Espiral 42

641 visualizações

Publicada em

0 comentários
0 gostaram
Estatísticas
Notas
  • Seja o primeiro a comentar

  • Seja a primeira pessoa a gostar disto

Sem downloads
Visualizações
Visualizações totais
641
No SlideShare
0
A partir de incorporações
0
Número de incorporações
260
Ações
Compartilhamentos
0
Downloads
2
Comentários
0
Gostaram
0
Incorporações 0
Nenhuma incorporação

Nenhuma nota no slide

Espiral 42

  1. 1. espiral da ANO xiI fraternitas moviment - ternit N.º vimento boletim da associação fraternitas movimento N.º 42 JANEIR ANEIRO - JANEIRO / MARÇO de 2011 Ano novo, vida nova Serafim de Sousa VAMOS ENTRAR num período novo de atividade. O QUERO APROVEITAR para agradecer a todos deano de 2011 chegou e com ele vamos ter de nos enfrentar um modo geral a colaboração que deram, e em particularcom uma nova Direção. O nosso mandato está mesmo a aos que diretamente comigo trabalharam, servindo assim desteterminar. Temos consciência de termos feito o melhor modoa Igreja em Portugal..possível, dentro daquilo que esperavam de nós. Por isso vamospartir de coração alegre, convencidos do dever cumprido. PRETENDO AINDA dizer um obrigado sincero a todoQuero agradecer com toda a sinceridade a quem nos apoiou o grupo da Fraternitas pelo apoio que sempre neles encontrei,e nos ajudou a sermos fiéis ao lema do Fundador. Posso a simpatia e carinho que demonstraram, e a amizade que foigarantir que na equipa que agora termina todos funcionaram uma constante, revelada não só nas presenças em grandeem bloco e nunca houve alguém que não emitisse a sua opinião número nos encontros e retiros como em todas as ocasiõese não fosse ouvido com todo o respeito e aceitação das suas em que nos encontrámos, nos bons e nos menos bonsideias. Estamos contentes e felizes por termos podido resolver momentos.os problemas que se nos foram deparando com toda a Com o ambiente criado só uma palavra tem toda a razãodignidade e respeito por cada um. de ser, a entrega total de alma e coração às causas em que acreditamos. Nós acreditámos e a missão foi cumprida com a colaboração e boa vontade de todos. Estamos no bom caminho. O FUTURO A DEUS pertence. A Fraternitas tem de continuar sempre com o mesmo espírito de servir a Jesus Cristo e à sua Igreja, numa união perfeita, como a esposa e o esposo, que se completam e se amam mutuamente. O nosso chamamento deve-se exclusivamente a Ele que nos achou dignos de O servir e nos deu os carismas que cada um reconhece que só a Ele e ao nosso sim se devem. Temos trabalhado na vinha do Senhor, conforme as circunstâncias em que nos colocaram. Nada reivindicámos, mas pensamos que podíamos ser mais aproveitados do que somos. “A PENSO QUE toda a equipa continua mais ou menos seara é grande” e os operários são cada vez menos e maisdisponível para poder continuar a dar o seu contributo. Só o idosos. Até quando, Senhor, poderemos aguentar tantoPresidente, por motivos de saúde, que já foi sobejamente desafio e ao mesmo tempo tanta teimosia em não analisarexplicada a muitos, não poderá continuar. Espero que todos os factos? Peço ao Senhor Jesus e ao Divino Espírito Santocompreendam esta situação e não vejam qualquer outra que ilumine aqueles que têm o poder para decidir, queintenção na atitude que tenho impreterivelmente de tomar. Já andem depressa e sem medo, pois o mundo precisafiz muitos contactos e temos gente muito capaz de assumir o urgentemente do esforço de todos. E nunca seremos demeu lugar, sem quebras de continuidade no espírito que sempre mais para tanto que há a fazer.nos tem animado desde o primeiro momento.
  2. 2. REFLEXÃO2 espiralCelibato obrigatório dos presbíteros O acidental na crise do essencial O novo Cardeal Prefeito da Congregação para o Clero em entrevista à Vida Nueva (n.º 2730, pág. 8), àpergunta do jornalista sobre se pensava se deveria abrir-se N ão é possível apresentar aos jovens o ministério presbiteral vivido na conformação com Cristo pobre, obediente e casto, dentro da condição matrimonial, como acontece noutrasum debate sobre a questão do celibato obrigatório dos Igrejas reconhecidas por Roma.presbíteros respondeu: “É quase uma moda, desde hácinquenta anos, agredir o celibato eclesiástico….Não é uma simpleslei eclesiástica, mas uma natural consequência da identidade do O celibato eclesiástico obrigatório não faz parte integrante da vocação para o sacerdócio, como de resto foi entendido e praticado pela Igreja Católicasacerdote e do seu ser conformado com Cristo pobre, praticamente até ao Concílio de Trento, no século XVI. Oobediente e casto. O debate sobre o celibato deve realizar-se celibato, dom ou carisma, não pode ser imposto pela lei daaprofundando as suas razões e reforçando a convicção de Igreja, mas reconhecido, recebido e agradecido como tal.que não é um obstáculo ao florescimento das vocações. Nãodevemos trair os jovens rebaixando os ideais, mas antes ajudando-os a alcançá-los.” Y ves Congar, um dos teólogos do Vaticano II, também ele depois cardeal, afirmava, já na década de 1950: «Évidemment, évidemment il faut des prêtres mariés en Amérique Latine.» Já em Fevereiro de 1970, Joseph Ratzinger, então com 42 anos e professor na Universidade de Regensburg, num documento dirigido à Conferência Episcopal Alemã e assinado conjuntamente por outros teólogos de enorme envergadura, como Karl Rahner, Otto Semmelroth e Walter Kasper, afirmava: «As nossas reflexões apontam para a necessidade de uma revisão urgente e um tratamento diferente da regra do celibato, tanto pela Igreja alemã, como pela Igreja mundial.» E neste documento é ainda manifestada «preocupação com o facto de o celibato obrigatório afastar candidatos ao sacerdócio.» N ão deixa de ser curioso e merecedor de reflexão que Bento XVI – Joseph Ratzinger – no já best-seller «Luz do Mundo» (2010), ao ser confrontado pelo jornalista: «Actualmente há bispos que aconselham a desenvolver mais imaginação e um pouco mais de generosidade para se poder É nestes termos que uma personalidade com tais e tamanhas responsabilidades na Igreja se pronunciasobre a questão da disciplina do celibato dos presbíteros. Sua tornar possível, paralelamente ao sacerdócio celibatário, o serviço de homens casados como padres», responda nestes termos: «Que haja bispos que, na confusão do tempo actual,Eminência acha que é uma moda agredir desde há cinquenta pensem sobre isso é algo que consigo compreender. Difícilanos esta norma disciplinar da Igreja Católica Romana. E será dizer como funcionaria uma justaposição desse tipo…»mais, acha o celibato obrigatório uma natural consequênciada “identidade do sacerdote e do seu ser conformado a Cristopobre, obediente e casto” – formulação que sabemos aplicar- N ão há muitos dias, parlamentares alemães apresentaram à Conferência Episcopal do seu país um documento em que manifestavam tristeza pelo facto de-se, sim, à condição dos religiosos, com votos de pobreza, de cada vez mais comunidades cristãs viverem o domingo semobediência e de castidade. P arece que sua Eminência tem Eucaristia e solicitavam a revisão da lei do celibato obrigatóriomedo de um debate aberto e clarificador sobre o celibato por a considerarem obsoleta e contrária ao reconhecimento eobrigatório, debate que aprofunde a sua razão de ser para lá à importância dos ministérios que o Espírito suscita nasde qualquer preconceito ou tabu e num clima de docilidade comunidades locais. A CE respondeu protelando ae serviço à Igreja que somos. Tem medo desse debate e consideração desse problema “para os próximos anos”.está em boa e numerosa companhia. Onde e quando é que,por exemplo, entre nós, se debateu, abertamente, a questãodo celibato obrigatório? N ão pode deixar de nos espantar este ziguezague e indecisão da hierarquia na Igreja Católica Romana. Manter a disciplina do celibato obrigatório não será A inda não é possível apresentar aos jovens o celibato como dom ou carisma e não como condição paraaceder ao presbiterado. condicionar pela lei a vocação do serviço nas comunidades, vocação essa, sim, dom de Deus ao seu Povo? A. Teixeira Coelho
  3. 3. DOCUMENTO l espiral 3Igreja 2011: uma ADESÃO necessáriaA 3 de Fevereiro passado,o jornal alemão Süddeutsche Zeitung publicou ummanifesto de 143 teólogos alemães, suíços eaustríacos. O documento teve ampla repercussão naimprensa mundial. Publicamos a íntegra doManifes est tradução Dischinger.Manif es to. A tr adução é de Benno Dischinger. P assou-se quase um ano desde que foram tornados públicos casos de abusos sexuais com crianças eadolescentes da parte de padres no colégio Canisius de Berlim.Seguiu-se um ano que lançou a Igreja Católica na Alemanhanuma crise sem precedentes. A imagem que hoje aparece éambivalente: começou-se a fazer muito para garantir justiçaàs vítimas, enfrentar a injustiça e descobrir as causas dos abusos,a dissimulação e a dupla moral nas próprias fileiras. Em muitoscristãos e cristãs responsáveis, com ou sem encargos, após aperturbação inicial cresceu a convicção de que são necessáriasprofundas reformas. O apelo a um diálogo aberto sobre asestruturas de poder e de comunicação, sobre a forma doministério eclesial e a participação responsável dos fiéis, sobre Só através de uma comunicação aberta a Igreja podea moral e sobre a sexualidade despertou expectativas, mas reconquistar confiança. Somente se a imagem que a Igreja temtambém temores: deita-se fora uma oportunidade, talvez a de si e a imagem de Igreja que os outros têm dela nãoúltima, de superação da paralisia e da resignação, evitando divergirem, ela terá credibilidade. Dirigimo-nos a todos aquelesenfrentar os problemas ou subvalorizando a crise? A que não renunciaram a esperar por um novo início na Igreja epreocupação por um diálogo aberto sem tabus não é para se empenham neste sentido. Assumimos como nossos tambémtodos suspeito, e em particular não o é, se é iminente uma os sinais de adesão e de diálogo que alguns bispos propuseramvisita do papa. Mas a alternativa seria um silêncio sepulcral, nestes últimos meses em discursos, pregações e entrevistas.porque as últimas esperanças têm sido destruídas esimplesmente não pode ser assim. A Igreja não é um fim em si mesma. Ela tem a missão de anunciar a todos os homens o Deus de A profunda crise da nossa Igreja exige discutir também sobre aqueles problemas que à primeira vista nãotêm relação direta com o escândalo dos abusos e com a sua Jesus Cristo que liberta e que ama. Ela só pode fazê-lo se ela própria for um lugar de um testemunho fidedigno do anúncio de liberdade do Evangelho. O seu falar e o seu agir, as suasplurianual cobertura. Como professores e professoras de regras e as suas estruturas – toda a sua relação com os homensTeologia não podemos continuar calados. Sentimos a no interior e no exterior dela – derivam da exigência deresponsabilidade de contribuir para um autêntico novo início: reconhecer e favorecer a liberdade dos humanos enquanto2011 deve tornar-se um ano de proctividade e reconversão criaturas de Deus. Absoluto respeito por cada pessoa humana,para a Igreja. No ano passado tantos cristãos, o que jamais atenção à liberdade de consciência, empenho pelo direito eocorrera antes, deixaram a Igreja Católica e apresentaram à pela justiça, solidariedade com os pobres e os oprimidos: sãoautoridade da Igreja a desistência da sua pertença ou estes os parâmetros teológicos fundamentais, que derivam doprivatizaram a sua vida de fé para a defender da instituição. empenho da Igreja pelo Evangelho. Deste modo concretiza-A Igreja deve entender estes sinais, para sair ela mesma de -se o amor a Deus e ao próximo.certas estruturas fossilizadas e para reconquistar nova forçavital e credibilidade. A orientação para o anúncio público de liberdade implica uma relação diferenciada perante a sociedade N ão se conseguirá promover a renovação das estruturas eclesiais num angustiado isolamento dasociedade, mas somente com a coragem da autocrítica e com moderna: de certo ponto de vista, ela é mais profunda em relação à Igreja, quando se trata do reconhecimento da liberdade, da maturidade e da responsabilidade; nisto a Igrejao acolhimento de impulsos críticos – também do exterior. pode aprender, como já o sublinhara o Concílio Vaticano II.Isto faz parte das lições do último ano: a crise dos abusos Sob outro ponto de vista, é inelutável a crítica que deriva donão teria sido reelaborada de modo tão decidido sem o espírito evangélico perante esta sociedade, por exemplo,acompanhamento crítico desenvolvido pela opinião pública. quando as pessoas são julgadas somente segundo as suas
  4. 4. documento4 espiral 5prestações, quando a solidariedade “queimados” [pelo excesso de tarefas] Reconciliação: a solidariedaderecíproca for espezinhada ou quando a e acabam exaurindo-se. Os fiéis com os pecadores pressupõedignidade dos seres humanos não for permanecem distantes se não lhes for que se leve a sério o pecado noreconhecida. dada a confiança de assumirem uma próprio interior. Um pretensioso N o entanto, vale em todo o caso o que segue: o anúncio deliberdade do Evangelho constitui o corresponsabilidade e de se sentirem partícipes em estruturas democráticas na direção das suas comunidades. O rigorismo moral não é adequado à Igreja. A Igreja não pode pregar reconciliação com Deus sem procurarparâmetro para uma Igreja fidedigna, ministério eclesial deve servir à vida das ela própria no seu agir os pressupostospara o seu agir e a sua imagem social. suas comunidades – e não o contrário. para a reconciliação com aqueles emOs desafios concretos com que a Igreja A Igreja também necessita de padres relação aos quais se tornou culpada pordeve confrontar-se não são, de fato, casados e de mulheres em serviço violência, violação do direito, inversãonovos. E, no entanto, não são visíveis eclesial. do anúncio bíblico de liberdade, numa 3reformas que considerem o futuro. É Cultura do direito: o moral rigorosa privada de misericórdia. 6necessário levar em frente um diálogo reconhecimento da dignidade Celebração: a liturgia vive daaberto sobre isto nos seguintes âmbitos e liberdade de todo o ser participação ativa de todos osde problematicidade: humano mostra-se precisamente quando fiéis. Nela devem encontrar 1 Estruturas de participação: em os conflitos são enfrentados de modo espaço as experiências e as formas atuais todos os campos da vida equânime e com respeito recíproco. O de expressão. A celebração não deve eclesial, a participação dos fiéis direito eclesial só merece este nome se enrijecer-se num tradicionalismo. Aé a pedra de toque para a credibilidade os fiéis puderem fazer valer efetivamente multiplicidade cultural enriquece a vidado anúncio de liberdade do Evangelho. os seus direitos. A defesa do direito e a litúrgica e não pode conciliar-se com asConforme o antigo princípio jurídico: cultura do direito na Igreja devem ser tendências por uma unificação centralista.“O que diz respeito a todos, deve ser urgentemente melhoradas; e um Somente quando a celebração da fédecidido por todos” são indispensáveis primeiro passo nesta direção é a criação acolher situações concretas de vida omais estruturas sinodais em todos os de uma jurisdição administrativa eclesial. anúncio da Igreja atingirá as pessoas. 4 Oníveis da Igreja. Os fiéis devem ser Liberdade de consciência. processo de diálogo eclesialtornados participantes na escolha de Respeito pela consciência iniciado só pode conduzir àimportantes “representantes oficiais” individual significa confiar na libertação e à mudança se todas as partes(bispos, párocos). O que pode ser capacidade de decisão e de envolvidas estiveram prontas paradecidido localmente deve ali ser responsabilidade das pessoas. Favorecer enfrentar os problemas impulsores.decidido, e as decisões devem ser e desenvolver esta capacidade é também Trata-se de procurar, numa livre etransparentes. tarefa da Igreja – mas não deve equânime mudança de argumentações, 2 Comunidades: as comunidades transfor mar-se em personalismo. as soluções que conduzam a Igreja para cristãs devem ser lugares nos Reconhecer seriamente a liberdade de fora de sua paralisante auto-referen- quais as pessoas compartilhem consciência é algo que tem a ver com o cialidade. À tempestade do ano passadobens espirituais e materiais. Mas, âmbito das decisões pessoais sobre a não pode seguir nenhuma paz! Na atualatualmente, a vida comunitária está em vida e o das formas de vida individual. situação ela só poderia ser uma pazdeclínio. Sob a pressão da falta de padres A alta consideração da Igreja pelo sepulcral. O medo jamais foi bomsão construídas unidades administrativas matrimónio e pela forma de vida sem conselheiro em tempos de crise. Cristãossempre maiores – “paróquias extra- matrimónio está fora de discussão. Mas e cristãs, sejamos exortados peloamplas” –, nas quais quase não podem ela não impõe que se excluam as pessoas Evangelho a olhar com coragem para oser vivenciadas a vizinhança e a pertença. que vivem responsavelmente o amor, a futuro e – movidos pela palavra de JesusÉ posto fim a identidades históricas e a fidelidade e o cuidado recíproco numa – a caminhar como Pedro sobre asredes sociais particular mente união homossexual, ou como águas: “Porque tendes medo? É tãosignificativas. Os padres são divorciados redesposados. pequena a vossa fé?”
  5. 5. reflexão l espiral 5 «Ideias já reno enov U ma r enovação indispensáv indispensáv el debatidas» O secretário da Confeência Os 143 professores de Teologia Os teólogos insistem que a IgrejaEpiscopal Alemã, o jesuíta Hans que subcreveram o Manifesto em que deve reconhecer e fomentar a liberdadeLangendörfer (foto em cima), fez exigem reformas na Igreja católica do homem como criatura de Deus,saber do desacordo dos bispos com representam um terço dos teólogos respeitar a consciência livre, defender oo manifesto subscrito por 143 católicos de fala alemã residentes na direito e a justiça e criticar asteólogos alemães, suíços e austriacos, Alemanha, Suíça e Áustria. As suas manifestações que depreciam ae disse que são “ideias com frequência propostas incluem o fim do celibato dignidade humana. E apontam desafios,já debatidas”, numa nota difundida a obrigatório, a presença qualificada das que incluem maiores estruturas sinodais4 de Fevereiro, um dia após a mulheres na vida eclesial e a participação em todos os níveis da Igreja e apublicação do Manifesto. popular na escolha de bispos. participação dos fiéis na escolha dos seus Os teólogos pedem o sacerdócio O documento foi publicada no jornal bispos e párocos.casado, a presença das mulheres nos Süddeutsche Zeitung, que destacou o O Manifesto retoma a afirmaçãoministérios eclesiais e a participação fato de que o número de teólogos já feita de que a Igreja Católica necessitapopular na eleição dos bispos. O subscritores seria maior se muitos não também de sacerdotes casados e deepiscopado alemão, além de expressar temessem represálias da instituição. mulheres nos ministérios eclesiásticos,o seu desacordo, pediu mais O manifesto «Igreja 2011 - a adesão denuncia que a falta de sacerdotes forçaaprofundamento sobre os temas. necessária» (“Ein notwendiger a exigência de paróquias cada vez O padre Hans Langendörfer Aufbruch”) lembra a Declaração de maiores e lamenta que os sacerdotesreconhece a importância do diálogo Colônia, assinada por 220 teólogos em sofram desgastes diante destascom o mundo teológico, mas refre 1989, no papado de João Paulo II. circunstâncias.que “o documento recolhe Judith Könemann (foto em baixo), O documento enfatiza que a defesaessencialmente, e uma vez mais, ideias professora de Teologia em Münster, legal e a cultura do direito na Igrejadebatidas com frequência”. destacou que o amplo eco que o devem melhorar urgentemente e Manifesto teve demonstra que “tocaram argumenta que a elevada valorização do um ponto nevrálgico”. Ela é uma das matrimónio e do celibato supõe excluir oito pessoas que redigiram o Manifesto, pessoas que vivem o amor, a fidelidade ao qual se somaram professores e a preocupação mútua numa relação eméritos da envergadura intelectual de estável de casal do mesmo sexo ou Peter Hünermann e Dietmar Mieth, como divorciados recasados. labutadores por reformas como Os teólogos desconstróem a Heinrich Missalla e Friedhelm suposta autoridade de Roma e criticam Hengsbach, progressistas como Otto o rigorismo da Igreja Católica, insistindo Hermann Pesch e Hille Haker, e até que não se pode pregar a reconciliação conser vadores como Eberhard com Deus sem criar as condições para Schockenhoff. uma reconciliação com aqueles diante Tendo como pano de fundo a crise dos quais é culpada: por violência, por até então incontornável dos escândalos negar o direito, por converter a de pedofilia em dioceses e paróquias mensagem bíblica de liberdade em uma católicas ao redor do mundo, o moral rigorosa sem misericórdia. Manifesto elogia o chamamento dos E concluem denunciando a prisão bispos a um diálogo aberto. Pragmá- do pavor institucional diante do ticos, os subscritores dizem-se na rebanho, exigindo diálogo, observando responsabilidade de dar uma contributo que o medo não é bom conselheiro, para um novo começo real, assumindo recordando que os cristãos foram a tese central de que a Igreja Católica só chamados pelo Evangelho a olhar com pode anunciar o libertador e amante valor para o futuro, como no Deus Jesus Cristo, quando ela mesma chamamento de Jesus a Pedro para for um lugar e um testemunho crível da caminhar sobre as águas: ‘Por que estás mensagem de libertação do Evangelho. com medo? A tua fé é tão pequena?’
  6. 6. reflexão6 espiralManifesto dos teólogos alemães, suíços e austríacos«O debate é elemento constitutivo da vida social» «O apelo dos teólogos alemães insiste namensagem libertadora do Evangelho.A força dessa mensagem leva-os a superar os PONTOS DISSONANTESlimites criticar, Evangelho,limites da Igreja e a criticar, em nome do Evangelho, Encontro inexatidões graves na resposta da Rádio Vaticano:uma sociedade que julga o ser humano a partir do 1) Ela sublinha que, entre as petições dos signatários, figuraseu desempenho e despreza a dignidade do “a supressão do celibato sacerdotal”. Não é verdade. Pelohomem.» contrário, os teólogos dizem precisamente que “a altaA opinião é de Jean Rigal, sacerdote francês da consideração em que a Igreja tem o matrimónio e o celibatodiocese de Rodez e teólogo, autor de vários livros não está em discussão”. Todavia, eles evocam a possibilidadesobre a Igreja e sobre o futuro dela (o seu último de confiar “um ministério eclesiástico” aos homens casados,livro é “Ces Questions qui Remuent les Croyants”, o que é um modo para enfatizar que não se deve confundirLethielleux, Janeiro de 2011).Est texto foi www.baptises.fr .baptises.fr.Es te t e xto f oi publicado no sítio www.baptises.fr. estado de vida e ministério.A tradução é de Anete Amorim Pezzini. 2) Contrariamente ao que diz a Rádio do Vaticano, os teólogos não falam do “sacerdócio para as mulheres”, mas da necessidade de confiar às mulheres os “ministérios O s meios de comunicação têm difundido o “manifesto” de 143 teólogos de língua alemã(alemães, suíços, austríacos). Já foi dito que o último eclesiásticos”, o que não inclui necessariamente o presbiterado. Sabe-se que, na Igreja Católica, o problema do diaconatomovimento desse tipo foi a Declaração de Colónia, em 1989. feminino permanece em aberto e, em sentido mais amplo, osubscrita por 220 teólogos. Todavia, já em 1968 foi publicada do ministério confiados aos leigos (homem ou mulher), comouma declaração de 38 teólogos que reivindicavam “a liberdade preconizava o Papa Paulo VI (Ministeria Quædam, 1972) edos teólogos e da Teologia a serviço da Igreja resgatada pelo como confirma o Catecismo da Igreja Católica (n.° 1143).Concílio Vaticano II”. Aquela declaração foi assinada por Desagrada que Bento XVI não tenha dado seguimento àeminentes teólogos, entre os quais Yves Congar, Walter Kasper, proposta 17 do último Sínodo dos Bispos que auspicava aJoseph Ratzinger. criação do ministério instituído de “leitor” para as mulheres. O tom do documento é vibrante, mas respeitoso. Dirige-se à Igreja, e não apenas ou principalmente para as autoridadesromanas, ainda que Bento XVI seja esperado na Alemanha A segunda parte da Declaração diz respeito ao funcionamento da Igreja. Deplora a ampliação das paróquias em termos de simples expansão das estruturas atuais.em Setembro próximo, circunstância que não é fortuita. Imaginamos as consequências disso: o esgotamento dos padres PONTOS CONCORDANTES e a resignação dos fiéis. Sem dúvida, esse ponto será retomado Vários temas importantes, em acordo entre os teólogos e na próxima Assembleia plenária da Conferência Episcopala voz oficial do Vaticano («Osservatore Romano», «Rádio Alemã.Vaticano») merecem ser observados: O documento fala também sobre o delicado problema 1) Há uma crise profunda na Igreja Católica na Alemanha: dos casais homossexuais e dos divorciados que contraíram“o número de fiéis que deixaram a Igreja é sem precedentes”; novas núpcias. Os teólogos pedem para não “excluir aqueles 2) O medo é mau conselheiro. Os teólogos insistem sobre que vivem de maneira responsável o amor, a fidelidade, aa necessidade de um percurso de diálogo, aberto “ao debate atenção recíproca dentro de um casal do mesmo sexo oulivre e honesto das questões”. Evocam uma velha máxima dos divorciados que casaram novamente”. Esse problemamedieval que afirma: “O que diz respeito a todos deve ser poderia ser retomado pela Assembleia dos Bispos alemães.discutido e decidido por todos”. Observe-se que o nosso Vivemos em 2011, numa época em que o debate éCódigo de Direito Canónico continua a prescrevê-lo em parte: elemento constitutivo da vida social. Entre cristãos, o debate“O que toca a todos como indivíduos, deve ser aprovados deve certamente ter lugar na comunhão da Igreja, mas não épor todos” (C. 119, 3). Desapareceu o conceito de debate. proibido o vigor das afirmações. Tanto mais que muitos 3) Na sua resposta, os bispos alemães expressaram a questionamentos não parecem ser levados em consideração.opinião de que “o documento dos teólogos é um sinal A ausência do debate mata a criatividade. E Deus sabepositivo, porque demonstra o desejo de os signatários que necessitamos de criatividade, no nosso tempo, à luz eoferecerem sua própria contribuição ao diálogo sobre o futuro com a força do Espírito.da fé e da Igreja na Alemanha. Os bispos reestabeleceram a Talvez essa certeza de fé pudesse inspirar, um dia, apalavra “contribuição” usada pelos teólogos. É um bom concentração de teólogos numa declaração coletiva, ao serviçoaugúrio. da Igreja.
  7. 7. reflexão l espiral 7 Iniciativa dos teólogos : renovação ou demolição efle lexão Hauke, professor Patrística Faculdade Teologia R ef lexão polémica de Manfred Hauke, prof essor de Patrís tica e Dogmática na Faculdade de Teologia de vice-diret Revista Teológica Lugano, ZENIT, L ugano e vice-dire t or da Re vis ta Teológica de L ugano, na agência ZENIT, sendo os subtítulos da «Espiral». Munst 17 teólogos, responsabilidade do «Espir al». Porque a maioria dos signatários é da faculdade de Muns t er - 17 t eólogos, incluindo o decano Klaus Muller - ele chama ao Manifesto «Declaração de Munster (DM). Os teólogos querem fazer de 2011 um “ano de partida” Não se fala sequer sobre a exigência da conversão. Pelopara que a Igreja possa sair de “estruturas fossilizadas”. contrário: deseja-se o reconhecimento, por parte da Igreja, da Este “diálogo aberto” deve incluir seis “áreas de ação”: situação dos divorciados novamente casados, que vivem (nas(1) São necessárias “mais estruturas sinodais em todos os níveis palavras de Jesus) em um estado de adultério (cf. Mc 10,11),da Igreja”, sob o princípio: “O que afeta todos deve ser e mesmo os casais homossexuais, cuja prática sexual, dedecidido entre todos”. (2) A vida da comunidade necessitaria, acordo com os catálogos dos vícios no Novo Testamento,para a sua condução, de estruturas mais democráticas (para a leva à exclusão do Reino de Deus (cf. 1Cor 6,10). Aqui não sesua orientação). “A Igreja também precisa de padres casados vê a influência de um conhecimento teológico mais profundo,e mulheres no ministério eclesial.” (3) Um primeiro passo mas sim uma perda de fé e de moral. Os elementospara alcançar uma “cultura do direito” seria “a criação de fundamentais da doutrina apostólica são sacrificados devidouma jurisdição administrativa” (ou seja, de tribunais a um pensamento que quer estar “a par” da situação atual. Aadministrativos). (4) Com relação ao que chamam de petição de retirar a obrigação do celibato recorda os pedidos“liberdade de consciência”, foi dito: “A alta estima do do Iluminismo tardio, superados há muito tempo por Johanncasamento por parte da Igreja (...) não exige a exclusão de Adam Möhler e outros protagonistas na renovação católicapessoas que vivem responsavelmente o amor, a fidelidade e do século XIX. Nem mesmo aos ilustrados das Igrejas estataiso apoio mútuo em uma união de pessoas do mesmo sexo da época josefinista, entretanto, teria ocorrido rebaixar os[casais homossexuais] ou como divorciados recasados”. (5) valores do matrimónio cristão ou encorajar o concubinatoNo espírito de “reconciliação”, seria preciso ir contra “uma homossexual. Inclusive o pedido de ter “mulheres nomoral estrita, sem misericórdia”. (6) A liturgia vive graças à ministério apostólico” é dirigido contra a origem apostólicaparticipação ativa dos fiéis e não deveria ser tão unificada de da Igreja, pelo menos quando se entende “ministério” nomaneira centralista. sentido do sacramento da Ordem. Recorde-se aqui a Carta Apostólica de João Paulo II, Ordinatio Sacerdotalis (1994), POLÉMICA 1: os teólogos instrumentalizam a crise na qual o papa sublinha que “a Igreja não tem absolutamente Temos de dar a razão aos signatários da DM: a Igreja (de a faculdade de conferir a ordenação sacerdotal às mulheres, elíngua alemã) está a passar por uma crise profunda. esta sentença deve ser considerada definitiva por todos os Por outro lado, muitas sugestões apresentadas pelos fiéis da Igreja”. O que se aplica a “todos os fiéis da Igreja”teólogos signatários fazem parte desta crise e não podem vale, provavelmente de maneira mais forte, para os teólogosfavorecer a superação dos problemas. Os pedidos contidos que têm uma missio canonica.no memorando são, em boa parte, pedidos conhecidos,procedentes dos anos 60 e 70 do século passado. Existe um OUTROS DESACORDOS“passo adiante” nos esforços a favor da práxis vivida da Vamos lançar um breve olhar para outros pedidos, aindahomossexualidade. O debate público sobre os abusos sexuais que não possamos dar aqui uma resposta exaustiva. Certamenteé instrumentalizado para empurrar uma Igreja enfraquecida é importante uma “participação” de todos os fiéis na vida dapara uma situação que se afasta da sua origem apostólica e se Igreja, mas esta participação não deve ser confundida com asaproxima do protestantismo liberal. Segundo as estatísticas, o formas políticas da democracia. De acordo com a sucessãopercentual (deplorável) do abuso sexual pelo clero católico é apostólica, a Igreja é guiada pelo papa e pelos bispos. Nomuito menor comparado ao que acontece nas estruturas início da Igreja, também os fiéis, muitas vezes, participaram(comparáveis) do âmbito secular (por exemplo: famílias, da eleição de bispos por meio do seu testemunho e consen-escolas, associações desportivas) e até mesmo com relação timento: mas estes fiéis foram preparados pelo testemunhoao que se sabe dos pastores protestantes, casados, em sua dos mártires, na época das perseguições; não era a situaçãomaioria (cf. J. M. Schwarz, Kirche, Zölibat und de hoje, em que quase 90 % dos “católicos” alemães não vãoKindesmissbrauch,www.kath.net, 3.2.2010). à missa no domingo e dependem quase que inteiramente da influência da comunicação social, a qual, em sua maior parte, POLÉMICA 2: faz o documento dizer o que não diz é decididamente desfavorável à fé católica. As eleições Os teólogos da DM cometem um “abuso com o abuso” episcopais não eram decisões tomadas pelo povo, mesmo naao promover petições que certamente não podem combater Igreja antiga. Segundo o Papa Leão Magno, o bispo deveriaas causas que estão na base dos próprios abusos. Não se diz ser eleito pelo clero, aclamado pelo povo e ordenado pelosque a castidade é necessária para uma verdadeira renovação. bispos da província, com o consentimento do Metropolitano.
  8. 8. reflexão8 espiral Opinião latino-americana O teólogo João Batista Libânio, professor em Minas Gerais, no Brasil, leu o documento e analisou asO princípio jurídico citado pela DM vem originalmente do propostas. Resumindo, “A propos tas. Resumindo, ele é enfático: “A tônica dodireito romano privado e foi interpretado em 1958 por Yves projeto do Papa e a do manifesto divergem.”Congar, no sentido da recepção dentro da Igreja, mas nãocomo democratização do Magistério, nem do ministério de Com a experiência de quem presenciou “nítidos momentosguia (Quod omnes tangit, ab omnibus tractari et approbari debet); no processo eclesiástico” da Igreja nas últimas décadas, Libanioexplicar o consentimento do povo de Deus como “decisão” ressalta que o manifesto “alude ao fato de que em 2010 ‘tantosou inclusive como base de “estruturas mais sinodais” é sinal cristãos deixaram a Igreja e apresentaram à autoridade dade uma ideologização fora da História eclesial. Igreja a desistência da sua pertença ou privatizaram a sua vida O que se afirma sobre a questão das “paróquias XXL” de fé para defendê-la da instituição, o que jamais ocorrerarefere-se a uma dolorosa realidade. A solução das dificuldades antes”. A constatação do êxodo cristão, entretanto, “não abalanão está em mudar as estruturas da Igreja, procedentes de a convicção do projeto de manter uma Igreja, emboraCristo (como o sacerdócio ministerial reservado aos homens minoritária, mas fiel aos ensinamentos dogmáticos, morais ee sua responsabilidade específica para a guia da comunidade). à prática disciplinar eclesiástica”, assinala.Para organizar bem a vida das comunidades, é necessária a Para ele, Roma reforça a autoridade sobre as Igrejas locaisprudência pastoral e o compromisso de todos, mas não uma porque elas a solicitam. “A geração profética do porte delaicização na pastoral das comunidades paroquiais. A Dom Helder deixou-nos ou já está envelhecida. E a nova“liberdade de consciência” proclamada na DM separa safra eclesiástica revela outro corte”, lamenta.claramente a consciência do sujeito da verdade objetiva à quala consciência se deve orientar. Não faz sentido aplicar a Quetionado sobre se concorda que a Igreja precisa ser“liberdade de consciência” para aprovar os casais do mesmo reformada e quais seriam as reformas urgentes?,sexo e o adultério. Newman falaria aqui de um pretendido responde: «Os anos permitem-me perceber três nítidos“direito à voluntariedade” (Carta ao Duque de Norfolk). A momentos no processo eclesiástico das últimas décadas. Ainda“misericórdia” na moral, mencionada sob a voz da conheci estruturas hieráticas no pontificado de Pio XII, que“reconciliação”, não deve separar-se da necessidade de lançava a imagem do poder eclesiástico onisciente erespeitar os mandamentos de Deus: Deus perdoa o pecador onipotente. Roma pronunciava-se sobre os mais diversossinceramente arrependido, mas dá-lhe a entender também assuntos e com a consciência de dizer verdades inquestionáveis.(como Jesus à adúltera): “De agora em diante, não peques Não se percebia sinal de dúvida ou perplexidade. Isso aconteciamais” (Jo 8, 11). com duplo efeito. Positivamente, oferecia aos católicos fieis A petição da DM de integrar as “experiências e expressões enorme segurança sobre temas desde a Astronomia até àda época contemporânea” na liturgia já tem o seu lugar intimidade da vida conjugal. Para aqueles que já tinham recebidoconveniente no atual ordenamento - por exemplo, na oração o impacto da modernidade liberal, democrática, marcada pelados fiéis e na homilia. O acolhimento de “situações concretas subjetividade, autonomia das pessoas, consciência história,da vida” não deve obscurecer a importância da liturgia como práxis transformadora, tais declarações romanas produziamglorificação de Deus, juntamente com toda a Igreja, que enormes dificuldades e mal-estar.proporciona formas muito precisas para a expressão comum. Veio então João XXIII. Convoca o Concílio Vaticano II Certamente, é preciso elogiar o “diálogo” dentro da Igreja. que inicia, com certa coragem, o diálogo da Igreja com aPara um debate legítimo entre cristãos católicos, entretanto, modernidade. Usando a imagem da música “andante ma nondeve estar claro o pré-requisito presente na profissão comum troppo”, a Igreja caminha em direção ao repensamentoda fé católica. Diversos pontos da DM questionam essa base. doutrinal e pastoral, provocado pelos questionamentosOs signatários da DM podem sinceramente apresentar a teóricos e práticos levantados nos últimos séculos. No entanto,Professio fidei exigida como condição indispensável para ensinar, o tempo de aggiornamento não durou muito. Já no próprioem nome da Igreja, nas faculdades de teologia? Os bispos Pontificado de Paulo VI, a partir de 1968, despontam sinaisresponsáveis terão a coragem de insistir contra a dissidência de contenção e retrocesso. E depois a Igreja Católica mergulhasobre o caráter eclesial da Teologia? A próxima visita do Santo num longo processo neoconservador que dura até hoje. AsPadre à Alemanha será uma grande oportunidade para uma inovações iniciadas no Vaticano II interromperam-se e outrasrenovação na fé católica. O memorando dos 143 teólogos, não surgiram, exceto em um ou outro gesto ousado de Joãoporém, entristece: não oferece nenhuma contribuição para Paulo II, como a Oração pela Paz em Assis com os lídereslançar-se rumo a um futuro cheio de esperança, mas sim uma das diferentes religiões do mundo. Ainda que o clima geraldemolição que põe em perigo o tesouro da fé eclesial. não fale de abertura, entretanto percebe-se-lhe a necessidade. página oficial na Internet: www.fraternitas.pt * e-mail: direccao@fraternitas.pt * página oficial na Internet: www.fraternitas.
  9. 9. reflexão l espiral 9 À prgunta: Quais são as perspectivas e os desafios da a Igreja de Roma também lentamente afinar-se-á com ela. O Igreja para esta segunda década do século XXI?, opina: processo se institui de ambas as partes simultaneamente em Distingamos os níveis. No momento, ao nível das estruturas mútua relação e influência. internas da Igreja não se veem perspectivas animadoras. Quanto mais a Igreja local marcar a originalidade, a Durante o longo pontificado de João Paulo II, a Igreja liberdade, a autonomia, tanto mais Roma a reconhecerá. Se Católica viveu o paradoxo, de um lado, de rasgos de abertura ela, porém, esperar para cada palavra que disser um sorriso na prática do diálogo inter-religioso, na defesa dos direitos aprobatório de Roma, a liberdade se encurtará e a autonomia humanos, na oposição a toda guerra enfrentando, inclusive, se dissolverá. Quem age sob o olhar de outro, termina as pretensões americanas, na proximidade com o mundo dos condicionando-se de tal modo que perde a identidade. pobres e, de outro, de enrijecimento doutrinal e disciplinar interno. No horizonte, não se percebe que a Igreja enfrentará Como vê a atual internacionalização da Cúria os novos desafios da cultura contemporânea por meio de Romana? Como propõe o Manifesto, a sociedade mudanças internas, como fez, em parte, logo depois do Concílio deveria ajudar a escolher os representantes? Vaticano II. Falta o clima de abertura, de otimismo e de J. B. Libânio – A internacionalização traz vantagens. Mas profetismo para lançar-se em transformações profundas. Em não decide por si mesma. Acontece que a cor internacional termos de hierarquia, reina, antes, um momento de silêncio, desaparece facilmente por homogeneização ideológica por de prudência sem muita inspiração e lanço de coragem força da instituição. Se cada nação levasse para dentro da inovadora. A geração profética do porte de Dom Helder Cúria Romana a própria originalidade e a conservasse em deixou-nos ou já está envelhecida. E a nova safra eclesiástica contínuo diálogo com a predominante cultura europeia e revela outro corte. romana, então a internacionalização causaria outro efeito. No universo dos leigos, há sinais de esperança nas Bispos latino-americanos, africanos ou asiáticos que arribam comunidades de base, na crescente participação consciente e a Roma se romanizam a ponto de não se distinguir muito ativa das mulheres, no maior desejo de espiritualidade e dos outros. Outra coisa seria se as Igrejas locais se fizessem Teologia, na vitalidade de novos ministérios, na criatividade presentes em Roma por meio dos seus representantes, litúrgica, no acesso amplo às Escrituras pela via da leitura escolhendo-os e eles fazendo-se porta-voz delas. Mais: se elas orante. Em algumas Igrejas locais, o povo de Deus anuncia mesmas decidissem na escolha dos ministros que as servem algo de novo, desde que a clericalização não a prejudique. ou vetassem aqueles que não as satisfizessem. Assim evitaríamos casos desastrosos que tivemos de bispos, párocos Será que o Vaticano determina as Igrejas locais? ou pessoas em funções com detrimento da vida eclesial em João Batista Libânio – Cícero disse que a História é vez de a construir, e os fieis tiveram de suportá-los calados e “mestra da vida”. Lancemos um olhar para os últimos séculos sem poder de mudança. Certos aspectos da sociedade a fim de entender a relação entre o Vaticano e as Igrejas locais. democrática não contradizem, teologalmente falando, a Gregório VII, no século XI , deu a decisiva guinada da maneira de designar membros da hierarquia. A escolha pode autonomia das Igrejas locais para o crescente poder de Roma. ser democrática, embora a conferição se faça pela graça do Ele pautou o governo pontifício pelo dictatus papae, que ressuda sacramento. centralismo, autoritarismo desmedido. O manifesto dos teólogos pondera a questão do Esse longo processo de quase mil anos marcou uma linha isolamento da Igreja em relação à sociedade. Tal fato, de comportamento em que Roma exerce imensa influência porém, não se entende na percepção pontifícia de modo sobre as Igrejas particulares ou regionais. O Concílio Vaticano negativo, enquanto fechamento, mas como exigência de II, com a colegialidade, tentou diminuir tal tendência, mas coerência com a própria mensagem a despeito da com pouco resultado. Faz parte, portanto, da consciência incompreensão por parte da mentalidade moderna. Até onde comum eclesiástica a dependência em relação a Roma. E a tal programa eclesiástico se afasta do reino anunciado por dialética de dependência de uma parte pede o exercício de Jesus? É um tema grave que precisa de ser bem pensado e domínio da outra. A criança que pergunta à mãe que meia discutido de ambos os lados. A tônica do projeto do papa e vai calçar pede uma mãe cada vez mais absorvente que termina a do manifesto são divergentes. No primeiro caso, volta-se ditando-lhe tudo. Assim na Igreja. Roma responde com para a Igreja e quer mantê-la na sua atual estrutura e, a partir autoridade e reforça-a, porque as próprias Igrejas locais a daí, cumprir melhor sua função. No outro, propõe-se o projeto solicitam e ficam à espera. A liberdade entende-se como de Jesus e pergunta-se como adequar as estruturas da Igreja a relação entre duas liberdades. Não há liberdade de um lado ele. Pontos divergentes que geram leituras diferenciadas. Só o só. Que o diga Erich Fromm no magistral livro «Medo da diálogo mostra o limite e a positividade de cada perspectiva. liberdade». As análises que lá faz, baseadas na sua experiência O manifesto acentua: primeiro a liberdade individual e de do nazismo, valem para toda a relação de submissão e de consciência e a partir dela a fidelidade. A atual disciplina autoritarismo, onde ela se dê. No dia, porém, em que as Igrejas eclesiástica: primeiro a fidelidade à doutrina e à prática e aí locais tomarem maior consciência de outra eclesiologia, então dentro a liberdade..pt * e-mail: secretariado@fraternitas.pt * página oficial na Internet: www.fraternitas.pt * e-mail: tesouraria@fraternitas.pt
  10. 10. DOSSIER10 espiral A Igreja e a mulher:Por Eduardo Hoonaert, padre casado, belga, commais de 5O anos no Brasil, historiador e teólogo, Emerge uma nova Emerg nov Mora Salvador ador.mais de 20 livros publicados. Mor a em Salv ador.Dedica-se agora ao estudo das origens do consciência femininacristianismo. Após séculos de silêncio e submissão, a mulher do séculoEm agência Adital, 3 de Março de 2011. XX finalmente dá sinais de rompimento com o passado. No âmbito católico, é na década de 1940 que aparecem os Uma longa história primeiros indícios discretos de que algo está a mudar no Desde os inícios, o cristianismo histórico tem tido universo feminino: as mães já não mandam os filhos à missadificuldades em compreender o comportamento de Jesus dominical com a fidelidade de antes. Isso repercutepara com as mulheres. Diversos trechos dos Evangelhos imediatamente na Igreja, mas quase ninguém percebe o quedemonstram admiração, mas ao mesmo tempo deixam está a acontecer. Quando, em 1943, o padre Henri Godin, notransparecer estranheza. Os próprios apóstolos não entendem seu livro «França, país de missão?», constata com amargurao modo como Jesus aborda as mulheres. Pedro, um de seus que a França já não é o país católico de antes, ele não suspeitamais próximos companheiros, não tolera que uma mulher que a mulher tenha algo a ver com essa ‘descristianização’. Oseja considerada apóstola em pé de igualdade com os homens, mesmo acontece com o sociólogo Gabriel Le Bras, que atribuicomo se pode ler no evangelho apócrifo de Maria Madalena. o declínio na assistência à missa ao estilo de vida na grandePor causa dessa e de outras dificuldades, o cristianismo cidade, à perda de fé e à secularização. Mas não fala da mulher.histórico guarda uma memória precária e até deformada acerca E quando, nos anos 1960, se constata um rápido declínio dedo comportamento de Jesus diante das mulheres. vocações para o sacerdócio, também não se entrevê nisso a Maria Madalena, a mais proeminente figura feminina do mutação na relação do vocacionado com a sua mãe. OsNovo Testamento, é sistematicamente maltratada nos sermões primeiros estudos que apontam nessa direção são dos anosda Igreja, até ser rebaixada à condição de prostituta e de 1990. É no silêncio do universo feminino que se opera apecadora arrependida. Essa criminalização simboliza na desconstrução da Igreja.realidade o rebaixamento da figura da mulher em geral, na Mas no início dos anos 1960, no momento em que otradição cristã. Papa João XXIII pensa em convocar um concílio, de repente Mas não é só a cultura cristã que desconsidera a mulher. A a ‘desobediência’ feminina ganha notoriedade: a pílulamaioria das culturas é igualmente preconceituosa nesse ponto anticoncepcional oral entra em cena e o seu sucesso é imediato.e ficaria igualmente escandalizada com Jesus, que apreciava o A mulher verifica que os ritmos das energias procriativas doperfume e o afeto de uma mulher e que insistia em que a seu corpo, se não forem controlados, dificultam a qualidadememória da ternura de uma mulher fosse preservada «por de vida a que ela e a sua família aspiram. Os ciclos sempreonde quer que o Evangelho fosse proclamado» (Mt 26, 12). repetidos da gravidez, do nascimento da criança, dos longosEssa memória sempre encontrou resistência no seio do tempos dedicados ao recém-nascido, dos trabalhos na casa,cristianismo histórico, como provavelmente encontraria na da preparação dos alimentos, dos cuidados como o maridomaioria das culturas. não deixam espaço para que ela se desenvolva plenamente, Por que é que o Vaticano II desconhece a mulher? em Paris, onde ele foi núncio. O seu diagnóstico de que havia desencontro entre Igreja e mundo moderno estava certo. Sabemos que as mulheres não são convidadas a falar em Nisto, o Vaticano II fez um bom trabalho. O que lhe faltavaconcílios ecuménicos. Mas elas interferem, isso sim, nos era ir ao âmago da questão. Não conseguiu identificar comdestinos dos concílios. Enquanto os bispos do Vaticano II clareza a ideologia heterónoma que caracteriza a igreja.tentam compreender as razões da ‘descristianização’, elas atuam É de se compreender a razão. O universo imaginário dana base, desatando laços seculares e desse modo esvaziando Igreja cristã provém em última análise da Bíblia, elaboradaas Igrejas. Enquanto os teólogos falam em secularização, num mundo dominado por estruturas heterónomas. O rei (oateísmo, consumismo, individualismo ou hedonismo, elas imperador) manda no povo, o senhor manda no escravointroduzem comportamentos autónomos no seio do velho (trabalhador), o homem manda na mulher, o pai manda nosmundo, marcado por séculos de heteronomia. Decerto, o filhos e Deus manda em todos (e todas). A vida toda éPapa João XXIII sabia que as igrejas estavam a ficar vazias concebida em termos de heteronomia: há sempre um ‘outro’
  11. 11. DOSSIER l espiral 11um diálogo possível?em contraste com o que acontece ao homem que, depois doato sexual, fica ‘liberto’. A mulher e o bispo A Organização das Nações Unidas (ONU) aprovaoficialmente o planeamento familiar e declara que ele colabora A estas alturas é bom averiguar o que é realmente novocom a saúde e o bem-estar da mulher, dos filhos e da família no comportamento da mulher que pratica o planeamento(conferência do Cairo, 1994). Estamos diante da emergência familiar. O novo consiste no fato de que ela não já age impelidade um pensamento autónomo, em contraste com o por uma vontade alheia, mas a partir de uma vontade própria.pensamento heterónimo até então vigente. Elabora-se uma Ela está sintonizada com o pensamento moderno, que acreditanova arquitetura do Estado com a finalidade de promover na auto-regulamentação das leis que regem o universo. Asaúde, educação, bem-estar das famílias, assim como percepção sempre mais clara da regularidade das leis internasatendimento médico-hospitalar baseado na ideia da do universo resulta em atitudes de autonomia. Emregulamentação dos nascimentos. «Eis uma revolução de consequência disso, a mulher inicia um novo relacionamentodimensões planetárias» (Rose Marie Muraro, intelectual e com o seu próprio corpo. Verificando que o seu corpofeminista brasileira). A ideia do planeamento familiar é uma responde a determinados estímulos químicos capazes de inibirideia genuinamente feminina que põe em movimento a maior a gravidez, por exemplo, ela adquire aos poucos e quaserevolução do século xx, uma revolução silenciosa que se imperceptivelmente um comportamento autónomo: ‘Oprocessa na intimidade das residências privadas, no diálogo axioma da autonomia está penetrando lentamente e quaseíntimo entre homem e mulher, longe dos púlpitos clericais, sempre de modo inconsciente em toda a cultura ocidental’.das cátedras doutorais e dos foros públicos. Ao controlar a Ao programar a sua família, a mulher mexe com asfertilidade, a pílula faz com que a mulher possa entrar no estruturas da sociedade e do instituto religioso. Mais: ao lutarmercado de trabalho ao lado do homem. Doravante, o seu por uma família que desfrute de uma melhor qualidade decorpo já não pertence à fatalidade dos ciclos da procriação e vida graças à regulamentação dos nascimentos, a mulher mexeliberta-se aos poucos da vontade do homem. A pílula inaugura com a própria imagem de Deus. Ela esboça uma nova imagemum tempo novo, não só para a mulher, mas para a sociedade de Deus, mais condizente com as leis da autonomia.como um todo. As relações de género e trabalho Os progressos científicos a favor da vida revelam o santotransformam-se em profundidade. «Quando dominado pelo mistério chamado Deus. Para essa mulher, o Deus eclesiásticohomem, o mundo é hierarquizado. Mas ele estabelece-se em vai se diluindo no horizonte enquanto emerge um Deus querede quando a mulher entra em cena» (Rose Marie Muraro). corresponde às leis internas e autónomas do universo e da Uma vez que na mesma época se inicia o concílio Vaticano humanidade. Para ela, o que colabora para uma melhorII, vale a pena perguntar-se se há interação entre ambas as condição de vida é santo. Na medida em que torna o mundoiniciativas. O movimento em prol da libertação do corpo mais feliz, a pílula anticoncepcional é santa. Então, a mulherfeminino tem algo a ver com o ‘aggiornamento’ do Papa emancipada questiona a Igreja, como se pode verificar porJoão XXIII? Será que os bispos reunidos em Roma tomam toda parte.conhecimento do que está a acontecer no universo feminino Para os bispos, a passagem do pensamento heterónomoe procuram entrar em diálogo com as mulheres? para o pensamento autónomo é bem mais complicada.que manda. A vida humana está sempre em mãos alheias. A eterna. Deus por vezes aparece como senhor rigoroso e justo,heteronomia constitui o mais antigo e durável modelo de outras vezes como pai amoroso que perdoa tudo. Mas sempreconvivência humana, que caracteriza regimes políticos, fica fora do mundo em que vivemos. Nos dois primeiroseconómicos, sociais, culturais e psicológicos. versos da Bíblia aparece uma imagem nitidamente heterónoma Na Bíblia, Deus aparece como um ser todo-poderoso, de Deus: de um lado, a luz, o sopro, a vida, do outro lado, osantíssimo, sentado no trono celeste. Ele criou o universo em vazio, a solidão, a escuridão e a morte:poucos dias e até hoje governa sua criação da mesma forma Primeiras palavras:que um rei persa controla seus imensos territórios, guarda Deus cria o céu e a terra,tudo que acontece numa memória infinita (melhor que a Terra vazia, solidão,memória do computador mais potente) e julga tudo como o Escuro em cima do abismomais justo dos juízes. Ele premia o bem e castiga o mal, às Sopro de Deusvezes aqui na terra, mas certamente após a morte, na vida Movimentos sob as águas (Gn 1, 1-2).
  12. 12. DOSSIER12 espiralMesmo os que estão pessoalmente abertos à mudança dos questões concretas que envolvem aborto só podem sertempos permanecem enquadrados numa estrutura resolvidas por meio de ações baseadas no princípio dafundamentada na heteronomia. Isso se verifica nas renovadas autonomia. A sociedade tem de se mostrar capaz de enfrentar‘guerras santas’ em torno da questão do aborto. Tomemos o com realismo os problemas que se lhe apresentam. Não bastacaso paradigmático de Recife, em Março 2009. Quando dizer às mulheres que desejam abortar que elas têm de seocorreu numa clínica da cidade a interrupção da gravidez de entregar ‘às mãos de Deus’ e obedecer aos desígnios divinos.uma menina de 9 anos, D. José Cardoso Sobrinho, na época O bispo José até pode sonhar com uma Igreja santa no meioarcebispo da cidade, excomungou prontamente os médicos da devassidão do mundo e dos erros do século, uma cidadelaque praticaram o aborto na menina. Ele justificou o seu de Deus, como aquela descrita por Santo Agostinho na suacomportamento, dizendo que estava a seguir as leis da Igreja. obra ‘A Cidade de Deus’. Mas esse sonho não corresponde àDesse modo, o bispo recorreu à ideia da heteronomia. A realidade. O postulado da santidade da Igreja é umaIgreja declara estar ‘a favor da vida’, contra ‘o cultivo da morte’, elaboração teológica do século IV, baseada na aproximaçãomas não sabe como lidar com casos concretos relacionados da Igreja daquele tempo com o sistema imperial romano ecom aborto. nos métodos utilizados para impressionar as pessoas. Mesmo Decerto, o bispo recomendou compaixão para com a assim, a imagem de uma Igreja santa, intocável e inquestionávelmenina abusada pelo padrasto, mas não tinha nada a declarar ainda se mantém tão poderosa nos nossos dias que é capazacerca da existência de centenas de clínicas clandestinas de de seduzir bispos e mesmo o papa. Em suma, atitudes comoaborto no Brasil, que vitimam cada ano milhares de mulheres. as de D. José Cardoso criam inutilmente curtos circuitos queEle recomendou compreensão e preces pelas pobres mulheres dificultam a passagem do pensamento cristão para o mundoque recorrem a tais clínicas, mas não podia ir além, pois as em que vivemos.Como sair do curto-circuito? não há nada mais louvável do que uma sociedade que caminha para a democracia e a liberdade. Todos os cidadãos estão «A comunidade cristã é mais que a Igreja hierárquica. Ela é sujeitos à lei, nenhuma instituição está acima da lei civil.plural, ou seja, composta de múltiplas comunidades cristãs e Em segundo lugar, não é bom dramatizar nem exacerbarestas são igualmente muitas pessoas, cada uma com a sua os sentimentos. Palavras de guerra como ‘mentalidadehistória, as suas escolhas e decisões próprias diante da vida. medieval’, ‘obscurantismo’, ‘fanatismo’ (de um lado) eUrge que a teologia dos bispos saia de uma concepção ‘ateísmo’, ‘agnosticismo’, ‘abandono da fé’ (de outro lado) sóhierárquica e dualista do cristianismo e perceba que é na atrasam o processo. Lançam-se farpas de ambos os lados, ovulnerabilidade às múltiplas dores humanas que poderemos que não leva a nada. Só por meio de estudos serenos e daestar mais próximos das ações de justiça e amor» (Ivone percepção das verdadeiras dimensões do problema é que seGebara, teóloga). pode avançar. Pensar com liberdade não significa abandonar Para a Igreja, não é fácil abandonar o universo imaginário a fé. Deixar de falar em reis e rainhas, senhores e santidades,da heteronomia. Hoje não existe caminho fora do diálogo tronos e potestades não significa trair o Evangelho.com a modernidade. Habilitar-se para tal diálogo implica, em Acompanhar a evolução das ciências, da política e daprimeiro lugar, numa atitude de autocrítica. sociedade de hoje não é o mesmo que deixar de ser cristão. Durante longos séculos, a Igreja Católica dominou a cultura São Paulo não deixou de ser judeu quando escreveu: «Sim,ocidental e ficou intocável. Há apenas cinquenta anos, na todos fomos imersos num sopro único, num corpo único,abertura do Vaticano II, o domínio do pensamento católico Judeus ou Gregos, escravos ou livres, e todos vivemossobre as consciências ainda era tão poderoso que criticar um animados por um sopro único (1Cor 12, 13). Nesses versos,representante da Igreja Católica era quase o mesmo que criticar São Paulo escreve que somos todos feitos do mesmo barroo próprio Deus. A Igreja julgava-se superior a todas as demais humano e ao mesmo tempo animados pelo mesmo soproorganizações. Mas, recentemente, quando apareceu a pedofilia de Deus, quer sejamos Judeus ou Gregos, homens ou mulheres,praticada por padres, percebeu-se que a Igreja não é tão santa bispos ou fiéis, heterónomos ou autónomos.como o papa e os bispos desejariam que fosse. Os padres são As mulheres que praticam o planeamento familiar são feitashumanos (por vezes demasiadamente humanos), feitos de uma do mesmo barro que os bispos que as rejeitam. Não se podematéria comum a todos os seres humanos. dizer que o planeamento familiar seja uma questão de fé. Se Diante da pedofilia, por exemplo, a mentalidade moderna durante séculos falámos de Deus em termos de heteronomia,não suporta mais os métodos de intimidação, ocultamento e porque não será possível falar Dele hoje em termos demanipulação que ainda eram aceites pelos nossos pais e avós autonomia? A modernidade religiosa consiste na passagemnum passado não muito distante. A nossa percepção do que para a imagem de um Deus que encontra a sua auto-expressãodeve ser uma sociedade democrática, igualitária e justa vai-se no universo em que vivemos. Na figura de um universo emaperfeiçoando e um número crescente de pessoas acha que contínua gestação vislumbra-se o rosto de Deus.
  13. 13. fraternitas fraternit ternitas l espiral 13 Encontro Nacional PROGRAMA Curso de Actualização DO ENCONTRO Teológica Dia 29 de Abril (6.ª-feira) 20h00 – Jantar, antecedido de acolhimento Tema: VERBUM DOMINI, Exortação Apostólica de Bento XVI 21h15 – Informações.sobre a Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja Diálogo sobre a(s) vida(s) na Fraternitas 22h00 – Descanso ORIENTADOR: D. Gilberto Canavarro (bispo de Setúbal) Dia 30 de Abril (sábado) Lugar: Casa N.ª Sr.ª das Dores, Fátima 8h30 – Pequeno-almoço 9h00 – Laudes. Exposição do Santíssimo Data: de 29 de Abril (ao jantar) a 1 de Maio (ao almoço) 10h15 – Intervalo 10h45 – Encontro e trabalho de grupo Organização: Associação FRATERNITAS Movimento 13h00 – Almoço 15h00 – Encontro e trabalho de grupo INSCRIÇÃO 16h30 – Intervalo Deverá ser feita, através do secretariado, até 20 de Abril: 17h00 – Encontro e trabalho de grupo Secretária: Urtélia Silva 18h15 – Plenário sobre os trabalhos de grupo Rua Prof. Carlos Alberto Pinto de Abreu, 33, 2.º Esq. 19h00 – Vésperas e Eucaristia 3040-245 Coimbra 20h00 – Jantar secretariado@fraternitas.pt 21h15 – Tertúlia fraternal (Até às 21h15): Tel.: 239 00 16 05 ou Tlm.: 91 47 5 47 06 N.B: A Casa N.ª Sr.ª das Dores solicita a inscrição até 10 dias antes do Dia 1 de Maio (domingo)dia da chegada. As desistências deverão ser comunicadas até ao dia anterior 8h30 – Pequeno-almoçoà chegada. Caso contrário, a organização suportará o pagamento de 90% 9h00 – Laudesdos encargos do 1.º dia – almoço ou jantar e dormida.) 10h00 – ASSEMBLEIA GERAL 12h00 – Eucaristia, com ensaio prévio FICHA DE INSCRIÇÃO (fotocopie e envie) 13h00 – Almoço NOME ___________________________________________ Sócio n.º ____________ ou Não Sócio _____ Tlm _______________ E-Mail _________________________ ASSEMBLEIA GERAL NOME ___________________________________________ CONV OCATÓRIA CONVOCA OCATÓRIA Tlm _______________ E-Mail _________________________ Nos termos do Artigo 12.º dos Estatutos MORADA _________________________________________ convoco todos os sócios da Associação _________________________________________________ FRATERNITAS Movimento, para a C. P. ______ – _____ ________________________________ Assembleia-geral a realizar no dia 1 de Maio de 2011 (domingo), pelas 10h00, na Casa Nossa Estadia completa (2 diárias): _____ (sim ou não). Senhora das Dores, em Fátima, com a seguinte Caso não seja completa: ordem de trabalhos: 1 – Apreciação e votação Início e término: _________________ – ___________________ da acta da última reunião. Adultos: ______ Crianças (idades): ________________________ 2 – Apresentação, apreciação e votação do Obs.: Necessidade e tipo de dieta: ________________________ Relatório de Actividades e de Contas do ano de Quarto próximo do elevador ___________________________ 2010. Leitura do Parecer do Conselho Fiscal. 3 – Apresentação, apreciação e votação do TAXAS DE INSCRIÇÃO: Plano de Actividades e Orçamento para 2011. Sócios: gratuita/Não Sócios: 5 euros/ por pessoa. 4 – Eleição dos titulares dos órgãos da Diária por pessoa: - 35 euros (quarto individual / duplo ou triplo). Associação para o triénio 2011-2013. - Gratuito – até aos 3anos (excl.) 5 – Outros assuntos. - Meia diária (portanto 17,50 euros – 3 aos 12 anos (excl.). Se, à hora marcada, não houver quorum, nos * Refeição – Almoço ou jantar: 10 euros; na meia-diária: 5,50 euros. termos do Artigo 15.º dos Estatutos a reunião *1 dormida c/ peq.º alm.º: 17,50 euros; na meia-diária: 10,50 euros. terá lugar, meia hora mais tarde, com os sócios *1 peq.º- alm.º ou merenda: 2 euros; na meia-diária: 1,80 euros. presentes. * O pagamento far-se-á durante a estadia ao tesoureiro (Luís Cunha). O Presidente da Mesa da Assembleia, N.B.: Que ninguém deixe de ir por dificuldades financeiras. Artur da Cunha Oliveira (2011-02-15).
  14. 14. FRATERNITAS FRATERNIT TERNITAS14 espiralPELOS MEANDROS DA PRODUÇÃO LITERÁRIA Livros dos associados da Fraternitas editados em 2009 e 2010Vou olhando diariamente os livros dos associados (e “UM QUASE- PÉRIPLO À CAPADÓCIA”não associados congéneres) dispostos na estante, Autor: Armando Marques da Silva (2010), Dezembro,mesmo à minha direita. A maioria tão gentilmente Ed.Traduvarius.oferecidos!...E fico a pensar: É muito pouco!... “Como se peregrino fosse…“Um livro aberto é um cérebro que fala. Não terá sido embriagado por vinho doce o autor destaUm livro fechado é um amigo que espera. narrativa surpreendente. Também não tenho escárnio paraUm livro esquecido é um irmão que perdoa.Um livro destruído é um amigo que chora.” lhe oferecer, antes pelo contrário, actos das testemunhas da(Voltaire) ventania do primeiro Pentecostes. (…) ‘Ninguém vem sem Urtélia Silv Urtélia Silva ter de ir’ – eis a decisão que empurrou o narrador para o percurso de memórias pessoais que desvenda, sem rebuço, Recordo o que escrevi na altura do envio do último mesmo que tenha sempre à espreita a senhora da gadanha.Espiral: “Tem sido grande a produção literária dos associados. Nunca uma doença masculina foi tão projecto de angústia…O secretariado desejaria ‘inventariar’ tais obras, e ir anunciando Em cada página há um desfilar encantatório dos sítios ondeno Espiral. Para o próximo número, espero fazê-lo do período se cruzam enredos teológicos. E daqui não está arredada areferente ao último biénio, pelo que solicito tal informação esponja larvar sobre as teofanias e despautérios de Adão. Ficamdos que ainda não o comunicaram.” traços sobre os caminhos insinuantes das espiritualidades de Vou então basear-me apenas nos dados dos livros que o Compostela (…) O humor adensa-se repentinamente em cadasecretariado dispõe, alguns escassos por que solicitados curva que persegue Capadócia, Património Mundial datelefonicamente. Humanidade. (…) Ninguém mais exaustivo no encontro do Coliseu de Roma (…). Fundamental a questão posta na Cidade EM 2010 Eterna: será que da presente Wolksvagenização da Igreja Católica ainda poderá renascer o cristianismo? O impensável “CÓNEGO FILIPE DE FIGUEIREDO – UMA acontece antes que se conclua um literal e onírico périplo àVIDA AO SERVIÇO DOS OUTROS / Homenagem Capadócia. E amor dialógico. Fica, entretanto, o aviso àVivencial da Fraternitas Movimento”, coordenado por Alípio navegação de que com coisas sagradas não se brinca, mesmoMartins Afonso (2010). Edição e propriedade da Fundação que sejam divinices espanholas ou nacionais. Esta é a ofertaCónego Filipe de Figueiredo, Estarreja. do génio do escritor que não pode ficar ocultado. Nem a “A história da actual mudança eclesial em Portugal não mulher, amor todo-o-terreno. Em espaço inter-religioso edeixará de registar o nome do Cónego Filipe de Figueiredo, intercultural” (p. 7, Manuel Villas – Boas).o insigne cabouqueiro e patrono da Fraternitas, bem como onome dos primeiros Prelados que nos têm acompanhado,secundando a autoridade moral e intelectual deste ‘santo´sacerdote”. (p. 6, o autor – coordenador). “O SANTUÁRIO DE N.ª Sr.ª do NASO – HISTÓRIA “Obra-prima e pedra angular da história do sacerdócio E DEVOÇÃO”, de António Rodrigues Mourinho (2010)católico casado em Portugal”, contracapa, Antonieta e Artur Outubro, Ed. Tipalto.da Cunha, presidente da Assembleia-geral da Associação; “A Senhora do Naso é invocada como a `Rainha dos “Conheci de perto e admirei de longe este Homem de Mirandeses´, que lhe dirigem muitas preces e cantigas – asDeus (…). Dizia muitas vezes: ‘Tenho um sonho’. E as obras `lhonas´ (loas).nasciam. Porque os seus sonhos e projectos correspondiam à …Ah, mie Virge del Naso!vontade de Deus e ao serviço dos irmãos. (…). Os Cumo Boí n~u hai ~eigualdocumentos e testemunhos recolhidos neste ‘Memorial’ falam Pur Çamora i Salamancapor si. E bem alto. Revelam ou sublinham que toda a vida do I até pur Pertual …”,P.e Filipe foi um poema que ele próprio foi escrevendo, que em “Nossa Senhora de Portugal/Santuários Marianos”,os seus admiradores conhecem e que os anjos cantam” (pp. 3 J.Gil e N. Calvet, 2003, ed. Intermezzo, p. 136;e 4, D. Serafim Ferreira e Silva). e “A CÂMARA MUNICIPAL DE MIRANDA DO Este livro pode ser adquirido através dos membros da DOURO NO PERÍODO DA I REPÚBLICA – 1910-1927Direcção. Foi apresentado e lançado no dia 28 de Novembro, “, de António Rodrigues Mourinho (2010), Julho, ed. Tipalto.dia do 7.º aniversário do seu abraço pleno com o Pai.

×