Monografia ESTEADEB

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O artificialismo da mensagem bíblica por pregadores sensacionalistas numa geração pós-moderna.

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Monografia ESTEADEB

  1. 1. ESCOLA DE TEOLOGIA DAS ASSEMBLÉIAS DE DEUS NO BRASIL ESTEADEB CURSO LIVRE BACHAREL EM TEOLOGIA GEORGE LEITE FREXEIRA O ARTIFICIALISMO DA MENSAGEM BÍBLICA POR PREGADORES SENSACIONALISTAS NUMA GERAÇÃO PÓS-MODERNA CARUARU JANEIRO/2011
  2. 2. GEORGE LEITE FREXEIRA O ARTIFICIALISMO DA MENSAGEM BÍBLICA POR PREGADORES SENSACIONALISTAS NUMA GERAÇÃO PÓS-MODERNA Trabalho monográfico apresentado como exigência final para a obtenção do título Bacharel em Teologia pela Escola de Teologia das Assembléias de Deus no Brasil – ESTEADEB. ORIENTADOR: PROF.ª VANESSA DE BARROS LIMA BASTOS SILVA CARUARU JANEIRO/2011
  3. 3. Frexeira, George Leite CDD 90.1 O artificialismo da mensagem bíblica por pregadores sensacionalistas numa geração pós-moderna. George Leite Frexeira – Caruaru, 2011. 84 f. Monografia (Curso Livre Bacharel em Teologia) Escola de Teologia das Assembléias de Deus no Brasil – ESTEADEB. Orientadora: Vanessa de Barros Lima Bastos Silva Banca: Vanessa de Barros, Saulo Soares, Erodita. Inclui bibliografia 1. Componentes éticos e sociais na pregação. 2. Artificialidade e sensacionalismo nas mensagens. I. Autor. II. Escola de Teologia das Assembléias de Deus no Brasil. III. Título. CDU 90.10
  4. 4. ERRATA Folha Linha Onde se lê Leia-se 13 3 “bombardeados” “bombardeadas” 15 6 “geração” “gerações” 36 15 “utiliza” “utilizam” 50 31 “atestará” “atestarão” 77 5 “acostumadas” “acostumados”
  5. 5. O ARTIFICIALISMO DA MENSAGEM BÍBLICA POR PREGADORES SENSACIONALISTAS NUMA GERAÇÃO PÓS-MODERNA GEORGE LEITE FREXEIRA Aprovado em:_____/_____/_____ BANCA EXAMINADORA ___________________________________________________________________________ Profª Vanessa de Barros Lima Bastos Silva Bacharel em Teologia com Concentração em Missiologia – BETEL Licenciatura Plena em Educação Religiosa – BETEL Pós-Graduação em Teologia Bíblica – SPN ___________________________________________________________________________ Profº Alessandro Barreto Bacharel em Teologia com Concentração em Missiologia – STPN Licenciatura Plena em Teologia – IBETEL Curso Superior em Teologia – UMESP Capelania Evangélica – UCEBRAS Pós-Graduação em Educação Religiosa Escolar e Teologia Comparada - ESAB ___________________________________________________________________________ Profª Erodita D`ángele Licenciatura Plena em Educação Religiosa – STEN Licenciatura Plena em Ciências da Religião – UVA Pós-Graduação em Ensino de História das Artes das Religiões - URPE
  6. 6. Dedico aos meus pais (in memorian), pois, se há algo a elogiar em meus pensamentos ou em meu estilo, o crédito é devido a eles, por me instruírem de um amor precoce pelas Escrituras.
  7. 7. AGRADECIMENTOS Agradeço a Deus que me deu a inspiração, e a minha amada esposa e filhos pela compreensão das muitas horas que tive que dedicar à elaboração desta obra, omitindo muitas vezes a minha presença em família. Agradeço também ao nosso Pastor Presidente das Assembléias de Deus (Ministério do Recife/PE) Ailton José Alves, bem como ao Gestor da filial em Caruaru (PE), o Pastor Jayme Alexandre dos Santos por terem uma visão cristocêntrica e uma percepção viva e dinâmica do aprendizado das Sagradas Escrituras, permitindo o estudo aprofundado em um curso teológico voltado para as bases e os fundamentos da nossa fé, bem como o melhor conhecimento das diretrizes das nossas igrejas locais. Gostaria também deixar aqui registrado a alegria e o agradecimento aos nossos professores da ESTEADEB – Extensão Caruaru/PE, em especial o professor/coordenador Saulo Soares, a irmã Ana Cândido (professora de grego e hebraico) e a irmã Vanessa Bastos – nossa orientadora durante o processa de compilação de nossas monografias; e ainda, não poderia deixar de mencionar a gratidão ao Pastor José Maximiano Sampaio (que pastoreou uma de nossas filiais na cidade de Pesqueira/PE) sendo meu pastor durante esse período de minha vida cristã e a primeira pessoa a me apresentar a essa “rainha das ciências”, a TEOLOGIA, e me incentivar ao seu estudo sistemático e hermenêutico, pela qual tenho dedicado parte de minha vida a aprofundar-se biblicamente através dela.
  8. 8. “Eu, de muito boa vontade, gastarei e me deixarei gastar pelas vossas almas”. II Co 12; 15
  9. 9. RESUMO Esta pesquisa visa analisar as causas do artificialismo da mensagem bíblica e suas conseqüências por parte de pregadores neo-pentecostais, que estão preocupados somente com o sensacionalismo das platéias, deixando fora a essência das Escrituras Sagradas e seu contexto hermenêutico e doutrinários. O assunto em estudo é discutido por várias autoridades teológicas e é desafiador para a geração atual, tendo em vista, o tema não ser conclusivo, porém identificado por fatores diversos, interna e externamente no âmbito evangélico e que estaremos apresentando durante o desenvolver desta pesquisa. A intenção do mesmo não é esgotar o assunto, mas levar os leitores a uma reflexão cristocêntrica, em detrimento do aumento emocionalista da mensagem e a tendência mercantilista em que pregadores fazem uso de um marketing às revezes nos púlpitos protestantes. Palavras Chaves: artificialismo, pregadores, emocionalismo, sensacionalismo e mensagem.
  10. 10. ABSTRACT This research aims to analyze the causes of the artificiality of the biblical message and its consequences on the part of neo-Pentecostal preachers who are concerned only with the sensationalism of audiences, leaving out the essence of the Scriptures and its hermeneutical and doctrinal context. The subjects under study are discussed by various authorities and theology is challenging for the current generation in order, the subject is not conclusive, but identified by different factors both internally and externally within evangelical and we will be presenting during the development of this research. The intent of that is not exhausting the subject, but lead readers to reflect Christ- centered, rather than increasing emotional message and mercantilist trend in which preachers make use of marketing setbacks in Protestant pulpits. Keywords: artificiality, preachers, emotionalism, sensationalism and message.
  11. 11. SUMÁRIO Introdução CAPÍTULO I – INDÍCIOS HISTÓRICOS DO DISTANCIAMENTO DA MENSA- GEM BÍBLICA....................................................................................................................14 1.1-Formação das famílias denominacionais e suas correntes teológicas.............................14 1.2-O liberalismo teológico numa sociedade pluralista.........................................................18 1.3-Correntes avivalísticas no final do século XX.................................................................23 1.4-O enfraquecimento doutrinário e espiritual e seu impacto na religiosidade....................29 CAPÍTULO II – A ARTIFICIALIDADE NAS PREGAÇÕES E O RADICALISMO DAS IDÉIAS.........................................................................................................................32 2.1-Tendências modernas e relativistas.................................................................................32 2.2-O marketing nos púlpitos e o utilitarismo mercantilista .................................................36 2.3-Os louvores e a filosofia pragmática...............................................................................38 2.4-Sensacionalismo desesperador e a manipulação das platéias..........................................41 2.5-Ouvintes tendenciosos e viciados....................................................................................44 CAPÍTULO III – COMPONENTES DE UMA CONSTRUÇÃO TEOLÓGICA E ESPIRITUAL FAVORÁVEIS NA PÓS-MODERNIDADE............................................47 3.1-Ensinar o estudo doutrinário e hermenêutico Bíblico......................................................47 3.2-Empreender uma comunicação evangelística fluente......................................................49
  12. 12. 3.3-Interagir com as gerações presentes não desprezando os fundamentos históricos do passado...................................................................................................................................52 3.4-Favorecer a ética na condução da mensagem e à educação teológica.............................54 Conclusão Referências Bibliográficas Anexos
  13. 13. LISTA DE ILUSTRAÇÕES Desenho 1-Revista Época – Púlpito Cristão/agosto/2010 – Os Novos Evangélicos................26 Desenho 2-Revista Época – Redenção e Rupturas: Dois mil anos de reinvenção da fé cristã/agosto/2010 – Os Novos Evangélicos.............................................................................28 Desenho 3-Pirâmide de Maslow – Marketing..........................................................................44
  14. 14. 12 INTRODUÇÃO Quando abordamos assuntos como a influência emocionalista de preletores e a tendência viciosa dos ouvintes, demonstramos a necessidade de uma maturidade cristã em níveis bem elevados e com um sentimento que retoma os primórdios da igreja primitiva, ou mais precisamente à alusão ao que Jesus Cristo veio deixar como exemplo nos corações dos seus seguidores. O exemplo incansável de dedicação e amor ao próximo nunca teve exigências para levar as Boas Novas àqueles que necessitavam. Pregador por excelência, Jesus certamente negava-se a si mesmo quando o assunto era propagar o evangelho. Ele tinha como púlpito um barco em alto mar, ou uma elevação de uma campina; para que sua voz fosse mais longe, estrategicamente ele aproveitava o vento ao seu favor, ou enfrentando os preconceitos de sua época sentava-se com as pessoas de classes mais desfavoráveis. Foi assim que implantou a sua mensagem na terra e que, esta, por sua vez, tem chegado aos nossos dias atravessando gerações, culturas, traduções, perseguições, religiosidades, costumes e fortalecendo suas doutrinas. Em pleno século XXI cresce a urgente necessidade de “tocar a buzina em Sião” e dar continuidade ao grande desafio que a Igreja possui de transmitir o mais fiel possível os registros deixados pelo Mestre por excelência. No entanto: “[...] se a trombeta der sonido incerto, quem se preparará para a batalha?” (ARA, 1 Co. 14.8b). Em dias atuais demonstrar a necessidade de um autêntico posicionamento cristão com a transmissão, propagação e ensino das Escrituras é fator determinante no posicionamento ético, que conduz a boa imagem da religião ou denominação que assim o pratica e compromisso sério assumido por aquele que é porta-voz da mensagem Bíblica. Esta pesquisa assume o papel de incentivar os leitores que fazem uso da Palavra de Deus e usam os púlpitos denominacionais para influenciar a sociedade pluralista, aproximando-a da conduta cristã, focalizando a doutrina ortodoxa e hermenêutica, não perdendo os valores alcançados no passado por homens e mulheres que até deram as suas vidas para que hoje livremente a salvação fosse anunciada. Procurar identificar as causas que levam ao esfriamento no uso da retórica e favorecer a sensibilidade pentecostal e carismática, combatendo os algozes da atualidade que se escondem em novas formas de liberalismo, neo-
  15. 15. 13 ortodoxismo, relativismo, fundamentalismo e tantos outros nomes que mais enganam do que solucionam problemas, são sem dúvida, o maior desafio para a Igreja do nosso século e principalmente para muitos líderes que vêem suas igrejas sendo bombardeados por movimentos estranhos e diferenciados, levando muitas “ovelhas a procurarem abrigo em outro redil”. Já há muito tempo que a crise do sensacionalismo cresce nas igrejas evangélicas e que pregadores são capazes de mobilizar as massas, cauterizando suas mentes. Pessoas são tocadas pela emoção, mas distanciam-se de usar uma reflexão consciente dos valores, trazendo uma crise de “identidade”, não se lembrando mais de suas raízes. Isso se dá devido à falta de conhecimento exegético e de uma vida não voltada para a santificação, que os tornam vulneráveis ao engano dos falsos teólogos, mesmo vivendo em um século de pleno avivamento espiritual.
  16. 16. 14 CAPÍTULO I – INDÍCIOS HISTÓRICOS DO DISTANCIAMENTO DA MENSAGEM BÍBLICA 1.1-Formação das famílias denominacionais e suas correntes teológicas “Para compreender o presente é preciso conhecer o passado”. Esta frase de autor desconhecido serve como ponto alusivo em relação ao que ratificamos nesta pesquisa. Tentando entender as possíveis causas do distanciamento de muitos pregadores contemporâneos e suas mensagens com os fundamentos bíblicos, e também a crescente tendência de atribuir empolgantes apelos pelo emocionalismo dos ouvintes, foi que procuramos resgatar nos fundamentos das igrejas primitivas onde possivelmente houve essa lacuna e enfraquecimento do caráter humano para com a Palavra Divina. Tendo suas origens em décadas passadas, no que se diz respeito à formação teológica durante a trajetória histórica nas principais igrejas, foram onde grandes nomes aparecem num cenário turbulento e em constante modificação. Tal influência foi substancialmente afetada por questões políticas, unindo a Igreja e o Estado, pelas reformas e seus idealizadores e pelos concílios ecumênicos. Bem mais próximo de nossa época, porém, não menos importante, está a divisão do Protestantismo, onde temos: verticalmente a formação de famílias denominacionais (luteranos, anglicanos, presbiterianos, metodistas, batistas e congregacionais), e horizontalmente influenciados por correntes teológicas e filosóficas, ou seja, a tradição conservadora da ortodoxia (doutrina), o puritanismo (santidade), o pietismo (devoção), o liberalismo (razão) e os avivamentos pentecostais (impulso missionário). A esses dois fenômenos (denominacionais e teológicos), as influências de Martinho Lutero, João Calvino, Jacó Armínio, João Wesley, Jonathan Edwards e muitos outros formariam as bases para uma construção de elementos de uma fé protestante, ou seja: características denominacionais, doutrinas e credos protestantes e afirmações teológicas. É através dessas afirmações que os idealizadores abrem um “leque” para propagar as mais variadas formas de interpretação das doutrinas Bíblicas e a forte influência da imposição de seus dogmas através de seus seguidores e de todo um contexto político-filosófico sofrido em decorrência da busca do ser humano completo. Longe de eu afirmar que esses grandes homens são responsáveis pela propagação errônea da mensagem atualmente; a intenção não é
  17. 17. 15 esta. Sabemos que foram pessoas que agiram de forma correta em uma época que se exigia tomar posicionamento para afastar as constantes ameaças ao cristianismo. O problema resulta depois que esses nomes deixam o cenário da vida e entregam seu legado a seus substitutos e assim por diante, compulsoriamente a ortodoxia vai perdendo espaço para dogmas humanos, a santidade apresenta-se no homem como egocêntrica, e a devoção esfria-se resultando em néscios na fé. Gerações após geração vêem o protestantismo ser minado, não por perseguições que finalizavam na morte de multidões de pessoas, mas agora por uma infiltração sorrateira de cismas com os postulados da fé cristã e uma conseqüente propagação errada, superficial e insípida da genuína Palavra de Deus. Dentre as muitas causas que levaram os protestantes históricos a fomentarem uma teologia cristocêntrica, porém seguindo rumos e ideologias diferentes, têm como resumo a busca incessante do ser humano em se redimir de sua situação caótica de pecado e o seu impulso vertiginoso de praticar o que é “reto e bom”, custe o que custar, seja qual for o preço. Os palcos onde foram dramatizados esses relatos de busca ao conhecimento divino retomam desde tempos bem antigos da história da humanidade, porém o nosso relato se prende precisamente a partir do século XVI e avançam para o presente como uma numerosa chuva de idéias e práticas filosóficas dentro do protestantismo. Segundo OLSON (2001, p. 463), com o rompimento de Martinho Lutero e a Igreja Católica, os protestantes discordavam entre si sobre várias questões secundárias, mas conseguiram compor uma frente relativamente unida contra a Igreja de Roma. Mesmo com suas diferenças, teólogos luteranos, reformados e anglicanos permaneceram unidos teologicamente, mas não politicamente. É aí que o século XVII testemunhou o aparecimento de grandes “rachaduras teológicas”, não somente entre as famílias protestantes, mas também dentro de cada uma delas. O Arminianismo, que teve seu principal fundador, o teólogo reformado holandês Jacó Armínio, entra em oposição direta com os seguidores de Zuínglio e de Calvino em conflitos desgastantes sobre a doutrina da predestinação. A doutrina calvinista clássica estava sendo rejeitada em favor de uma crença mais anabatista no sinergismo e no livre-arbítrio. Ainda hoje os calvinistas tradicionais acusam freqüentemente os arminianos por terem se “desviado” da teologia protestante clássica, rejeitando as crenças fundamentais da Reforma protestante, iniciadas por Lutero.
  18. 18. 16 Segundo intérpretes da atualidade, “um dos movimentos menos compreendidos da história do cristianismo é sem dúvida, o pietismo” (OLSON, 2001, p. 485). Era um movimento da renovação que pretendia completar a Reforma protestante alemã, e seus principais pensadores e líderes eram clérigos luteranos, porém tal reforma deveria ser consumada por uma nova reforma da vida. A característica principal do pietismo protestante era ressaltar a experiência religiosa pessoal, especialmente o arrependimento e a santificação. OLSON (2001, p. 488) relatou em sua obra que o pietismo adotava um lema popular: “Melhor uma heresia viva do que uma ortodoxia morta”, referindo-se assim da reforma luterana que se encontrava destituída e caótica. Outro movimento bastante controverso, contudo também se preocupou de aprimorar a reforma protestante, foi o puritanismo que forçosamente se opôs ao anglicanismo dentro da Igreja de Inglaterra da Rainha Elisabete I. Eram os herdeiros dos “evangelistas fervorosos” e o rótulo puritano lhes foi atribuído pelo desejo de purificar a igreja dessas tradições e adaptá-la à sua própria visão da genuína teologia e prática reformada (OLSON, 2001, p. 508). Na Inglaterra os puritanos se dividiram em várias denominações, dentre elas: Os Presbiterianos calvinistas e os congregacionais e batistas dissidentes. Com o seu ideal da igreja pura, os puritanos tiveram em Jonathan Edwards o principal avivador no século XVII. Porém com o enfraquecimento puritano, as igrejas anglicanas se voltaram para o racionalismo frio, e é nesse cenário que aparece John Wesley, o fundador do metodismo, que em outras palavras significa: criar e praticar um método de espiritualidade (OLSON, 2001, p. 522). John Wesley preocupa- se em reavivar o espírito evangélico da Igreja da Inglaterra, porém sem impor a teologia reformada às pessoas. Historiadores descrevem sua teologia como um “arminianismo do coração” combinado com o pietismo que ardia com o fogo do reavivamento. Roger Olson, já citado aqui, menciona em sua obra: História da Teologia Cristã – 2000 anos de tradição e reforma que: [...] O cristianismo evangélico é uma subcultura multifacetada notoriamente difícil de definir com precisão [...] A teologia e a vida evangélicas têm uma doutrina conservadora, no sentido de procurar preservar e manter as doutrinas cristãs clássicas dos pais da Igreja e dos reformadores. Tanto Edwards quanto Wesley resistiram ao que consideravam inclinação para o racionalismo e a acomodação à cultura. Tinham se comprometido com a ortodoxia cristã, (2001, p. 528). No século XVII e início do XVIII, outros reformadores tentaram levar o protestantismo para uma nova e diversa maneira de pensamento. Denominada de deísmo, essa corrente teológica segundo Olson (2001, p. 531) elevavam a razão humana e a religião acima
  19. 19. 17 da fé e da revelação especial, procurando fortalecer a ciência, a filosofia e a política. Influenciada fortemente pelo Iluminismo, a maioria dos deístas não se filiaram a nenhuma igreja unitarista e continuaram como religiosos independentes sem nenhum vínculo denominacional. O legado do deísmo é visto na ascensão da teologia liberal protestante do século XIX. A cultura moderna se faz imponente na relação do homem e sua capacidade de ideologias definidas por filósofos, sociólogos, poetas, políticos, psicólogos e muitos outros. A teologia liberal tenta ajustar-se à cultura moderna, porém sem muito êxito, principalmente no âmbito de tradições religiosas ortodoxas. “A necessidade de reconstruir o pensamento tradicional cristão à luz da cultura, filosofia e ciências modernas, e a necessidade de descobrir a verdadeira essência do cristianismo, destituída dos dogmas tradicionais que não eram mais relevantes nem possíveis de serem criados à luz do pensamento moderno” conforme Olson (2001, p. 547) aponta para o liberalismo como uma tendência inevitável do futuro. A mudança mais dramática que ocorrera no protestantismo, principalmente da América Latina, surgiu com a chegada da forma pentecostal do cristianismo, originário dos EUA no início do século (1901), em dois modelos distintos: o sueco e italiano. Conforme Cairns (1995, p. 374) o movimento das Assembléias de Deus que começou no Brasil com Gunnar Vingreen e Daniel Berg, em Belém do Pará tinha o impulso missionário dos avivamentos que estavam acontecendo gradativamente em vários países das Américas. Também fazendo alusão ao referido movimento, Reily (2003, p. 364) argumenta que o pentecostalismo surgiu do movimento de “santidade”, que por sua vez deve muito aos ideais wesleyano da perfeição cristã como uma segunda obra da graça, distinta da justificação, e que os últimos anos presenciariam a proliferação de novos ramos e notável crescimento e expansão geográfica do movimento. É nesse cenário que surgem, além da Assembléia de Deus no Brasil, outras igrejas com costumes e adorações próprias de avivalísticas, tais como: a Igreja do Evangelho Quadrangular, Congregação Cristã no Brasil e Igreja Evangélica Pentecostal O Brasil para Cristo. [...] Por causa dos métodos e do tipo de espiritualidade comuns entre os pentecostais (tendências proselitista; moralismo rigorista proibindo cinema, teatro, TV, fumo e álcool; proibindo às mulheres o uso de maquiagem, roupa justa e cabelos curtos), de aspectos da sua teologia (sua interpretação da doutrina do Espírito Santo, especialmente quanto aos dons, seu biblicismo, sua postura antiecumênica) e ainda por razões sociólogas (seus membros parecem ser das classes inferiores e marginalizadas, e as igrejas pentecostais constituem-se, desse modo, em “refúgio das massas”), houve pouco diálogo entre pentecostais e igrejas históricas no Brasil. (REILY, 2003, p. 366).
  20. 20. 18 Diante de tantos acontecimentos durante a trajetória do protestantismo é nítido como a mensagem Bíblica ficou ao mesmo tempo em que estudada rigorosamente por teólogos comprometidos com a verdade, também exposta às interpretações próprias de questões mais que políticas do que evangélicas. E nesse ambiente cultural-filosófico em transformação que o nosso século XXI é bombardeado por inúmeras seitas e falsos ensinadores que tombaram a mercê do egoísmo litúrgico ao enfraquecimento dos pilares do cristianismo. 1.2-O liberalismo teológico numa sociedade pluralista O liberalismo teológico ou teologia liberal foi um movimento cuja produção se deu entre o final do século XVIII e início do século XIX. Relativizando a autoridade da Bíblia, o liberalismo teológico estabeleceu uma mescla da doutrina Bíblica com a filosofia e as ciências da religião. Logo, uma pessoa que não reconhece a autoridade final da Bíblia em termos de fé e doutrina é denominada, pelo protestantismo ortodoxo, de “teólogo liberal”. Um nome considerado o principal idealizador e pai da teologia liberal foi Friedrich Schleiermacher (1768-1834). Em grosso modo os liberais negam a inerrância bíblica, a historicidade dos milagres, o nascimento virginal, a divindade, ressurreição corpórea e parousia (advento) de Cristo. O liberal clássico crê que a religião é apenas um sentimento de encontro do homem finito com o infinito, o que gera um sentimento de independência, ou seja, se o homem sente a comunhão com Deus, ele está salvo, sem precisar crer no Evangelho de Cristo. NICODEMUS (2008, p. 35) diz: “[...] Sempre fiquei admirado com o radicalismo das idéias e a criatividade dos antigos liberais alemães e americanos. Impressiona-me a coragem que demonstravam em cruzar as linhas que claramente demarcam o solo santo da fé histórica da Igreja”. “[...] O liberalismo não é cristianismo, mas outra religião” (MACHEN apud NICODEMUS, 2008, p. 35). Preocupados com a comunicação da fé ao homem moderno através da teologia e à sua mentalidade, os liberais, desenvolveram características próprias: uma leitura crítico-racional das Escrituras, não-confessionalidade credal, não se devem crer naquilo que a ciência não explica (referindo-se aos milagres) e ética relativista moral, onde não há nada certo ou errado, tudo é relativo.
  21. 21. 19 O termo teologia (derivada de duas palavras gregas, Theos e logos) é definido aqui como: “a doutrina de Deus”, ou em um sentido mais amplo como “a ciência de Deus e suas relações com o universo” (DAMIÃO, 2007, p. 39). Diversos grupos religiosos procuram dar uma aplicação própria ao sentido da palavra teologia, e com isso escurecem a sua verdadeira identidade e sua utilização no método científico para buscar o conhecimento sistemático da Bíblia. Como os movimentos antigos ressurgem com novos rótulos e em alguns casos só reestruturam, os neoliberais aparecem para melhorar o que já havia sido antes feito; e em tese nada mudam dos seus primeiros pais, no entanto, hoje, muitos teólogos pós-modernos usam dessas ferramentas para relativizarem as Escrituras. A Teologia da Libertação, o Movimento Teológico Feminista, a Teologia Negra, Movimento da Nova Era são alguns que prenunciam para o cristianismo o porquê dos neoliberais serem nocivos à Palavra de Deus. Segundo Grenz e Olson (2003, p. 237) as várias tentativas de responder à experiência contemporânea de opressão dos tiranizados da sociedade, apelaram para o tema da libertação, ou seja, unir forças com os oprimidos e discriminados numa luta a favor deles para descobrirem a realidade de Deus. É ai que várias linhas da teologia da libertação tiveram como ponto inicial a crítica ao intelectualismo característico da teologia tradicional quanto moderna. A Teologia Negra, iniciada nos EUA na década de 60, reavivou o interesse e intensificou o significado dos temas religiosos característicos da história dos negros na América. Seus escritores refletem o envolvimento com o liberalismo ou a neo-ortodoxia de seus professores. O seu início ocorreu com o impacto dos grandes acontecimentos para os negros dos Estados Unidos, personificado por Martin Luther King Jr., quando abordou os direitos civis igualitários. Wilmore e Cone, apud Grenz e Olson (2003, p. 242) sugerem que a teologia negra desenvolveu-se em três estágios. Entre 1966-1970, indicou o fim da subordinação das igrejas negras ao protestantismo branco; logo em seguida o foco saiu das igrejas negras e voltou-se para as instituições acadêmicas, quando teólogos profissionais entram em cena num vigoroso debate entre os estudiosos brancos; em terceiro estágio iniciado por volta de 1977, os teólogos negros desenvolveram treinamentos para os futuros líderes e seminários para o povo das igrejas e seu público. Um grande problema da teologia negra era o fato dela ser etnocêntrica, ou seja, aberta somente para seus membros negros e a doutrina cristã tradicional e seus elementos teológicos: Deus, pecado, salvação eram apresentados em termos políticos, sociais e econômicos,
  22. 22. 20 afastando-se do espiritualismo que embelezava a teologia clássica. A teologia negra da ênfase a cor, no ecumenismo negro e na “negritude” - um emblema de uma identidade cultural, e um termo usado bem mais que a consciência da cor da pele, tendo a ver com a afra-descendência, como uma nova definição, compreensão e sentimento de valor do negro em sociedade, que até então, significava sujeira, feiúra, maldade, etc. Também de forma crescente durante a década de 70 (século XX), a Teoria da Libertação, corrente teológica que engloba diversas teologias cristãs desenvolvida nos países do Terceiro Mundo (América Latina), baseada na opção pelos pobres contra a exclusão social e sua libertação, têm suas raízes em uma militância revolucionária. Os movimentos mais recentes dessa teologia encontram-se nos acontecimentos religiosos e seculares da metade do século XX, e no Brasil, Paulo Freire, escritor, envolveu-se num programa chamado por ele de conscientização, onde os próprios pobres deveriam se libertar de sua “mentalidade condicionada de dominado” e os ricos de dominadores (GRENZ; OLSON, 2003, p. 253). [...] A situação da pobreza é denunciada como pecado estrutural e estas teologias propõem o engajamento político dos cristãos na construção de uma sociedade mais justa e solidária, cujo projeto identifica-se com os ideais da esquerda. A Teologia da Libertação nasceu da influência de três frentes de pensamento: O Evangelho Social, das igrejas norte-americanas do missionário e teólogo presbiteriano Richard Shaull, a Teologia da Esperança, do teólogo reformado Jürgen Moltmann e a Teologia Política, na Europa, do teólogo católico Johann Baptist Metz e nos EUA, do teólogo batista Harvey Cox. Utilizando o Marxismo como base ideológica do movimento, a Teologia da Libertação é herética, sendo condenada inclusive pela Igreja Católica Romana (WIKIPEDIA, Teologia da Libertação. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Teologia_da_liberta%C3%A7%C3%A3o>. Acesso em 17 jul. 2010). O Movimento Teológico Feminista é uma corrente ideológica definida como uma das expressões de crescente alienação do Cristianismo tradicional e sua teologia entre as feministas; Grenz e Olson, (2003, p. 269) ainda descrevem sobre esse pensamento: [...] Nas palavras de uma das principais teólogas feministas: “Quanto mais alguém se torna feminista, mais difícil fica ir à igreja”. Aquelas que escolheram ficar dentro da igreja institucional têm feito pressão para que se use uma linguagem inclusiva nos cultos, de modo que a humanidade não seja identificada pelo termo “homem” e Deus não seja sempre Pai, mas também Mãe algumas vezes. A arte da igreja também é afetada. Uma escultura de “Crista” – Cristo como uma mulher crucificada – pode ser vista numa catedral em Nova York. Abordando a questão da consciência feminina, este movimento iniciado na América do Norte é resultante do Movimento Feminista que compartilha semelhanças entre a Teologia Negra e a Teologia da Libertação, partindo da questão de opressão e dominação, ou seja, o machismo e o patriarcado – a dominação cultural das mulheres pelos homens. É necessário
  23. 23. 21 observar que nem toda a teologia feminina é cristã; algumas são judias e outras não-cristãs que defendem uma nova forma de paganismo através da adoração da “Deusa Mãe”. Conforme uma das grandes articulistas desse movimento, Rosemary Ruether, as tradições bíblicas deveriam caracterizar também “a identidade da mulher, sua igualdade à imagem de Deus, sua igual possibilidade de redenção, sua participação na profecia, ensino e liderança” (GRENZ; OLSON apud RUETHER, 2003, p. 272). Enfatizam que toda doutrina e conceito teológico precisavam ser examinados à luz da consciência de que as mulheres haviam sido oprimidas na igreja igualmente quanto em outras partes da sociedade. As abordagens das teólogas feministas em relação à crítica da tradição cristã delatam o androcentrismo - “visão de mundo dentro da qual o homem possui toda dignidade, virtude e poder, ao contrário das mulheres, que são vistas como inferiores, defeituosas, menos do que plenamente humanas, estranhas ou o outro em relação às normas masculinas” (GRANZ; OLSON, 2003, p. 274). Todas as teólogas feministas concordam que as Escrituras sozinhas não podem ser usadas como princípio de autoridade para a teologia, pois nela está uma influência forte do Patriarcado. Quando se fala em “feminização” da igreja, as mulheres ainda são responsáveis pela maior quantidade de indivíduos que “enchem” os bancos das mesmas em todos os países da civilização ocidental (PEARCEY, 2006, p. 364) - o que se deu a origem do estereótipo de que religião é para mulheres e crianças. No entanto no judaísmo e islamismo os homens predominam. Fica notório, que para nós cristãos, é indiscutível sabermos diferenciar entre o movimento a favor da igualdade e direitos das mulheres dentro da igreja e a teologia feminista, pois, enquanto o primeiro tem ganhado espaço dentro de muitas religiões cristãs e linhas teológicas mostrando a participação plena das mulheres ao lado dos homens, o segundo, no entanto, com as idéias e afirmações ensinadas por suas seguidoras deixam bem claro que não se trata de um movimento de feminismo cristão, mas de uma distorção nociva aos postulados sociais e éticos da ortodoxia contemporânea. Isso não é teologia e sim ideologia. Outro grande acontecimento no campo ideológico foi o conhecido Movimento da Nova Era1 que se originou na fundação da Sociedade Teosófica em 1875, em Nova York, pela russa Helena Petrovna Blavatsky. Uma das doutrinas básicas da teosofia ensina que todas as 1 SOLASCRIPTURA, A História do Movimento Nova Era. Disponível em: <http://solascriptura- tt.org/Seitas/HistoriaMovNovaEra-SilasSSousa.htm>. Acesso em: 17 jul. 2010.
  24. 24. 22 religiões têm "verdades comuns", as quais transcendem todas as diferenças. Os adeptos da Sociedade Teosófica acreditavam na existência de “mestres”, os quais seriam seres espirituais ou homens especialmente favorecidos pelo destino e que haviam “evoluído” mais do que a grande massa, isto é, os que haviam se tornado especialmente “iluminado”. Os programas dos grupos da Nova Era, que à primeira vista têm assuntos sobre um estilo de vida saudável, foram aceitos na economia e em todas as camadas sociais, até mesmo em alguns círculos cristãos. Eles contêm, normalmente, os seguintes itens, os quais, no fundo, são diversas formas de técnicas orientais de ocultismo: meditação (ioga e terapias de relaxamento), hipnose, cura psíquica (visualização e "pensamento positivo"). Estas duas últimas partem da hipótese de que o homem converte em vida o que ele pensa, isto é, que o subconsciente transforma em realidade os nossos pensamentos e desejos. Especialmente o "pensamento positivo" é freqüentemente praticado e até mesmo baseado em versículos bíblicos e denominado como "fé", apesar de premissa anti-bíblica de que a força básica de qualquer homem seja boa. Para o movimento, Deus não é uma pessoa distinta da trindade, mas uma força, uma energia, uma consciência universal. Por esse pluralismo religioso, em que a sociedade vive mergulhada nesse novo paradigma, é que teorias penetram-nos mais distantes lugares e tentam frear o impulso missionário dos que fazem uso da Palavra de Deus. “[...] Todavia, o termo „pluralidade‟ é utilizado por muitos no sentido absoluto, para negar toda unidade, igualdade, harmonia e coerência que porventura existam no mundo, nas idéias, nas pessoas e nas culturas” (NICODEMUS, 2008, p. 43). Hoje o sincretismo religioso faz do nosso Brasil um país onde existe plena liberdade religiosa, o que de início parece ser benéfico, porém, resulta numa “faca de dois gumes”, percebendo que os índices para o avanço das seitas e teologias promíscuas são muito mais elevados do que para o avanço da Igreja que está acanhada diante de uma sociedade globalizada, do impacto da modernização e da desagregação da cultura tradicional em países emergentes, como é o caso brasileiro. 2 Tm 4.3 diz: “Porque chegará o tempo em que não suportarão a sã doutrina; mas, desejando muito ouvir coisas agradáveis, ajuntarão par si mestres segundo seus próprios desejos” (ARC). Uma obra de referência que aborda tais propagações durante a história da Igreja esta apensa no livro Patrística: origem e desenvolvimento das doutrinas da fé cristã de J. N. D. Nelly e que corrobora com o pensamento aqui exposto.
  25. 25. 23 1.3-Correntes avivalísticas no final do século XX O pentecostalismo clássico tem desaparecido em muitos movimentos neo-pentecostais e onde não há pentecostes, há lugar para eloqüências (faculdade de falar ou escrever de maneira eficaz) frívolas (vão, sem importância, de pouco valor) e um avivamento ilusório e aparente. Vinson Synan2 menciona em seu livro: O Século do Espírito Santo – 100 anos do avivamento pentecostal e carismático – a existência de uma “terceira onda do Espírito Santo”, proposto em 1983 por C. Peter Wagner (professor de crescimento da igreja, do Seminário Teológico Fuller); ele retrata o trajeto desse pentecostalismo e seus acontecimentos com imparcialidade, quando a imprensa ataca e critica, ele descreve com neutralidade, tendo em vista, a crescente propaganda que se levanta por trás deste cenário de pregações, mensageiros e grandes quantidades de espectadores que compõem esta história. [...] A primeira onda é conhecida atualmente como pentecostalismo ou avivamento pentecostal; a segunda onda, como movimento carismático ou renovação carismática seguida pela terceira onda, não pentecostal e não carismática, porém neocarismática. [...] As três ondas surgiram no cenário mundial com força explosiva. A primeira onda se difundiu rapidamente por todo o mundo missionário, resultando em 65 milhões de pentecostais hoje, dos quais 63 milhões são pentecostais clássicos. A segunda onda arrastou as grandes denominações não pentecostais, alcançando 175 milhões de carismáticos hoje. Já a terceira onda, maior que as duas anteriores juntas, alcançou até o momento da publicação deste livro 295 milhões de neocarismáticos. (SYNAN, 2009, p. 503/504). Procuramos definir aqui inicialmente o que não é avivamento. Conforme NICODEMUS (2008, p. 151) a prática errada dos chamados dons sobrenaturais em busca da satisfação própria (falsas visões, falsos sonhos, falsas revelações, falsos milagres, falsas curas, falsas línguas e falsas profecias), o „louvorzão‟, o ajuntamento de massas em eventos especiais que enaltecem o ego humano, e coisas assim, é um conceito de avivamento e plenitude do espírito que permeia o evangelicalismo brasileiro em nossos dias. É identificado o avivamento dessas massas mais com manifestações externas e a chamada liberdade litúrgica. O termo correto de avivamento3 “[...] é o resultado da ação do Espírito na vida do crente, enchendo-o e habilitando-o para cumprir a vontade do Senhor no seu contexto 2 Pastor em duas igrejas pentecostais Holiness (EUA), e respeitado historiador dos movimentos pentecostal e carismático, que também tem doutorado pela Universidade Regent University na Geórgia. 3 AMORESE, Rubem Martins. Avivamento Espiritual. Disponível em: <http://www.monergismo.com/textos/avivamento/avivamento_amorese.htm>. Acesso em: 17 jul. 2010.
  26. 26. 24 específico de vida (conotação coletiva de um movimento). É resultado também da ação (permissão, ou submissão) do homem, no sentido de buscar santidade e de se deixar encher por Deus”. Tem sido usado para designar momentos específicos na história da Igreja em que Deus visitou seu povo de maneira especial, pelo Espírito Santo, de maneira que os impactados por Ele produziam uma diferença perceptível ao mundo em seu redor. Uma análise mais detalhada do assunto abordado nesse tópico pode ser definida com a frase: “[...] Os evangélicos conservadores são como canais, com tudo domesticado e canalizado; os carismáticos são como corredeiras, incontroláveis e perigosas. Adivinhe quem são os rios navegáveis?” (CARSON, 2010, p. 13 apud KINGS). Sem querer, o movimento pentecostal/carismático se tornou a maior e mais dinâmica força ecumênica popular no mundo cristão no final do século XX e a penetração do neopentecostalismo nas igrejas históricas aconteceram e trouxeram à cena uma nova geração de cristãos que ia além de aspectos geográficos ou denominacionais, pois se desenvolvia no âmbito espiritual. Um exemplo desses “despertamentos” foi o emblemático acontecimento denominado Renovação Carismática Católica e que trouxe uma série de problemas. “[...] Essa intensa atividade ecumênica desagradou os líderes pentecostais [...] que suspeitavam do liberalismo do movimento conciliatório e da expansão do movimento carismático entre católicos romanos” (SYNAN, 2009, p. 479). Muitos estudiosos e os meios de comunicação comentam que o crescimento vertiginoso do pentecostalismo ao redor do mundo é certo. O Dr. David Barrett4 , relatou um crescimento ainda maior que o estimado pelos especialistas através de estudos demográficos mostrando que a renovação continuará crescendo e com ela abrindo portas para novas igrejas ressurgirem e grupos dissidentes agregarem-se a outras já em expansão. Nos últimos anos vimos o surgimento das megaigrejas, embora algumas não sejam carismáticas, a maioria é pentecostal ou carismática independente. De acordo com o especialista em megaigrejas John Vaughn apud SYNAN (2009, p. 493), as quatro maiores igrejas do mundo em 1998 eram:  Igreja do Evangelho Pleno de Yoido – Seul, Coréia do Sul – David Yonggi Cho – 730 mil membros.  Igreja Metodista Pentecostal Jotabeche – Santiago, Chile – Javier Vasquez – 350 mil membros. 4 Universidade Regent apud SYNAN (2009, p. 490).
  27. 27. 25  Assembléia de Deus de Anyang – Seul, Coréia do sul – Yong Mok Cho – 150 mil membros.  Igreja Bíblica Vida Profunda – Lagos, Nigéria – William Kumuyi – 145 mil membros. Um tempo em que ritos, doutrinas, tradições, dogmas, jargões e hierarquias estão sob profundo processo de revisão, apontando para uma relação com o Divino, muito diferente dos padrões tradicionais cristãos, atualmente mega igrejas são alvo de discussões da mídia que critica o consumismo, a corrupção e os dogmas da igreja. Será que estaremos à mercê de uma “nova reforma protestante?” A revista Época do mês de agosto/2010 trouxe como matéria de capa “A nova Reforma Protestante”, onde trata de cristãos que buscam o retorno ao Evangelho puro e simples de Cristo, na contramão de boa parte da igreja evangélica brasileira, fascinada com movimentos heréticos como a teologia da prosperidade Estima-se que haja cerca de 46 milhões de evangélicos no Brasil. Seu crescimento foi seis vezes maior do que a população total desde 1960, quando havia menos de três milhões de fiéis espalhados principalmente entre as igrejas conhecidas como históricas (batistas, luteranos, presbiterianos e metodistas). Na década de 1960, a hegemonia passou para as mãos dos pentecostais, que davam ênfase em curas e milagres nos cultos de igrejas como Assembléia de Deus, Congregação Cristã no Brasil e O Brasil Para Cristo. A grande explosão numérica evangélica deu-se na década de 1980, com o surgimento das denominações neo-pentecostais, como a Igreja Universal do Reino de Deus e a Renascer. “[...] Elas tiraram do pentecostalismo a rigidez de costumes e a ele adicionaram a teologia da prosperidade5 ”. Há quem aposte que até 2020 metade dos brasileiros professará à fé evangélica. Vale comunicar que o neo-pentecostalismo é um “[...] rio, cuja força produz uma corredeira sinuosa e forte6 [...]” por onde muitas igrejas e seus líderes procuram navegar forçando as massas a se arriscarem por essas incontroláveis ondas. É verdade atribuir os 5 ÉPOCA, Revista. Disponível em: <http://estrangeira.wordpress.com/2010/08/07/revista-epoca-os-novos- evangelicos/> Acesso em: 19 de dez de 2010. 6 CARSON, D. A. Igreja Emergente, o movimento e suas implicações. Trad. Marisa K. A. de Siqueira Lopes. 1ª ed. São Paulo: Vida Nova, 2010, 288 p.
  28. 28. 26 maiores crescimentos, principalmente nos últimos anos, das igrejas neo-pentecostais devido ao seu poder de utilizar os dons espirituais e a capacidade de evocar o nome de Deus para solucionar os problemas da população – digam-se de passagem, problemas é o que não falta na vida do ser humano – quer seja financeiros, de saúde, familiar, psicológicos e sociais, ou seja, têm vasta área para trabalharem as suas filosofias. (Recuperado do site: <http://www.pulpitocristao.com/2010/08/nova-reforma-protestante.html> Acesso em: 19 de dez de 2010) Preocupados com o crescimento evangélico (mesmo que horizontalmente desproporcional em números sem uma verticalidade hierárquica voltada para os moldes cristocêntricos), principalmente no Brasil, autoridades em áreas como teologia, sociologia, psicologia, política e outras se aplicam incansavelmente na busca pela solução desse aumento vertiginoso, em especial do neo-pentecostalismo – um exemplo notório atual é o rápido crescimento da IURD (Igreja Universal do Reino de Deus). [...] A Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) é uma igreja cristã evangélica neo- pentecostal, com sede no Rio de Janeiro. Fundada no dia 9 de julho de 1977, por Edir Macedo, a IURD se tornou o terceiro maior grupo pentecostal do Brasil e está presente em quase 200 países, segundo a instituição. [...] A Catedral Mundial da Fé é a sede mundial da Igreja Universal do Reino de Deus. [...] No Brasil é conhecida como Templo Maior e tem 45.000 m², que juntando as construções externas chega a 72 mil. A construção é o maior templo da América Latina em área construída, O templo tem capacidade para cerca de 15 mil pessoas sentadas. (WIKIPÉDIA. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Catedral_Mundial_da_F%C3%A9> Acesso em: 19 de dez de 2010).
  29. 29. 27 Um dos maiores estudiosos do fenômeno evangélico no Brasil, o sociólogo Ricardo Mariano (PUC-RS), vê como natural o embate entre neo-pentecostais e as lideranças de igrejas históricas. Ele lembra que, desde o final da década de 1980, quando o neo- pentecostalismo ganhou força no Brasil, os líderes das igrejas históricas se levantaram para desqualificar o movimento. “O problema é que não há nenhum órgão que regule ou fale em nome de todos os evangélicos, então ninguém tem autoridade para dizer o que é uma legítima igreja evangélica7 ”. [...] O sociólogo Ricardo Mariano, autor do livro Neo-pentecostais: sociologia do novo pentecostalismo no Brasil (Editora Loyola) oferece uma explicação pragmática para a ruptura proposta pelo novo discurso evangélico. Ateu, ele afirma que o objetivo é a busca por uma certa elite intelectual, um público mais bem informado, universitário, mais culto que os telespectadores que enchem as igrejas populares. “Vivemos uma época em que o paciente pesquisa na internet antes de ir ao consultório e é capaz de discutir com o médico, questionar o professor”, diz. “Num ambiente assim, não tem como o pastor proibir nada. Ele joga para a consciência do fiel.” [...] Por isso mesmo, Ricardo Mariano não vê comparação entre o apelo das novas igrejas protestantes e das neo-pentecostais. “O destino desses líderes será „pescar no aquário‟, atraindo insatisfeitos vindos de outras igrejas, ou continuar falando para meia dúzia de pessoas”, diz ele. De acordo com o presbiteriano Ricardo Gouveia, “não há, ou não deveria haver, preocupação mercadológica” entre as igrejas históricas. “Não se trata de um produto a oferecer, que precise ocupar espaço no mercado”, diz ele. “Nossa preocupação é simplesmente anunciar o evangelho, e não tentar „melhorá-lo‟ ou torná-lo mais interessante ou vendável. (ÉPOCA, Revista. Disponível em: <http://estrangeira.wordpress.com/2010/08/07/revista- epoca-os-novos-evangelicos/> Acesso em: 19 de dez de 2010)”. Geralmente o quadro alarmante para o crescimento dessas megaigrejas seja a tolerância para atrair mais seguidores (de outras igrejas ou do meio pagão?) baixando o nível doutrinário. Com a explosão jovem no decorrer do século, os jovens foram os maiores entusiastas do movimento pentecostal/carismático, onde deixando suas igrejas convencionais se juntavam a outras forças de jovens „libertos‟ de culturas e ideologias. [...] Surgiu o ministério estudantil Maranata, liderado por Bob Weiner, que levou uma poderosa versão do pentecostalismo aos campi de faculdades e universidades norte-americanas. [...] Apresentavam soluções cristãs a jovens perdidos, como militantes políticos radicais e usuários de drogas. [...] A maioria da “galera de Jesus” falou em línguas em algum momento da odisséia entre a criança rebelde e o renascimento em Cristo. (SYNAN, 2009, p. 498/499). A mesma reportagem ainda argumenta o modo como os incrédulos e sua atual preocupação com o crescimento dos evangélicos, alegando rachaduras nesta geração presente que destroem a estrutura primitiva de cristianismo (o quadro abaixo dá uma visão cronológica da questão em foco outrora publicada pela Revista Época) que segundo a ilustração impostada 7 ÉPOCA, Revista. Disponível em: <http://estrangeira.wordpress.com/2010/08/07/revista-epoca-os-novos- evangelicos/> Acesso em: 19 de dez de 2010.
  30. 30. 28 por eles, teve sua origem no catolicismo romano; fato este oposto ao que os teólogos e comprometidos com a verdade proclamam nos seus estudos. Uma reforma protestante poderá ocorrer? Estamos em uma época de estrema mutação no gênero litúrgico e dogmático. Igrejas locais que têm seus alicerces reforçados poderão dar o veredito sobre questões que seriam foco de reformulações, no entanto, as neo-pentecostais ficariam apenas na periferia dos assuntos, por não poderem opinar sobre causa tão séria. (Recuperado do site: <http://estrangeira.wordpress.com/2010/08/07/revista-epoca-os-novos-evangelicos/> Acesso em: 19 de dez de 2010) O teólogo Augustus Nicodemus Lopes, chanceler da Universidade Presbiteriana Mackenzie, discute a ascensão e queda do movimento evangélico brasileiro, retrato desolador de uma geração cindida entre o liberalismo teológico, os truques de marketing, o culto à
  31. 31. 29 personalidade e o esquerdismo político. O quadro acima dá uma visão cronológica da questão em foco outrora publicada pela Revista Época. 1.4-O enfraquecimento doutrinário e espiritual e seu impacto na religiosidade Antes de discorrer sobre as causas do enfraquecimento doutrinário e espiritual, assim como seu impacto na religiosidade das pessoas como parte complementar dos indícios históricos do afastamento da mensagem Bíblica por homens e mulheres que o fazem uso, devemos definir alguns termos para que seja mais bem assimilado o raciocínio do leitor. Conforme o dicionário AURÉLIO (2004, p. 267) doutrina é “o conjunto de princípios que servem de base a um sistema filosófico, científico”, e religião é “a crença na existência de força ou forças sobrenaturais, manifestação de tal crença pela doutrina e ritual próprios, devoção”. Pela grande confusão que fazem em torno da palavra doutrina, que a utilizam como sinônimo de opressão, legalismo e regulamentos, e que o próprio apóstolo Paulo fez a advertência a Timóteo dizendo: “haverá tempo em que não suportarão a sã doutrina; pelo contrário, cercar-se-ão de mestres, segundo as suas próprias cobiças, como que sentindo coceira nos ouvidos; e se recusarão a dar ouvidos à verdade, entregando-se às fábulas” (ARC, II Tm. 4:3-4), é que se precisa com urgência resgatar seu sentido original. Numa definição etimológica e mais ampliada segundo o pastor Valdemir Damião8 (2007, p. 25), a palavra portuguesa “religião” é originada do termo religio (latino), que significa “[...] fidelidade ao dever, lealdade, consciência do dever, escrúpulo religioso, obrigação religiosa, culto religioso, práticas religiosas”. E conforme o livro Teologia Sistemática de Stanley M. Horton, doutrina é uma crença ou dogma mantida como verdade. Foi a partir do afastamento do homem de Deus, que surgiram as várias correntes religiosas politeístas, idólatras e pagãs, porém, foi também a partir dessa busca incessante pela verdade que muitas religiões monoteístas perderam as forças doutrinárias. O esforço para se estabelecer, de maneira isolada, as características que as religiões têm em comum são 8 Ministro do evangelho da Igreja Assembléia de Deus no Ministério do Belém (SP).
  32. 32. 30 praticamente impossíveis, pois são diferentes, mesmo quando falamos de religiões que professam o cristianismo. E cada vez que a religião foi influenciada pela filosofia e suas diversas áreas de atuação, mais racionalista procura apresentar-se e conseqüentemente mais colocam o antropocentrismo em destaque. Resumindo, pode-se pressupor que: “[...] A teologia é um estudo intelectual, sistemático e teórico, enquanto a religião se refere ao homem integral e sua prática de vida; a religião é a prática, enquanto a teologia é a teoria” (DAMIÃO, 2007, p. 30). Reconhecemos a existência ativa de uma religião, sempre que alguma sociedade manifeste, entre as suas expressões culturais e filosóficas, um corpo organizado de crenças a que venha ultrapassar a realidade da ordem natural, passando ao ambiente sobrenatural, mesmo nas mais complexas formas de cultos. A preocupação de Paulo deveria ser a nossa preocupação hoje, pois momentos de transição como o que estamos vivendo são sempre propícios ao aumento de falsas doutrinas, como já temos visto em alguns círculos. E para combatermos às falsas doutrinas, não há alternativa senão apresentar a verdadeira doutrina de Cristo. A sociologia, ou ciência da sociedade, abriu a discussão por pensadores a partir do século XIX na existência da Igreja como objeto de pesquisa. É ai que a religião passa a ser encarada como um dos aspectos da cultura humana, uma instituição como outras criadas pelas pessoas com finalidades práticas, e muitas delas mais voltadas aos interesses terrenos e materiais do que à vida espiritual. Émile Durkheim, Karl Marx e muitos outros sociólogos, julgavam responsável por uma falsa imagem dos problemas humanos, ligada à acomodação e à submissão pregadas por sua doutrina, assim, a Igreja e esta doutrina sofreram um processo de dessacralização, em que se eliminou muito de sua “aura” de transcendentalismo (COSTA, 2005, p. 58). [...] O que se denomina descristianização toca, pelo contrário, nas crenças íntimas e no comportamento das pessoas. Ela exprime o fato de que, depois de uma centena de anos nas sociedades modernas, massas de homens, cada vez mais compactas, parecem desinteressar-se por qualquer crença religiosa. Elas deixam de freqüentar os lugares de culto, afastam-se dos sacramentos, negligenciam suas obrigações religiosas. A regressão da prática religiosa é o indício de uma desafeição crescente no tocante às Igrejas e à religião. Ao contrário do estado de espírito que havia presidido no início do século XIX, a laicização e que se definia por uma hostilidade militante, a descristianização não exprime mais do que desinteresse e indiferença (RÉMOND apud COSTA, 2005, p. 76/77). Em suma a fé e a razão foram divididas em duas categorias totalmente independentes, e desta separação a secularização enraizou-se, pois quase tudo necessário à vida cotidiana
  33. 33. 31 pudessem ser percebidas pela razão, então não mais seria necessária a revelação. O início desse dualismo está relacionado à René Descartes, filósofo francês do século XVII, que propôs uma dicotomia entre matéria e mente. Neste clima é desafiador apresentar o cristianismo como uma verdade absoluta, que não está restrita a razão, mas temos de ter a confiança (fé) de que é verdade em todos os níveis que resiste a rigorosas análises quer sejam racionais ou históricas, ao mesmo tempo em que satisfaz nossa convicção espiritual. “[...] Até os cristãos conservadores privatizam tanto a fé que não a consideram fonte de conhecimento, mas mera „reflexão‟ teológica sobre tópicos dados pela educação secular” (JOHNSON apud PEARCEY, 2006, p. 134), ou seja, é mais conveniente ceder à ciência a autoridade para determinar os fatos, do que recorrer indiscutivelmente à fé cristã que termina sendo subjetiva. Se na pós-modernidade as palavras do apóstolo Tiago ainda soam bem forte aos corações cristãos quando adverte: “guarda-se da corrupção do mundo” (ARC, Tg. 1.27), somos tendenciosos a compreender que são dos conceitos morais que está se fazendo referência para não pecarmos, porém, também significa guardar-se dos caminhos errados que a filosofia pragmática e defeituosa projeta-se contra os alicerces do cristianismo e de uma cosmovisão cristã. A própria Bíblia transcreve para nossos dias o que já acontecia nos dias da Igreja primitiva, e era preocupação dos apóstolos: “[...] o Espírito expressamente diz que nos últimos tempos alguns apostatarão da fé, dando ouvidos a espíritos enganadores, e a doutrinas de demônios” (ARC, 1 Tm. 4.1). Não há registro em qualquer estudo por parte da história, antropologia, sociologia ou qualquer outra ciência de um agrupamento humano em qualquer época que não tenha professado algum tipo de crença religiosa. As religiões são um fenômeno inerente a cultura humana. Grande parte de todos os movimentos humanos relevantes tiveram a religião como impulsor, e estruturas sociais foram definidas com base em religiões, e grande parte do conhecimento cientifico, filosófico e artístico tiveram como influência os grupos religiosos, que durante maior parte da história da humanidade estiveram vinculados ao poder político e social. Hoje em dia apesar de todo avanço científico o fenômeno religioso sobrevive e cresce desafiando previsões que especulam seu fim. A grande maioria da humanidade professa alguma crença religiosa direta ou indiretamente e a religião continua a promover diversos movimentos humanos. O grande desafio é manter a doutrina apostólica em função de uma fé em constante crescimento que venha destronar qualquer indício de racionalismo que queira propagar seus dogmas naturalistas e todo o misticismo atordoante na pós-modernidade.
  34. 34. 32 CAPÍTULO II – A ARTIFICIALIDADE NAS PREGAÇÕES E O RADICALISMO DAS IDÉIAS 2.1-Tendências modernas e relativistas Numa sociedade em constante mutação, perdem-se conceitos importantes na conduta cristã, doutrina e hermenêutica bíblica. Conforme o professor de teologia do George W. Trutt Theological Seminary da Baylor University, em Waio, Texas, o Dr. Roger E. Olson, já declarava algumas influências que perturbavam o cristianismo apostólico da era cristã, chamado de gnosticismo, onde o nome provém da palavra grega “gnosis” que significa “conhecimento” ou “sabedoria” e seria um rótulo genérico aplicado a uma grande variedade de mestres e escolas cristãs que existiam às margens da igreja primitiva e que chegaram a se tornar um grande problema para os líderes cristãos do século II. Todavia, na atualidade, este conhecimento é disfarçado por outros movimentos que afloram no seio da igreja atual e que são responsáveis pela propagação ecumênica de idéias, crenças e identidade duvidosa. Homens conhecedores das verdades centrais da fé usam essa sabedoria para formulação de credos, crenças, costumes e até dogmas não apoiados pela Bíblia. É interessante notar que as tendências relativistas não aparecem com clareza, mas ficam na incerteza, na mornidão espiritual, gerando almas frágeis, sem fé, incrédulas ao poder de Deus e motivadas pela emoção. De modo aberto, e ás vezes sutil, a teologia contemporânea é usada para atacar a Igreja do Senhor. Homens cultos, sábios e inteligentes banalizam a ortodoxia bíblica. [...] Friedrich Scheleiermacher (1768-1934) – Teólogo alemão. Ensinou que “não há religiões falsas e verdadeiras [...] Karl Barth (1886-1968) – Teólogo suíço [...] A Bíblia não é a palavra de Deus. Apenas a contém [...] Paul Tillich (1886-1965). Teólogo alemão [...] “Deus não é um ser, mas um poder de ser, o fundamento de todo o ser, porém não objetivo nem sobrenatural” Rudolf Bultmann (1884-1976). Para ele a Bíblia está cheia de mitos [...] pode-se crer em Jesus como salvador, sem ter que crer em seu nascimento virginal, em sua ressurreição, ou na sua segunda vinda [...] Pierre Teilhard de Chardin (1881-1955). Sacerdote jesuíta, francês [...] para ele o evangelho moderniza-se, adaptando-se aos conhecimentos científicos [...] advoga a idéia da evolução, como teorizou Charles Darwin [...] (RENOVATO, 2007, p. 123 a 125). O dicionário AURÉLIO (2004, p. 632) descreve relativismo como “doutrina que faz depender, a verdade, do indivíduo, ou do grupo, ou do tempo e lugar”. Afunilando essa
  35. 35. 33 expressão para relativismo religioso concluí-se que é o pensamento de que todas as religiões são boas e que qualquer pessoa pode fazer a sua própria verdade. O pastor Ciro Sanches Zibordi, articulista e editor da CPAD, com vasta experiência em assuntos ligados ao uso indevido do púlpito, faz citações esclarecedoras sobre um tema puramente relativista e que cresce no meio cristão; Trata-se da comparação dos avivamentos do passado com os moveres que ressurgiram em pleno século XX e prolongam-se no XXI. Ele demonstra que a maioria dos incautos mensageiros dessa propagação extra-bíblica nasceram, como já citada anteriormente, no seio de grandes avivamentos, e com eles nos trouxeram expressões como: “o cair no espírito”, “a unção do riso”, “não desista de seus sonhos”, “olhe para dentro de você”, “transferência de unção”, ou o popularmente difundido e por muitos rotulados de “re-te-té”. “[...] Fiquei pensando que, para manipular os ingênuos crentes do re-te-té, realmente não é preciso ler a Bíblia. Basta ter à mão um arsenal de animação de auditório, suficiente para garantir o mover de Deus” (ZIBORDI, 2007, p. 47). É necessário abordar que quando estudamos sobre o avivamento da Rua Azuza Street em Los Angeles (1906) e acerca do início da Assembléia de Deus no Brasil (1911), são comuns as menções a momentos em que irmãos caiam sob o poder de Deus ou riam sem parar. Isso se dava devido a uma completa entrega à obra de Cristo numa época de estrema necessidade missionária, sob a plena santificação, e que o momento exigia uma narrativa pentecostal teológica que contrastasse com a grande frieza que igrejas históricas vivenciavam aqueles dias turbulentos. Contudo o pastor Ciro Sanches também concorda que é óbvio, onde as experiências relacionadas com o Movimento Pentecostal – ainda que envolvam santos como William Seymon, Gunnar Vingren e Daniel Berg – não devem ser supervalorizados a ponto de os equipararmos às incontestáveis verdades da Bíblia. Também nos lembremos que vários acontecimentos na história da Igreja foram aprimorados e melhor agregados à comunidade evangélica. Hoje os desafios são maiores e numa sociedade altamente crítica, onde existe muita “mistura de fogo estranho”, os modos de operação divina encontram outras maneiras de se propagarem, e nem por isso perdem sua eficácia. [...] Tendências modernas de pregação que negam a autoridade da Palavra, em nome da sofisticação intelectual conduzem a um subjetivismo desesperador em que as pessoas fazem o que é direito a seus próprios olhos [...] A Bíblia é um livro de princípios, e estes devem ser considerados antes de qualquer análise de manifestações, independentemente das pessoas nelas envolvidas (ZIBORDI, 2007, p. 57).
  36. 36. 34 Tais propagações errôneas estão fugindo do controle até mesmo de igrejas históricas que através de sucessivas experiências espirituais caem na falácia de tais movimentos. Nenhum conhecimento cristão que seja vital, dinâmico e fiel se encontra completamente desprovido de entendimento Bíblico, e os pregadores que o fazem uso, nem sempre são incultos, ou carentes de um arcabouço teológico, ou seja, não agem por desconhecer a verdade, mas a conhecem tão bem que são capazes de modificá-la em proveito próprio. A Confissão Positiva, sinônima do movimento triunfalista é uma maléfica prática que se esconde por detrás das “cortinas” das mensagens conduzidas por pregadores, inspirados em “grandes nomes” dos púlpitos evangélicos. Quem nunca participou de um culto onde o mensageiro pediu para você olhar para o irmão do seu lado e dizer: “Deus é contigo” – mesmo que não vá nada bem, “Você está no centro da vontade Dele” – será que está mesmo? Muitas outras expressões que mais servem para preencher um espaço imenso que ficou no seu sermão e não mais consegue prender a atenção com a Palavra de Deus. Essas frases servem muitas vezes para aguçar o “ego” de multidões de crentes que acham que fazem a vontade de Deus, mas estão longe de agradá-lo, e ainda encontram quem o convencer que estão no centro da vontade Divina. No livro de Atos dos apóstolos há um versículo que diz: “Ora, estes de Beréia eram mais nobres que os de Tessalônia; pois receberam a palavra com toda avidez, examinando as Escrituras todos os dias para ver se as cousas eram, de fato, assim” (ARA, Atos 17.11). O grande erro em nossos dias é que não se lê mais a Bíblia Sagrada, nem procura estudá-la dando atenção ao seu complexo contexto exegético, hermenêutico, literário, histórico, cultural, filosófico e social que ela tem. Será que estão em extinção os obreiros sábios, cuidadosos, amantes da Palavra de Deus, que não entregam o púlpito para manipuladores de auditório? Em pleno século XXI “[...] procura-se quem saiba dirigir um culto” (ZIBORDI, 2007, p. 141). Uma grande tendência da modernidade no âmbito religioso é a chamada Igreja Emergente – “[...] Tenta honestamente fazer uma leitura da cultura em que estamos imersos e refletir quanto às implicações dessa leitura sobre nosso testemunho, nossa compreensão da teologia, sobre o fato de sermos membros de uma igreja e até mesmo sobre a visão que temos de nós mesmos” (CARSON, 2010, p. 53) – a igreja emergente rompe os elos com muitas práticas das igrejas tradicionais e rejeitam alguns estilos de ministério que adotam uma estrutura hierárquica. Os seus líderes argumentam que novas perguntas devem ser feitas às
  37. 37. 35 Escrituras e conseqüentemente a obtenção de novas respostas, apoiando, é bem verdade o que pretendem, ou seja, poderíamos dizer que “usar um texto fora do seu contexto”. Alguns elementos desse novo estilo conseguem sobreviver em os mais diversificados ambientes, e o sincretismo religioso é um correlativo que “emergiu” e fortaleceu na pós-modernidade – quanto mais as pessoas tentam selecionar e escolher elementos de religiões diversas com a finalidade de construir algum tipo de mistura sincretista, mais se justifica a propensão ao erro e a desconstrução dos valores. A Bíblia Sagrada, como regra de fé e prática do cristianismo, não admite posições relativistas. Segundo o pastor e comentarista das Lições Bíblicas da CPAD, Elinaldo Renovato, existem nove princípios fundamentados nos textos bíblicos: o princípio da lealdade incondicional a Cristo, o princípio da fé, o princípio da licitude, o princípio da conveniência, o princípio da edificação, o princípio da glorificação a Deus, o princípio da ação em nome de Jesus e o princípio do fazer para o Senhor pelos quais são verdadeiros sinais que equilibram a conduta do crente diante de uma sociedade sem Deus (2007, p. 142). As características dessas tendências modernas são quase que unânimes e a peculiaridade existente fazem das suas congregações a inexistência de comunidade cristã, tendo em vista, haver uma relação mais de empresa e cliente; os seus cultos são marcados pelo desejo de obter favores dos “céus” como que uma prestação de serviços mediante uma recompensa e não um sentimento de salvação pela graça (favor imerecido), e o grande distanciamento da Bíblia, que passa a ser usada esporadicamente para dar apoio somente ao que pensam. [...] A Igreja de Cristo – que suportou e venceu os ataques externos de toda sorte promovidos por fanáticos defensores do judaísmo e pelo perseguidor, intolerante e pagão Império Romano, como também pelos seguidores de falsas filosofias surgidas no decorrer dos tempos – nesse período pós-moderno enfrenta o seu pior inimigo, o subcristianismo. Sorrateiramente, doutrinas pseudocristãs, práticas e costumes estranhos têm sido introduzidos no seio dessa instituição fundada por Cristo, muitas vezes travestidos de novas metodologias e filosofias modernas, sendo incorporadas aos poucos sem o devido exame criterioso à liturgia cristã (MELLO, 2009, p. 73). Nesse quadro atual é um imperativo que a Igreja tome uma postura assim como aconteceu em outras épocas na história cristã, como a reforma protestante ou os grandes avivamentos, e uma maior fidelidade, coerência e firmeza das denominações às suas próprias convicções Bíblicas amparadas por uma genuína certeza de salvação.
  38. 38. 36 2.2-O marketing nos púlpitos e o utilitarismo mercantilista “Marketing é um processo social por meio dos quais pessoas e grupos de pessoas obtêm aquilo de que necessitam e o que desejam com a criação, oferta e livre negociação de produtos e serviços de valor com outros” (KOTLER e KELLER, 2006). Essa definição é dada por um dos grandes profissionais da área de marketing empresarial em seu livro Introdução à Marketing. Philip Kotler sabia o quanto que é fundamental no mundo dos negócios despertar nos consumidores suas necessidades reprimidas e demonstrar como supri-las através de produtos e serviços. Marketing também é palavra sinônima de “mercadologia”, de “propaganda”. E é nessa emblemática com a etimologia da palavra que o marketing nos púlpitos tem sido propagado fomentando as necessidades reprimidas nas pessoas, tentando supri-las com produtos e serviços na dimensão espiritual. O utilitarismo mercadológico (doutrina que considera as ações humanas como movidas pela procura do atendimento máximo aos interesses individuais) é uma dicotomia que envolve ambos os lados dos que se utiliza em propagá-la, ou seja, o pregador e seu individualismo em “vender” sua mensagem e o ouvinte e sua disposição a “comprar” essa idéia. A quantidade de pessoas que seguem um pregador ou uma igreja pelo seu “rótulo” e não pelo seu conteúdo é uma afirmativa que não precisa de pesquisas para ser comprovada. O fato é exposto naturalmente e aclamado pelas maiorias. As pessoas estão acostumadas com os super-pregadores e suas extravagâncias nos púlpitos que mais parecem shows, gritos frenéticos e ritualização. Um dos grandes males desse modismo é o evangelho da prosperidade onde mercadejam a Palavra e manipulam seus ensinos. Os verdadeiros elementos de um culto ao Senhor valorizam o Criador de todas as coisas e descortinam a sua glória distribuída intimamente aos corações dos que em espírito adoram. Em 1 Coríntios capítulo 14 e versículo 26 diz que quando nos reunirmos em adoração, “cada um de vós tem salmo, tem doutrina, tem revelação, tem língua, tem interpretação. Faça-se tudo para edificação”. Os elementos estão dispostos ordenadamente nesse versículo em que cada um completará o sentido do outro na vida cristã. Há contido a doutrina, o avivamento, a ética, a adoração e a aprendizagem coerentes com a formação evangélica adequada e o compromisso com a verdade. Contudo o evangelho da prosperidade (teologia da prosperidade) prega o avesso afirmado por alguns dos seus teólogos: Hagin e Kenneth Copeland – “[...] Você é tanto uma encarnação de Deus
  39. 39. 37 quanto Jesus Cristo o foi” (RENOVATO apud HAGIN, 2007, p. 128); “[...] Você não tem um deus dentro de você. Você é um Deus” (RENOVATO apud COPELAND, 2007, p. 128). Diante disso pode-se compreender o porquê dos seus adeptos dizerem que podem conseguir o que quiserem, nunca sendo pobres, nem adoecendo, ou seja, os homens são considerados deuses. A mercadologia utilizada é a cura em troca do dinheiro, é a riqueza significando uma vida sem pecado, ou seja, doença e pobreza são maldições da Lei, e para “jogar fora” basta dizer algo com fé (suas palavras têm poder) e tudo que quiser se tornará realidade (confissão positiva). Se não acontecer, segundo eles, é porque ou não tem fé ou está em pecado. Os teólogos da prosperidade afirmam que Cristo e seu sacrifício vicário removeram não somente a culpa do pecado, mas os efeitos do pecado sobre a humanidade. A autoridade espiritual é vista por muitos pregadores como uma “arma” em potencial para detonar suas sentenças e realizar suas promessas através da “propaganda da unção”. Mas que unção é essa? Ela está derivada das “visões, profecias, entrevistas com Jesus, curas, palavras de conhecimento, nuvens de glória, rostos que brilham, ser abatido (cair) no Espírito, rejeição às doenças, arrebatamento de espírito e muitas outras que projetam um “serviço” a favor do bem, porém com artifícios humanos e até satânicos. De acordo com a Bíblia o ministério profético durou até João (ARC, Mt 11.13) e o dom da profecia não confere autoridade profética tornando o que está sendo usado pelo dom de profecia semelhante aos profetas do Antigo Testamento, ou seja, auto intitular-se de profeta (ARC, 1 Co 12.10). A verdadeira autoridade é fornecida através da fé em Cristo e não de experiências pessoais e de revelações isoladas. Analisamos que muitos pregadores desses “métodos” recebem a glória de homens e deixam a glória de Deus passar bem distante deles. O utilitarismo mercantilista com o que é sagrado tornou-se favorável entre muitas classes sociais cristãs, vulgarizando a utilização plena da Excelente Palavra de Deus, adentrando nas gerações futuras, e o que é pior, tais propagações errôneas estão fugindo do controle de muitos líderes que vêem seus membros num “êxodo denominacional”, e passam a adotar elementos desses movimentos em suas liturgias para tentarem conter essa evasão, não se lembrando que nas Escrituras está a “fórmula” dos princípios de manter uma igreja sadia e avivada. Esta geração certamente ainda se deparará com as grandes conseqüências pelo mau uso litúrgico nos púlpitos evangélicos se não for freado a tempo. Esse evangelho de
  40. 40. 38 entretenimento está ocupando o caráter reverente, ordenado e santo que havia nas igrejas locais e, sobretudo nos sermões. Uma das cartas enviada ao anjo da igreja de Laodicéia diz: “Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente. Quem dera fosses frio ou quente! Assim, porque és morno, e não és frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca” (ARA, Ap. 3.15). Mornidão é o estado de alguém ou de algo que se está sem energia, sem força, sem poder. No texto acima era a situação de uma igreja e seu líder e nos nossos dias é o reflexo de um verdadeiro uso indevido da comunhão cristã. Precisamos atualmente de homens e mulheres que tenham uma mensagem de grande impacto baseada na Bíblia para destronar o imperialismo do relativismo e da mornidão espiritual com que muitos crentes estão liderando e sendo liderados, trocando sua posição de servo por uma de senhor, onde na verdade só Jesus Cristo pode exercer tal posto. O apego à prosperidade material, a auto-suficiência e a ganância pelas virtudes espirituais são as maiores causas que levam multidões ao vale obscuro do poder sem limites, a qualquer preço. [...] Terá sido o secularismo? O humanismo? A depravação sexual? Tudo isso pode ter tido sua parcela, como causa contribuinte. Mas as causas eficientes para a frieza e a mornidão espiritual, e a morte de muitas igrejas [...] e pelo mundo afora, foram fatores internos, que tiveram lugar no meio dos crentes, batizados com o Espírito Santo [...] o mais terrível foi a iniqüidade, que gerou o esfriamento e a falta de amor, já preditos pelo nosso Senhor Jesus Cristo: “E, por se multiplicar a iniqüidade, o amor de muitos se esfriará” (Mt 24.12) (RENOVATO, 2007, p. 208). 2.3-Os louvores e a filosofia pragmática O termo pragmatismo vem do inglês pragmatism, e tem origem no pensamento de C. S. Peirce, W. Jamesano, J. Dewey, ingleses, e do literato alemão Friedrich J. C. Schiller (1759-1805); “doutrina segundo a qual as idéias são instrumentos de ação que só valem se produzem efeitos práticos” (AURÉLIO, 2004, p. 586), ou seja, cuja tese fundamental é que a verdade de uma doutrina consiste no fato de que ela seja útil e propicie alguma espécie de êxito ou satisfação. Tal palavra contraria os princípios cristãos com o seu significado, pois os mesmos não podem ser guiados por fundamentos meramente utilitários, práticos e com a tendência de considerar que o prazer individual e imediato é a finalidade da vida (hedonismo) (RENOVATO, 2007, p. 149). Considerando os meios de propagação da mensagem bíblica, temos o louvor como uma forma de impacto forte, pois o mesmo transmite uma influência ideológica aos ouvidos
  41. 41. 39 através da melodia. O secularismo (outro vernáculo nos dias hodiernos pela pós-modernidade) que tem o sinônimo de profano, temporal e que se opõe ao que é religioso, ou espiritual, está inserido na comunidade evangélica quando a igreja local se “moderniza” e os valores espirituais são desvirtuados e mudados para valores materiais. Os hinos e louvores são uma forma complexa de trazerem através da letra as mais variadas tendências secularizadas e através dos ritmos uma inovação cultural nos costumes éticos para adoração ao Senhor. A música tem adentrado nos púlpitos cristãos de forma tão grotesca que não se analisam as letras dos hinos, cantam sem perceber que muitos desabafam, cultuam anjos, homens, líderes, determinam e são verdadeiros arsenais de guerra prontos para detonar suas munições. As inovações litúrgicas incluem aqui os hinos e conseqüentemente a perda de identidade cristã que faz a diferença entre o santo e o profano. O culto por sua vez “[...] é um conjunto de formas externas em que a própria pessoa, família reunida ou mesmo a comunidade estabelece a sua vida religiosa. É o mesmo que „liturgia‟, que significa „ritual‟, o culto instituído por uma igreja” (KESSLER, 2008, p. 15) e embora não existisse no Antigo Testamento uma palavra especial que desse significado para culto, ele era um elemento importante na vida do povo hebreu. Um grande exemplo dessa importância está nos Salmos, ou seja, o autor não consegue separar religiosidade sem culto. No Novo Testamento aparece a expressão “culto racional”, onde Deus toma a iniciativa de ser adorado por seu povo em comunhão através de seu filho Jesus Cristo através de “sacrifícios espirituais”. Dentre os cinco elementos indispensáveis no culto (Hinos, Leitura Bíblica, Oração, Contribuição e Pregação) os hinos encabeçam essa seqüência harmoniosa e são práticas que herdamos da igreja primitiva (ARC, Ef 5.19; Cl 3.16). Desde a criação das hostes celestiais a música e sua melodia vêm enchendo as vidas de júbilo, e um culto sem cântico é triste. [...] A música não pode ser esquecida durante o culto, e a sua execução não pode ser desequilibrada ao ponto do culto ser afetado em seu conteúdo. Há três momentos em que a congregação deve ser preparada psicologicamente para o culto: Prelúdio [...] É a introdução instrumental ou orquestral de um culto, antes do seu início, a fim de facilitar a unidade de espírito dos crentes [...] Interlúdio [...] com o fim de preparar psicologicamente o auditório para o sermão [...] Poslúdio [...] É a conclusão instrumental ou orquestral de um culto, devendo o maestro adequar a música à natureza do sermão (KESSLER, 2008, p. 22). O verdadeiro louvor tem que expressar adoração, veneração, amor extremo com o coração e reverência, com desprendimento e participação conjunta da congregação; e elas devem enaltecer as maravilhas de Deus, a Sua bondade e justiça, Seu poder e misericórdia. O ministério musical na atualidade deve acompanhar a evolução da sua própria época, havendo
  42. 42. 40 equilíbrio para que não surjam conflitos de gerações, ou seja, uma igreja não pode ficar somente nas experiências musicais das gerações passadas, contudo deve estar ligada intimamente à geração do presente sem desviar o verdadeiro sentido do louvor na congregação dos santos, e sem banalizar os ritmos, pois o secularismo e a filosofia pragmática utilizam a melodia para introduzir “coisas estranhas” no meio evangélico. Um exemplo disso é querer comunicar o cristianismo através do rock n’Roll nos “festivais cristãos” sabendo que seus defensores apelam somente para “curtirem o som” numa linguagem inadequada para a comunicação do evangelho. [...] Satanás, antes de sua queda (ainda como Lúcifer), regia o coral celestial, pois fora criado com toda a formosura e beleza, aferidor de medidas. Suas harpas tangiam, era um grande entendido em música, e não lhe foi difícil influenciar o homem através de sons, por conhecer a sensibilidade espiritual dele. As músicas inspiradas por Satanás levam o homem aos ritmos irreverentes e desarmoniosos, aos gritos, gestos, símbolos e tudo o que lhe é peculiar para que o homem se rebele contra Deus (KESSLER, 2008, p. 31). Essas influências mundanas nos louvores promovem o exibicionismo dos que o praticam e os artifícios de Satanás têm trazido essas abomináveis melodias para o seio da Igreja com títulos inofensivos. As mesmas frases da confissão positiva faladas nas pregações também permeiam o mundo “gospel” com suas sutilezas disfarçadas, colocando o ser humano no centro e Deus na periferia da construção da vida. Afloram o ego humano e materializam as emoções baseadas somente em “louvorzões” e “delírios espirituais”, quando também não aprofundam os sentimentos por um amor não correspondido através de uma bela “canção de amor evangélica”. A Bíblia é repleta de exemplos, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, de formas corretas de adoração e utilização do perfeito louvor a Deus, contrariando todo e qualquer movimento ou inovação litúrgica que esteja em desacordo com a proposta do evangelho de Cristo. Certamente um trecho extraído da quarta estrofe do hino 126 da Harpa Cristã (CPAD) de autoria da missionária Frida Vingren (esposa do missionário Gunnar Vingren, fundador das Assembléias de Deus no Brasil), diz tudo o que queremos mostrar com respeito ao louvor e a adoração: “[...] Os mais belos hinos e poesias, foram escritos em tribulação, e do céu, as lindas melodias, se ouviram, na escuridão [...]” (HARPA CRISTÃ, 2009). Muitos cristãos querem introduzir hinos no meio da igreja e não estão dispostos nem sequer a pagar um preço espiritual pelas letras dos mesmos, ainda se achando na condição de adoradores, porém o perfeito louvor é cantado nos momentos de alegria, sob o preço da salvação que custou a vida de Jesus Cristo, e de uma vida acompanhada por uma modificação visível por testemunhas no
  43. 43. 41 nosso dia-a-dia. Temos em mãos a Harpa Cristã disposta com 640 hinos que dispensam qualquer apresentação, tendo em vista, serem inspirados pelo Espírito Santo e redigidos por homens e mulheres de Deus que se comprometeram com a causa do evangelho e estão atualizados em qualquer época e geração que o faz uso para louvor na casa do Senhor. E mesmo tendo sido feitos há muitos anos, ainda soam bem forte as melodias desses hinos, tanto em grandes igrejas, quanto nas pequenas congregações, nos mais distantes lugares em que a Palavra de Deus alcançou. 2.4-Sensacionalismo desesperador e a manipulação das platéias A arte de falar em público é muito antiga e retoma costumes e culturas que aprimoraram a sua retórica e introduziram um pensamento filosófico, uma lei, uma história e até mesmo uma doutrina numa sociedade. Era costume a igreja primitiva utilizar alguns cristãos que escapavam dos martírios, mesmo sendo indoutos na teologia, para usarem o púlpito em pequenos testemunhos de fé diante dos seus irmãos e testificarem das magnitudes de Deus. Também na Grécia antiga a oratória em praça pública era um veículo que impregnava autoridade e uma receptividade incrível nos ouvintes. Desta feita no esforço de aplicar um estudo mais conciliador entre ouvintes e pregadores sendo utilizado nas grandes concentrações de pessoas do cristianismo e após o século XVII o termo homilética (a expressão homilética é derivada do grego “homilos” e significa multidão, assembléia do povo) passa a definir a ciência ou a arte de elaborar e expor sermões. “[...] A Escritura não deve apenas ser aprendida; ela deve ser crida e depois proclamada. Esse aspecto dinâmico da Palavra é a tarefa da contextualização e da análise homilética” (OSBORNE, 2009, p. 530). O desafio do pregador é fazer com que a Palavra fale tão claramente nos dias atuais o quanto falou na antiguidade. A rica cultura judaica e as fortes influências da língua grega, assim como parcelas do aramaico (um dialeto do hebraico) para compor o Antigo e o Novo Testamento, influenciaram no predomínio do processo de interpretação da herança absorvidas e do sincretismo dinâmico para o cristianismo atual. Conforme o próprio Osborne argumenta, o pregador deve possuir uma função dupla de intérprete e de proclamador do evangelho transformando o significado do texto antigo para a cultura receptora moderna. Não há dúvidas de que a homilética seja importante à proclamação
  44. 44. 42 do Evangelho, contudo faz-se necessário que somada a ela haja uma vida de oração, jejum, santificação e estudo da Palavra de Deus para uma melhor contextualização do sermão. Muitos pregadores acham que devemos somente falar o que o povo quer ouvir, caindo numa falácia e contradição Bíblica, pois, homens e mulheres de Deus, inspirados pelo Espírito Santo nem sempre agradaram quando proferiram os decretos divinos. A Bíblia é um livro que não permite a interpretação particular baseada somente no que “eu acho”, mas de inteira propriedade do Senhor que permitiu sua confecção e propagação para determinar o trajeto pelo qual o homem deve andar conduzindo-o pela verdade. Como atualmente as pessoas, motivadas por interesses próprios, estão desacostumadas com uma mensagem que fale aos ouvintes e mostrem os seus erros e culpas, muitos procuram conforto num ambiente de fácil acomodação doutrinária e onde com muita expressividade possam simplesmente oferecer uma adoração superficial, sem compromisso com a verdade. Estes lugares são propícios para inspirarem “os animadores de auditórios” que estão preocupados na divulgação de seus nomes e a seduzirem vidas enganando os “néscios” na fé. Tais pessoas confiam nas suas experiências e em seus conhecimentos, que são bastante para propagarem sua filosofia mercenária disfarçada em sermões. O exemplo de Cristo destrona todo e qualquer modismo que queira interferir nesse processo salutar de percepção da mensagem bíblica, porque Ele, mais do que ninguém se preocupou com a forma de abordar as pessoas nos seus diálogos e muito mais abrangentes na oratória dos seus sermões para as multidões, utilizando meios de comunicação dos seus dias e experimentando todo e qualquer argumento que o levasse à informação saudável do conhecimento aos corações necessitados. [...] O sermão é um mecanismo de construção de ponte que une o mundo antigo do texto bíblico ao mundo moderno da congregação. A contextualização é a argamassa que liga esses dois mundos haja vista que o pregador tenta ajudar a congregação a entender a relevância do texto para a vida [...] Assim, o pregador viaja para lá e para cá, do texto ao contexto moderno, desenvolvendo a superestrutura do texto e sua contextualização para nossos dias. (OSBORNE, 2009, p. 561). Na atualidade é costumeiro nos cultos neo-pentecostais muitos pregadores serem sensacionalistas ao extremo, ao ponto de envolver os incautos ouvintes e manipularem suas vontades e seus desejos, pondo em suas mentes, uma “lavagem cerebral” tão bem aplicada que a platéia é conduzida ao delírio espiritual, como que num ritual tão “perfeito” e vicioso que conseguem causar nas pessoas não só emoções distorcidas (sem livre escolha), mas abandono das origens cristãs, fanatismos e perda de identidade espiritual. Geralmente estes sensacionalistas fazem uso também de alguns apetrechos para os seus “rituais de animação”: a fogueira santa; a água santa; espargir sal para purificar ambientes; proclamam o dia da cura,
  45. 45. 43 desde que se traga uma determinada quantia de dinheiro em troca; exorcismo exibicionista e muitos outros que atualmente podem ser vistos e ouvidos pela TV, internet e igrejas locais. Os escândalos envolvendo líderes e membros do evangelho pela falta de ética, compromisso e simplicidade surgem como “bombas devastadoras” que intimidam o crescimento da Igreja, porém não a sufocam nesses dias turbulentos. O diabo tenta investir num ponto muito forte que a Igreja possui (quando usa homens e mulheres através da pregação do evangelho tentando distorcer e colocando ambição no coração dos mesmos para fugirem da idéia principal em seus sermões) que é alcançar as massas pelo brilhantismo do poder de Deus. Conforme Romanos 10. 14 e 15 (ARA), o apóstolo Paulo descreve como as pessoas conseguem chegar ao Reino dos Céus, quando na informação do texto nos mostra que alguém “invoca” o nome do Senhor quando “ouve”, porque outro “foi enviado” e “pregou” o evangelho; também complementa o próximo versículo exultando: “[...] quão formosos são os pés dos que anunciam a paz, dos que anunciam coisas boas!” – “paz” e “coisas boas”, palavras que divergem completamente das anunciadas por animadores e artificialistas nos cultos cristãos que causam males e danos a personalidade humana, afastando-os das suas raízes. É urgente a necessidade de uma teologia bíblica da pregação, com substância, coerência, relevância, autoridade, inspiração, num processo hermenêutico responsável propagado através de uma séria homilética que cumpra as bases da verdadeira pregação, e esta, por sua vez traga vida à teologia cristocêntrica. Isso não se consegue da noite para o dia, mas com estudo, determinação, obediência, santidade e temor à Palavra de Deus. É crucial aplicar um texto com sensibilidade, persuadindo o ouvinte para o bem e não o contrário. [...] Em um fascinante estudo, um grupo de eruditos examinou como as pessoas ouvem sermões e que coisas as fazem prestar atenção e se disporem a mudar (McClure et al. 2004: 1-20). Eles caracterizaram seus achados sob seis aspectos: etos, ou persona de pregadores como percebida pela congregação, estabelecido pela forma como eles se relacionam a partir do púlpito bem como vivem sua vida na comunidade (e.g., são autênticos, eles vivem o que pregam?); cultura congregacional, a saber, os valores, caráter, relacionamentos, perspectiva e assim por diante, e a extensão em que o pregador atende e corresponde às expectativas que surgem da cultura; logos, a linguagem e modos de comunicação usados para persuadir e motivar o povo à ação, especialmente o sucesso em contextualizar a mensagem a suas necessidades; pathos, o apelo às emoções ao levar o povo a tomar decisões a respeito do propósito da mensagem; encarnação, a saber, a extensão em que o sermão ganha vida e prende o povo, chamando sua atenção para os pontos do sermão; e identificação, o relacionamento estabelecido entre pregador e congregação quando uma cultura de ouvir é criada e o povo é atraído para a mensagem. Essas seis áreas determinam o sucesso do sermão em alcançar o coração e mudar a mente dos ouvintes (OSBORNE, 2009, p. 573/574).
  46. 46. 44 2.5-Ouvintes tendenciosos e viciados Para construirmos uma análise cuidadosa do por que ouvintes tornam-se viciados e têm a tendência de absorver influências por vezes absurdas de pregadores sensacionalistas precisamos em primeira fase compreender as necessidades humanas e seus aspectos comportamentais na busca pela satisfação ou realização pessoal. Abraão Harold Maslow (1908-1970), psicólogo americano, lançou durante a abordagem comportamental da administração científica as bases para a Teoria das Necessidades Humanas ou Hierarquia das Necessidades Humanas, onde segundo ele “[...] o homem é motivado por necessidades organizadas em uma hierarquia de relativa prepotência, ou seja, [...] uma necessidade de ordem superior surge somente quando a de ordem inferior foi relativamente satisfeita” (CARAVANTES; PANNO; KLOECKNER, 2006, p. 106). Demonstrando os aspectos que compõem essa teoria pode-se notar que tais necessidades estão estruturadas em cinco níveis: (Recuperado do site: <http://blog.uniararas.br/marketing/?p=350> Acesso em: 08 de ago de 2010) O homem é um ser complexo e dotado de necessidades num processo contínuo do nascimento até a morte. Observa-se que no nível mais baixo da pirâmide aparecem as necessidades de maior importância ou básicas que quando não alcançadas são motivo de desestruturação familiar porque compõem a alimentação, o repouso, o sono, o abrigo, etc. Na
  47. 47. 45 seqüência vão aparecendo cada uma e à medida que elas vão sendo satisfeitas ou completadas surgem a busca pela realização da outra. Quando as necessidades fisiológicas do homem estão satisfeitas e ele não está mais temeroso a respeito do seu bem-estar físico, surgem as necessidades sociais como importante fator de motivação do seu comportamento; necessidades de participação, de associação, de aceitação por parte dos companheiros, afeto e amizades vêm à tona. Em seguida a segurança, status, auto-realização são alguns objetivos no transcorrer da vida do ser humano a serem alcançados em sociedade. Nota-se que à medida que a pirâmide sobe para os níveis mais altos observa-se também que ela afunila-se demonstrando uma menor quantidade de indivíduos que atingirão o topo. Não é estranho perceber que aplicando essa teoria à realidade cristã podemos perceber que o comportamento do ser humano – ainda que temente a Deus – é semelhante na busca pela hierarquia destas necessidades intrínsecas em seu ambiente de vida. Hoje o que mais assola mesmo nas igrejas locais são pessoas necessitadas, quer sejam pela falta de estrutura familiar, surgimento de doenças, educação fragilizada, falta de emprego, rejeições sociais ou pelo acúmulo de problemas. Isso sem mencionar a necessidade espiritual, que sem dúvida é maior do que as físicas quando não preenchida ou manchada pelo pecado. É aqui onde posicionamos melhor o foco desta pesquisa e precisamente este tópico, pois uma das grandes causas que levam ouvintes serem tendenciosos e viciados é o fato de não estarem satisfeitos economicamente, socialmente, e têm se esforçado a encherem reuniões de “quebras de maldições”, “experiências de regressões” e “promessas de realização financeiras”, justamente por esta falta de realização das necessidades humanas e espirituais. Num contexto mais amplo o que o psicólogo Abraham Maslow estava focando para entender o comportamento de pessoas na administração científica, esta pesquisa desprende-se para uma área mais complexa, porém não menos carente de entendimento que é a falta de estrutura social das famílias cristãs que levam para dentro das igrejas locais, tendo em vista serem na maioria dos casos membros ativos das mesmas. Uma expressão retirada do site <http://www.administradores.com>, escrita por um mestre em Administração e professor de Estratégia e Marketing, Marcos Morita (provavelmente não cristão evangélico – grifo nosso) nos chama a atenção para o quanto o público lá fora estão sintonizados nas transformações que a sociedade passa e principalmente quando compreende os evangélicos; ele aponta para um crescimento e grande aderência entre as atitudes e padrões de consumo da emergente classe média e o seu poder aquisitivo nesses
  48. 48. 46 últimos anos e que “[...] as igrejas evangélicas souberam aproveitar esta lacuna, inserindo-se nas comunidades de forma pioneira, antes mesmo da explosão do consumo” (MORITA; Disponível em: <http://www.administradores.com.br/informe-se/artigos/brasileiros-na- argentina-os-novos-sonhos-de-consumo/46296/> Acesso em: 08 de ago de 2010). Na verdade o que ele está querendo afirmar aqui – isso ele engloba todos os evangélicos – é que as igrejas foram aproveitadoras da “inocência” da maioria subdesenvolvida das pessoas e com suas doutrinas conduziram-nas ao rol de membros das suas instituições, ou seja, aquela velha frase que circulava entre os críticos onde diziam que “as igrejas cristãs eram compostas por pessoas sem estudo, por isso, fáceis de serem convencidas”. Igrejas comprometidas com a verdade precisam mudar essa incoerência em relação ao exagero da busca pela satisfação das necessidades dos seus membros, a ponto de levarem uma vida ilusória, com a aplicação de estudos e doutrinas em seus recintos, com embasamento bíblico, dirigidas por homens e mulheres que tenham vida e passem segurança para o ouvinte que vive numa época de extrema corrupção do gênero humano e sujeito a ambições destrutivas. Nós precisamos ouvir nos púlpitos o que Deus tem para nos dar e não o que nós queremos que seja dado, afinal Ele é quem sabe das nossas necessidades.

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