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UNIVERSIDADE ESTADUAL DO CEARÁ
RITA MARIA ALVES VASCONCELOS
O “GUETO” PARA HOMOSSEXUAIS DE
FORTALEZA: DESVENDANDO PRECONCEITOS E
SIGNIFICADOS
FORTALEZA-CEARÁ
2009
10
RITA MARIA ALVES VASCONCELOS
O “GUETO” PARA HOMOSSEXUAIS DE
FORTALEZA: DESVENDANDO PRECONCEITOS E
SIGNIFICADOS
Monografia apresentada ao Curso de
Serviço Social do Centro de Estudos Socais
Aplicados da Universidade Estadual do
Ceara, como requisito parcial para obtenção
do grau de bacharel em Serviço Social.
Orientadora: Profª Ms. Alessandra Silva
Xavier
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FORTALEZA-CEARÁ
2009
RITA MARIA ALVES VASCONCELOS
O “GUETO” PARA HOMOSSEXUAIS DE FORTALEZA; DESVENDANDO
PRECONCEITOS E SIGNIFICADOS
Monografia apresentada ao Curso de
Serviço Social do Centro de Estudos Socais
Aplicados da Universidade Estadual do
Ceara, como requisito parcial para obtenção
do grau de bacharel em Serviço Social.
Aprovado em: ___/____/____
BANCA EXAMINADORA
Profª Ms. Alessandra Silva Xavier
Universidade Estadual do Ceará
Profª Ms.Maria Darcy de Deus Martins
12
Universidade Estadual do Ceará
Profª. Esp. Ana Ivete de Araújo Nogueira
Universidade Estadual do Ceará
Dedico esse trabalho ao meu “sobrinho-filho” Getúlio, por
tudo que ele é e representa para mim.Por estar sempre
13
ao meu lado, nos momentos que mais preciso.Pela
valiosa ajuda na realização e conclusão desse trabalho, e
sobretudo, por ter acreditado em mim e me incentivado
com seu imenso amor.
AGRADECIMENTOS
Agradeço a Deus, pela vida, e pelos sinais de sua presença em momentos de
alegria, e sobretudo, nas dificuldades.
Ao meu pai pelo amor e carinho dedicado em toda minha infância, sentimentos que
foram fundamentais na minha formação humana, seus ensinamentos e exemplos
fizeram de mim o que sou hoje.
A minha mãe, exemplo de dedicação e luta, meu muito obrigada.
Aos meus treze sobrinhos e sobrinhas (filhos/filhas) que eu tanto amo, e que de
alguma forma contribuíram para realização desse trabalho.Pelo carinho e apoio em
todos os momentos.Agradeço, especialmente pela ajuda direta no desenvolvimento
do trabalho: Cristina (Tininha), Érica, Mariana, Leandro e Márcio.
A todos meus irmãos, sempre tão dispostos a me ajudar.Em especial, agradeço a
minha irmã Fátima (Neném) e ao meu irmão Assis (Tiza), por terem sempre
acreditado em mim, me apoiando e incentivando e me ajudando de todas as
formas.O apoio e ajuda deles, foram fundamentais para a conclusão desse trabalho.
A minha prima Susana, pela ajuda na digitação do trabalho.
14
A minha querida cunhada Keila, pela disposição em me ajudar na árdua busca de
material bibliográfico.
As amigas Mercedes, Pimenta, Valéria e Eliete, pelas constantes conversas e
compartilhamentos das angústias.
Às amigas Claudiana, Ítala, Inah, Katiane e Kelly, por suas amizades incondicionais,
por terem me proporcionado momentos maravilhosos ao longo da minha formação
acadêmica, pelo apoio, incentivo e ajuda na realização desse trabalho.
Ao meu querido amigo Renato, sempre tão presente em minha vida, me
incentivando, apoiando, ajudando e compartilhando as angústias.
Ao amigo Eduardo, mesmo distante, agradeço pelo carinho e apoio.
Ao meu amigo Evaldo, sempre tão solícito e disposto a me ajudar quando mais
precisei.
A equipe de profissionais da instituição na qual desenvolvo atividade de estágio –
Defesa Civil de Fortaleza – pelo aprendizado e amizade.Em especial, a Elisângela
Medeiros e ao Alísio Santiago, por compreender minha ausência, para conclusão da
monografia.
Agradeço a minha orientadora Alessandra Silva Xavier, pela ajuda na realização e
orientação desta pesquisa.
Aos membros da banca examinadora pela delicadeza em aceitar o convite e
contribuir para o aprimoramento da minha pesquisa.
Ao Grupo de Resistência Asa Branca, pelo acolhimento e apoio com material
bibliográfico.
Aos sujeitos participantes da pesquisa, por compartilharem comigo uma parte de
suas vidas, contribuindo com os resultados do estudo.
15
"Afinal de contas só existe uma raça: a humanidade”
George Moore
16
RESUMO
O presente estudo tem como objetivo compreender, interpretar e analisar as percepções e
os posicionamentos dos homossexuais sobre o “gueto” homossexual em Fortaleza.Para
abordar a temática, realizei, em um primeiro momento, pesquisas bibliográfica e documental
buscando fundamentação teórica em livros e artigos que tratam das categorias sexualidade,
homossexualidade, preconceito e discriminação, e “gueto” homossexual.No segundo
momento, realizei pesquisa de campo no Grupo de Resistência Asa Branca (GRAB) com
quatro homossexuais que fazem parte do Projeto SAGAS/GRAB – Fortaleza-Ce.Para tanto,
adotei a abordagem qualitativa por meio de entrevista semi-estruturada e observação
direta.Após análise dos discursos dos homossexuais, sujeitos do estudo, pude apreender
que: a relação com a família, no momento da descoberta da homossexualidade, torna-se
conflituosa, entretanto com o tempo vai se modificando, e os sentimentos de medo ,
negação e raiva, dos sujeitos em relação à família vão sendo superados, embora na maioria
das vezes, haja certo distanciamento dos familiares com a vida íntima do individuo, mas há
harmonia e boa convivência nessa relação; os homossexuais fora dos espaços delimitados
sofrem discriminação das mais variadas formas, desde piadas de mau gosto, xingamentos,
agressões verbais até a perda de emprego; o “gueto” homossexual para os sujeitos da
pesquisa, representa um espaço de proteção contra o preconceito e a discriminação, e
ainda, um local onde eles desenvolvem um sentimento de pertencimento a um grupo social
de referência.Espero que esse estudo possa contribuir para que a sociedade Fortalezense
aprenda a viver com as diferenças, respeitando os diferentes, e essencialmente, os
protagonistas desse estudo – os homossexuais. E ainda, contribuir para que o Serviço
Social, diante dos dados dessa pesquisa, se empenhe na luta pela transformação social,
essencialmente no respeito às diferenças, uma vez que seu Código de Ética profissional tem
como princípios fundamentais, entre outros, “opção por um projeto profissional vinculado ao
processo de construção de uma nova ordem societária (...)” e “empenho na eliminação de
todas as formas de preconceito, incentivando o respeito à diversidade, à participação de
grupos socialmente discriminados e á discussão das diferenças” (CFESS,1993).
Palavras-chave: sexualidade, homossexualidade e “gueto”.
17
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ......................................................................................................9
CAPÍTULO I : ENFOQUES SOBRE SEXUALIDADE HOMOSSEXUALIDADE E
“GUETO” ...........................................................................................................12
1.1. Sexualidade: construto sócio-histórico-cultural............................................12
1.2. Identidade sexual.........................................................................................17
1.3.Os saberes sobre a homossexualidade........................................................22
1.3.1. Concepção clerical da homossexualidade................................................23
1.3.2. Concepção da medicina............................................................................25
1.4. Homossexualidade e o “gueto” ...................................................................27
CAPÍTULO II: PASSOS METODOLÓGICOS DA INVESTIGAÇÃO ..................31
2.1 Aproximação com o objeto – “gueto” ...........................................................31
2.2 Natureza do estudo ......................................................................................33
2.3.Campo da pesquisa ......................................................................................35
2.4. Sujeitos da pesquisa e trajetória metodológica............................................38
CAPÍTULO III : ”GUETO” HOMOSSEXUAL: AS PERCEPÇÃOES E OS
POSICIONAMENTOS DOS SUJEITOS DA PESQUISA....................................42
3.1.A descoberta da homossexualidade .............................................................42
3.2.A relação com a família.................................................................................44
3.3.Tipos de discriminação sofrida fora dos espaços delimitados ......................47
3.4.Visão sobre o “gueto” ...................................................................................48
18
CONSIDERAÇÕES FINAIS................................................................................51
REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS..................................................................55
APÊNDICES.......................................................................................................59
APÊNDICE A Termo de Consentimento Livre e Esclarecido ........................60
APÊNDICE B Roteiro de entrevistas ...............................................................61
19
INTRODUÇÃO
Esta pesquisa tem como objetivo central, compreender, interpretar e
analisar as percepções e os posicionamentos dos homossexuais sobre o “gueto”
homossexual em Fortaleza.
O ponto primordial que me impulsionou a pesquisar sobre tal temática, foi
ter presenciado, diversas vezes, uma pessoa da família, pela qual tenho grande
estima, sendo vítima de preconceito e discriminação, por conta de sua orientação
sexual.Essa pessoa tornou-se ponte para atrair para o meu convívio, vários outros
homossexuais, dos quais me tornei muita amiga e confidente.Fato esse, que só fez
aumentar minha indignação, pois, convivendo com o maior número de pessoas de
orientação sexual e afetiva por pessoas do mesmo sexo, tenho presenciado com
muita freqüência situações de constrangimento, que essas pessoas têm passado
por causa de sua orientação sexual. Por vezes, quando estou em algum local com
alguns deles, observo manifestações preconceituosas e discriminatórias, no
momento eles disfarçam, fingem que não foi com eles, mas depois acabam me
confidenciando, que se sentiram bastante incomodados com tal situação.
O fato decisivo para o empreendimento em torno do “gueto” homossexual,
foi uma situação de extrema violência, pela qual passou um desses amigos.Ele foi
expulso brutalmente, por um segurança, de um local dito “hetero”, por estar apenas
conversando de forma mais íntima com outra pessoa do mesmo sexo que o
seu.Fato que nos deixou profundamente indignados, surgindo a partir daí várias
discussões entre nós sobre preconceito e discriminação contra
homossexuais.Durante as discussões, alguns apontavam como solução para fugir
dessas manifestações preconceituosa e discriminatória, a escolha por freqüentar
locais voltados exclusivamente para o público homossexual.Já, outros, assim como
eu, questionavam esse tipo de solução que os empurravam para um confinamento –
o “gueto” homossexual - aceitando passivamente a violência social de rejeição e
repressão, uma vez que o “gueto” não elimina a ameaça social dirigida aos
homossexuais.A partir de então, as discussões sobre o “gueto” homossexual tornou-
se uma constante no nosso grupo de amigos, havendo divergência de
20
opiniões.Onde uns, apontam que o “gueto” é um espaço para diversão e para a
liberdade de expressão da homossexualidade, outros, consideram uma segregação
forçada, pelo preconceito, pela discriminação e pela homofobia de uma sociedade
intolerante, que não sabe viver com a diversidade, pensamento por mim
compartilhado.
Por essas razões aqui expressas, eu cursando Serviço Social na
Universidade Estadual do Ceará (UECE), fui levada a refletir sobre o “gueto”
homossexual, e buscar com mais afinco, através de pesquisa bibliográfica e de
campo, conhecimento para desvendar os reais significados do “gueto” homossexual
em Fortaleza - objetivo central dessa pesquisa.
Devo destacar aqui, a relevância desse estudo para o Serviço Social, uma
vez que o Código de Ética profissional tem como principio fundamental, entre outros,
o reconhecimento da liberdade como valor ético central.Nesse sentido , o assistente
social deve ter todo o empenho na eliminação de toda forma de preconceito,
incentivando o respeito à diversidade, à participação de grupos socialmente
discriminados e á discussão das diferenças.Para além da análise critica da
realidade, a dimensão ética da prática do Serviço Social, deve agir em busca da
transformação social, em que, a democracia, a defesa dos direitos humanos e o
respeito às diferenças, estejam sempre presentes no fazer
profissional.(CFESS,1993)
Assim, os resultados obtidos nesse estudo, podem contribuir para o
Serviço Social viabilizar políticas públicas para o público LGBTT (Lésbicas, Gays,
Travestis e Transexuais), pois no conjunto de deveres que estão postos para o
assistente social em seu Código de Ética, destaca-se, entre outros, “empenhar-se na
viabilização dos direitos sociais dos usuários, através dos programas e políticas
públicas.” (CFESS, 1993)
Vale salientar aqui, que o percurso metodológico para realização deste
estudo foi bastante árduo, pois o tema em questão dispõe de pouquíssimo material
bibliográfico.
Este trabalho está constituído em quatro capítulos.No primeiro capítulo
intitulado “Enfoques sobre sexualidade – homossexualidade e “gueto”, trago a
21
discussão teórica em torno da sexualidade, da homossexualidade e do “gueto”,
abordando aspectos sócio-histórico- cultural.Procuro mostrar que a sexualidade
humana, como um fenômeno sociocultural, tem sido regulada por instituições como
a igreja, a família e Estado, e como a cultura patriarcal machista com a
predominância do domínio masculino, tem influenciado na negação e desvalorização
dos homossexuais.E o que tem levado os homossexuais a buscarem, cada vez mais
os “guetos” homossexuais.
No segundo capítulo, denominado “Passos metodológicos da
investigação”, apresento toda a trajetória metodológica da investigação.Inicialmente
mostro como foi feito a aproximação com o objeto de estudo, em seguida descrevo a
natureza do estudo.Na seqüência, descrevo o campo de pesquisa.E, por último,
exponho os sujeitos da pesquisa e a trajetória metodológica da investigação.
No terceiro e último capítulo, “Gueto” homossexual:as percepções e os
posicionamentos dos sujeitos da pesquisa”, faço a análise das percepções e dos
posicionamentos dos homossexuais entrevistados, articulando suas falas com a
literatura consultada, para elucidar os objetivos do estudo.
Nas considerações finais, são apresentados os principais resultados
identificados na realização do estudo.Esse é o momento de descoberta das
perguntas iniciais da pesquisa.
22
CAPÍTULO I: ENFOQUES SOBRE SEXUALIDADE -
HOMOSSEXUALIDADE E “GUETO”
1.1 Sexualidade: construto sócio-histórico-cultural
A sexualidade é uma temática sobre a qual há bastante discussão,
diversos autores têm adotado diferentes enfoques destacando elementos
importantes quando na sua discussão.
Um dos pontos de enfoque apontado por Loiola (2005) diz respeito à
compreensão da sexualidade como um construto sócio-histórico-cultural dos
sujeitos. Sem desconsiderar o aspecto biológico - que acaba por restringir à
sexualidade a reprodução - prioriza o entendimento da sexualidade a partir da
interação do sujeito com a sociedade, com a história e com a cultura a que pertence.
Destarte, o entendimento da sexualidade está para além da função
procriativa, onde se tem uma compreensão que abrange todas as suas significações
e funções na vida humana.
É preciso compreender, que para além da perspectiva reprodutiva, a
sexualidade é “uma construção dos sujeitos concretos (homens e mulheres)”
(LOIOLA, 2005, p.50). Apesar da influência do contexto sócio-histórico-cultural,
estes sujeitos, são portadores de uma subjetividade que os permite vivenciar as
diversas manifestações da sexualidade.
Entretanto, as funções e significados acerca da sexualidade variam, ao
longo da história humana, e estas variações irão produzir efeitos sobre a forma
como serão aceitos ou questionados determinados comportamentos sexuais.
Assim, o entendimento da sexualidade subsiste numa concepção binária, em que a
existência dos dois sexos (masculino e feminino) está intrinsecamente ligada à
procriação. Dessa forma, a história da sexualidade apresenta-se como um fenômeno
sociocultural que determina os papéis sociais e os comportamentos sexuais dos
indivíduos, ou seja, uma padronização de conduta que controla a subjetividade dos
indivíduos.
23
Os padrões de comportamentos sociais e sexuais são regulados pela
cultura, sendo esta a mediadora das ações realizadas pelos indivíduos em seu
cotidiano. A cultura aqui referendada é a cultura ocidental, que traz em seu cerne o
estabelecimento de uma ordem sexual patriarcal e machista com a predominância
do domínio masculino sobre o feminino, onde cabe aos homens o ditame dos
valores e das normas de sociabilidade.
A sexualidade revela-se, assim, como um fenômeno sociocultural, em que
os papéis sociais e sexuais dos sujeitos são regulados por instituições como a igreja,
a família e o Estado.
A igreja cristã, considerando o sexo como tendo uma função
exclusivamente procriativa, reprimiu todas as práticas que perturbasse as finalidades
atribuídas à procriação. Conforme Loiola (2005) a Igreja cristã:
a partir de uma série de estratégias castradora da vida: confundiu a
essência da vitalidade humana, a sexualidade, rotulando-a de perversão,
fornicação, bestialidade, pecado sodomia, heresia, dentre outros tantos
atributos; sacrificou várias personalidades através da ‘santa’ inquisição,
levando-as à fogueira, quando não , à guilhotina.Publicou todas essas
barbaridades aos ‘quatros canto do mundo’ em nome do amor divino.Usou a
fogueira e a guilhotina durante a inquisição, posteriormente o celibato e a
confissão, decretou e publicou a morte, mas não conseguiu o êxito
esperado - eximir a necessidade do desejo sexual, muito embora tenha
produzido subjetivamente uma sexualidade extremamente negativa.(p.55)
Dessa forma, a igreja regula a vida do sujeito, impondo-lhe, com rigor
violento, os preceitos cristãos, baseada na concepção da articulação entre o sexo e
a expulsão do homem do “paraíso”, onde se deu o pecado original. A mulher
culpabilizada por tal pecado é vista como mais sensual e mais sexuada que o
homem, portanto, mais fraca e sujeita a sucumbir às tentações do prazer carnal. A
partir dessa ideologia, indica Pinheiro (2003, p.29):
colocam-se as mazelas do mundo na relação sexual livre e prazerosa
associando o sexo, a mulher e o gênero feminino ao pecado.Por trás desta
ideologia, estão as bases da criação do sistema patriarcal, no qual o
homem nega à mulher e o prazer ( oprimindo o gênero feminino) e exalta o
poder e o trabalho ( exaltando o masculino).
Assim, para a igreja católica, herdeira das tradições bíblicas, a miséria
que oprime os homens é conseqüência do pecado original cometido por Adão, mas
com grande cooperação de uma mulher: Eva. Esse pecado foi transmitido a todos os
homens afetando a morte de suas almas e distanciando-os de Deus. Com a
24
descoberta da nudez, pelo pecado original, o homem descobre o sexo e se
envergonha dele.
Nesse sentido, destaca Santos (2008):
A dimensão sexual parece constranger e assombrar a Igreja por ocultar
implicações outras que extrapolam o campo da sexualidade.
Representações de Deus, da salvação e do pecado podem de fato estar em
jogo em torno dessa problemática. Além de uma questão moral, a Igreja se
vê imobilizada diante de um emaranhado de questões dogmáticas. Por isso
mudanças na moral sexual encontram resistências e impossibilidades.
Outro fator a ser considerado é a construção ideológica católica em torno do
poder da Igreja como ‘sustentáculo da verdade’. Abrir mão de certas
posições colocaria em xeque este poder e seu domínio sobre os fiéis. (p.9).
Segundo Chauí (1984) o Dicionário de Psicanálise de Laplanche e
Pontalis, aponta a sexualidade como:
polimorfa, polivalente, ultrapassa a necessidade fisiológica e tem a ver com
a simbolização do desejo. Não se reduz aos órgãos genitais ( ainda que
estes possam ser privilegiados na sexualidade adulta) porque qualquer
região do corpo é susceptível de prazer sexual, desde que tenha sido
investida de erotismo na vida de alguém, e porque a satisfação sexual pode
ser alcançada sem a união genital.(p.15).
Dessa forma, a sexualidade humana, à luz da psicanálise, ultrapassa a
dimensão biológica, e as “tentativas de supressão das pulsões são sempre falhas e
os fenômenos substitutivos que emergem em conseqüência desta ‘supressão’
constituem as doenças nervosas.” (SANTOS, 2008, p.6). A tentativa de inibir o
desejo sexual pode causar no indivíduo, debilidade ou adoecimento. Visto que, a
constituição do sujeito não pode ser separada da sua sexualidade. Entretanto, a
moral cristã com todo seu rigor repressivo, não conseguiu arrancar do sujeito sua
necessidade sexual, os “impulsos e desejos desconhecem barreiras para sua
satisfação”. (SANTOS, 2008, p.4).
Mesmo estabelecendo uma relação negativa, no que concerne ao sexo, “o poder
não ‘pode’ nada contra o sexo e os prazeres, salvo dizer-lhes não” (FOUCAULT,
2007, p.93).
Como indica Loiola (2005) à psicanálise “elastece a sexualidade no
âmbito das relações sociais, desfamiliariza a binaridade do sexo-reprodução (...)
privilegia o gozo e o prazer como seus atributos principais.” (p.67). Desse modo, a
psicanálise foge da visão biologizante da sexualidade humana, ressaltando a
importância da fantasia:
25
Com efeito, a sexualidade se inscreve na fantasia, antes de mais nada.Esse
é o campo por excelência do erotismo.Não existiria, pois, sexualidade sem
fantasia,sendo esta a sua matéria-prima.Seria, então, a partir da fantasia
como fundamento, que aquela pode assumir formas comportamentais
diversificadas.O comportamento seria, pois, o elo final de uma longa cadeia
de relações, que se inscreveriam primordialmente na fantasia do sujeito, o
sexo seria, portanto, um efeito distante do sexual, por mais paradoxal que
possa parecer esta afirmação.Em contrapartida, se existe algo de
enigmático e de absurdo no erotismo, a fantasia seria o lugar desse enigma
e de iluminação dessa obscuridade (BIRMAN, citado por LOIOLA,2005,
p.67-68).
Foucault (2007) aponta que as práticas sexuais no início do século XVII
não procuravam o segredo, entretanto, com o advento do capitalismo a burguesia
vitoriana encerra a sexualidade, ou seja, a sexualidade:
Muda-se para dentro de casa. A família conjugal a confisca. E absorve-a,
inteiramente, na seriedade da função de reproduzir. Em torno do sexo, se
cala. O casal, legítimo e procriador, ditam a lei.Impõe-se como modelo, faz
reinar a norma, detém a verdade, guarda o direito de falar, reservando-se o
princípio do segredo.(FOUCAULT,2007,p.9).
Com a Contra–Reforma a Igreja católica intensifica o sacramento da
confissão em todos os países católicos, impondo ”regras meticulosas de exame de
si mesmo.” (FOUCAULT, 2007, p.25). Nessa nova pastoral, o bom cristão deve,
durante a confissão, mencionar em detalhes “todas as insinuações da carne:
pensamentos, desejos, imaginações voluptuosas, deleites, movimentos simultâneos
da alma e do corpo”. (FOUCAULT, 2007, p.25).A confissão no Ocidente, foi umas
das técnicas mais valorizadas para produzir a verdade sobre o sexo.Como bem
ressalta Loiola:
o confessionário ocupa o lugar central para o discurso da sexualidade cristã,
haja vista que todo cristão teria essa obrigação para com sua igreja, de
modo que esse espaço configurou-se num lugar interroga-tivo e
punitivo.(2006,p.46-47).
Foucault (2007) aponta que nas sociedades modernas, o sexo não tem
sido condenado a permanecer na obscuridade, pelo contrário, há uma explosão
discursiva sobre ele, entretanto:
tais discursos sobre o sexo não se multiplicaram fora do poder ou contra
ele, porém lá onde ele se exercia e como meio para seu exercício; criaram-
se em todo canto incitações a falar; em toda parte dispositivos para ouvir e
registrar, procedimentos para observar, interrogar e formular. Desenfurnam-
no e obrigam-no a uma existência discursiva.Do singular imperativo, que
impõe a cada um fazer de sua sexualidade um discurso permanente, aos
múltiplos mecanismos que, na ordem da economia, da pedagogia, da
medicina e da justiça incitam, extraem, organizam e institucionalizam o
26
discurso do sexo, foi imensa a prolixidade que nossa civilização exigiu e
organizou.(FOUCAULT,2007,p.39).
Assim, tem-se uma proliferação de discursos sobre o sexo, que se
caracteriza pela busca do conhecimento da sexualidade como estratégia de controle
do indivíduo e da população. E ainda, destaca Foucault, a sociedade capitalista:
não reagiu ao sexo com uma recusa em reconhecê-lo. Ao contrário,
instaurou todo um aparelho para produzir discursos verdadeiros sobre
ele.(...) também empreendeu a formulação de sua verdade
regulada.(2007,p.78-79).
De acordo com Foucault (1977) citado por Chauí (1984) a partir do século
XVIII, foram utilizadas quatro estratégias nas relações de saber e poder sobre o sexo
1)histerização do corpo feminino (hipersexualizada e fecunda, a mulher se
distribui em dois papéis, a mãe e a histérica);2) pedagogização do sexo
infantil (a criança é um ser sexuado polimorfo, desconhecendo a
sexualidade saudável, de modo que suas práticas sexuais colocam em
risco sua vida, sua sanidade mental e da futura prole; o risco principal é a
masturbação); 3)socialização das condutas de procriação ou regulação
demográfica(interdição das práticas anticoncepcionais pelo Estado e pela
medicina);4)psiquiatrização do prazer perverso(que de pecado e vício, se
torna doença).(CHAUÍ,1984,p.184-185).
Dessa forma, a pedagogia, a medicina, a psiquiatria, a economia e o
Estado fizeram da família o espaço fundamental para a sexualização dos corpos.
A família proclamada pelo pensamento religioso judaico–cristão é uma
instituição natural dos homens, permanente e criada por Deus. (GURGEL, 1999).
Nessa perspectiva, a família como primeiro grupo responsável pela socialização do
sujeito, promove a educação das crianças estabelecendo papéis sociais e sexuais
de meninos e meninas de acordo com o sexo biológico e com os preceitos cristãos –
estimula nos meninos a expressão sexual e nas meninas a reclusão e a repressão –
reforçando, assim, os valores promulgados pela igreja cristã.Assim, a moralização
do sexo faz-se preferencialmente pela família.
Como aponta Loiola (2005) a família:
inicia a inserção da criança no mundo adulto a partir das normas e
prescrições interpretadas da ‘carta sagrada’ legitimada pela igreja.Com
suas estratégias seguidas da ritualização em todo o processo socializador
constitui desde a apresentação do indivíduo representante de Deus na
Terra até o casamento, exercendo a função de cristalizar nas
subjetividades a doutrina disciplinadora da conduta dos homens e
mulheres,... , limitada à reprodução da espécie. (p.56).
27
Assim, a família, reproduzindo a moral cristã no processo de socialização
do indivíduo, atribui papéis estereotipados para o homem e para a mulher de forma
desigual, onde o papel atribuído ao homem é sempre mais valorizado do que o
papel da mulher.Nesse sentido, destaca Trevisan: “criaram-se corpos doutrinários e
normas severas, com o intuito de sedimentar a família enquanto espaço fundamental
para defesa da catolicidade.” (2007,p.110).
O Estado, por seu turno, absorve os valores moralistas da igreja cristã,
em parceria com a família e com a escola e dotado de recursos formais e legais
reproduz o machismo e a binaridade dos sexos.
Deste modo, o Estado (e o Estado aqui referendado é o Estado burguês,
que direciona suas ações seguindo a lógica do capital -consumo e obtenção de
lucro) ao mesmo tempo em que, em nome da moral e dos bons costumes,castra as
possibilidades de prazer dos sujeitos, expõe o corpo humano para a venda de
mercadorias com o objetivo de obter lucro.Assim, banaliza a sexualidade dos
sujeitos transformando-a em mercadoria. (LOIOLA,2005).
A sexualidade, segundo Costa (1994), é um aspecto conflituoso e
controverso da vida do ser humano, e na cultura ocidental, criam-se modelos para
classificar as pessoas, na maioria das vezes baseadas em preconceitos, não
permitindo que as mesmas sejam como são. Tais moldes se referem aos papéis
sociais determinados para o masculino e feminino, que desconsideram a dinâmica
da sexualidade, sua multiplicidade, variável de pessoa para pessoa, não sendo uma
experiência estanque ao longo da vida.
1.2. Identidade sexual
Como vemos o sexo durante algum tempo considerado como algo
meramente biológico e natural, passa por transformações, ao ser deslocado do
plano natural para o plano cultural. Esse deslocamento, segundo os antropólogos e
os psicanalistas, acontece a partir da proibição do incesto. (CHAUÍ, 1984).
28
Nesse sentido, aponta Chauí (1984), a tragédia de Édipo, quando Freud
elabora o conceito de Complexo de Édipo1
, passa a ser o tema central na discussão
da sexualidade e de sua repressão.
Nye (2002) aponta que Freud acreditava que a estrutura e o
funcionamento básicos da personalidade humana- embora tenha certa flexibilidade-
são formados durante os primeiros cincos ou seis anos de vida. Assim, boa parte do
que o sujeito é como adulto é determinado por suas experiências na infância.
Chauí (1984) indica que Freud classificou as fases da libido, segundo a
origem do prazer, as regiões prazerosas do corpo e os objetos. A primeira fase é
oral, onde a atividade se centraliza na boca, e o prazer vem do ato de comer ou
sugar e da ingestão de alimentos. A segunda fase é anal, tem como órgão do prazer
o ânus, e o prazer se dão pela retenção e expulsão das fezes. A terceira fase é a
fálica ou genital, que tem como fonte de prazer os órgãos genitais, o prazer vem da
masturbação e das fantasias.
Para Freud, segundo indicam Santos, Xavier e Nunes (2008) a fase fálica
é decisiva na formação da personalidade do sujeito. Nesta fase, onde se organiza o
Complexo de Édipo, quando:
o menino percebe a presença do órgão masculino, manipula-o obtendo
satisfação libidinal.A menina também percebe a diferença anatômica sexual
e ressente-se por não possuir algo que os meninos possuem. Em ambos os
casos a mãe é o primeiro objeto de amor.Nesse processo, o menino
mantém um desejo incestuoso pela mãe.O pai é percebido como rival que
lhe impede o acesso ao objeto desejado(mãe).Temendo ser punido com a
perda dos órgãos genitais(angústia de castração) e do lugar fálico em que
se encontra, o menino terá que recalcar o desejo incestuoso pela mãe e
identificar-se com o pai, escolhendo-o como modelo de papel masculino, e
então internalizar regras e normas impostas pela autoridade paterna (a
pessoa que ocupa esse lugar). A situação feminina é distinta. Ao perceber
a ausência do pênis, desenvolve um sentimento de inferioridade, tendo
inveja e desejando o órgão masculino. Atribui à mãe a culpa por ter sido
gerada assim e rivaliza com ela.Ao mesmo tempo precisa se identificar com
a mãe para obter o amor do pai.Depois, esse desejo pelo pai deve se
dissipar a fim de que possa sair da situação edípica, havendo um grande
deslocamento de energia libidinal que leva consigo para o inconsciente, os
sentimentos conflituosos experimentados nessa fase, e as vivências infantis
orais, anais e fálica (SANTOS, XAVIER e NUNES,2008,p.47-48).
1
Trata-se de um sistema ou de uma rede intrincada (donde, complexo) de afetos e fantasias que a criança
possui, entre os três e quatro anos, ao perceber que faz parte de uma tríada ou relação triangular constituída por
ela, pela mãe e pelo pai (CHAUÍ, 1984, p.63).
.
29
Assim, nesta fase o falo representa, tanto para os meninos como para as
meninas, a onipotência. Entretanto, a menina desenvolve um sentimento de
inferioridade, por perceber que não possui o pênis, e o menino, por medo da
castração, desiste de seu objeto de desejo – a mãe.
De acordo com Freud (1967) citado por Chauí (1984) há diferenças na
superação do complexo de Édipo:
No menino, o complexo será vencido graças ao medo da castração pelo
pai,como punição do desejo incestuoso.Para conservar o pênis, o menino
aceita renunciar a mãe.Na menina, a solução será mais demorada porque
precisa aceitar e conseguir um substituto para o pai, o que só lhe será
possível puberdade (p.70).
Assim, a ameaça da castração faz com que os meninos resolvam de
forma definitiva e completa o complexo de Édipo, já as meninas, por não serem
motivadas pelo medo da castração, prolongam a superação do complexo de Édipo
até a puberdade.
Nye (2002) adverte que a solução do complexo de Édipo do menino pode
tomar rumos diferentes. Como, por exemplo, o sentimento de desagrado do menino
pelo pai pode permanecer e prolongar-se para todas as figuras de autoridade. Nesse
sentido, indica Nye (2002, p.25):
Entre os pensamentos de Freud sobre a homossexualidade estava a
idéia de que ela pode resultar de uma intensa ligação erótica com a
mãe, especialmente na ausência de um pai forte; a identificação com
a mãe em vez de com o pai, é uma possibilidade nesses casos.
Desse modo, a homossexualidade pode ser resultado das marcas
deixadas na vida adulta pelo modo como foi experimentado o complexo de Édipo e a
proibição do incesto na infância. Parisotto (2003) indica que Freud tinha alguns
pressupostos acerca da identidade sexual, bem como dos fenômenos
Heterossexualidade/Homossexualidade. Entre alguns desses pressupostos, Freud
considerava que tanto a hetero como a homossexualidade se desenvolvem
socialmente, e que a homossexualidade incluía fenômenos de ordens diversas, mas
afirmava ainda que os indivíduos possuem sempre uma corrente libidinosa
homossexual e heterossexual, mas que a determinação da orientação dominante vai
depender de questões diversas.
30
Nesse contexto, na psicanálise:
entende-se a sexualidade do adulto como decorrente de um processo de
desenvolvimento ordenado a partir de diversos aspectos, desde o biológico,
atravessando o aprendizado cultural, até as representações mentais que
estão perpassadas por conflitos referentes à situação edípica. É nesta área
– dos conflitos, das representações mentais, das fantasias –, que está para
além da objetividade e que está presente em toda atividade sexual, que a
psicanálise tem oferecido sua maior contribuição. (PARISOTTO, 2003,
P.84)
Ao tratar sobre o sexo, Calligaris (1997) aponta que se este for definido
pelos órgãos externos e por sua função procriativa, temos ainda hoje, dois sexos
biológicos: homem e mulher.
Entretanto, ressalta Calligaris, a identidade de gênero não está
relacionada somente ao sexo biológico, mas a uma variedade de fatores.
Nesse sentido, por mais que as pesquisas procurem mostrar que a
orientação sexual2
tem fundamento biológico, não se pode esquecer da influência
cultural que promove a divisão dos sujeitos em categorias sexuais.
Segundo Costa (1993) desde o século XIX, passamos a acreditar que os
sujeitos estavam naturalmente divididos em heterossexuais, homossexuais e
bissexuais. A crença nesta classificação é fruto do vocabulário sexual de nossa
cultura, que nos induz a produzirmos modos de identificarmos moralmente, a nós e
aos outros. As identificações sexuais de cada indivíduo são determinadas pela
crença nos dispositivos lingüísticos. Entretanto, é preciso, aponta Costa (1993)
abandonar o vocabulário que deu origem a esta crença, que classifica o indivíduo
em heterossexual, homossexual e bissexual, e buscar definir os sentimentos, de
2
Orientação sexual é a atração afetiva e/ou sexual que uma pessoa sente pela outra. A orientação sexual existe
num continuum que varia desde a homossexualidade exclusiva até a heterossexualidade exclusiva, passando
pelas diversas formas de bissexualidade. Embora tenhamos a possibilidade de escolher se vamos demonstrar, ou
não, os nossos sentimentos, os psicólogos não consideram que orientação sexual
seja uma opção consciente que possa ser modificada por um ato de vontade (BRASIL, 2004, p. 29).
31
acordo com os padrões éticos de cada um, redescrevendo um novo modo de amar e
desejar sexualmente
Conforme enfatiza Graner (2008) tem-se encontrado, mesmo que em
comunidades geográfica e socialmente diferenciadas, por meio da história e da
cultura, distinções significativas entre homem e mulher. Ao homem, por possuir o
falo, geralmente associa-se a idéia de domínio, poder e de liberdade sexual, em
contrapartida, a figura da mulher encontra-se frequentemente associada à idéia de
fraqueza, sujeição e recato sexual.
Assim, o órgão genital (o pênis ou a vagina) vai simbolizar a afirmativa de
identidade do indivíduo, em que a sociedade a qual pertence traça um roteiro de
vida determinando:
o seu identificar-se, sentir-se, comportar-se e vestir-e.Mesmo com as
‘revoluções’ dos costumes,idéias e papéis sociais, ainda persiste para
muitos a idéia de que um ‘pênis’ significa,como regra: homem, roupa de
homem (azul, gravata, calça, sem adornos), brinquedos/objetos de
homem(outdoor e violentos/ativos), trabalho de homem( mecânicos, exatos,
físicos e de comando), comportamento de homem( virilidade, truculência
corporal), etc.Enquanto que uma ‘vagina’ significa, também como regra:
mulher, roupa de mulher( rosa, laço, saia, adornos), brinquedos/objetos de
mulher (indoor epacíficos/passivos), trabalho de mulher ( delicados,
subjetivos, mentais e de agregação), comportamento de
mulher(feminilidade, delicadeza corporal) etc.( GRANER,2008, p.77)
Ainda tratando a respeito de sexualidade e sexo, e seus significados
socioculturais, há no trabalho de Graner (2008), reflexões sobre o tema, apontando
que sexo é:
O conjunto de desejos, afinidades, projeções, sonhos e ações, e o ‘sexo’
que o ‘EU’ exercita através do corpo, mente e espírito pode tanto
representar prazer, gozo, liberdade, vaidade, autonomia,orgulho ou furor
como dor, frigidez, prisão, perversão, dependência, vergonha ou apatia. (p.
76)
Nesse mesmo trabalho, a referida autora destaca a noção de gênero,
entendido como um conjunto de concepções, valores e praticas que se consensuam
associados a praticas sexuais e sociais do sexo oposto, evidenciando a busca de
compreensão das relações sociais entre homens e mulheres.
Nesse contexto, surge o conceito de identidade de gênero, que como
indica Graner (2008) é o:
32
auto conhecimento emocional definido através da afinidade maior com o
que socialmente se convencionou reconhecer como masculino e/ou
feminino, podendo ou não corresponder à demarcação sexual atribuída à
pessoa pelo coletivo no momento de seu nascimento( dada tanto pela
percepção de seu órgão genital como pelo estabelecimento de sua
existência jurídica.) ( p.79).
O homem nasce em uma estrutura social objetiva que lhe impõem
significativos que se encarregam de sua socialização.Assim, a criança interioriza os
papéis e as atitudes dos outros significativos – as pessoas mais próximas -
tornando-se capaz de auto-identificar-se.Desse modo, ela não só absorve os papéis
e atitudes dos outros significativos, como assume o mundo deles.
A criança na socialização primaria identifica-se com os outros
significativos, por não ter escolha, já que os outros significativos são definidos
antecipadamente pela sociedade.O mundo dos pais é interiorizado por ela, como
sendo o único mundo possível existente.”Os outros significativos na vida do
indivíduo são os principais agentes da conservação de sua realidade subjetiva”
(BERGER e LUCKMANN, 1985, p.200).
1.3. Os saberes sobre a homossexualidade
A história tem mostrado que a homossexualidade não é um fenômeno
recente, das tribos às civilizações, sempre existiu homossexual, entretanto, a forma
como é tratada se diferencia de um momento histórico para outro.
Segundo Loiola (2006), na Grécia antiga, as relações homossexuais,
apesar de se submeterem a postulados legais, eram livres, desde que tais relações
se realizassem entre pessoas de idades diferenciadas, um adulto e um jovem, sob o
pretexto do mais velho educar e proteger o mais novo.
Na Grécia e em Roma antigas, a homofilia (o termo homossexualidade é
recente) masculina era tolerada e, por vezes, até estimulada. Nessas sociedades, a
mulher considerada naturalmente passiva, o jovem livre, do sexo masculino,
considerado passivo pela pouca idade, e o escravo, considerado passivo por sua
condição de dominado e por obrigação, faziam com que as relações homofílicas só
fossem admitidas entre um homem livre adulto e um jovem livre ou um escravo,
jovem ou adulto. O jovem, pela idade, podia ser livre e passivo sem desonra; o
33
escravo, por sua condição desonrosa, só podia ser passivo; um homem, livre adulto
que se prestasse a uma relação homofílica no papel passivo era considerado imoral
e indigno, entretanto, comportando-se como ativo na relação sexual, era livre para
manter relações com jovens, por não afetar sua masculinidade; com mulheres, por
serem inferiores; e com escravos, por não serem considerados cidadãos (CHAUÍ,
1984).
Com o advento do Cristianismo, o Império romano, que antes celebrava a
bissexualidade, passa a condenar as práticas homoeróticas. Os códigos de conduta,
a moral e a ética impostas pela Igreja, aliada ao império, segregam os indivíduos
que estão fora dos padrões socialmente estabelecidos. O tribunal do Santo Ofício,
instituído na Europa, perseguia aqueles que praticavam heresia e a
homossexualidade estava incluída dentre estas práticas.
Na Europa dos séculos XVI, XVII e XVIII, não apenas a Espanha,
Portugal, França e Itália católicos, mas também a Inglaterra, Suíça e Holanda
protestantes puniam severamente a sodomia seus praticantes eram condenados a
punições como: multas, prisão, confisco de bens, banimento da cidade ou do País,
trabalho forçado, execração e açoite público até a castração, amputação das
orelhas, morte na forca, morte por fogueira e afogamento (TREVISAN, 2007).
1.3.1. Concepção clerical da homossexualidade
A religião cristã, sempre restringiu a sexualidade à função procriativa, ou
seja, qualquer atividade sexual que não tivesse finalidade procriadora era
considerada pecaminosa. Assim, aponta Gurgel (1999), foi desenvolvido um código
de ética sexual pelos primeiros padres da Igreja cristã – Clemente, Orígenes,
Jerônimo e Agostinho – estabelecendo o princípio de que o sexo praticado para
finalidade não procriativa era uma violação da natureza. Desta forma, a
homossexualidade passa a ser condenada como um pecado, visto que sua prática
representa uma transgressão à ordem natural e divina das coisas.
34
A Igreja faz uso de textos bíblicos para determinar pecados condenáveis.
Como o livro de Levítico do Antigo Testamento, que sobre a sodomia3
aponta que:
“Não te aproximaras dum homem como se fosse mulher, porque é uma
abominação.” (Lv. 18,22); e “Aquele que pecar com um homem, como se fosse uma
mulher, ambos cometeram uma coisa execranda, sejam punidos de morte; o seu
sangue caia sobre eles.” (LV.20,13).Também no livro I Coríntios do Novo
Testamento, há referências à condenação da homossexualidade: “nem os
efeminados, nem os sodomitas (...) possuirão o reino de Deus”.(I Cor.6,10). A
Epístola de São Paulo aos Romanos (1, 26-27), no Novo Testamento, deixa clara a
condenação que o apóstolo Paulo faz a prática homossexual, considerando como
um desregramento cometido contra a natureza:
Por isso Deus entregou-os a paixões de ignomínia.Efetivamente, as suas
próprias mulheres mudaram o uso natural em outro uso, que é contra a
natureza, e ,do mesmo modo, também os homens, deixando o uso natural
da mulher, arderam nos seus desejos mutuamente, cometendo homens
com homens a torpeza e recebendo em si mesmos a paga que era devida
ao seu desregramento.(BÍBLIA, 1983).
É mister destacar aqui, o trabalho de Gafo (1985) apontado por Loiola
(2006), sobre o cristianismo e a homossexualidade, em que ele faz uma divisão da
história cristã em quatro fases:
a primeira compreende os primeiros setes séculos da cristandade – onde as
influências do mito da cidade de Sodoma influenciam e/ou justificam
decisivamente na criação dos códigos de condutas e determinações
punitivas para os pecadores, ainda no Império Romano.A segunda fase (..)
entre os séculos VII e XI – é aqui que se Distingue com maior clareza as
atitudes consideradas homossexuais:’ toques, afetos, masturbação mútua,
conexão interfemural e sodomia’ – a homossexualidade é considerada um
pecado grave a homossexualidade feminina tem citação inédita.A terceira
fase (...) séculos XI e XIII – neste período é definido por alguns santos o
pecado antinatural, incluindo a homossexualidade e outras práticas como a
masturbação.Santo Alberto Magno e Sto.Tomás de Aquino são expoentes
(...) para a solidez da moral cristã nesse período; a quarta fase(...) séculos
XIV e XX – período de afirmação da moral cristã com um profundo
acirramento da aversão à homossexualidade, haja vista a proclamação do
sexo exclusivamente para a procriação.( LOIOLA,2006,p.43).
Diante de tal consideração, percebe-se que a moral cristã tem
influenciado sobremaneira as condutas dos sujeitos, determinando o uso do sexo
para procriação, punindo e condenado como um pecado contra a natureza, as
práticas sexuais com finalidades não procriativas, entre elas destaca-se a
3
Termo utilizado na Bíblia, para designar as relações homossexuais masculinas, em Sodoma, tidas como
relações contra a natureza. (ARIÈS, 1985).
35
homossexualidade. A abominação do prazer homossexual pela instituição cristã,
“determina a dualidade nas relações entre os homens e as mulheres (...), fixa o
estabelecimento dos papéis sexuais e sociais eliminando a possibilidade da
homossexualidade” (LOIOLA, 2006, p.47).
O depoimento de Roberto, em entrevista cedida a Paiva (2007), confirma
a influência que a moral cristã tem na direção das condutas dos sujeitos:
A questão da homossexualidade ocupa todos os lugares da minha vida.(...).
A minha memória homoerótica vai aos três anos de idade, pelo
menos.(...).Desde a primeira infância, segunda infância, puberdade,
adolescência, eu sempre soube que eu era diferente e sabia qual era essa
diferença.Daí ter sofrido terrivelmente, porque fui criado sob a ética católica,
quer dizer, judaico-cristã, no catolicismo romano, indo para a missa todo
domingo não sei mais o quê , e que dizia sobre aquilo que eu sentia de
diferente em mim, e que era a minha peculiaridade, a minha essência,era
que aquilo era proibido, era sujo, era pecaminoso. Se insistisse naquilo eu
iria ser condenado ao fogo do inferno,etc.(...).Participava de grupos de
orações e pedia a Deus que me curasse então diretamente.Me sentia
culpado porque me masturbava tendo desejos por homens.Mas o próprio
contato com a religião me afundava cada vez mais, me fazendo me sentir
uma nulidade total como ser humano...(p.123-125)
Esse posicionamento da igreja, com variações mínimas ao longo da
historia, tem influenciado e motivado diversas discussões ao redor do mundo, acerca
da Homossexualidade, bem como do surgimento de grupos de discussões acerca do
próprio papel da igreja no controle do pensamento e opiniões da sociedade.
1.3.2. Concepção da medicina
A partir do século XIX, irrompe na Europa e no Brasil a preocupação
médica com a homossexualidade. A ciência médica passa a exercer um controle
terapêutico que substitui o antigo controle religioso. A homossexualidade, antes tida
como pecado, vício ou crime, passíveis de castigos ou de penas, passa a ser
considerada uma patologia, que necessita da intervenção e do cuidado do médico
ou do psiquiatra (TREVISAN, 2007).
Começaram a abundar na Europa e no Brasil, em meados do século XIX,
abordagens cientificas sobre as perversões sexuais. A psiquiatria, com larga
experiência no trato da loucura, passa a enquadrar os desvios à norma não mais
36
como crimes e sim como doenças. O pederasta, agora considerado doente, não era
mais culpado por transgredir a norma, do ponto de vista jurídico.
Nesse período, a medicina iniciou estudos acerca das causas da
homossexualidade, e apresentou duas causas principais: biológicas, destacando a
hereditariedade e os defeitos congênitos e defeitos hormonais; e causas de cunho
social. Uma vez que havia causas endócrinas e orgânicas, os médicos viam, dessa
forma, a possibilidade de cura, pela correção hormonal, por exemplo. E, além disso,
se fosse observada que as causas eram de caráter social, haveria “medidas
pedagógicas” de correção. (FRY e MACRAE, 1983)
No Brasil, as investidas psiquiátricas contra os homossexuais nunca
chegaram a criar instituições especializadas, nem por isso as sugestões de
crescente psiquiatrização da prática homossexual deixaram de ser, a partir da
década de 1920, periodicamente reiteradas por autoridades médico-policiais do país,
preocupadas com a defesa da sociedade sadia. Apesar de não haver, no Código
Penal Brasileiro, nenhuma menção à homossexualidade como crime, a medicina
legal se achava no direito de sugerir ação médico-correcional para os delinqüentes
homossexuais, além de punição do crime específico de que eram acusados (FRY e
MACRAE, 1983). Em parte isso se dava porque as visões da medicina e da ciência
aliavam-se à visão tradicionalista da Igreja, e assim continuava perseguição aos
homossexuais.
A partir do início do século XX, a medicina toma para si o direito de falar
sobre homossexualidade e suas causas, procurando determina-la, “diagnosticá-la”,
procurando intervenções. Assim, a homossexualidade passa de crime, pecado, para,
a partir de então, ser considerada doença. (FRY e MACRAE, 1983). Nesse período,
a medicina começou a destacar a homossexualidade como patologia que traria
consigo a possibilidade de outras doenças, surgindo os homossexuais ”esquizóides
e paranóides”, por exemplo.
Na década de 30, no Brasil, a idéia da homossexualidade como patologia
ganhava força. Entretanto, médicos, psicólogos e sexologistas, ao tratarem dessa
temática em seus escritos, recorriam aos ensinamentos da Igreja Católica sobre a
imoralidade do homoerotismo como referencia de fundo para argumentar que eram
37
necessárias atitudes sociais mais tolerantes para com os indivíduos depravados
sobre as quais escreviam (GREEN, 2000).
Nos anos 60, os movimentos de jovens e estudantes propiciaram várias
discussões na sociedade e na mídia sobre a sexualidade, os papéis de gênero e a
homossexualidade.
A discussão acerca dos saberes sobre a diversidade sexual no Brasil,
ganha força nos anos 70, quando se dá início ao movimento comunitário
homossexual. Associações e grupos se multiplicavam pelo País, na luta pelos
direitos humanos de gays, lésbicas, transgêneros e bissexuais (GLTB).De acordo
com os dados do programa Brasil sem homofobia (2004), atualmente, há cerca de
140 grupos espalhados por todo o território nacional.
Em 1973, em grande parte devida ás pressões dos movimentos
homossexuais, a homossexualidade deixou de ser classificada como doença pela
Associação Americana de Psiquiatria. Médicos e psicoterapeutas passam a aceitar a
idéia de que a homossexualidade é uma orientação sexual tão aceitável como a
heterossexualidade (FRY e MACRAE, 1983).
1.4. Homossexualidade e o “gueto”
O que vemos hoje, ao lado dos avanços dados no trato da questão
homossexual no decorrer da história, é uma crescente manifestação homofóbica
4
que vai desde assassinatos de homossexuais, até a utilização de simples símbolos
que confirmam a discriminação e o preconceito.
A apreensão do conceito de preconceito aqui, é a indicada por Rodrigues,
Assmar e Jablonski (1999), que traz sua definição como uma atitude hostil ou
negativa com relação a um determinado grupo, já a discriminação refere-se a
comportamentos (expressões verbais, condutas agressivas,etc.)
4
O termo homofobia é utilizado para descrever a aversão aos sujeitos que têm orientação sexual e afetiva por
pessoas do mesmo sexo.A homofobia é uma ideologia anti-homossexual que se manifesta de múltiplas
formas:agressão física, chantagem e extorsão, xingamentos, ofensas verbais, discriminação, constrangimento,
humilhação e assassinato.(LOIOLA, 2006).
38
Para fugir da violência e da intolerância da sociedade contra sua
subjetividade homossexual, os homossexuais têm buscado cada vez mais espaços
onde possam expressar sua sexualidade, livres de discriminação e preconceito – o
“gueto” homossexual. Para Loiola (2006) o “gueto” homossexual, ao mesmo tempo
em que contribui para a socialização com outros indivíduos de mesma orientação
sexual, segrega-os.
Assim, o “gueto”:
constitui-se como o lugar que se consolida a segregação,onde serão
manifestados, livremente, os sentimentos interiorizados, inibidos pela
dinâmica social.É o lugar fechado, onde os iguais na (orientação sexual) se
encontram, ou os diferentes do mundo sistematizado se escondem.
(LOIOLA,2006, p.92)
A dinâmica social acaba impondo ao homossexual, desde muito cedo, a
idéia de que a homossexualidade é algo inferior, sujo, pervertido. O homossexual,
internalizando essas idéias, acaba por sentir-se segregado, buscando os “guetos”
como locais de livre expressão, entre os “iguais”. São locais nos quais se vive,
sexual e socialmente, a homossexualidade, sem nenhuma repressão. Dessa
maneira, os indivíduos se agrupam nos “guetos”, cedendo à pressão social, para
sentirem-se aceitos e não sofrerem punições.(RODRIGUES, ASSMAR e
JABLONSKI, 2001).
Para Trevisan (2007) discutir as causas da homossexualidade é algo
dispensável e equivocado. A homossexualidade é fato consumado, não precisa de
justificação causal. Ao questionar a origem de algo diferente, já se está sugerindo a
idéia de um desvio da normalidade.
Nesse sentido:
(...) criar conceitos fechados de homossexual (ou bissexual) acabaria
servindo mais aos objetivos da normatização do que a uma real liberação
da sexualidade, inclusive por incentivar diretamente a política do gueto, do
separatismo e do racismo sexual, numa discriminação às avessas
(TREVISAN, 2007, p. 36).
Desse modo, os homossexuais, considerados desviantes da
normatividade padronizada, buscam espaços onde possam expressar livremente
sua sexualidade livres de discriminações e preconceitos.
39
Numa sociedade como a nossa em que a identidade homossexual é
estigmatizada, a criação do ”gueto“ (bares, discotecas, saunas e outros espaços
direcionados para o público homossexual) tem sido uma estratégia utilizada pelos
homossexuais não só para socialização de pessoas com mesma orientação sexual,
mas também para proteção contra manifestações discriminatórias, preconceituosas
e homofóbicas. Assim, o “gueto” homossexual passa a ser um ambiente social
seguro, onde o individuo pode expressar sua sexualidade sem preocupação ou
ansiedade.
Esses espaços – “os guetos” – para além de um local de diversão são
criados pela rejeição da sociedade as manifestações públicas da subjetividade dos
homossexuais. Nesse sentido, é mister destacar a definição clássica de “gueto”
apontada por Pollak (1985) como “bairros urbanos habitados por grupos segregados
do restante da sociedade, levando uma vida econômica relativamente autônoma e
desenvolvendo uma cultura própria” (p.70).
O uso do termo “gueto” nesse trabalho refere-se aos locais nos quais os
homossexuais se encontram para, além da diversão, se reconhecer como sujeitos
através da interação com outras pessoas que compartilham uma experiência similar
de segregação social e para vivenciarem sua sexualidade livre de preconceito e
discriminação.
O termo ”gueto” tem sido usado por diversas ciências. Mas, de uma forma
geral, há convergência de significado, como uma área:
urbana restrita, uma rede de instituições ligadas a grupos específicos e uma
constelação cultural e cognitiva (valores, formas de pensar ou
mentalidades) que implica tanto em isolamento sócio-moral de uma
categoria estigmatizada quanto o truncamento sistemático do espaço e das
oportunidades de vida de seus integrantes.(WACQUANT, 2004, p.156).
O referido autor indica que o uso do termo se tornou disseminado e
aplicado conforme o senso comum que prevalece nas sociedades, de modo que não
há definição precisa do mesmo nas diversas áreas do conhecimento.
A palavra “gueto” foi inicialmente utilizada para referir-se à consignação
forçada de judeus por autoridades políticas e religiosas da cidade. Nesses casos, os
judeus viviam em áreas cedidas e restritas, onde praticavam seus negócios e
40
seguiam seus costumes. O termo deriva de giudecca, borghetto ou gietto, do idioma
italiano. Seu significado passou por várias modificações, das quais se destaca a
utilização do termo para referir-se aos locais específicos dos homossexuais ‘ em
resposta ao estigma e à libertação gay’ (LEVINE citado por WACQUANT, 2004,
p.157).
Wacquant (2004) indica que para a categoria dominante a finalidade do
“gueto” é circunscrever e controlar, o que se traduz no que Max Weber chamou de
‘cercamento excludente’ da categoria dominada “(WACQUANT, 2004, p.158). Para
os dominados o “gueto” tem o papel de integrar e proteger, pois proporciona a
socialização de seus membros e livra-os do contato permanente com os
dominantes.
Para Pinheiro (2003), os “guetos” são:
Locais criados pela rejeição social da expressão pública desta
subjetividade, o que força as pessoas a buscar lugares para a sua
expressão, com uma cultura própria, extremamente apartada. Desta forma,
o gueto surge como espaço público de afirmação da subjetividade e da
existência da comunidade homoerótica. (p.59)
Nunan e Jablonski (2002) indicam que os homossexuais procuram os
“guetos”, pela segregação forçada por causa da discriminação, por preferir manter
contato com pessoas similares compartilhando identidade e por poder ser eles
mesmos, mostrando sua orientação sexual sem preocupação ou ansiedade.
Toda essa situação de rejeição social que acaba empurrando os
homossexuais para os “guetos”, estimula as relações de objeto.Ou seja, os
homossexuais acabam tendo de contentar-se com relações passageiras e com a
coisificação das relações.Viver uma relação afetiva mais sólida implica em ter que se
expor, enfrentando toda uma carga de preconceito que isso pode produzir, uma vez
que, uma relação mais humana e edificante existe para além do “gueto”.
41
CAPÍTULO II: PASSOS METODOLÓGICOS DA INVESTIGAÇÃO
2.1. Aproximação com o objeto – “gueto”
Para me aproximar do objeto, realizei visitas a duas boates destinadas ao
público LGBTT. Fiz observação direta no “gueto” homossexual, compreendendo que
esse tipo de observação tem por objetivo registrar e recolher todos os componentes
da vida social do meio observado e que se apresentem à percepção do observador.
Dessa forma, pude testemunhar os comportamentos, atitudes, praticas dos
indivíduos nos próprios locais em que tais fatos acontecem, sem alterar o seu ritmo
natural ou cotidiano (PERETZ, 2000).
Na boate “A”, o espaço físico é pequeno, mas aconchegante, com dois
andares, os dois destinados à dança. Há um bar que vende diversos tipos de
bebidas, nos dois ambientes. Luzes se espalham por todo o local, de baixa
intensidade, e das mais variadas cores, com direito a globo luminoso e jogos de luz.
Um DJ realiza a seqüência de musicas, e não há pausas entre elas. Em alguns
momentos, percebi certa preferência por alguns cantores, que não identifiquei quem
eram, mas o publico gritava, dando resposta que tinham aprovado a escolha do DJ.
O público, eminentemente masculino, veste as mais variadas roupas, de
diversos estilos, e alguns utilizam óculos escuros, alem de gel no cabelo e outros até
maquiagem. Observei presença restrita de travestis, e um deles falou que eles não
são muito bem vindos naquela boate (preconceito???). Por conta do intenso barulho
da musica, não consegui distinguir bem as conversas, nem esmiuçar a linguagem,
mas percebi que há uma variação também grande de estilos e linguagens, com uso
de expressões próprias, e alguns se tratam e se abordam no feminino ( “Dá licença
que estou precisando ir ao banheiro, estou morta de apertada”). Esse uso do
feminino para tratar de si e dos outros foi algo muito comum que observei no lugar.
Brigas, não vi. O lugar é calmo, e muito raramente se vê discussão ou se
precisa de apoio da segurança, me informa um dos freqüentadores. O que mais
42
observei foi muita dança, todos parecem envolvidos pela musica, muito contagiante.
Observei poucos casais, que se beijam e se abraçam livremente. A presença de
casais só aumentou no fim da noite, dentro da madrugada, e um amigo informa que
é a hora que todos procuram alguém pra beijar.
Há um local denominado de dark room, no qual a luminosidade é mínima,
e os freqüentadores têm mais “liberdade” com seus parceiros, e um amigo informa
que nesse local há muito sexo, livre. Passei pelo local, mas não consegui enxergar
muita coisa.
Há alguns que tiram a blusa, e dançam entre os demais, e geralmente
são pessoas de corpos muito bonitos, “malhados”.
O ambiente funciona ate seis da manha, quando então a casa fecha.
Permaneci no local ate três da manha, e amigos ainda me criticaram
porque fui “muito cedo”.
A boate “B”, os cenários são relativamente parecidos, mas há, nessa,
outros ambientes, e esses pude observar com mais clareza. Há uma sala em que
são exibidos filmes de natureza pornográfica, e segundo alguns amigos que me
acompanharam, há sessões de masturbação coletiva e individual, livremente e na
frente de demais pessoas. Não entrei nesse ambiente,mas pela descrição e
observação externa à sala, o ambiente é sempre cheio, e há uma rotatividade
grande para dentro e fora dessa sala. Há também um dark room, em frente à sala de
cinema pornográfico. Dessa a sala, há também um grande fluxo de freqüentadores,
mas observei que a permanência dentro dessa sala é mais rápida do que na sala de
cinema. Alguns amigos me informaram que muitos vão apenas para observar, e não
participam ativamente. Percebi ainda que, como no caso da boate “A”, o publico é
eminentemente masculino, mas vi algumas mulheres no local. Na parte da frente da
boate, há uma pista de dança, e mais uma vez, observei muito envolvimento com a
música e com a dança no local. Na parte de trás da boate, há um local de ar livre,
onde se vendem bebidas e há musica ao vivo, o “pagode”, e os freqüentadores
dispõem também de espaço para dança. Lateralmente, há banheiros coletivos, e,
amigos novamente descreveram que nesses banheiros o sexo acontece
publicamente. Segundo amigos que freqüentam mais assiduamente o local, essa
43
boate é mais comumente freqüentada por pessoas de classe social mais baixa,
devido , sobretudo, ao valor da entrada, mais acessível que a da boate “A”.
2.2 Natureza do estudo
Ao realizar uma pesquisa, cabe ao pesquisador, questionar a realidade
compreendendo que qualquer conhecimento é apenas recorte e que ao lado da
preocupação empírica deve haver a preocupação teórica, uma vez que é preciso ter
conhecimento teórico para captar a realidade. A realidade existe independente da
interpretação, entretanto, para conhecê-la é preciso interpretá-la (DEMO, 1999).
É mister destacar que enquanto a teoria coloca a discussão sobre
concepções de realidade, o método coloca a discussão sobre concepções de
ciências.
Portanto, na pesquisa é essencial também a preocupação metodológica,
visto que ela é um dos horizontes estratégicos da pesquisa, uma vez que alcança a
capacidade de discutir de forma criativa, caminhos alternativos para a ciência. O
método é que vai diferenciar a ciência de outros saberes, pois a ciência é assumida
como conhecimento metódico, cuidadoso e testado.
Andery (1996) aponta que o conhecimento em Marx:
(...) não se produz, portanto a partir de um simples reflexo do fenômeno, tal
como este aparece para o homem; o conhecimento tem que desvendar, no
fenômeno aquilo que lhe é constitutivo e que é em principio obscuro; o
método para a produção desse conhecimento assume, assim, um caráter
fundamental: deve permitir tal desvendamento, deve permitir que se
descubra por trás da aparência o fenômeno tal como é realmente, e mais, o
que determina, inclusive, que ele apareça da forma como o faz. (ANDERY,
1996, p. 413).
Assim, em Marx, para construir conhecimento é preciso desvendar no
fenômeno o que lhe é constitutivo, procurando descobrir o que está por trás da
aparência, considerando que os fenômenos constituem-se, fundam-se e
transformam-se a partir de múltiplas determinações.
Desse modo, Marx com seu método materialista, histórico e dialético, nos
dá suporte para compreendermos o real e construirmos conhecimento. A partir
44
dessa compreensão, a pesquisa social a que me propus realizar, foi norteada pelo
método materialista, histórico e dialético de Marx.
Para elucidar o objeto que tomei para investigação realizei uma pesquisa
bibliográfica e documental buscando informações e conhecimento através da
literatura especializada.
Na pesquisa de campo, visando abranger a complexidade do objeto, a
abordagem foi feita através de uma pesquisa qualitativa, buscando descobrir o
significado das ações e das relações que se ocultam nas estruturas sociais, captar o
universo das percepções das emoções e das interpretações dos informantes no seu
contexto (MARTINELLI, 1999).
A técnica utilizada para obtenção das informações foi a entrevista semi-
estruturada, contendo questões abertas, visando captar as falas espontâneas dos
sujeitos participantes da pesquisa. Tal entrevista permite que o entrevistado fale
livremente sobre os assuntos que vão surgindo, como desdobramento do tema,
dando oportunidade para que o mesmo coloque outras questões relacionadas com a
questão central. (HAGUETTE, 1999).
Dessa forma, a investigação teve como principal instrumento de coleta de
dados a entrevista na qual foram feitas as seguintes perguntas aos homossexuais
participantes da pesquisa: Como você se percebeu homossexual?A família sabe de
sua orientação sexual?Como reagiu ao saber?O que os amigos significam para
você?Você possui mais amigos homossexuais ou heterossexuais?Qual o lugar que
você prefere freqüentar? Por quê?O que o “gueto” representa para você?Quais os
tipos de discriminação você sofre fora dos “guetos”?Você acha que os
homossexuais devem se expor ou não?O que seria mais incomodo para você na
reação das pessoas?Há algo em que você tenha vergonha?O que você pensa
acerca da sua orientação sexual?Como você se sente?As pessoas costumam ter
alguma reação a você por conta da sua orientação sexual?Você acha que o público
LGBTT freqüenta um determinado tipo de lugar?Quais as características desse
lugar?Por que as pessoas freqüentam?
Essas perguntas, portanto, instigam e movem essa pesquisa que tem
como objetivo geral desvendar os reais significados do “gueto” homossexual em
45
Fortaleza, e como objetivos específicos:desvelar o significado do “gueto” para os
homossexuais; identificar os tipos de discriminações sofridas pelos homossexuais
entrevistados.
Através da articulação das respostas dos sujeitos entrevistados com a
literatura consultada, tentei elucidar os objetivos do estudo.
2.3. Campo da pesquisa
A pesquisa de campo foi realizada no GRAB (Grupo de Resistência Asa
Branca) situado na Rua Teresa Cristina, 1050, Centro – Fortaleza- Ceará.
Fundado em 1989, o GRAB é uma organização da sociedade civil, sem
fins lucrativos, com base comunitária, sendo pioneira no estado do Ceará, na defesa
dos direitos de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais (LGBTT). Busca de
forma permanente a inclusão dos/das homossexuais, através do ativismo, pela
construção da cidadania e da defesa dos direitos humanos das comunidades
LGBTT. Tem variados projetos destinados a facilitar a discussão do tema na
sociedade, através de oficinas, encontros, projetos comunitários, sendo inclusive
atualmente reconhecido como de Utilidade Publica Municipal (Lei 7066 de
27/03/1992). Presta assessoria jurídica e psico-social ás pessoas afetadas por
discriminação de prevenção das DST/AIDS e Hepatites virais e apoio a pessoas
vivendo com HIV/AIDS, com fornecimento orientado e gratuito de preservativos.
Ainda, disponibiliza um centro de documentação (biblioteca e videoteca) sobre
Direitos Humanos, Homossexualidade e DST/AIDS para toda a sociedade.
O GRAB, em seus vinte anos de existência, tem atuado diretamente no
enfrentamento ao preconceito por orientação sexual em diversas instâncias da
sociedade, através da construção da cidadania homossexual na premissa de que
esta perpassa todas as esferas da vida humana, exigindo uma atuação plural que
contemple a justiça, a saúde, a educação, a cultura, a formação profissional,
contribuindo para que essa população vivencie plenamente seus direitos sexuais e
sociais. Desta forma, a instituição tem desenvolvido diversas ações e projetos nas
áreas da Saúde (prevenção das DST/HIV/Aids e apoio às pessoas vivendo com
46
HIV/Aids), Qualificação Profissional (cursos de informática e centro de estética),
Direitos Humanos (assistência jurídica e psico-social gratuita em casos de
discriminação por orientação homossexual), Ativismo (politização e luta pelo controle
social das políticas públicas) e Organização das Paradas pela Diversidade Sexual
no Ceará.
No período de 1995 a 2006, o GRAB realizou Projetos na área de
Assessoria Jurídica, Prevenção e Cidadania, junto à população de gays, bissexuais,
trabalhadores do sexo e transgêneros.Em 2000, desenvolveu o Projeto
HIVIDAARTE, junto a 30 jovens, de 14 a 21 anos, portadores de HIV/Aids e filhos de
portadores, para a capacitação profissional.
Realiza as Paradas pela Diversidade Sexual no Ceará, desde 1999, tem
participado das Conferências estaduais e nacionais de Direitos Humanos e das
reuniões para a formulação do Programa Brasil Sem Homofobia – Programa de
combate à violência e à discriminação contra LGBTT e de promoção da cidadania
homossexual, da SEDH (Secretaria Especial de Direitos Humanos) – Presidência da
República.
O quadro de profissionais do GRAB é formado por pessoas habilitadas
em gerenciamento e elaboração de projetos, ativismo, controle social,
desenvolvimento institucional, advocacy intervenção etc., que o credencia a utilizar
as ferramentas metodológicas empregadas, baseadas em metodologias
participativas, numa construção entre pares e de empoderamento comunitário.Dessa
forma, tem desenvolvido ações sócio-educativas e de intervenção social, sob o
princípio de prioridade em melhorar a qualidade de vida de lésbicas, gays,
bissexuais, travestis e transexuais e estreitar, cada vez mais, o diálogo entre o
movimento comunitário homossexual e a sociedade civil.
A Diretoria do GRAB, de acordo com seu estatuto, é formada por um
presidente, um vice-presidente, primeiro e segundo secretários, primeiro e segundo
tesoureiros e um conselho fiscal composto por três filiados do GRAB e seus
respectivos suplentes.
O GRAB tem como missão, melhorar a qualidade de vida de lésbicas,
gays, bissexuais, travestis e transexuais; e pessoas vivendo com HIV/Aids, no
47
estado do Ceará.Para tanto, a instituição desenvolve hoje os seguintes Projetos:
Entre nós; SOMOS ;Diversidade sexual e Cidadania; Centro de Referência LGBTT
Janaina Dutra; OBALUAIÊ e o Projeto SAGAS.
O Projeto Entre Nós, realiza ações educativas em prevenção das
DST/HIV/Aids junto a gays e outros Homens que fazem Sexo com Homens (HSH)
em 13 municípios cearenses e em 15 bairros da periferia de Fortaleza.
O SOMOS desenvolve ações voltadas ao fortalecimento institucional de
ONGS de promoção dos direitos humanos de homossexuais, nas áreas de
intervenção, advocacy e desenvolvimento organizacional.O Projeto assessora hoje,
mais de 15 grupos em todo estado do Ceará.
O Projeto Diversidade Sexual e Cidadania, têm como objetivo capacitar
profissionais da educação, especialmente, os professores da rede pública municipal
de Fortaleza a estarem habilitados para a abordagem e discussão sobre sexualidade
humana e diversidade sexual, nos espaços escolares, privilegiando o prisma do
enfrentamento ao preconceito e a discriminação.
O Centro de Referencia LGBTT Janaina Dutra oferece serviços de
assessoria jurídica e psico-social e de mediação de conflitos em casos de
discriminação por razão da orientação sexual.O atendimento é feito por uma equipe
multidisciplinar, formada por advogada, estagiários de Direito, psicóloga e assistente
social.
O OBALUAIÊ realiza ações preventivas à transmissão das hepatites
virais, através da mobilização e parceria entre ativistas LGBTT, rede pública de
saúde, especialmente as equipes do Programa de Saúde da Família (PSF) e
autoridades afro-descendente da área de abrangência do projeto.
O Projeto SAGAS faz parte de uma parceria entre a Fundação Schorer –
Instituição Holandesa voltada para o público LGBTT – com quatro ONGS no Brasil: o
GRAB no Ceará, a ABIA (Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids) e Grupo
Arco-Íris no Rio de Janeiro e o Grupo Somos no Rio Grande do Sul.O SAGAS/GRAB
realiza atividades que tem como objetivo estimular a prática do sexo seguro e
contribuir para a autonomia dos jovens homossexuais e outros Homens que fazem
48
Sexo com Homens – HSH na Cidade de Fortaleza – Ceará.As atividades de
interação do Projeto SAGAS/GRAB iniciaram em 2008 e conta com diversas ações:
Sobre nós: diálogos e sexualidades – atividades diretamente com os jovens;
Atividades de pesquisa; Parcerias e Desenvolvimento Institucional.
Nas primeiras terças-feiras de cada mês o GRAB realiza reuniões aberta
ao público, onde são discutidos temas como: Prevenção e Sexo Seguro, Gênero e
Sexualidade, Cidadania Homossexual, A Diversidade Sexual e o Parlamento, o
Movimento Homossexual e a Luta Contra a Aids.(GRAB, 2009)
A escolha do GRAB se deu por conta de sua visibilidade na sociedade
cearense, como um grupo de referência quando o assunto é a temática
homossexual.Além disso, é uma entidade que tem como principal bandeira de luta o
enfrentamento ao preconceito por orientação sexual em diversas instâncias da
sociedade, divulgando informações corretas e positivas da homossexualidade e
esclarecendo ao público LGBTT a importância da organização política na luta pelos
seus direitos.
Como enfatiza Nelson Correia:‘Assim como Asa Branca é um pássaro que
enfrenta a seca e a aridez, o GRAB representa a resistência ao machismo e
desrespeito contra os homossexuais.’5
2.4.Sujeitos da pesquisa e trajetória metodológica
Os sujeitos da pesquisa foram homossexuais masculinos que fazem parte
do Projeto SAGAS6
/GRAB, sendo a faixa etária dos entrevistados entre
5
Fala de Nelson Correia, do Programa Nacional de DST/AIDS, no momento em que explicava o sentido do
nome do GRAB, durante apresentação em mesa redonda, no Seminário ‘ 20 anos de Resistência Construindo a
Igualdade’, realizado pelo GRAB no dia 26 de março de 2009 no auditório do Centro Dragão do Mar de Arte e
Cultura em Fortaleza-Ceará, em comemoração dos 20 anos do GRAB.Informações disponíveis em:
http//www.grab.org.br/index.html.Acessado em :11 de maio de 2009.
6
Projeto que faz parte de uma parceria entre a Fundação Schorer – Instituição Holandesa voltada para o público
LGBTT – com quatro ONGS no Brasil: o GRAB no Ceará , a ABIA (Associação Brasileira Interdisciplinar de
Aids) e o Grupo Arco-Íris no Rio de Janeiro e o Grupo Somos no Rio Grande do Sul.O SAGAS/ GRAB
desenvolve atividades que têm como objetivo estimular a prática do sexo seguro e contribuir para a autonomia
dos jovens homossexuais e outros Homens que fazem Sexo com Homens – HSH na Cidade de Fortaleza –
Ceará.Informações disponíveis em: http://www.grab.org.br/projetos.html.Acessado em: 11 de maio de 2009.
49
vinte e um e vinte e oito anos. A escolha dos sujeitos foi realizada de forma
aleatória, após o contato inicial, no qual todos os participantes do grupo foram
esclarecidos da natureza da pesquisa.
Os homossexuais foram previamente consultados sobre o interesse em
participar da entrevista, pela coordenadora de monitoramento do GRAB. Confirmado
o interesse dos mesmos em participar da pesquisa, a coordenadora entrou em
contato comigo para marcar o dia e o horário para a realização da entrevista.
Foi utilizada a amostragem teórica (processo de saturação teórica) como
método de determinação do número de sujeitos componentes da pesquisa. Nesse
processo, segundo afirma Minayo (2000), o dimensionamento do número de
indivíduos depoentes é realizado segundo o nível de compreensão, o mais amplo
possível, atingido pelo pesquisador em questão. O critério de escolha utilizado foi a
aceitabilidade dos homossexuais em participar da pesquisa, sem haver critério de
exclusão, uma vez que considerei que cada um possui algo a dizer sobre sua
vivência. Utilizando a técnica de amostragem teórica, foram captados quatro
discursos.
As entrevistas foram realizadas no GRAB, numa quinta-feira, dia em que
os homossexuais participam de uma reunião do Projeto do qual fazem parte
(SAGAS).Num primeiro momento, falei aos participantes sobre o objeto de estudo,
bem como seus objetivos e importância.Informei também que o nome de cada
participante seria mantido em sigilo, substituindo seus nomes verdadeiros por nomes
fictícios.Ainda, numa conversa informal, esclareci que eles não precisavam se
preocupar em dar respostas corretas, apenas expressar de forma espontânea, suas
vivencias, suas idéias, seus pensamentos, suas opiniões e posicionamentos
pessoais em relação às questões abordadas.Esse primeiro momento foi importante,
pois proporcionou uma “quebra” de formalidade que pudesse prejudicar a captação
das falas dos depoentes.
Foi disponibilizada uma sala fechada, na qual pude estar de forma
reservada com os homossexuais, permitindo que os mesmos se sentissem a
vontade para a entrevista. Aos entrevistados era lido um termo de livre
50
consentimento, no qual se apresentavam os objetivos da pesquisa, bem como a
garantia do anonimato dos entrevistados, e uma via desse termo era deixado em
posse dos mesmos.
Para validar o instrumento de pesquisa foi feita uma entrevista em caráter
de Pré-teste.Todas as colocações do entrevistado foram suficientes para responder
o objeto em questão.
As entrevistas foram gravadas, com o devido consentimento dos
entrevistados, e depois transcritas, num registro impresso fidedigno, tal qual me foi
descrito pelos sujeitos entrevistados.
Para nomear os sujeitos da pesquisa, e mantê-los em anonimato, utilizei
os nomes dos principais líderes guerrilheiros da Ditadura Militar no Brasil e de um
opositor do regime que foi perseguido, preso e exterminado pela repressão militar.
Assim, identifico os entrevistados com os nomes de Marighela, Lamarca, Orlando
(Carlos Marighela, Carlos Lamarca e Osvaldo Orlando da Costa – líderes
guerrilheiros exterminados pela repressão militar) , Herzog (Vladimir Herzog –
jornalista morto nas dependências do II Exercito, em São Paulo) .
Optei por identificar os entrevistados com nomes fictícios dos guerrilheiros
do regime militar, por considerar os homossexuais verdadeiros guerrilheiros que ao
ousarem serem como realmente são, ou seja, ao assumirem publicamente sua
orientação sexual e afetiva por pessoas do mesmo sexo, são perseguidos,
discriminados e até exterminados, pela ditadura da heteronormatividade socialmente
instituída, como os inúmeros casos de assassinatos por motivações
homofóbicas.Esses sujeitos, assim como os guerrilheiros do regime militar, têm
travado uma luta incessante contra a violência social da rejeição e da repressão de
sua homossexualidade.
Em linhas gerais, os quatro entrevistados apresentam o seguinte perfil:
Marighela, tem 27 anos, é estudante pré-universitário, faz trabalhos
pontuais e faz parte do Projeto SAGAS/GRAB.Já morou com um namorado durante
quatro anos, o relacionamento acabou e hoje ele mora com os pais.Apesar dos
atritos com sua mãe quando da descoberta de sua homossexualidade, ele hoje
51
parece estar bem com sua homossexualidade, diz não tem mais medo e nem receio
dos preconceitos dos outros.
Lamarca tem 23 anos, é estudante pré-universitário, faz curso de inglês,
faz parte do Projeto SAGAS/GRAB.Mora sozinho, é bem alegre e extrovertido.Adora
freqüentar lugares heteros, principalmente bares e churrascarias que tenham MPB
(música ao vivo).Não gosta de freqüentar locais gays porque acha que só tem
baixaria, não obstante ama ser homossexual.
Orlando tem 21 anos, é estudante de Publicidade, faz teatro, é bailarino e
faz parte do Projeto SAGAS/GRAB.Mora com a avó, a tia e uma irmã.É bissexual, e
diz ter sido muito doloroso o caminho até que ele se descobrisse bissexual.Já
namorou e se apaixonou por algumas mulheres, atualmente está namorando com
um rapaz.Orlando considera o teatro um tipo de “gueto”, porque no teatro as
pessoas extrapolam sua sensibilidade. Apesar da pouca idade, Orlando pareceu ser
uma pessoa muita sensata e madura.
Herzog tem 28 anos, é estudante do ensino médio, já trabalhou como
vendedor e no momento está fazendo trabalhos pontuais, faz parte do Projeto
SAGAS/GRAB.Mora com o namorado.Gosta bastante de freqüentar os “guetos”
gays para poder ficar mais a vontade com seu namorado.Se sente bem com sua
homossexualidade, considera-se feliz.
Com os dados obtidos na pesquisa de campo, através do olhar, do ouvir e
do escrever, faculdades do entendimento e da percepção humana que, mediados
pelo referencial teórico, permitem ao pesquisador apreender o objeto estudado
(OLIVEIRA, 1998) passo, então, para terceira etapa da pesquisa, onde faço a
interpretação e a análise desses dados.
52
CAPITULO III: “GUETO” HOMOSSEXUAL: AS PERCEPÇÕES E OS
POSICIONAMENTOS DOS SUJEITOS DA PESQUISA
A partir dos discursos captados nas entrevistas, foram organizadas
categorias que contribuíram para a melhor compreensão das percepções e
posicionamentos dos sujeitos.As categorias principais são: a descoberta da
homossexualidade, a relação com a família, tipos de discriminação sofrida fora dos
espaços delimitados e visão sobre o “gueto”.
3.1. A descoberta da homossexualidade
Os sujeitos desde cedo são conduzidos a publicarem a
heterossexualidade, seguindo um roteiro de vida pré-estabelecido, em que cada um
tem que seguir o caminho traçado pela tradição heteronormativa.
Em nossa sociedade, marcada pela ditadura heterossexual, assumir-se
homossexual, não é nada fácil,”cada vez que alguém sente o apelo da diferença em
seu desejo, provavelmente terá de vencer séculos de repressão, para chegar ao
epicentro do seu eu” (TREVISAN, 2007, p.163).
O processo de descobrir-se homossexual, inicia-se pelo reconhecimento
de desejos sexuais por pessoas do mesmo sexo (POLLAK,1985).Isso é relatado
com freqüência pelos sujeitos da pesquisa.
Eu tinha certa afinidade com uns colegas de aula (...) eu era muito confuso,
eu não sabia o que era aquilo, tudo era novo pra mim, aí foi da onde eu
comecei a sentir sensações por outros garotos, emoção de estar perto de
um garoto.Tinha um garoto na minha sala de aula que eu era bastante afim
e tal, aí comecei a sentir, nossa! isso não é normal, isso não é normal, será
se eu sou normal, e eu tinha que procurar saber.E nossa! eu sou católico,
será se isso não é pecado.Procurei namorar uma mulher, não
consegui.Sempre os sentimentos por ele era maior.Aí foi da onde eu
comecei a cair em si, nossa! será se é isso mesmo? Aí fui percebendo e
tal,nossa! é isso mesmo.(Marighela)
53
Os conflitos internos de dúvidas e culpa que os homossexuais sentem no
momento da descoberta de sua homossexualidade, estão relacionados com o medo
da retaliação e da rejeição social de uma cultura patriarcal hierarquizada, que não
permite outras possibilidades de relações amorosas que não seja a relação homem
– mulher.(PINHEIRO,2003)
Isso pode ser percebido na fala de Marighela, quando da descoberta de
seus sentimentos por outra pessoa do mesmo sexo que o seu.Ele começa a se
questionar, vê-se cercado de sentimentos de dúvidas, de culpa, achando que o que
ele está sentindo é pecado, não é normal, que ele não é normal.
Esses sentimentos surgem, porque os sujeitos incorporam os valores de
uma sociedade que “escolheu a heterossexualidade como hegemônica – síntese do
machismo, selecionando as características individuais para cada sujeito mediante o
gênero a que pertence” (LOIOLA,2005,p.54), e romper com esses valores:
E foi um certo tempo que eu conheci um primo que veio de Salvador, (...) e
ele me achou muito bonito e ficou super interessado em mim, e eu também
fiquei, sentia umas coisas por ele, isso assim, pra mim foi um choque,
entendeu, eu me perguntei, será se é isso mesmo, será se é isso mesmo
que eu tô sentindo mesmo, será se não é coisa de momento, será se isso
não é loucura, não é paranóia,será se não é pecado, será se é verdade,
eu sou tão novo.Então foi desde daí , eu tinha entre treze anos pra
quatorze, que eu realmente me descobri gay.(Lamarca)
É importante destacar também, que os princípios religiosos nesse
momento influenciam o caminhar dos sujeitos, e têm importantes implicações em
suas condutas, criando um sentimento de culpa quando na descoberta da
homossexualidade.
E aí foi tudo muito precoce na minha vida, uns dez, quinze anos, eu
descobri que gostava de pessoas do mesmo sexo com o meu
vizinho,comecei a ter uns sentimentos por ele, de ta perto, de beijar e tal,
agente não tinha contato com outras pessoas e agente resolveu tentar, (...),
agente começou a se tocar, e tal, e nisso agente foi vendo que gostava e
tal. Só que comigo tinha um lance muito grande, que era o lance da
religiosidade, eu vivia dentro da Igreja, passava de segunda a sexta dentro
da Igreja Católica, participante mesmo, de eventos de tudo, isso
influenciava muito na minha vida, e aí tinha a questão do pecado,né, será
se é pecado e tal. Mais aí eu fui levando enquanto deu.(Orlando)
54
Assim, para esses sujeitos, a descoberta da homossexualidade, implica
romper com os papéis sociais e sexuais interiorizados na socialização primaria7
,
causando um conflito interno entre a identificação pelos outros e a auto-
identificação, ou seja, entre a identidade objetivamente atribuída e a identidade
subjetivamente apropriada.
3.2.A relação com a família
A família como um elemento institucionalizado da nossa cultura, cumpre o
papel de emitir os primeiros ensinamentos tidos como verdadeiros, baseados nos
princípios moralistas da igreja, no puritanismo, no machismo e na binaridade dos
sexos, associada à reprodutividade (LOIOLA,2005)
Dessa forma, a família constitui-se como um pilar da ordem estabelecida,
determinando as condutas dos sujeitos. Assim, quando em uma família existe a
probabilidade de um sujeito assumir uma orientação sexual e afetiva por uma
pessoa do mesmo sexo, a situação torna-se extremamente problemática.
Toda família sabe, desde meus tios, aos meus pais, (..) quando eles ficaram
sabendo, eu tinha na faixa de quinze pra dezesseis anos de idade quando
eu resolvi contar, foi um baque muito grande pra minha mãe, porque minha
mãe era altamente homofóbica, não gostava da questão do
homossexualismo, achava feio, sempre discriminava o povo que passava
na rua e tal, (...).E assim, eu tive um apoio muito grande, que eu me
surpreendi com meu pai, meu pai foi aquele de sentar na cabeceira da
minha cama e conversarmos, ele disse: eu não posso matar você, eu não
posso dar uma surra em você, porque seu sentimento é seu, você sabe o
que está fazendo, desde quando você respeite sua família, respeite sua
casa e se respeite, e cuidado com as doenças, as doenças do mundo ( ...)
eu tive vários atritos com a minha mãe(...) passei dois anos sem
praticamente andar na minha casa por causa da minha mãe.(...) a minha
mãe sempre teve um contra a historia de dizer que não era certo. Hoje ela
já é mais normal, ela faz aquele papel que sabe mas fecha os olhos que
não sabe, né aquela coisa desde quando respeite a minha casa, pra mim ta
tudo bem, ela é muito disso.Tem dias que ela ta muito zangada, ela começa
a dizer no sei o quê os seus machos, e eu digo opa! seus machos não,
porque eu não tenho seus machos, eu só tenho um e aí eu ainda tiro onda,
olha a xingação, olha a homofobia, que eu já cansei de ta me estressando,
essas coisas.E aí eu vou tentando levar, eu já sei como é o temperamento
dela, vou levando bem.(Marighela)
A minha família hoje sabe, eu tenho um relacionamento com uma pessoa,
há cinco anos juntos, e a minha família toda sabe, no começo não foi fácil
7
Socialização primária é a primeira socialização que o individuo experimenta na infância, e em virtude da qual
torna-se membro da sociedade.(BERGER e LUCKMANN,1985, p.175)
55
não aceitar.Na realidade, a minha tia, quando ela descobriu, eu moro com a
minha tia. (...) aí foi quando eu comecei a se montar a se vestir de mulher, e
aí, então assim, até então a minha tia não sabia, todo mundo comentava, só
que minha tia não tinha certeza, aí um dia eu fui trabalhar, como eu já se
montava e não tinha saído de casa ainda nessa época, minhas coisas eram
tudo escondida, salto, peruca, essas coisas, tudo debaixo da cama, aí um
dia a minha tia viu, eu tava trabalhando ela viu, aí ela ligou pra mim e disse:
olha eu encontrei umas coisas aqui que eu achei esquisita, quando você
chegar eu quero conversar com você sobre isso. Aí eu lembro que eu disse
pra ela: não o que a senhora tanto queria saber a muito tempo, que a
senhora queria que eu tivesse lhe dito, a senhora descobriu, já viu, então
assim, quando eu chegar em casa eu não quero nenhum comentário sobre
isso, caso contrário eu vou ter que sair de casa, isso eu tinha dezessete
anos, aí o quê que aconteceu, quando eu cheguei ela foi comentar, aí disso
ela comentou e eu disse: ah é isso não tem como mudar.Só que ela achou
quando viu roupa de mulher, peruca, salto, ela achava que eu tava me
prostituindo, eu disse: não apenas eu tô me vestindo de mulher, tô indo pra
boate me diverti, não tô fazendo prostituição nem nada do que a senhora
possa ta imaginando.Só que depois disso não deu mais certo, a relação em
casa mudou,...(pausa) aí eu peguei e saí de casa, daí eu fui morar em
vários lugares, passava um tempo num canto, um tempo no outro.Aí nessa
época, como eu te falei, foi muito difícil pra mim, que a minha família, pode-
se dizer não aceitou.Eu passei quase um ano sem ir na casa da minha tia,
morando em bairro vizinho.Aí depois de muito tempo eu comecei a me
reaproximar deles, aí hoje ela sabe, hoje eu moro praticamente vizinho a
casa dela e moro com uma pessoa que vive comigo, que agente já vive
junto a cinco anos e hoje é normal, é como ela mesmo falou: eu não apoio,
eu aceito porque você é meu sobrinho e por você viver com outro cara, por
você ser gay, você nunca vai deixar de ser meu sobrinho, mais eu não
apoio. O resto da família é tranqüilo, só ela que é meio assim, também
porque ela é evangélica, mais o restante da família numa boa, normal,
tratam ele super bem, respeitam.(Herzog)
Percebo nos discursos desses sujeitos entrevistados, a existência de
conflito no grupo familiar, após a descoberta da homossexualidade dos mesmos.
Como relata Herzog, depois que sua tia descobriu a sua
homossexualidade, a relação ficou insustentável, ao ponto dele ter que sair de
casa.Ela não chegou a expulsa-lo de fato de casa, mas a rejeição por conta da sua
orientação sexual, parece ter sido muito mais traumática, ele deixou transparecer
isso durante a entrevista.
Marighela também tem conflitos na família, mais precisamente com sua
mãe ,que segundo ele, é bastante homofóbica.Embora, ele relate que seu pai deu
grande apoio ao tomar conhecimento de sua homossexualidade, percebo a relação
que seu pai faz da homossexualidade com a promiscuidade, como também a
manifestação preconceituosa, quando ele diz ao filho:”desde quando você respeite
sua família, respeite sua casa e se respeite”.Parece que para ele, ser homossexual,
é desrespeitar a si e aos outros, é a visão distorcida e negativa da
56
homossexualidade, baseada numa concepção tradicional de que a sexualidade, fora
dos limites da binaridade homem-mulher, é uma sexualidade libertina, e portanto,
promíscua.
Assim, enfatiza Pinheiro (2003, p.135) “a associação entre ‘marginalidade’
e homoerotismo é uma atitude da cultura homofóbica e machista brasileira”.Ainda,
segundo esse autor:
O sujeito homoerótico sofre uma discriminação extra e especial – a da sua
família, pois muitos são expulsos do lar em razão da sua ‘diferença’.Este
fato prova que, para muitos homens, revelar seu homoerotismo pode trazer
grande sofrimento e demonstra o nível de preconceito e rejeição social a
que os sujeitos homoeróticos estão submetidos na sociedade brasileira,
uma vez que a sua subjetividade não é reconhecida nem pela própria
família ( PINHEIRO,2003, p.57).
Gurgel (1999) aponta que a transgressão de princípios da família
contemporânea, intimidade e afetividade, trazem repercussões dolorosas para o
individuo.
Os sentimentos de medo, negação e raiva, dos sujeitos em relação à
família, no momento de assumir-se homossexual, com o tempo vai se modificando, e
são superados, embora na maioria das vezes haja certo distanciamento dos
familiares com a vida intima do individuo, mas há harmonia e boa convivência nessa
relação:
Passei dois anos sem praticamente andar na minha casa por causa da
minha mãe, mais sempre tinha contato com o meu pai, era o elo que eu
tinha entre a família era ele, e os meus irmãos que até hoje eles aceitam
bem , mais a minha mãe sempre teve um contra a história e dizer que não
era certo.Hoje ela já é mais normal, ela faz aquele papel que sabe mas
fecha os olhos que não sabe, né aquela coisa desde quando respeite a
minha casa, pra mim ta tudo bem, ela é muito disso (Marighela)
Os amigos têm um papel importante na vida desses sujeitos,
principalmente no momento de assumir-se homossexual para a família, eles passam
a ser o ponto de apoio:
Assim, acho que meus amigos é tudo pra mim(...)eles sempre se fazem
presentes nos momentos que eu preciso, que eu fraquejo(...)que tenho
atritos com a minha família, recorro a eles(...)os amigos pra mim foram um
peso muito grande pra equilibrar minha balança
psicologicamente.(Marighela).
Eu posso dizer que amigos(...) representam muita coisa, por exemplo, uma
das pessoas que eu considero meu amigo foi a pessoa que logo que eu saí
57
de casa , foi a primeira pessoa que me apoiou, que eu fiquei um tempo na
casa dele, pra mim essa pessoa é tudo.(Herzog)
Marighela e Herzog encontram nos amigos todo o apoio que não tiveram
na família, no momento de assumir-se homossexual.Eles tentam recompensar com
os amigos, a perda dos laços afetivos familiares no momento da descoberta da
homossexualidade.
3.3.Tipos de discriminação sofrida fora dos espaços delimitados
A discriminação, fora dos ambientes dos guetos, foi referência importante
nos discursos. Os sujeitos relataram que sofreram discriminação das mais variadas
formas, e deram exemplos de formas de discriminação. Eles referem que sofrem
discriminação até hoje, mas informam que, com o tempo, conseguiram lidar melhor
com essas situações.
Fora dos guetos já sofri várias, desde o papel de ai “bichinha”, “ pei”, desde
o “pei”até uma frasezinha totalmente homofóbica, acho que esses cantos
assim, que são locais públicos mesmo, praças onde não é gueto, não é
considerado esses ambientes.Isso acontecia mais no passado, mais agora,
não sei se é pelo que já o costume, saber me colocar, a onde me colocar, a
onde ir, onde ter uma certa interação, isso acontece menos, mais sempre
acontece, mais em terminais de ônibus, em praças a onde não tem um
público muito grande GLS, o que mais, Escolas, as vezes a gente vai pra
uma Escola conhecer pra dar uma oficina, agente fica levando um “pei” de
longe, umas piadinhas, mais isso agente vai passando, vai deixando levar,
tal, porque até mesmo agente não pode ta a toda hora revidando,
né.(Marighela).
Para Rodrigues, Assmar e Jablonski (1999), o preconceito pode ser
definido como toda atitude hostil ou negativa com relação a um grupo, mesmo que
não haja atos hostis ou comportamentos persecutórios, e quando falamos de
comportamentos, sejam expressões verbais, ou mesmo condutas agressivas,
utilizam-se o termo discriminação.
Eu já perdi oportunidade de emprego por ser gay, por exemplo eu trabalhei
numa loja como vendedor, quando eu fui entrar lá, pra entrar foi super fácil
(...), o gerente é altamente homofóbico, aquele pessoal assim, que eu acho
que se ele pudesse mandar matar um viado ele mandava. ( ...) Quando foi
no dia que ele veio falar comigo, ele pegou já começou com elogios, aí eu já
vi logo, aí tem coisa, ele pegou e disse: olha você é um ótimo profissional,
você se dá super bem com seus colegas de trabalho, até mesmo com os
clientes, eu já recebi vários elogios do seu trabalho, mais infelizmente eu
não vou poder continuar com você, aí eu perguntei porque e ele não me
respondeu, não precisou ele me dizer né, você é super extrovertido, se dá
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O “GUETO” PARA HOMOSSEXUAIS: Desvendando preconceitos e significados

  • 1. 9 UNIVERSIDADE ESTADUAL DO CEARÁ RITA MARIA ALVES VASCONCELOS O “GUETO” PARA HOMOSSEXUAIS DE FORTALEZA: DESVENDANDO PRECONCEITOS E SIGNIFICADOS FORTALEZA-CEARÁ 2009
  • 2. 10 RITA MARIA ALVES VASCONCELOS O “GUETO” PARA HOMOSSEXUAIS DE FORTALEZA: DESVENDANDO PRECONCEITOS E SIGNIFICADOS Monografia apresentada ao Curso de Serviço Social do Centro de Estudos Socais Aplicados da Universidade Estadual do Ceara, como requisito parcial para obtenção do grau de bacharel em Serviço Social. Orientadora: Profª Ms. Alessandra Silva Xavier
  • 3. 11 FORTALEZA-CEARÁ 2009 RITA MARIA ALVES VASCONCELOS O “GUETO” PARA HOMOSSEXUAIS DE FORTALEZA; DESVENDANDO PRECONCEITOS E SIGNIFICADOS Monografia apresentada ao Curso de Serviço Social do Centro de Estudos Socais Aplicados da Universidade Estadual do Ceara, como requisito parcial para obtenção do grau de bacharel em Serviço Social. Aprovado em: ___/____/____ BANCA EXAMINADORA Profª Ms. Alessandra Silva Xavier Universidade Estadual do Ceará Profª Ms.Maria Darcy de Deus Martins
  • 4. 12 Universidade Estadual do Ceará Profª. Esp. Ana Ivete de Araújo Nogueira Universidade Estadual do Ceará Dedico esse trabalho ao meu “sobrinho-filho” Getúlio, por tudo que ele é e representa para mim.Por estar sempre
  • 5. 13 ao meu lado, nos momentos que mais preciso.Pela valiosa ajuda na realização e conclusão desse trabalho, e sobretudo, por ter acreditado em mim e me incentivado com seu imenso amor. AGRADECIMENTOS Agradeço a Deus, pela vida, e pelos sinais de sua presença em momentos de alegria, e sobretudo, nas dificuldades. Ao meu pai pelo amor e carinho dedicado em toda minha infância, sentimentos que foram fundamentais na minha formação humana, seus ensinamentos e exemplos fizeram de mim o que sou hoje. A minha mãe, exemplo de dedicação e luta, meu muito obrigada. Aos meus treze sobrinhos e sobrinhas (filhos/filhas) que eu tanto amo, e que de alguma forma contribuíram para realização desse trabalho.Pelo carinho e apoio em todos os momentos.Agradeço, especialmente pela ajuda direta no desenvolvimento do trabalho: Cristina (Tininha), Érica, Mariana, Leandro e Márcio. A todos meus irmãos, sempre tão dispostos a me ajudar.Em especial, agradeço a minha irmã Fátima (Neném) e ao meu irmão Assis (Tiza), por terem sempre acreditado em mim, me apoiando e incentivando e me ajudando de todas as formas.O apoio e ajuda deles, foram fundamentais para a conclusão desse trabalho. A minha prima Susana, pela ajuda na digitação do trabalho.
  • 6. 14 A minha querida cunhada Keila, pela disposição em me ajudar na árdua busca de material bibliográfico. As amigas Mercedes, Pimenta, Valéria e Eliete, pelas constantes conversas e compartilhamentos das angústias. Às amigas Claudiana, Ítala, Inah, Katiane e Kelly, por suas amizades incondicionais, por terem me proporcionado momentos maravilhosos ao longo da minha formação acadêmica, pelo apoio, incentivo e ajuda na realização desse trabalho. Ao meu querido amigo Renato, sempre tão presente em minha vida, me incentivando, apoiando, ajudando e compartilhando as angústias. Ao amigo Eduardo, mesmo distante, agradeço pelo carinho e apoio. Ao meu amigo Evaldo, sempre tão solícito e disposto a me ajudar quando mais precisei. A equipe de profissionais da instituição na qual desenvolvo atividade de estágio – Defesa Civil de Fortaleza – pelo aprendizado e amizade.Em especial, a Elisângela Medeiros e ao Alísio Santiago, por compreender minha ausência, para conclusão da monografia. Agradeço a minha orientadora Alessandra Silva Xavier, pela ajuda na realização e orientação desta pesquisa. Aos membros da banca examinadora pela delicadeza em aceitar o convite e contribuir para o aprimoramento da minha pesquisa. Ao Grupo de Resistência Asa Branca, pelo acolhimento e apoio com material bibliográfico. Aos sujeitos participantes da pesquisa, por compartilharem comigo uma parte de suas vidas, contribuindo com os resultados do estudo.
  • 7. 15 "Afinal de contas só existe uma raça: a humanidade” George Moore
  • 8. 16 RESUMO O presente estudo tem como objetivo compreender, interpretar e analisar as percepções e os posicionamentos dos homossexuais sobre o “gueto” homossexual em Fortaleza.Para abordar a temática, realizei, em um primeiro momento, pesquisas bibliográfica e documental buscando fundamentação teórica em livros e artigos que tratam das categorias sexualidade, homossexualidade, preconceito e discriminação, e “gueto” homossexual.No segundo momento, realizei pesquisa de campo no Grupo de Resistência Asa Branca (GRAB) com quatro homossexuais que fazem parte do Projeto SAGAS/GRAB – Fortaleza-Ce.Para tanto, adotei a abordagem qualitativa por meio de entrevista semi-estruturada e observação direta.Após análise dos discursos dos homossexuais, sujeitos do estudo, pude apreender que: a relação com a família, no momento da descoberta da homossexualidade, torna-se conflituosa, entretanto com o tempo vai se modificando, e os sentimentos de medo , negação e raiva, dos sujeitos em relação à família vão sendo superados, embora na maioria das vezes, haja certo distanciamento dos familiares com a vida íntima do individuo, mas há harmonia e boa convivência nessa relação; os homossexuais fora dos espaços delimitados sofrem discriminação das mais variadas formas, desde piadas de mau gosto, xingamentos, agressões verbais até a perda de emprego; o “gueto” homossexual para os sujeitos da pesquisa, representa um espaço de proteção contra o preconceito e a discriminação, e ainda, um local onde eles desenvolvem um sentimento de pertencimento a um grupo social de referência.Espero que esse estudo possa contribuir para que a sociedade Fortalezense aprenda a viver com as diferenças, respeitando os diferentes, e essencialmente, os protagonistas desse estudo – os homossexuais. E ainda, contribuir para que o Serviço Social, diante dos dados dessa pesquisa, se empenhe na luta pela transformação social, essencialmente no respeito às diferenças, uma vez que seu Código de Ética profissional tem como princípios fundamentais, entre outros, “opção por um projeto profissional vinculado ao processo de construção de uma nova ordem societária (...)” e “empenho na eliminação de todas as formas de preconceito, incentivando o respeito à diversidade, à participação de grupos socialmente discriminados e á discussão das diferenças” (CFESS,1993). Palavras-chave: sexualidade, homossexualidade e “gueto”.
  • 9. 17 SUMÁRIO INTRODUÇÃO ......................................................................................................9 CAPÍTULO I : ENFOQUES SOBRE SEXUALIDADE HOMOSSEXUALIDADE E “GUETO” ...........................................................................................................12 1.1. Sexualidade: construto sócio-histórico-cultural............................................12 1.2. Identidade sexual.........................................................................................17 1.3.Os saberes sobre a homossexualidade........................................................22 1.3.1. Concepção clerical da homossexualidade................................................23 1.3.2. Concepção da medicina............................................................................25 1.4. Homossexualidade e o “gueto” ...................................................................27 CAPÍTULO II: PASSOS METODOLÓGICOS DA INVESTIGAÇÃO ..................31 2.1 Aproximação com o objeto – “gueto” ...........................................................31 2.2 Natureza do estudo ......................................................................................33 2.3.Campo da pesquisa ......................................................................................35 2.4. Sujeitos da pesquisa e trajetória metodológica............................................38 CAPÍTULO III : ”GUETO” HOMOSSEXUAL: AS PERCEPÇÃOES E OS POSICIONAMENTOS DOS SUJEITOS DA PESQUISA....................................42 3.1.A descoberta da homossexualidade .............................................................42 3.2.A relação com a família.................................................................................44 3.3.Tipos de discriminação sofrida fora dos espaços delimitados ......................47 3.4.Visão sobre o “gueto” ...................................................................................48
  • 11. 19 INTRODUÇÃO Esta pesquisa tem como objetivo central, compreender, interpretar e analisar as percepções e os posicionamentos dos homossexuais sobre o “gueto” homossexual em Fortaleza. O ponto primordial que me impulsionou a pesquisar sobre tal temática, foi ter presenciado, diversas vezes, uma pessoa da família, pela qual tenho grande estima, sendo vítima de preconceito e discriminação, por conta de sua orientação sexual.Essa pessoa tornou-se ponte para atrair para o meu convívio, vários outros homossexuais, dos quais me tornei muita amiga e confidente.Fato esse, que só fez aumentar minha indignação, pois, convivendo com o maior número de pessoas de orientação sexual e afetiva por pessoas do mesmo sexo, tenho presenciado com muita freqüência situações de constrangimento, que essas pessoas têm passado por causa de sua orientação sexual. Por vezes, quando estou em algum local com alguns deles, observo manifestações preconceituosas e discriminatórias, no momento eles disfarçam, fingem que não foi com eles, mas depois acabam me confidenciando, que se sentiram bastante incomodados com tal situação. O fato decisivo para o empreendimento em torno do “gueto” homossexual, foi uma situação de extrema violência, pela qual passou um desses amigos.Ele foi expulso brutalmente, por um segurança, de um local dito “hetero”, por estar apenas conversando de forma mais íntima com outra pessoa do mesmo sexo que o seu.Fato que nos deixou profundamente indignados, surgindo a partir daí várias discussões entre nós sobre preconceito e discriminação contra homossexuais.Durante as discussões, alguns apontavam como solução para fugir dessas manifestações preconceituosa e discriminatória, a escolha por freqüentar locais voltados exclusivamente para o público homossexual.Já, outros, assim como eu, questionavam esse tipo de solução que os empurravam para um confinamento – o “gueto” homossexual - aceitando passivamente a violência social de rejeição e repressão, uma vez que o “gueto” não elimina a ameaça social dirigida aos homossexuais.A partir de então, as discussões sobre o “gueto” homossexual tornou- se uma constante no nosso grupo de amigos, havendo divergência de
  • 12. 20 opiniões.Onde uns, apontam que o “gueto” é um espaço para diversão e para a liberdade de expressão da homossexualidade, outros, consideram uma segregação forçada, pelo preconceito, pela discriminação e pela homofobia de uma sociedade intolerante, que não sabe viver com a diversidade, pensamento por mim compartilhado. Por essas razões aqui expressas, eu cursando Serviço Social na Universidade Estadual do Ceará (UECE), fui levada a refletir sobre o “gueto” homossexual, e buscar com mais afinco, através de pesquisa bibliográfica e de campo, conhecimento para desvendar os reais significados do “gueto” homossexual em Fortaleza - objetivo central dessa pesquisa. Devo destacar aqui, a relevância desse estudo para o Serviço Social, uma vez que o Código de Ética profissional tem como principio fundamental, entre outros, o reconhecimento da liberdade como valor ético central.Nesse sentido , o assistente social deve ter todo o empenho na eliminação de toda forma de preconceito, incentivando o respeito à diversidade, à participação de grupos socialmente discriminados e á discussão das diferenças.Para além da análise critica da realidade, a dimensão ética da prática do Serviço Social, deve agir em busca da transformação social, em que, a democracia, a defesa dos direitos humanos e o respeito às diferenças, estejam sempre presentes no fazer profissional.(CFESS,1993) Assim, os resultados obtidos nesse estudo, podem contribuir para o Serviço Social viabilizar políticas públicas para o público LGBTT (Lésbicas, Gays, Travestis e Transexuais), pois no conjunto de deveres que estão postos para o assistente social em seu Código de Ética, destaca-se, entre outros, “empenhar-se na viabilização dos direitos sociais dos usuários, através dos programas e políticas públicas.” (CFESS, 1993) Vale salientar aqui, que o percurso metodológico para realização deste estudo foi bastante árduo, pois o tema em questão dispõe de pouquíssimo material bibliográfico. Este trabalho está constituído em quatro capítulos.No primeiro capítulo intitulado “Enfoques sobre sexualidade – homossexualidade e “gueto”, trago a
  • 13. 21 discussão teórica em torno da sexualidade, da homossexualidade e do “gueto”, abordando aspectos sócio-histórico- cultural.Procuro mostrar que a sexualidade humana, como um fenômeno sociocultural, tem sido regulada por instituições como a igreja, a família e Estado, e como a cultura patriarcal machista com a predominância do domínio masculino, tem influenciado na negação e desvalorização dos homossexuais.E o que tem levado os homossexuais a buscarem, cada vez mais os “guetos” homossexuais. No segundo capítulo, denominado “Passos metodológicos da investigação”, apresento toda a trajetória metodológica da investigação.Inicialmente mostro como foi feito a aproximação com o objeto de estudo, em seguida descrevo a natureza do estudo.Na seqüência, descrevo o campo de pesquisa.E, por último, exponho os sujeitos da pesquisa e a trajetória metodológica da investigação. No terceiro e último capítulo, “Gueto” homossexual:as percepções e os posicionamentos dos sujeitos da pesquisa”, faço a análise das percepções e dos posicionamentos dos homossexuais entrevistados, articulando suas falas com a literatura consultada, para elucidar os objetivos do estudo. Nas considerações finais, são apresentados os principais resultados identificados na realização do estudo.Esse é o momento de descoberta das perguntas iniciais da pesquisa.
  • 14. 22 CAPÍTULO I: ENFOQUES SOBRE SEXUALIDADE - HOMOSSEXUALIDADE E “GUETO” 1.1 Sexualidade: construto sócio-histórico-cultural A sexualidade é uma temática sobre a qual há bastante discussão, diversos autores têm adotado diferentes enfoques destacando elementos importantes quando na sua discussão. Um dos pontos de enfoque apontado por Loiola (2005) diz respeito à compreensão da sexualidade como um construto sócio-histórico-cultural dos sujeitos. Sem desconsiderar o aspecto biológico - que acaba por restringir à sexualidade a reprodução - prioriza o entendimento da sexualidade a partir da interação do sujeito com a sociedade, com a história e com a cultura a que pertence. Destarte, o entendimento da sexualidade está para além da função procriativa, onde se tem uma compreensão que abrange todas as suas significações e funções na vida humana. É preciso compreender, que para além da perspectiva reprodutiva, a sexualidade é “uma construção dos sujeitos concretos (homens e mulheres)” (LOIOLA, 2005, p.50). Apesar da influência do contexto sócio-histórico-cultural, estes sujeitos, são portadores de uma subjetividade que os permite vivenciar as diversas manifestações da sexualidade. Entretanto, as funções e significados acerca da sexualidade variam, ao longo da história humana, e estas variações irão produzir efeitos sobre a forma como serão aceitos ou questionados determinados comportamentos sexuais. Assim, o entendimento da sexualidade subsiste numa concepção binária, em que a existência dos dois sexos (masculino e feminino) está intrinsecamente ligada à procriação. Dessa forma, a história da sexualidade apresenta-se como um fenômeno sociocultural que determina os papéis sociais e os comportamentos sexuais dos indivíduos, ou seja, uma padronização de conduta que controla a subjetividade dos indivíduos.
  • 15. 23 Os padrões de comportamentos sociais e sexuais são regulados pela cultura, sendo esta a mediadora das ações realizadas pelos indivíduos em seu cotidiano. A cultura aqui referendada é a cultura ocidental, que traz em seu cerne o estabelecimento de uma ordem sexual patriarcal e machista com a predominância do domínio masculino sobre o feminino, onde cabe aos homens o ditame dos valores e das normas de sociabilidade. A sexualidade revela-se, assim, como um fenômeno sociocultural, em que os papéis sociais e sexuais dos sujeitos são regulados por instituições como a igreja, a família e o Estado. A igreja cristã, considerando o sexo como tendo uma função exclusivamente procriativa, reprimiu todas as práticas que perturbasse as finalidades atribuídas à procriação. Conforme Loiola (2005) a Igreja cristã: a partir de uma série de estratégias castradora da vida: confundiu a essência da vitalidade humana, a sexualidade, rotulando-a de perversão, fornicação, bestialidade, pecado sodomia, heresia, dentre outros tantos atributos; sacrificou várias personalidades através da ‘santa’ inquisição, levando-as à fogueira, quando não , à guilhotina.Publicou todas essas barbaridades aos ‘quatros canto do mundo’ em nome do amor divino.Usou a fogueira e a guilhotina durante a inquisição, posteriormente o celibato e a confissão, decretou e publicou a morte, mas não conseguiu o êxito esperado - eximir a necessidade do desejo sexual, muito embora tenha produzido subjetivamente uma sexualidade extremamente negativa.(p.55) Dessa forma, a igreja regula a vida do sujeito, impondo-lhe, com rigor violento, os preceitos cristãos, baseada na concepção da articulação entre o sexo e a expulsão do homem do “paraíso”, onde se deu o pecado original. A mulher culpabilizada por tal pecado é vista como mais sensual e mais sexuada que o homem, portanto, mais fraca e sujeita a sucumbir às tentações do prazer carnal. A partir dessa ideologia, indica Pinheiro (2003, p.29): colocam-se as mazelas do mundo na relação sexual livre e prazerosa associando o sexo, a mulher e o gênero feminino ao pecado.Por trás desta ideologia, estão as bases da criação do sistema patriarcal, no qual o homem nega à mulher e o prazer ( oprimindo o gênero feminino) e exalta o poder e o trabalho ( exaltando o masculino). Assim, para a igreja católica, herdeira das tradições bíblicas, a miséria que oprime os homens é conseqüência do pecado original cometido por Adão, mas com grande cooperação de uma mulher: Eva. Esse pecado foi transmitido a todos os homens afetando a morte de suas almas e distanciando-os de Deus. Com a
  • 16. 24 descoberta da nudez, pelo pecado original, o homem descobre o sexo e se envergonha dele. Nesse sentido, destaca Santos (2008): A dimensão sexual parece constranger e assombrar a Igreja por ocultar implicações outras que extrapolam o campo da sexualidade. Representações de Deus, da salvação e do pecado podem de fato estar em jogo em torno dessa problemática. Além de uma questão moral, a Igreja se vê imobilizada diante de um emaranhado de questões dogmáticas. Por isso mudanças na moral sexual encontram resistências e impossibilidades. Outro fator a ser considerado é a construção ideológica católica em torno do poder da Igreja como ‘sustentáculo da verdade’. Abrir mão de certas posições colocaria em xeque este poder e seu domínio sobre os fiéis. (p.9). Segundo Chauí (1984) o Dicionário de Psicanálise de Laplanche e Pontalis, aponta a sexualidade como: polimorfa, polivalente, ultrapassa a necessidade fisiológica e tem a ver com a simbolização do desejo. Não se reduz aos órgãos genitais ( ainda que estes possam ser privilegiados na sexualidade adulta) porque qualquer região do corpo é susceptível de prazer sexual, desde que tenha sido investida de erotismo na vida de alguém, e porque a satisfação sexual pode ser alcançada sem a união genital.(p.15). Dessa forma, a sexualidade humana, à luz da psicanálise, ultrapassa a dimensão biológica, e as “tentativas de supressão das pulsões são sempre falhas e os fenômenos substitutivos que emergem em conseqüência desta ‘supressão’ constituem as doenças nervosas.” (SANTOS, 2008, p.6). A tentativa de inibir o desejo sexual pode causar no indivíduo, debilidade ou adoecimento. Visto que, a constituição do sujeito não pode ser separada da sua sexualidade. Entretanto, a moral cristã com todo seu rigor repressivo, não conseguiu arrancar do sujeito sua necessidade sexual, os “impulsos e desejos desconhecem barreiras para sua satisfação”. (SANTOS, 2008, p.4). Mesmo estabelecendo uma relação negativa, no que concerne ao sexo, “o poder não ‘pode’ nada contra o sexo e os prazeres, salvo dizer-lhes não” (FOUCAULT, 2007, p.93). Como indica Loiola (2005) à psicanálise “elastece a sexualidade no âmbito das relações sociais, desfamiliariza a binaridade do sexo-reprodução (...) privilegia o gozo e o prazer como seus atributos principais.” (p.67). Desse modo, a psicanálise foge da visão biologizante da sexualidade humana, ressaltando a importância da fantasia:
  • 17. 25 Com efeito, a sexualidade se inscreve na fantasia, antes de mais nada.Esse é o campo por excelência do erotismo.Não existiria, pois, sexualidade sem fantasia,sendo esta a sua matéria-prima.Seria, então, a partir da fantasia como fundamento, que aquela pode assumir formas comportamentais diversificadas.O comportamento seria, pois, o elo final de uma longa cadeia de relações, que se inscreveriam primordialmente na fantasia do sujeito, o sexo seria, portanto, um efeito distante do sexual, por mais paradoxal que possa parecer esta afirmação.Em contrapartida, se existe algo de enigmático e de absurdo no erotismo, a fantasia seria o lugar desse enigma e de iluminação dessa obscuridade (BIRMAN, citado por LOIOLA,2005, p.67-68). Foucault (2007) aponta que as práticas sexuais no início do século XVII não procuravam o segredo, entretanto, com o advento do capitalismo a burguesia vitoriana encerra a sexualidade, ou seja, a sexualidade: Muda-se para dentro de casa. A família conjugal a confisca. E absorve-a, inteiramente, na seriedade da função de reproduzir. Em torno do sexo, se cala. O casal, legítimo e procriador, ditam a lei.Impõe-se como modelo, faz reinar a norma, detém a verdade, guarda o direito de falar, reservando-se o princípio do segredo.(FOUCAULT,2007,p.9). Com a Contra–Reforma a Igreja católica intensifica o sacramento da confissão em todos os países católicos, impondo ”regras meticulosas de exame de si mesmo.” (FOUCAULT, 2007, p.25). Nessa nova pastoral, o bom cristão deve, durante a confissão, mencionar em detalhes “todas as insinuações da carne: pensamentos, desejos, imaginações voluptuosas, deleites, movimentos simultâneos da alma e do corpo”. (FOUCAULT, 2007, p.25).A confissão no Ocidente, foi umas das técnicas mais valorizadas para produzir a verdade sobre o sexo.Como bem ressalta Loiola: o confessionário ocupa o lugar central para o discurso da sexualidade cristã, haja vista que todo cristão teria essa obrigação para com sua igreja, de modo que esse espaço configurou-se num lugar interroga-tivo e punitivo.(2006,p.46-47). Foucault (2007) aponta que nas sociedades modernas, o sexo não tem sido condenado a permanecer na obscuridade, pelo contrário, há uma explosão discursiva sobre ele, entretanto: tais discursos sobre o sexo não se multiplicaram fora do poder ou contra ele, porém lá onde ele se exercia e como meio para seu exercício; criaram- se em todo canto incitações a falar; em toda parte dispositivos para ouvir e registrar, procedimentos para observar, interrogar e formular. Desenfurnam- no e obrigam-no a uma existência discursiva.Do singular imperativo, que impõe a cada um fazer de sua sexualidade um discurso permanente, aos múltiplos mecanismos que, na ordem da economia, da pedagogia, da medicina e da justiça incitam, extraem, organizam e institucionalizam o
  • 18. 26 discurso do sexo, foi imensa a prolixidade que nossa civilização exigiu e organizou.(FOUCAULT,2007,p.39). Assim, tem-se uma proliferação de discursos sobre o sexo, que se caracteriza pela busca do conhecimento da sexualidade como estratégia de controle do indivíduo e da população. E ainda, destaca Foucault, a sociedade capitalista: não reagiu ao sexo com uma recusa em reconhecê-lo. Ao contrário, instaurou todo um aparelho para produzir discursos verdadeiros sobre ele.(...) também empreendeu a formulação de sua verdade regulada.(2007,p.78-79). De acordo com Foucault (1977) citado por Chauí (1984) a partir do século XVIII, foram utilizadas quatro estratégias nas relações de saber e poder sobre o sexo 1)histerização do corpo feminino (hipersexualizada e fecunda, a mulher se distribui em dois papéis, a mãe e a histérica);2) pedagogização do sexo infantil (a criança é um ser sexuado polimorfo, desconhecendo a sexualidade saudável, de modo que suas práticas sexuais colocam em risco sua vida, sua sanidade mental e da futura prole; o risco principal é a masturbação); 3)socialização das condutas de procriação ou regulação demográfica(interdição das práticas anticoncepcionais pelo Estado e pela medicina);4)psiquiatrização do prazer perverso(que de pecado e vício, se torna doença).(CHAUÍ,1984,p.184-185). Dessa forma, a pedagogia, a medicina, a psiquiatria, a economia e o Estado fizeram da família o espaço fundamental para a sexualização dos corpos. A família proclamada pelo pensamento religioso judaico–cristão é uma instituição natural dos homens, permanente e criada por Deus. (GURGEL, 1999). Nessa perspectiva, a família como primeiro grupo responsável pela socialização do sujeito, promove a educação das crianças estabelecendo papéis sociais e sexuais de meninos e meninas de acordo com o sexo biológico e com os preceitos cristãos – estimula nos meninos a expressão sexual e nas meninas a reclusão e a repressão – reforçando, assim, os valores promulgados pela igreja cristã.Assim, a moralização do sexo faz-se preferencialmente pela família. Como aponta Loiola (2005) a família: inicia a inserção da criança no mundo adulto a partir das normas e prescrições interpretadas da ‘carta sagrada’ legitimada pela igreja.Com suas estratégias seguidas da ritualização em todo o processo socializador constitui desde a apresentação do indivíduo representante de Deus na Terra até o casamento, exercendo a função de cristalizar nas subjetividades a doutrina disciplinadora da conduta dos homens e mulheres,... , limitada à reprodução da espécie. (p.56).
  • 19. 27 Assim, a família, reproduzindo a moral cristã no processo de socialização do indivíduo, atribui papéis estereotipados para o homem e para a mulher de forma desigual, onde o papel atribuído ao homem é sempre mais valorizado do que o papel da mulher.Nesse sentido, destaca Trevisan: “criaram-se corpos doutrinários e normas severas, com o intuito de sedimentar a família enquanto espaço fundamental para defesa da catolicidade.” (2007,p.110). O Estado, por seu turno, absorve os valores moralistas da igreja cristã, em parceria com a família e com a escola e dotado de recursos formais e legais reproduz o machismo e a binaridade dos sexos. Deste modo, o Estado (e o Estado aqui referendado é o Estado burguês, que direciona suas ações seguindo a lógica do capital -consumo e obtenção de lucro) ao mesmo tempo em que, em nome da moral e dos bons costumes,castra as possibilidades de prazer dos sujeitos, expõe o corpo humano para a venda de mercadorias com o objetivo de obter lucro.Assim, banaliza a sexualidade dos sujeitos transformando-a em mercadoria. (LOIOLA,2005). A sexualidade, segundo Costa (1994), é um aspecto conflituoso e controverso da vida do ser humano, e na cultura ocidental, criam-se modelos para classificar as pessoas, na maioria das vezes baseadas em preconceitos, não permitindo que as mesmas sejam como são. Tais moldes se referem aos papéis sociais determinados para o masculino e feminino, que desconsideram a dinâmica da sexualidade, sua multiplicidade, variável de pessoa para pessoa, não sendo uma experiência estanque ao longo da vida. 1.2. Identidade sexual Como vemos o sexo durante algum tempo considerado como algo meramente biológico e natural, passa por transformações, ao ser deslocado do plano natural para o plano cultural. Esse deslocamento, segundo os antropólogos e os psicanalistas, acontece a partir da proibição do incesto. (CHAUÍ, 1984).
  • 20. 28 Nesse sentido, aponta Chauí (1984), a tragédia de Édipo, quando Freud elabora o conceito de Complexo de Édipo1 , passa a ser o tema central na discussão da sexualidade e de sua repressão. Nye (2002) aponta que Freud acreditava que a estrutura e o funcionamento básicos da personalidade humana- embora tenha certa flexibilidade- são formados durante os primeiros cincos ou seis anos de vida. Assim, boa parte do que o sujeito é como adulto é determinado por suas experiências na infância. Chauí (1984) indica que Freud classificou as fases da libido, segundo a origem do prazer, as regiões prazerosas do corpo e os objetos. A primeira fase é oral, onde a atividade se centraliza na boca, e o prazer vem do ato de comer ou sugar e da ingestão de alimentos. A segunda fase é anal, tem como órgão do prazer o ânus, e o prazer se dão pela retenção e expulsão das fezes. A terceira fase é a fálica ou genital, que tem como fonte de prazer os órgãos genitais, o prazer vem da masturbação e das fantasias. Para Freud, segundo indicam Santos, Xavier e Nunes (2008) a fase fálica é decisiva na formação da personalidade do sujeito. Nesta fase, onde se organiza o Complexo de Édipo, quando: o menino percebe a presença do órgão masculino, manipula-o obtendo satisfação libidinal.A menina também percebe a diferença anatômica sexual e ressente-se por não possuir algo que os meninos possuem. Em ambos os casos a mãe é o primeiro objeto de amor.Nesse processo, o menino mantém um desejo incestuoso pela mãe.O pai é percebido como rival que lhe impede o acesso ao objeto desejado(mãe).Temendo ser punido com a perda dos órgãos genitais(angústia de castração) e do lugar fálico em que se encontra, o menino terá que recalcar o desejo incestuoso pela mãe e identificar-se com o pai, escolhendo-o como modelo de papel masculino, e então internalizar regras e normas impostas pela autoridade paterna (a pessoa que ocupa esse lugar). A situação feminina é distinta. Ao perceber a ausência do pênis, desenvolve um sentimento de inferioridade, tendo inveja e desejando o órgão masculino. Atribui à mãe a culpa por ter sido gerada assim e rivaliza com ela.Ao mesmo tempo precisa se identificar com a mãe para obter o amor do pai.Depois, esse desejo pelo pai deve se dissipar a fim de que possa sair da situação edípica, havendo um grande deslocamento de energia libidinal que leva consigo para o inconsciente, os sentimentos conflituosos experimentados nessa fase, e as vivências infantis orais, anais e fálica (SANTOS, XAVIER e NUNES,2008,p.47-48). 1 Trata-se de um sistema ou de uma rede intrincada (donde, complexo) de afetos e fantasias que a criança possui, entre os três e quatro anos, ao perceber que faz parte de uma tríada ou relação triangular constituída por ela, pela mãe e pelo pai (CHAUÍ, 1984, p.63). .
  • 21. 29 Assim, nesta fase o falo representa, tanto para os meninos como para as meninas, a onipotência. Entretanto, a menina desenvolve um sentimento de inferioridade, por perceber que não possui o pênis, e o menino, por medo da castração, desiste de seu objeto de desejo – a mãe. De acordo com Freud (1967) citado por Chauí (1984) há diferenças na superação do complexo de Édipo: No menino, o complexo será vencido graças ao medo da castração pelo pai,como punição do desejo incestuoso.Para conservar o pênis, o menino aceita renunciar a mãe.Na menina, a solução será mais demorada porque precisa aceitar e conseguir um substituto para o pai, o que só lhe será possível puberdade (p.70). Assim, a ameaça da castração faz com que os meninos resolvam de forma definitiva e completa o complexo de Édipo, já as meninas, por não serem motivadas pelo medo da castração, prolongam a superação do complexo de Édipo até a puberdade. Nye (2002) adverte que a solução do complexo de Édipo do menino pode tomar rumos diferentes. Como, por exemplo, o sentimento de desagrado do menino pelo pai pode permanecer e prolongar-se para todas as figuras de autoridade. Nesse sentido, indica Nye (2002, p.25): Entre os pensamentos de Freud sobre a homossexualidade estava a idéia de que ela pode resultar de uma intensa ligação erótica com a mãe, especialmente na ausência de um pai forte; a identificação com a mãe em vez de com o pai, é uma possibilidade nesses casos. Desse modo, a homossexualidade pode ser resultado das marcas deixadas na vida adulta pelo modo como foi experimentado o complexo de Édipo e a proibição do incesto na infância. Parisotto (2003) indica que Freud tinha alguns pressupostos acerca da identidade sexual, bem como dos fenômenos Heterossexualidade/Homossexualidade. Entre alguns desses pressupostos, Freud considerava que tanto a hetero como a homossexualidade se desenvolvem socialmente, e que a homossexualidade incluía fenômenos de ordens diversas, mas afirmava ainda que os indivíduos possuem sempre uma corrente libidinosa homossexual e heterossexual, mas que a determinação da orientação dominante vai depender de questões diversas.
  • 22. 30 Nesse contexto, na psicanálise: entende-se a sexualidade do adulto como decorrente de um processo de desenvolvimento ordenado a partir de diversos aspectos, desde o biológico, atravessando o aprendizado cultural, até as representações mentais que estão perpassadas por conflitos referentes à situação edípica. É nesta área – dos conflitos, das representações mentais, das fantasias –, que está para além da objetividade e que está presente em toda atividade sexual, que a psicanálise tem oferecido sua maior contribuição. (PARISOTTO, 2003, P.84) Ao tratar sobre o sexo, Calligaris (1997) aponta que se este for definido pelos órgãos externos e por sua função procriativa, temos ainda hoje, dois sexos biológicos: homem e mulher. Entretanto, ressalta Calligaris, a identidade de gênero não está relacionada somente ao sexo biológico, mas a uma variedade de fatores. Nesse sentido, por mais que as pesquisas procurem mostrar que a orientação sexual2 tem fundamento biológico, não se pode esquecer da influência cultural que promove a divisão dos sujeitos em categorias sexuais. Segundo Costa (1993) desde o século XIX, passamos a acreditar que os sujeitos estavam naturalmente divididos em heterossexuais, homossexuais e bissexuais. A crença nesta classificação é fruto do vocabulário sexual de nossa cultura, que nos induz a produzirmos modos de identificarmos moralmente, a nós e aos outros. As identificações sexuais de cada indivíduo são determinadas pela crença nos dispositivos lingüísticos. Entretanto, é preciso, aponta Costa (1993) abandonar o vocabulário que deu origem a esta crença, que classifica o indivíduo em heterossexual, homossexual e bissexual, e buscar definir os sentimentos, de 2 Orientação sexual é a atração afetiva e/ou sexual que uma pessoa sente pela outra. A orientação sexual existe num continuum que varia desde a homossexualidade exclusiva até a heterossexualidade exclusiva, passando pelas diversas formas de bissexualidade. Embora tenhamos a possibilidade de escolher se vamos demonstrar, ou não, os nossos sentimentos, os psicólogos não consideram que orientação sexual seja uma opção consciente que possa ser modificada por um ato de vontade (BRASIL, 2004, p. 29).
  • 23. 31 acordo com os padrões éticos de cada um, redescrevendo um novo modo de amar e desejar sexualmente Conforme enfatiza Graner (2008) tem-se encontrado, mesmo que em comunidades geográfica e socialmente diferenciadas, por meio da história e da cultura, distinções significativas entre homem e mulher. Ao homem, por possuir o falo, geralmente associa-se a idéia de domínio, poder e de liberdade sexual, em contrapartida, a figura da mulher encontra-se frequentemente associada à idéia de fraqueza, sujeição e recato sexual. Assim, o órgão genital (o pênis ou a vagina) vai simbolizar a afirmativa de identidade do indivíduo, em que a sociedade a qual pertence traça um roteiro de vida determinando: o seu identificar-se, sentir-se, comportar-se e vestir-e.Mesmo com as ‘revoluções’ dos costumes,idéias e papéis sociais, ainda persiste para muitos a idéia de que um ‘pênis’ significa,como regra: homem, roupa de homem (azul, gravata, calça, sem adornos), brinquedos/objetos de homem(outdoor e violentos/ativos), trabalho de homem( mecânicos, exatos, físicos e de comando), comportamento de homem( virilidade, truculência corporal), etc.Enquanto que uma ‘vagina’ significa, também como regra: mulher, roupa de mulher( rosa, laço, saia, adornos), brinquedos/objetos de mulher (indoor epacíficos/passivos), trabalho de mulher ( delicados, subjetivos, mentais e de agregação), comportamento de mulher(feminilidade, delicadeza corporal) etc.( GRANER,2008, p.77) Ainda tratando a respeito de sexualidade e sexo, e seus significados socioculturais, há no trabalho de Graner (2008), reflexões sobre o tema, apontando que sexo é: O conjunto de desejos, afinidades, projeções, sonhos e ações, e o ‘sexo’ que o ‘EU’ exercita através do corpo, mente e espírito pode tanto representar prazer, gozo, liberdade, vaidade, autonomia,orgulho ou furor como dor, frigidez, prisão, perversão, dependência, vergonha ou apatia. (p. 76) Nesse mesmo trabalho, a referida autora destaca a noção de gênero, entendido como um conjunto de concepções, valores e praticas que se consensuam associados a praticas sexuais e sociais do sexo oposto, evidenciando a busca de compreensão das relações sociais entre homens e mulheres. Nesse contexto, surge o conceito de identidade de gênero, que como indica Graner (2008) é o:
  • 24. 32 auto conhecimento emocional definido através da afinidade maior com o que socialmente se convencionou reconhecer como masculino e/ou feminino, podendo ou não corresponder à demarcação sexual atribuída à pessoa pelo coletivo no momento de seu nascimento( dada tanto pela percepção de seu órgão genital como pelo estabelecimento de sua existência jurídica.) ( p.79). O homem nasce em uma estrutura social objetiva que lhe impõem significativos que se encarregam de sua socialização.Assim, a criança interioriza os papéis e as atitudes dos outros significativos – as pessoas mais próximas - tornando-se capaz de auto-identificar-se.Desse modo, ela não só absorve os papéis e atitudes dos outros significativos, como assume o mundo deles. A criança na socialização primaria identifica-se com os outros significativos, por não ter escolha, já que os outros significativos são definidos antecipadamente pela sociedade.O mundo dos pais é interiorizado por ela, como sendo o único mundo possível existente.”Os outros significativos na vida do indivíduo são os principais agentes da conservação de sua realidade subjetiva” (BERGER e LUCKMANN, 1985, p.200). 1.3. Os saberes sobre a homossexualidade A história tem mostrado que a homossexualidade não é um fenômeno recente, das tribos às civilizações, sempre existiu homossexual, entretanto, a forma como é tratada se diferencia de um momento histórico para outro. Segundo Loiola (2006), na Grécia antiga, as relações homossexuais, apesar de se submeterem a postulados legais, eram livres, desde que tais relações se realizassem entre pessoas de idades diferenciadas, um adulto e um jovem, sob o pretexto do mais velho educar e proteger o mais novo. Na Grécia e em Roma antigas, a homofilia (o termo homossexualidade é recente) masculina era tolerada e, por vezes, até estimulada. Nessas sociedades, a mulher considerada naturalmente passiva, o jovem livre, do sexo masculino, considerado passivo pela pouca idade, e o escravo, considerado passivo por sua condição de dominado e por obrigação, faziam com que as relações homofílicas só fossem admitidas entre um homem livre adulto e um jovem livre ou um escravo, jovem ou adulto. O jovem, pela idade, podia ser livre e passivo sem desonra; o
  • 25. 33 escravo, por sua condição desonrosa, só podia ser passivo; um homem, livre adulto que se prestasse a uma relação homofílica no papel passivo era considerado imoral e indigno, entretanto, comportando-se como ativo na relação sexual, era livre para manter relações com jovens, por não afetar sua masculinidade; com mulheres, por serem inferiores; e com escravos, por não serem considerados cidadãos (CHAUÍ, 1984). Com o advento do Cristianismo, o Império romano, que antes celebrava a bissexualidade, passa a condenar as práticas homoeróticas. Os códigos de conduta, a moral e a ética impostas pela Igreja, aliada ao império, segregam os indivíduos que estão fora dos padrões socialmente estabelecidos. O tribunal do Santo Ofício, instituído na Europa, perseguia aqueles que praticavam heresia e a homossexualidade estava incluída dentre estas práticas. Na Europa dos séculos XVI, XVII e XVIII, não apenas a Espanha, Portugal, França e Itália católicos, mas também a Inglaterra, Suíça e Holanda protestantes puniam severamente a sodomia seus praticantes eram condenados a punições como: multas, prisão, confisco de bens, banimento da cidade ou do País, trabalho forçado, execração e açoite público até a castração, amputação das orelhas, morte na forca, morte por fogueira e afogamento (TREVISAN, 2007). 1.3.1. Concepção clerical da homossexualidade A religião cristã, sempre restringiu a sexualidade à função procriativa, ou seja, qualquer atividade sexual que não tivesse finalidade procriadora era considerada pecaminosa. Assim, aponta Gurgel (1999), foi desenvolvido um código de ética sexual pelos primeiros padres da Igreja cristã – Clemente, Orígenes, Jerônimo e Agostinho – estabelecendo o princípio de que o sexo praticado para finalidade não procriativa era uma violação da natureza. Desta forma, a homossexualidade passa a ser condenada como um pecado, visto que sua prática representa uma transgressão à ordem natural e divina das coisas.
  • 26. 34 A Igreja faz uso de textos bíblicos para determinar pecados condenáveis. Como o livro de Levítico do Antigo Testamento, que sobre a sodomia3 aponta que: “Não te aproximaras dum homem como se fosse mulher, porque é uma abominação.” (Lv. 18,22); e “Aquele que pecar com um homem, como se fosse uma mulher, ambos cometeram uma coisa execranda, sejam punidos de morte; o seu sangue caia sobre eles.” (LV.20,13).Também no livro I Coríntios do Novo Testamento, há referências à condenação da homossexualidade: “nem os efeminados, nem os sodomitas (...) possuirão o reino de Deus”.(I Cor.6,10). A Epístola de São Paulo aos Romanos (1, 26-27), no Novo Testamento, deixa clara a condenação que o apóstolo Paulo faz a prática homossexual, considerando como um desregramento cometido contra a natureza: Por isso Deus entregou-os a paixões de ignomínia.Efetivamente, as suas próprias mulheres mudaram o uso natural em outro uso, que é contra a natureza, e ,do mesmo modo, também os homens, deixando o uso natural da mulher, arderam nos seus desejos mutuamente, cometendo homens com homens a torpeza e recebendo em si mesmos a paga que era devida ao seu desregramento.(BÍBLIA, 1983). É mister destacar aqui, o trabalho de Gafo (1985) apontado por Loiola (2006), sobre o cristianismo e a homossexualidade, em que ele faz uma divisão da história cristã em quatro fases: a primeira compreende os primeiros setes séculos da cristandade – onde as influências do mito da cidade de Sodoma influenciam e/ou justificam decisivamente na criação dos códigos de condutas e determinações punitivas para os pecadores, ainda no Império Romano.A segunda fase (..) entre os séculos VII e XI – é aqui que se Distingue com maior clareza as atitudes consideradas homossexuais:’ toques, afetos, masturbação mútua, conexão interfemural e sodomia’ – a homossexualidade é considerada um pecado grave a homossexualidade feminina tem citação inédita.A terceira fase (...) séculos XI e XIII – neste período é definido por alguns santos o pecado antinatural, incluindo a homossexualidade e outras práticas como a masturbação.Santo Alberto Magno e Sto.Tomás de Aquino são expoentes (...) para a solidez da moral cristã nesse período; a quarta fase(...) séculos XIV e XX – período de afirmação da moral cristã com um profundo acirramento da aversão à homossexualidade, haja vista a proclamação do sexo exclusivamente para a procriação.( LOIOLA,2006,p.43). Diante de tal consideração, percebe-se que a moral cristã tem influenciado sobremaneira as condutas dos sujeitos, determinando o uso do sexo para procriação, punindo e condenado como um pecado contra a natureza, as práticas sexuais com finalidades não procriativas, entre elas destaca-se a 3 Termo utilizado na Bíblia, para designar as relações homossexuais masculinas, em Sodoma, tidas como relações contra a natureza. (ARIÈS, 1985).
  • 27. 35 homossexualidade. A abominação do prazer homossexual pela instituição cristã, “determina a dualidade nas relações entre os homens e as mulheres (...), fixa o estabelecimento dos papéis sexuais e sociais eliminando a possibilidade da homossexualidade” (LOIOLA, 2006, p.47). O depoimento de Roberto, em entrevista cedida a Paiva (2007), confirma a influência que a moral cristã tem na direção das condutas dos sujeitos: A questão da homossexualidade ocupa todos os lugares da minha vida.(...). A minha memória homoerótica vai aos três anos de idade, pelo menos.(...).Desde a primeira infância, segunda infância, puberdade, adolescência, eu sempre soube que eu era diferente e sabia qual era essa diferença.Daí ter sofrido terrivelmente, porque fui criado sob a ética católica, quer dizer, judaico-cristã, no catolicismo romano, indo para a missa todo domingo não sei mais o quê , e que dizia sobre aquilo que eu sentia de diferente em mim, e que era a minha peculiaridade, a minha essência,era que aquilo era proibido, era sujo, era pecaminoso. Se insistisse naquilo eu iria ser condenado ao fogo do inferno,etc.(...).Participava de grupos de orações e pedia a Deus que me curasse então diretamente.Me sentia culpado porque me masturbava tendo desejos por homens.Mas o próprio contato com a religião me afundava cada vez mais, me fazendo me sentir uma nulidade total como ser humano...(p.123-125) Esse posicionamento da igreja, com variações mínimas ao longo da historia, tem influenciado e motivado diversas discussões ao redor do mundo, acerca da Homossexualidade, bem como do surgimento de grupos de discussões acerca do próprio papel da igreja no controle do pensamento e opiniões da sociedade. 1.3.2. Concepção da medicina A partir do século XIX, irrompe na Europa e no Brasil a preocupação médica com a homossexualidade. A ciência médica passa a exercer um controle terapêutico que substitui o antigo controle religioso. A homossexualidade, antes tida como pecado, vício ou crime, passíveis de castigos ou de penas, passa a ser considerada uma patologia, que necessita da intervenção e do cuidado do médico ou do psiquiatra (TREVISAN, 2007). Começaram a abundar na Europa e no Brasil, em meados do século XIX, abordagens cientificas sobre as perversões sexuais. A psiquiatria, com larga experiência no trato da loucura, passa a enquadrar os desvios à norma não mais
  • 28. 36 como crimes e sim como doenças. O pederasta, agora considerado doente, não era mais culpado por transgredir a norma, do ponto de vista jurídico. Nesse período, a medicina iniciou estudos acerca das causas da homossexualidade, e apresentou duas causas principais: biológicas, destacando a hereditariedade e os defeitos congênitos e defeitos hormonais; e causas de cunho social. Uma vez que havia causas endócrinas e orgânicas, os médicos viam, dessa forma, a possibilidade de cura, pela correção hormonal, por exemplo. E, além disso, se fosse observada que as causas eram de caráter social, haveria “medidas pedagógicas” de correção. (FRY e MACRAE, 1983) No Brasil, as investidas psiquiátricas contra os homossexuais nunca chegaram a criar instituições especializadas, nem por isso as sugestões de crescente psiquiatrização da prática homossexual deixaram de ser, a partir da década de 1920, periodicamente reiteradas por autoridades médico-policiais do país, preocupadas com a defesa da sociedade sadia. Apesar de não haver, no Código Penal Brasileiro, nenhuma menção à homossexualidade como crime, a medicina legal se achava no direito de sugerir ação médico-correcional para os delinqüentes homossexuais, além de punição do crime específico de que eram acusados (FRY e MACRAE, 1983). Em parte isso se dava porque as visões da medicina e da ciência aliavam-se à visão tradicionalista da Igreja, e assim continuava perseguição aos homossexuais. A partir do início do século XX, a medicina toma para si o direito de falar sobre homossexualidade e suas causas, procurando determina-la, “diagnosticá-la”, procurando intervenções. Assim, a homossexualidade passa de crime, pecado, para, a partir de então, ser considerada doença. (FRY e MACRAE, 1983). Nesse período, a medicina começou a destacar a homossexualidade como patologia que traria consigo a possibilidade de outras doenças, surgindo os homossexuais ”esquizóides e paranóides”, por exemplo. Na década de 30, no Brasil, a idéia da homossexualidade como patologia ganhava força. Entretanto, médicos, psicólogos e sexologistas, ao tratarem dessa temática em seus escritos, recorriam aos ensinamentos da Igreja Católica sobre a imoralidade do homoerotismo como referencia de fundo para argumentar que eram
  • 29. 37 necessárias atitudes sociais mais tolerantes para com os indivíduos depravados sobre as quais escreviam (GREEN, 2000). Nos anos 60, os movimentos de jovens e estudantes propiciaram várias discussões na sociedade e na mídia sobre a sexualidade, os papéis de gênero e a homossexualidade. A discussão acerca dos saberes sobre a diversidade sexual no Brasil, ganha força nos anos 70, quando se dá início ao movimento comunitário homossexual. Associações e grupos se multiplicavam pelo País, na luta pelos direitos humanos de gays, lésbicas, transgêneros e bissexuais (GLTB).De acordo com os dados do programa Brasil sem homofobia (2004), atualmente, há cerca de 140 grupos espalhados por todo o território nacional. Em 1973, em grande parte devida ás pressões dos movimentos homossexuais, a homossexualidade deixou de ser classificada como doença pela Associação Americana de Psiquiatria. Médicos e psicoterapeutas passam a aceitar a idéia de que a homossexualidade é uma orientação sexual tão aceitável como a heterossexualidade (FRY e MACRAE, 1983). 1.4. Homossexualidade e o “gueto” O que vemos hoje, ao lado dos avanços dados no trato da questão homossexual no decorrer da história, é uma crescente manifestação homofóbica 4 que vai desde assassinatos de homossexuais, até a utilização de simples símbolos que confirmam a discriminação e o preconceito. A apreensão do conceito de preconceito aqui, é a indicada por Rodrigues, Assmar e Jablonski (1999), que traz sua definição como uma atitude hostil ou negativa com relação a um determinado grupo, já a discriminação refere-se a comportamentos (expressões verbais, condutas agressivas,etc.) 4 O termo homofobia é utilizado para descrever a aversão aos sujeitos que têm orientação sexual e afetiva por pessoas do mesmo sexo.A homofobia é uma ideologia anti-homossexual que se manifesta de múltiplas formas:agressão física, chantagem e extorsão, xingamentos, ofensas verbais, discriminação, constrangimento, humilhação e assassinato.(LOIOLA, 2006).
  • 30. 38 Para fugir da violência e da intolerância da sociedade contra sua subjetividade homossexual, os homossexuais têm buscado cada vez mais espaços onde possam expressar sua sexualidade, livres de discriminação e preconceito – o “gueto” homossexual. Para Loiola (2006) o “gueto” homossexual, ao mesmo tempo em que contribui para a socialização com outros indivíduos de mesma orientação sexual, segrega-os. Assim, o “gueto”: constitui-se como o lugar que se consolida a segregação,onde serão manifestados, livremente, os sentimentos interiorizados, inibidos pela dinâmica social.É o lugar fechado, onde os iguais na (orientação sexual) se encontram, ou os diferentes do mundo sistematizado se escondem. (LOIOLA,2006, p.92) A dinâmica social acaba impondo ao homossexual, desde muito cedo, a idéia de que a homossexualidade é algo inferior, sujo, pervertido. O homossexual, internalizando essas idéias, acaba por sentir-se segregado, buscando os “guetos” como locais de livre expressão, entre os “iguais”. São locais nos quais se vive, sexual e socialmente, a homossexualidade, sem nenhuma repressão. Dessa maneira, os indivíduos se agrupam nos “guetos”, cedendo à pressão social, para sentirem-se aceitos e não sofrerem punições.(RODRIGUES, ASSMAR e JABLONSKI, 2001). Para Trevisan (2007) discutir as causas da homossexualidade é algo dispensável e equivocado. A homossexualidade é fato consumado, não precisa de justificação causal. Ao questionar a origem de algo diferente, já se está sugerindo a idéia de um desvio da normalidade. Nesse sentido: (...) criar conceitos fechados de homossexual (ou bissexual) acabaria servindo mais aos objetivos da normatização do que a uma real liberação da sexualidade, inclusive por incentivar diretamente a política do gueto, do separatismo e do racismo sexual, numa discriminação às avessas (TREVISAN, 2007, p. 36). Desse modo, os homossexuais, considerados desviantes da normatividade padronizada, buscam espaços onde possam expressar livremente sua sexualidade livres de discriminações e preconceitos.
  • 31. 39 Numa sociedade como a nossa em que a identidade homossexual é estigmatizada, a criação do ”gueto“ (bares, discotecas, saunas e outros espaços direcionados para o público homossexual) tem sido uma estratégia utilizada pelos homossexuais não só para socialização de pessoas com mesma orientação sexual, mas também para proteção contra manifestações discriminatórias, preconceituosas e homofóbicas. Assim, o “gueto” homossexual passa a ser um ambiente social seguro, onde o individuo pode expressar sua sexualidade sem preocupação ou ansiedade. Esses espaços – “os guetos” – para além de um local de diversão são criados pela rejeição da sociedade as manifestações públicas da subjetividade dos homossexuais. Nesse sentido, é mister destacar a definição clássica de “gueto” apontada por Pollak (1985) como “bairros urbanos habitados por grupos segregados do restante da sociedade, levando uma vida econômica relativamente autônoma e desenvolvendo uma cultura própria” (p.70). O uso do termo “gueto” nesse trabalho refere-se aos locais nos quais os homossexuais se encontram para, além da diversão, se reconhecer como sujeitos através da interação com outras pessoas que compartilham uma experiência similar de segregação social e para vivenciarem sua sexualidade livre de preconceito e discriminação. O termo ”gueto” tem sido usado por diversas ciências. Mas, de uma forma geral, há convergência de significado, como uma área: urbana restrita, uma rede de instituições ligadas a grupos específicos e uma constelação cultural e cognitiva (valores, formas de pensar ou mentalidades) que implica tanto em isolamento sócio-moral de uma categoria estigmatizada quanto o truncamento sistemático do espaço e das oportunidades de vida de seus integrantes.(WACQUANT, 2004, p.156). O referido autor indica que o uso do termo se tornou disseminado e aplicado conforme o senso comum que prevalece nas sociedades, de modo que não há definição precisa do mesmo nas diversas áreas do conhecimento. A palavra “gueto” foi inicialmente utilizada para referir-se à consignação forçada de judeus por autoridades políticas e religiosas da cidade. Nesses casos, os judeus viviam em áreas cedidas e restritas, onde praticavam seus negócios e
  • 32. 40 seguiam seus costumes. O termo deriva de giudecca, borghetto ou gietto, do idioma italiano. Seu significado passou por várias modificações, das quais se destaca a utilização do termo para referir-se aos locais específicos dos homossexuais ‘ em resposta ao estigma e à libertação gay’ (LEVINE citado por WACQUANT, 2004, p.157). Wacquant (2004) indica que para a categoria dominante a finalidade do “gueto” é circunscrever e controlar, o que se traduz no que Max Weber chamou de ‘cercamento excludente’ da categoria dominada “(WACQUANT, 2004, p.158). Para os dominados o “gueto” tem o papel de integrar e proteger, pois proporciona a socialização de seus membros e livra-os do contato permanente com os dominantes. Para Pinheiro (2003), os “guetos” são: Locais criados pela rejeição social da expressão pública desta subjetividade, o que força as pessoas a buscar lugares para a sua expressão, com uma cultura própria, extremamente apartada. Desta forma, o gueto surge como espaço público de afirmação da subjetividade e da existência da comunidade homoerótica. (p.59) Nunan e Jablonski (2002) indicam que os homossexuais procuram os “guetos”, pela segregação forçada por causa da discriminação, por preferir manter contato com pessoas similares compartilhando identidade e por poder ser eles mesmos, mostrando sua orientação sexual sem preocupação ou ansiedade. Toda essa situação de rejeição social que acaba empurrando os homossexuais para os “guetos”, estimula as relações de objeto.Ou seja, os homossexuais acabam tendo de contentar-se com relações passageiras e com a coisificação das relações.Viver uma relação afetiva mais sólida implica em ter que se expor, enfrentando toda uma carga de preconceito que isso pode produzir, uma vez que, uma relação mais humana e edificante existe para além do “gueto”.
  • 33. 41 CAPÍTULO II: PASSOS METODOLÓGICOS DA INVESTIGAÇÃO 2.1. Aproximação com o objeto – “gueto” Para me aproximar do objeto, realizei visitas a duas boates destinadas ao público LGBTT. Fiz observação direta no “gueto” homossexual, compreendendo que esse tipo de observação tem por objetivo registrar e recolher todos os componentes da vida social do meio observado e que se apresentem à percepção do observador. Dessa forma, pude testemunhar os comportamentos, atitudes, praticas dos indivíduos nos próprios locais em que tais fatos acontecem, sem alterar o seu ritmo natural ou cotidiano (PERETZ, 2000). Na boate “A”, o espaço físico é pequeno, mas aconchegante, com dois andares, os dois destinados à dança. Há um bar que vende diversos tipos de bebidas, nos dois ambientes. Luzes se espalham por todo o local, de baixa intensidade, e das mais variadas cores, com direito a globo luminoso e jogos de luz. Um DJ realiza a seqüência de musicas, e não há pausas entre elas. Em alguns momentos, percebi certa preferência por alguns cantores, que não identifiquei quem eram, mas o publico gritava, dando resposta que tinham aprovado a escolha do DJ. O público, eminentemente masculino, veste as mais variadas roupas, de diversos estilos, e alguns utilizam óculos escuros, alem de gel no cabelo e outros até maquiagem. Observei presença restrita de travestis, e um deles falou que eles não são muito bem vindos naquela boate (preconceito???). Por conta do intenso barulho da musica, não consegui distinguir bem as conversas, nem esmiuçar a linguagem, mas percebi que há uma variação também grande de estilos e linguagens, com uso de expressões próprias, e alguns se tratam e se abordam no feminino ( “Dá licença que estou precisando ir ao banheiro, estou morta de apertada”). Esse uso do feminino para tratar de si e dos outros foi algo muito comum que observei no lugar. Brigas, não vi. O lugar é calmo, e muito raramente se vê discussão ou se precisa de apoio da segurança, me informa um dos freqüentadores. O que mais
  • 34. 42 observei foi muita dança, todos parecem envolvidos pela musica, muito contagiante. Observei poucos casais, que se beijam e se abraçam livremente. A presença de casais só aumentou no fim da noite, dentro da madrugada, e um amigo informa que é a hora que todos procuram alguém pra beijar. Há um local denominado de dark room, no qual a luminosidade é mínima, e os freqüentadores têm mais “liberdade” com seus parceiros, e um amigo informa que nesse local há muito sexo, livre. Passei pelo local, mas não consegui enxergar muita coisa. Há alguns que tiram a blusa, e dançam entre os demais, e geralmente são pessoas de corpos muito bonitos, “malhados”. O ambiente funciona ate seis da manha, quando então a casa fecha. Permaneci no local ate três da manha, e amigos ainda me criticaram porque fui “muito cedo”. A boate “B”, os cenários são relativamente parecidos, mas há, nessa, outros ambientes, e esses pude observar com mais clareza. Há uma sala em que são exibidos filmes de natureza pornográfica, e segundo alguns amigos que me acompanharam, há sessões de masturbação coletiva e individual, livremente e na frente de demais pessoas. Não entrei nesse ambiente,mas pela descrição e observação externa à sala, o ambiente é sempre cheio, e há uma rotatividade grande para dentro e fora dessa sala. Há também um dark room, em frente à sala de cinema pornográfico. Dessa a sala, há também um grande fluxo de freqüentadores, mas observei que a permanência dentro dessa sala é mais rápida do que na sala de cinema. Alguns amigos me informaram que muitos vão apenas para observar, e não participam ativamente. Percebi ainda que, como no caso da boate “A”, o publico é eminentemente masculino, mas vi algumas mulheres no local. Na parte da frente da boate, há uma pista de dança, e mais uma vez, observei muito envolvimento com a música e com a dança no local. Na parte de trás da boate, há um local de ar livre, onde se vendem bebidas e há musica ao vivo, o “pagode”, e os freqüentadores dispõem também de espaço para dança. Lateralmente, há banheiros coletivos, e, amigos novamente descreveram que nesses banheiros o sexo acontece publicamente. Segundo amigos que freqüentam mais assiduamente o local, essa
  • 35. 43 boate é mais comumente freqüentada por pessoas de classe social mais baixa, devido , sobretudo, ao valor da entrada, mais acessível que a da boate “A”. 2.2 Natureza do estudo Ao realizar uma pesquisa, cabe ao pesquisador, questionar a realidade compreendendo que qualquer conhecimento é apenas recorte e que ao lado da preocupação empírica deve haver a preocupação teórica, uma vez que é preciso ter conhecimento teórico para captar a realidade. A realidade existe independente da interpretação, entretanto, para conhecê-la é preciso interpretá-la (DEMO, 1999). É mister destacar que enquanto a teoria coloca a discussão sobre concepções de realidade, o método coloca a discussão sobre concepções de ciências. Portanto, na pesquisa é essencial também a preocupação metodológica, visto que ela é um dos horizontes estratégicos da pesquisa, uma vez que alcança a capacidade de discutir de forma criativa, caminhos alternativos para a ciência. O método é que vai diferenciar a ciência de outros saberes, pois a ciência é assumida como conhecimento metódico, cuidadoso e testado. Andery (1996) aponta que o conhecimento em Marx: (...) não se produz, portanto a partir de um simples reflexo do fenômeno, tal como este aparece para o homem; o conhecimento tem que desvendar, no fenômeno aquilo que lhe é constitutivo e que é em principio obscuro; o método para a produção desse conhecimento assume, assim, um caráter fundamental: deve permitir tal desvendamento, deve permitir que se descubra por trás da aparência o fenômeno tal como é realmente, e mais, o que determina, inclusive, que ele apareça da forma como o faz. (ANDERY, 1996, p. 413). Assim, em Marx, para construir conhecimento é preciso desvendar no fenômeno o que lhe é constitutivo, procurando descobrir o que está por trás da aparência, considerando que os fenômenos constituem-se, fundam-se e transformam-se a partir de múltiplas determinações. Desse modo, Marx com seu método materialista, histórico e dialético, nos dá suporte para compreendermos o real e construirmos conhecimento. A partir
  • 36. 44 dessa compreensão, a pesquisa social a que me propus realizar, foi norteada pelo método materialista, histórico e dialético de Marx. Para elucidar o objeto que tomei para investigação realizei uma pesquisa bibliográfica e documental buscando informações e conhecimento através da literatura especializada. Na pesquisa de campo, visando abranger a complexidade do objeto, a abordagem foi feita através de uma pesquisa qualitativa, buscando descobrir o significado das ações e das relações que se ocultam nas estruturas sociais, captar o universo das percepções das emoções e das interpretações dos informantes no seu contexto (MARTINELLI, 1999). A técnica utilizada para obtenção das informações foi a entrevista semi- estruturada, contendo questões abertas, visando captar as falas espontâneas dos sujeitos participantes da pesquisa. Tal entrevista permite que o entrevistado fale livremente sobre os assuntos que vão surgindo, como desdobramento do tema, dando oportunidade para que o mesmo coloque outras questões relacionadas com a questão central. (HAGUETTE, 1999). Dessa forma, a investigação teve como principal instrumento de coleta de dados a entrevista na qual foram feitas as seguintes perguntas aos homossexuais participantes da pesquisa: Como você se percebeu homossexual?A família sabe de sua orientação sexual?Como reagiu ao saber?O que os amigos significam para você?Você possui mais amigos homossexuais ou heterossexuais?Qual o lugar que você prefere freqüentar? Por quê?O que o “gueto” representa para você?Quais os tipos de discriminação você sofre fora dos “guetos”?Você acha que os homossexuais devem se expor ou não?O que seria mais incomodo para você na reação das pessoas?Há algo em que você tenha vergonha?O que você pensa acerca da sua orientação sexual?Como você se sente?As pessoas costumam ter alguma reação a você por conta da sua orientação sexual?Você acha que o público LGBTT freqüenta um determinado tipo de lugar?Quais as características desse lugar?Por que as pessoas freqüentam? Essas perguntas, portanto, instigam e movem essa pesquisa que tem como objetivo geral desvendar os reais significados do “gueto” homossexual em
  • 37. 45 Fortaleza, e como objetivos específicos:desvelar o significado do “gueto” para os homossexuais; identificar os tipos de discriminações sofridas pelos homossexuais entrevistados. Através da articulação das respostas dos sujeitos entrevistados com a literatura consultada, tentei elucidar os objetivos do estudo. 2.3. Campo da pesquisa A pesquisa de campo foi realizada no GRAB (Grupo de Resistência Asa Branca) situado na Rua Teresa Cristina, 1050, Centro – Fortaleza- Ceará. Fundado em 1989, o GRAB é uma organização da sociedade civil, sem fins lucrativos, com base comunitária, sendo pioneira no estado do Ceará, na defesa dos direitos de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais (LGBTT). Busca de forma permanente a inclusão dos/das homossexuais, através do ativismo, pela construção da cidadania e da defesa dos direitos humanos das comunidades LGBTT. Tem variados projetos destinados a facilitar a discussão do tema na sociedade, através de oficinas, encontros, projetos comunitários, sendo inclusive atualmente reconhecido como de Utilidade Publica Municipal (Lei 7066 de 27/03/1992). Presta assessoria jurídica e psico-social ás pessoas afetadas por discriminação de prevenção das DST/AIDS e Hepatites virais e apoio a pessoas vivendo com HIV/AIDS, com fornecimento orientado e gratuito de preservativos. Ainda, disponibiliza um centro de documentação (biblioteca e videoteca) sobre Direitos Humanos, Homossexualidade e DST/AIDS para toda a sociedade. O GRAB, em seus vinte anos de existência, tem atuado diretamente no enfrentamento ao preconceito por orientação sexual em diversas instâncias da sociedade, através da construção da cidadania homossexual na premissa de que esta perpassa todas as esferas da vida humana, exigindo uma atuação plural que contemple a justiça, a saúde, a educação, a cultura, a formação profissional, contribuindo para que essa população vivencie plenamente seus direitos sexuais e sociais. Desta forma, a instituição tem desenvolvido diversas ações e projetos nas áreas da Saúde (prevenção das DST/HIV/Aids e apoio às pessoas vivendo com
  • 38. 46 HIV/Aids), Qualificação Profissional (cursos de informática e centro de estética), Direitos Humanos (assistência jurídica e psico-social gratuita em casos de discriminação por orientação homossexual), Ativismo (politização e luta pelo controle social das políticas públicas) e Organização das Paradas pela Diversidade Sexual no Ceará. No período de 1995 a 2006, o GRAB realizou Projetos na área de Assessoria Jurídica, Prevenção e Cidadania, junto à população de gays, bissexuais, trabalhadores do sexo e transgêneros.Em 2000, desenvolveu o Projeto HIVIDAARTE, junto a 30 jovens, de 14 a 21 anos, portadores de HIV/Aids e filhos de portadores, para a capacitação profissional. Realiza as Paradas pela Diversidade Sexual no Ceará, desde 1999, tem participado das Conferências estaduais e nacionais de Direitos Humanos e das reuniões para a formulação do Programa Brasil Sem Homofobia – Programa de combate à violência e à discriminação contra LGBTT e de promoção da cidadania homossexual, da SEDH (Secretaria Especial de Direitos Humanos) – Presidência da República. O quadro de profissionais do GRAB é formado por pessoas habilitadas em gerenciamento e elaboração de projetos, ativismo, controle social, desenvolvimento institucional, advocacy intervenção etc., que o credencia a utilizar as ferramentas metodológicas empregadas, baseadas em metodologias participativas, numa construção entre pares e de empoderamento comunitário.Dessa forma, tem desenvolvido ações sócio-educativas e de intervenção social, sob o princípio de prioridade em melhorar a qualidade de vida de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais e estreitar, cada vez mais, o diálogo entre o movimento comunitário homossexual e a sociedade civil. A Diretoria do GRAB, de acordo com seu estatuto, é formada por um presidente, um vice-presidente, primeiro e segundo secretários, primeiro e segundo tesoureiros e um conselho fiscal composto por três filiados do GRAB e seus respectivos suplentes. O GRAB tem como missão, melhorar a qualidade de vida de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais; e pessoas vivendo com HIV/Aids, no
  • 39. 47 estado do Ceará.Para tanto, a instituição desenvolve hoje os seguintes Projetos: Entre nós; SOMOS ;Diversidade sexual e Cidadania; Centro de Referência LGBTT Janaina Dutra; OBALUAIÊ e o Projeto SAGAS. O Projeto Entre Nós, realiza ações educativas em prevenção das DST/HIV/Aids junto a gays e outros Homens que fazem Sexo com Homens (HSH) em 13 municípios cearenses e em 15 bairros da periferia de Fortaleza. O SOMOS desenvolve ações voltadas ao fortalecimento institucional de ONGS de promoção dos direitos humanos de homossexuais, nas áreas de intervenção, advocacy e desenvolvimento organizacional.O Projeto assessora hoje, mais de 15 grupos em todo estado do Ceará. O Projeto Diversidade Sexual e Cidadania, têm como objetivo capacitar profissionais da educação, especialmente, os professores da rede pública municipal de Fortaleza a estarem habilitados para a abordagem e discussão sobre sexualidade humana e diversidade sexual, nos espaços escolares, privilegiando o prisma do enfrentamento ao preconceito e a discriminação. O Centro de Referencia LGBTT Janaina Dutra oferece serviços de assessoria jurídica e psico-social e de mediação de conflitos em casos de discriminação por razão da orientação sexual.O atendimento é feito por uma equipe multidisciplinar, formada por advogada, estagiários de Direito, psicóloga e assistente social. O OBALUAIÊ realiza ações preventivas à transmissão das hepatites virais, através da mobilização e parceria entre ativistas LGBTT, rede pública de saúde, especialmente as equipes do Programa de Saúde da Família (PSF) e autoridades afro-descendente da área de abrangência do projeto. O Projeto SAGAS faz parte de uma parceria entre a Fundação Schorer – Instituição Holandesa voltada para o público LGBTT – com quatro ONGS no Brasil: o GRAB no Ceará, a ABIA (Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids) e Grupo Arco-Íris no Rio de Janeiro e o Grupo Somos no Rio Grande do Sul.O SAGAS/GRAB realiza atividades que tem como objetivo estimular a prática do sexo seguro e contribuir para a autonomia dos jovens homossexuais e outros Homens que fazem
  • 40. 48 Sexo com Homens – HSH na Cidade de Fortaleza – Ceará.As atividades de interação do Projeto SAGAS/GRAB iniciaram em 2008 e conta com diversas ações: Sobre nós: diálogos e sexualidades – atividades diretamente com os jovens; Atividades de pesquisa; Parcerias e Desenvolvimento Institucional. Nas primeiras terças-feiras de cada mês o GRAB realiza reuniões aberta ao público, onde são discutidos temas como: Prevenção e Sexo Seguro, Gênero e Sexualidade, Cidadania Homossexual, A Diversidade Sexual e o Parlamento, o Movimento Homossexual e a Luta Contra a Aids.(GRAB, 2009) A escolha do GRAB se deu por conta de sua visibilidade na sociedade cearense, como um grupo de referência quando o assunto é a temática homossexual.Além disso, é uma entidade que tem como principal bandeira de luta o enfrentamento ao preconceito por orientação sexual em diversas instâncias da sociedade, divulgando informações corretas e positivas da homossexualidade e esclarecendo ao público LGBTT a importância da organização política na luta pelos seus direitos. Como enfatiza Nelson Correia:‘Assim como Asa Branca é um pássaro que enfrenta a seca e a aridez, o GRAB representa a resistência ao machismo e desrespeito contra os homossexuais.’5 2.4.Sujeitos da pesquisa e trajetória metodológica Os sujeitos da pesquisa foram homossexuais masculinos que fazem parte do Projeto SAGAS6 /GRAB, sendo a faixa etária dos entrevistados entre 5 Fala de Nelson Correia, do Programa Nacional de DST/AIDS, no momento em que explicava o sentido do nome do GRAB, durante apresentação em mesa redonda, no Seminário ‘ 20 anos de Resistência Construindo a Igualdade’, realizado pelo GRAB no dia 26 de março de 2009 no auditório do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura em Fortaleza-Ceará, em comemoração dos 20 anos do GRAB.Informações disponíveis em: http//www.grab.org.br/index.html.Acessado em :11 de maio de 2009. 6 Projeto que faz parte de uma parceria entre a Fundação Schorer – Instituição Holandesa voltada para o público LGBTT – com quatro ONGS no Brasil: o GRAB no Ceará , a ABIA (Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids) e o Grupo Arco-Íris no Rio de Janeiro e o Grupo Somos no Rio Grande do Sul.O SAGAS/ GRAB desenvolve atividades que têm como objetivo estimular a prática do sexo seguro e contribuir para a autonomia dos jovens homossexuais e outros Homens que fazem Sexo com Homens – HSH na Cidade de Fortaleza – Ceará.Informações disponíveis em: http://www.grab.org.br/projetos.html.Acessado em: 11 de maio de 2009.
  • 41. 49 vinte e um e vinte e oito anos. A escolha dos sujeitos foi realizada de forma aleatória, após o contato inicial, no qual todos os participantes do grupo foram esclarecidos da natureza da pesquisa. Os homossexuais foram previamente consultados sobre o interesse em participar da entrevista, pela coordenadora de monitoramento do GRAB. Confirmado o interesse dos mesmos em participar da pesquisa, a coordenadora entrou em contato comigo para marcar o dia e o horário para a realização da entrevista. Foi utilizada a amostragem teórica (processo de saturação teórica) como método de determinação do número de sujeitos componentes da pesquisa. Nesse processo, segundo afirma Minayo (2000), o dimensionamento do número de indivíduos depoentes é realizado segundo o nível de compreensão, o mais amplo possível, atingido pelo pesquisador em questão. O critério de escolha utilizado foi a aceitabilidade dos homossexuais em participar da pesquisa, sem haver critério de exclusão, uma vez que considerei que cada um possui algo a dizer sobre sua vivência. Utilizando a técnica de amostragem teórica, foram captados quatro discursos. As entrevistas foram realizadas no GRAB, numa quinta-feira, dia em que os homossexuais participam de uma reunião do Projeto do qual fazem parte (SAGAS).Num primeiro momento, falei aos participantes sobre o objeto de estudo, bem como seus objetivos e importância.Informei também que o nome de cada participante seria mantido em sigilo, substituindo seus nomes verdadeiros por nomes fictícios.Ainda, numa conversa informal, esclareci que eles não precisavam se preocupar em dar respostas corretas, apenas expressar de forma espontânea, suas vivencias, suas idéias, seus pensamentos, suas opiniões e posicionamentos pessoais em relação às questões abordadas.Esse primeiro momento foi importante, pois proporcionou uma “quebra” de formalidade que pudesse prejudicar a captação das falas dos depoentes. Foi disponibilizada uma sala fechada, na qual pude estar de forma reservada com os homossexuais, permitindo que os mesmos se sentissem a vontade para a entrevista. Aos entrevistados era lido um termo de livre
  • 42. 50 consentimento, no qual se apresentavam os objetivos da pesquisa, bem como a garantia do anonimato dos entrevistados, e uma via desse termo era deixado em posse dos mesmos. Para validar o instrumento de pesquisa foi feita uma entrevista em caráter de Pré-teste.Todas as colocações do entrevistado foram suficientes para responder o objeto em questão. As entrevistas foram gravadas, com o devido consentimento dos entrevistados, e depois transcritas, num registro impresso fidedigno, tal qual me foi descrito pelos sujeitos entrevistados. Para nomear os sujeitos da pesquisa, e mantê-los em anonimato, utilizei os nomes dos principais líderes guerrilheiros da Ditadura Militar no Brasil e de um opositor do regime que foi perseguido, preso e exterminado pela repressão militar. Assim, identifico os entrevistados com os nomes de Marighela, Lamarca, Orlando (Carlos Marighela, Carlos Lamarca e Osvaldo Orlando da Costa – líderes guerrilheiros exterminados pela repressão militar) , Herzog (Vladimir Herzog – jornalista morto nas dependências do II Exercito, em São Paulo) . Optei por identificar os entrevistados com nomes fictícios dos guerrilheiros do regime militar, por considerar os homossexuais verdadeiros guerrilheiros que ao ousarem serem como realmente são, ou seja, ao assumirem publicamente sua orientação sexual e afetiva por pessoas do mesmo sexo, são perseguidos, discriminados e até exterminados, pela ditadura da heteronormatividade socialmente instituída, como os inúmeros casos de assassinatos por motivações homofóbicas.Esses sujeitos, assim como os guerrilheiros do regime militar, têm travado uma luta incessante contra a violência social da rejeição e da repressão de sua homossexualidade. Em linhas gerais, os quatro entrevistados apresentam o seguinte perfil: Marighela, tem 27 anos, é estudante pré-universitário, faz trabalhos pontuais e faz parte do Projeto SAGAS/GRAB.Já morou com um namorado durante quatro anos, o relacionamento acabou e hoje ele mora com os pais.Apesar dos atritos com sua mãe quando da descoberta de sua homossexualidade, ele hoje
  • 43. 51 parece estar bem com sua homossexualidade, diz não tem mais medo e nem receio dos preconceitos dos outros. Lamarca tem 23 anos, é estudante pré-universitário, faz curso de inglês, faz parte do Projeto SAGAS/GRAB.Mora sozinho, é bem alegre e extrovertido.Adora freqüentar lugares heteros, principalmente bares e churrascarias que tenham MPB (música ao vivo).Não gosta de freqüentar locais gays porque acha que só tem baixaria, não obstante ama ser homossexual. Orlando tem 21 anos, é estudante de Publicidade, faz teatro, é bailarino e faz parte do Projeto SAGAS/GRAB.Mora com a avó, a tia e uma irmã.É bissexual, e diz ter sido muito doloroso o caminho até que ele se descobrisse bissexual.Já namorou e se apaixonou por algumas mulheres, atualmente está namorando com um rapaz.Orlando considera o teatro um tipo de “gueto”, porque no teatro as pessoas extrapolam sua sensibilidade. Apesar da pouca idade, Orlando pareceu ser uma pessoa muita sensata e madura. Herzog tem 28 anos, é estudante do ensino médio, já trabalhou como vendedor e no momento está fazendo trabalhos pontuais, faz parte do Projeto SAGAS/GRAB.Mora com o namorado.Gosta bastante de freqüentar os “guetos” gays para poder ficar mais a vontade com seu namorado.Se sente bem com sua homossexualidade, considera-se feliz. Com os dados obtidos na pesquisa de campo, através do olhar, do ouvir e do escrever, faculdades do entendimento e da percepção humana que, mediados pelo referencial teórico, permitem ao pesquisador apreender o objeto estudado (OLIVEIRA, 1998) passo, então, para terceira etapa da pesquisa, onde faço a interpretação e a análise desses dados.
  • 44. 52 CAPITULO III: “GUETO” HOMOSSEXUAL: AS PERCEPÇÕES E OS POSICIONAMENTOS DOS SUJEITOS DA PESQUISA A partir dos discursos captados nas entrevistas, foram organizadas categorias que contribuíram para a melhor compreensão das percepções e posicionamentos dos sujeitos.As categorias principais são: a descoberta da homossexualidade, a relação com a família, tipos de discriminação sofrida fora dos espaços delimitados e visão sobre o “gueto”. 3.1. A descoberta da homossexualidade Os sujeitos desde cedo são conduzidos a publicarem a heterossexualidade, seguindo um roteiro de vida pré-estabelecido, em que cada um tem que seguir o caminho traçado pela tradição heteronormativa. Em nossa sociedade, marcada pela ditadura heterossexual, assumir-se homossexual, não é nada fácil,”cada vez que alguém sente o apelo da diferença em seu desejo, provavelmente terá de vencer séculos de repressão, para chegar ao epicentro do seu eu” (TREVISAN, 2007, p.163). O processo de descobrir-se homossexual, inicia-se pelo reconhecimento de desejos sexuais por pessoas do mesmo sexo (POLLAK,1985).Isso é relatado com freqüência pelos sujeitos da pesquisa. Eu tinha certa afinidade com uns colegas de aula (...) eu era muito confuso, eu não sabia o que era aquilo, tudo era novo pra mim, aí foi da onde eu comecei a sentir sensações por outros garotos, emoção de estar perto de um garoto.Tinha um garoto na minha sala de aula que eu era bastante afim e tal, aí comecei a sentir, nossa! isso não é normal, isso não é normal, será se eu sou normal, e eu tinha que procurar saber.E nossa! eu sou católico, será se isso não é pecado.Procurei namorar uma mulher, não consegui.Sempre os sentimentos por ele era maior.Aí foi da onde eu comecei a cair em si, nossa! será se é isso mesmo? Aí fui percebendo e tal,nossa! é isso mesmo.(Marighela)
  • 45. 53 Os conflitos internos de dúvidas e culpa que os homossexuais sentem no momento da descoberta de sua homossexualidade, estão relacionados com o medo da retaliação e da rejeição social de uma cultura patriarcal hierarquizada, que não permite outras possibilidades de relações amorosas que não seja a relação homem – mulher.(PINHEIRO,2003) Isso pode ser percebido na fala de Marighela, quando da descoberta de seus sentimentos por outra pessoa do mesmo sexo que o seu.Ele começa a se questionar, vê-se cercado de sentimentos de dúvidas, de culpa, achando que o que ele está sentindo é pecado, não é normal, que ele não é normal. Esses sentimentos surgem, porque os sujeitos incorporam os valores de uma sociedade que “escolheu a heterossexualidade como hegemônica – síntese do machismo, selecionando as características individuais para cada sujeito mediante o gênero a que pertence” (LOIOLA,2005,p.54), e romper com esses valores: E foi um certo tempo que eu conheci um primo que veio de Salvador, (...) e ele me achou muito bonito e ficou super interessado em mim, e eu também fiquei, sentia umas coisas por ele, isso assim, pra mim foi um choque, entendeu, eu me perguntei, será se é isso mesmo, será se é isso mesmo que eu tô sentindo mesmo, será se não é coisa de momento, será se isso não é loucura, não é paranóia,será se não é pecado, será se é verdade, eu sou tão novo.Então foi desde daí , eu tinha entre treze anos pra quatorze, que eu realmente me descobri gay.(Lamarca) É importante destacar também, que os princípios religiosos nesse momento influenciam o caminhar dos sujeitos, e têm importantes implicações em suas condutas, criando um sentimento de culpa quando na descoberta da homossexualidade. E aí foi tudo muito precoce na minha vida, uns dez, quinze anos, eu descobri que gostava de pessoas do mesmo sexo com o meu vizinho,comecei a ter uns sentimentos por ele, de ta perto, de beijar e tal, agente não tinha contato com outras pessoas e agente resolveu tentar, (...), agente começou a se tocar, e tal, e nisso agente foi vendo que gostava e tal. Só que comigo tinha um lance muito grande, que era o lance da religiosidade, eu vivia dentro da Igreja, passava de segunda a sexta dentro da Igreja Católica, participante mesmo, de eventos de tudo, isso influenciava muito na minha vida, e aí tinha a questão do pecado,né, será se é pecado e tal. Mais aí eu fui levando enquanto deu.(Orlando)
  • 46. 54 Assim, para esses sujeitos, a descoberta da homossexualidade, implica romper com os papéis sociais e sexuais interiorizados na socialização primaria7 , causando um conflito interno entre a identificação pelos outros e a auto- identificação, ou seja, entre a identidade objetivamente atribuída e a identidade subjetivamente apropriada. 3.2.A relação com a família A família como um elemento institucionalizado da nossa cultura, cumpre o papel de emitir os primeiros ensinamentos tidos como verdadeiros, baseados nos princípios moralistas da igreja, no puritanismo, no machismo e na binaridade dos sexos, associada à reprodutividade (LOIOLA,2005) Dessa forma, a família constitui-se como um pilar da ordem estabelecida, determinando as condutas dos sujeitos. Assim, quando em uma família existe a probabilidade de um sujeito assumir uma orientação sexual e afetiva por uma pessoa do mesmo sexo, a situação torna-se extremamente problemática. Toda família sabe, desde meus tios, aos meus pais, (..) quando eles ficaram sabendo, eu tinha na faixa de quinze pra dezesseis anos de idade quando eu resolvi contar, foi um baque muito grande pra minha mãe, porque minha mãe era altamente homofóbica, não gostava da questão do homossexualismo, achava feio, sempre discriminava o povo que passava na rua e tal, (...).E assim, eu tive um apoio muito grande, que eu me surpreendi com meu pai, meu pai foi aquele de sentar na cabeceira da minha cama e conversarmos, ele disse: eu não posso matar você, eu não posso dar uma surra em você, porque seu sentimento é seu, você sabe o que está fazendo, desde quando você respeite sua família, respeite sua casa e se respeite, e cuidado com as doenças, as doenças do mundo ( ...) eu tive vários atritos com a minha mãe(...) passei dois anos sem praticamente andar na minha casa por causa da minha mãe.(...) a minha mãe sempre teve um contra a historia de dizer que não era certo. Hoje ela já é mais normal, ela faz aquele papel que sabe mas fecha os olhos que não sabe, né aquela coisa desde quando respeite a minha casa, pra mim ta tudo bem, ela é muito disso.Tem dias que ela ta muito zangada, ela começa a dizer no sei o quê os seus machos, e eu digo opa! seus machos não, porque eu não tenho seus machos, eu só tenho um e aí eu ainda tiro onda, olha a xingação, olha a homofobia, que eu já cansei de ta me estressando, essas coisas.E aí eu vou tentando levar, eu já sei como é o temperamento dela, vou levando bem.(Marighela) A minha família hoje sabe, eu tenho um relacionamento com uma pessoa, há cinco anos juntos, e a minha família toda sabe, no começo não foi fácil 7 Socialização primária é a primeira socialização que o individuo experimenta na infância, e em virtude da qual torna-se membro da sociedade.(BERGER e LUCKMANN,1985, p.175)
  • 47. 55 não aceitar.Na realidade, a minha tia, quando ela descobriu, eu moro com a minha tia. (...) aí foi quando eu comecei a se montar a se vestir de mulher, e aí, então assim, até então a minha tia não sabia, todo mundo comentava, só que minha tia não tinha certeza, aí um dia eu fui trabalhar, como eu já se montava e não tinha saído de casa ainda nessa época, minhas coisas eram tudo escondida, salto, peruca, essas coisas, tudo debaixo da cama, aí um dia a minha tia viu, eu tava trabalhando ela viu, aí ela ligou pra mim e disse: olha eu encontrei umas coisas aqui que eu achei esquisita, quando você chegar eu quero conversar com você sobre isso. Aí eu lembro que eu disse pra ela: não o que a senhora tanto queria saber a muito tempo, que a senhora queria que eu tivesse lhe dito, a senhora descobriu, já viu, então assim, quando eu chegar em casa eu não quero nenhum comentário sobre isso, caso contrário eu vou ter que sair de casa, isso eu tinha dezessete anos, aí o quê que aconteceu, quando eu cheguei ela foi comentar, aí disso ela comentou e eu disse: ah é isso não tem como mudar.Só que ela achou quando viu roupa de mulher, peruca, salto, ela achava que eu tava me prostituindo, eu disse: não apenas eu tô me vestindo de mulher, tô indo pra boate me diverti, não tô fazendo prostituição nem nada do que a senhora possa ta imaginando.Só que depois disso não deu mais certo, a relação em casa mudou,...(pausa) aí eu peguei e saí de casa, daí eu fui morar em vários lugares, passava um tempo num canto, um tempo no outro.Aí nessa época, como eu te falei, foi muito difícil pra mim, que a minha família, pode- se dizer não aceitou.Eu passei quase um ano sem ir na casa da minha tia, morando em bairro vizinho.Aí depois de muito tempo eu comecei a me reaproximar deles, aí hoje ela sabe, hoje eu moro praticamente vizinho a casa dela e moro com uma pessoa que vive comigo, que agente já vive junto a cinco anos e hoje é normal, é como ela mesmo falou: eu não apoio, eu aceito porque você é meu sobrinho e por você viver com outro cara, por você ser gay, você nunca vai deixar de ser meu sobrinho, mais eu não apoio. O resto da família é tranqüilo, só ela que é meio assim, também porque ela é evangélica, mais o restante da família numa boa, normal, tratam ele super bem, respeitam.(Herzog) Percebo nos discursos desses sujeitos entrevistados, a existência de conflito no grupo familiar, após a descoberta da homossexualidade dos mesmos. Como relata Herzog, depois que sua tia descobriu a sua homossexualidade, a relação ficou insustentável, ao ponto dele ter que sair de casa.Ela não chegou a expulsa-lo de fato de casa, mas a rejeição por conta da sua orientação sexual, parece ter sido muito mais traumática, ele deixou transparecer isso durante a entrevista. Marighela também tem conflitos na família, mais precisamente com sua mãe ,que segundo ele, é bastante homofóbica.Embora, ele relate que seu pai deu grande apoio ao tomar conhecimento de sua homossexualidade, percebo a relação que seu pai faz da homossexualidade com a promiscuidade, como também a manifestação preconceituosa, quando ele diz ao filho:”desde quando você respeite sua família, respeite sua casa e se respeite”.Parece que para ele, ser homossexual, é desrespeitar a si e aos outros, é a visão distorcida e negativa da
  • 48. 56 homossexualidade, baseada numa concepção tradicional de que a sexualidade, fora dos limites da binaridade homem-mulher, é uma sexualidade libertina, e portanto, promíscua. Assim, enfatiza Pinheiro (2003, p.135) “a associação entre ‘marginalidade’ e homoerotismo é uma atitude da cultura homofóbica e machista brasileira”.Ainda, segundo esse autor: O sujeito homoerótico sofre uma discriminação extra e especial – a da sua família, pois muitos são expulsos do lar em razão da sua ‘diferença’.Este fato prova que, para muitos homens, revelar seu homoerotismo pode trazer grande sofrimento e demonstra o nível de preconceito e rejeição social a que os sujeitos homoeróticos estão submetidos na sociedade brasileira, uma vez que a sua subjetividade não é reconhecida nem pela própria família ( PINHEIRO,2003, p.57). Gurgel (1999) aponta que a transgressão de princípios da família contemporânea, intimidade e afetividade, trazem repercussões dolorosas para o individuo. Os sentimentos de medo, negação e raiva, dos sujeitos em relação à família, no momento de assumir-se homossexual, com o tempo vai se modificando, e são superados, embora na maioria das vezes haja certo distanciamento dos familiares com a vida intima do individuo, mas há harmonia e boa convivência nessa relação: Passei dois anos sem praticamente andar na minha casa por causa da minha mãe, mais sempre tinha contato com o meu pai, era o elo que eu tinha entre a família era ele, e os meus irmãos que até hoje eles aceitam bem , mais a minha mãe sempre teve um contra a história e dizer que não era certo.Hoje ela já é mais normal, ela faz aquele papel que sabe mas fecha os olhos que não sabe, né aquela coisa desde quando respeite a minha casa, pra mim ta tudo bem, ela é muito disso (Marighela) Os amigos têm um papel importante na vida desses sujeitos, principalmente no momento de assumir-se homossexual para a família, eles passam a ser o ponto de apoio: Assim, acho que meus amigos é tudo pra mim(...)eles sempre se fazem presentes nos momentos que eu preciso, que eu fraquejo(...)que tenho atritos com a minha família, recorro a eles(...)os amigos pra mim foram um peso muito grande pra equilibrar minha balança psicologicamente.(Marighela). Eu posso dizer que amigos(...) representam muita coisa, por exemplo, uma das pessoas que eu considero meu amigo foi a pessoa que logo que eu saí
  • 49. 57 de casa , foi a primeira pessoa que me apoiou, que eu fiquei um tempo na casa dele, pra mim essa pessoa é tudo.(Herzog) Marighela e Herzog encontram nos amigos todo o apoio que não tiveram na família, no momento de assumir-se homossexual.Eles tentam recompensar com os amigos, a perda dos laços afetivos familiares no momento da descoberta da homossexualidade. 3.3.Tipos de discriminação sofrida fora dos espaços delimitados A discriminação, fora dos ambientes dos guetos, foi referência importante nos discursos. Os sujeitos relataram que sofreram discriminação das mais variadas formas, e deram exemplos de formas de discriminação. Eles referem que sofrem discriminação até hoje, mas informam que, com o tempo, conseguiram lidar melhor com essas situações. Fora dos guetos já sofri várias, desde o papel de ai “bichinha”, “ pei”, desde o “pei”até uma frasezinha totalmente homofóbica, acho que esses cantos assim, que são locais públicos mesmo, praças onde não é gueto, não é considerado esses ambientes.Isso acontecia mais no passado, mais agora, não sei se é pelo que já o costume, saber me colocar, a onde me colocar, a onde ir, onde ter uma certa interação, isso acontece menos, mais sempre acontece, mais em terminais de ônibus, em praças a onde não tem um público muito grande GLS, o que mais, Escolas, as vezes a gente vai pra uma Escola conhecer pra dar uma oficina, agente fica levando um “pei” de longe, umas piadinhas, mais isso agente vai passando, vai deixando levar, tal, porque até mesmo agente não pode ta a toda hora revidando, né.(Marighela). Para Rodrigues, Assmar e Jablonski (1999), o preconceito pode ser definido como toda atitude hostil ou negativa com relação a um grupo, mesmo que não haja atos hostis ou comportamentos persecutórios, e quando falamos de comportamentos, sejam expressões verbais, ou mesmo condutas agressivas, utilizam-se o termo discriminação. Eu já perdi oportunidade de emprego por ser gay, por exemplo eu trabalhei numa loja como vendedor, quando eu fui entrar lá, pra entrar foi super fácil (...), o gerente é altamente homofóbico, aquele pessoal assim, que eu acho que se ele pudesse mandar matar um viado ele mandava. ( ...) Quando foi no dia que ele veio falar comigo, ele pegou já começou com elogios, aí eu já vi logo, aí tem coisa, ele pegou e disse: olha você é um ótimo profissional, você se dá super bem com seus colegas de trabalho, até mesmo com os clientes, eu já recebi vários elogios do seu trabalho, mais infelizmente eu não vou poder continuar com você, aí eu perguntei porque e ele não me respondeu, não precisou ele me dizer né, você é super extrovertido, se dá