David machado ou a invenção de sentidos

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David machado ou a invenção de sentidos

  1. 1. David Machado ou a invenção de sentidos?A Noite dos Animais Inventados (2006) – prémio Branquinho da Fonseca(Fundação Calouste Gulbenkian/ Semanário Express, 2005); Os QuatroComandantes da Cama Voadora (2007); Um Homem Verde Num BuracoMuito Fundo (2008) e Um Tubarão na Banheira (2009) – Prémio de “Autor deMelhor Livro de Literatura Infantojuvenil” (Autores SPA/ RTP, 2010), A MalaAssombrada (2011) são títulos que comandam uma outra vontade, diriaeclética, de estar no panorama da literatura infantojuvenil.A escrita de David Machado define-se a partir do inusitado (repare-se nostítulos que encabeçam os seus textos), retratando uma forma de contarprofundamente criadora e convidativa. Que criança ou pré-adolescente poderáficar indiferente face à vontade, por exemplo, de Jonas, Jeremias, Jacinto eJaime (protagonistas d’ A Noite dos Animais Inventados) que, ousando enganaro escuro e o medo, solicitam a presença de animais como galinhas, leopardos,pirilampos e até dinossauros? “Contar carneiros”? Ficar à espera vendo o tempopassar? Não para as personagens irrequietas deste jovem escritor! Aliás, que odigam os quatro protagonistas d’ Os Quatro Comandantes da Cama Voadoraque, desafiando as leis do empírico-factual, resolvem atravessar o Atlântico e
  2. 2. chegar à América suspensos por balões presos a uma cama. Não os virampassar, todos, animados e cheios de vontade em vencer os céus? Desculpe-me oleitor, mas julgo que não está suficientemente atento e que lhe falta o sentido daeconomia. Conhece melhor forma e se viajar?Personagens cheias de vida, pois! Prontos a confirmá-lo surgem-nos a Celeste eo Simão, de Um Homem Verde Num Buraco Muito Fundo, que não se coíbemem juntar às suas brincadeiras o Homem Verde e o Homem Vermelho lá dosinal luminoso, ou ainda os dois irmãos, muitos diferentes, de A MalaAssombrada que se deparam com um achado misterioso: uma mala onde vive o“Fantasma do Casarão”. Uma mala sui-generis, sem dúvida, que deixa escaparlá dos seus pertences o imaginário maravilhoso-fantástico que coabita com osleitores de uma certa idade.E as histórias acontecem de facto porque os leitores mais pequenos, ou não,sabem “fazer de conta” e aceitam o pacto de ficcionalidade com o texto,comprometendo-se com a leitura pluri-isotópica que tais aventurasproporcionam.Gostaria, contudo, de me centrar um pouco mais no texto O Tubarão naBanheira que deixei propositado para o fim, cujo título, embora em nada maisapelativo que os já apresentados, me convidou à reflexão. Uma tarde, estava naFnac, com uma fila enorme de gente predisposta a esclarecer-se sobre este ouaquele título; esta ou aquela prateleira, quando resolvi “dar um tempinho” paraver se as coisas acalmavam. Na secção do infantojuvenil, dei por mim outra veza explorar os títulos. Não é que me apetecesse fazê-lo de novo, mas também nãoqueria estar mais na fila. Afinal só precisava de saber de um livro que pareciater-se evaporado do mercado editorial, e já tinha em mãos os dois títulos do dia.Um necessário para um trabalho de mediação leitora, um outro que me chamouparticularmente a atenção.“Ó mãe, o que é a-bes-pi-nha-do?”“Como, filha?”“Isto!”
  3. 3. E lá estava o dedito da menina, que ia seguindo a leitura, teimosamenteencostado à tal palavra que eu também conseguira ler: “abespinhado”. O livro?Bem, não dava para ver qual era, mas aquela palavra, em destaque e num livropara tão tenra idade, fez-me sossegar por ali na minha exploração de títulos. Amãe, já debruçada sobre a filha e de livro na mão, lia a frase toda em voz alta, apedido da menina. Eu ouvi tudo, sempre atenta, e não pude deixar de sorrirquando fiquei a saber que o “tubarão estava ABESPINHADO” (Machado,2009: 15).Ambas pareciam muito simpáticas e leitoras habituadas a estas coisas dos livrosque nos obrigam a olhar com mais atenção para o que se passa no texto. Porisso, fui perguntando, querendo também eu entrar na magia daquele momento,que tubarão era aquele. “Não sei” respondeu-me a Mafalda, “acho que ele foipescado por um menino.” Pescado por um menino… ora, aí estava um assuntointeressante. E pescado à cana, como o provava a ilustração que, de facto,representava um tubarão indubitavelmente abespinhado! Sabido o título, depoisde alguns poucos minutos de conversa sobre outros livros, desejei à Mafaldaboas leituras e fui procurar a história de semelhante tubarão que, pelo poucoque sei de tubarões, não poderia ficar a residir num qualquer aquário nemsequer, pelo seu ar tão abespinhado, vir a tornar-se um amigo daqueles emquem se pode efetivamente confiar. Convenhamos que não é um peixinhodoméstico, nem tem bom feitio! A fila ainda continuava enorme e agora o meuinteresse era outro.Com os meus três títulos na mão voltei para casa e não me arrependi nada daúltima compra que fiz. O Tubarão na Banheira é um livro, e permitam-metomar emprestadas as ideias/ palavras destacadas no texto, capaz de nos deixar“deslumbrados”, com uma vontade “inquisidora”, “perplexos” (sobretudo com ofinal da história!), “cismados”, algo “sobressaltados” e “incrédulos”, mas emnada “frustrados”, “enfadados”, “desconsolados”, “melancólicos” ou“abespinhados”. Ah! Abespinhado estava o tubarão ao ser pescado. Imaginem seele visse a baleia!Gisela Silva, publicado em Boletim Solta Palavra 17 – CRILIJ, em julho 2011,pp. 24-25.

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