Carlos nogueira

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Carlos nogueira

  1. 1. -------CARLOSNOGUEIRAcasa deitadamuseu da eletricidade 6 julho 16 setembro 2012 cinzeiro 88 cinzeiro
  2. 2. COM AS MÃOS QUE PÔDEpara o Carlos Nogueira“andava um homem à procura de si”1O que conduz ao gesto artístico?A procura de si, diz-nos o artista.O que pode esse gesto?A construção provisória de si, indica.Todo o trabalho humano devia dirigir-se para aí – ser criativo.Criador. O homem dá a sua forma ao mundo pelo trabalho: espelha-se,reflete-se – pensa, sente. Descobre-se fora, reconhece na exte-rioridade uma forma que lhe é própria. No exterior encontra-se,não como exilado – no sentido negativo de estar fora-de-si – masno sentido positivo de aí, nesse fora, se abrir uma porta para oreconhecimento de si – em expansão. Em recomeço. Um outro semprepor vir. O que, então, não significa um passo em direção ao passado,a uma identidade por reconhecer, já existente e escondida, masa um si possível – por fazer. A efetivar-se. Em acontecimento.A esculpir-se: para o artista, a poética (teoria do fazer artístico)é sempre uma poética de si – que pode, através da obra, servira outros na sua própria construção. A obra cria o artista ao sercriada por ele, e logo o dispensa. Desse modo, autónoma, poderáser útil a quem depois a quiser receber.Construção permanente. Esse homem que se procura é casa sempreconstruída, destruída, reconstruída, destruída... Montagem,desmontagem, remontagem... Como a sabedoria do Eclesiastesensina, há um tempo para tudo: para derrubar e para edificar,para atirar pedras ao ar e para voltar a juntá-las.“andava um homem à procura de siquando reparou que as searas tinham sido incendiadaso mar se desregularae o sol ardia de outra maneira”O desastre é sempre um início. Reconfiguração do mundo. Des-astre:a queda das estrelas, a desordem no espaço celeste – a que cor-responderia uma desordem paralela na vida dos indivíduos. O desastreé a inesperada alteração da realidade (seja ela ou não real). A perdados referenciais habituais. Um abalo. Um naufrágio. O apagamento1 Carlos Nogueira, construção para lugar nenhum,2001/03 – página do projeto, coleção do autor.3
  3. 3. do horizonte conhecido e da segurança da ordem. Desregulamento:ficar sem lei. A descoberta de que há outras maneiras do sol arder.Dentro do desastre, no entanto, há homens que sentem o impulsode resistir. Reconstruir. O impulso da revolta – movimento quenasce do amor. Como os habitantes dos Alpes, que tanto espantaramHegel, porque depois de verem a sua cabana destruída por mais umaavalanche, construíam, no mesmo lugar, uma nova. Uma e outra vez.Luta contra potências superiores. Ou melhor, luta contra a (sua)própria impotência. Sempre a recomeçar. Entre o nada e o todo.O desastre é princípio. Permite um ponto de vista desconhecido, masmais próximo das raízes, do solo fértil, do aterro das fundações,da obscuridade da origem. Um choque que a obra de arte pode pro-vocar. Ou seja, é a própria obra de arte quem deita fogo ao mundo.Ela ameaça, destrói e recria um horizonte novo. É ela o desastre,escreveu Blanchot.“andava um homem à procura de siquando reparou que as searas tinham sido incendiadaso mar se desregularae o sol ardia de outra maneiracom as mãos que pôde dedicou-se a juntar pedrase o que restava”Juntar pedras e os restos: uma definição possível do gesto artís-tico. Desses restos, recusados por outros, o artista constróia obra – a luz do passado, as ruínas, os ossos enterrados, o muroesquecido que atravessa o campo, o eco das palavras dos poetas,os afectos presentes – porque “o que resta” é semente. Desde quenão se pense o passado como intocável, a história como sagradaou o gesto artístico como pura recomposição do já feito: aí estátudo morto – e o que permite que permaneça vivo, que se possamjuntar as pedras e os restos, é a história não oprimir e manietaras mãos aos que querem recriar as possibilidades do mundo. As cinzassão terreno fértil.Com as mãos que pode, que a cada momento pode, mãos sempre dife-rentes, constrói sempre diferente sobre esse território do desastre.Dentro de um contexto ou situação, assumindo-a ou contrariando-a:o gesto artístico é intempestivo, inatual. Para lá do tempo em quese inscreve. Vem de longe e vai para muito longe. Anacrónico,interroga sempre o tempo. O contexto histórico não o determina:o seu poder – e critério de validade – é o da recontextualizaçãosempre possível. Sem vedações temporais.Os restos: o que os construtores rejeitaram, ele acolhe. Coloca-osob a luz. O inútil, o abandonado, é agora o centro. No caso destaexposição, encontramos um duplo centro.Primeiro, e de modo imediato, oferece-nos uma estrutura útil a umaconstrução, mas que tendo realizado a sua função se torna desne-cessária: o gesto do artista cria um desvio ao recuperar o obsoleto.
  4. 4. Ao trazer para dentro do espaço expositivo, nesse deslocamento,constrói obra com o que foi rejeitado pelos construtores: a cofra-gem torna-se na própria obra. E aplica-lhe um outro desvio:deita-a, como se tivesse caído. Retomada num outro discursoe desviada da sua anterior função e verticalidade, produz-seum acréscimo inesperado de sentido. Re-dispõe o mundo. Des-loca:altera de lugar e, mais do que isso, altera o lugar.Em segundo lugar, e de modo mais desviante, ele propõe à nossaexperiência a centralidade do aparentemente inútil: o vazio.Lembra-nos que a casa é construção em redor de uma ausência. É elaque é útil, ainda que desvalorizada. O vazio é espaço criador,de acolhimento. Como Lao Tse escreveu:“Molda-se o barro para fazer um vaso.É precisamente o que nele não existeQue dá utilidade ao vaso.Furam-se portas e janelas para fazer uma sala.É precisamente o que nela não existeQue dá utilidade à sala.Por isso,O que existe é o que lhe dá valor,O que não existe é o que os torna úteis.”O que é verdade com a casa, é-o com a obra e com o homem. Tambémeles são construídos em redor do vazio. Uma esfera em que o centroé o vazio e a circunferência é mutação permanente, mas finita.Espaço inviolável e indomável. Espaço plástico. É o vazio existenteque permite a plasticidade – da obra e do homem (morrer é perdero centro vazio). Mobilar o vazio, ilusoriamente preenchê-lo, tornaro maleável e plástico em fixo e rígido, é perder a casa. Perdera obra. Perder-se.Como manter o vazio e construir em seu redor? Sem expulsar oumascarar o vazio, mas assumi-lo. Transparecê-lo.O homem que se procura, encontrará o vazio – que é. Colocaráas pedras e os restos com as mãos que tem, dando-lhe a formapor vir, nascente, em redor do vazio. Mediando-o. Dando-o a ver.Um vazio dentro, outro fora.“andava um homem à procura de siquando reparou que as searas tinham sido incendiadaso mar se desregularae o sol ardia de outra maneiracom as mãos que pôde dedicou-se a juntar pedrase o que restavaa construir uma casa geométrica com abertura para cima5
  5. 5. no sentido ao contrário da paisagem e das casasque até então conhecera”Juntar pedras e restos para construir uma casa com abertura paracima. E será ainda uma casa, se se abre ao céu e se fecha à hori-zontalidade? Inútil sinal de escândalo. Desviante. Reformulaçãodas leis da pragmática, da física, da arquitetura.Reconfiguração do espaço – a obra do artista é permanente expe-rimentação no e sobre o espaço, desenho espacial, aparição de umantes inexistente.Uma casa geométrica – trabalho próprio da razão humana, desvioda natureza, subversão. Cosa mentale. Mas ao construir recusandoo lugar comum e a fórmula habitual, desvia-se ainda do desvioque já é a geometria. E dá-lhe uma dimensão matérica e corporal:coisa espacial. Uma passagem do pascaliano espírito de geometria(mundo mental e cego), ao espírito de fineza: é necessário saberolhar com o corpo o que temos diante. Parece ela mesma um desastre– inesperada desorientação. O lugar do choque é esse espaço abertovazio, experiência sensível do pensamento e da dúvida.A casa-descrita do texto, aberta ao céu, é sujeita a múltiplosdesvios: inclinando-a, fecha-se ao céu, e abre-se ao horizonte;deita-a, fá-la cair; torna-a transparente, exposta; provoca umasuspensão do processo da sua construção, dando a ver o momentoantes do fim; o que era um meio, um dispositivo intermédio,torna-se ele próprio em finalidade. A transparência não é apenasa do material, o acrílico, mas a de dar a ver o que habitualmentenão se quer que se veja. O im-perfeito. O anterior ao estado final.O rascunho que é pensado e assumido como obra.“andava um homem à procura de siquando reparou que as searas tinham sido incendiadaso mar se desregularae o sol ardia de outra maneiracom as mãos que pôde dedicou-se a juntar pedrase o que restavaa construir uma casa geométrica com abertura para cimano sentido ao contrário da paisagem e das casasque até então conheceracom a luz que ainda haviafez-lhe chão”Um resto – uma réstia – de luz é agora chão. E o chão da casadistingue-se do chão da rua. Mesmo quando a luz é a mesma(não o sendo nunca). As paredes da casa separam dentro e fora.A intimidade e a rua, do poema de Ruy Belo. Mas não existem umasem a outra. O que separa, une.Ao juntar à “casa deitada” dois desenhos sobre madeira que recu-
  6. 6. perou da sua juventude (outros restos), introduz na exposição,de forma mais evidente, essa exterioridade (?) da rua: uma preo-cupação antiga, a organização do espaço público que é sempre oreverso da casa. Desdobramento. Construir o espaço privado (casa)é construir o espaço público (rua).A casa, como a obra, permite essa dupla construção: de uma inti-midade, diferente em cada um, numa relação pessoal com a obra;de uma comunidade, que a obra também exige (e forma). A obra écriadora de comunidade, não apenas de subjetivação – e poucasobras o mostram tão bem como essa brincadeira séria que o artistapropôs em 1978: O pombal. 99 pombas de brincar para outros tantosusadores. Construção de uma comunidade estética e política, dassuas regras desregradas, na partilha comum da experiência lúdicasingular. Procura de si sempre com outros. A intimidade não seencontra apenas dentro de casa, mas na rua: nelas passamos pelosoutros, mas principalmente por nós, lembrava o poeta.Dentro e fora, pela construção, aquele que se procura pode encon-trar-se, nunca se encontrando: fazendo-se. De modo frágil. Pegarnuma mão-cheia de areia no deserto e atirá-la uns metros maispara a frente: é a nossa forma de mudar o mundo. Uma afirmaçãopositiva da pobreza e da fragilidade – e o artista citou-me umdia, no seu atelier, uma frase de Tagore: “Não há nada melhor queo ganho perfeito; mas se é impossível consegui-lo, o que melhorexiste a seguir é a perda perfeita”. Hoje lembrar-lhe-ia uma frasedo poeta Edmond Jabès – de um livro que encontrei na sua biblio-teca: “A riqueza de Deus é a de ser de tal maneira pobre, quenenhuma pobreza se compara à Sua.” O ganho perfeito, a perda per-feita, coincidem, afinal. Mas humanamente inacessíveis. No entanto,sem o despojamento da perda (mesmo que imperfeita) não pode haveratitude de espera, de atenção que cria o mundo (riqueza): dispostosem direção ao que vem. Num (des)equilíbrio entre acolher o rejei-tado e aprender a rejeitar. Porque impuros, em nós não há nemganho perfeito, nem perda perfeita. Não tocamos o todo, nemabarcamos o nada. Somos o meio, na corda suspensa do funâmbulo.Casa e rua em construção.Paulo Pires do Vale7
  7. 7. Casa deitada, 2012, ferro, acrílico e madeira, 300 x 300 x 300 cm
  8. 8. Paisagem com casas, 1962, óleo e grafite s/ madeira, (2x) 30,3 x 21,3 x 9 cm

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