Onda selvagem

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Reportagem para a Revista A+, do Grupo Lance!, com a cobertura da competição e as curiosidades sobre o surfe na pororoca, em Brasileiro disputado no Rio Mearim, em Arari, no Maranhão

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Onda selvagem

  1. 1. 22POROROCA FERNANDO POFFO fernandof@lancenet.com.br LIKOSKA/DIVULGAÇÃOOnda selvagemsss A magia da onda mais longa do mundo apenas a população ribeirinha do baixo Ama- Capim, também no Pará, surfada meses de-está apenas no início de sua história. Faz me- zonas conhecia realmente a força da tal onda. pois. Desde então, lendas e mitos vêm sendonos de nove anos que a Pororoca foi surfada Do tupi, poro’roka, de poro’rog, significa es- desvendados.pela primeira vez. E, no último fim de semana trondar. E o termo poroc poroc, dos indígenas, Uma das fábulas contadas às crianças da re-de maio, rolou, em Arari, no Maranhão, a últi- significa grande estrondo. gião fala sobre o perigo da onda que levou trêsma etapa do 4º Circuito Brasileiro de Surfe na irmãos negros que nadavam no rio. Portanto, éPororoca. A Re vis ta A+, claro, estava lá. A onda quebra somente nas mudanças das A Pororoca maranhense é sempre bom pedir licença e proteção aos três na hora de nadar nos rios. Muitos tambémfases das luas nova e cheia, especialmente nos encontrada em Arari, acreditam que dar três goles na água da Poro-meses de fevereiro, maio, agosto e setembro. cidadezinha a 156 roca revigora e dá força.Isso no Brasil, porque tem Pororoca também quilômetros de São Luís Para contar essa história, a reportagem da A+ partiu com destino a Arari, cidade localiza-na França e na Inglaterra (já surfadas), além deAlasca, China, Índia, Malásia e Autrália, ainda O registro de surfe na Pororoca brasileira da a 156 quilômetros da capital São Luís, ondeinéditas para surfistas. No Brasil, ela quebra deu-se em 1997, com os surfistas Eraldo Guei- os moradores abrem as portas para o surfe. Eem três estados: Pará (Rio Amazonas), Amapá ros e Guga Arruda, no Rio Araguari. Paralela- admiram os “malucos” que de um tempo para(Araguari e São Domingos do Capim) e Mara- mente, Noélio Sobrinho, presidente da Asso- cá interagem com a temida e lendária onda. Nonhão ( Mearim). ciação Brasileira de Surfe na Pororoca hotel, uma informação surpreendente: A Pororoca foi registrada pela primeira vez (Abraspo) já organizava a expedição para co- – Amanhã o ônibus parte às 5h – avisou Ge-em 1973, por helicóptero. Mas, na verdade, nhecer a Pororoca em São Domingos do rônimo Júnior, presidente da Associação Ma-
  2. 2. 23 LIKOSKA/DIVULGAÇÃOranhense e organizador do campeonato. Denis Sarmanho, head-judge (juiz supremo)do evento e de todos os realizados desde a cria-ção do Circuito, explicou que a onda passariaexatamente às 6h. Sarmanho sabia, pois haviaacabado de chegar do Rio Mearim, onde con-feriu, surfou e calculou o horário da maré nodia seguinte. O mar invade o rio duas vezes aodia. E o campeonato só rola com a luz do dia. Todos partiram na sexta-feira, às 5h, até oCurral da Igreja, no bairro do Bonfim, em Arari.Pouco menos de 30 minutos nos sete quilôme-A onda quebra só nasmudanças das fases dasluas novas e cheias, e sóalguns meses por anotros de estrada de terra. Pilotos, organizadores,surfistas e imprensa. Todos foram para os bar-cos – seis no total – que desceram o rio em dire-ção ao mar, com forte correnteza a favor. Em razão de um pequeno atraso, os barcosnão chegaram ao ponto ideal para a espera daonda, que já vinha na direção da tripulação. AA+ estava no barco com os dois surfistas quedisputariam a bateria inaugural. Quando os barcos ficaram com a onda emseu vácuo, Noélio Sobrinho, diretor de prova ,deu o sinal para o início da bateria, que duracinco minutos no máximo. Depois de alguns minutos de incertezas,Adilton Mariano (CE) saltou do barco e surfou a PRAÇA CENTRAL DE ARARI, UM DOS POUCOS LOCAIS PÚBLICOS DA CIDADE ONDE OS JOVENS SE REÚNEM À NOITE LIKOSKA/DIVULGAÇÃO Campeão explica como surfar a onda A maneira de surfar a pororoca é dife- rente do que ocorre em ondas oceânicas. – Você tem menos flutuação. Por isso preci- sa de uma prancha com mais borda, que ar flutua mais – ensina Adilton Mariano, cam- do m peão da etapa realizada no Mearim. Á gu a Adilton participou do Circuito Brasileiro de Surfe na Pororoca nos últimos três anos e venceu todas. Não participou do primeiro. – Fico tranqüilo e ligado para não dar mole. Já passou o tempo de ficar com medo do bi- do rio cho – diverte-se o campeão. Água Como os dois atletas que disputam a bateria surfam a onda ao mesmo tempo, o posicio- namento desde o salto pode ser determinante. Já na onda, a dica é o surfista ficar sempre próximo à espuma. Na parede, a pororoca Na hora em que a maré enche, a onda do mar sobe o rio, vence sua correnteza e forma a Pororoca não tem força para levar o competidor.
  3. 3. 24 LIKOSKA/DIVULGAÇÃOCONCURSO GAROTA POROROCA, ORGANIZADO DURANTE A FESTA OFICIAL DO EVENTO, ATRAI ADOLESCENTES DE TODA REGIÃO DE ARARI E ANIMA OS SURFISTAS PRESENTESpororoca numa boa, por mais de um minuto. A versidade em volta do rio, com destaques paraonda estava baixa, menos de meio metro, mas os babaçus, típica palmeira da região, e para aspercebeu-se que tinha força. Stanley Gomes(PA) perdeu o timming da onda e nem pulou. aves, que fazem revoadas conforme a Pororoca passa. Ao observar a última bateria do dia, mais Pororoca trouxe A Pororoca é assim, passa arrastando o queestá em sua frente e quebra em forma de onda, terror: um dos barcos, em que estavam os sur- fistas Álvaro Bacana e Adilton Mariano, foi atin- mudanças a Araridependendo do fundo do rio (como as ondas gido pela Pororoca e virou. Os surfistas já es-no mar). O barco voltou para resgatar Adilton e, tavam no rio e, por pouco, Adilton não foi atingi- Um indício das mudanças que a po-por trás da onda, é impressionante como o cur- do pelo barco. roroca provocou na cidade é a receptivi-so do rio se inverteu. A correnteza seguiu forte, Apenas um susto. No entanto, na volta à ter- dade dos moradores. Desde que a onda foimas, agora, rio acima. ra, vários “curiosos” esperavam os surfistas. A surfada pela primeira vez lá, em 2001, a Rapidamente a Pororoca ficou para trás. atração de Arari deixou de ser apenas oSérgio Laus venceu Sérgio Roberto e Álvaro anual “Festival da Melancia”.Bacana pegou a maior do dia para eliminar Ale- Apesar de baixa, a onda da Prova disso foi a forma como duas senho-xandre Melo, que, além de surfista, é médico Pororoca chega com força, ras acolheram os membros da expedição,em Arari. Depois de duas baterias, a quarta e arrastando tudo que depois que o ônibus atolou na estrada,última do dia não aconteceu porque a Pororo-ca sumiu. Ou simplesmente não quebrou. encontra pela frente enquantos alguns foram pedir ajuda. Ao ver os que ficaram, a simpática DonaPouco mais de 8h e já não havia como surfar Rita recebeu todos em sua casinha denaquele dia. A Pororoca já passou. curiosidade era tanta em ver quem eram esses taipa. Depois de duas horas de espera, to- – Se o surfista não entender tudo que envolve caras que desafiam lendas para surfar a Poro- dos resolveram partir. Já na estrada, a pé,a Pororoca, ele não vai sentir o que é surfar roca que, apesar de haver uma típica competi- surge a vizinha Dona Concita, aos berros,aqui – disse Laus, antes de explicar o significa- ção local – o “laço de bode”, em que o objetivo brava porque todos iam embora.do desse “tudo que envolve”. é laçar o bode solto em uma pequena arena – – Agora que acabei de preparar um almo- No segundo dia na cidade, alguns apuros vê-se que a onda era a atração do dia. O prato ço para vocês, vocês vão embora?foram registrados. Primeiro, o motor do barco oferecido no almoço? Feijoroca. Arroz, macarrão e carne de sol – comidaestranhamente morreu. Depois de uns 20 se- Tratar bem o turista é uma preocupação da mais comum na cidade–, um copo comgundos de incertezas e com os fotógrafos guar- população local. Os surfistas são idolatrados, água e uma banana de sobremesa.dando equipamentos em uma caixa imper- com destaque para Sérgio Laus, que é parado Quando um fotógrafo voltou, ela fez ques-meável, o piloto percebeu que um dos tripu- em cada esquina da cidade para dar tão que ele também almoçasse.lantes havia sentado sobre uma almofada mal autógrafos. Um ídolo da única cidade brasilei- – Eu sinto vergonha por vocês terem atola-posicionada em cima da mangueira que trans- ra onde é possível hospedar-se e ainda surfar do aqui na minha cidade.mitia a gasolina do tanque para o motor. a Pororoca. Um lugar dos sonhos para qual- Receptividade e comida aprovadas! Depois do susto, foi possível perceber a biodi- quer surfista. +

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