Homens com uma mensagem john r. w. stott

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Homens com uma mensagem john r. w. stott

  1. 1. HOMENS C M U A O MMENSAGEM UMA INTRODUÇÃO AONOVO TESTAMENTO E SEUS ESCRITORES JOHN STOTT Revisado por Stephen Motyer •ap»
  2. 2. iggSáâHOMENS COM UMA "A particularidade de cada O objetivo desta ediçãoMENSAGEM autor do Novo Testamento completamente revisada da não è de modo algum restrita obra clássica do Dr. Stott foUma Introdução ao a um único processo de a de torná-la acessível àNovo Testamento e inspiração. Antes, pelo nova geração, refundindo aseus Escritores contrário, o Espírito Santo linguagem, adaptando-a às primeiro preparou, e em versões bíblicas recentes, eJOHN STOTT seguida usou sua acrescentando fotos a coresRevisado por individualidade de formação, e mapas informativos.Stephen Motyer experiência, temperamento e personalidade, a fim de transmitir por meio de cada um alguma verdade distinta e apropriada." John Stott
  3. 3. Homens comuma Mensagem
  4. 4. Homens comuma MensagemUma Introdução aoNovo Testamento eSeus Escritorespor John Stottrevisado por Stephen Motyer Editora Cristã Unida Associação Evangélica Menonita Rua Venezuela, 318 13.036-350 C a m p i n a s - S P
  5. 5. Homens com uma Mensagem:Uma Introdução ao Novo TestamentoTraduzido do original em inglês: Men with a Message: An Introduction to the New Testament and Its Writers HarperSanFranciscoTexto Copyright © 1951 John Stott1994 Stephen Motyer e John StottEsta edição Copyright © 1996 Associação Evangélica MenonitaDesenhado e criado porThrees Company12 Flitcroft StreetLondon WC2H 8DJCo-edição mundial organizada porAngus Hudson Ltd.,Mill HillLondon NW7 3SAPublicado no Brasil com a devida autorização EDITORA CRISTÃ UNIDA Associação Evangélica Menonita Rua Venezuela, 318 Jardim Nova Europa 13.036-350, Campinas, São Paulo Fone (019) 231-1190 Fax (019) 231-7640Impresso em CingapuraTradução: Rubens Castilho
  6. 6. ConteúdoPrefácio de John StottPrefácio de Stephen MotyerMarcos e sua MensagemMateus e sua MensagemLucas e sua MensagemJoão e sua MensagemPaulo e sua MensagemA Carta aos HebreusTiago e sua MensagemPedro e sua MensagemA Mensagem de Apocalipse/índice
  7. 7. Prefácio de John StottFoi logo depois de minha posse como reitor de Ali Souls Langham Place,em 1950, que, para minha total surpresa, o bispo William Wand (que haviame ordenado e empossado) convidou-me a escrever para 1954 o que eraconhecido como "Livro da Quaresma do Bispo de Londres". Como resultadosurgiu Homens com uma Mensagem. Foi na verdade meu primeiro livro,dois anos antes de Fundamentalismo e Evangelismo, e quatro anos antes deCristianismo Básico e O Que Cristo Pensa da Igreja.No início dos anos 50 eu estava lendo e refletindo bastante sobre a inspiraçãoda Escritura e sobre as relações entre seus autores divino e humanos. Euestava impressionado mormente pela necessidade de enfatizar que aparticularidade de cada autor do Novo Testamento não é de modo algumrestrita a um único processo de inspiração. Antes, pelo contrário, conformeescrevi na introdução do livro de 1954, "o Espírito Santo primeiro preparou,e em seguida usou sua individualidade de formação, experiência,temperamento e personalidade, a fim de transmitir por meio de cada umalguma verdade distintiva e apropriada". Desta forma, isto se tornou, epermanece, o tema essencial de Homens com uma Mensagem.Agora, passados quarenta anos, sinto-me gratificado pelo fato de o livroexperimentar uma espécie de "ressurreição", através da contribuição deSteve Motyer, que aceitou nobremente meu convite para revisá-lo. Somosagora considerados co-autores, embora, na realidade, o livro seja mais deledo que meu. Sensibiliza-me sua disposição de preservar tanto o título dolivro original como alguma de sua essência. Ao mesmo tempo, teve eletotal liberdade de reescrever, amenizar, expandir e atualizar o texto. Eleexecutou sua tarefa com atenção conscienciosa e notável habilidade.Creio firmemente que o conteúdo e a nova apresentação do livro revisado otornarão bem mais agradável de ser lido do que a pesada e condensadaprimeira edição! Domingo de Páscoa, 1994
  8. 8. *
  9. 9. Prefácio de Stephen Motyer Foi um grande privilégio participar desta revisão do livro original de JohnStott. Quando de sua publicação, ele era o reitor recentemente nomeado de AliSouls Langham Place, no centro de Londres, e eu ainda não estava na escola. Eum testemunho da qualidade da pregação usufruída pela congregação de AliSouls naqueles dias que este livro tenha iniciado ali sua vida como uma sériede sermões. Em sua primeira versão ele trazia o selo de qualidade do que minhageração mais nova chamava "safra de Stott": baseado num conhecimentoabrangente do texto, marcado por um aguçado rigor intelectual e poder deanálise, expresso em prosa exata e vigorosa. Ele teve uma longa permanêncianas estantes, quer no Reino Unido quer nos Estados Unidos, passando pornumerosas impressões durante vários anos e brindando os crentes evangélicoscom uma introdução ao Novo Testamento de excelente nível, num tempo emque havia pouca literatura evangélica nas livrarias. Entendo por que um bispo(anônimo) da igreja da Inglaterra tenha alegado que foi aprovado em NovoTestamento em seu exame geral de ordenação apoiado na força de Homenscom uma Mensagem! Espero que tudo o que havia de melhor na primeira versão tenha sido mantidonesta segunda. O objetivo da revisão foi tornar seu conteúdo acessível às futurasgerações, utilizando uma linguagem mais leve, associando-a ao conhecimentobíblico recente, e incorporando o texto ao formato da publicação "user-friendly"associado aos produtos de Threes Company. John Stott permitiu-me uma grandeliberdade na revisão, mas senti-me muito bem familiarizado com suas ênfasese análises. Mantive basicamente a estrutura dos capítulos originais,suplementando-os com material adicional e reescrevendo-os em estilo menosmarcado pelas características formais da prosa dos anos 50. Acrescentei os capítulos de Marcos e Mateus, que haviam sido excluídos daprimeira versão e retirei o primeiro capítulo original sobre Jesus, que desde oinício pareceu um tanto fora de lugar. O título Homens com uma Mensagem poderia ser levemente desorientador.Isto não significa sugerir que não há diferenças entre os diversos autores donosso Novo Testamento. Na verdade, um dos principais propósitos deste livro
  10. 10. HOMENS COM UMA MENSAGEM é investigar sua variedade. Eles foram indivíduos com diversas formações, personalidades e experiências, e seus escritos refletem tal diversidade. No caso dos Evangelhos, por exemplo, parece que os evangelistas planejaram suplementar um ao outro à luz de seus propósitos e preocupações individuais. Assim, Mateus expandiu muito Marcos, Lucas incluiu novas ênfases no mate- rial extraído dos outros dois e acrescentou ainda mais, e João pintou um retrato de Jesus que foi além dos outros três, tanto em conteúdo quanto em profundidade espiritual. E assim por diante, para cada um de nossos "homens". Eles foram todos escolhidos por Deus, moldados pela experiência, e investidos de poder pelo Espírito Santo, primeiro para compreender a revolucionária Boa Nova de Jesus, e depois para comunicá-la e aplicá-la nas várias situações que enfrentaram. Mas, ao mesmo tempo, eles foram Homens com uma Mensagem, e não homens com muitas mensagens. Por meio de sua variedade, eles comunicaram uma mensagem da graça salvífica de Deus em Cristo. O "evangelho" pode ser ex- presso em diferentes palavras e aplicado a diferentes necessidades, mas incorpora uma mensagem para todos os homens e mulheres em todos os tempos e lugares. Neste livro é a variedade que é principalmente realçada, porém, através dela, a unidade felizmente também emerge: • a consciência unificada da necessidade do mundo, alienado de Deus e afligido pelo pecado • a crença unificada na iniciativa de Deus, que tem agido para libertar o mundo do mal e reconciliá-lo consigo • a focalização unificada desta iniciativa sobre Jesus Cristo, que foi ungido e designado por Deus para ser o Salvador do mundo • a crença unificada no envolvimento de Deus, que não apenas age através de Jesus, mas age pessoalmente nele • a crença unificada na exaltação de Jesus Cristo, que morreu e ressuscitou, de modo que podemos compartilhar a vida do próprio Deus. Estes elementos estão todos lá, nos escritos de nossos "homens", expressos diferentemente, mas igualmente fundamentais. Somente num caso alguma coisa está faltando: a pequena epístola de Tiago não contém referência à morte de Cristo como o foco de sua identificação salvífica conosco. Porém esta crença não é incompatível com a "mensagem" de Tiago. Ele a rejeitou? Certamente não. Ele não poderia ter liderado a igreja em Jerusalém por tanto tempo se o tivesse feito. Sua carta tratou de suas preocupações imediatas, e estas foram transmitidas sem qualquer referência à cruz. Na verdade, ele não está só. A epístola de Judas também não faz referência à morte de Cristo. Judas é o único "homem" deixado fora deste livro. Esperamos que ele nos perdoe! Sua epístola é poderosa, singular, desafiadora, tão fascinante como qualquer outra parte do Novo Testamento, mas também curta! Cremos que ele pode compreender por que não lhe estamos dando todo um capítulo num livro que tem somente um capítulo para Paulo e outro para Lucas. Afinal de contas, eles dois são responsáveis por metade do Novo Testamento! John Stott e eu somos também unidos em nossa oração e desejo de que este livro continue a ser um meio de levar os cristãos a um conhecimento e amor mais profundos do Livro que tem significado tanto para nós dois—para ele, por quase toda uma existência de serviço e trabalhos escritos que o levaram muito além daqueles dias iniciais em Ali Souls; para mim, por mais de meia existência procurando explanar e ensinar o Novo Testamento com discernimento e entusiasmo.
  11. 11. HOMENS COM UMA MENSAGEM 11 Permitamos que Judas tenha, ao menos, a última palavra neste prefácio.D e s e j a m o s obedecer ao seu apelo de e n c o r a j a m e n t o para "batalhardiligentemente pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos" (3) ecom ele cantar "ao único Deus, nosso Salvador, mediante Jesus Cristo, Senhornosso, glória, majestade, império e soberania, antes de todas as eras, e agora, epor todos os séculos. Amém" (25). Queremos expressar nossos agradecimentos em conjunto a Tim Dowley ePeter Wyart, de Threes Company, for sua iniciativa, conselho, habilidade ededicação, sem o que este livro jamais teria tido uma existência renovada. Dia da Conversão cle Paulo, janeiro de 1994
  12. 12. Marcos e suaMensagemEntão, convocando a multidão e juntamenteos seus discípulos, disse-lhes: "Se alguémquer vir após mim, a si mesmo se negue, tomea sua cruz e siga-me." (Marcos 8.34)O Evangelho de Marcos é destinado aos discípulos. Ele compartilha com osoutros evangelistas a preocupação de capacitar seus leitores a compreender apessoa de "Jesus Cristo, o Filho de Deus" (1.1). Mas ele vai além do quesimplesmente apresentar Jesus. Jesus é o personagem principal no drama deMarcos, mas os discípulos vêm logo a seguir. Em toda a história, Marcos se preocupa com o discipulado—seus privilégios,obstáculos, perigos, desafios e perplexidades. Esta é a ênfase marcante doEvangelho de Marcos. De forma muito humana e animadora ele revela o quãodifícil foi para os primeiros seguidores de Jesus dar os primeiros passos nodiscipulado, e quão pacientemente Jesus perseverou com eles, apesar de suacompreensão tão limitada e sua obediência tão frágil. Como veremos, esta ênfaseprovavelmente amadureceu a própria experiência de Marcos como cristão.Uma produção pioneiraO Evangelho de Marcos foi provavelmente o primeiro dos quatro a ser escrito,e, assim, tornou-se seu autor um desbravador que preparou o caminho para queos outros seguissem seu modelo. Sua contribuição foi considerável, uma vezque jamais qualquer coisa semelhante tinha sido escrita antes. Em vários aspectossurpreendentes o registro de Marcos a respeito de Jesus difere de outras antigasbiografias dos notáveis:• Marcos anuncia no início que o personagem de seu relato não é nenhum simpleshomem, mas sim o "Filho de Deus".• Ele classifica seu trabalho sob um nome novo: é um "evangelho" (1.1).• Ele nada informa a respeito do nascimento ou infância de seu personagem.• Surpreendentemente, ele faz um pequeno registro do ensino de Cristo, emboramencione com freqüência que Ele ensinava (por exemplo, 1.38; 2.2).• Ele dedica cerca de um terço de seu livro para narrar a morte de seu personagem.• Seu trabalho é estranhamente curto! Não teria ele, na verdade, mais do queestes dezesseis pequenos capítulos para falar sobre esse "Filho de Deus"?• Por que ele reserva tanto de seu exíguo espaço concentrando sua atenção não
  13. 13. MARCOS E SUA MENSAGEM 13 e m seu p r i n c i p a l p e r s o n a g e m , m a s n o s d i s c í p u l o s q u e s e r e u n i a m à v o l t a d e l e ? Todas estas características f a z e m do registro de Marcos sobre Jesus u m a obra singular entre as b i o g r a f i a s d e seu t e m p o . O s o u t r o s e v a n g e l i s t a s s u p r e m a l g u m a s destas o m i s s õ e s . T a n t o M a t e u s c o m o L u c a s d e f a t o r e p r o d u z e m e m seus p r ó p r i o s trabalhos a maior parte do conteúdo do Evangelho de Marcos, combinando-o c o m e l e m e n t o s adicionais, p r i n c i p a l m e n t e histórias d o n a s c i m e n t o e i n f o r m a ç õ e s mais extensas sobre o ensino de Jesus. Por esta razão ambos são consideravelmente mais longos—no caso de Lucas, quase duas vezes mais. Contudo, eles não nos a j u d a m a entender por q u e M a r c o s abriu c a m i n h o c o m tal e x t r a o r d i n á r i o t r a b a l h o . A resposta a algumas destas perguntas p o d e m estar na experiência do próprio Marcos. Q u e m era ele? A pessoa de Marcos A semelhança dos outros evangelistas, Marcos não estava interessado e m d i v u l g a r s u a p r ó p r i a i d e n t i d a d e e m seu E v a n g e l h o . E l e n ã o m e n c i o n a a si m e s m o0 rio Jordão junto pelo n o m e . P o r é m outros f o r a m zelosos ao inserir o n o m e de seu autor, eao sul do mar da " S e g u n d o M a r c o s " f o i a s s o c i a d o a ele d e s d e o s p r i m e i r o s a n o s . S e h o u v e d ú v i d aGaliléia. 0 d i f u n d i d a s o b r e tal a t r i b u i ç ã o , a t r a d i ç ã o e n c a r r e g o u - s e d e d e s f a z ê - l a e se f i x o uEvangelho de n u m a figura da maior proeminência da igreja apostólica. Assim, pois, p o d e m o sMarcos inicia com estar confiantes d e q u e este livro foi escrito por u m " M a r c o s " . F e l i z m e n t eJoão Batista podemos identificá-lo c o m facilidade, e o testemunho do N o v o Testamento nospregando nodeserto e batizando p o s s i b i l i t a p i n t a r u m f a s c i n a n t e r e t r a t o dele.no rio Jordão. 1. Marcos pertencia a uma família fundadora da igreja cristã.
  14. 14. 14 HOMENS COM UMA MENSAGEM Palavras Latinas em Marcos Uma das características peculiares do Evangelho de • Quadrante (12.42)—a moeda que Marcos Marcos é o uso, sem explanação, de vários termos menciona aqui circulava somente na metade latinos: ocidental do Império Romano, área de língua latina. • Legião (5.9) Marcos escreveu em grego, porém trai seu • Centurião (15.39) conhecimento do latim. E, assim fazendo, • Pretório (15.16)—aqui Marcos acrescenta a palavra denuncia uma clara evidência de que estava latina para explicar a palavra grega "palácio". escrevendo para um público da região ocidental, talvez a própria Roma. • Executor (6.27)—a palavra usada por Marcos aqui é o termo técnico para policial militar. Indubitavelmente ele é o "João, apelidado Marcos", mencionado em Atos 12.12 e 25. Ele não é incomum pelo fato de ter dois nomes que refletem sua formação bilíngüe, e, em seu caso, o fato de um deles ser latino (Marcos) pode apontar para conexões da família com as forças romanas na Palestina. A formação latina de Marcos é indicada também pela presença de algumas palavras latinas em seu Evangelho (ver indicações no quadro acima). Em Atos 12 encontramos a igreja reunida na casa de Maria, mãe de Marcos, para orar em favor de Pedro, que estava na prisão. Essa casa era certamente um centro importante na vida da igreja iniciante de Jerusalém, porque Pedro se dirigiu diretamente para lá quando foi miraculosamente libertado, admitindo claramente que a igreja estaria reunida lá. Deve ter sido uma casa espaçosa, e a família de Marcos era suficientemente abastada para permitir-se ter pelo menos uma criada em casa, a excitada Rode, que deixou Pedro do lado de fora da porta. Alguns estudiosos têm especulado se essa casa não conteria o famoso "cenáculo espaçoso", no qual foi servida a Ultima Ceia (Marcos 14.15), e na qual a igreja se reuniu após a ascensão de Jesus (Atos 1.13). 2. Marcos foi testemunha ocular da morte e ressurreição de Jesus. Marcos pode ter viajado para ver e ouvir Jesus em outro lugar, mas, se ele vivia em Jerusalém, deve ter testemunhado os derradeiros acontecimentos do ministério de Jesus. Podemos imaginar o impacto que eles tiveram sobre o jovem Marcos. Ele meditou sobre o significado da morte de Jesus. E quando decidiu escrever seu Evangelho, ela tornou-se o foco de toda a sua história, pressagiada tão cedo quanto Marcos 3.6, predita freqüentemente por Jesus, que viajava para Jerusalém com o fim deliberado de morrer, e interpretada como morte sacrificial, um "resgate por muitos" (10.45). Vamos examinar abaixo o aspecto central desta mensagem. E provável que ele tenha passado por um doloroso desenvolvimento, semelhante ao que Pedro sofreu (ver capítulo 8): começou com a crença tradicional num Messias conquistador e vitorioso, que reestabeleceria os judeus como o povo soberano de Deus, e terminou vendo o Messias como uma figura sofredora que morreu por seu povo para salvá-lo de seus pecados. Este era o "Cristo, Filho de Deus", cuja história era a "boa nova" para todos os que a ouvissem (1.1).
  15. 15. Tiro Cesaréia de Filipe -, Palestina no PROVÍNCIA "empo do DA SÍRIA Novo Testamento Lago 5-70 d.C. •sr Semeconita TETRARQUIA Î5 r~vi- i-ii i n r 10 20 Quilômetros DE FILIPE Ptolemaida - r ^ _L Çorazim C a f a r n a u m . «Betsaida Genezaré d Galiléia0 ?Gergesa Divisas políticas M o n t e p Sepora fy Tiberíades" .Hipo 6-34 d.C. Carmelo Nazaré % Jarmuque % yP Grande Planície Nairn V Gadara Abila •ye>°e °o/ DECAPOLIS Monte Gilboa Sifópolis Pela. Salim Ribeiro Quente Mar Mediterrâneo • : • f ~ ... Sebaste 5 SAMARIA o Monte Ebal Neápolis *A • Sicar 6 Gerasa Monte Gerízim o Alexândrio Rio Jaboque Siló Jope Tiná Lida Efraim Filadélfia Baixo A l t o o Retel B e t e - h o r o m• •B e t e - h o r o m PEREIA -V Emaús Anatote Jericó Jerusalem A » tcrom Betfagé • . M o n t e Esco P° Betânia Azoto Qu m rã A PROVÍNCIA •• squelom ROMANA DA n,nÉ|A B ié u Herodio I Medeba JUDEIA Manre Mar Morto Maqueronte è P Hebrom Gaza En-gedi or^ RiO Masada Berseba L O REINO DE NABATÉIA IDUME1A
  16. 16. 18 HOMENS COM UMA MENSAGEM 3. Marcos teve falhas em seu próprio discipulado. Isto é muito importante para a nossa compreensão da forma pela qual a experiência de Marcos o preparou para escrever seu Evangelho. Paulo e Barnabé estavam presentes na casa de Marcos, participando da célebre reunião de oração, quando Pedro foi libertado da prisão. Barnabé era, na realidade, primo de Marcos (Colossenses 4.10); e quando retornaram a Antioquia, Barnabé e Paulo levaram Marcos com eles (Atos 12.25). Logo depois disso, o Espírito Santo induziu a igreja em Antioquia a enviar Paulo e Barnabé para uma viagem missionária (Atos 13.2). Eles levaram consigo Marcos para auxiliá- los (13.5), enquanto pregavam o evangelho em Chipre, e depois cruzaram o mar em direção a Panfília, na província romana da Galácia. Neste ponto, entretanto, Marcos resolveu não continuar, deixando Paulo e Barnabé e retornando a Jerusalém (Atos 13.13). Isso deixou Paulo profundamente contrariado, pois mais tarde ele se recusou a levar Marcos com ele novamente, pois "não achava justo levarem aquele que se afastara desde a Panfília, não os acompanhando no trabalho" (Atos 15.38). A palavra "afastara" aqui lembra a que foi usada na parábola do semeador referindo-se à semente que caiu sobre a pedra: "A que caiu sobre a pedra são os que, ouvindo a palavra, a recebem com alegria; estes não têm raiz, crêem apenas por algum tempo, e na hora da provação se desviam" (Lucas 8.13). Era o que Paulo pensava a respeito de Marcos. Quando enfrentou o teste, ele se desviou e mostrou ser um discípulo sem raízes, relutante em obedecer ao chamado do Espírito. Não sabemos por que Marcos os abandonou. A Panfília era uma área que ficava quase ao nível do mar e era infestada pela febre; além disso, eles estavam enfrentando uma viagem difícil até a Pisídia. Marcos tinha acabado de testemunhar um confronto emocionalmente extenuante com Elimas, o mágico, em Pafos (Atos 13.6-12). E talvez ele tivesse tido algum pressentimento do que iriam encontrar pela frente. Se tivesse continuado a viagem com Paulo e Barnabé, ele enfrentaria perseguição física em Listra, onde Paulo foi apedrejado ao ponto de quase morrer (Atos 14.19). Parece que o esgotamento e o perigo foram demais para que ele pudesse suportar, e então ele fugiu para sua casa em Jerusalém. Podemos supor que, além de jovem, ele era um tanto tímido ou estava saudoso do lar. A história tem seu modo de repetir-se. Seria o próprio Marcos o jovem mencionado em Marcos 14.51,52? A tradição vem de longa data sustentando que era ele. Se assim for, não será difícil imaginar o senso de deficiência que Marcos deve ter experimentado em Panfília, quando se viu, pela segunda vez, incapaz de suportar o desafio do discipulado. Mas podemos ver também como, através desta experiência, ele se qualificou para dar ao seu Evangelho a mensagem inconfundível de ânimo a todos quantos consideram difícil o discipulado. Examinaremos abaixo o ensino de Marcos sobre o discipulado, mas convém antes assinalar duas de suas características, porque elas se ajustam muito claramente à própria experiência de Marcos: a. Marcos destaca com exclusividade o medo sentido pelos discípulos ao seguirem Jesus. Mateus e Lucas amenizam sua linguagem, ou mesmo omitem- na completamente, em três episódios em que Marcos menciona esse medo. • Em Marcos 4.40,41ele nos diz que os discípulos estão "possuídos de grande temor" (uma expressão muito forte) quando vêem Jesus acalmar a tempestade—
  17. 17. MARCOS E SUA MENSAGEM 17Era Marcos o discípulo desnudo?Tradicionalmente, Marcos tem sido identificado Talvez ele e s t i v e s s e j á deitado q u a n d o ouviu ac o m o m e s m o j o v e m que ele m e n c i o n a e m surpreendente notícia de que Jesus estava saindo, eM a r c o s 14.51,52, o qual s e g u e J e s u s até o não permanecido lá como se esperava, e por issoGetsêmani usando somente u m lençol, e em vestiu-se depressa.s e g u i d a f o g e d e s n u d o q u a n d o a g u a r d a doSinédrio tenta prendê-lo juntamente com Jesus. • O jovem que seguiu Jesus era claramente rico, porqueTrês fatores depõem em favor desta identificação usava um lençol "de linho": geralmente, tais peças(embora nenhum deles seja conclusivo): eram de algodão. O terror do jovem é realçado tanto por f u g i r d e s n u d o c o m o por sua d i s p o s i ç ã o de• Este foi um dos muito poucos incidentes que desfazer-se de uma vestimenta tão valiosa.Mateus e Lucas preferiram não usar em seus Não podemos saber com certeza. Mas, se esta tradiçãoEvangelhos, ainda que soubessem que Marcos é correta, podemos ver ainda com maior clareza portinha suas próprias razões para incluí-lo. que Marcos mostra tanta compaixão por discípulos• Se a Ultima Ceia tinha sido realizada na casa fracos e indecisos.de Marcos, podemos muito bem imaginar queMarcos quis sair com Jesus e seus discípulos. e muito humanamente torna claro que não são somente as ondas que aterrorizam os discípulos: mais do que isto, é a demonstração da absoluta grandeza e poder de Jesus. • De modo similar, em 10.32 ele registra que os discípulos estão "admirados" e "apreensivos", quando acompanham Jesus até Jerusalém, mesmo antes de Je- sus ter-lhes enfatizado mais de uma vez seu próximo sofrimento e morte (10.33,34). • E, o mais extraordinário de tudo, ele termina seu Evangelho com uma nota de espanto e medo, quando conta a reação das mulheres diante do anúncio da ressurreição. Elas foram instruídas a transmitir a mensagem de que o Jesus ressurreto encontraria seus discípulos na Galiléia. Porém, em vez disto, "saindo elas, fugiram do sepulcro, porque estavam possuídas de temor e de assombro; e de medo nada disseram a ninguém" (16.8). Desde os primeiros anos, os copistas acharam que este era um final bastante inadequado para o Evangelho e apresentaram alternativas. E certamente possível que o final original de Marcos tenha sido perdido na transmissão. Entretanto, fica claro pelos antigos manuscritos gregos de Marcos que nenhuma das alternativas apresentadas é original. E, na realidade, o final grego harmoniza com todo o retrato da fraqueza humana dos seguidores de Jesus, com a qual ele deveria terminar seu Evangelho de forma singular. b. Marcos ressalta de forma singular a disposição de Jesus de confiar em discípulos que estão ainda muito inseguros em sua fé. Em Marcos 6.7-13 Jesus envia os Doze revestidos de autoridade para pregar e curar em seu nome. Lemos que "eles pregavam ao povo que se arrependesse; expeliam muitos demônios e curavam numerosos enfermos, ungindo-os com óleo" (6.12,13), e depois "voltaram os apóstolos à presença de Jesus e lhe relataram tudo quanto haviam feito e ensinado". (6.30). A primeira vista estes discípulos parecem gigantes espirituais, mas a história continua em seguida para pintar suas verdadeiras cores: seus corações estão endurecidos (6.52), seu entendimento está obtuso (7.18), e sua memória está obliterada (8.2-5; compare com 6.35-38), de sorte que Jesus tem de contender com eles: "Ainda não considerastes nem
  18. 18. 20 HOMENS COM UMA MENSAGEM compreendestes? tendes o coração endurecido? tendo olhos, não vedes? e, tendo ouvidos, não ouvis? Não vos lembrais...?" (8.17,18). E mesmo quando os discípulos finalmente reconhecem que Jesus é "o Cristo" (8.29), eles demonstram apenas um tímido começo. Eles precisam aprender árduas lições sobre oração (9.28,29; 11.21-25), sobre humildade (10.13-16), sobre sacrifício próprio (10.26-31), e sobre status (9.38,39; 10.35-45). E Marcos dá pouca indicação de progresso. Pedro, Tiago e João caem de sono em vez de orar no Getsêmani (14.37-42), e quando Jesus é preso todos o deixam e fogem (14.50). O único discípulo que volta atrás e segue Jesus, em seguida nega-o ostensivamente (14.71). Por trás disto tudo podemos ver a experiência do próprio Marcos. Também ele tinha experimentado os impulsos conflitivos que retrata nos primeiros discípulos de Jesus. Por um lado eles se sentem fortemente atraídos a Jesus (1.16-20), testemunham diretamente seus extraordinários poderes (6.13), identificam-no como "o Cristo" (8.29), deixam tudo para segui-lo (10.28), e se sentem prontos a morrer por Ele (14.31). Mas, por outro lado, são constantemente confundidos e surpreendidos por Jesus, a tal ponto que Marcos faz pouca distinção entre eles e os fariseus no que respeita à compreensão das palavras do Mestre (8.11-21). Como vimos, eles são freqüentemente muito medrosos, e por fim fracassam completamente. Assim, pois, Marcos fala compassivamente a todos quantos sentem extrema dificuldade de seguir este Cristo. Mas, está ele finalmente desesperançado quanto à possibilidade de verdadeiro e vitorioso discipulado? É vital que passemos à quarta característica da pessoa de Marcos, a qual lança mais luz sobre seu Evangelho: 4. Marcos torna-se companheiro tanto de Pedro como de Paulo. Fracasso não foi o fim da história de Marcos. Não sabemos quanto tempo ele ficou em Jerusalém depois de seu retorno. Mas, após o Concílio apostólico registrado em Atos 15, encontramo-lo de volta a Antioquia novamente com Barnabé e Paulo. Paulo recusou a companhia de Marcos em sua visita de re- torno às mesmas igrejas. Porém, à custa de sua parceria com Paulo, Barnabé afavelmente ajudou Marcos a retomar seu trabalho missionário, levando-o novamente a Chipre, a cena de seu fracasso (Atos 15.38,39). Não tivemos mais novas notícias de Marcos até que o encontramos em quatro das últimas epístolas do Novo Testamento. Na época em que foram escritas as cartas aos Colossenses e a Filemom (cerca de dez ou doze anos mais tarde). Marcos está com Paulo, que o chama de "cooperador" (Filemon 24; compare com Colossenses 4.10). E então Marcos recebe uma calorosa recomendação na última carta de Paulo, escrita provavelmente pouco antes de sua morte. Paulo diz a Timóteo: "Toma contigo a Marcos e traze-o, pois me é útil para o ministério" (2 Timóteo 4.11). Evidentemente, a ruptura com Paulo tinha sido completamente curada! Marcos aparece, finalmente, em 1 Pedro 5.13, quando Pedro o chama amorosamente de "meu filho", ao fazer suas saudações juntamente com Marcos, que está com ele, aos cristãos localizados "no Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia", a quem a carta é dirigida (1 Pedro 1.1). Todas estas cartas foram provavelmente escritas de Roma, onde claramente Marcos ministrava tanto para Pedro como para Paulo, tendo sido um companheiro confiável e muito amado de ambos. Claramente também ele era
  19. 19. MARCOS E SUA MENSAGEM 19Parte do Fórum, nesse tempo conhecido das igrejas na Galácia e na Ásia Menor, a mesma áreaRoma, com o da qual ele havia fugido quando sua fé arrefecera. Portanto, o cuidado de BarnabéColiseu para com seu primo tinha sido amplamente justificado. Marcos havia enfrentadodestacando-se no e dominado seus medos, tornando-se totalmente "útil" no serviço cristão.horizonte. Marcos E não somente Marcos. Pedro também tinha saído do malogro para ser adevotou tempoministrando em "Rocha" sobre a qual a igreja estava sendo construída. Marcos destaca o fracassoRoma, e seu de Pedro mais do que dos outros discípulos. "Ainda que todos se escandalizem,Evangelho foi eu jamais!... Ainda que me seja necessário morrer contigo, de nenhum modo teescrito para um negarei" (14.29,31). Então, com chocante compaixão e ironia, Marcos narra apúblico ocidental, história de cada uma das negações preditas por Jesus (14.66-72). As negaçõespossivelmente tornam-se mais enfáticas até que ele "começou a praguejar e a jurar: Nãoromano. conheço esse homem de quem falais! " (14.71). Talvez a amizade entre Pedro e Marcos foi alicerçada em sua mútua experiência de queda e restauração. E bem possível que o próprio Evangelho de Marcos tenha nascido dessa experiência comum. Em data remota acreditou- se que Marcos baseou seu Evangelho na pregação de Pedro. A posição mais antiga desta versão veio de Papias, bispo de Hierápolis por volta de 130 d.C. Ele foi apoiado no fim do segundo século por Irineu (bispo de Lyon, c. 178-195 d.C.), que acrescentou a idéia de que Marcos teria registrado toda a pregação de Pedro em Roma, após a morte deste último. Depois, Clemente de Alexan- dria (c. 200 d.C.) contribuiu com a sugestão de que Marcos foi pressionado a fazer isso pelo povo que ouviu a pregação de Pedro. Não sabemos a exata seqüência dos acontecimentos, porém podemos afirmar com certeza que: • Marcos dedicou tempo ministrando com Pedro em Roma; • Pedro é destacado mais do que qualquer outro discípulo no Evangelho de Marcos; • Seu Evangelho foi escrito para um público ocidental, talvez romano (ver o
  20. 20. 20 HOMENS COM UMA MENSAGEM Pedro em Marcos Pedro é citado pelo nome não menos do que vinte e Assim, de f o r m a comovente, Marcos nos dá três vezes no Evangelho de Marcos. Os personagens algum discernimento sobre o testemunho de Pedro mais próximos, por freqüência de menção, são a Jesus. Seu Evangelho mostra realmente um estreito Tiago e João (nove vezes); portanto, Pedro é de paralelo com o resumo do ministério de Jesus que o l o n g e o m a i s p r o e m i n e n t e dos d i s c í p u l o s e m próprio Pedro apresentou a Cornélio em seu sermão Marcos. Isto pode bem refletir a própria pregação de Atos 10.34-43: de Pedro, que forneceu a base do Evangelho de * A história t e m início na Galiléia "depois do M a r c o s . E esta h i p ó t e s e é f o r t a l e c i d a q u a n d o batismo que João pregou", e em seguida afirma e x a m i n a m o s essas vinte e três referências, "como Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito porquanto não menos do que treze se relacionam Santo e poder, o qual andou por toda parte, fazendo com quatro incidentes que escassamente mostram o bem e curando a todos os oprimidos do diabo, Pedro sob um foco predominante! porque Deus era com ele" (Atos 10.37,38). 1. Pedro procura repreender Jesus por predizer sua * A história atinge seu clímax "na terra dos judeus e morte e recebe u m a resposta cáustica: "Arreda! em Jerusalém" com a morte e ressurreição de Jesus Satanás, porque não cogitas das coisas de Deus, e (Atos 10.39,40). sim das dos homens" (8.33). * P e d r o p õ e ê n f a s e s o b r e seu p a p e l c o m o 2. Pedro diz sem pensar um contra-senso a respeito "testemunha" (Atos 10.39,41), do mesmo modo de construir tendas, porque estava aterrorizado ante como, no Evangelho de Marcos, o encontramos no a v i s ã o de J e s u s c o m M o i s é s e E l i a s na centro de toda a ação. transfiguração (9.5,6). * Pedro também ressalta o cumprimento anunciado 3. Pedro, com Tiago e João, dorme três vezes no pelos profetas sobre Jesus (Atos 10.43), u m a ênfase jardim do Getsêmani, em vez de orar com Jesus. que encontramos também em Marcos (1.2,2; 1.11; S o m e n t e M a r c o s r e g i s t r a sua r e a ç ã o q u a n d o 11.9,10; 12.10,11; 12.36; 14.27). acordados pela segunda vez: "E não sabiam o que Mas no Evangelho há esta nota adicional, não lhe responder" (14.40). No entanto, eles novamente refletida no breve sermão a Cornélio. Q u a n d o se entregam ao sono! pregou, Pedro deve ter usado seu próprio exemplo 4. E acima de tudo Pedro nega Jesus, a última vez para advertir seus ouvintes: Não façam o que eu com imprecações (14.71), muito embora tenha fiz! anteriormente, na m e s m a noite, protestado sua eterna lealdade a Ele. quadro "Palavras Latinas e m Marcos"); • S e u E v a n g e l h o teria s i d o e s p e c i a l m e n t e a d e q u a d o e e n c o r a j a d o r p a r a o s cristãos que enfrentavam o desafio da perseguição. Estas observações levaram o estudioso norte-americano William Lane a admitir seriamente a tradição de que M a r c o s baseou seu E v a n g e l h o sobre a essência da pregação de Pedro, e a sugerir que M a r c o s o escreveu especialmente para a igreja e m R o m a , quando ela foi vitimada pela perseguição sob Nero e m 65 d.C., durante a qual muito provavelmente o próprio Pedro foi martirizado. S e M a r c o s b a s e o u seu E v a n g e l h o n a p r e g a ç ã o d e P e d r o , e n t ã o a l g u m a s d e suas surpreendentes características são explicadas. • Sua extensão: M a r c o s simplesmente utilizou o material que tinha ouvido Pedro empregar. Ele não procurou fazer u m a pesquisa complementar, c o m o fez Lucas. • Seu começo: P e d r o n i t i d a m e n t e n ã o u s o u e m seu m i n i s t é r i o h i s t ó r i a s s o b r e o n a s c i m e n t o d e J e s u s e s u a i n f â n c i a . Q u a n d o ele r e s u m e o m i n i s t é r i o d e J e s u s p a r a C o r n é l i o , e l e f a l a d o seu c o m e ç o " d e s d e a G a l i l é i a , d e p o i s d o b a t i s m o q u e J o ã o p r e g o u " ( A t o s 10.37). • Seu nome: o n o m e q u e M a r c o s e s c o l h e u p a r a s e u livro, " e v a n g e l h o " , r e f l e t e sua origem na pregação da " b o a n o v a de Jesus Cristo", pela qual Pedro e os outros apóstolos foram conhecidos. • Seu enfoque: p o r trás d a ê n f a s e d e M a r c o s s o b r e a m o r t e d e J e s u s , p o d e m o s ouvir P e d r o tentanto persuadir os j u d e u s de que Jesus era realmente " o Cristo,
  21. 21. MARCOS E SUA MENSAGEM 21o Filho de Deus", muito embora tenha sofrido uma morte criminal. Sua mortecumpriu a Escritura!Marcos, o escritorPodemos falar mais sobre Marcos simplesmente com base em seu trabalhoescrito. Aqui também ele expõe as qualidades e dons pessoais que o qualificampara a tarefa de ser o primeiro escritor do evangelho. Três coisas em particularse sobressaem.1. Marcos era um estilista bem dotado.Ele escreve num estilo vívido, direto e vigoroso. Apequena palavra grega euthusé uma de suas favoritas, usada quarenta e uma vezes. Traduzida para"imediatamente", "prontamente", "sem demora" e equivalentes, esta palavraacrescenta um sentido de compasso e movimento. Marcos sublinha istoutilizando sentenças curtas e vocabulário vívido e forte. A história segue umritmo acelerado de incidente a incidente. Marcos tem um dom especial para o detalhe visual que transmite vida à cena.Com freqüência ele introduz um detalhe que Mateus e Lucas omitem. Porexemplo, ele é o único a mencionar que Jesus tomou uma criança em seusbraços e disse: "Qualquer que receber uma criança, tal como esta, em meunome, a mim me recebe" (Marcos 9.36,37). Somente ele registra que o jovemhomem rico "correu" até Jesus e ajoelhou-se diante dele antes de perguntar:"Que farei para herdar a vida eterna? (10.17). E unicamente ele conta como"Jesus, fitando-o, o amou" (10.21), e como o homem "retirou-se triste" (10.22). Os exemplos podem multiplicar-se. Este amor com detalhe plástico geralmentesignifica que as histórias de Marcos são mais recheadas do que suas equivalentesem Mateus e Lucas. Como exemplo podemos comparar o inventário de palavrascontidas nas duas histórias—da filha de Jairo e da mulher com hemorragia:• Marcos faz a narrativa com 416 palavras, 5.21-43.• Lucas utiliza 331 palavras, 8.40-56.• Mateus maneja ambas com somente 162 palavras, 9.18-26.Alguns dos pormenores que Marcos introduz emprestam um "toque humano"a estas histórias:• Jairo não apenas "suplica" a Jesus que vá, mas o faz "insistentemente"(literalmente, "dizendo-lhe muitas coisas"). • A mulher "muito padecera à mão de vários médicos", mas, em vez de sercurada, ficava cada vez "pior" (5.26). • Quando ela tocou a veste de Jesus, Ele percebeu "imediatamente que delesaíra poder", e então virou-se "no meio da multidão", e "olhava ao redor paraver aquela que fizera isto" (5.30,32). • Quando Jesus chegou à casa de Jairo, viu "os que choravam e os quepranteavam muito" (5.38). • Jesus então "tomou o pai e a mãe da criança... [com Ele]", e "entrou ondeela estava" (5.40).• Em seguida, Marcos acrescenta um traço de rara sensibilidade, o que, aliás,ele faz também em três outras ocasiões: mantém a palavra original da voz decomando de Jesus em aramaico, Talitha koum!, "Menina, eu te mando, levanta-te!" (5.41). Outra técnica empregada pelo estilista Marcos para fazer que sua narrativa se
  22. 22. 24 HOMENS COM UMA MENSAGEM torne dinâmica é a chamada "presente histórico". Este consiste do uso repentino tempo presente do verbo numa história passada. Na história de Jairo e sua filha, isto ocorre quando Jairo aparece: ele "chega" e, vendo-o, "prostra-se a seus pés... e lhe suplica". De igual modo, Marcos usa o tempo presente no clímax da história. Quando Jesus chega à casa de Jairo, ele "vê o alvoroço", "fala" aos pranteadores, "entra" com pais, e "diz" à menina. ... No seu conjunto, Marcos é um notável estilista. 2. Marcos foi um convincente contador de história. Esta é uma qualidade complementar numa escala mais ampla. Da mesma forma que Marcos conta suas histórias individuais com grande vivacidade e força, ele compõe todo o seu Evangelho com igual habilidade. Papias, escritor cristão dos tempos primitivos, certamente entendeu isto erroneamente. Na passagem em que ele testifica que Marcos baseou seu Evangelho na pregação de Pedro, Papias também diz que Marcos "anotou cuidadosamente tudo quanto recordava das coisas ditas ou realizadas pelo Senhor, porém não em ordem cronológica". Esta falta de "ordem" ele atribui a Pedro, que "não articulou um relato criterioso das revelações do Senhor". Portanto, Marcos copiou Pedro simplesmente com o propósito de não deixar que faltasse alguma coisa. O Evangelho de Marcos, entretanto, é qualquer coisa menos um amontoado de reminiscências desconexas. Em anos recentes os estudiosos têm apreciado a história de Marcos mais claramente do que nunca. Ela é graciosamente composta, e suas riquezas ainda estão sendo exploradas. Por meio dessa composição bem cuidada. Marcos confere energia à mensagem que procura comunicar. Apenas umas poucas características podem ser aqui mencionadas: a. Estrutura global. Depois da introdução em 1.1 -15, o Evangelho fica dividido em duas partes, com 8.27-30 formando a "dobradiça" bem no meio. A confissão de Pedro de ser Jesus o "Cristo" é o clímax da narrativa até aqui. Mas ela introduz uma dramática mudança: "Então começou ele a ensinar-lhes que era necessário que o Filho do homem sofresse muitas coisas, fosse rejeitado... [e] fosse morto (8.31). Esta nota do sofrimento vindouro tinha sido antes parte da história, porém não predita por Jesus. Agora a cruz começa a avultar, como se verá abaixo. Num ou noutro lado desta "dobradiça", cada metade se distribui em três seções. Na primeira metade, cada uma dessas seções começa com uma história sobre os discípulos (1.16-20, 3.13-19, 6.6-13), e termina com um pequeno resumo incidente que encapsula a mensagem daquela seção: • 3.7-12: grandes multidões são atraídas a Jesus, que realiza curas e as ensina. Os demônios sabem quem Ele é (compare com 1.1). • 6.1-6: contrastando com 3.7-12, a cidade do lar de Jesus o rejeita, e Ele não faz nenhuma cura ali. O tom de conflito e oposição atravessa toda esta seção. • 8.22-26: esta cura em dois estágios (somente em Marcos) ilustra o que deve acontecer aos discípulos. Em toda esta seção eles têm-se esforçado para entender Jesus. Eles vêem o que Ele faz, mas não compreendem, como o homem que vê as pessoas que parecem árvores que caminham (8.24). Jesus restaura sua compreensão, e imediatamente segue-se a confissão de Pedro: "Tu és o Cristo" (8.29). A segunda metade do Evangelho distribui-se, de igual modo, em três seções: 8.31-10.52 (terminando com a cura de um homem cego, como na seção
  23. 23. MARCOS E SUA MENSAGEM 23precedente da primeira metade); 11.1-13.37 (enfocando a oposição e o conflito,como na seção do meio da primeira metade); e 14.1-16.8 (que conta a históriada morte de Jesus, atingindo o clímax com a confissão do centurião, que nosleva diretamente de volta ao começo, 1.1,11).b. Repetição e reminiscência. Freqüentemente Marcos faz com que a narrativase repita, e essas repetições são vitais à sua mensagem.• Numa escala ampla, observamos as três ocasiões vitais em que Jesus éidentificado como "o Filho de Deus", em conexão com uma palavra vindadiretamente do próprio céu: em 1.10,11 no seu batismo, em 9.7 na transfiguração,e em 15.39 pelo centurião em seguida ao episódio do véu do santuário "rasgar-se em duas partes de alto a baixo" (aqui o véu é "rasgado" como os céus"rasgaram-se" em 1.10—Marcos usa a mesma palavra). O testemunho divino éseguido pelo testemunho humano: os leitores somarão suas vozes à do centurião?• Numa escala menor, há as repetidas e miraculosas multiplicações dos pães(6.30-44; 8.1-10), repetidas curas de cegueira (7.31-37; 8.22-26; 10.46-52), erepetidos exorcismos (todos muito diferentes: 1.21-28; 5.1-20; 7.24-30; 9.14-29). Em todos estes casos os exemplos posteriores nos lembram os primeiros, eas diferenças enfatizam as diversas facetas do ministério de Jesus, ou osdiferentes desafios enfrentados pelos discípulos, ou pelos leitores de Marcos.• Numa escala menor ainda, Marcos cria conexões sutis entre histórias querealçam aspectos de sua mensagem. Ele cria, por exemplo, uma comparaçãosurpreendente entre o pobre menino possuído do demônio, no capítulo 9, e ooutro jovem (rico, religioso, bem educado) que Jesus encontra no capítulo 10.Ambos foram alguma coisa "desde a infância"—um foi possuído do demônio,o outro foi obediente aos mandamentos (9.21; 10.20). Ambos, porém, sãoigualmente escravizados, um pelo mau espírito, o outro por sua riqueza; ambospodem ser libertados somente pelo poder direto de Deus (9.29; 10.27); em am-bos os casos os discípulos reconheceram sua própria incapacidade de fazeralguma coisa (9.28; 10.26). Mas um é libertado, o outro não. E o que faz a diferença entre eles é a fé e aoração do pai: "Eu creio, ajuda-me na minha falta de fé" (9.24).c. Justaposições criativas. A conexão entre estes dois "meninos" em capítulosadjacentes é também uma ilustração da "justaposição criativa". Marcos combinahistórias, ou as apresenta lado a lado, sem fazer qualquer comentário explícito,mas permitindo que sejam interpretadas conjuntamente. Um exemplo é a combinação da purificação do templo e da maldição dafigueira estéril em 11.11-25. Marcos faz a narrativa juntando as histórias eentrelaçando-as—uma técnica que ele emprega também em 5.21-43 e 6.7-31.Cada história completa a mensagem da outra. A "figueira" foi uma das váriasárvores usadas com freqüência como imagem para Israel. A inspeção do temploem 11.11 é seguida pelo exame da figueira em 11.12-14—e por sua maldiçãocomo sendo estéril. Então, a maldição é seguida pelo que usualmente chamamosde "purificação" do templo, embora ela seja mais um ato de julgamento. Aquelea quem pertence a "casa" (11.17) examinou-a e a encontrou faltosa. No dia seguinte os discípulos notam que a figueira está seca. Um sinalagourento! E então Jesus lhes oferece um novo e radical ensino sobre a oração,que deixa totalmente de lado o templo, a "casa de oração para todas as nações"
  24. 24. 26 HOMENS COM UMA MENSAGEM (11.22-25). Não ficamos absolutamente surpresos quando, mais tarde naquele dia, Jesus prediz a total destruição do templo (13.2). Nenhuma das partes desta narrativa combinada teria o mesmo significado, se uma das partes não estivesse ali inserida. Exemplos desta técnica podem ser multiplicadas em outras partes do Evangelho de Marcos. 3. Marcos era um porta-voz persuasivo. O propósito de todo este escrito meticuloso era persuadir. Quem Marcos teria em mente? Os estudiosos não são concordantes. E possível que Marcos tivesse vários propósitos, tanto evangelísticos como pastorais. Sua meta global não é difícil de definir: ele desejava persuadir seus leitores a crer no "evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus" (1.1), e segui-lo. Ele, na verdade, deu a seu livro o título: "Princípio do evangelho de Jesus Cristo" (1.1). As opiniões diferem sobre o significado da palavra "princípio" aqui. Refere-se ela apenas à sua introdução (1.1-15), ou a todo o livro? Uma vez que esta é a frase de abertura, parece mais provável que Marcos esteja se referindo a todo o livro como "o princípio do evangelho". Portanto, ele considera que seus leitores já estão cientes da pregação do "evangelho" e da comunidade de crentes que já o aceitaram. Ele deseja dizer-lhes como tudo isto começou. Há outras indicações de que ele sabe que não está contando toda a história do "evangelho", e admite o conhecimento da história posterior entre seus leitores: • A promessa de João Batista em 1.8 de que Jesus batizaria com o Espírito Santo não se cumpre dentro de seu Evangelho. • De modo semelhante, a promessa de Jesus de transformar seus discípulos em "pescadores de homens" (1.17) não é cumprida em seu Evangelho. • Tampouco o é sua promessa em 14.28 de encontrá-los na Galiléia após a ressurreição (a menos que isto indique que o original de Marcos tivesse incluído a ressurreição). • Ele enfatiza a centralidade vital da pregação e ensino no ministério de Jesus Cristo ("Para isso é que eu vim", 1.38), porém registra pouco mais do que resumos de seu conteúdo. Isto sugere que tanto ele como seus leitores sabiam que esses registros do ensino de Jesus estavam disponíveis em algum outro lugar. • A apresentação dos discípulos realça a fraqueza destes, sua falta de compreensão, medo e infidelidade em tal extensão que parte de sua mensagem parece ser: pense apenas no que Jesus seria capaz de fazer mais tarde com este material humano tão pouco promissor, depois que o Espírito foi derramado! Esses discípulos—particularmente Pedro—tornaram-se grandes líderes da igreja. O próprio Marcos ministrou ao lado deles, e sabia por sua própria experiência que "para Deus ttido é possível" (10.27). A falha não é a última palavra. • Este sentido de história contínua é claramente discernível bem no final, com o registro do medo e desobediência em 16.8. Poderia "a boa nova" terminar desta forma? Tanto Marcos como seus leitores sabem que não. Longe disso! A estratégia de Marcos, pois, é mostrar "o princípio", as fundações, de sorte que os leitores possam compreender por que a mensagem de Jesus Cristo é a "boa nova", e que ela, em essência, significa segui-lo. Voltamos finalmente a um breve resumo de sua mensagem. A mensagem de Marcos
  25. 25. MARCOS E SUA MENSAGEM 25Costa do mar da Há muitos aspectos na mensagem de um livro tão brilhante. Contudo, podemosGaliléia. Depois da resumir seus principais elementos como segue:prisão de JoãoBatista, Jesus foi 1. O Reino de Deuspara a Galiléia, e Marcos resume a pregação de Deus como uma mensagem sobre o Reino deboa parte de seu Deus: "Depois de João ter sido preso, foi Jesus para a Galiléia, pregando oministério evangelho de Deus, dizendo: O tempo está cumprido e o reino de Deus estáconcentrou-se nolago e na cidade próximo; arrependei-vos e crede no evangelho." (Marcos 1.14,15). Aquide Cafarnaum. "evangelho" corresponde a "boa nova". Assim, Marcos liga o "evangelho" com a mensagem sobre a proximidade do Reino de Deus, anunciado por Jesus. Vamos considerar o significado de "Reino de Deus" no capítulo sobre Mateus, porque Mateus faz dele uma característica mais proeminente do ensino de Je- sus do que Marcos. Enquanto Mateus se refere ao "Reino do céu" cinqüenta vezes, Marcos o menciona somente quinze vezes. "O Reino de Deus" projetava-se como um futuro brilhante para os judeus (compare com Marcos 15.43). Quando o Reino viesse, ele significaria o esmagamento dos inimigos de Deus e a confirmação de Israel como povo de Deus. Contra este pano de fundo, podemos resumir a mensagem de Marcos como segue: • O Reino está perto, prestes a chegar (1.15)! • Ele está perto porque Jesus veio (11.10; compare com 2.18-22). • O processo que ensejará seu pleno aparecimento já foi iniciado (4.26,30). • Contra toda a expectativa presente, é difícil entrar no Reino (10.24). Esta entrada não é certamente automática. Uma ação drástica pode ser necessária (9.47). Na realidade, a entrada está aberta somente àqueles que deixaram tudo e seguiram Jesus (10.15,21). 2. A morte de Jesus Como observamos acima, a ênfase de Marcos sobre a morte de Jesus é uma das
  26. 26. 28 HOMENS COM UMA MENSAGEM mais admiráveis características de seu Evangelho pioneiro. O que ele ensina a respeito dela? O Evangelho inicia com um conflito. O conflito entre Jesus e o sistema religioso vigente é apontado logo cedo, como em Marcos 1.22: "Maravilhavam- se da sua doutrina, porque os ensinava como quem tem autoridade, e não como os escribas." Torna-se imediatamente claro que este tom de autoridade será olhado como blasfemo pelos fariseus (2.6,7). E quando Jesus alega sua independência e autoridade de associar-se com os "pecadores" (2.15-17), e de reordenar as regras prescritas para o jejum (2.18-22), a observância do sábado (2.23-28), e a cura (3.1-5), o resultado é imediato e execrável: "Retirando-se os fariseus, conspiravam logo com os herodianos, contra ele, em como lhe tirariam a vida" (3.6). Ante a menção de colaboração entre fariseus e herodianos neste plano (os quais viviam geralmente brigando entre si), Marcos salienta a força da oposição a Jesus. O conflito é mais adiante realçado pelo incidente em 3.20-30, onde os "professores da lei" acusam Jesus de estar possuído do demônio, e Ele, em contrapartida, acusa-os de blasfemar contra o Espírito Santo. Com efeito, eles o estavam acusando de ser um falso profeta, para quem a penalidade era a morte (Deuteronômio 13.1-5), ao passo que Ele os acusava de rebelião arrogante con- tra o Senhor, como aquela dos filhos de Eli, para a qual nenhuma expiação era possível (1 Samuel 2.25; 3.13,14). Indagamo-nos por quanto tempo uma resolução final pode ser retardada. Não obstante, de fato nenhuma tentativa houve para matar Jesus, uma vez que Ele estava na Galiléia. Marcos faz-nos saber que a oposição a Jesus vem de Jerusalém (3.22), e nos relembra isto novamente no capítulo 7, quando "os fariseus e alguns escribas, vindos de Jerusalém" (7.1) acusam Jesus de ensinar a impureza, e Ele replica que eles ensinam a desobediência (7.5-9). Com este conflito tramado nos bastidores, não nos surpreende a reação dos discípulos quando Jesus decide viajar a Jerusalém: eles "se admiravam e o seguiam tomados de apreensões" (10.32). Por esse tempo, contudo, surgem dois desdobramentos adicionais. Primeiramente, a oposição a Jesus se estende. Sua família pensa que Ele está louco (3.21). Os gerasenos pedem que Jesus se afaste deles (5.17). Sua própria cidade ficou escandalizada com seus atos (6.3). Até os discípulos estavam arriscados a ser contaminados com o "fermento dos fariseus" (8.15), e Pedro tenta fazer o trabalho de Satanás contra Jesus (8.33). A desgraça é que esta é uma "geração adúltera e pecadora" (8.38), e todos os que a ela pertencem— inclusive os discípulos de Jesus—se oporão a Ele finalmente. O segundo desdobramento ocorre repentina e inesperadamente quando Pedro, falando por todos os discípulos, declara que Jesus é "o Cristo" (8.29). Jesus imediatamente anuncia sua morte próxima: "Então começou ele a ensinar-lhes que era necessário que o Filho do homem sofresse muitas coisas, fosse rejeitado pelos anciãos, pelos principais sacerdotes e pelos escribas, fosse morto e que depois de três dias ressuscitasse" (8.31). Assim, o que os fariseus e herodianos estão tramando por suas próprias razões deve acontecer, porque "está escrito do Filho do homem que ele deva padecer muito e ser aviltado" (Almeida, ed. 1948). A ação transfere-se assim para Jerusalém com um espantoso sentido de inevitabilidade. Por razões inteiramente humanas e políticas, as autoridades querem matar Jesus, enquanto Ele caminha determinado em direção à sua
  27. 27. MARCOS E SUA MENSAGEM 27armadilha por razões inteiramente celestiais e escriturísticas. Ele reitera apredição de seu sofrimento, morte e ressurreição iminentes em três momentosseguidos antes de chegar finalmente a Jerusalém (9.31; 10.32-34; 10.45). O último destes pronunciamentos é particularmente significativo: "Quemquiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva; e quem quiser sero primeiro entre vós, será servo de todos. Pois o próprio Filho do homem nãoveio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos"(10.43-45). Somente aqui Marcos nos oferece a compreensão das Escrituras,nas quais estava escrito que o Cristo devia morrer. Nesta afirmação Jesus recorreà expressão de Isaías 53, e claramente se identifica como o "servo do Senhor",que carrega os pecados do povo de Deus enquanto é "desprezado e rejeitado"e conduzido a uma morte violenta (53.3ss). Definitivamente, o conflito com as autoridades alcança uma nova intensidadequando Jesus começa a ministrar em Jerusalém (capítulos l i e 12). Mas ahistória tem uma nova e dramática reviravolta quando Jesus repentinamenteanuncia que sua morte não será causada apenas pela oposição das autoridadesreligiosas: um dos Doze vai traí-lo. A identidade do traidor não é revelada, etodos os discípulos professam total lealdade. Contudo, no final, não há muitadiferença entre Judas, que o abandonou e aliou-se à oposição, e os demais, queo abandonaram e fugiram. E assim, no final das contas, não há muita diferençaentre os discípulos que consentem em sua morte, e seus francos opositores quea engendram. A questão é que todos, quer discípulos ou inimigos, estão igualmentenecessitados de que alguém morra por eles, que dê "sua vida em resgate demuitos" para o perdão dos pecados. Para Marcos é primacialmente sua morteque valida a alegação de que Jesus é "o Cristo, o Filho de Deus" (1.1). Logoapós sua morte, o centurião postado junto à cruz se convence da verdade:"Verdadeiramente este homem era Filho de Deus" (15.39).3. O custo do discipuladoJá tivemos a oportunidade de considerar o interesse de Marcos nas dificuldadese desafios do discipulado, bem como sua simpatia ante as fraquezas dosprimeiros apóstolos. Esta simpatia, porém, não o leva a diminuir a exigênciaimposta aos discípulos de Jesus. Isto pode ter sido uma tentação para ele,naqueles dias iniciais quando ele fugiu da Panfília e voltou a Jerusalém. A fécristã exige realmente tal sacrifício? Mas, ao tempo em que escreveu seu Evangelho, Marcos teve de enfrentar esuperar seu medo; e, talvez como resultado de sua batalha, ele apresenta maisagudamente do que outros evangelistas o alto custo requerido dos seguidoresde Jesus: "Então, convocando a multidão e juntamente os seus discípulos, disse-lhes:Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me.Quem quiser, pois, salvar a sua vida, perdê-la-á; e quem perder a vida porcausa de mim e do evangelho, salvá-la-á" (8.34,35). Jesus faz esta convocação logo depois de anunciar sua própria morte pelaprimeira vez. Seus discípulos devem seguir o mesmo caminho, levando suacruz, prontos para perder suas vidas por Ele e pelo evangelho. O título daautobiografia de Frank Chikane, o Secretário Geral da Concílio Africano deIgrejas, será também o lema de suas vidas: Minha Vida Não Me Pertence! O significado desta auto-renúncia é explanado mais claramente em Marcos
  28. 28. 30 HOMENS COM UMA MENSAGEM 10.17ss. O jovem rico é desafiado: "Vai, vende tudo o que tens, dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; então vem, e segue-me" (10.21). Ele, porém, relutou. Pedro afirma: "Eis que nós tudo deixamos e te seguimos" (10.28), e então ouve a promessa de Jesus de que "ninguém há que tenha deixado casa, ou irmãos, ou irmãs, ou mãe, ou pai, ou filhos, ou campos, por amor de mim e por amor do evangelho, que não receba, já no presente, o cêntuplo de casas, irmãos, irmãs, mães, filhos e campos, [e] com [eles] perseguições; e no mundo por vir a vida eterna" (10.29,30). Os discípulos viviam numa cultura em que as raízes do lar e da família eram muito importantes. Na verdade, os judeus acreditavam que a terra de sua família fora dada a eles por Deus, e assim, basicamente, não deveria ser doada ou vendida. Apesar disso, Jesus os convida a dar as costas a tudo por sua causa. É verdade que Ele promete que eles receberão outro tanto de volta. Porém o que eles receberão não é o mesmo que eles abandonam. Eles abandonam suas famílias humanas, e recebem a família de Deus (3.34,35). E também sofrerão "persegui- ções", porque estarão desafiando uma "geração adúltera e pecadora", e isto lhes acrescenta mais do que as coisas a que renunciam. Nem todo cristão é instado a deixar lar e família por causa de Jesus. Porém Marcos foi. Ele teve de deixar a segurança e riqueza do lar de sua família em Jerusalém e viajar, primeiro com Barnabé a Chipre, e depois disso não sabemos aonde, exceto que incluía a Ásia Menor, e terminou em Roma com Pedro e Paulo. Ele se tornou um "pescador de homens" ao lado eles, estendendo as mãos, como seu Senhor, aos necessitados e perdidos, esquecido de si mesmo, renunciando a todas as coisas para que possa receber muito mais. E ele também atrai pessoas a Cristo, através de seu soberbo Evangelho, que fala tão vividamente hoje como falou a Mateus e Lucas quando eles estavam buscando inspiração para seu próprio trabalho. Leitura adicional Menos exigente: Donald English, The Message of Mark. The Mystery of Faith (série The Bible Speaks Today) (Leicester: IVP, 1992) R. T. France, Divine Government. Gods Kingship in the Gospel of Mark (Londres: SPCK, 1990) Mais exigente, obras eruditas: Ernest Best, Mark. The Gospel as Story (Edimburgo: T. & T. Clark, 1983) Adela Yarbro Collins, The Beginning of the Gospel. Probings of Mark in Context (Minneapolis: Fortress, 1992) Morna D. Hooker, The Message of Mark (Londres: Epworth Press, 1983) Jack D. Kingsbury, Conflict in Mark. Jesus, Authorities, Disciples (Minneapolis: For- tress, 1989)
  29. 29. Mateus e suaMensagemPercorria Jesus toda a Galiléia, ensinandonas sinagogas, pregando o evangelho do reinoe curando toda sorte de doenças e enfermidadesentre o povo. (Mateus 4.23)Se o de Marcos é o Evangelho de Cristo, o Servo Sofredor, e o de Lucas oEvangelho de Cristo, o Salvador universal, o de Mateus é o Evangelho de Cristo,o Rei que governa. O "Reino do céu" é o grande tema do Evangelho de Mateus,mas para Mateus sua importância repousa na identidade de Jesus. Jesus é o Rei,que, por seu nascimento, por seu batismo, pela escolha e ensino dos discípulos,por suas obras de poder e misericórdia, e supremamente por sua morte eressurreição, fez do Reino do céu tanto uma experiência presente para serdesfrutada como uma esperança futura para ser esperada. (Mateus segue o cos-tume judaico de referir-se ao "Reino do céu" e não ao "Reino de Deus".) Durante séculos os cristão acreditaram que o Evangelho de Mateus tinhasido o primeiro a ser escrito, e, por conseguinte, o mais importante dos quatro.Porém nos últimos 150 anos este ponto de vista tem sido amplamenteabandonado, e muitos estudiosos—não todos—hoje consideram o de Marcoscomo o primeiro Evangelho escrito. O argumento que provocou esta mudançade perspectiva pode ser facilmente exposto. Dos 662 versículos de Marcos,cerca de 600 aparecem também em Mateus. Faz pouco sentido imaginar queMarcos copiou 600 versos de Mateus, acrescentando apenas alguns outrospoucos, publicando-o como um Evangelho separado. E mais plausível admitirque Mateus usou Marcos como base de uma produção de maior vulto. Seguindobasicamente o modelo de Marcos, Mateus suplementa-o com material adicionalque torna seu Evangelho quase duas vezes mais extenso que o de Marcos (1069versículos no total). Em virtude do seu íntimo relacionamento com Marcos, pode-se identificaralguns dos temas mais sensíveis ao coração de Mateus, que certamente dedicouespecial atenção ao material escolhido, sobre o qual acrescenta seu relato.Quem era Mateus?Como Marcos, ele mantém silêncio sobre sua própria identidade. Ele eraclaramente um professor talentoso, que almejou comunicar o ensino de Jesus eincentivar a obediência a ele. Isto, porém, significava concentrar sua atençãoem Jesus e evitá-la para si mesmo. Sobre isto ele registra as próprias palavras
  30. 30. 30 HOMENS COM UMA MENSAGEM de Jesus: "Nem vos chameis mestres, porque um só é o vosso Mestre, que é o Cristo. Porém o maior dentre vós será vosso servo. E o que a si mesmo se exaltar será humilhado; e o que a si mesmo se humilhar será exaltado" (23.10- 12). Este foi o modelo adotado por Mateus, pois não há nenhuma indicação de autoria dentro do seu Evangelho. Desde o início, contudo, o título "Segundo Mateus" foi vinculado ao seu Evangelho por outros. E precisamente porque Mateus é uma figura tão obscura entre os apóstolos, é difícil saber por que seu nome foi usado, a menos que houvesse alguma sólida razão para a tradição. O primeiro testemunho escrito vem de Papias, bispo de Hierápolis, cuja "Explanação das Palavras do Senhor" foi publicada por volta de 130 d.C. Por muito tempo ele confundiu os estudiosos com seu comentário: "Mateus organizou [ou colecionou] as palavras do Senhor em dialeto [ou estilo] hebraico, e cada qual as interpretou da melhor maneira que pôde." De fato, parece improvável que o Evangelho de Mateus tenha sido originalmente escrito em hebraico; ele não contém nenhuma das marcas típicas que possam sugerir isto. Entretanto, apesar do testemunho confuso de Papias, ele firmemente considera Mateus o autor deste Evangelho. Alguns estudiosos, contudo, rejeitaram este antigo testemunho, principalmente em razão de Mateus, que foi um dos apóstolos, dificilmente ter de depender tão amplamente do Evangelho de Marcos, que não era apóstolo. Esta objeção, porém, a. não leva em conta a extensa capacidade literária de Marcos ao criar a f o r m a do Evangelho, b. não admite a real possibilidade de que Mateus quis endossar o trabalho de Marcos, que foi baseado na pregação de Pedro, e c. subestimar em que extensão o Evangelho de Mateus é muito diferente do de Marcos. Ele não é de modo algum apenas uma expansão ou suplemento do Evangelho de Marcos, mas conta a história no feitio bem distinto de Mateus. O que sabemos sobre Mateus? Podemos traçar quaisquer aspectos sob os quais ele foi preparado por Deus para ser o autor deste Evangelho? Dispomos de pouco conhecimento seguro a respeito dele, mas podemos reunir mais do que parece à primeira vista quando lemos seu Evangelho à luz do que sabemos. 1. Mateus era judeu. "Mateus" é um nome hebraico. Vários de seus companheiros apóstolos tinham tanto nome hebraico como grego, significando suas duplas raízes culturais. Porém o outro nome de Mateus também era hebraico. Ele é chamado "Levi" por Marcos e Lucas em suas narrativas da escolha dos apóstolos por Jesus (Marcos 2.14; Lucas 5.27-29). Seu profundo interesse pelo Velho Testamento é evidente em seu Evangelho, como podemos constatar. Um dos seus propósitos ao escrever foi indubitavelmente persuadir seus compatriotas judeus a crerem que Jesus é "o Cristo, o Filho do Deus vivo" (16.16). Mas antes em sua vida Mateus foi um judeu incomum. Porque— 2. Mateus era um cobrador de impostos. Isto é revelado numa passagem em que ele figura em seu Evangelho. "Partindo Jesus dali, viu um homem, chamado Mateus, sentado na coletoria, e disse-lhe: Segue-me! Ele se levantou e o seguiu" (Mateus 9.9). Por meio de Marcos e Lucas ficamos sabendo que foi Mateus quem ofereceu um banquete, no qual
  31. 31. MATEUS E SUA MENSAGEM 31Acréscimos de Mateus ao Evangelho de MarcosM a t e u s p a r e c e ter s u p l e m e n t a d o M a r c o s 2. 10.5-42, instruções para a missão dos Dozed e l i b e r a d a m e n t e nos s e g u i n t e s p r i n c i p a i s 3. 13.3-52, parábolas do Reinoepisódios: 4. 18.2-35, instruções sobre a vida da igreja* Enquanto Marcos se refere de passagem ao 5. 23.1-25.46, o julgamento futuro e a salvaçãoambiente da família de Jesus (6.3), M a t e u s * A narrativa de Marcos sobre a ressurreição é muitocomeça a história com o nascimento de Jesus, b r e v e e não inclui n e n h u m a a p a r i ç ã o de J e s u sdedicando dois capítulos inteiros ao evento. ressurreto. Mateus continua a história até ao ponto* Enquanto Marcos se refere muito brevemente em que os discípulos encontram Jesus na Galiléiae m i s t e r i o s a m e n t e às t e n t a ç õ e s de J e s u s (predito em Marcos 14.28, mas não registrado ali), e(1.12,13), Mateus narra toda a história (4.1-11). envia-os à sua futura missão (Mateus 28.1-20).* Marcos menciona freqüentemente que Jesus Além disso, há numerosos pequenos acréscimos,ensinava as multidões reunidas em torno dele alguns dos quais c o m e n t a r e m o s no curso deste(ex.: 1.21; 2.13; 4.1; 6.6; 6.34), porém registra capítulo.surpreendentemente pouca coisa do conteúdo de N e m t o d o s os e s t u d i o s o s a c e i t a m q u e M a t e u sseu ensino. Mateus supre esta falta incluindo deliberadamente suplementou Marcos. Recentemente,cinco grandes sermões de Jesus, possivelmente um estudioso evangélico, John Wenham, publicoucoleções dos ditos de Jesus cuidadosamente uma pesada defesa do ponto de vista de que Mateuscompilados ou por Mateus ou numa data ante- escreveu antes de Marcos (veja "Leitura adicional"rior: no final deste capítulo). 1. 5.3-7.27, o "Sermão do Monte" Jesus e seus discípulos encontraram "muitos publicanos e pecadores" (9.10)— antes companheiros de Mateus. Ele chama a si mesmo "Mateus, o publicano" na lista dos apóstolos, em Mateus 10.3. O que significava ser um cobrador de impostos naquele tempo? O Império Romano tinha elaborado sistemas de cobrança de impostos, que variavam de um lugar para outro. Naqueles dias vários sistemas operavam na Palestina; a Judéia, ao sul, era diretamente governada por Roma, e isso significava que o governador romano e seus servidores civis eram responsáveis pela coleta de todos os impostos principais. Dois destes se destacavam, o imposto por cabeça arrecadado de todos os adultos e o imposto sobre a terra. Entretanto, os direitos para coletar alguns impostos menores—taxas aduaneiras devidas nos portos e nas principais estradas—eram arrematados pelos maiores licitantes. Zaqueu havia adquirido o direito de coletar esses impostos em Jericó (Lucas 19.1-10). Ele era chamado "maioral dos publicanos" e "rico" (19.2). Podemos imaginar que ele comandava uma organização de bom porte para cobrir toda a área de Jericó, por onde passavam muitas mercadorias. A Galiléia, ao norte, era governada por Herodes Antipas, sob a autoridade direta de Roma. Aqui, Herodes era responsável pela cobrança dos impostos e pela remessa anual a Roma de uma soma global fixa. Não sabemos se ele cobrava os mesmos tipos de impostos dos romanos da Judéia, mas é claro que usava uma grande força de trabalho para efetuar a coleta. "Muitos" publicanos se reuniram na casa de Mateus para encontrar-se com Jesus, e podemos imaginar que somente os da vizinhança imediata de Cafarnaum teriam comparecido. Não sabemos se Herodes empregou todos os seus cobradores de impostos diretamente como servidores civis, ou se, como os romanos, leiloou os direitos para a cobrança. Uma rápida referência de Mateus "aos que serviam" Herodes, em 14.2 (somente em Mateus), pode sugerir que ele tenha sido diretamente empregado pelo rei: teria ele ouvido de um de seus antigos colegas o que Herodes estava dizendo a respeito de Jesus?
  32. 32. 34 HOMENS COM UMA MENSAGEM Mas, quer como empregados ou como avulsos, os cobradores de impostos eram sumamente impopulares e vistos como traidores da causa judaica. Muitos deles usavam sua posição para levantar dinheiro extra para si mesmos (naturalmente, era este um dos principais motivos para comprar os direitos de cobrança). Porém, mesmo que não o fizessem, eram vistos como colaboradores dos romanos que ocupavam o poder, ou de Herodes, que somente governava com permissão de Roma e não era judeu. Os judeus somente assumiriam tal emprego se amassem mais o dinheiro do que sua herança nacional como judeus. Os rabinos ensinavam que era perfeitamente admissível enganar um cobrador de impostos. Eles colocavam a "cobrança de impostos" ao lado da prostituição entre as ocupações que nenhum judeu cumpridor da lei podia aceitar—uma vez que isso significava o mesmo que tratar com gentios e trabalhar aos sábados—mantendo-se totalmente separado da ganância e da injustiça. Assim, pois, os publicanos formavam uma classe à parte, banida, afastada da sociedade judaica. Sua presença nas sinagogas seria inaceitável. Assim, em sua maioria, os publicanos, por estas várias razões, tinham pouco interesse na Lei e na adoração do Deus de Israel. Eles punham seus corações nas riquezas terrenas, não nas espirituais. De tudo isto podemos formar um quadro muito claro de Mateus antes de seu encontro com Jesus. Mas a habitual negligência dos cobradores de impostos de tradição judaica dificilmente se enquadra no Evangelho de Mateus, que é abundante em citações do Velho Testamento e repeito pela Lei. Como Mateus conseguiu desenvolver isto? 3. Mateus experimentou uma conversão revolucionária. O encontro de Mateus com Jesus transformou sua vida. Em alguns casos, seus companheiros de apostolado continuaram praticando suas profissões depois de se tornarem discípulos de Jesus. Pedro manteve sua casa em Cafarnaum, e provavelmente continuou em seu negócio de pescaria (compare com João 21.3). Porém Mateus deixou definitivamente seu emprego de cobrador de impostos. Concluímos isto com base em dois pontos de evidência. Primeiro, com ele no grupo dos doze apóstolos estava "Simão o Zelote" (Mateus 10.4)—um ex- membro do movimento revolucionário que se opunha à submissão a Roma com violência. Antes de se encontrarem com Jesus, Simão teria visto Mateus com profundo ódio como um colaborador traiçoeiro. Mateus intencionalmente menciona tanto sua profissão como a de Simão em sua lista de apóstolos, em 10.2-4, com o propósito de sublinhar a reconciliação de ambos. Eles não poderiam estar juntos no apostolado, se os dois não tivessem abandonado suas vidas anteriores para seguir Jesus. Segundo, unicamente Mateus se refere ao ensino direto de Jesus sobre o pagamento de imposto (17.24-27). Apenas ele registra este incidente, em que Jesus paga o imposto para o templo (um encargo de todos os judeus adultos para manter o templo e seus serviços), mandando Pedro procurar uma moeda na boca de um peixe. A interpretação desta passagem é controvertida, porém o mais provável é que Jesus está declarando a isenção fundamental, tanto dele próprio como de seus seguidores, em relação a quaisquer impostos obrigatórios. Eles são os filhos de Deus, que é o Rei de toda a terra. Por isso, eles estão "livres" de tal sujeição. Não obstante, Deus provê o meio para o pagamento de tais impostos, apenas para evitar um insulto desnecessário à sociedade.
  33. 33. M A T E U S E SUA MENSAGEM 33 P o d e m o s s u s p e i t a r q u e M a t e u s i n c l u i u e s t a h i s t ó r i a p o r q u e ela s i g n i f i c a v a m u i t o p a r a ele. E l e f o i l i b e r t a d o d a i m p o s i ç ã o d e t o d o a q u e l e s i s t e m a — n a realidade, libertado de servir a M a m o m , o deus do dinheiro (6.24). Vamos considerar a seguir c o m o a conversão de M a t e u s p o d e tê-lo afetado, b e m c o m o a o E v a n g e l h o q u e ele e s c r e v e u . M a s v a l e a p e n a p e r g u n t a r t a m b é m a r e s p e i t o d e s s a c o n v e r s ã o e m si: P o r q u e ele e s t a v a t ã o d i s p o s t o a a b a n d o n a r s e u n e g ó c i o n a q u e l e dia, q u a n d o o u v i u a p e n a s d u a s p a l a v r a s d e J e s u s : " S e g u e - me"? A r e s p o s t a p o d e estar e m outra f i g u r a q u e d e s e m p e n h a u m p a p e l p r e p o n d e r a n t e e m seu E v a n g e l h o : 4. E provável que Mateus tenha sido profundamente influenciado por João Batista. Esta possibilidade é especulativa, m a s a evidência aponta nesta direção. S o m e n t e Mateus inclui e m seu E v a n g e l h o a parábola dos dois filhos, e m 2 1 . 2 8 - 3 2 . N e l a , o p r i m e i r o f i l h o , q u e se r e c u s a a t r a b a l h a r n a v i n h a d e s e u p a i , m a s d e p o i s se a r r e p e n d e e v a i , é i d e n t i f i c a d o c o m o " p u b l i c a n o s e m e r e t r i z e s " , que aceitaram a pregação de João Batista. Eles estão agora "entrando no reino d e D e u s à f r e n t e d o s " líderes r e l i g i o s o s , q u e " n ã o se a r r e p e n d e r a m n e m c r e r a m " e m J o ã o . " A v i n h a " n o V e l h o T e s t a m e n t o é u m a f i g u r a d e Israel, o p o v o d e D e u sMateus, como Pedro, (p.ex.: I s a í a s 5 . 1 - 7 ) .vivia em Cafarnaum. R e f l e t e isto a p r ó p r i a e x p e r i ê n c i a d e M a t e u s ? E s t a v a e l e e n t r e o s c o b r a d o r e sExcavações realizadas d e i m p o s t o s q u e , c o n f o r m e L u c a s , se a p r e s e n t a r a m p a r a ser b a t i z a d o s p o r J o ã o ?na cidade descobriram Q u a n d o eles perguntaram a J o ã o c o m o d e v e r i a m mostrar seu arrependimento,o lugar que foi ele l h e s d i s s e : " N ã o c o b r e i s m a i s d o q u e o e s t i p u l a d o " ( L u c a s 3 . 1 3 ) .conhecido nos tempos O a r r e p e n d i m e n t o p a r a M a t e u s p o d i a ter s i d o m a i s p r o f u n d o d o q u e a p e n a santigos como a casa dePedro, onde Jesus c o r t a r o q u e c o b r a v a a m a i s . E s t a e r a t a l v e z o p o n t o e m q u e ele se t o r n o u m a i sdeve ter estado s é r i o c o m r e s p e i t o à L e i , c o n v e n c i d o p o r J o ã o d e s u a d e s c o n s i d e r a ç ã o p o r ela,(Mateus 8.14). p r o n t o p a r a e s t u d á - l a e o b e d e c e r a ela d e u m a n o v a f o r m a — n a r e a l i d a d e , p r o n t o

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