentrevistados.Através da articulação das respostas dos sujeitos entrevistados com aliteratura consultada, tentei elucidar os objetivos do estudo.2.3. Campo da pesquisaA pesquisa de campo foi realizada no GRAB (Grupo de Resistência AsaBranca) situado na Rua Teresa Cristina, 1050, Centro – Fortaleza- Ceará.Fundado em 1989, o GRAB é uma organização da sociedade civil, semfins lucrativos, com base comunitária, sendo pioneira no estado do Ceará, na defesados direitos de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais (LGBTT). Busca deforma permanente a inclusão dos/das homossexuais, através do ativismo, pelaconstrução da cidadania e da defesa dos direitos humanos das comunidadesLGBTT. Tem variados projetos destinados a facilitar a discussão do tema nasociedade, através de oficinas, encontros, projetos comunitários, sendo inclusiveatualmente reconhecido como de Utilidade Publica Municipal (Lei 7066 de27/03/1992). Presta assessoria jurídica e psico-social ás pessoas afetadas pordiscriminação de prevenção das DST/AIDS e Hepatites virais e apoio a pessoasvivendo com HIV/AIDS, com fornecimento orientado e gratuito de preservativos.Ainda, disponibiliza um centro de documentação (biblioteca e videoteca) sobreDireitos Humanos, Homossexualidade e DST/AIDS para toda a sociedade.O GRAB, em seus vinte anos de existência, tem atuado diretamente noenfrentamento ao preconceito por orientação sexual em diversas instâncias dasociedade, através da construção da cidadania homossexual na premissa de queesta perpassa todas as esferas da vida humana, exigindo uma atuação plural quecontemple a justiça, a saúde, a educação, a cultura, a formação profissional,contribuindo para que essa população vivencie plenamente seus direitos sexuais esociais. Desta forma, a instituição tem desenvolvido diversas ações e projetos nasáreas da Saúde (prevenção das DST/HIV/Aids e apoio às pessoas vivendo com
  38. 38. 46HIV/Aids), Qualificação Profissional (cursos de informática e centro de estética),Direitos Humanos (assistência jurídica e psico-social gratuita em casos dediscriminação por orientação homossexual), Ativismo (politização e luta pelo controlesocial das políticas públicas) e Organização das Paradas pela Diversidade Sexualno Ceará.No período de 1995 a 2006, o GRAB realizou Projetos na área deAssessoria Jurídica, Prevenção e Cidadania, junto à população de gays, bissexuais,trabalhadores do sexo e transgêneros.Em 2000, desenvolveu o ProjetoHIVIDAARTE, junto a 30 jovens, de 14 a 21 anos, portadores de HIV/Aids e filhos deportadores, para a capacitação profissional.Realiza as Paradas pela Diversidade Sexual no Ceará, desde 1999, temparticipado das Conferências estaduais e nacionais de Direitos Humanos e dasreuniões para a formulação do Programa Brasil Sem Homofobia – Programa decombate à violência e à discriminação contra LGBTT e de promoção da cidadaniahomossexual, da SEDH (Secretaria Especial de Direitos Humanos) – Presidência daRepública.O quadro de profissionais do GRAB é formado por pessoas habilitadasem gerenciamento e elaboração de projetos, ativismo, controle social,desenvolvimento institucional, advocacy intervenção etc., que o credencia a utilizaras ferramentas metodológicas empregadas, baseadas em metodologiasparticipativas, numa construção entre pares e de empoderamento comunitário.Dessaforma, tem desenvolvido ações sócio-educativas e de intervenção social, sob oprincípio de prioridade em melhorar a qualidade de vida de lésbicas, gays,bissexuais, travestis e transexuais e estreitar, cada vez mais, o diálogo entre omovimento comunitário homossexual e a sociedade civil.A Diretoria do GRAB, de acordo com seu estatuto, é formada por umpresidente, um vice-presidente, primeiro e segundo secretários, primeiro e segundotesoureiros e um conselho fiscal composto por três filiados do GRAB e seusrespectivos suplentes.O GRAB tem como missão, melhorar a qualidade de vida de lésbicas,gays, bissexuais, travestis e transexuais; e pessoas vivendo com HIV/Aids, no
  39. 39. 47estado do Ceará.Para tanto, a instituição desenvolve hoje os seguintes Projetos:Entre nós; SOMOS ;Diversidade sexual e Cidadania; Centro de Referência LGBTTJanaina Dutra; OBALUAIÊ e o Projeto SAGAS.O Projeto Entre Nós, realiza ações educativas em prevenção dasDST/HIV/Aids junto a gays e outros Homens que fazem Sexo com Homens (HSH)em 13 municípios cearenses e em 15 bairros da periferia de Fortaleza.O SOMOS desenvolve ações voltadas ao fortalecimento institucional deONGS de promoção dos direitos humanos de homossexuais, nas áreas deintervenção, advocacy e desenvolvimento organizacional.O Projeto assessora hoje,mais de 15 grupos em todo estado do Ceará.O Projeto Diversidade Sexual e Cidadania, têm como objetivo capacitarprofissionais da educação, especialmente, os professores da rede pública municipalde Fortaleza a estarem habilitados para a abordagem e discussão sobre sexualidadehumana e diversidade sexual, nos espaços escolares, privilegiando o prisma doenfrentamento ao preconceito e a discriminação.O Centro de Referencia LGBTT Janaina Dutra oferece serviços deassessoria jurídica e psico-social e de mediação de conflitos em casos dediscriminação por razão da orientação sexual.O atendimento é feito por uma equipemultidisciplinar, formada por advogada, estagiários de Direito, psicóloga e assistentesocial.O OBALUAIÊ realiza ações preventivas à transmissão das hepatitesvirais, através da mobilização e parceria entre ativistas LGBTT, rede pública desaúde, especialmente as equipes do Programa de Saúde da Família (PSF) eautoridades afro-descendente da área de abrangência do projeto.O Projeto SAGAS faz parte de uma parceria entre a Fundação Schorer –Instituição Holandesa voltada para o público LGBTT – com quatro ONGS no Brasil: oGRAB no Ceará, a ABIA (Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids) e GrupoArco-Íris no Rio de Janeiro e o Grupo Somos no Rio Grande do Sul.O SAGAS/GRABrealiza atividades que tem como objetivo estimular a prática do sexo seguro econtribuir para a autonomia dos jovens homossexuais e outros Homens que fazem
  40. 40. 48Sexo com Homens – HSH na Cidade de Fortaleza – Ceará.As atividades deinteração do Projeto SAGAS/GRAB iniciaram em 2008 e conta com diversas ações:Sobre nós: diálogos e sexualidades – atividades diretamente com os jovens;Atividades de pesquisa; Parcerias e Desenvolvimento Institucional.Nas primeiras terças-feiras de cada mês o GRAB realiza reuniões abertaao público, onde são discutidos temas como: Prevenção e Sexo Seguro, Gênero eSexualidade, Cidadania Homossexual, A Diversidade Sexual e o Parlamento, oMovimento Homossexual e a Luta Contra a Aids.(GRAB, 2009)A escolha do GRAB se deu por conta de sua visibilidade na sociedadecearense, como um grupo de referência quando o assunto é a temáticahomossexual.Além disso, é uma entidade que tem como principal bandeira de luta oenfrentamento ao preconceito por orientação sexual em diversas instâncias dasociedade, divulgando informações corretas e positivas da homossexualidade eesclarecendo ao público LGBTT a importância da organização política na luta pelosseus direitos.Como enfatiza Nelson Correia:‘Assim como Asa Branca é um pássaro queenfrenta a seca e a aridez, o GRAB representa a resistência ao machismo edesrespeito contra os homossexuais.’52.4.Sujeitos da pesquisa e trajetória metodológicaOs sujeitos da pesquisa foram homossexuais masculinos que fazem partedo Projeto SAGAS6/GRAB, sendo a faixa etária dos entrevistados entre5Fala de Nelson Correia, do Programa Nacional de DST/AIDS, no momento em que explicava o sentido donome do GRAB, durante apresentação em mesa redonda, no Seminário ‘ 20 anos de Resistência Construindo aIgualdade’, realizado pelo GRAB no dia 26 de março de 2009 no auditório do Centro Dragão do Mar de Arte eCultura em Fortaleza-Ceará, em comemoração dos 20 anos do GRAB.Informações disponíveis em:http//www.grab.org.br/index.html.Acessado em :11 de maio de 2009.6Projeto que faz parte de uma parceria entre a Fundação Schorer – Instituição Holandesa voltada para o públicoLGBTT – com quatro ONGS no Brasil: o GRAB no Ceará , a ABIA (Associação Brasileira Interdisciplinar deAids) e o Grupo Arco-Íris no Rio de Janeiro e o Grupo Somos no Rio Grande do Sul.O SAGAS/ GRABdesenvolve atividades que têm como objetivo estimular a prática do sexo seguro e contribuir para a autonomiados jovens homossexuais e outros Homens que fazem Sexo com Homens – HSH na Cidade de Fortaleza –Ceará.Informações disponíveis em: http://www.grab.org.br/projetos.html.Acessado em: 11 de maio de 2009.
  41. 41. 49vinte e um e vinte e oito anos. A escolha dos sujeitos foi realizada de formaaleatória, após o contato inicial, no qual todos os participantes do grupo foramesclarecidos da natureza da pesquisa.Os homossexuais foram previamente consultados sobre o interesse emparticipar da entrevista, pela coordenadora de monitoramento do GRAB. Confirmadoo interesse dos mesmos em participar da pesquisa, a coordenadora entrou emcontato comigo para marcar o dia e o horário para a realização da entrevista.Foi utilizada a amostragem teórica (processo de saturação teórica) comométodo de determinação do número de sujeitos componentes da pesquisa. Nesseprocesso, segundo afirma Minayo (2000), o dimensionamento do número deindivíduos depoentes é realizado segundo o nível de compreensão, o mais amplopossível, atingido pelo pesquisador em questão. O critério de escolha utilizado foi aaceitabilidade dos homossexuais em participar da pesquisa, sem haver critério deexclusão, uma vez que considerei que cada um possui algo a dizer sobre suavivência. Utilizando a técnica de amostragem teórica, foram captados quatrodiscursos.As entrevistas foram realizadas no GRAB, numa quinta-feira, dia em queos homossexuais participam de uma reunião do Projeto do qual fazem parte(SAGAS).Num primeiro momento, falei aos participantes sobre o objeto de estudo,bem como seus objetivos e importância.Informei também que o nome de cadaparticipante seria mantido em sigilo, substituindo seus nomes verdadeiros por nomesfictícios.Ainda, numa conversa informal, esclareci que eles não precisavam sepreocupar em dar respostas corretas, apenas expressar de forma espontânea, suasvivencias, suas idéias, seus pensamentos, suas opiniões e posicionamentospessoais em relação às questões abordadas.Esse primeiro momento foi importante,pois proporcionou uma “quebra” de formalidade que pudesse prejudicar a captaçãodas falas dos depoentes.Foi disponibilizada uma sala fechada, na qual pude estar de formareservada com os homossexuais, permitindo que os mesmos se sentissem avontade para a entrevista. Aos entrevistados era lido um termo de livre
  42. 42. 50consentimento, no qual se apresentavam os objetivos da pesquisa, bem como agarantia do anonimato dos entrevistados, e uma via desse termo era deixado emposse dos mesmos.Para validar o instrumento de pesquisa foi feita uma entrevista em caráterde Pré-teste.Todas as colocações do entrevistado foram suficientes para respondero objeto em questão.As entrevistas foram gravadas, com o devido consentimento dosentrevistados, e depois transcritas, num registro impresso fidedigno, tal qual me foidescrito pelos sujeitos entrevistados.Para nomear os sujeitos da pesquisa, e mantê-los em anonimato, utilizeios nomes dos principais líderes guerrilheiros da Ditadura Militar no Brasil e de umopositor do regime que foi perseguido, preso e exterminado pela repressão militar.Assim, identifico os entrevistados com os nomes de Marighela, Lamarca, Orlando(Carlos Marighela, Carlos Lamarca e Osvaldo Orlando da Costa – líderesguerrilheiros exterminados pela repressão militar) , Herzog (Vladimir Herzog –jornalista morto nas dependências do II Exercito, em São Paulo) .Optei por identificar os entrevistados com nomes fictícios dos guerrilheirosdo regime militar, por considerar os homossexuais verdadeiros guerrilheiros que aoousarem serem como realmente são, ou seja, ao assumirem publicamente suaorientação sexual e afetiva por pessoas do mesmo sexo, são perseguidos,discriminados e até exterminados, pela ditadura da heteronormatividade socialmenteinstituída, como os inúmeros casos de assassinatos por motivaçõeshomofóbicas.Esses sujeitos, assim como os guerrilheiros do regime militar, têmtravado uma luta incessante contra a violência social da rejeição e da repressão desua homossexualidade.Em linhas gerais, os quatro entrevistados apresentam o seguinte perfil:Marighela, tem 27 anos, é estudante pré-universitário, faz trabalhospontuais e faz parte do Projeto SAGAS/GRAB.Já morou com um namorado durantequatro anos, o relacionamento acabou e hoje ele mora com os pais.Apesar dosatritos com sua mãe quando da descoberta de sua homossexualidade, ele hoje
  43. 43. 51parece estar bem com sua homossexualidade, diz não tem mais medo e nem receiodos preconceitos dos outros.Lamarca tem 23 anos, é estudante pré-universitário, faz curso de inglês,faz parte do Projeto SAGAS/GRAB.Mora sozinho, é bem alegre e extrovertido.Adorafreqüentar lugares heteros, principalmente bares e churrascarias que tenham MPB(música ao vivo).Não gosta de freqüentar locais gays porque acha que só tembaixaria, não obstante ama ser homossexual.Orlando tem 21 anos, é estudante de Publicidade, faz teatro, é bailarino efaz parte do Projeto SAGAS/GRAB.Mora com a avó, a tia e uma irmã.É bissexual, ediz ter sido muito doloroso o caminho até que ele se descobrisse bissexual.Jánamorou e se apaixonou por algumas mulheres, atualmente está namorando comum rapaz.Orlando considera o teatro um tipo de “gueto”, porque no teatro aspessoas extrapolam sua sensibilidade. Apesar da pouca idade, Orlando pareceu seruma pessoa muita sensata e madura.Herzog tem 28 anos, é estudante do ensino médio, já trabalhou comovendedor e no momento está fazendo trabalhos pontuais, faz parte do ProjetoSAGAS/GRAB.Mora com o namorado.Gosta bastante de freqüentar os “guetos”gays para poder ficar mais a vontade com seu namorado.Se sente bem com suahomossexualidade, considera-se feliz.Com os dados obtidos na pesquisa de campo, através do olhar, do ouvir edo escrever, faculdades do entendimento e da percepção humana que, mediadospelo referencial teórico, permitem ao pesquisador apreender o objeto estudado(OLIVEIRA, 1998) passo, então, para terceira etapa da pesquisa, onde faço ainterpretação e a análise desses dados.
  44. 44. 52CAPITULO III: “GUETO” HOMOSSEXUAL: AS PERCEPÇÕES E OSPOSICIONAMENTOS DOS SUJEITOS DA PESQUISAA partir dos discursos captados nas entrevistas, foram organizadascategorias que contribuíram para a melhor compreensão das percepções eposicionamentos dos sujeitos.As categorias principais são: a descoberta dahomossexualidade, a relação com a família, tipos de discriminação sofrida fora dosespaços delimitados e visão sobre o “gueto”.3.1. A descoberta da homossexualidadeOs sujeitos desde cedo são conduzidos a publicarem aheterossexualidade, seguindo um roteiro de vida pré-estabelecido, em que cada umtem que seguir o caminho traçado pela tradição heteronormativa.Em nossa sociedade, marcada pela ditadura heterossexual, assumir-sehomossexual, não é nada fácil,”cada vez que alguém sente o apelo da diferença emseu desejo, provavelmente terá de vencer séculos de repressão, para chegar aoepicentro do seu eu” (TREVISAN, 2007, p.163).O processo de descobrir-se homossexual, inicia-se pelo reconhecimentode desejos sexuais por pessoas do mesmo sexo (POLLAK,1985).Isso é relatadocom freqüência pelos sujeitos da pesquisa.Eu tinha certa afinidade com uns colegas de aula (...) eu era muito confuso,eu não sabia o que era aquilo, tudo era novo pra mim, aí foi da onde eucomecei a sentir sensações por outros garotos, emoção de estar perto deum garoto.Tinha um garoto na minha sala de aula que eu era bastante afime tal, aí comecei a sentir, nossa! isso não é normal, isso não é normal, seráse eu sou normal, e eu tinha que procurar saber.E nossa! eu sou católico,será se isso não é pecado.Procurei namorar uma mulher, nãoconsegui.Sempre os sentimentos por ele era maior.Aí foi da onde eucomecei a cair em si, nossa! será se é isso mesmo? Aí fui percebendo etal,nossa! é isso mesmo.(Marighela)
  45. 45. 53Os conflitos internos de dúvidas e culpa que os homossexuais sentem nomomento da descoberta de sua homossexualidade, estão relacionados com o medoda retaliação e da rejeição social de uma cultura patriarcal hierarquizada, que nãopermite outras possibilidades de relações amorosas que não seja a relação homem– mulher.(PINHEIRO,2003)Isso pode ser percebido na fala de Marighela, quando da descoberta deseus sentimentos por outra pessoa do mesmo sexo que o seu.Ele começa a sequestionar, vê-se cercado de sentimentos de dúvidas, de culpa, achando que o queele está sentindo é pecado, não é normal, que ele não é normal.Esses sentimentos surgem, porque os sujeitos incorporam os valores deuma sociedade que “escolheu a heterossexualidade como hegemônica – síntese domachismo, selecionando as características individuais para cada sujeito mediante ogênero a que pertence” (LOIOLA,2005,p.54), e romper com esses valores:E foi um certo tempo que eu conheci um primo que veio de Salvador, (...) eele me achou muito bonito e ficou super interessado em mim, e eu tambémfiquei, sentia umas coisas por ele, isso assim, pra mim foi um choque,entendeu, eu me perguntei, será se é isso mesmo, será se é isso mesmoque eu tô sentindo mesmo, será se não é coisa de momento, será se issonão é loucura, não é paranóia,será se não é pecado, será se é verdade,eu sou tão novo.Então foi desde daí , eu tinha entre treze anos praquatorze, que eu realmente me descobri gay.(Lamarca)É importante destacar também, que os princípios religiosos nessemomento influenciam o caminhar dos sujeitos, e têm importantes implicações emsuas condutas, criando um sentimento de culpa quando na descoberta dahomossexualidade.E aí foi tudo muito precoce na minha vida, uns dez, quinze anos, eudescobri que gostava de pessoas do mesmo sexo com o meuvizinho,comecei a ter uns sentimentos por ele, de ta perto, de beijar e tal,agente não tinha contato com outras pessoas e agente resolveu tentar, (...),agente começou a se tocar, e tal, e nisso agente foi vendo que gostava etal. Só que comigo tinha um lance muito grande, que era o lance dareligiosidade, eu vivia dentro da Igreja, passava de segunda a sexta dentroda Igreja Católica, participante mesmo, de eventos de tudo, issoinfluenciava muito na minha vida, e aí tinha a questão do pecado,né, seráse é pecado e tal. Mais aí eu fui levando enquanto deu.(Orlando)
  46. 46. 54Assim, para esses sujeitos, a descoberta da homossexualidade, implicaromper com os papéis sociais e sexuais interiorizados na socialização primaria7,causando um conflito interno entre a identificação pelos outros e a auto-identificação, ou seja, entre a identidade objetivamente atribuída e a identidadesubjetivamente apropriada.3.2.A relação com a famíliaA família como um elemento institucionalizado da nossa cultura, cumpre opapel de emitir os primeiros ensinamentos tidos como verdadeiros, baseados nosprincípios moralistas da igreja, no puritanismo, no machismo e na binaridade dossexos, associada à reprodutividade (LOIOLA,2005)Dessa forma, a família constitui-se como um pilar da ordem estabelecida,determinando as condutas dos sujeitos. Assim, quando em uma família existe aprobabilidade de um sujeito assumir uma orientação sexual e afetiva por umapessoa do mesmo sexo, a situação torna-se extremamente problemática.Toda família sabe, desde meus tios, aos meus pais, (..) quando eles ficaramsabendo, eu tinha na faixa de quinze pra dezesseis anos de idade quandoeu resolvi contar, foi um baque muito grande pra minha mãe, porque minhamãe era altamente homofóbica, não gostava da questão dohomossexualismo, achava feio, sempre discriminava o povo que passavana rua e tal, (...).E assim, eu tive um apoio muito grande, que eu mesurpreendi com meu pai, meu pai foi aquele de sentar na cabeceira daminha cama e conversarmos, ele disse: eu não posso matar você, eu nãoposso dar uma surra em você, porque seu sentimento é seu, você sabe oque está fazendo, desde quando você respeite sua família, respeite suacasa e se respeite, e cuidado com as doenças, as doenças do mundo ( ...)eu tive vários atritos com a minha mãe(...) passei dois anos sempraticamente andar na minha casa por causa da minha mãe.(...) a minhamãe sempre teve um contra a historia de dizer que não era certo. Hoje elajá é mais normal, ela faz aquele papel que sabe mas fecha os olhos quenão sabe, né aquela coisa desde quando respeite a minha casa, pra mim tatudo bem, ela é muito disso.Tem dias que ela ta muito zangada, ela começaa dizer no sei o quê os seus machos, e eu digo opa! seus machos não,porque eu não tenho seus machos, eu só tenho um e aí eu ainda tiro onda,olha a xingação, olha a homofobia, que eu já cansei de ta me estressando,essas coisas.E aí eu vou tentando levar, eu já sei como é o temperamentodela, vou levando bem.(Marighela)A minha família hoje sabe, eu tenho um relacionamento com uma pessoa,há cinco anos juntos, e a minha família toda sabe, no começo não foi fácil7Socialização primária é a primeira socialização que o individuo experimenta na infância, e em virtude da qualtorna-se membro da sociedade.(BERGER e LUCKMANN,1985, p.175)
  47. 47. 55não aceitar.Na realidade, a minha tia, quando ela descobriu, eu moro com aminha tia. (...) aí foi quando eu comecei a se montar a se vestir de mulher, eaí, então assim, até então a minha tia não sabia, todo mundo comentava, sóque minha tia não tinha certeza, aí um dia eu fui trabalhar, como eu já semontava e não tinha saído de casa ainda nessa época, minhas coisas eramtudo escondida, salto, peruca, essas coisas, tudo debaixo da cama, aí umdia a minha tia viu, eu tava trabalhando ela viu, aí ela ligou pra mim e disse:olha eu encontrei umas coisas aqui que eu achei esquisita, quando vocêchegar eu quero conversar com você sobre isso. Aí eu lembro que eu dissepra ela: não o que a senhora tanto queria saber a muito tempo, que asenhora queria que eu tivesse lhe dito, a senhora descobriu, já viu, entãoassim, quando eu chegar em casa eu não quero nenhum comentário sobreisso, caso contrário eu vou ter que sair de casa, isso eu tinha dezesseteanos, aí o quê que aconteceu, quando eu cheguei ela foi comentar, aí dissoela comentou e eu disse: ah é isso não tem como mudar.Só que ela achouquando viu roupa de mulher, peruca, salto, ela achava que eu tava meprostituindo, eu disse: não apenas eu tô me vestindo de mulher, tô indo praboate me diverti, não tô fazendo prostituição nem nada do que a senhorapossa ta imaginando.Só que depois disso não deu mais certo, a relação emcasa mudou,...(pausa) aí eu peguei e saí de casa, daí eu fui morar emvários lugares, passava um tempo num canto, um tempo no outro.Aí nessaépoca, como eu te falei, foi muito difícil pra mim, que a minha família, pode-se dizer não aceitou.Eu passei quase um ano sem ir na casa da minha tia,morando em bairro vizinho.Aí depois de muito tempo eu comecei a mereaproximar deles, aí hoje ela sabe, hoje eu moro praticamente vizinho acasa dela e moro com uma pessoa que vive comigo, que agente já vivejunto a cinco anos e hoje é normal, é como ela mesmo falou: eu não apoio,eu aceito porque você é meu sobrinho e por você viver com outro cara, porvocê ser gay, você nunca vai deixar de ser meu sobrinho, mais eu nãoapoio. O resto da família é tranqüilo, só ela que é meio assim, tambémporque ela é evangélica, mais o restante da família numa boa, normal,tratam ele super bem, respeitam.(Herzog)Percebo nos discursos desses sujeitos entrevistados, a existência deconflito no grupo familiar, após a descoberta da homossexualidade dos mesmos.Como relata Herzog, depois que sua tia descobriu a suahomossexualidade, a relação ficou insustentável, ao ponto dele ter que sair decasa.Ela não chegou a expulsa-lo de fato de casa, mas a rejeição por conta da suaorientação sexual, parece ter sido muito mais traumática, ele deixou transparecerisso durante a entrevista.Marighela também tem conflitos na família, mais precisamente com suamãe ,que segundo ele, é bastante homofóbica.Embora, ele relate que seu pai deugrande apoio ao tomar conhecimento de sua homossexualidade, percebo a relaçãoque seu pai faz da homossexualidade com a promiscuidade, como também amanifestação preconceituosa, quando ele diz ao filho:”desde quando você respeitesua família, respeite sua casa e se respeite”.Parece que para ele, ser homossexual,é desrespeitar a si e aos outros, é a visão distorcida e negativa da
  48. 48. 56homossexualidade, baseada numa concepção tradicional de que a sexualidade, forados limites da binaridade homem-mulher, é uma sexualidade libertina, e portanto,promíscua.Assim, enfatiza Pinheiro (2003, p.135) “a associação entre ‘marginalidade’e homoerotismo é uma atitude da cultura homofóbica e machista brasileira”.Ainda,segundo esse autor:O sujeito homoerótico sofre uma discriminação extra e especial – a da suafamília, pois muitos são expulsos do lar em razão da sua ‘diferença’.Estefato prova que, para muitos homens, revelar seu homoerotismo pode trazergrande sofrimento e demonstra o nível de preconceito e rejeição social aque os sujeitos homoeróticos estão submetidos na sociedade brasileira,uma vez que a sua subjetividade não é reconhecida nem pela própriafamília ( PINHEIRO,2003, p.57).Gurgel (1999) aponta que a transgressão de princípios da famíliacontemporânea, intimidade e afetividade, trazem repercussões dolorosas para oindividuo.Os sentimentos de medo, negação e raiva, dos sujeitos em relação àfamília, no momento de assumir-se homossexual, com o tempo vai se modificando, esão superados, embora na maioria das vezes haja certo distanciamento dosfamiliares com a vida intima do individuo, mas há harmonia e boa convivência nessarelação:Passei dois anos sem praticamente andar na minha casa por causa daminha mãe, mais sempre tinha contato com o meu pai, era o elo que eutinha entre a família era ele, e os meus irmãos que até hoje eles aceitambem , mais a minha mãe sempre teve um contra a história e dizer que nãoera certo.Hoje ela já é mais normal, ela faz aquele papel que sabe masfecha os olhos que não sabe, né aquela coisa desde quando respeite aminha casa, pra mim ta tudo bem, ela é muito disso (Marighela)Os amigos têm um papel importante na vida desses sujeitos,principalmente no momento de assumir-se homossexual para a família, eles passama ser o ponto de apoio:Assim, acho que meus amigos é tudo pra mim(...)eles sempre se fazempresentes nos momentos que eu preciso, que eu fraquejo(...)que tenhoatritos com a minha família, recorro a eles(...)os amigos pra mim foram umpeso muito grande pra equilibrar minha balançapsicologicamente.(Marighela).Eu posso dizer que amigos(...) representam muita coisa, por exemplo, umadas pessoas que eu considero meu amigo foi a pessoa que logo que eu saí

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