Prólogo

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O herdeiro que renunciou

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Prólogo

  1. 1. Contar uma história a um adulto é diferente de contar a mesma história a umacriança. Um adulto não dará a mínima importância a uma história, no entanto, se nãofor contada com cuidado pode facilmente definir as bases para um crescimentoproblemático de uma criança. Por isso mesmo Mollieta contava todos os tipos de história aos filhos. Príncipes eprincesas, pobres que ficaram ricos, ricos que ficaram pobres, monstros bons, monstrosmaus, pessoas más, pessoas boas… Os seus dois filhos, Sereno e Issiria, gostavam de a ouvir falar sobre os maisvariados assuntos, mas claro que cada um tinha uma queda por determinado género. Issiria gostava de ouvir as histórias de heróis, e Sereno preferia aquelas ondemonstros caminhavam sobre Solo. Era a história dos “velhos mortos” que ele maisgostava de ouvir. No entanto, Sereno também gostava de ouvir histórias de batalhas ganhaspela casa dele, os Arco, contra os seus antigos rivais, os Helimir. A rivalidade das duas casas era histórica e estóica, e o motivo pela inicio damesma era já desconhecido, razão pela qual Asserius, o Conde Velho de Arco, propôsfazer as pazes com Varas Helimir. A desconfiança entre as duas casas aumentou, masfez-se paz e assim viviam há quase duzentos anos. O esposo de Mollieta, Segur II Arco, revelava uma certa preocupação paracom Divius Helimir, sucessor de Diacus Helimir, antigo Conde de Planalto. Nuncagostou da atitude de Divius quando visitava a casa dos Helimir, e também nãoapreciou as visitas que o rapaz fazia à casa dos Arco. Segur, o Conde de Árvore Branca, senhor seu esposo, governava a casa Arcohá dez anos. Juntos tinham dois filhos e um terceiro a caminho. No entanto esta eradas quatro gravidezes que tivera a mais complicada. Na primeira tivera um aborto. Ereceava pelo mesmo nesta. Issiria tinha apenas cinco anos. Possuia o cabelo do pai, escuro e tinha caracóisdignos de uma Dama. Sereno era todo ele, Segur. Tinha toda a sua cara, e ainda oseu cabelo. Segur que até ali se encontrava a tratar das colheitas entrou no quarto esaudou Mollieta respeitando o protocolo. − Minha senhora. – Disse fazendo-lhe uma pequena vénia. Ela sorriu. – Pareces cansado. − É mais o aborrecimento que o cansaço. Tratar das colheitas é entediante.Prefiro quando estou lá fora com os agricultores. − Estiveste com Sereno? – A voz dela soou fraca e Segur fitou-a por algumtempo.
  2. 2. − Sim. – Um sorriso orgulhoso fugiu-lhe. – Hoje conseguiu-me tirar a espada numtreino que pedi a Muir para lhe dar. Um golpe… Sublime. − Oxalá nunca precise de a usar. − Também não o desejo minha senhora, mas, ainda bem que o sabe fazer. – Etocou-lhe a face com os lábios. Ela retribui-lhe o beijo. − Deseja-me Sorte. Segur iria embarcar numa viagem para Torre Média, uma cidade pertencenteao Condado de Árvore Branca, onde o Castelão Jamir Edinus regia. Ia,essencialmente, tratar de assuntos de colheita. A colheita era a maior preocupação de um Conde antes das estações frias.Cabia-lhe inspeccionar todos os relatórios da Castelão, bem como a qualidade dosprodutos. Dependendo disso o Conde decidia se devia exportar ou importar os bensrecolhidos ou até enviá-los para uma cidade que estivesse mais necessitada queoutra. Mollieta sabia que o senhor seu esposo aproveitaria para ver tudometiculosamente. Produção de armas, números, sentenças, até a própria lealdade doCastelão. Acontecia ocasionalmente um ou outro Castelão revoltar-se e cabia aosDuques convocar as tropas e resolver o assunto, a maioria das vezes, à força. Segur acreditava que a guerra entre a sua casa e os Helimir começara devidoa algo do género. Não sabia bem quem se revoltara, mas reparara que os números dehabitantes em Planalto disparara enquanto os de Árvore Branca diminuíram. − Jamir disse que viu alguns soldados de Incendiária perto do castelo. –Retomou. – O mais provável é que fosse uma escolta de alguém bem-nascido que sedirigia para Porto Vivo com o intuito de se dirigir ao alto mercado. − Divius não te enviou uma carta a avisar? − Divius também tem muitos assuntos sérios a tratar nesta altura. Não podecontrolar tudo. Enviarei um grupo homens para baterem a estrada. No caso de seremvistos podem dizer que estão de patrulha, uma medida tomada por mim paracombater os foras da lei. − Envia More, filho de Muir. O rapaz faz bastante sucesso nas armas. − Sim ele saiu ao pai. Talvez o mande. E por falar em filhos, como está opróximo membro da casa Arco? Mollieta levou a mão à barriga inchada num gesto reflexo e sentiu osmovimentos do bebé. Tinha mexido o dia todo. – Ele não pára. Está com uma vontadeenorme de sair.
  3. 3. − Quando chegar pode ser que já tenha nascido. – Sorriu e sentou-se na camaao lado de Mollieta olhando e esfregando o ventre da mesma. – Posso adiar aviagem. – Disse. − Antes das estações frias, meu senhor? Que iriam pensar os súbditos de umConde que abandona assuntos tão importantes para ficar junto da mulher grávida? − Aqueles que têm filhos iriam pensar que as colheitas podiam esperar. − Não. Torre Média está a quatro dias de distância. Uma coruja chegava lánum dia só para o caso dele nascer. − Dele. – Segur fitou Mollieta. – Dizem que quando a mão deseja um rapaz éum rapaz e que quando deseja uma rapariga é uma rapariga. − O meu senhor não deve acreditar em tudo o que dizem. Sereno nasceurapaz porque os deuses assim quiserem, bem como Issiria. Segur levantou-se da cama e agarrou na espada. A espada e o anel eram oselo da família. A espada era feita do mais requintado aço. Tinha uns cinquentacentímetros de lâmina e o punho era só de uma mão. No fim do punho uma pequenaesfera em ouro talhada com a imagem de uma meia-lua atravessada por uma flechaequilibrava o peso da lâmina. Ou assim diziam os entendidos. − Tenho de ir minha senhora. Dei ordens a Gula para não a perder de vistatodo o dia. Qualquer coisa que necessite, ela providenciará. − Não era necessário meu senhor. Por uma última vez ele aproximou-se dele e beijou-a nos lábios. − Amo-te. – Disse. − Também te amo. – Respondeu colocando de lado todas as formalidades. Mollieta era filha de Moergus Taniu, Castelão de Mármore. O seu casamentofora arranjado como todos os casamentos das grandes casas, no entanto, Mollieta viuem Segur alguém como não tinha conhecido até aquele dia e apaixonar-se por elefoi fácil. Foi uma tarefa sem esforço e que aconteceu por acaso. Apesar do nervosismo que sentiu, mesmo depois do casamento Mollieta davagraças por lhe terem escolhido Segur. Tinha ouvido que o motivo tinha sido um rumorde rebelião de Mármore contra a casa Arco, mas independentemente do motivoestava feliz e não ligava a esses pormenores. Tinha conhecimento de filhas de senhores poderosos que eram obrigadas acasar com tiranos que as usavam para ter herdeiros legítimos, apresentar em eventose pouco mais. Uma vida assim parecia impossível de imaginar a Mollieta. No entanto a suairmã que casara com um nobre em Porto Vivo não tivera tanta sorte. O seu esposoIlidius Cercan era um nobre mercante, rico, mas supérfluo. Providenciava à irmã Mellita
  4. 4. uma vida sem dificuldades e rodeada de luxos, mas não o que Mollieta considerava averdadeira felicidade. A única coisa que parecia fazer a irmã feliz, para além do dinheiro do maridoeram os filhos que o mesmo lhe tinha dado. Iliar o mais velho e herdeiro, Rufus e Vira. Iliar tinha doze anos, sendo mais velho que Sereno três anos. Falava-se por todoo condado no seu talento natural para os negócios do pai e de um manejo com facassuperior a qualquer criança da mesma idade. Era apelidado de Dobrão, pelo jeitoque tinha de multiplicar os mesmos e o senhor seu pai mantinha-o vigiado todo o dia. Eram vários os caçadores de recompensas pagos por outros mercadores quetentavam surripiar a vida aos nobres mercantes concorrentes e foi devido a um queIliar ficou conhecido pelo manejo das facas, quando matou um homem que oencurralou num beco de mercado. Sereno o seu filho era habilidoso com a espada, mas nunca o tinhamdiferenciado pelo mesmo. More, filho de Muir, o mestre d’armas, era o jovem queconsideravam ter maior potencial para a luta e a estratégia. Provavelmente fruto dotreino de Muir. Segur não dava a Sereno a mesma liberdade que Muir dava a More. Serenoprecisava de aprender bem mais do que manejar uma espada. Precisava de saber oque o povo precisa, precisava de saber como interagir em diplomacia, precisava desaber liderar. Não só o aspecto bélico interessava a um líder, principalmente nestestempos de paz, mas sim a maneira como tratava os seus súbditos e como prestava oseu serviço aos mesmos. Segur pensava em casar Sereno com Bélia, uma princesa do Sul. Já tinhamfalado acerca disso várias vezes. Segur achava mais seguro que fosse assim. DiviusHelimir tinha uma filha muito pequena e ele queria evitar um casamento entre os dois.Se os Arco se unissem aos Helimir uma guerra poderia desencadear entre o povo eSereno estaria sujeito a algo que o pai tentava evitar, guerra. − Gula! – Chamou Mollieta. A aia estava no quarto ao lado, onde iria pernoitar e viver enquanto Segurestivesse ausente. − Sim, senhora minha. − Trás os meus filhos aqui por favor. − Pois não. – E retirou-se. Mollieta colocou a mão sobre o ventre, sentindo o seu futuro filho ou filha amexer-se. “Há-de ser guerreiro”. – Pensou. – “Um traquina…” Gula não demorou muito a trazer-lhe os filhos. Sereno trajava um blusãomasculino azul-escuro e umas calças de couro rasgadas de ter andado a brincar.
  5. 5. Issiria trajava um vestido amarelo com desenhos de flores laranjas. Tinha os caracóis docabelo soltos e bem definidos. Os dois olhavam para ela de uma maneira estranha devido à sua gravidez.Sereno parecia mais calmo, talvez por saber que não havia hipótese daquilo lheacontecer. Issiria fez muitas perguntas no início incluindo como é que as mulheresengravidaram. Essa foi uma pergunta de Sereno, também, mas Mollieta dignou-seapenas a responder a ele. Era o mais velho, teria o peso do Condado às costas a partirdos dezasseis anos e como um herdeiro é parte importante de um Conde, deveriasaber destas coisas mais cedo que a irmã. Não fazia intenção de esconder nada a Issiria, mas preferiu guardar essainformação para mais tarde. Ainda tencionava ter a sua menina por perto durantemuito tempo. − Então não vão dar um beijo à mãe? Aproximaram-se dela e abraçaram-na já cientes do cuidado que eranecessário para não a magoar. − Então? Como correu o vosso dia? − O More disse que eu era um menino mimado. – Começou Sereno. – E que erapor isso que lutava pior que ele. Mas eu ganhei ao pai. − Ele diz isso porque tem ciúmes querido. Se praticares tanto como eleconsegues ser igual ou melhor. − O Muir também disse que precisava de treinar mais, mas o pai quer-me pertodele para aqueles assuntos chatos. Nem tenho tempo para brincar com Ekla. Ekla era filha de uma criada das cozinhas. Brincava constantemente comSereno, e eram uma espécie de namorados, supunha ela. Apesar de Sereno repudiaressa ideia como outra criança da sua idade, Mollieta via nele os traços de umacriança e achava-o engraçado. Issiria sonhava muito com príncipes e deixava qualquer criado de lado.Gostava de brincar com as pequenas damas das casas inferiores e ouvir oscontadores de histórias. Adorava ir ao alto mercado, mas o seu pai, Segur, tentavanão lhe dar demasiado abuso, apesar de ser a menina dos olhos dele. Apesar de várias características fúteis normais numa criança, Issiria tinha umaespécie de inclinação para olhar as coisas com transparência. Assuntos de estado eguerra não era o mesmo que “assuntos de homens” para ela. Daria uma boadiplomata quando crescesse. − Vais ter tempo. Tenho a certeza que Ekla não se importa. E tu minha filha? − A Dama Tenta esteve a ensinar-nos boas maneiras. Diz que temos de sabercomportar-nos.
  6. 6. − Ela tem razão… − Ela também disse que tinha de casar com um príncipe que é dez anos maisvelho que eu. Mollieta não esperava aquilo da Dama Tenta. Teria de falar com ela e ordenar-lhe que moderasse os assuntos que com os quais abordava as crianças. − Não te preocupes minha filha. Só casarás com um príncipe que gostes. Achasque o teu pai deixava acontecer o contrário? − A Dama Tenta disse que era o pai quem escolhia o príncipe. − Tenho a certeza de que quando chegar a altura o teu pai vai perguntar-teantes de escolher. Não te preocupes com isso. Ainda és muito nova. − A Dama Tenta diz que a idade passa por nós mais depressa do quepensamos. Mas eu acho que ela só diz isso por ser velha, como todas as velhas dizem. − Não deves usar essa expressão Issiria. A Dama Tenta é de uma idadeavançada e merece mais respeito de todos nós por isso. − No outro diz disse-me que eu não sabia andar como um herdeiro. – DisseSereno. − Meninos, a Dama Tenta foi ensinada por pessoas muito severas… − Mais severas que ela? – Perguntou Issiria. − Mais severas que ela. É a função dela certificar-se que os filhos do Conde sesabem comportar à altura do seu estatuto. O que ela vos diz e faz é para o vossopróprio bem. − Tenho sono. – Disse Sereno enquanto rebolava na cama. – Conta-nos umahistória. Uma nova. − Sim! – Apoiou Issiria. − Uma nova? – As duas crianças responderam afirmativamente à pergunta damãe. – Não sei se ainda tenho. − Disseste que tinhas histórias guardadas para quando fossemos maiores. –Reclamou Sereno. Mollieta riu-se e recordou-se desse leque de histórias que tinha guardado paradepois. − Muito bem. – Disse ela. – Acho que tenho uma boa para vocês. – Os doisfilhos, um de cada lado da cama olharam-na à espera da história. – Sabem que nasterras mais quentes, existiu um povo que era muito diferente de nós. “Vestiam-se de maneira diferente. Rezavam a outros deuses. Eram muitodiferentes daquilo que somos agora. Pensa-se que terão sido levados à destruição poreles mesmos, pois eram uma civilização corrupta e tiveram mais olhos que barriga.Nessa altura os casamentos entre casas, ou entre camponeses e por vezes entre osdois eram realizados de livre vontade, ou seja, ninguém era obrigado a casar com
  7. 7. quem não queria. Se perguntarem aos vossos professores eles vão dizer-vos que essamistura das linhas de sangue foi um factor importante para o declínio da civilização.” “Um moço de recados mostrava-se na altura enamorado pela filha de ummercador ex-soldado. A beleza da filha do mercador era falada por todos os lados eos pretendentes aglomeravam-se à porta do mercador. E sua bela filha gozava ospresentes que os infinitos pretendentes lhe ofereciam. Tinha assim uma vida maisluxuosa e menos preocupada que a maioria das mulheres naquela altura.” “O moço de recados sabia que tinha de conseguir distinguir-se dos outrospretendentes de alguma maneira. Tinha de oferecer à filha do mercador algo quenenhum dos outros pretendentes conseguiria igualar.” “Ao passar pelo centro da cidade ouviu dois soldados conversarem acerca dapeça de arte que iria ser trazida para casa do rei mercador. Tratava-se de uma adagatoda feita em ouro e encrustada de pedra preciosas. Simbolizava o facto da riquezade um homem poder ser usada para a conquista.” “O moço pensou que tal peça iria dar-lhe de imediato a mão da filha domercador em casamento e então decidiu roubá-la. Esperou pela noite, quando asruas estavam vazias de gente e a adaga tinha menos guardas. Matou os dois soldadosque a guardavam e roubou-a para mais tarde a oferecer à filha do mercador.” “Houve uma grande perseguição ao ladrão do objecto, mas a verdade é queo rei não tinha como saber que o fez e aproveitando o momento troçou do ladrão,dizendo que ele poderia ficar com aquela peça de tão pequeno valor para o rei. Elenão se importava. O moço viu aquela como a altura ideal e entrou na casa domercador. Esteve com a filha do mercador e os seus pretendentes todo o dia dizendosempre que a sua oferta seria para quando ele e a filha do mercador estivessemsozinhos.” “Quando todos os outros pretendentes não conseguiram competir com acuriosidade que o moço instalou na filha do mercador, retiraram-se derrotados, masna esperança de regressarem ao outo dia. O moço puxou da adaga de dentro dabolsa e mostrou-a à filha do mercador, convencido que esta iria deslumbrar-se com oobjecto e a fortuna que este simbolizava. Mas a filha do mercador era menos fútil doque se falava e tinha melhor bom censo do que o moço pensava e disse-lhe: Nuncapassaria um dia da minha vida ao lado de um patife como tu!” “Destroçado e sem pensar, o moço agarrou o punho da adaga e esventrou afilha do mercador logo ali. O mercador capturou o moço e deixou-o em praçapública para ser apedrejado até à morte. Apesar da dor que passou pelas pedrasarremessadas que lhe partiram ossos, e lhe esfolaram a pele, o moço de recadosnunca sentiu uma dor tão grande, como o arrependimento por ter matado a filha domercador, aquela que ele considerava a luz da sua vida.”
  8. 8. Seguiu-se um silêncio breve antes de Sereno perguntar se a história já tinhaterminado. Mollieta viu na cara dos filhos a angústia da história não ter um final feliz. − Perceberam a moral da história? − Se roubarmos acontece-nos coisas más? – Perguntou Issiria. − Também. – Riu-se Mollieta. – Mas o principal é que quando gostamos daspessoas podemos fazer coisas más, sem nos apercebermos disso e que quando essaspessoas nos magoam também fazemos coisas sem pensar, coisas que depois noscustam. − O moço era um ladrão e teve o que mereceu. – Contestou apressadamenteIssiria. − Eu acho que se ele gostasse mesmo da filha do mercador que não amatava. – Sereno rebolou na cama para junto da mãe. – Se calhar ele era daquelaspessoas que tem uma… que gostam muito de uma coisa e não pensam em maisnada. − Uma obsessão? – Sugeriu Mollieta − Sim. Isso. Isso quer dizer que ele não gostava mesmo dela… Mollieta imaginou como o mundo era tão mais simples quando se é umacriança. − Sabem. As pessoas podem ser más e boas ao mesmo tempo. Ninguém é sómau ou só bom. − Tu és só boa pessoa mãe. – Disse Issiria. − Mas há pessoas boas que não gostam de mim. – Depois de ver a expressãoconfusa de ambos decidiu contornar. – Um dia mais tarde vocês vão perceber. Agoraestá na hora de iram dormir. A Gula vai levar-vos. Despediram-se de Mollieta com beijos e abraços e deixaram-na para iremrepousar. O futuro filho ou filha tinha estado sossegado durante a história e isso deu-lheque pensar. Gostava que fosse um rapaz, mas o motivo pelo qual o desejou, fê-la arrepiar-se. Sereno era forte e inteligente e seria um bom Conde um dia. Desejava um rapazporque isso iria afirmar a posição de Sereno, só isso. Segur tinha quase sempre ao seu lado Samuel, o irmão mais novo. No entantoValdir, o irmão do meio estava exilado em Primeira Forja por ter conspirado contra olugar de Segur. Outro qualquer tinha sido executado, mas Segur não conseguiu fazerisso ao irmão, mesmo depois de este o ter tentado matar. Gula regressara ao quarto ao lado. Tinha ordens para verificar o estado deMollieta mesmo que esta não respondesse ao seu chamado. − Posso fazer mais alguma coisa pela minha senhora?
  9. 9. Mollieta deitou-se, desconfortável no colchão de palha, sentindo o filhopontapear o ventre com toda a força. − Sim. Gostaria de tomar um chá de papoila para me ajudar a dormir. − Pois não. Gula retirou-se de imediato deixando-a só. Entrou passados poucos minutos,carregando uma chávena de chá. Olhou para Mollieta e viu estas a contorcer-se dedores na cama. − Chama… Chama a parteira! Gula atirou o chá para o lado e saiu a correr do quarto…

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