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Pensar não dói é grátis

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Um livro para aprender a pensar

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Pensar não dói é grátis

  1. 1. Pensar não dói e é Grátis Vivendo Filosoficamente Eugênio C. Ribeiro
  2. 2. Pensar não dói e é Grátis Eugênio C. Ribeiro Julho/2005 Vivendo Filosoficamente
  3. 3. Autor: Eugênio C. Ribeiro e-mail: superius@terra.com.br Todos os direitos reservados ao autor, sendo expressamente proibida a reprodução desta obra sem seu consentimento por escrito. Editoração e Impressão: Nova Letra Gráfica e Editora Ltda. Av. Brasil, 742 - PontaAguda - Fone/Fax (47) 326-0600 Cep 89050-000 - Blumenau - SC Conselho Editorial da Nova Letra: - Lígia Najdzion - Osmar de Souza - Suzana Sedrez - Tadeu C. Mikowski - Vera Lúcia de Souza e Silva Ficha Catalográfica elaborada pela Biblioteca Pública Dr. Fritz Müller 100 R484p Ribeiro, Eugênio C. Pensar não dói e é grátis : vivendo filosoficamente / Euênio C. Ribeiro. — Blumenau : Nova Letra, 2005. 192p. ISBN:85-7682-027-7 1. Pensar – Filosofia 2. Pensamento - Formação I. Título. Impresso no Brasil
  4. 4. A Todos aqueles que compartilham Comigo a grande dádiva do PENSAMENTO
  5. 5. O universo começa a se parecer mais com uma grande mente, do que com uma grande máquina. Sir James Jeans É mais fácil cair no ritual do que atingir o conhecimento. Mais fácil inventar deuses do que compreender técnicos. Jacques Bergier Todos os homens são suficientemente loucos para se acreditarem racionais. Erasmo de Roterdan
  6. 6. SUMÁRIO INTRODUÇÃO ------------------------------------------------------- 11 CAPÍTULO1 SAINDODAMATRIX ----------------------------------------------- 17 O Poder das Crenças ------------------------------------------------ 17 A Matrix -------------------------------------------------------------- 19 Saindo da Matrix ---------------------------------------------------- 21 O Papel da Filosofia ------------------------------------------------- 22 A Importância da Crítica Racional -------------------------------- 28 Mudança de Paradigmas ------------------------------------------- 32 CAPÍTULO2 AAVENTURADOPENSAMENTOI ------------------------------ 39 Pensamento: prerrogativa de todos ------------------------------ 39 Uma Brecha para se sair da Matrix ------------------------------- 42 Usando a Brecha corretamente ----------------------------------- 46 CAPÍTULO3 AAVENTURADOPENSAMENTOII ----------------------------- 63 Em Busca do Conhecer --------------------------------------------- 63 A Prestimosa Herança Grega -------------------------------------- 66 O Método do Racionalismo---------------------------------------- 72 A Maneira do Empirismo ------------------------------------------ 74 A maneira de Kant -------------------------------------------------- 80 O poder do Iluminismo -------------------------------------------- 83 A influência do Positivismo --------------------------------------- 86 CAPÍTULO4 AMETAFÍSICAVIRTUAL ------------------------------------------ 89 Quem é esta Metafísica? ------------------------------------------- 89 Em busca do Elemento Primordial ------------------------------- 94 Tudo passa ou tudo permanece----------------------------------- 97 Os Princípios Racionais -------------------------------------------112 A Questão dos Universais-----------------------------------------113
  7. 7. CAPÍTULO5 OANTROPOÉTICO----------------------------------------------- 117 ÉTICAXMORAL ---------------------------------------------------118 De onde nascem as teorias éticas? ------------------------------119 A Idéia do Bem -----------------------------------------------------120 A Regra de Ouro ----------------------------------------------------125 A Prática da Vida Moral -------------------------------------------126 Os componentes da ação Ética-----------------------------------126 A Ética de Sócrates: Conhece-te a ti mesmo -------------------128 Platão: uma moral emancipatória -------------------------------130 Aristóteles: Ética na busca da felicidade -----------------------132 Teste sua eticidade -------------------------------------------------133 CAPÍTULO6 OSANIMAISPOLÍTICOS---------------------------------------- 135 Introdução-----------------------------------------------------------135 Origens da Vida Política -------------------------------------------136 O ideal político de Platão -----------------------------------------137 O ideal político de Aristóteles -----------------------------------139 JUSNATURALISMO-------------------------------------------------140 Algumas Teorias Políticas -----------------------------------------145 O ideal político de Hegel ------------------------------------------147 O Ideal Político do Marxismo ------------------------------------151 CAPÍTULO7 AModernidade Racional ---------------------------------------- 155 O Ideal de Francis Bacon ------------------------------------------156 AAnálise de Max Weber ------------------------------------------158 A Crítica da Escola de Frankfurt ---------------------------------161 JÜRGENHABERMAS -----------------------------------------------166 John Rawls ----------------------------------------------------------173 CAPÍTULO 8 ASDINAMITESDENIETZSCHE ------------------------------- 177 CAPÍTULO9 ANÁUSEADAEXISTÊNCIA ------------------------------------ 181 REFERÊNCIAS ----------------------------------------------------- 185
  8. 8. INTRODUÇÃO “Pensar não dói e é grátis” é um livro de educação para o pensar, um livro sobre a aventura do pensamento humano. É lugar comum reconhecer a necessidade de aprendiza- gem em quase tudo o que fazemos na vida: comer, caminhar, andar de bicicleta, e tutti quanti. Contudo, você já ouviu alguém dizendo que precisa fazer um curso para aprender a pensar? É como se pensar fosse algo tão banal e corriqueiro que não carecesse de nossos maiores cuidados. Ou então como se já nascêssemos com a capacidade de pensar sempre de forma cor- reta. Ambas posições não conferem com a realidade. Pensar não é algo assim tão corriqueiro, visto que todo o nosso relaciona- mento com o universo implica primeiro na ação do pensamento, e justamente por isto mesmo, quando erramos na ação, é porque já erramos muito antes no pensar. E sendo que não nascemos com a capacidade de pensar sempre de forma correta, mister se faz uma correção no nosso modo de pensar, uma aprendizagem no campo do pensamento. No entanto, em que consiste uma Educação para o Pensar? Consiste basicamente em treinar o uso de todas as ferra- mentas disponíveis para tal empresa, que foram sendo identifi- cadas ao longo da história humana. Uma tarefa hercúlea, tendo em vista o rol dos pensadores ilustres que trataram do assunto. Assim sendo, para este livro escolhi apenas algumas ferra- mentas que considero as mais importantes. Dentre estas ferra-
  9. 9. Eugênio C. Ribeiro 12 mentas, estão os métodos usados por diversos pensadores (a iro- nia, a maiêutica, a dialética, a lógica, etc.) e também algumas cons- truções de pensamento já prontas (principalmente as correntes filosóficas), que podem auxiliar na aprendizagem do bom pen- sar. Estudando cautelosamente como os outros pensaram, pode- mos tirar muito proveito ao nos depararmos com seus erros e seus acertos. Tudo isto vai nos levar a trabalharmos com nossos padrões de pensamento. Sim, nós temos um padrão de pensamento, ou vários. São como “programas mentais” sobre como deve ser con- duzido o pensamento para se obter um resultado. Por exemplo, quem aprende a fazer malabarismo com bolas de tênis, tem um “programa” mental de controle das bolas que pode ser aplicado a bolinhas de papel, laranjas e outros objetos. Ocorre o mesmo no campo do conhecimento intelectual. Temos um “programa men- tal” que aplicamos aos mais variados tipos de problemas filosófi- cos. Uma habilidade de pensamento bem treinada é executa- da corretamente de forma inconsciente ou semiconsciente, ou seja, não pensamos “estou fazendo um raciocínio” ou “estou de- duzindo isto”, embora possamos descrever dessa forma quando perguntados sobre o que estamos fazendo. Quando você se vê diante de uma situação para a qual tem uma estrutura de pensamento apropriada, natural e tranqüila- mente você lida com a situação. Caso contrário você “empaca”. Isso é o que ocorre geralmente quando estamos diante de uma situação para a qual não temos uma habilidade de pensamento apropriada ou que está além dos limites das habilidades atuais: simplesmente não sabemos o que fazer. Em algumas situações, temos a habilidade bem instalada, mas é preciso certos ajustes, como quando lidamos com um aparelho eletrônico diferente: te- mos que nos ajustar à sensibilidade dos botões e à posição dos comandos. Isto em relação a algo tão instrumental como é o trato com um aparelho eletrônico. Agora imagine você quantos ajustes de-
  10. 10. Pensar não dói e é Grátis 13 vemos fazer nas questões vitais de nosso ser. É o que pretendo com este livro. Formar em você um pa- drão de pensamento tal, que natural e de forma inconsciente ele funcione nas diversas situações de sua vida. Este livro deve ser um livro de cabeceira, de estudo e de reflexão. Aplique-o e você verá os resultados em sua vida. Se não der certo devolveremos o seu dinheiro em trinta dias. É ruim, hein? Mas é claro que dá certo. Mas para formarmos um novo padrão de pensamento, pri- meiro temos que entender o velho padrão que está arraigado em nossa mente e que há muito já devia ter ido embora. É por isto que este livro também trata da saga “saindo da Matrix”. Mas esta Matrix não é aquela digital e que contém um mocinho metido a Messias dando golpes de karatê. É a Matrix formada pelos pa- drões mentais da humanidade e de toda a produção cultural vi- gente. E o Messias aqui tem que ser você mesmo, e ao invés de artes marciais, o que você tem que aprender a usar é o poder do pensamento. Há muito o homem vive preso. Muitos tutores, depois de terem embrutecido a imensa maioria da humanidade como se fosse um gado doméstico, para que não ouse dar nenhum passo fora de suas diretrizes, mostram a ela o quão perigoso é tentar andar sozinha. É isto o que quer ensinar Kant ao dizer que existe uma menoridade racional, uma situação onde um indivíduo qual- quer deixa de fazer uso de seu próprio entendimento para unica- mente seguir a direção dos outros. A não ser que venha apresen- tar alguma debilidade mental ou qualquer outra disfunção cere- bral, o homem é o próprio culpado dessa menoridade, principal- mente devido à falta de coragem de servir-se de si mesmo sem a direção da astúcia alheia. A preguiça e a covardia são as causas pelas quais uma tão grande parte dos homens permanece menor durante toda a vida, esperando que tutores deles tomem conta, ora levando-os até as margens tranqüilas de uma pseudo-segu- rança, ora levando-os em direção ao matadouro cruel da autodes- truição.
  11. 11. Eugênio C. Ribeiro 14 Assim sendo, prego com Kant a necessidade do sapere aude, isto é, a necessidade de termos a coragem de fazer uso de nosso próprio entendimento, de tomarmos as rédeas de nosso aperfeiçoamento, assumindo nossa parcela de responsabilidade na saga da evolução. Que a Luz se faça na mente de todos os homens. Porém, nunca sem nenhum esforço. E talvez o maior esforço que possamos fazer em direção à Luz é deixarmos de tra- var luta contra Ela. Não obstante, sabemos que a maioria das pessoas ainda por um bom tempo será vítima do medo e da preguiça, deixando- nos diante de uma escolha difícil: ou nos esforçamos por esclare- cê-la nem que seja à força, tornando-nos antidemocráticos e acrí- ticos, ou a abandonamos à deriva, correndo o risco de que um dia ela se volte contra nós e nos esmague, pois hoje mais do que nunca a turba é perigosa, visto que o número de seus integrantes aumentou prodigiosamente. Elevar-se, sair do marasmo da vida, atingir o reino dos gê- nios e dos homens fortes, eis o grande desafio. A distância que existe entre um Platão, um Newton, um Einstein e o homem comum parece ser bem maior do que a distância entre o homem comum e o gorila. A maioria dos homens não passa de uma mis- tura de orangotango com astúcia. Aqueles que conseguem ir um pouco além desta mistura vulgar a massa ignara os considera como santos, gênios ou simplesmente demônios. Crucifica-o! Queime- o vivo! Enforque-o! Apedreja-o! Demita-o! São os ecos de desespe- ro dos que ficaram para trás. Mas aqui cabe uma pergunta crucial: por que tão poucos conseguem se elevar alguns pontos além do que a maioria pres- creve? É que existem dois grandes entraves que se colocam como guardiões das regiões superiores: a preguiça e o medo. Estes são os mais próximos companheiros de jornada do homem comum. Cada um pode mudar a sua vida a qualquer momento se assim o desejar. Basta coragem, pensamento correto e um pouco daquilo que os iluminados chamam de ideal e os sacerdotes cha-
  12. 12. Pensar não dói e é Grátis 15 mam de Fé. Sem Fé nada de bom é feito nesta terra. Mas atentem bem: eu disse fé (confiança/fidelidade ao pensamento unívoco) e não simplesmente crença ou hábito supersticioso. Já que pensar é grátis, e ainda por cima não dói, vamos fazer bom uso desta capacidade que o Criador dos Mundos nos concedeu.
  13. 13. 17 CAPÍTULO1 SAINDODAMATRIX O Poder das Crenças Você algum dia já parou pra pensar que a sua vida, desde o seu nascimento até hoje, é toda fundamentada em crenças? E que estas crenças, em sua grande maioria, foram herdadas dos outros, sofrendo quase nada de influência sua? Sim, um mundo real já existia aí quando você veio a este mundo, e já existia tam- bém toda uma gama de conceitos que as pessoas usavam para interpretá-lo. Que bom que tenha sido assim, não é? Imagine o ser humano se tivesse que aprender por conta própria tudo aqui- lo que é necessário para a sua sobrevivência, sem o recebi- mento dos conhecimentos adquiridos dos outros. Não sobrevive- ria muito tempo. Contudo, aquilo que era pra ser uma dádiva acabou viran- do também uma espécie de maldição. Sim, no que concerne às nossas atitudes mentais em rela- ção às coisas, parece que elas tornam-se óculos coloridos pelos quais olhamos o mundo. Mais ainda. Quando as atitudes men- tais se enraízam assemelham-se a muros invisíveis que nos apri- sionam no reino dos preconceitos. Ficamos presos na prisão sem muros. Não há nada a nossa volta a nos prender, mas não conse-
  14. 14. Eugênio C. Ribeiro 18 guimos sair de nossa própria hipnose. Acabamos por imitar o sapo da anedota indiana que incessantemente queria compreender a extensão do Oceano com os critérios de um poço. Certa vez havia um sapo num poço, e quando um amigo informou-lhe da existência do Oceano, ele perguntou-lhe: “O que é o Oceano?” “Ele é um vasto poço de água”, replicou o amigo. “Mas qual o seu tamanho? É duas vezes o tamanho deste poço?” “Não. Muito maior.” “Quantas vezes maior?”, insistiu. E assim prosseguiu o sapo com seus cálculos, mesmo sem ter adquirido as mínimas condições de entender a vastidão do Oceano. Alguém que nunca saiu de sua tribo corre o risco de pen- sar que sua tribo é o mundo todo. As civilizações americanas dos Incas, Maias e Astecas parecem ter sofrido dessa patologia quan- do consideraram, por meio de suas lunetas mentais, os espanhóis invasores como deuses salvadores montados em carruagens. Não atentaram para a possibilidade de haver uma outra cultu- ra, com avanços tecnológicos diferentes, porém, bárbaros ainda em muitos aspectos. Uma das razões da ocorrência desta patologia é que a es- trutura do pensamento humano parece ser determinada, da in- fância à juventude, por idéias e sentimentos que tivemos ou re- cebemos durante o processo de formação, principalmente pela influência de personalidades fortes que nos rodeiam. É possível que estejamos fazendo muito mal a nossos filhos na intenção de lhes fazer o bem! Sem dúvida, tudo isto vai se constituindo na “luneta mental” pela qual a pessoa observa as coisas. Einstein já dizia: “Bom senso é o conjunto de todos os preconceitos que adquiri- mos durante nossos primeiros dezoito anos de vida” Então, o mundo de crenças que recebemos de nossos an-
  15. 15. Pensar não dói e é Grátis 19 cestrais não deixa de se constituir numa MATRIZ por meio da qual entendemos a realidade. AMatrix No final do século XX um filme roubou o cenário do cine- ma mundial. A partir de sua performance no cinema, ele passou a ser assunto de reflexão também nos círculos filosóficos. Neo, o personagem principal, sai da Matrix e é considerado o Escolhido que vai libertar os homens de uma tirania virtual. O que muita gente não sabe é que os idealizadores deste filme se fundamentaram em idéias filosóficas antigas. Buscaram em Platão, nos gnósticos antigos, na sabedoria do budismo e na filosofia de Descartes a idéia de que o que chamamos de mundo real pode não passar de uma mera ilusão, criada por alguém a fim de nos enganar. Aliás, é conhecida dos filósofos a hipótese do Cérebro numa Cuba, uma idéia muito usada nos filmes de ficção científica dos anos cinqüenta. É uma atualização do gênio maligno cartesiano, que segundo Descartes, mantêm os homens na ilusão de que o mundo é real, e assim ficam mantidos fora da esfera da divinda- de. O cenário do cérebro numa cuba é uma experiência mental concebida para mostrar a plausibilidade do cepticismo radical (que duvida da existência de tudo). Um cientista teria em seu labora- tório um cérebro numa cuba, e introduziria neste cérebro toda a experiência do mundo real. É uma forma de Matrix, só que mais primitiva, com certeza coisa de terceiro mundo. Platão há mais ou menos 2.500 anos atrás falava de algo muito parecido, quando elaborou o Mito da Caverna, metáfora do mundo sensível (material) e do corpo humano ao mesmo tempo. A alegoria descreve homens vivendo numa caverna sub- terrânea que se abre para a luz por meio de uma galeria. Os mora- dores desta caverna vivem presos desde a infância, e só conse- guem enxergar as sombras dos objetos que passam fora dela, pro- jetadas no fundo cavernoso como se fosse numa tela de tv. Esta
  16. 16. Eugênio C. Ribeiro 20 projeção se dá devido à luz do Sol fora da caverna e dos clarões de uma fogueira dentro dela, fazendo com que os prisioneiros to- mem as sombras por realidade. Aliás, para estes prisioneiros, es- tas sombras são a única realidade que conhecem. Elas são a sua verdade. Não é difícil imaginar esta cena da Caverna; é muito parecida com aquelas encenações teatrais em que se usa a proje- ção de sombras por meio de um tecido branco. A partir disto Platão descreve a libertação de um dos prisi- oneiros: este reconhece o engano em que permanecera até en- tão, descobrindo a encenação a que estava encerrado e, saindo da prisão, começa a contemplar a verdadeira realidade existente lá fora. Aos poucos, aquele que fora habituado à sombra, vai poden- do olhar o mundo real. Primeiramente olha para as coisas que refletem a Luz (a fim de não prejudicar os olhos) para em seguida olhar diretamente para o Sol, fonte de toda Luz e realidade. Este liberto, levado pelo desejo de retribuir ao Cosmos a dádiva que lhe foi proporcionada por esta libertação, volta ao mundo das sombras para instruir seus companheiros. Alguns entenderão sua atitude, mas irão preferir continuar (por preguiça ou por medo) a viver na caverna escura; poucos o seguirão até o mundo real e verdadeiro; muitos irão querer matá-lo: “como ousas, homem destemido, perturbar nossa paz e nosso sossego?” Que triste destino o destes prisioneiros, como vítimas que não têm consciência, pois vivem na ilusão: eles não têm outro referencial senão as sombras que divisam no fundo de seu covil! Isto equivale a dizer que os seres humanos comuns (que não pen- sam e vivem só pelas crenças) mal chegam a ser superiores aos mortos. Segundo Platão, ao subordinar sua vida à satisfação de seus apetites, o ser humano não pode sair do reino das trevas e, longe de emancipá-lo, a vida em comunidade o encerra cada vez mais nele. Para se libertar, só existe uma saída: sair da caverna, o que implica dar as costas à multidão, dar às costas ao pensamen- to massificado.
  17. 17. Pensar não dói e é Grátis 21 Saindo da Matrix Bom, em primeiro lugar, para se sair da Matrix é preciso ter consciência de que se está nela. É preciso pelo menos descon- fiar de que existe uma outra realidade além daquela que se ob- serva e experimenta. Após o diagnóstico, é preciso aceitar a pato- logia a fim de que o médico possa ministrar o tratamento ade- quado. É o que ocorre muitas vezes com o alcoolismo: a pessoa que sofre o problema geralmente precisa aceitar a realidade dele, caso contrário nenhum tratamento se mostra eficaz. Para aqueles que estudam, as instituições de ensino deve- riam ser aqueles luminares que mostrariam quão espessas são as trevas da ignorância do homem comum. Contudo, na maioria das vezes o que elas fazem é promover a continuidade da projeção das sombras, a continuidade da Matrix. Por que? Porque no Brasil ainda não se descobriu a real importância de uma edu- cação para o bom pensar. O regime militar nos levou a ficar anos sem este tipo de educação e hoje está difícil encontrarmos o caminho de volta. Pensar, para a maioria das pessoas parece ser uma coisa que dói. Que pelo menos o aluno do Ensino Superior encontre no mundo acadêmico uma atmosfera propícia para o pensamento livre e autônomo. Mas devido às influências das leis de mercado e da política de rápidos resultados, muitos alunos querem o di- ploma, querem no máximo o conhecimento técnico profissional, mas não querem uma educação para o pensamento. E é esta edu- cação a que está cada vez mais fazendo a diferença entre o bom profissional e o medíocre. Aqueles que estão entrando no merca- do de trabalho hoje já estão percebendo isto e sentindo-se por demais despreparados, o que os fazem buscar cursos complemen- tares e formação contínua: o que muitas vezes custa caro e exige dispêndio enorme de tempo e esforço. Mas então como implementar esta cultura de formação do pensamento lógico e robusto, que nos auxiliará a deixarmos a Matrix?
  18. 18. Eugênio C. Ribeiro 22 Para tanto vamos estudar nas páginas seguintes estes três temas: o papel da filosofia, a importância da crítica racional e a mudança de paradigmas. O Papel da Filosofia Pensando em desenvolver o pensamento livre e autôno- mo é que nós devemos cada vez mais incentivar a presença de disciplinas filosóficas nos cursos acadêmicos. Estas disciplinas auxiliam na formação de um pensar robusto, lógico e consistente. Esta formação para o pensamento começou a ser muito incentivada na Grécia há mais de 2.500 anos. No século de Péri- cles, em época de pleno desenvolvimento econômico grego, hou- ve a atmosfera propícia para o surgimento de um novo tipo de saber: a filosofia. De repente, embora reais esforços sejam feitos, jamais va- mos abarcar por completo o que veio a favorecer o surgimento do saber filosófico naquela civilização. Mas vejamos alguns motivos. A localização geográfica da Grécia permitia uma ampla ati- vidade comercial; a atividade comercial favorece o intercâmbio de pensamento entre as culturas diversas. Desta forma os gregos conseguiram absorver muito do saber de outros povos. O povo grego não possuía um governo teocrático, como muitos povos da antiguidade possuíam; no governo teocrático o saber fica nas mãos dos sacerdotes, não podendo por isto ser cri- ticado, pois sendo sagrado, qualquer crítica seria considerada um insulto à divindade – isto ocorria entre os egípcios, entre os hin- dus e os povos da mesopotâmia. Mas entre os gregos havia a nas- cente democracia, que permitia certos debates políticos em praça pública, favorecendo o surgimento da dialética (método dialógi- co) no campo do conhecimento. Com o desenvolvimento e prosperidade das cidades gre- gas, houve o surgimento do ócio (vida folgada e tranqüila), que favorecia tempo livre para ser dedicado às artes e ao conheci-
  19. 19. Pensar não dói e é Grátis 23 mento. Algumas pessoas tiveram condições de dedicação ao pen- samento, enquanto outras se dedicavam à produção dos bens ne- cessários à sobrevivência imediata deles próprios e daqueles que pensavam. Você acha isto injusto? Mas cuidado! De repente o nosso sistema seja mais injusto que o deles. Tudo isto, aliado ao espírito e caráter do povo grego, favo- receu o amor à sabedoria (Filo+Sophia), como vemos retratado neste texto de Epicuro: “Que ninguém hesite em se dedicar à filosofia enquanto jovem, nem se canse de fazê-lo depois de velho, porque ninguém ja- mais é demasiado jovem ou demasiado velho para alcançar a saúde do espírito. Quem afirma que a hora de dedicar-se à filo- sofia ainda não chegou, ou que ela já passou, é como se dissesse que ainda não chegou ou que já passou a hora de ser feliz. Des- se modo, a filosofia é útil tanto ao jovem quanto ao velho: para quem está envelhecendo sentir-se rejuvenescer através da gra- ta recordação das coisas que já se foram, e para o jovem poder envelhecer sem sentir medo das coisas que estão por vir; é ne- cessário, portanto, cuidar das coisas que trazem a felicidade, já que, estando esta presente, tudo temos, e, sem ela, tudo faze- mos para alcançá-la. (…) medita, pois, todas estas coisas e mui- tas outras a elas congêneres, dia e noite, contigo mesmo e com teus semelhantes, e nunca mais te sentirás perturbado, quer acordado, quer dormindo, mas viverás como um deus entre os homens. Porque não se assemelha absolutamente a um mortal o homem que vive entre bens imortais.” Foi com essas palavras que Epicuro, filósofo nascido em 341 a.C. na ilha grega de Sa- mos, nos convidou a filosofar em sua “Carta sobre a felicidade”. Este texto retrata uma verdadeira paixão pelo conhecimen- to, pelo pensar, pela reflexão livre e autônoma. Não sei bem o que você imagina ser a filosofia, mas quero apresentá-la como uma grande amiga que trazemos dentro de nós. Filosofar não é coisa do outro mundo, é coisa desse mundo. Não é uma viagem nas nuvens. A idéia de que só os grandes filósofos tiveram o direito e poder de filosofar é errônea, pois todos nós podemos nos dedicar à filosofia. Talvez filosofar devesse ser algo
  20. 20. Eugênio C. Ribeiro 24 assim como dançar, brincar, cantar, enfim, como viver. Podemos filosofar quando estamos sozinhos, absortos em nossos pensa- mentos, lendo um livro ou admirando um quadro, mas também podemos filosofar em companhia de alguém, o que é, na maioria das vezes, muito mais conveniente. A filosofia, no que tem de melhor, é mais uma atividade do que um corpo de conhecimentos. Em um sentido antigo, cor- retamente aplicado, é uma arte terapêutica (no sentido de se en- tender a si mesmo e a vida). É autodefesa intelectual. É uma for- ma de terapia. Mas também é muito mais. A filosofia é traçar mapas para a alma, cartografia para a jornada humana. É uma importante ferramenta navegacional para a vida, embora despre- zada pelo homem moderno. Filosofia quer dizer “amor à sabedoria”: philos = amigo e Sophia = sabedoria. Acredita-se que o termo foi cunhado por Pi- tágoras (569? a.C. - 470? a.C.). Segundo ele, nenhum homem poderia obter a sabedoria completa e se tornar um sábio (sophos). Somente os deuses po- deriam ter essa posse certa e total do verdadeiro, mas não os homens. O que é possível aos homens é a busca amiga do saber, que, no entanto, nunca será saciada por completo. Aos ho- mens é somente possível uma filosofia. E o que pretende a filosofia? A filosofia pretende explicar a totalidade das coisas, sem excluir nenhuma parte da realidade. Mas, não é isso que preten- de também a ciência? Sim, cada ciência (Química, Física, Biologia, Astronomia, etc) procura explicar a realidade, mas escolhe apenas uma parte dela. A Química, por exemplo, quer entender as transformações da matéria, mas não se preocupa com os fenômenos relativos ao movimento dos corpos, o que são da conta da Física. A filosofia, diferentemente, quer saber a causa do conjunto de todos os fe- nômenos. Não quer apenas constatar que as coisas estão aí. Quer saber por que as coisas apareceram no mundo. É importante saber ainda que a arte e a religião também
  21. 21. Pensar não dói e é Grátis 25 tentam responder porque as coisas estão no mundo. A grande arte explica o mundo, apelando para os mitos e a fantasia imagi- nativa. Isto dá certo, mas dentro do terreno da arte. As grandes religiões explicam o mundo, convidando à crença subjetiva e a confiança (fé) na revelação. Isto dá certo, mas dentro do terreno da religião. E qual a maneira que a filosofia tem de explicar o mundo? A maneira de a filosofia responder a essa pergunta se apre- senta como uma novidade para a época: é uma tentativa de solu- cionar a questão da origem do mundo e de todas as coisas nele existentes, sem recorrer a outro caminho (método) que não seja o racional. Assim, as afirmações seriam aceitas por serem auto- evidentes e não porque foram reveladas para alguém, por alguma divindade. Os argumentos convenceriam por estarem bem mon- tados, por serem válidos, e não por serem impostos pela força de uma autoridade. Hoje, quando tentamos responder porque alguma coisa acontece do jeito que acontece, é muito presente em nós a preo- cupação com uma explicação Iógica. Não podemos deixar de sa- ber que essa maneira foi inaugurada pelos gregos. Aristóteles afirma que os homens “buscaram o conhecer a fim de saber e não para conseguir alguma utilidade prática”. Mas isso só foi possível a partir do momento em que os proble- mas de subsistência estavam resolvidos. É preciso, portanto, es- tabelecer uma diferença entre o que é urgente e o que é impor- tante. Não são sinônimos totais, mas significam, ou seja, apon- tam para coisas semelhantes. É urgente resolver questões refe- rentes à alimentação, à saúde, à habitação e ao vestuário. Tendo- as resolvido, podemos então nos preocupar com outras coisas que também são importantes, além das coisas urgentes. Podemos afirmar ser verdade que “Todas as coisas urgen- tes são coisas importantes”, mas não ser verdade que “Todas as coisas importantes são coisas urgentes”. A filosofia surge, então, para tratar das questões impor-
  22. 22. Eugênio C. Ribeiro 26 tantes da existência humana. Já as ciências surgem para resolver questões de urgência, como conhecer os processos do plantio e da criação de animais para matar a fome, conhecer a resistência dos materiais e o equilíbrio das coisas para construir habitações, conhecer o processo de proliferação de vírus e bactérias para evi- tar ou curar as doenças, etc. O homem livre é aquele que não está submetido a outros, mas é um fim em si mesmo. Da mesma forma, podemos pergun- tar: qual é o conhecimento que não está submetido a outros, mas é um fim em si mesmo? Entre todos, somente a filosofia pode dizer isso de si mesma. Podemos dizer, então, com Aristóteles, que “Todas as outras ciências podem ser mais necessárias que esta, mas nenhuma será superior”. A filosofia pode ser uma aventura da mente. Exploração de cavernas intelectuais, alpinismo mental, expedição e reconhe- cimento cognitivo. Às vezes, pode parecer uma versão conceitual dos esportes radicais. Pelos paradigmas humanos, podemos dizer que os animais não filosofam porque não raciocinam e, se existirem os deuses, estes não filosofam porque já sabem. Assim, filósofo parece ser somente o Homem. Entre os deuses e os animais, somos um meio, um canal de passagem. Talvez uma corda esticada entre duas na- turezas. Essa parece ser a nossa condição. Para o filósofo Jean Paul Sartre, isso poderia ser o sinal da nossa solidão e angústia no mundo; para outros, ao contrário, significa que estamos diante do desafio de evoluirmos em direção ao que julgamos mais nobre e divino. Nas ocasiões em que forçamos a pesquisa filosófica até os limites de nossas visões de mundo, vemo-nos temporariamente abandonar as premissas costumeiras, esperando que o pára-que- das em queda livre intelectual abra quando precisarmos. O obje- tivo é experimentar as fronteiras externas de nossas crenças co- muns, vir a entender o status de nossos pressupostos mais im- portantes, aquelas convicções básicas que respaldam as perspec- tivas e decisões que governam nossas ações do dia-a-dia e que normalmente aceitamos acriticamente.
  23. 23. Pensar não dói e é Grátis 27 A mente é uma arma poderosa, cujo projétil é o nosso pensa- mento. Só que ocorre um detalhe no processo: o primeiro resul- tado do disparo se dá naquele que o emitiu. (Eugênio). Portanto, para sairmos da Caverna de Platão, da Matrix, é necessário estudarmos um pouco de filosofia. O primeiro homem a escapar da caverna da ilusão em que vivemos, segundo Platão, é o filósofo; é aquele dentre nós que consegue perceber que vivemos, de certa forma, vidas de ilusão, aprisionados por sombras e correntes que não foram criadas por nós. Ao voltar à caverna com seu estranho relato de outras reali- dades, ele será aclamado por alguns e vaiado por outros. Tende- mos a nos acomodar às nossas ilusões, e qualquer idéia que ve- nha colocar nossa pseudo-segurança em perigo tende a ser recha- çada sem reflexão. Assim, somos facilmente ameaçados por quais- quer relatos estranhos de realidades maiores. Mas o verdadeiro filósofo tenta libertar o máximo de companheiros cativos, para que vivam nas realidades mais amplas e brilhantes que residem além dos estreitos limites de suas percepções costumeiras. Esta é uma imagem viva da derradeira tarefa da filosofia. Sua meta é libertar-nos da ilusão e ajudar-nos a captar as realida- des mais fundamentais. Sob que ilusões você está vivendo agora? Que coisas você valoriza sem realmente terem a importância que você Ihes atri- bui? Que coisas realmente valiosas você pode estar ignorando? Que suposições você faz sobre sua vida que podem se basear em aparências, em vez de realidades? A maioria das pessoas está acor- rentada por todo tipo de ilusão. A filosofia, quando bem pratica- da, pretende nos ajudar a romper esses grilhões. Na verdade, não temos opção quanto a termos ou não uma filosofia, quanto a sermos ou não filósofos. Inevitavelmente, agi- mos a partir de certa visão de mundo filosófica, por mais bem formada ou incompleta que seja. Nossa opção é entre a má filoso- fia, irrefletidamente absorvida da cultura à nossa volta e dos pre- conceitos de nossa época, ou a boa filosofia, baseada no ques- tionamento crítico e no pensamento sustentado.
  24. 24. Eugênio C. Ribeiro 28 Podemos ser maus pensadores ou bons filósofos. Mas a qualidade advém apenas mediante muito exercício de pensamen- to e extremo cuidado. Assim, o pensamento cuidadoso favorece a melhor filosofia. Sua filosofia de vida o aprisiona ou o liberta? Neste curso, procuro contestar alguns dos mitos e lugares-co- muns de nossa própria época e sair da caverna de nossas falsas suposições. Busquemos o esclarecimento filosófico, a li- bertação filosófica. O primeiro dia do resto de sua vida não precisa começar e acabar na Caverna de Platão. AImportância da Crítica Racional No que concerne ao tratar as coisas de forma racional, de- vemos mais uma vez dar o mérito aos gregos. Segundo Alfred North Whitehead, em seu magistral livro A Função da Razão, a antítese entre a razão prática e a razão espe- culativa não é tão aguda quanto parece à primeira vista. A razão especulativa produz o acúmulo de compreensão teórica que, em momentos críticos, possibilita o surgimento de novas metodolo- gias. Por sua vez, as descobertas de conhecimentos práticos for- necem a matéria-prima necessária ao sucesso da razão especula- tiva. A moderna fase da razão especulativa é atribuída apenas aos gregos, com uma certa dose de exagero. Ora, as grandes civi- lizações asiáticas indiana e chinesa também produziram excelen- tes obras variantes do mesmo método. Entretanto, nenhuma ci- vilização igualou os gregos na perfeição técnica do método. Os gregos tiveram sucesso em produzir o instrumento final para o disciplinamento da especulação. Tiveram a audácia em desven- dar para a humanidade o inacreditável segredo de que a razão especulativa estava, ela própria, sujeita à ordem e método1 . 1 Cf. Whitehead. A Função da razão, p.32.
  25. 25. Pensar não dói e é Grátis 29 O segredo grego é ter descoberto como a especulação pode ser direcionada por um método, mesmo em sua transcendência. A civilização ocidental por um longo período de tempo, em favor da função prática da razão, relegou sua função especulativa e os esquemas abstratos. Tudo tinha que estar apenas relacionado ao lado prático da vida. Quando conseguiu unir as duas funções da razão o progresso da ciência se deu. Muitos haviam visto objetos caírem, mas Newton tinha em sua mente um esquema matemá- tico para explicar o processo; muitos haviam visto os animais se entredevorando, seres vivos passando fome e sede, mas Darwin tinha em sua mente o esquema malthusiano. Foi esta a postura que os gregos nos legaram e podemos delineá-la em quatro carac- terísticas. Primeiramente, os gregos eram insaciavelmente curiosos; investigavam e questionavam todas as coisas, ou seja, foram es- peculativos no mais elevado grau. Segundamente, foram rigidamente sistemáticos em seus objetivos, pois trabalhavam com consistência lógica. Em terceiro lugar, os gregos foram onívoros em seus inte- resses: dedicavam-se ecleticamente a várias disciplinas, sem frag- mentação, sem separação rígida entre elas. Finalmente, foram homens imbuídos de verdadeiros interesses práticos. Platão não somente elaborou sua teoria política, como viajou à Sicília a fim de dar assistência política àquele reino e colocar em prática sua teoria. Aristóteles, por exemplo, nos deixa admirados de como ele conseguia dispor de tempo para pensar, visto que se dedicava a enumeráveis atividades práticas: dissecava animais para estu- dos, analisou e escreveu sobre as constituições das principais ci- dades-estado gregas. Sim. Engana-se aquele que pensar ser a filo- sofia grega uma “viagem”. Posso dizer que desde o início a preparação filosófica deve assumir um caráter essencialmente crítico, permitindo debates dos problemas básicos de tal modo que não sejam cerradas as portas da pesquisa às discussões ulteriores. Com a presença de atitude dogmática não se inicia pesquisa de cunho reflexivo.
  26. 26. Eugênio C. Ribeiro 30 Muitos, ao lerem os diálogos Platônicos, percebem a atitude críti- ca ali presente, como um canto alternado do pró e do contra, não trazendo respostas conclusivas, mas incitando os interlocutores (inclusive o próprio leitor) a novas buscas. Esta atitude filosófica que vem sendo retomada por alguns pensadores após tanto tempo de esquecimento, foi criada na Gré- cia, no século VI a.C., contrastando ao sistema de outras métodos iniciáticos antigos, nos quais a Tradição era inquestionável, trans- mitida do Mestre que sabia ao discípulo que não sabia, que por final, ao adquirir a mestria, continuava a ensinar o que foi verda- de aos seus predecessores. Para os gregos, principalmente depois de Tales de Mileto, o mestre parece se apresentar simplesmente como aquele que pesquisou por mais tempo do que o discípulo e não aquele que sabe mais; tendo ele mais subsídios e conhecen- do a amplitude de nossa ignorância, é o que mais tem condições de perguntar e de estimular a crítica. Penso ser por este motivo que a filosofia esteja fora da educação de muitos países antide- mocráticos ou em vias de democratização (como é o caso do Bra- sil que saiu da ditadura): a pedagogia antiquada não permite a discussão crítica. No sistema grego acontecia o seguinte: o discípulo, além de poder questionar e criticar o Mestre podia chegar a tecer uma nova teoria, divergindo da tradição transmitida. Neste caminho todos nada mais são do que seu próprio Mestre e Discípulo. Crítica aqui jamais significa malhar o pau em pessoas ou idéias. Antes de qualquer coisa vem a ser uma análise criteriosa, ou seja, que estabelece critérios permitindo levar qualquer tema à sua profundidade. Para que surta efeitos em riquezas de novas idéias, esta atitude deve estar presente tanto em quem faz a críti- ca quanto em quem a recebe. Digamos que a atitude crítica limpa as escórias dos terrenos discursivos para que sejam feitas as no- vas conexões no campo do conhecimento. “Os que questionam são sempre os mais perigosos. Responder não é perigoso. Uma única pergunta pode ser mais explosiva do que mil respostas” (Jostein Gardner).
  27. 27. Pensar não dói e é Grátis 31 Na primeira etapa do processo iniciático, o aprendiz deve usar a atitude crítica em sua coleta de dados; e por dados enten- do problemas levantados e trabalhados por pensadores ao longo da história. Ao ler os filósofos e pensadores, ele se deve precaver de dois erros comuns ao neófito apressado, distintos por uma sutil separação: a) o primeiro erro consiste em manter-se passivo, acei- tando tudo como se fossem dogmas (literalmente doutrinas fi- xas), imitando o ganso que engole tudo o que vê; b) o segundo, extremo do primeiro, consiste em criticar demasiado cedo os tex- tos antes mesmo de chegar à sua compreensão. Diante da obscu- ridade de um texto, antes de se aviltar em dizer que o autor er- rou, deve verificar os véus que ofuscam sua percepção. Aprendi a ver estas armadilhas em mim mesmo: aos de- zesseis anos, julgando-os sem interesse, doei livros que aos trin- ta procurei avidamente por readquiri-los. Ora, os livros não mu- daram, eu é que amadureci em visão. Já na Segunda etapa do processo iniciático, o caráter críti- co deve aparecer em todo o pensamento do filósofo; caso contrá- rio possivelmente tornar-se-á guru de um sistema fechado com qualquer nome seguido de “ismo” (dogmatismo, autoritarismo, etc.). Deve colocar suas teses para serem discutidas criticamente por outros e ter consciência de que seu pensamento nada mais é do que um processo. Mas em todo o processo o pesquisador deve buscar, além da segurança, estar cingido de bastante humildade para aprender. Preconceitos todos nós temos. Eles são pressupostos ante- riores que se enraízam em nossa mentalidade. É uma bagagem que temos que carregar inevitavelmente. Agora, o que podemos fazer é trabalhar com eles para que se tornem menos ofensivos. Ou seja, devemos transparecê-los aos outros a fim de que pos- sam ser criticados por eles. Mediante esta crítica eles poderão se tornar menos ofensivos ou até serem destruídos de vez. Mas não todos de uma vez. Isto eu duvido. Aquele que diz que não tem preconceito já está tendo um preconceito em relação ao preconceito.
  28. 28. Eugênio C. Ribeiro 32 Uma certa filosofia de vida todos nós seguimos, mesmo sem o saber. O problema não está em ter ou não ter uma filoso- fia. O problema está em escolher entre uma boa e uma má filoso- fia. Geralmente não queremos pensar porque nossa péssima filo- sofia que seguimos não resistirá às críticas da racionalidade. Mudança de Paradigmas Já expus antes que nosso sistema de crenças é herdado de nossos antepassados ou de nossos contemporâneos. Ou seja, ele vem da realidade de nossa convivência social. É famosa a citação do filósofo Aristóteles de que “o ho- mem é um animal social”, exposta em seu livro A Política, reite- rando ainda que para se viver sozinho é preciso ser ou um animal (uma besta) ou um deus. Realmente, ninguém é muita coisa sozi- nho. Até mesmo no sentido material nada se consegue sem a ajuda dos outros. Imaginem só se para poder comer meu pão de manhã eu tivesse que plantar o trigo, moê-lo, preparar a farinha e mexer a massa sozinho; comeria pão uma vez por ano? Na dimensão psicológica também percebemos a necessi- dade dos outros. É conhecido dos cientistas o caso dos “meninos- lobos”, crianças que foram criadas na selva, tendo alguns animais como referências psicobiofísicas; elas apresentavam maneiras de ser peculiares aos animais, inclusive certos grunhidos para co- municação entre si. Como a programação cerebral se dá em sua maior parte durante os primeiros anos de vida, ficou difícil tor- ná-las sociáveis entre os homens. Este caso serviu como prova aos cientistas de que o ser humano precisa do referencial de ou- tros de sua mesma espécie para que estruture sua própria perso- nalidade. Conheço também o caso de um fazendeiro que por moti- vos de sobrevivência teve que acostumar uma ovelhinha a tomar leite de vaca e a conviver com o gado bovino. Encontrando-se saudável e já maior, a ovelha foi colocada novamente no meio de
  29. 29. Pensar não dói e é Grátis 33 sua espécie e, para espanto geral, manifestou crise de identidade. Assim, igualmente nos identificamos com as idéias que fundamentam a vida mental do grupo. Esta identificação pode trazer segurança ao grupo e qualquer idéia que venha colocar esta segurança em perigo é considerada herética. É por isto que apoio então o dizer de Bernard Shaw: “Todas as grandes idéias começam por ser heresias” A necessidade que temos dos outros é a principal causa da formação dos diversos grupos sociais. Mas aí surge a seguinte questão: se esta necessidade de viver em sociedade é a causa dos grupos sociais, por que encontramos as sociedades divididas em classes diferentes? No caso individual, a “luneta da mente” muitas vezes leva o pesquisador ao fechamento, ao dogmatismo, ou ainda, acaba unindo-se a um grupo de pessoas afins, que continuarão a perpe- tuar e defender a “verdade” doutrinal como se fosse um catecis- mo. Muitos autores pregam, seguindo o pensamento de Popper, que as nossas teorias devem ser postas à refutação, para que se- jam testadas e confirmadas. Mister se faz tomar cuidado para que o método dialógico tão caro à pesquisa filosófica, não acabe por se tornar uma técnica retórica dos novos sofistas. O termo paradigma hoje é muito conhecido do público de- vido a sua divulgação pelos autores e conferencistas do mundo da “autoajuda”. É explicado como padrões mentais do indivíduo, pelos quais ele interpreta a realidade. Mas para os discípulos da ciência e da filosofia a compreensão do termo se dá um pouco diferente, após ser introduzido pelo cientista e historiador da ci- ência Thomas Kuhn. Embora cheio de ambigüidade, pois Kuhn utilizou-o em sua obra, Estrutura das revoluções científicas, de vinte e duas maneiras diferentes, o termo geralmente é empre- gado para designar todo o conjunto de compromissos de pesqui- sas de uma comunidade científica: seus valores, suas crenças, técnicas, etc. Ele expõe que após um período de ciência normal, de tran-
  30. 30. Eugênio C. Ribeiro 34 qüilidade no qual um grupo de cientistas adere a um determina- do paradigma, ocorre uma crise e este paradigma não serve mais para resolver antigos problemas. Daí então acontece o que se cha- ma de revolução científica, quando um cientista, geralmente novo na academia ou mais jovem, consegue romper com o antigo para- digma e apresentar novidades em sua área de pesquisa. Num primeiro momento, a comunidade científica tal qual um concílio episcopal não aceita a nova revolução. Somente quan- do novos cientistas crescem acostumados com a nova luneta men- tal é que muita coisa se esclarece e acaba sendo aceita. Posso citar como exemplo o que aconteceu na física. Quan- do Einstein se defrontou, face à experiência de Michelson-Mor- ley, com a ineficácia da mecânica de Newton para resolver o pro- blema da Luz, teve que introduzir uma nova suposição teórica que se reconciliasse com os fatos experimentais. Fato semelhan- te acontece hoje com as novas descobertas da mecânica quântica, que vieram explicar outros aspectos da realidade dantes não ex- plicados nem pela teoria newtoniana nem pela teoria da relativi- dade. No campo científico denominaram este processo de mu- dança de paradigmas. Todavia, os paradigmas são feitos a partir de pressupos- tos. Temos que falar também da questão dos pressupostos filosó- ficos. Muitas vezes as revoluções científicas passam, mudam-se os paradigmas, mas certos pressupostos filosóficos permanecem. É preciso aprender a identificá-los. Estes pressupostos fundamentam a vida do senso comum, a literatura, a organização social, a evolução tecnológica e não raro, de maneira sutil, até a ciência. Na literatura, por exemplo, temos a lista de “ismos” influenciados por correntes filosóficas, como o romantismo, o naturalismo, etc. Na economia tivemos o liberalismo econômico preparado pelas idéias de Locke (com seu Estado Natural), Adam Smith (com o princípio da mão invisível) e outros; o pragmatismo de nossa evolução tecnológica é outro exemplo. Outrossim, como a ciência hoje goza de status elevado
  31. 31. Pensar não dói e é Grátis 35 junto ao público, é por meio dela que muitos pressupostos che- gam a influenciar a sociedade. Um caso bem claro disso é a chamada “partição cartesia- na”. Ou seja, aquela idéia que nos veio de Descartes a respeito da divisão entre alma e corpo. Descartes estabelece a relação entre o “Eu” e o mundo atra- vés da polaridade entre “res cogitans” (coisa pensante) e “res ex- tensa” (coisa extensa/material), favorecendo a separação dos três conceitos fundamentais para a sua época, ou seja, Deus, mundo e o Eu. Deus ficou então separado tanto do Eu quanto do Mundo, alçado bem alto, acima do mundo e dos homens. Ocorreu tam- bém a separação entre matéria e espírito, entre alma e corpo, perdendo-se de vista o ideal dos antigos gregos que tentaram achar uma ordem, na infinita variedade de coisas e fenômenos, procu- rando algum princípio fundamental de unificação, ao contrário do que fez Descartes procurando estabelecer a ordem por meio de uma divisão fundamental. Não convém atribuir-lhe a culpa de dar uma nova direção ao modo de encarar o mundo. Na verdade ele apenas formulou de maneira sólida os pressupostos subjacentes no pensamento humano, que já eram sentidos na Renascença Italiana e na Refor- ma, após terem sido lançados pela filosofia de Platão na Grécia. O Platonismo, aproveitado por algumas religiões, acabou disse- minando a dicotomia existente entre matéria e espírito no pen- samento ocidental. Se esta dicotomia fundamentou diversos ali- cerces de nossa vida, por que razão nosso espírito científico esca- paria de seu campo de ação? Lendo as obras de Descartes encontramos ali muitas ve- zes a presença de um conjunto coeso, e a fragmentação como uma forma didática, apenas para apresentação do conteúdo; os discípulos que se intitularam cartesianos exageraram por demais esta divisão. Os animais, por conseguinte, foram considerados como máquinas e não foi difícil pensar o mesmo a respeito dos homens. Esse pressuposto filosófico, digo, esta “luneta mental”, teve
  32. 32. Eugênio C. Ribeiro 36 grande receptividade nos meios da ciência natural. A mecânica de Newton, juntamente com as partes da física clássica construí- das segundo seu modelo, sofreram influência sutil deste pressu- posto, quando pretenderam descrever o mundo sem fazer men- ção ao espírito e às realidades humanas. A nossa medicina, du- rante muito tempo, considerava o corpo humano como uma sim- ples máquina que podia ser quebrada, independente do psiquis- mo humano. Só há pouco tempo é que a ciência médica começou a aceitar a influência da esfera psíquica no estado saudável ou doentio do corpo. Um outro exemplo de pressuposto mental que ultrapas- sou gerações e ainda emite sombras veio com a teoria de Darwim: tanto o darwinisno como o neodarwinismo rezam que os orga- nismos, sob pressão da seleção natural, gradualmente se adap- tam ao seu meio ambiente até atingir o ajuste suficiente para a sobrevivência e reprodução; mais, levou ao senso comum a idéia de evolução por meio da competição existente na natureza – a lei do mais forte. Hoje, esse pressuposto dá lugar à idéia de coopera- ção no processo evolutivo – a vida evolui por meio de redes. Ainda do pensamento darwiniano nos veio o pressuposto do “princípio oculto”. Darwin, para escapar (penso eu) de tocar no assunto criação ou transcendência e ao mesmo tempo não precisar responder a pergunta “qual é a causa?”, fala em muitas páginas de seu Origem das espécies: “a natureza fez, seleciona, etc...” Mas então a natureza tem vontade, objetivos? Por que en- tão não dar logo o nome de Deus? Alguns preferem atribuir a causa aos genes, tipo “o gene egoísta”, mas aposto que o gene não concordaria com isto. Outros, embora abertos ao pensamento sis- têmico, nem percebem que professam o princípio oculto, como Fritjof Capra: “Na nova visão sistêmica, ao contrário, a mudança evolutiva é vista como resultado da tendência inerente da vida para criar novidade, a qual pode ou não ser acompanhada de adaptação às condições ambientais em mudança” 2 . 2 CAPRA, F. Teia da vida, p.182.
  33. 33. Pensar não dói e é Grátis 37 Neste caso o princípio oculto foi atribuído à vida. Paradigmas foram mudando e alguns pressupostos perma- necendo. Todavia, com o advento da teoria quântica, percebemos que a ciência não se restringe simplesmente a descrever ou ex- plicar a natureza, mas que ela própria é resultado de nossa inte- ração com a natureza. Durante toda a história da ciência, a ma- neira como pensamos o funcionamento da natureza foi influen- ciada pelas ferramentas utilizadas para investigá-la. Assim tive- mos o relógio, o máximo da tecnologia na época de Isaac Newton e Descartes, que acabou estimulando conexões mecanicistas do sistema solar, influenciando igualmente a filosofia e mesmo idéias teológicas. Tivemos ainda a máquina a vapor, que foi emblema da primeira revolução industrial; dela advieram modelos termo- dinâmicos que ressaltam o trabalho, eficiência e perda de calor, morte final do universo em expansão. Temos agora os computa- dores, capazes de processamento de dados e manipulação de in- formações. Como os cientistas utilizam estas máquinas numa variedade de aplicações, desde a criação de modelos de tempes- tades e estrelas binárias até sistemas humanos, pergunta-se mui- tas vezes – embora para alguns isto já seja verdade indiscutível – se os sistemas naturais não são, num certo sentido, sistemas de processamento de informação. A nossa descrição do mundo é revelada pelo nosso méto- do de questionar. E nosso método de questionar está imerso num contexto de conexões. Vamos supor a existência de uma raça fora de nossa galá- xia e totalmente diversa da nossa. Embora inteligente, essa raça manteria um firme preconceito contra o inobservável. Acredita- ria somente em coisas observáveis, tocáveis, etc., consistir-se-ia numa raça de positivistas lógicos. Não acreditaria em deuses ou coisas do gênero. Quanto ao observável, seria tão científica e até mais “racional” do que a humana, não sendo guiada erroneamente por “preconceitos metafísicos”. Tal raça, poderia até desenvolver uma geometria para além do nível prático dos egípcios (nas me-
  34. 34. Eugênio C. Ribeiro 38 dições de terras, por exemplo); consideraria sem sentido a noção de uma linha reta sem espessura alguma, ou a noção de um pon- to sem quaisquer dimensões. Sequer especularia sobre átomos a fervilhar no vazio, sobre a origem da vida ou coisa assim. E, o que é ainda mais estupendo, não desenvolveria a física e a matemáti- ca como são por nós conhecidas3 . A teoria de que nossa descrição do mundo é revelada pelo nosso método de questionar está rom- pendo com o antigo modo de pensar, porém, para que um novo pressuposto venha suplantar o obsoleto, será necessária a elabo- ração de novos estudos filosóficos. 3 Para esta metáfora, fiz uma adaptação de Hilary Putnam, em Realismo de rosto humano, p.233-34.
  35. 35. 39 CAPÍTULO2 AAVENTURADOPENSAMENTOI Pensamento: prerrogativa de todos Talvez seja mais fácil pensar do que definir o que seja o pensamento em si. A filósofa Hannah Arendt enfrenta o desafio de dizer o que é pensar em seu livro A vida do espírito. Em suas palavras: “O pensamento acompanha a vida e é ele mesmo a quintessên- cia desmaterializada do estar vivo. E uma vez que a vida é um processo, sua quintessência só pode residir no processo real do pensamento, e não em quaisquer resultados sólidos ou pensa- mentos específicos. Uma vida sem pensamento é totalmente possível, mas ela fracassa em fazer desabrochar sua própria es- sência - ela não é apenas sem sentido; ela não é totalmente viva. Homens que não pensam são como sonâmbulos”. (Aren- dt, 1995, p. 143). Pensar é uma prerrogativa de todos. Esta é a grande con- quista do século das luzes: todos os homens são racionais e po- dem, portanto, pensar de forma correta. Mas infelizmente nem sempre foi assim. Na ofegante história da evolução humana, por um longo tempo somente alguns homens foram considerados providos de
  36. 36. Eugênio C. Ribeiro 40 racionalidade. Vamos dar uma volta ao Egito. Lá, a classe sacerdo- tal era a única detentora dos conhecimentos e, portanto, consi- derada racionalmente superior a todas às outras abaixo dela na pirâmide social. Para os egípcios, havia um clima de sagrado em relação à sabedoria e somente aqueles que realmente poderiam produzir algo em contribuição a ela é que eram admitidos nas escolas de mistérios; para isto estabeleciam duras provas e um longo noviciado para testar as têmporas do candidato aos estu- dos; ficava longe da família por longos anos, viajava longa distân- cia sem saber ainda se seria realmente admitido pelos seus mes- tres. Duas considerações podem ser feitas sobre esta estrutura. Por um lado, ela realmente favorece que somente aqueles que poderão produzir algo de valor terão condições de dispor de tempo e recursos para dedicação aos estudos. Para que o conjun- to social possa evoluir, alguns que não têm exercido a capacidade para a produção de conhecimento devem trabalhar para o sus- tento daqueles que têm condições de alguma produção neste sen- tido. Os organismos menos lúcidos e mais simples devem prover os organismos mais lúcidos e mais complexos. E utilizar desta estrutura era o máximo que os egípcios podiam fazer com a cons- ciência possível para a época. Mas a classe sacerdotal é constituída de homens e homens são corruptíveis; ela fez alianças com os poderosos da época que logo viram nesse sistema uma forma de elitização social e de do- mínio dos “ignorantes”. Aumentaram cada vez mais a distância entre aqueles que sabiam e aqueles que não sabiam. E o pior: procuraram a todo o custo manter as massas na ignorância. A nossa sociedade também tem sua forma de estabelecer a elitização na busca do conhecimento. Ela se baseia principal- mente no aspecto econômico, que divide os que podem estudar os cursos caros dos que só podem estudar os cursos baratos. E nem sabemos direito como sair desta situação. Não é à toa que todo reino da antiguidade possuía um séqüito de sacerdotes que eram os detentores do conhecimento:
  37. 37. Pensar não dói e é Grátis 41 para eles era bom que os explorados não soubessem de sua ver- dadeira situação. Na Índia, por exemplo, encontramos a casta dos Brâmanes, uma espécie de classe sacerdotal e que também man- tinha o controle do conhecimento só para si. E na Índia a distân- cia entre as castas foi fundamentada na teoria da reencarnação. Sim, somente aqueles que reencarnam na casta dos Brâmanes têm o direito de conhecer mais, visto que suas obras realizadas em encarnações precedentes favoreceram tal privilégio. Por outro lado, esta estrutura pode retardar o avanço do conhecimento, visto que haverá pouca discussão, pouca movi- mentação crítica em relação ao que foi estabelecido como verda- deiro; sem falar ainda que as guerras podem dizimar o pequeno grupo de sábios e lá se vai todo o conhecimento adquirido. Nossa civilização ocidental pensa ter achado uma solução melhor do que a estrutura antiga usada pela classe sacerdotal: expõe o maior número de conhecimentos para o maior número de pessoas (mesmo àqueles que não querem conhecimento) e assim ocorrem mais discussões, desenvolvimento mais rápido. Não quero dizer com isto que quantidade deva significar qualida- de, contudo hoje temos consciência de que o saber se desenvolve por discussão crítica e quanto mais pesquisadores estiverem envolvidos no processo maior seleção de teorias poderá haver. Basta observarmos que 85% dos cientistas da história humana viveram no século XX, no qual ocorreram os maiores avanços de que dispomos. Já na Grécia dos filósofos não havia a classe sacerdotal e a religião não se portava como diretora dos assuntos do Estado. Mesmo assim nem todos eram considerados racionais. Havia na Grécia uma hierarquia ontológica bem específica: primeiro vinham os deuses, depois os homens livres, seguidos por mulheres e cri- anças, depois vinham os homens estrangeiros residentes (libe- rais ou comerciantes) e por final vinha o segmento dos escravos. Os únicos considerados cidadãos eram os homens livres, porque eram os únicos considerados racionais e aptos para as discussões políticas nas praças públicas. Esta situação foi sendo amenizada durante a época do helenismo, mas mesmo assim alguns foram
  38. 38. Eugênio C. Ribeiro 42 considerados mais racionais do que outros. Na Idade Média os nobres e o clero se consideravam mais racionais do que os servos. Ou ainda, houve uma tentativa de recuperação do sistema sacerdotal como detentor dos conheci- mentos. As instituições religiosas quiseram imitar de forma gro- tesca o sistema iniciático antigo. Isto tanto pegou, que durante muito tempo as massas incultas consideravam os padres como os únicos que “tinham conhecimento”. Mas a situação mudou com a vinda da modernidade. E o primeiro arauto destes novos tempos foi René Descartes. Ele rom- peu com os mundos antigo e medieval ao afirmar que todos os seres humanos são providos de racionalidade. Talvez esta postu- ra de Descartes passe desapercebida para nós, que consideramos óbvio que todos os homens sejam racionais. Mas é um fato: até à Idade Moderna nem todos eram assim considerados. Isto não era tão óbvio assim. A partir desta base cartesiana, ficou estabelecido que a causa dos erros não se encontra na ausência da razão, mas na falta de um bom método adequado para sua aplicação. Uma Brecha para se sair da Matrix Contudo, já faz um bom tempo que foi dito aos homens que a razão é a coisa mais bem distribuída do mundo e, mesmo com o surgimento de vários métodos, os erros continuaram a fa- zer parte de suas buscas. Ou seja, mesmo com a razão estando exercitada por um bom método, os homens viram uma certa insufici- ência permanecer na sofrida busca do conhecimento verdadeiro. Tudo isto porque infelizmente ainda nem todos preferem usar a racionalidade, a faculdade de pensar que o Criador lhes conferiu. É uma insuficiência que nos persegue há bastante tem- po. Vejamos a crítica que Kant fez aos membros da sociedade de sua época na obra Resposta à pergunta: o que é o Esclarecimen- to?, escrita em 1783. Na verdade, o texto da obra consiste num artigo que Kant escreveu para a revista Berlinische Monatsschrift,
  39. 39. Pensar não dói e é Grátis 43 em resposta ao artigo do jovem teólogo Johann Friedrich Zöllner (1753-1804) que se manifestou com irritação, na mesma revista, contra uma proposta anônima para abolição do casamento religi- oso. Kant havia ficado indignado com a irritação do referido pas- tor que desejava para si ovelhas destituídas da capacidade de pensar. Se o artigo de Kant fosse editado hoje, com certeza não perderia sua atualidade. Nele Kant faz uma análise das razões que mantêm o homem na menoridade racional. “Esclarecimento (Aufklärung) é a saída do homem de sua me- noridade, da qual ele próprio é culpado. A menoridade é a inca- pacidade de fazer uso de seu entendimento sem direção de outro indivíduo. O homem é o próprio culpado dessa menoridade se a causa dela não se encontra na falta de entendimento, mas na falta de decisão e coragem de servir-se de si mesmo sem a dire- ção de outrem. Sapere aude! Tem a coragem de fazer uso de teu próprio entendimento, tal é o lema do esclarecimento” 4 . Podemos salientar no trecho acima dois aspectos: a) Kant atribui ao próprio ser humano, desde que não venha a apresen- tar alguma debilidade mental, a responsabilidade pela própria ignorância (o não querer saber), proporcionando-lhe a situação de mediocridade em que se encontra. Ele acentua ainda o caráter moral presente nessa opção que o homem faz pela menoridade ou pela maioridade, fazendo desse tema objeto de estudo da éti- ca. Outro aspecto, b) é que Kant deixa transparecer nesta citação acima um conceito de razão, ou seja, ele a vê como uma capacida- de (do alemão Vermögen), e como tal, pode ser desenvolvida. A menoridade, então, é posta como a incapacidade (Unvermögen) de se fazer uso da razão; usá-la implica o desenvolvimento de uma capacidade que todo ser humano apresenta, embora nem todos necessariamente desenvolvem-na de modo pleno, pois, “por preguiça ou covardia”, pode optar em se acomodar e transferir para tutores a direção de sua vida. 4 KANT, I. Resposta à pergunta o que é o Esclarecimento? in Textos Seletos. 2.ed. Petrópolis: Vozes, 1985, p.100.
  40. 40. Eugênio C. Ribeiro 44 “A preguiça e a covardia são as causas pelas quais uma tão gran- de parte dos homens, depois que a natureza de há muito os libertou de uma direção estranha (naturaliter maiorennes), con- tinuem de bom grado menores durante toda a vida. São tam- bém as causas que explicam por que é tão fácil que os outros se constituam em tutores deles. É tão cômodo ser menor”5 . As pessoas que recusam a fazer uso de seu pensamento livre pagam um alto preço por tal vida. Qual é este preço? Sócra- tes já o identificou no seu tempo, ao afirmar que uma vida não examinada não vale a pena ser vivida. O preço que se paga é este mesmo: a vida inteira. Não devíamos considerar este preço alto demais? A razão assim entendida como instrumento de emancipa- ção deve se estabelecer numa dimensão de liberdade e ela pró- pria deve assegurar a continuidade desta dimensão; com ela so- mos livres para construirmos nossa vida ou não; livres para a usarmos ou abdicarmos de seu uso. No entanto, Kant constata que é mais fácil para a maioria das pessoas permanecer na abs- tenção do uso desta liberdade. “A imensa maioria da humanidade (inclusive todo o belo sexo 6 ) considera a passagem à maioridade difícil e além do mais perigosa, porque aqueles tutores de bom grado tomaram a seu cargo a supervisão dela. Depois de terem primeiramente embrutecido seu gado doméstico, e preservado cuidadosamen- te estas tranqüilas criaturas a fim de não ousarem dar um passo fora do carrinho para aprender a andar, no qual as encerraram, mostram-lhe em seguida o perigo que as ameaça se tentarem andar sozinhas”7 . A imagem que Kant tinha de seus contemporâneos era de homens e mulheres, presos a postura de eternos discípulos de seus mentores, e que deixariam ao encargo de especialistas con- 5 Ibidem. 6 Lamento, mas a época de Kant era bem mais machista do que a nossa. 7 Idem, p.102.
  41. 41. Pensar não dói e é Grátis 45 tratados as tomadas de decisão que lhes eram exigidas. Seja por preguiça ou pelo temor inculcado pelos próprios educadores, a maior parte da humanidade considerava e, talvez ainda conside- re, difícil pensar por si mesma, a fim de encontrar a passagem para a maioridade. “Se tenho um livro que faz as vezes de meu pensamento, um diretor espiritual que por mim tem consciência, um médico que por mim decide a respeito de minha dieta etc., então não preci- so esforçar-me. Não tenho necessidade de pensar, quando pos- so simplesmente pagar; outros encarregarão em meu lugar dos negócios desagradáveis”8 Viver sob a tutela de outras pessoas tornou-se quase como uma segunda natureza da qual muitos temem se afastar. A maio- ria dos homens prefere deixar que os sacerdotes e pastores pen- sem por eles os assuntos religiosos; que os políticos decidam por eles as decisões a serem tomadas nas assembléias públicas; ou seja, lavam as mãos no que concerne à direção de suas vidas indi- vidual e coletivamente. Sempre que uma posição lhes é cobrada, preferem se manifestar por meio de fórmulas pré-estabelecidas e preconceitos que os mantêm em condição inferior, como cor- rentes que os impedem de caminhar firmemente. A saída da menoridade racional está indicada já no início do artigo kantiano: “Esclarecimento (Aufklärung) é a saída do homem de sua menoridade...”. Sendo menoridade racional a in- capacidade de se fazer uso do entendimento sem a direção de outro indivíduo, o Esclarecimento é apontado como o bálsamo para tal situação. Mas, enfim, qual é a essência do Esclarecimento? A essência do Esclarecimento está contida na sentença sa- pere aude (ousai saber; ousai fazer uso da razão), identificada por Kant. Pensar por si mesmo, tomar as rédeas do destino em suas próprias mãos, passar pelo crivo da crítica filosófica todos os dog- mas estabelecidos e lutar pela libertação plena do pensamento, 8 Idem, p.100.
  42. 42. Eugênio C. Ribeiro 46 eis a essência do Esclarecimento. Kant irá apostar numa direção: irá exortar a utilização de algo de que fomos naturalmente dotados: a Razão. Assim, é o uso da razão que permitirá a ascensão da menoridade para a maiori- dade racional, a saída da Matrix. Porém, não obstante esta insufi- ciência na busca do saber que ainda existe, aproveitemos a chan- ce que a história nos concedeu de sermos todos considerados racionais e dotados de pensamento. Façamos uso do pensamento! Usando a Brecha corretamente Segundo Marilena Chauí, pensar e pensamento sempre indicam atividades que exigem atenção: pesar, avaliar, equilibrar, colocar diante de si para considerar, reunir e escolher, colher e recolher. O pensamento é a consciência ou a inteligência saindo de si (“passeando”) para ir colhendo, reunindo, recolhendo os dados oferecidos pela percepção, pela imaginação, pela memó- ria, pela linguagem, e voltando a si, para considerá-los atenta- mente9 . Mas como devo usar o pensamento de forma correta? Sócrates já ensinava em sua época um excelente método para tal empresa. Ele elaborou um método muito peculiar de in- terpelar seus ouvintes, o que veio a ser adotado mais tarde por outros filósofos. Este método consistia em duas etapas: A) A Ironia> consistia em perguntas ao interlocutor, de forma a mostrar-lhe a sua ignorância em relação ao as- sunto que achava de muito sabedor. B) A Maiêutica> consistia em perguntas ao interlocutor, de forma a chegar, juntamente com ele, à verdade sobre o assunto tratado. 9 Chauí, M. Convite à filosofia. 1994, p. 153.
  43. 43. Pensar não dói e é Grátis 47 A maioria dos interlocutores de Sócrates não tinha paciên- cia para suportar o desvelo de sua ignorância por meio da ironia, não chegando à segunda etapa que era a maiêutica. Desta forma ele foi angariando muitos inimigos, o que acabou causando a sua morte. No primeiro momento ele ia perguntando, perguntando, até que o interlocutor demonstrasse sua total ignorância sobre o assunto que achava saber. Tratava-se de interrogar o interlocutor, fazendo com que ele mesmo caísse em contradição, percebendo desta forma a sua ignorância. No segundo momento ele ia perguntando, perguntando, para chegar junto ao interlocutor a algumas respostas. Confron- tando-se com sua ignorância – só sei que nada sei -, o interlocu- tor, pela via do pensamento, daria a luz às próprias idéias sobre o assunto em debate. Como o exemplo vivo do herói da Caverna de Platão que tenta libertar seus companheiros, Sócrates enfrentou a fúria de muitos de seus concidadãos. Foi acusado de ter preve- nido seus discípulos contra os perigos dos discursos demagógi- cos, ter colocado as leis públicas sob suspeita e ter desobedecido aos deuses. Sentença: foi obrigado a tomar o veneno chamado Cicuta. Já o método de Platão, o discípulo mais fiel de Sócrates, se constituiu num aprimoramento da ironia e maiêutica socráticas, ou seja, na dialética, no diálogo filosófico. Segundo Platão, so- mente através da dialética pode o espírito elevar-se e contemplar a verdadeira essência das coisas. Para ele a dialética deixa de ser uma mera disputa entre argumentos, como era praticada pelos sofistas, visto que desta forma venceria apenas o argumento mais forte, mais persuasivo, e não necessariamente o mais verdadei- ro. Assim se inaugura uma nova etapa na filosofia: a busca dos conceitos verdadeiros. Desta forma o dialético deixa de ser o ora- dor mais hábil e competente na persuasão, e fica sendo aquele que apresenta argumentos que, embora consistentes, fogem das simples impressões dos sentidos e elimina qualquer contradição. Aristóteles pode ser considerado o filósofo que mais nos
  44. 44. Eugênio C. Ribeiro 48 auxiliou no que concerne à disciplina da razão. Ele ocupou-se das leis gerais do pensamento, criando desta forma uma disciplina filosófica importantíssima: a lógica. Esta disciplina se dedica ao processo do raciocínio e a forma pela qual são apresentados os argumentos, independente do conteúdo. Quando vamos fazer uma viagem, elaboramos uma rota, um itinerário a seguir; assim também devemos ordenar nossos pensamentos para se chegar ao conhecimento verdadeiro. A lógica trabalha com as três operações do espírito: conce- ber, julgar e raciocinar. Quando nós exercemos nossa capacidade de pensar, inevitavelmente passamos por uma destas três opera- ções ou por todas elas. Vamos à primeira operação do espírito. Conceber é a arte de formar conceitos. Todas as coisas po- dem estar em nossa mente mediante a forma de conceitos. Mas o que vem a ser conceito? Conceito é a representação das coisas em nós. Vejo a cadeira e posso colocar a cadeira em minha mente representada por meio do conceito “cadeira”. O incrível é que o universo todo pode ser assim representado em mim. Ah! Cuida- do! O conceito não é algo tão banal assim. Guerras já acontece- ram por causa de confusão quanto aos conceitos envolvidos (Deus, terra, posses, honra). O conceito de liberdade política da era Bus- ch é diferente do conceito de liberdade política do Islã. Daí surge a guerra. Devemos procurar a clarificação de nossos conceitos. Em qualquer atividade do espírito mister se faz a busca de uma maior unidade possível entre pensamento/linguagem/con- teúdo. Tem muitas vezes que a gente pensa uma coisa, fala outra coisa e o ouvinte ainda acaba entendendo uma outra. Em nossas atividades acadêmicas isto não pode ocorrer. Devemos evitar as precipitações e generalizações apressadas. Por exemplo, “o que é o homem?” e “o que é um homem?” não são questões idênticas. A Filosofia, em sua criticidade e clareza teórica, apresenta- se como uma atividade do espírito que nos faz suspender as opi- niões imediatas e nos mantém afastados de discussões espontâ- neas cheias de preconceitos e crenças irrefletidas. As coisas nem sempre são tão simples como parecem.
  45. 45. Pensar não dói e é Grátis 49 Vamos à segunda operação do espírito. Julgar é a arte de formar juízos, ou seja, estabelecer distin- ção entre conceitos. Quando digo “isto é uma caneta”, estou dis- tinguindo este objeto de outros como lápis, borracha, etc. Posso ser ainda mais específico neste julgamento: “isto é uma caneta esferográfica”, o que a distingue de outros tipos de caneta, como a caneta tinteiro, por exemplo. O cuidado com os juízos nos auxi- lia por demais nas definições que fazemos das coisas, além de nos auxiliar na formulação de bons raciocínios. Ser capaz de pro- duzir bons juízos é ser capaz de produzir afirmações bem susten- tadas por boas razões. Um bom caminho para a produção de bons juízos/boas afirmações, é o da realização de boas investigações a respeito do mundo real. Vamos à terceira operação do espírito. Raciocinar é a arte de formar raciocínios, fazendo relações entre juízos, tirando deles uma conclusão. Raciocínio pode ser considerado também um processo de pensar, pelo qual nós conseguimos obter novas informações a partir de certas informações que já temos. Ou é o processo do pensar através do qual nós conseguimos obter novos conheci- mentos, a partir de conhecimentos anteriores que já temos e a partir de certas relações que estabelecemos entre tais conheci- mentos. Este processo de pensar muitas vezes é chamado de in- ferência. Nós “tiramos” ou inferimos conclusões (que são as no- vas informações), a partir de algo já posto como sabido anterior- mente e a partir de relações que estabelecemos entre elementos deste algo já sabido. O que está posto, como sabido anteriormen- te, é chamado de premissa (pre-missa significa pré-posto, isto é, afirmações já postas antes, porque já sabidas). Uma criança de três anos já pode fazer inferências. Veja o que um menino de quatro anos falou numa festa. Ao saber que um de seus tios tinha parado de tomar cerveja, escutaram ele dizer para os primos que o tio “fulano de tal” havia deixado de ser homem. É fácil averiguar, neste caso, como a criança foi capaz de “tirar” (inferir) uma conclusão a partir do que ela ouviu. Bom,
  46. 46. Eugênio C. Ribeiro 50 todos os homens que eu conheço tomam cerveja (e ainda dizem em bom tom que homem que é homem toma cerveja), se meu tio parou de tomar cerveja, então deixou de ser homem. E saber que tem homens que mesmo por motivos de saúde não param de beber para “não deixarem de ser homens”. No processo do pensamento existem duas formas de infe- rência: a indução e a dedução. Pelos processos racionais da dedu- ção e da indução parte-se do já conhecido ao que ainda não o é, ou seja, adquire-se novos conhecimentos a partir dos conheci- mentos já adquiridos. 1) Pela indução Você verifica que o ferro conduz eletricidade, que o cobre o faz da mesma forma, o ouro, igualmente, a partir disto você induz que os metais (gênero a que pertencem os compostos cita- dos) conduzem eletricidade. O que ocorreu neste processo de pensamento? Ocorreu a Indução. A Indução é o modo pelo qual conse- guimos uma conclusão a partir da observação de casos particula- res. Explicando melhor, parte-se de casos particulares iguais para se chegar à teoria geral que explica todos esses casos particula- res. O esquema pode ser exposto pela seguinte figura: Geral Particular Por meio deste processo, o homem tem em suas mãos as ferramentas necessárias para antecipar conhecimentos sobre a
  47. 47. Pensar não dói e é Grátis 51 realidade sem ter a necessidade de experimentá-las. Depois de testemunharmos os efeitos das bombas atômicas menos poten- tes, não precisamos ativar as mais potentes para sabermos de seu potencial destrutivo. 2)Pela dedução Você quer eletrocutar uma cerca de proteção caseira (veri- ficando, é claro, se isto está nos rigores da lei). Você escolhe para o material desta cerca o ferro. Por que? Porque o ferro é condutor de eletricidade e assim sendo transmitirá a energia elétrica que o fio ligado a ele fornece. O processo envolvido se deu da seguinte forma: Você conhece a lei da física que estabelece que todo metal conduz eletricidade. O ferro é metal, então você conclui que ele conduz eletricidade. Pelo processo da dedução parte-se do que já está estabele- cido como verdade ou como princípio geral para que se submeta a ele todos os casos demonstrados em seguida. Ou seja, parte-se do geral para que ele se aplique a todos os casos particulares iguais. Neste caso o geral (conceito universal) desemboca no particular (determinada parte da realidade, objeto particular de estudo). O esquema pode ser demonstrado assim: Geral Particular Vejamos um outro exemplo: temos as leis da física newto- niana e um caso particular a ser estudado, como o tempo e a velocidade de um astro para efetuar o movimento de rotação ao
  48. 48. Eugênio C. Ribeiro 52 redor de seu eixo; aplica-se as leis gerais da física newtoniana a este ou outros casos particulares iguais, obtendo resultado verda- deiro ou não. Isto pode ser expresso também de uma forma lógi- ca simples: Todos os X são Y (Teoria geral) A é X (caso particular) Logo,Aé Y(dedução) Mas isto é uma coisa por demais óbvia, não? Não vou discutir aqui a obviedade ou não do processo de pensamento envolvido. A questão é que erramos na maioria das vezes em nossos julgamentos racionais por falharmos na execu- ção destes dois processos. A indução, por exemplo, se realizada de forma errada pode tornar-se a mãe de muitas crenças e su- perstições e ser a mantenedora de muitos preconceitos. A dedu- ção, por sua vez, se realizada de forma errada, pode levar à distor- ção das idéias ou teorias que aplicamos a nossa vida. O que nos resta então é nos imbuirmos deste conhecimen- to aqui transmitido e começar desde já o exercício de correção de nosso pensamento. Para entendermos melhor o raciocínio mister se faz estu- darmos como fazemos a padronização lógica das coisas. Para a padronização lógica usamos os seguintes quantificadores: - Na apresentação de Nenhum ......... tem-se 0% - Na apresentação de Alguns ............ tem-se de 1% a 99% - Na apresentação de Todos .............. tem-se 100% Erramos muitas vezes quando padronizamos como ne- nhum ou como todos na presença de 1% a 99%. Um soldado trai o batalhão e vaticinamos: todos os soldados são traidores. Quinze alunos numa turma de trinta são relapsos nos estudos e dizemos “os alunos de hoje são relapsos nos estudos”. E assim vai. É necessário também notar que a abrangência dos termos influi em nossos raciocínios.
  49. 49. Pensar não dói e é Grátis 53 Tenho o Ka, tenho o automóvel e tenho a marca Ford. Qual o mais abrangente? Quando trabalhava com filosofia para crian- ças no estilo do Professor Mathew Lippman, aprendi a usar o seguinte esquema para este estudo: Veja bem o que posso dizer a partir do círculo menos abran- gente para o mais abrangente: “Todos os Ka são Ford e todos os Ford são automóveis”. Fazendo uso do verbo existir já não posso dizer o mesmo a partir do círculo mais abrangente para o menos abrangente. Comece a verificar se está usando a padronização lógica de forma correta, se está fazendo uso da compreensão da abran- gência dos termos ou conceitos em suas conversas, em suas pes- quisas ou em sua profissão. Agora podemos continuar nossos estudos sobre o raciocínio. O modo de raciocínio mais comum é conhecido por Silo- gismo. Silogismo é um raciocínio que tira uma conclusão de duas proposições dadas. Vejamos o exemplo: Todas as tainhas são peixes (1ª premissa) Os peixes são seres vivos (2ª premissa) Logo, as tainhas são seres vivos (conclusão) A primeira premissa também é chamada de premissa mai- or, devido à sua abrangência ser maior. A segunda premissa tam- bém pode ser chamada de premissa menor, porque sua abran- gência é menor. AUTOMÓVEL FORD KA
  50. 50. Eugênio C. Ribeiro 54 Você pode perceber que nas duas premissas há um termo que repete. Este é chamado de “termo médio”, aquele que esta- belece uma ligação entre as premissas. No exemplo acima é o conceito “peixes”. Descobri um jeito de saber se a forma do raciocínio silo- gístico está correta, e vai favorecer uma conclusão correta. Vamos transformar os termos do silogismo em símbolos, fazendo ele se tornar parecido a uma conta matemática: T P Todas as tainhas são peixes (1ª premissa) P V Os peixes são seres vivos (2ª premissa) T V Logo, as tainhas são seres vivos (conclusão) Substituindo os termos pelas letras simbólicas (podia ser qualquer letra), vamos ter: T P P V Logo T V Você corta os termos repetidos P e vai sobrar T e V como conclusão. Agora veja bem a descoberta: com raras exceções, o termo médio tem que estar na diagonal, caso contrário não haverá uma ligação entre as premissas de forma satisfatória para uma boa conclusão. Vejamos o exemplo abaixo: Todos os brusquenses são sulistas Os brusquenses são catarinenses Logo, os sulistas são catarinenses Veja com os símbolos:
  51. 51. Pensar não dói e é Grátis 55 B S B C Logo S C O termo médio ficou um embaixo do outro, sem estar na diagonal e a conclusão se deu errada. Pode acontecer também que nem sempre num silogismo a premissa maior fica explícita. Como no exemplo: Uma mãe chega para a vizinha e diz: Não sei mais o que fazer com meu filho, ele é muito peralta. A vizinha diz: não se preocupe minha amiga, ele é uma criança. Observe que a premissa geral “todas as crianças são peral- tas” ficou implícita no dizer da vizinha. Tentando ainda pensar de forma correta para sairmos da Matrix, não podemos deixar de nos depararmos com o problema das falácias. Ninguém gosta de ser enganado. Ninguém gosta de ser vítima da mentira. Mentira é uma informação falsa. Falácia, por sua vez, é um argumento falso, mal direcionado, mal conduzido. Falácias (ou sofismas como muitas vezes são chamados) são raciocínios enganosos. Raciocínios, que ao serem propostos, levam ao engano. Qualquer pessoa bem treinada pode se livrar das armadilhas das falácias. Mas há um problema com este ensi- no. Ao mesmo tempo em que a pessoa aprende a fazer uso deste conhecimento para se livrar das falácias, ela aprende também a fazer uso delas para enganar as pessoas. Cabe a cada um ter o bom senso e a ética para usar este conhecimento de forma cons- trutiva. Mas não podemos deixar de ensinar às pessoas este co- nhecimento, visto que é por meio das falácias que na maioria das vezes o povo é enganado pelos meios de comunicação e pelos dirigentes políticos. Falácias muitas vezes são apresentadas em discursos, na tentativa de persuadir um ouvinte ou um leitor, mediante a pro- moção de um engano ou desvio, porque suas estruturas de apre-
  52. 52. Eugênio C. Ribeiro 56 sentação de informação não respeitam uma lógica correta ou ho- nesta, pois foram manipuladas certas evidências ou há insufici- ência de prova concreta e convincente. Uma afirmação falaciosa pode ser composta de fatos verdadeiros, mas sua forma de apre- sentação conduz a conclusões erradas. Brincando um pouco de Casseta & Planeta, se você está sendo enganado por discursos falaciosos, fique tranqüilo: “seus problemas se acabaram!” Chegou agora este kit para você se pro- teger de políticos capciosos, vendedores oportunistas e de vizi- nhos intimidadores, desejosos de manipular o pensamento dos seus ouvintes, enganando-os com argumentos falsos. Vamos verificar na prática os problemas que se advêm quando não sabemos trabalhar bem com a padronização lógica, com o silogismo, com os processos de indução e de dedução. 1) Falácia da Autoridade É a falácia em que se convence pelo peso psicológico da autoridade de alguém. Por isto mesmo às vezes ela é conhecida pela expressão latina Argumento ad vericundiam. O modo mais conhecido desta falácia é muito usado pelos meios de comunica- ção, principalmente em propagandas, quando se usa a autorida- de de uma pessoa em um determinado campo para corroborar a eficácia de algo fora daquele campo. Como exemplo, podemos citar o Pelé fazendo propaganda do Vitasay. O Pelé é uma sumida- de nos esportes, mas não é competente no que tange à área far- macêutica para corroborar eficazmente o poder de tal vitamina. Há uma outra vertente desta falácia, também muito co- nhecida. Vem um brasileiro proferir palestra em nossa Universi- dade sobre Bioética. É feito o anúncio sobre o evento, apresen- tando o currículo do palestrante, que só fez suas pesquisas no Brasil. Agora imagine a situação em que nossa Universidade con- vida um doutor de Harvard para proferir palestra sobre o mesmo assunto, apresentando com antecedência o currículo do mesmo.
  53. 53. Pensar não dói e é Grátis 57 Segundo minhas experiências em eventos deste tipo, é quase de apostar que a palestra do doutor que vem de Harvard terá um quorum bem maior. Por que? Ora, nós tendemos a idolatrar a pessoa considerada autoridade no assunto e menosprezar aquele que, em nosso ponto de vista, não o é. Uma outra vertente ainda desta falácia é conhecida como argumentum ad antiquitam. É o erro de afirmar que algo está “correto” ou “bom” apenas porque é tradicional, antigo ou foi ratificado por alguém num cargo de mando. Exemplo: “Marado- na é um jogador melhor que Pelé. Acredito nisso porque o chefe do meu pai disse que é”. Só assim mesmo para alguém acreditar numa coisa dessa. Ou então: “Nós sempre fizemos assim...”. 2)Falácia do círculo vicioso Nesta falácia ocorre a tentativa de provar uma conclusão com base num ponto de partida não demonstrado. É o erro de tentar usar repetição ou reiteração como evidência ou prova numa discussão. Ocorre a argumentação em círculo (circularidade), de forma tendenciosa. Muitas vezes aparece com o nome de tauto- logia ou apresentada pela expressão latina petitio principii (peti- ção de princípio). Vamos ver um exemplo usando a proposta de um deter- minado ministro da Fazenda. “A inflação diminui o poder dos salários; temos que aumentar os salários, mas fazendo-o, teremos que aumentar os preços para pagá-los, o que aumentará a inflação”. Logo, ele não aumenta os salários. Agora um outro exemplo, talvez mais compreensível. “O seu trabalho acadêmico é inferior porque é simplesmente ordinário. Porque é ordinário é simplesmente inaceitável. E, uma vez que seu trabalho não presta, nós não devíamos aceitá-lo”.
  54. 54. Eugênio C. Ribeiro 58 Veja que o argumento já começa estabelecendo o trabalho do aluno como inferior, e por isto não deve ser aceito, mas não apresenta os motivos para ser tratado como inferior. “Você jamais será feliz. Felicidade não existe”. Este tipo de falácia também é muito usado no campo reli- gioso para corroborar crenças que de outra forma não se manteri- am. A: “Moisés foi divinamente inspirado”. B: “Como você sabe?” A: “Porque a Bíblia disse que foi”. B: “Mas como vou saber se a Bíblia é fidedigna?” A: “Porque foi escrita por Moisés, que foi divinamente ins- pirado”. 3) Falácia da causa comum Nesta falácia afirma-se que um fato é a causa de outro, sem considerar que há um terceiro fato que causa os dois primei- ros. Eis um exemplo bem claro: “A qualidade de ensino é ruim porque os professores são despreparados”. Ora, aqui estão sendo ignoradas outras causas para a péssima qualidade do ensino. 4) Generalização apressada Nesta falácia se conclui uma lei geral de um único caso particular. Ocorre o erro de afirmar que o que é verdade em algu- mas instâncias deve ser verdade em todas ou em quase todas as instâncias, ou de tentar estabelecer uma regra geral após achar algumas poucas evidências. É tentar caracterizar uma grande po- pulação a partir de evidência de poucos dos seus membros. Mui- tas vezes chamada em latim de secundum quid. Dá-lhe exemplo:
  55. 55. Pensar não dói e é Grátis 59 “A medicina é inútil. Meu pai gastou um rio de dinheiro com médicos e morreu doente”. (Sem comentários). “Entrevistei cem pessoas em duas favelas de São Paulo sobre seus hábitos alimentares. Acredito que as minhas conclusões dão um retrato fiel da situação alimentar da população favelada na cidade”. (Numa cidade com tantos focos de pobreza não é possível que haja mais variedade de respostas e assim outras conclusões?). 5)Falácia do Equívoco Nesta falácia se utiliza palavra equívoca, com vários senti- dos. Ou seja, ocorre uma mudança ou modificação no sentido de uma palavra; o que é verdade na primeira definição não é neces- sariamente verdade na segunda. Ex.: “Esse prisioneiro não agiu contra a lei. Afinal, prisioneiro não tem liberdade, e sem liberdade não se pode agir...” Percebemos aqui que a palavra liberdade foi usada em dois sentidos muito diferentes. 6)Dicto simpliciter Esta falácia é baseada na generalização não qualificada. Ou seja, faz-se afirmações sem apresentar evidências convincentes. “O exercício é bom, portanto, todos devem se exercitar”. Será verdadeiro isto? Tem pessoas que têm recomendação médica de não se exercitarem por motivos de saúde delicada. “Todo mundo sabe que todos os brasileiros são apaixonados por café, carnaval, praia e futebol”. Sabemos que no Brasil há pessoas de diferentes gostos e
  56. 56. Eugênio C. Ribeiro 60 costumes, cujo caráter individual excluem café, carnaval, praia e futebol. Portanto, isto não procede totalmente. 7) Post Hoc ou falsa causa Esta falácia às vezes é chamada de depois do fato. Nela, considera-se como causa de um acontecimento um fato que ape- nas o antecedeu. É um costume de nossa mente acreditar que porque um evento precede outro, o primeiro deve causar o se- gundo. “O passeio de Maria não deu certo, pois ao sair de casa ela pas- sou embaixo da escada”. “Estávamos perdendo dinheiro na firma há muitos anos. E aí, eu virei gerente. Agora estamos lucrando. A razão é óbvia”. 8) Envenenar o poço Nesta falácia costuma-se atacar a pessoa ao invés do argu- mento. Procura-se desacreditar o oponente, transferindo a aten- ção da idéia em discussão para a pessoa associada a ela. Também chamada Ad hominem, significando atacar o homem. Vejamos este exemplo: um congressista de um partido po- lítico da esquerda diz: “é importante limitarmos a destinação de recursos para pesquisas em armamentos, visto que há outras pri- oridades no país”; um outro congressista, já de um partido de direita contrapõe: “não podemos levar em conta a proposta de nosso colega, visto que ele é da ‘esquerda’ e os políticos da ‘es- querda’ foram os primeiros a apoiarem o início de projetos arma- mentistas”. É notório que o segundo orador não procurou provar a falsidade do argumento do primeiro, mas sim procurou desacre- ditar o oponente trazendo à tona uma sua atitude do passado. Agora vejam esta:
  57. 57. Pensar não dói e é Grátis 61 “o que ele afirmou está totalmente errado; este cara é um fra- casso nos estudos” 9)Falácia da pergunta complexa Esta falácia consiste em se fazer uma pergunta complexa e incisiva para o interlocutor, de tal forma que se veja impelido a aceitar a nossa sugestão de fala. “Você está arrependido?” “Bem, estou” “Então você confessa que roubou” 10) Recurso à força Esta falácia também às vezes é chamada pela expressão latina Argumento ad baculum. Recorre-se à força do poder hierár- quico de quem fala ao invés da força do argumento em si. Talvez um exemplo bem real: Um patrão aos funcionários: “bem, a proposta de aumen- to salarial pode ser justa, mas há muitas pessoas desempregadas que trabalhariam pelo que vocês ganham”. 11) Da cooptação Nesta falácia, faz-se um elogio, visando a sedução da pes- soa para concordar com o argumento proposto. “Todos vocês já sabem que.../ O Sr., Que é uma autoridade no assunto, vai concordar comigo que... 12) Ad Misericordiam Nesta falácia o argumento é dirigido às emoções da pes-
  58. 58. Eugênio C. Ribeiro 62 soa, ao sentimento de pena. Procura-se convencer o ouvinte a acreditar numa afirmação baseada no seu sentimento de comise- ração. Eis alguns exemplos: “Membros do júri, o réu nunca poderia ter cometido esse cri- me. Afinal de contas, ele tem esposa e seis filhos.” “Este Presidente não pode estar envolvido em corrupção, quan- do criança e jovem passou por muita penúria na vida”. Algumas vezes a pessoa usa mais de uma falácia num úni- co conjunto de pensamentos. No caso que cito abaixo, foram usa- das as falácias da autoridade e a da petição de principii. “Advogados são honestos. Sua integridade é comprovada pelo livro Homens e a Lei, obra elogiada sem reservas por sua fide- dignidade pelo Professor Ortiz, inquestionavelmente digno de confiança, uma vez que ele mesmo é um jurista proeminente”. Bom, chega de falarmos em falácias. Há muitas outras fa- lácias que vamos ter que deixar para outra oportunidade. Dá para escrever um livro somente sobre elas. Aqui, tive que me ater ape- nas àquelas consideradas pela Tradição Filosófica como as mais importantes. Com o que foi apresentado neste capítulo, você já tem um ótimo instrumental para trabalhar em sua saída da Matrix.
  59. 59. 63 CAPÍTULO3 AAVENTURADOPENSAMENTOII Tudo o que é compreendido está certo (Oscar Wilde). Em Busca do Conhecer A principal aventura do pensamento é a forma como ele se traduz em conhecimento. É por demais necessário entender a na- tureza, o objetivo e a finalidade do conhecimento, pois ele vem a ser uma das formas mais profícuas que o homem possui para se relacionar com o mundo da realidade. E para conhecer bem, mister se faz aprender as leis do pensamento. Os atributos do mundo me assombram; o fato de eu poder conhecê-los também me assombra. Porém, o que me assombra mais ainda é a possibilidade de eu chegar a conhecer o processo por meio do qual eu conheço e os mecanismos que uso para tal proce- dimento. Para entender este processo de conhecimento e seus mecanismos eu acabo usando o próprio processo de conhecer e seus mecanismos. Não é inquietante? Conhecemos as coisas e na maioria das vezes de uma forma bem capenga. O nosso conhecimento tem muitas falhas. Ao bus- carmos conhecer o processo de conhecimento estas falhas não dei- xam de aparecer. É um ciclo vicioso, com certeza. Não obstante a presença deste ciclo vicioso o estudo do pro-

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