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    Sexualidade
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          Ícone Comunicação Visual - (61) 3563.5048

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                               Revisão
                        Geovani de Souza Costa

                        Impressão e Acabamento
                         Ícone Editora e Gráfica




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Moreira , Paulo César
    Aprender com a sexualidade/ Paulo César Moreira. – Brasília: Ícone
Editora e Gráfica, 2008.

      164 p. ; 21 cm

ISBN xx-xxxxx-xx-x

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                                                               CDU xxx.xx
AGRADECIMENTOS




              A Deus, que me deu uma vida plena de amor e
         de grandes realizações e repleta de lembranças in-
         vejáveis.
              Aos meus pais Levy Pires Moreira e Wanda da
         Cunha Moreira, pelo dom da vida e por acredita-
         rem e incentivarem os meus projetos, sem vocês não
         chegaria onde cheguei.
              Ao meu irmão Carlos Alberto Moreira, pelo
         carinho e respeito.
              Ao Professor Doutor Éder Alonso Castro, por
         sua amizade, principalmente. Pela sua compreensão
         apoio e credibilidade, por ter sido um bom amigo
         ouvinte dos momentos difíceis pelos quais passei,
         pela alegria de trabalharmos juntos, todo o meu res-
         peito e admiração.
               À amiga Eliana Araújo(Lia), defensora do
         meio ambiente e companheira de longas jornadas,
         incentivadora e amiga de todas as horas.
               A vocês, o meu especial carinho, respeito e
         muito obrigado!
Aprender com a Sexualidade




SUMÁRIO



A IMPORTÂNCIADA ORIENTAÇÃO SEXUAL
NA FORMAÇÃO DA SEXUALIDADE DA CRIANÇA ....... 11
Resumo ................................................................................ 
Introdução......................................................................... 
Os Objetivos da Educação Sexual ................................. 
A Estratégia da Educação Sexual ................................ 
Os Responsáveis pela Educação Sexual ........................ 
A Ética na Orientação Sexual ....................................... 
A Sociedade e a Formação Sexual .................................. 
Consirações Finais............................................................ 
Referências Bibliográficas ............................................. 

ORIENTAÇÃO E EDUCAÇÃO SEXUAL ..................... 29
Resumo ................................................................................ 
Introdução......................................................................... 
Os Instrumentos da Educação Sexual .......................... 
As Falsas Palavras ............................................................ 
A Moral .............................................................................. 
A Educação ........................................................................ 
A Responsabilidade .......................................................... 
A Inocência ........................................................................ 
A Sexualidade Hoje e os Conflitos da
Sociedade Moderna .......................................................... 
O Sexo como Mercadoria ................................................ 
Conclusão .......................................................................... 
Referências Bibliográficas ............................................. 


                                                                                         7
Paulo César Moreira


A ORIENTAÇÃO SEXUAL NO CONTEXTO ESCOLAR . 47
Resumo ................................................................................ 
Introdução......................................................................... 
Conceitos Teóricos sobre Sexo e Sexualidade ............. 
Desenvolvimento Psicossexual na Infância ................. 
Educação Sexual X Orientação Sexual ........................ 
Conclusão .......................................................................... 
Referências Bibliográficas ............................................. 

O PERFIL DO ORIENTADOR SEXUAL
NA ESCOLA: SUA POSTURA E SEUS PROCEDIMENTOS 71
Resumo ................................................................................ 
Introdução......................................................................... 
Quem é o Orientar Sexual na Escola? .......................... 
Abordagem pedagógica .................................................... 
Orientação Sexual como Tema Transversal ................ 
Manifestações da Sexualidade na Escola .................... 
Objetivos Gerais da Orientação Sexual
para o Ensino Fundamental ............................................ 
Abordagem com os Pais e com a Comunicade Escolar 
A Sexualidade e a Mídia .................................................. 
Conclusão .......................................................................... 
Referências Bibliográficas ............................................. 

A EDUCAÇÃO SEXUAL NO ENSINO FUNDAMENTAL .. 99
Resumo ................................................................................ 
Introdução......................................................................... 
A Educação Sexual na Escola ...................................... 
Uma Educação Sexual Verdadeira .............................. 
A Gravidez na Adolescência na Perspectiva
dos Profissionais de Saúde ............................................ 
Sexualidade Humana: Verdade e Significado ............ 
O Direito ao Controle à Maternidade ..................... 
Seleção de Métodos ....................................................... 
Sexo se Aprende na Escola............................................ 
Conclusão ........................................................................ 
8
Aprender com a Sexualidade

Referências Bibliográficas .......................................... 

A ORIENTAÇÃO SEXUAL SOB O PONTO
DE V ISTA DA PSICOPEDAGOGIA ...........................113
Resumo .............................................................................. 
Introdução....................................................................... 
Adolescência e Puberdade ............................................ 
Definição dos Termos..................................................... 
Atividades Integradas ................................................... 
A Escola Ajuda a Romper Tabus ................................... 
Conclusão ........................................................................ 
Referências Bibliográficas ........................................... 

SEXUALIDADE NOS PORTADORES
DE NECESSIDADES ESPECIAIS..............................137
Resumo .............................................................................. 
Introdução....................................................................... 
A Infância… O Outro Ponto de Partida ................... 
Sexualidade dos Deficientes Mentais ........................ 
O Adolescente com Deficiência
Mental e sua Sexualidade ............................................. 
Doenças Hereditárias do
Metabolismo e Sexualidade .......................................... 
O Desenvolvimento Sexo-Afetivo
no Jovem com Paralisia Cerebral................................. 
O Desenvolvimento Sexo e Afetivo
na Síndrome de Down .................................................... 
Contracepção e Deficiência Mental .......................... 
Princípios e Prática da Educação Sexual .................. 
Considerações Finais ..................................................... 
Referências Bibliográficas ........................................... 




                                                                                        9
Aprender com a Sexualidade



A IMPORTÂNCIADA ORIENTAÇÃO SEXUAL
NA FORMAÇÃO DA SEXUALIDADE DA
CRIANÇA
RESUMO

    Toda pessoa deve ser informada sobre o comportamento se-
xual para que encontre condições de adaptação ao novo modelo
de viver, uma vez que desde o nascimento até a senectude o in-
divíduo sofre profundas transformações. Para que este processo
não leve a anomalias da natureza é necessário que os pais e os
mestres falem claramente às crianças, a fim de que estas saibam,
desde a idade mais tenra, que não devem contrair certos hábitos.
A desorientação e a má informação sobre sexo geram persona-
lidades doentias. É preciso corrigir essa distorção, alterando a
escala de valores que coloca o sexo como tabu. Integrando o pro-
cesso educativo total, a chamada educação sexual desenvolve-se
desde que o indivíduo nasce, através das influências do meio. Se
os pais cumprirem o seu dever, o problema da educação sexual
na escola será inexistente. Mas, como em geral não o cumprem,
o problema existe nas escolas, donde a necessidade de empenha-
rem os mestres na realização eficiente de tarefas negligenciadas
nos lares de seus alunos e se não de todo negligenciadas, ao me-
nos levadas a efeito incompletamente.

    Palavras-Chaves: Educação, sexualidade, educação, edu-
cador, orientação.

INTRODUÇÃO
    Este artigo centra-se no aluno vivo, inquieto e participante,
em um educador que não teme suas próprias dúvidas, e em uma
escola aberta, viva e ciente de suas funções mediante a sociedade.
                                                               11
Paulo César Moreira

Neste sentido, é preciso repensar o processo educacional. É pre-
ciso preparar a pessoa para a vida e não para o mero acúmulo de
informações. A postura acadêmica do educador não está garan-
tindo maior mobilidade à agilidade do aluno (tenha ele a idade
que tiver). Assim, é preciso trabalhar o aluno como uma pessoa
inteira, com sua afetividade, suas percepções, sua expressão, seus
sentidos, sua crítica, sua criatividade.
     Algo deve ser feito para que o aluno possa ampliar seus re-
ferenciais do mundo e trabalhar, simultaneamente, com todas
as linguagens (escrita, sonora, dramática, cinematográfica, cor-
poral, etc). Neste contexto, inseri-se a sexualidade, que em ter-
mos de senso comum, é quase sempre definida como possuindo
dois atributos essenciais: naturalidade e liberdade. Assim, já que
todos têm sexo e ele é instintivo, pertenceria à esfera da natu-
reza; mas, ao mesmo tempo, o sexo é apontado como algo que
se concretiza na vida privada, de acordo com escolhas pessoais
exercidas livremente. No entanto, uma análise histórico-cultural
superficial revela que não há uma atividade humana que tenha
sido, ao longo dos tempos, mais condicionada a normas gerais,
mais codificadas socialmente que a sexualidade.
     Não se pode, pois, negar que existe um caráter eminentemente
social nas condutas sexuais e no interesse coletivo que os cercam.
Apesar disso é em torno do mito da naturalidade e da liberdade
que se organizam as ideologias sexuais, que se formam e se trans-
formam ao sabor dos jogos e das pressões das várias forças sociais.
Todos os projetos revolucionários incluem em seu programa a
perspectiva de uma maior liberdade sexual, dentro da expectativa
de uma ampla liberdade para a humanidade em geral.
     Assim sendo, o objetivo principal deste trabalho é analisar a
questão da educação sexual nas escolas, tendo como base a pes-
quisa bibliográfica. Buscou-se abordar a importância da educa-
ção sexual, dentro da fase da adolescência, partindo da hipótese
de que a ausência de tais informações poderá ocasionar uma série
de problemas aos adolescentes e aos pais, considerando que, para
que haja um desenvolvimento normal da sexualidade, é preci-
so que ocorra uma orientação apropriada para os adolescentes,
12
Aprender com a Sexualidade

esquecendo os tabus e utilizando uma linguagem adequada a
adolescentes.

OS OBJETIVOS DA EDUCAÇÃO SEXUAL

     De acordo com Bernadi (1985), nas escolas públicas brasi-
leiras, pouco se faz em termos de educação sexual. Por educação,
em sentido restrito, entende-se todo aquele processo com o qual
se molda o aluno de maneira a prepará-lo para viver em harmo-
nia com as regras codificadas da sociedade na qual está inserido
(Piletti, 1991). Provavelmente a maioria dos educadores está de
acordo com esta definição, ou pelo menos age como se estivesse
de acordo. Isto significaria que se ensina às pessoas, especialmen-
te às crianças e aos jovens, que as regras codificadas da sociedade
estão bem como estão, devendo as mesmas adaptar-se a elas.
     Para Cunha (1988) o objetivo da educação sexual que diz
respeito a todos, centra-se no controle da sexualidade. O com-
portamento sexual nas escolas, numa tentativa de compreender
melhor como se articulou, o modelo de transformação a que os
educadores têm submetido seus educandos, sendo que a con-
dição conjugal é a única na qual o exercício da sexualidade é
consideração lícito, coloca-se em evidência um problema de au-
to-repressão para aqueles que não pertencem aquela condição:
jovens e adolescentes, solteiros e noivos, militares, prisioneiros,
imigrantes, etc.
     Naturalmente não é simples convencer milhões de pessoas a
viverem em castidade, mas os educadores acabaram encontran-
do um bom sistema: dessexualizar o indivíduo. Geralmente as
lições ou os “encontros” dedicados à educação sexual percorrem
dois caminhos: o da informação biológica e do elenco de nor-
mas, preceitos morais, juízos sobre o que é lícito. Assim pode-se
influenciar a postura frente à sexualidade, até que esta seja rejei-
tada de maneira mais ou menos radical.
     Explicar minuciosamente às crianças o ciclo da ovulação, a
espermatogênese, a fecundação, o alinhamento do óvulo fecun-
dado e seu sucessivo desenvolvimento, eqüivale a fornecer-lhes
                                                                13
Paulo César Moreira

uma imagem da sexualidade humana não apenas atrozmente
fastidiosa, mas também muito próxima aquela das funções re-
produtivas animais e vegetais. Muitas vezes uma lição de edu-
cação sexual é extraordinariamente semelhante a uma lição de
botânica. Mas apesar de tudo permanece sempre, no fundo da
argumentação, o mistério do prazer.
     A dessexualização das crianças e jovens produz, enfim, um
fenômeno marginal porém importante para a sociedade conser-
vadora: a docilidade e maleabilidade dos educandos. Destruída a
idéia do prazer, é fácil impor a idéia do “dever”. Isto é, do sacri-
fício, da obediência, da disciplina, da resignação. Reich (op. cit.
Bernardi, 1985), escreveu na sua Revolução Sexual:

                         “A revolução não pode ter como ideal a
                         besta de carga ao invés do touro, o capão
                         ao invés do galo. As pessoas já foram besta
                         de carga por tempo suficiente. Os castrados
                         não se batem pela liberdade. Eis porque
                         continua-se astutamente promovendo uma
                         educação sexual castradora e transformando
                         os jovens em tantos outros bois. Assim não
                         se correm riscos”.

    Este autor argumenta que desde o instante do nascimento a
criança é submetida a uma série de constrangimentos praticados
com violência que são chamados de amor, repetindo o que acon-
teceu com sua mãe e com seu pai, com seus genitores, e com os
genitores de seus genitores.

A ESTRATÉGIA DA EDUCAÇÃO SEXUAL

     Qualquer manobra educativa, inclusive no campo sexu-
al, funda-se sobre três princípios: os pequenos têm tudo para
aprender, e os adultos tudo para ensinar; os pequenos devem
nutrir uma confiança cega nos adultos, independentemente do
comportamento destes últimos; a conduta dos pequenos de cor-
responder àquela desejada e prescrita pelos adultos. Para manter
14
Aprender com a Sexualidade

os limites da benevolência, pode-se deduzir que a presunção dos
adultos é verdadeiramente desmensurada. A criança age sem-
pre segundo uma lógica sua, mas infalível; o adulto age quase
sempre fora da lógica humana, e muitas vezes fora de qualquer
lógica (Correio Braziliense, 1996).
     Em síntese, o adulto quer permanecer o mais adulto possí-
vel, e quer que o menor permaneça menor o mais possível. Isto
vale também para o que concerne à sexualidade. E talvez numa
medida ainda maior, pelo simples motivo de que o adulto tem
medo da sexualidade infantil e juvenil porque estas colocam em
crise a sua sexualidade que ele adora chamar de madura.
     Reconhecer de modo concreto, e não abstratamente como se
costuma fazer, a sexualidade das crianças e dos jovens, reconhe-
cer exigências e direitos, admitir que se trata de uma sexualidade
autêntica e não de uma nebulosa formulação hipotética, signi-
fica ter de rever não só a conduta geral frente aos menores, mas
também o próprio comportamento sexual do adulto, a começar
pela postura frente ao prazer. Significa recolocar em discussão
toda a fundamentação sexofóbica do nosso sistema, e por isso
mesmo o próprio sistema (Lima, 1994).
     O adulto tende a colocar-se como único ser sexuado e ten-
de a adiar a sexualização de seus sucessores. A estes, enquanto
permanecem na área da infância e da juventude, não só é negado
o exercício da sexualidade mas, até onde é possível, a própria
sexualidade. Certo, aos adolescentes não se nega uma identidade
sexual, mas freqüentemente procura-se problematizá-la, diluí-
la em mil interpretações “científicas”, fazer dela alguma coisa
complicadíssima e, “imatura” (Tiba, 1986). Assim o adulto terá
sempre um modo de marginalizá-la e reprimi-la, seguindo uma
teoria educativa qualquer. Poderá, em suma, removê-la, distan-
ciá-la e, na prática, ignorá-la. Quanto às crianças a coisa é ainda
mais simples: se reconhece, mesmo que apenas verbalmente, a
sua sexualidade, e então passa-se a categorizá-la, a enquadrá-la
em um esquema qualquer, a filosofar sobre.
     Na maior parte dos casos não existe nenhuma intenção de
educar para o exercício da sexualidade, mas unem-se todos os
                                                                 15
Paulo César Moreira

esforços numa educação para a repressão da sexualidade. O que
é seguro, é que hoje não se faz nada em termos de uma educação
sexual autêntica. Apenas fala-se dela e é o bastante. E quem
mais fala, menos faz.

OS RESPONSÁVEIS PELA EDUCAÇÃO SEXUAL

     Os pais fundamentam a instituição familiar e propiciam aos
seus filhos a participação da instituição escolar, que é um dos di-
reitos da criança, o de receber educação e instrução. A instituição
família está deixando de educar sexualmente seus filhos, passan-
do a responsabilidade para a escola. Isto ocorre devido a falta de
contato dos pais com as crianças. Esta preocupação com a educa-
ção sexual tem levado os orientadores educacionais a trabalharem
para a formação integral do educando.
     Uma das grandes preocupações dos pais é a vida sexual dos
filhos. Só que hoje em dia, ela não é mais tratada da mesma for-
ma que há algumas décadas, quando este assunto era resolvido
com uma grande dose de repressão e as crianças e jovens eram
mantidos no desconhecimento e na ignorância.
     Embora nem todos os pais consigam ainda conversar sobre
sexo com os filhos, mas já aumentou bastante o número dos
que se sentem à vontade para esclarecê-los e orientá-los. O ideal
seria que todos os pais tivessem liberdade consigo próprios para
poderem transmitir essas informações fundamentais aos filhos,
mas quando não é o caso, é feita uma transferência de respon-
sabilidade para terceiros.

     A este respeito, Zagury (1996, p. 168) afirma que:

                        “Algumas pessoas acham perigoso
                        conversar porque acreditam que desperta
                        o adolescente precocemente, entretanto
                        vários estudos recentes em escolas inglesas
                        que tinham em seu currículo a educação
                        sexual, verificaram que seus alunos não

16
Aprender com a Sexualidade

                             tiveram iniciação sexual mais precoce que
                             os outros, ao contrário, nessas escolas a
                             iniciação dos jovens ocorria mais tarde.
                             É muito importante que entendamos que a
                             adolescência é exatamente o momento em
                             que há o despertar natural do sexo. É da
                             vida, é da idade. Os hormônios estão a mil,
                             a pele está elétrica, a beleza da idade atrai.
                             É muito importante, portanto, conversar,
                             conversar, conversar, conversar...esclarecer
                             – para diminuir os riscos.”

   A tese de Zagury é reforça pelo Schubert (1993, p.28), se-
gundo o qual
                             “A escola é o cenário mais apropriado
                             para o desenvolvimento de um programa
                             de educação Sexual porque, além da ação
                             direta que exerce sobre os educandos, além
                             da capilaridade com que atua na sociedade,
                             indiretamente, incentiva a própria família
                             a desempenhar o papel que de direito e
                             dever, lhe é destinado na educação integral
                             do jovem.”

   Outra colocação interessante a este respeito é defendida por
Suplicy (1988, p. 33), que diz:

                             “Muitos pais se acham inferiores para
                             conversarem sobre sexo com seus filhos
                             a nível cultural, pois foram educados em
                             outra época e acham que a educação que
                             receberam não foi tão boa para eles e
                             desejam que aconteça de outra forma para
                             com seus filhos”.

    Em suma, a escola e a família devem completar-se na edu-
cação sexual dos seus educandos proporcionando o total conhe-
cimento sobre sexualidade de maneira que não haja constrangi-
                                                                        17
Paulo César Moreira

mento e sim um aperfeiçoamento da educação e da orientação
que lhe é devida.
    Quando se parte da convicção de que é necessário educar a
criança para que se comporte bem, pressupõe-se evidentemente
que, sem educação, ela se comportaria mal. O educador apre-
senta, de fato, esta característica fundamental: ele é aquele en-
carregado de corrigir a natureza humana. Mas por outro lado,
contraditoriamente, ele é aquele que defende a natureza humana
da corrupção.
    Deve-se deduzir que para o educador o educando é uma
mistura de perversão e inocência. Sobretudo no que toca à sexu-
alidade a criança é seguramente perversa, posto que se deixada
sozinha executaria ações reprováveis e seria arrastada pela libi-
do e pela destruidora procura do prazer. Mas a criança é tam-
bém inocente, já que não conhece ainda a torpe licenciosidade
do mundo. O educador se debate entre a criança luxuriosa e a
criança assexuada e tende a acentuar o vício e a negar a sexuali-
dade dos pequenos.
    A antilógica do educador sexual esbarra frequentemente no
absurdo (Cunha, 1988). Constata-se diariamente que quem se
dedica à educação sexual preocupa-se sobretudo, em negar a se-
xualidade, tanto a sua como a dos outros. O educador não deve,
por exemplo, envolver-se afetivamente em seu trabalho, não deve
deixar que sua fraqueza frente às tentações da carne suscite dú-
vidas, deve permanecer distante e invulnerável. Seus costumes
devem ser íntegros, bem como severos, de forma a poder conse-
guir a aprovação de todos. O educador deve manter-se acima de
qualquer suspeita, portanto espoliado de propensões eróticas.
    Não basta que o educador tenha eliminado a própria sexu-
alidade. Espera-se dele que sufoque também a sexualidade dos
educandos. Desde que fale sobre autonomia e fisiopatologia está
tudo bem, e melhor ainda se expuser normas que confundam a
sexualidade (Cunha, 1988). Dificilmente se tolera que o educa-
dor introduza um discurso sobre a essência do problema, que é o
binômio prazer-amor. Uma sexualidade agradável, alegre, lúdica
e espontânea traz muito medo porque através dela todos conse-
18
Aprender com a Sexualidade

guem perceber, ainda que nebulosamente, que a desestruturação
de todo o aparelho social hierarquizado começa aí.
      Ao educador cabe propor uma sexualidade biologizada,
anódina e sombriamente enfumaçada pelo complexo de culpa e
pelo medo. Por outro lado deve apresentar-se como defensor do
educando contra o perigo sexual, que pode ser de ordem física,
moral ou psíquica, segundo as interpretações preferidas por cada
um. No mais das vezes o educador está sinceramente conven-
cido de que esta configuração, imposta pelo clima cultural, é a
correta. Consequentemente, age apregoando a fuga do prazer,
que termina pela conquista de um bem imerso indefinidamente
em um futuro remotíssimo.
      Em substância, o educador sente-se quase sempre investi-
do do dever de estabilizar a ordem em que vive, qualquer que
seja essa ordem. Os prudentes reformismos, em geral propostos
muito mais a nível teórico do que a nível comportamental, são a
sua arma. Ele é um moderado, não só nas ações, mas sobretudo
nas aspirações.
      A família realiza sua obra antieducativa quase automatica-
mente, por uma inclinação intrínseca, independente de doutrinas
específicas ou métodos particulares. Os acontecimentos históri-
cos e sociais que conduziram ao nascimento da família nuclear
traçaram-lhe ao mesmo tempo uma postura característica frente
à sexualidade (Bernadi, 1985).
      A paixão pela pedagogia, por exemplo, encontra no am-
biente escolar uma oportunidade de penetração maior do que
aquela oferecida pela família, que permanece mais fechada e
prejudicialmente hostil ao universo extracaseiro. As orientações
educativo-pedagógicas mais diversas encontram um terreno fer-
tilíssimo. Acontece que tais orientações são diferentes apenas no
tocante a certos aspectos táticos, algumas vezes bastante secun-
dários, enquanto a substância permanece igual em todas.
      Como a família, a escola é uma instituição que tende a con-
servar a si própria. Mediante o uso de professores, horários, pro-
gramas, matérias de estudo, livros de texto, classificações de tipo
seletivo, providências punitivas, etc, a escola submete o aluno
                                                               19
Paulo César Moreira

a um condicionamento maciço cujos objetivos praticamente se
justapõe aos da família: respeito pela autoridade, obediência, re-
petição de uma determinada fórmula comportamental, aspira-
ções por valores pré-estabelecidos.
     Já foi dito que as metodologias pedagógicas não deveriam
adequar-se ao sistema, mas ao contrário, deveriam trazer à luz
as contradições desse sistema. Bem, a escola faz de tudo para
encobrir as contradições alinhando-se junto das posições defen-
didas pelo sistema. E, solicitamente, trabalha para que o sistema
permaneça vivo sem mudanças qualitativas. O colossal engenho
pedagógico funciona pessimamente no tocante à reais necessi-
dades dos alunos (e dos professores) mas, como aparato con-
dicionante e conservador, é impassível de crítica (Tiba, 1994).
Se a criança, apesar da família aonde possui alguma coisa da
sua potencialidade criativa e da sua autonomia, a escola trata de
eliminá-la.
     Ao que parece a função específica da escola é esta: manter
os jovens o mais possível isolados na condição de dependên-
cia econômica, cultural e moral; por outro lado fazer com que,
quando esse período necessariamente acabe, o jovem tenha en-
fim se tornado tão semelhante ao adulto que não crie conflitos
e problemas.
     Seguindo um raciocínio apenas superficialmente lógico,
poder-se-ia dizer que os jovens são preparados para um mundo
que existe e ao qual bem ou mal devem adaptar-se, e que seria
insensato cultivar a idéia de um mundo feito de jogo, de prazer,
de fantasia e de invenções. Consideração superficial porque fun-
dada sobre o pressuposto de que não é possível uma organiza-
ção social diferente daquela que conhece-se, que aceita-se e que
mantém-se em vigor, e que portanto o único caminho sensato
é o do consentimento à realidade presente, consequentemente o
da preparação para o desenvolvimento de funções que a própria
realidade confia aos indivíduos.
     A escolarização, diretamente ligada à manutenção e ao
reforço da ordem social existente, age de modo a defender
os esteios primários dessa sociedade e, entre estes, a insti-
20
Aprender com a Sexualidade

tuição familiar. A empresa requer duas ações: suprimir todo
gesto sexual que não esteja orientado à fundação da família
e remover os impulsos e os desejos que possam sugerir o ato
sexual cujo fim não seja um matrimônio codificado. Daí de-
rivam duas regras escolares: a proibição absoluta de qualquer
comportamento sexual e a desqualificação da sexualidade. Isto
significa a negação apriorística e intransigente da experiência
dos alunos e a programação de uma “educação” que esvazie a
sexualidade de todo conteúdo emotivo, lúdico e gratificante
(Correio Braziliense, 1997).
     A escola, em outros termos, opõe-se com meios notavel-
mente repressivos e freqüentemente brutais às expressões da
sexualidade infantil. Ao mesmo tempo tenta fornecer uma ima-
gem desagradável e distanciada da sexualidade valendo-se de
informações, algumas vezes francamente distorcidas, dignas de
uma sala de dissecação anatômica, ou de um laboratório de fi-
siologia, ou de uma clínica dermossifilopática. Acredita-se ser
incontestável o fato de que certas ilustrações utilizadas na escola
pela assim chamada educação sexual sugerem uma autópsia ou
um tratamento de doenças venéreas.
     Em resumo, a escola é dessexualizada e dessexualizante. A
aceitação de experiências sexuais em seu interior, ou a aceitação
de coloridos eróticos em seus programas, é considerada pouco
menos que criminosa. Como então, é possível abordar a sexu-
alidade na ausência de qualquer traço de sexualidade? De fato,
o que no perímetro da escola é tido como educação sexual não
é outra coisa senão uma informação desencorajante e enfado-
nha acompanhada de normas que visam salvaguardar as insti-
tuições.
     Que os posicionamentos políticos de direita posicionem-
se a favor de uma educação sexual mentirosa e castradora pode
não surpreender. Está bastante claro que o conservador recusa
as transformações que um estímulo libertador, como a educação
sexual propriamente dita, inevitavelmente promove. Mas sur-
preende o fato de que até os movimentos progressistas, mesmo
naqueles que prognosticamos como minoritários, tomem parte
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no moralismo sexofóbico. Passaram sessenta anos desde que os
decretos de Lenin e os escritos de Trotsky lançaram um ataque
decisivo à desumana ordem zarrista desmantelando a instituição
familiar e as bases da servidão sexual, e agora estamos nova-
mente às voltas com os fetiches que os primeiros revolucionários
acreditavam ter liquidado (Cunha, 1988).
     Já em 1923 o sistema soviético começou em explícito mo-
vimento de retirada das posições conquistadas em 1917/18 e
depois, entre 1933/35, se posicionou declaradamente na área da
mais grosseira repressão: defesa extremista da família e do ma-
trimônio, guerra à contracepção, condenação indiscriminada do
aborto, campanha demográfica, negação da sexualidade juvenil,
etc (Cunha, 1988). A reviravolta dos dirigentes moscovitas não
esqueceu de condicionar pesadamente os comunistas de todo o
mundo.
     Sobre esta estrada alguns supostos progressistas ainda mar-
cham. É bem verdade que, faz pouco tempo, surgiu uma publi-
cação na qual alguns intelectuais de esquerda propunham cora-
josamente uma nova linha de pensamento e de ação no tocante
à política sexual. É também verdade que a defesa do divórcio
deu-se em um clima de aberta e unânime sublevação das esquer-
das contra a repressão sexual. E é enfim verdade que faixas cada
vez mais amplas do setor laico e progressista vão assumindo,
nos confrontos com a sexualidade, uma postura nova, aberta e
libertadora.
     Mas ainda estamos bem longe do momento no qual as rei-
vindicações pela liberdade sexual façam parte integrante da luta
política. Tanto no topo como na base dos movimentos de tra-
balhadores existem ainda pessoas que rejeitam firmemente tudo
aquilo que, para elas, é “anarquia sexual” (Cunha, 1988). Muitos
entre os mais acesos revolucionários permanecem, dentro da vida
doméstica, implacáveis conservadores.
     Frente à instituição matrimonial, a organização de uma fa-
mília fechada e inabalável, à hierarquização das relações intrafa-
miliares, à chamada fidelidade conjugal, à repressão da sexuali-
dade pré-matrimonial, etc., muitos abaixam a cabeça, reverentes.
22
Aprender com a Sexualidade

Assim, a educação sexual que o filho de um operário , de um
sindicalista ou de um líder político recebe não é muito diferente
daquela que recebe o filho do capitalista, do burguês médio, do
reacionário ou do fascista (Cunha, 1988).
     A idéia de que a liberdade consiste na faculdade de realizar
os próprios desejos, incluindo os sexuais, e portanto de satisfazer
as próprias necessidades não encontra consenso expressivo nem
mesmo entre os proletários politicamente bem empenhados.
Parece que para um bom número de militares a liberdade deve
brotar de uma determinada ordem econômica, e só dela. Em
outros termos, parece que poucos ousam pensar que a economia
deveria estar a serviço da necessidade-desejo, e não vice-versa.
     A educação sexual esterilizante e moralista que os pretensos
revolucionários concedem aos próprios filhos e aos próprios alu-
nos é na verdade a conseqüência, lógica e previsível, de um medo
tipicamente reacionário: o medo de perder o poder (Cunha,
1988). A sexualidade, repetimos ainda uma vez, é inimiga de
toda forma de poder, e portanto é temidíssima por aqueles que
querem exercitar uma forma qualquer de domínio sobre quem
quer que seja.
     O livre fluir da sexualidade, que é procura de prazer e amor,
é inconciliável com a opressão, com a disciplina militarista, com
o ódio, com a perseguição, com a felicitação do sacrifício, com
a “ sublimação” dirigida à conquista. E são estes os elementos
do que se costuma chamar de luta política. Só uma sublimação
proveniente de uma moral sexual cuja rigidez é inédita permi-
tiu as poderosas criações do trabalho científico, artístico, etc., da
raça branca.
     A humanidade aprendeu a ser feliz não mais através da har-
monia do seu próprio sistema com a natureza, mas a ser feliz
enquanto a sua vontade consegue dominar e modificar a nature-
za. O trabalho, e portanto a nossa ética do trabalho, tornam-se
o símbolo deste domínio e desta vontade de mudança. O poder
do partido, que se exprime no domínio sobre homens e coisas,
indubitavelmente fascina não esteja realmente longe a hipótese
de alguns, segundo a qual o Partido poderia assumir o papel de
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um genitor autoritário e protetor que concedesse defesa e apoio
em troca de disciplina e submissão (Cunha, 1988).
     Mas nem todos os militantes de esquerda estão dispostos a
omitir uma realidade deste gênero. A educação sexual repressi-
va, ministrada por alguns dos chamados progressistas às novas
gerações, baseia-se em grande parte em motivações de outra na-
tureza. Motivações que notadamente assemelham-se a pretex-
tos o mais das vezes inconsistentes. Diz-se por exemplo, que a
sexualidade - qualificada frequentemente como licenciosidade,
vício, libertinagem, depravação, luxúria, devassidão, etc. - debilita
a personalidade do revolucionário e ao afasta da luta de clas-
ses, além de ser um impulso burguês que deve ser rejeitado com
absoluta determinação. Sustenta-se que a revolução precisa de
braços e de cérebros, precisa de massa a mais numerosa possível,
e que por isso o verdadeiro proletariado deve ser político, deve
distanciar-se do prazer sexual como um fim em si recusando
qualquer forma de contracepção.
     A procriação dos filhos em ritmo contínuo, proclama-se,
é um dever sagrado daqueles que militar em um movimento
político progressista. Afirma-se que a liberação da sexualidade,
afastando das fileiras inovadoras os componentes tradicional-
mente sexofóbicos como os católicos, acabaria por despedaçar
a frente “revolucionária”. Estabelece-se que o revolucionário
deve ser castro, virtuoso, ascético e assexuado, e que ao mesmo
tempo deve dar as costas às críticas e às ciladas do maldoso
(Cunha, 1988).

A ÉTICA NA ORIENTAÇÃO SEXUAL

    Muitos sustentam que existe e que deve existir uma moral
sexual, isto é, que a sexualidade deve ser gerida basicamente
por um código moral que lhe seja próprio e que é diferente
daquele destinado a guiar outras expressões humanas, como por
exemplo a ação política ou econômica. Consequência disso é
que uma determinada operação, suponhamos a procura não
finalizada do prazer, pode ser lícita e até louvável em um certo
24
Aprender com a Sexualidade

campo - e condenável no campo sexual. descobrir a solução de
um problema científico ou deitar-se em um gramado para to-
mar sol são coisas que dão prazer, frequentemente um prazer
que é fim em si mesmo e sobre o qual ninguém tem nada a di-
zer. Mas todos têm muito a dizer se satisfação, desvinculada de
fins procriativos, sociais ou de outro gênero, é procurada a área
da sexualidade (Tiba, 1986).
     As normas éticas reservadas ao exercício da sexualidade são
sugeridas, ou impostas, em uma perspectiva de relatividade e de
aderência às necessidades de um dado contexto social. Isto pa-
receria lógico se o livre fluir da sexualidade, não limitada por
ordenações particulares, causasse dano àquele determinado tipo
de ordem comunitária e, naturalmente, se este último fosse satis-
fatório a ponto de ser conservado inalterado.
     Eis os dois postulados sob os quais se funda a ética sexual:
não há hipótese, ao menos por ora, de um sistema melhor que o
atual, e tal sistema não deve deteriorar-se em contato com um
costume sexual liberatório. Bem, a segunda parte do discurso é
previsível, mas a primeira, o contrário, oferece muitos motivos
para perplexibilidade. Para sustentar a necessidade de uma moral
sexual ocorre entretanto que ambas as afirmações são reconhe-
cidas como plenamente válidas, e é extremamente nesta direção
que se movem os moralistas: as consequências de uma liberação
da sexualidade são apresentadas como ruína, caos e regressão.
     A desintegração do sistema é interpretada de maneira pu-
ramente negativa, e definida como temível em qualquer de seus
aspectos. Em suma, cada solução alternativa àquelas vigentes é
considerada um prejuízo, algumas vezes dramático, e afirma-se
que uma sexualidade livre conduziria a esse prejuízo da con-
dição humana. Vem daí a imposição de uma moral sexual es-
pecífica e relativa, própria para o sistema existente, e portanto
a negação de uma ética global e estável que considere a gestão
da sexualidade no nível de qualquer outro comportamento hu-
mano, independente das exigências do próprio sistema. Fala-se
então abundantemente de ética sexual e muito pouco de ética
pura e simples, mesmo porque esta última opõe-se a manobras
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Paulo César Moreira

limitativas que distorçam sua essência e se traduzem em uma
opressão da pessoa. A moral sexual poderia portanto, e não sem
razão, ser chamada de imoral. Mas ela é apresentada como um
grande sinal de civilidade e como um instrumento indispensável
de progresso (Cunha, 1988).

A SOCIEDADE E A FORMAÇÃO SEXUAL

     A observação da realidade atual poderia levar à conclusão de
que o homem, conscientemente, trabalha com prodigiosa perse-
verança para a própria infelicidade. Não acredita-se que a maior
parte da pessoas seja realmente infeliz. Certamente ninguém,
mesmo com um medíocre nível de consciência, quer ser infeliz.
Provavelmente o seria se não existisse o fenômeno do hábito.
Mas sabe-se que o hábito existe, e que aos poucos o homem se
adapta a quaisquer condições - ou quase - a ponto de tolerar, e
até mesmo desejar, aquilo que em um primeiro momento lhe
parecia doloroso e opressivo. É o que acontece com a sexualida-
de: de qualquer maneira o homem habituou-se a uma repressão
que, objetivamente, poderia parecer pura loucura.
     Mas se é verdade que não se procura conscientemente a infe-
licidade - ao contrário, procura-se evitá-la - não é menos verdade
que se faz de tudo também para evitar a felicidade. Esta, como o seu
contrário, brota das grandes emoções. Ora, como já foi sutilmente
sugerida, o nosso tipo de cultura impõe um severo autocontrole que
impede que o efeito das próprias emoções ultrapasse cerros limites.
No costume atual tudo é orientado para a produtividade, e a dor, o
prazer, o ódio, o amor, o medo, e todas as outras emoções, violentas,
não favorecem a eficiência produtiva, mas lhe impõe obstáculos. por
isso a boa educação burguesa tende a neutralizá-las.
     Para isto já não se vale do meio grosseiro da repressão ex-
terna, ou vale-se pouco, preferindo recorrer a um instrumen-
to mais eficaz de autocontrole, isto é, a repressão interiorizada.
Educam-se as pessoas para que afastem toda a emoção intensa.
O cidadão de bem não deve nunca ser perturbado pela emoção.
Em outras palavras, ela não é tanto reprimida quanto negada.
26
Aprender com a Sexualidade

     De todas as fontes de emoção sem dúvida parece que a
mais importante é a sexualidade, a qual em consequência é
também a mais tenazmente recusada. A condição humana se-
ria portanto esta: o indivíduo aspira à máxima produção de
bens de consumo e contemporaneamente ao acúmulo máximo
de meios de aquisição, e de ambas as coisas espera o que acre-
dita ser felicidade, mas que da felicidade é apenas um substi-
tutivo decadente, geralmente chamado bem-estar. Mas para
obter produção e lucro ele deve ser eficiente, e para ser eficiente
deve negar a emoção. Em particular aquela de natureza sexual,
que é a menos produtiva e a mais dispersiva. Com isso ele nega
o amor-prazer, e portanto a própria e autêntica felicidade, e
na ilusória convicção de encontrar uma alegria que considera
mais verdadeira, porque foi educado para isso, entrega-se a um
trabalho alienado que lhe fornece dinheiro para comprar bens
que ele mesmo produz.
     Não parece portanto uma procura da infelicidade, mas uma
recusa da felicidade, profunda, inebriante, total, capaz até de dar
medo. O homem tem em do desta felicidade: é uma coisa estra-
nha frente aos seus costumes e ele não foi educado para gozá-
la. O prazer que lhe e familiar, e praticamente o único que ele
está em condições de apreciar, é o que a civilização industrial lhe
oferece: a posse de objetos inanimados. A educação sexual é ma-
nifestamente dirigida a esta condição. A biologização e o sexo
como mercadoria, unidos a uma normativa entre as mais rígidas
que a sociedade jamais experimentou, estão endereçadas a um só
objetivo: relegar a sexualidade as margens da existência humana e
reduzí-la a uma função secundária, programável e mediocremen-
te atraente. Mesmo atraente do que a compra de um carro, de
uma televisão a cores ou de um bilhete para a partida de futebol.

CONSIDERAÇÕES F INAIS

     Pode-se afirmar que destina-se a pais e mestres, a responsa-
bilidade da organização de programas curriculares da educação
sexual, haja vista que a prática e o exemplo, ilustrados pelo com-
                                                                27
Paulo César Moreira

portamento e atitudes dos pais e mestres, têm mais importância
que os simples preceitos.
     Assim sendo, natureza e o alcance das respostas às perguntas
devem ser determinados pelo estado de desenvolvimento físico,
afetivo e intelectual da criança ou do adolescente, bem assim
pela própria natureza das perguntas feitas. Por isso, a educação
cognitiva deve enquadrar-se no meio local e nacional, cultural e
religioso e harmonizar-se entre família e a escola.
     Nas escolas, a educação sexual deve ser progressiva e integra-
da, pois a necessidade de constantes repetições é muito natural
nas crianças. Os referidos comportamentos e atitudes dos pais
e mestres devem caracterizar-se pela naturalidade: a educação
sexual é tanto melhor quanto menos aparente. Deve enquadrar-
se natural e discretamente na vida doméstica e escolar correntes.
Só aparece demais quando é imperfeita.
     Cabe ao educador perceber que o sexo é um todo que ca-
racteriza as pessoas em sua estrutura corporal, sentimental e
emocional, isto é, no afetivo e principalmente em seu comporta-
mento. Por estes motivos, a responsabilidade de transformação
dos valores e conceitos morais é de toda a sociedade, engloban-
do as principais instituições como a família, a escola, a igreja, o
estado e outras. A aquisição destes valores ocorre justamente na
infância e na adolescência, e nestas fases que a personalidade do
indivíduo é estruturada e definida.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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CORREIO BRAZILIENSE. Jogos e Debates para a Sexuali-
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22 de Junho de 1997.
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Aprender com a Sexualidade

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TIBA, Içami. Puberdade e Adolescência: desenvolvimento
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ZAGURY, Tânia. O Adolescente por ele mesmo. 7. ed. Rio de
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Aprender com a Sexualidade




ORIENTAÇÃO E EDUCAÇÃO SEXUAL


RESUMO

    O presente artigo tem por tema a orientação e a educa-
ção sexual como processos de fazem parte da educação geral
do indivíduo desde os seus primeiros anos de escolarização e,
principalmente, durante a puberdade. Desde as primeiras etapas
da vida intra-uterina, possui a totalidade dos órgãos necessários
para a sua existência, mas somente do nascimento em diante
é que começam a atuar em suas funções vitais. Assim aconte-
ce com o aparelho digestivo, com os pulmões e com os órgãos
dos sentidos. Os órgãos genitais existem bem constituídos no
recém-nascido e na criança, mas funcionalmente estão apaga-
dos, pois terão de esperar vários anos para desempenhar o papel
para que foram criados: a reprodução da espécie. Então, durante
a primeira época da vida, a criança deve acumular energias para
o seu crescimento e desenvolvimento harmônico, até chegar à
verdadeira diferenciação sexual, pois o menino se distingue da
menina simplesmente pelos órgãos genitais. É o despertar da
vida sexual.

   Palavras-Chaves: Orientação Sexual, Educação Sexual,
Escola, Sociedade.

INTRODUÇÃO

    A puberdade representa o início de uma série de atividades
orgânicas e psíquicas que, tendo permanecido latentes na criança,
requerem um lento processo evolutivo, durante vários anos, para
poder manifestar-se. Para que este processo não leve a anomalias
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Paulo César Moreira

da natureza é necessário que os pais e os mestres falem claramente
às crianças, a fim de que estas saibam, desde a idade mais tenra,
que não devem contrair certos hábitos.
     No terceiro Congresso Internacional de Higiene Escolar, ce-
lebrado em 1910 em Paris, tratou-se, com a máxima atenção da
“Iniciação Sexual”, reconhecendo-se a necessidade de as crianças
de ambos os sexos conhecerem, desde os primeiros anos, noções
de tudo que se refira à sexualidade. Os congressistas se dividiram
em dois grupos, o primeiro sustentava que os mestres e mestras
deveriam encarregar-se dessa tarefa; o outro que essa iniciação
deveria ser confiada aos pais.
     A desorientação e a má informação sobre sexo podem gerar
personalidades doentias. É preciso corrigir essa distorção, alte-
rando a escala de valores que coloca o sexo como tabu. Inte-
grando o processo educativo total, a chamada educação sexual
desenvolve-se desde que o indivíduo nasce, através das influên-
cias do meio.
     Deve ser realizada paulatinamente, mediante a formação de
hábitos sadios e atitudes de equilíbrio e honestidade, tendo suas
primeiras raízes no lar, onde os exemplos de respeito mútuo,
sinceridade, autocontrole e elevação moral deverão proporcio-
nar clima favorável à eclosão da afetividade bem dirigida e à
satisfação natural das curiosidades sexuais, de modo oportuno
e esclarecido sem repressões desorientadoras e traumatizantes,
capazes de provocar desvios e complexos.
     Os pais e responsáveis quase nunca se atrevem a dar explica-
ções sobre tal assunto, que lhes parece escabroso. A maioria de-
les, graças a sua educação piedosa, consideram a ignorância como
melhor garantia de pureza. É preciso recorrer às ciências naturais
para uma instrução lógica e gradual, capaz de preparar uma me-
nina ou um rapaz para estar conforme as regras, sem se afastar das
exigências de ordem moral. É no seio da família que se pode dar
a educação mais fácil e eficaz. Se os pais cumprirem o seu dever, o
problema da educação sexual na escola será inexistente.
     Mas, como em geral não o cumprem, o problema existe nas
escolas, onde a necessidade de empenharem os mestres na reali-
32
Aprender com a Sexualidade

zação eficiente de tarefas negligenciadas nos lares de seus alunos
e se não de todo negligenciadas, ao menos levadas a efeito in-
completamente.

OS INSTRUMENTOS DA EDUCAÇÃO SEXUAL

     Pode-se legitimamente suspeitar que o homem serve-se da
educação sexual para o mesmo fim. E, vice-versa, pode-se supor
que o instrumento primário da educação sexual seja a repressão.
Esta educação deveria liberar da angústia de uma sexualidade
frustrada e aviltada, valorizando seus conteúdos positivos. Mas
eis aí a mais assombrosa mistificação. Para os educadores os as-
pectos positivos da sexualidade estariam na sua estabilização
institucional e na constituição da família, na fidelidade perpétua,
na procriação e assim por diante. Ninguém, tem claro para si que
a substância da sexualidade é o desejo, e que o resto é artificioso
e supra-estrutural. Não existirá jamais a liberação da angústia se
não existir a liberação do desejo. Mas o desejo não consegue se
libertar, ao contrário, é sufocado com muito cuidado, desfrutan-
do-se para isso dos mais variados pretextos.
     Assim, a repressão sexual parece realmente constituir a linha
mestra da educação sexual. É verdade que hoje, pelo menos por
parte dos mais corajosos, toca-se em argumentos considerados
absolutamente indecentes até há poucos anos, como a mastur-
bação, a homossexualidade, ou as relações pré-matrimoniais,
mas se insiste sempre no fato de que os desejos que originam
estes comportamentos são desejos insanos e reprováveis, que por
isso devem ser dominados e possivelmente sufocados. Ceder ao
desejo, ou à chamada paixão, é coisa tida como torpe e bestial.
Os limites do discurso sobre a sexualidade foram alargados, mas
apenas em uma dimensão ilusória. Sua rigidez não foi quali-
tativamente alterada. Lá onde consente-se o desejo, começa a
imoralidade e a depravação.
     A conseqüência lógica e inevitável da repressão do desejo é
a sublimação: se o desejo sexual deve cair sob a proibição, é claro
que ele deve ser transmutado em outros tipos de desejo. Não se
                                                                33
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pode impedir o adolescente de desejar alguma coisa, mas pode-
se condicioná-lo a desejar coisas diferentes do que o exercício
de sua sexualidade. Por exemplo: a conquista científica, a criação
artística, a afirmação esportiva etc. É a uma tal mudança no cur-
so do desejo que dá o nome de sublimação. É preciso deixar bem
claro um aspecto fundamental: ninguém está querendo sustentar
que a sublimação deva ser negada. Cada ser humano pode e deve
exprimir-se de várias maneiras, e não apenas mediante uma sim-
ples e direta atividade sexual. O que se deve rejeitar é o império
universal e constante da sublimação sobre a pura sexualidade, o
desvio habitual de impulsos sexuais para objetivos não sexuais.
     Desventuradamente é mesmo esta a política da educação
corrente: nas escolas convencer os jovens a adiar, não se sabe até
quando, a satisfação do seu erotismo, isto é, de sublimações que
vão do estudo ao esporte, da arte ao bom comportamento, do
serviço militar às várias ocupações recreativas. Não é necessário
ser muito perspicaz para compreender que esta técnica pretende
imprimir na cabeça do jovem a idéia de uma contradição, de
uma fratura entre a sexualidade, de nível inferior, e a sublima-
ção, de nível superior. Está formado o sólido dualismo: de um
lado o espírito, a razão, a cultura, etc., que são coisas “puras”, e
de outro o instinto, a paixão, o prazer, que são coisas impuras.
A alma sobre o teto, o sexo no porão. Parece patente que os
educadores procuram, desta maneira, chegar a uma dessexuali-
zação dos educandos e teme-se que em muitos casos consigam.
Deve-se dizer que nunca foi encontrado uma sexofobia tão in-
transigente e obstinada como nos jovens pertencentes a certos
grupos integralistas de características absolutamente católicas.
Não encontrou-se nem mesmo entre adultos mais reacionários
e conservadores.
     Um fenômeno um tanto quanto desconcertante, caracterís-
tico do momento histórico em que vive-se, é a transferência da
energia vital humana para objetos sem vida. A tecnologia tornou-
se uma espécie de competidora da sexualidade. Não se é capaz de
gozar, mas habilitadíssimos a criar máquinas produtoras de cifras.
Nesta matéria se é perfeccionista e obstinado, talvez até mestres
34
Aprender com a Sexualidade

inigualáveis. Inútil dizer que a educação sexual também se vale
amplamente deste mito da perfeição tecnológica, mostrando aos
jovens (e aos que não são mais jovens) como uma louvável con-
tribuição ao progresso da humanidade, que o avanço tecnológico
desancorado da energia vital, e portanto do amor, possa produzir
o extermínio atômico, a guerra química e a bacteriológica, é um
detalhe que se prefere negligenciar. O encantamento pela técnica
é um potente fator de coesão dentro da perspectiva da conservação
do atual sistema.
     Mas a verdade é que não se consegue apagar os instintos.
Antes, consegue-se o oposto, isto é, a repressão dos instintos.
Por esse motivo a educação sexual, fundada largamente sobre a
sublimação, em especial sobre a sublimação científico-tecnoló-
gica, acaba por sair da área da comunicação afetiva para entrar
em uma área de “objetividade” isolada e fria, tornando-se com
isso mais estéril e dessexualizante.
     De qualquer forma, o motivo dominante da educação sexual
permanece sendo a repressão. A repressão, mais ou menos decla-
radamente percorre os caminhos da sublimação, do tipo “cientí-
fica”, mas apoia-se sobretudo nos meios eficazes da chantagem.
Em uma sociedade com fortes proibições sexuais, a autoridade
consolida-se também pelo fato de ter a possibilidade, sobretu-
do na forma religiosa, de novamente liberar os homens de uma
parte de seu complexo de culpa. O alívio que advém está neces-
sariamente conectado a uma mais forte submissão e devoção a
essa autoridade.
     Em outros termos, estimula-se artificialmente no homem
complexos de culpa, ligados à sexualidade, dos quais o homem
pode se liberar desde que lhe submeta-se à autoridade, e logo à
repressão que a autoridade lhe impõe e à própria mortificação. A
morte deve ser aceita para salvar-se. “A educação para a aceitação
da morte introduz na vida, desde o princípio, um elemento de
capitalização e submissão”. Implícita ou explicitamente, colorida
com expressões confusas ou abertamente proclamada, esta é a tra-
ma envolta na ética sexual que fornece à operação educativa a
matéria-prima para a reformulação de normas e preceitos. Uma
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Paulo César Moreira

ética que, na verdade, parece pouco moral. Uma ética que tem
como objetivo apenas a conservação e a salvação do matrimônio
institucionalizado, a garantia de propriedade recíproca dos cônju-
ges, a fidelidade coagida e o autoritarismo intra e extrafamiliar.

AS FALSAS PALAVRAS

     O terreno sobre o qual prospera a falsa educação sexual é o
da hipocrisia. Em público cria-se uma imagem da própria se-
xualidade que não é verdadeira, e ela é apresentada como uma
trama bem ordenada de relações preestabelecidas e codificadas.
Mas na privacidade aceita-se tranquilamente aquelas desordens”
que oficialmente são recusadas como perversão, desvio, depra-
vação, e assim por adiante. Um cidadão médio pode ter uma
amante, mas não aceitará nunca colocar em discussão a fidelida-
de conjugal. A cidadã média pode ter uma libido normal e por
isso procurar alguma satisfação não necessariamente ortodoxa,
mas frente às pessoas representará sempre o papel da perfeita
mãe de família, disciplinada e frígida.
     Usa-se largamente a prostituição, pratica-se o aborto clan-
destino em escala nacional, sustenta-se um promissor mercado
da chamada imprensa pornográfica, abusa-se do corpo feminino
usando-o como meio para incrementar o consumismo, mas se
mantém a fachada da mais rigorosa retidão moral. Trata-se de
uma falsidade que, apesar disso, passou a fazer parte dos costu-
mes e que é considerada absolutamente normal. Uma mentira
coletiva que goza da proteção do moralismo corrente, o qual está
disposto a tolerar qualquer baixeza a nível individual, mas não
transige sobre a exterioridade da norma. Atos impuros são come-
tidos sem nenhum impedimento, mas condena-se a impureza.
E para manter viva e operante tal condenação, a despeito de uma
realidade que a contradiz de modo evidente, recorre-se a um lé-
xico particularmente mistificatório, feito de grandes palavras nas
quais se coloca um conteúdo cômodo. Da hiprocrisia dos fatos
avizinha-se das palavras.

36
Aprender com a Sexualidade


A MORAL
     Muitos sustentam que existe e que deve existir uma moral
sexual, isto é, que a sexualidade deve ser gerida basicamente por
um código moral que lhe seja próprio e que é diferente daquele
destinado a guiar outras expressões humanas, como por exemplo
a ação política ou econômica. Consequência disso é que uma
determinada operação, suponhamos a procura não finalizada do
prazer, pode ser lícita e até louvável em um certo campo - e con-
denável no campo sexual. descobrir a solução de um problema
científico ou deitar-se em um gramado para tomar sol são coisas
que dão prazer, frequentemente um prazer que é fim em si mes-
mo e sobre o qual ninguém tem nada a dizer. Mas todos têm
muito a dizer se satisfação, desvinculada de fins procriativos,
sociais ou de outro gênero, é procurada a área da sexualidade.
     As normas éticas reservadas ao exercício da sexualidade
são sugeridas, ou impostas, em uma perspetiva de relatividade
e de aderência às necessidades de um dado contexto social. Isto
pareceria lógico se o livre fluir da sexualidade, não limitada
por ordenações particulares, causasse dano àquele determinado
tipo de ordem comunitária e, naturalmente, se este último fos-
se satisfatório a ponto de ser conservado inalterado.
     Eis os dois postulados sob os quais se funda a ética sexual: não
há hipótese, ao menos por ora, de um sistema melhor que o atual,
e tal sistema não deve deteriorar-se em contato com um costume
sexual liberatório. Bem, a segunda parte do discurso é previsível,
mas a primeira, o contrário, oferece muitos motivos para perplexi-
bilidade. Para sustentar a necessidade de uma moral sexual ocorre
entretanto que ambas as afirmações são reconhecidas como ple-
namente válidas, e é extremamente nesta direção que se movem
os moralistas: as consequências de uma liberação da sexualidade
são apresentadas como ruína, caos e regressão.
     A desintegração do sistema é interpretada de maneira pu-
ramente negativa, e definida como temível em qualquer de seus
aspectos. Em suma, cada solução alternativa àquelas vigentes é
considerada um prejuízo, algumas vezes dramático, e afirma-se
                                                                  37
Paulo César Moreira

que uma sexualidade livre conduziria a esse prejuízo da condição
humana. Vem daí a imposição de uma moral sexual específica e
relativa, própria para o sistema existente, e portanto a negação de
uma ética global e estável que considere a gestão da sexualidade no
nível de qualquer outro comportamento humano, independente
das exigências do próprio sistema. Fala-se então abundantemente
de ética sexual e muito pouco de ética pura e simples, mesmo
porque esta última opõe-se a manobras limitativas que distorçam
sua essência e se traduzem em uma opressão da pessoa. A moral
sexual poderia portanto, e não sem razão, ser chamada de imoral.
Mas ela é apresentada como um grande sinal de civilidade e como
um instrumento indispensável de progresso.

A EDUCAÇÃO

     Para a maior parte das pessoas educar quer dizer amostrar
a criança para que se comporte de um modo determinado, pre-
cisamente conforme as exigências de um costume considerado
médio e normal. Isto implica: que o educando e potencialidade
da criança, a qual, privada do ensinamento supracitado, não che-
garia nunca a elaborar tipos de comportamentos aceitáveis; que
certos comportamentos, socialmente aprovados, são o objetivo
da educação, bem como o seu fim último, sem o qual se reincidira
na anormalidade; que o impulso de operar daquela determinada
maneira deve fazer parte da mentalidade do educando até que,
em certo ponto, ele não precise mais ser educado e possa seguir o
caminho sozinho, tornando-se por sua vez e um educador.
     Bem educado seria, por isso, um indivíduo que age segundo
as normas estabelecidas pelo costume vigente, que esteja e irre-
versivelmente condicionado neste sentido, e que portanto não
precise de vigilância ulterior ou de outros ensinamentos. Se tudo
isto é verdade, fica por esclarecer qual a diferença entre uma
criança bem educada um cão bem adestrado. E qual a diferença
entre educação e um banal e grosseiro condicionamento.
     Na verdade, o mais elementar bom senso induz à recusa ca-
tegórica de todos os pressupostos do que normalmente se chama
38
Aprender com a Sexualidade

educação. Pensar que a criança deve ser educada e o adulto não,
é absolutamente ridículo. Se admite, e não vejo como negá-lo
de forma razoável, que a educação é uma operação dialética na
qual a pessoa é o sujeito, e não o objeto, que constitui o primeiro
empurrão para todo o movimento evolutivo, não se compreende
por que motivo o adulto não continua participando dessa ope-
ração. Como se a chegada da chamada maturidade coincidisse
com um estado de perfeição absoluta e insuperável.
    Não se compreende por que motivo a criança necessaria-
mente tornar-se-à anti-social, selvagem e criminalóide se o
adulto não providenciar reprimir-lhe o mal e ensinar-lhe o bem,
por meio de uma espécie de domesticação. Não se compreende
ao menos qual o valor de uma estrutura psíquica imutável, mar-
cada por um Superego prefixado, indelevelmente marcada na
mente do indivíduo e que dirige as ações deste em uma marcada
na mente do indivíduo e que dirige as ações deste em uma única
e sempre idêntica direção. Uma humanidade composta de gente
“educada” deste modo seria bastante similar a um formigueiro.
E de fato parece que o é. No entanto esta educação, condicio-
nante e opressiva, é a predileta de quase todos.
    A criança não deve ser aquilo que é, não deve realizar sua
potencialidade, não deve avançar pela sua estrada, não deve de-
senvolver as suas qualidades. Ela tem obrigação de tornar-se
igual a nós, de desenvolver-se segundo a nossa vontade, de per-
correr o caminho que nós escolhemos, de valorizar a qualidade
que nós julgamos boa. Nós somos infalíveis e perfeitos, e deste
axioma partimos para plasmar os nosso filhos. À nossa imagem
e semelhança, bem entendido, assim como fez Deus.

A RESPONSABILIDADE

    Eis um dos instrumentos mais caros à repressão sexual: a
responsabilidade. Para exercitar a sexualidade é preciso ser res-
ponsável. E a criança, sabe-se, não pode ser responsável. Nem o
jovem. A responsabilidade chega com a idade madura, quan-
do chega. Para muitos não chega nunca, e por toda sua vida
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Paulo César Moreira

esses serão julgados irresponsáveis e inaptos para toda relação
sexual. Os rebeldes, os contestadores, os anticonformistas, os
originais, os livres pensadores, os não alinhados, os brincalhões,
os sonhadores, os utopistas, todos são irresponsáveis. Se quer
impedir alguém do exercício da sexualidade basta dizer que esse
alguém não tem senso de responsabilidade. E é o que se diz de
todo aquele que não respeita as regras do jogo impostas pelo
sistema.
     Responsável, em suma, seria aquele que exercita a própria
sexualidade nas condições do costumes vigentes, dado que a
submissão aos costumes parece ser a única garantia considerada
válida para a tutela da pessoa humana.
     O discurso do moralismo sexofóbico é bastante sutil: se você
faz amor com uma jovem deve esposá-la; se gasta suas energias
no sexo não sobrará nenhuma para a realização dos seus deveres;
se você, mulher, perde a virgindade, está privando seu compa-
nheiro de um bem a que ele tem direito; se você se une a uma
pessoa fora da instituição matrimonial ficará em uma situação
socialmente incômoda, e assim por diante. Discurso sutil, repi-
to, mesmo que os argumentos sejam trágicos, pois se trata de
um discurso chantagista que impõe a culpa: se você não respeita
fará mal à pessoa que você diz amar. Você será portanto culpado
frente ao seu(sua) companheiro(a) e apenas a obediência às re-
gras poderá reparar o seu erro. Que dois seres humanos possam
assumir a verdadeira responsabilidade de estarem juntos em uma
troca recíproca de amor e prazer, e de contarem consigo mesmo
e não com a aprovação social para serem felizes é coisa pratica-
mente impensável para muitos dos chamados educadores.
     Existem jovens e até crianças frequentemente mais respon-
sáveis que certos adultos, e existe, cidadãos humildes bem mais
responsáveis que os qualificadíssimos guardiões da moral. Mas
oficialmente jamais serão reconhecidos como tal: a responsabi-
lidade mistura-se com a firma reconhecida e com a corrente do
banco. Quem não está de posse de seus documentos é irrespon-
sável, portanto inepto para o exercício da sexualidade, portanto
culpado caso a exercite. Não acredito estar exagerando. Infeliz-
40
Aprender com a Sexualidade

mente este discurso sobre a responsabilidade é frequente e mal
acabado, com uma referência constante a uma normativa que
parece nutrida mais de burocracia que de razão.

A INOCÊNCIA

     O trabalho do educador é quase sempre direcionado no sen-
tido de fazer com que a criança e o jovem se comportem como
adultos. Considera-se muito importante que o filho, ou o alu-
no, aprenda rapidamente uma quantidade notável de idéias, que
desenvolva atividades integradas dentro de fora da escola, que
respeite as regras da vida comunitária, que não cause distúrbios,
que “racione”, que execute pontualmente as ordens, que se adap-
te aos costumes, etc.
     Faz-se de tudo para que seja mais inteligente, mais hábil,
mais estudioso, mais forte, mais empreendedor, mais sociável.
Mas nada se faz para que aprenda alguma coisa sobre a sexu-
alidade e dobre o prazer-amor, ou para que aprenda a gozar o
próprio corpo. A zona da sexualidade é a única zona proibida,
onde a criança não deve por os pés. A criança deve aprender de
tudo, mas nada referente ao sexo.
     Como já foi dito muitas vezes, o sexo é o limite, a barreira,
a linha de demarcação entre a menor e a maioridade. O sexo
é o feudo do adulto. Quem não é adulto deve ser privado de
sexualidade, quer dizer, deve permanecer inocente. A inocência
é a conotação mais relevante que se atribui à criança. E esta
total ignorância da sexualidade - ou inocência - é defendia por
todos os meios. Costuma-se dizer: não é necessário pertur-
bar a inocência da criança, não é preciso manchá-la e não se
deve permitir que a criança a perca. Portanto é indispensável
defender a criança da curiosidade mal direcionada, dos conta-
tos excitantes, dos estímulos inconvenientes. É preciso fazer
com que não toquem em excesso nos próprios órgãos genitais
e muito menos nos dos outros, que não se envolva em jogos
proibidos e, naturalmente, que não se masturbe. Qualquer ati-
vidade infantil que faça referência à esfera sexual deve ser im-
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Paulo César Moreira

pedida a qualquer custo. Caso contrário a criança perderá, para
sempre, a sua inocência.
    Perde-se a inocência não só como consequência de más
ações, mas também por conhecimentos inoportunos. A criança
não deve saber tudo. Alguma coisa sim, de modo a satisfazer a
sua petulante curiosidade, mas tudo certamente não. Sabendo
demais a criança poderia ter maus pensamentos e desejos deplo-
ráveis, que maculariam com o lodo da malícia a limpidez da sua
ingenuidade. Fala-se, nos tons mais poéticos, do óvulo materno
e do sêmen paterno, das núpcias, da maturidade, das flores e das
borboletas. Fala-se também, mas com cautela, do fato de que
fêmea e macho não são iguais. Mas nada além.
    Explicar, por exemplo, que os meninos tem um pênis e as
meninas vaginas é já arriscado porque isto atrairia a atenção do
pequeno inocente sobre seus órgãos genitais, e quem sabe com
que funestas consequências. Não faz muito tempo um sema-
nário milânes publicou as opiniões de alguns leitores sobre um
programa televisivo de educação sexual.
    A ânsia em proteger a inocência das crianças logicamente
leva o adulto a afastar dos pequenos tudo que poderia ofender
essa inocência. Em primeiro lugar a experiência. O pensamento
de que uma criança, ou um meninote, possa experimentar o
prazer da masturbação, ou que tenha como ver uma pessoa nua,
ou que se pare com o espetáculo efusivo de duas pessoas ena-
moradas, ou que ouça falar de abraços e coisas semelhantes, é
intolerável para alguns educadores. E quem, ao contrário, acha
tolerável acaba sendo acusada de ser um obcecado por sexo e
substancialmente um corruptor.
    Uma coisa é certa: a criança que sabe alguma coisa sobre
sexo ou pior, que desenvolve uma atividade sexual, semeia o
pânico entre adultos de um determinado tipo. Mas talvez ain-
da exista outra, essa também muito simples: o adulto sente-se
inconscientemente perseguido pela repressão que ele mesmo
exercita e mantém, e gostaria de liberar-se dela da única maneira
que pode aceitar, isto é, eliminando o que deve ser reprimido, a
sexualidade. O adulto em suma gostaria de libertar-se da própria
42
Aprender com a Sexualidade

sexualidade para não ter que sujeitar-se à repressão. Gostaria de
ser “inocente”. Para tanto criou um modelo de inocência, e este
modelo é a criança.
     Se a criança não fosse inocente o adulto não teria à sua dis-
posição nenhuma referência para fundar a hipótese de uma não-
sexualidade, não poderia sustentar a possibilidade concreta de
uma existência separada do sexo e seria inexoravelmente conde-
nado à repressão. O adulto, para poder tolerar o próprio mora-
lismo sexofóbico, precisa desesperadamente da criança assexuada
e inocente. Por isso a inventou e pretende que ela assim seja,
ignorado o fato de que a criança não é inocente. Ou pelo menos
não o é no sentido que comumente se dá a essa palavra.

A SEXUALIDADE HOJE E OS CONFLITOS
DA SOCIEDADE MODERNA

     A observação da realidade atual poderia levar à conclusão de
que o homem, concientemente, trabalha com prodigiosa perse-
verança para a própria infelicidade. Não acredita-se que a maior
parte da pessoas seja realmente infeliz. Certamente ninguém,
mesmo com um medíocre nível de consciência, quer ser infeliz.
Provavelmente o seria se não existisse o fenômeno do hábito.
Mas sabemos que o hábito existe, e que aos poucos o homem se
adapta a quaisquer condições - ou quase - a ponto de tolerar, e
até mesmo desejar, aquilo que em um primeiro momento lhe
parecia doloroso e opressivo. É o que acontece com a sexualida-
de: de qualquer maneira o homem habituou-se a uma repressão
que, objetivamente, poderia parecer pura loucura.
     Mas se é verdade que não se procura conscientemente a in-
felicidade - ao contrário, procura-se evitá-la - não é menos ver-
dade que se faz de tudo também para evitar a felicidade. Esta,
como o seu contrário, brota das grandes emoções. Ora, como já
foi sutilmente sugerida, o nosso tipo de cultura impõe um severo
autocontrole que impede que o efeito das próprias emoções ul-
trapasse cerros limites. No costume atual tudo é orientado para a
produtividade, e a dor, o prazer, o ódio, o amor, o medo, e todas
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Paulo César Moreira

as outras emoções, violentas, não favorecem a eficiência produ-
tiva, mas lhe impõe obstáculos, por isso a boa educação burguesa
tende a neutralizá-las.
     Para isto já não se vale do meio grosseiro da repressão ex-
terna, ou vale-se pouco, preferindo recorrer a um instrumen-
to mais eficaz de autocontrole, isto é, a repressão interiorizada.
Educam-se as pessoas para que afastem toda a emoção intensa.
O cidadão de bem não deve nunca ser perturbado pela emoção.
Em outras palavras, ela não é tanto reprimida quanto negada.
     De todas as fontes de emoção sem dúvida parece que a mais
importante é a sexualidade, a qual em consequência é também
a mais tenazmente recusada. A condição humana seria portanto
esta: o indivíduo aspira à máxima produção de bens de consumo
e contemporaneamente ao acúmulo máximo de meios de aqui-
sição, e de ambas as coisas espera o que acredita ser felicidade,
mas que da felicidade é apenas um substitutivo decadente, ge-
ralmente chamado bem-estar. Mas para obter produção e lucro
ele deve ser eficiente, e para ser eficiente deve negar a emoção.
Em particular aquela de natureza sexual, que é a menos pro-
dutiva e a mais dispersiva. Com isso ele nega o amor-prazer, e
portanto a própria e autêntica felicidade, e na ilusória convicção
de encontrar uma alegria que considera mais verdadeira, porque
foi educado para isso, entrega-se a um trabalho alienado que lhe
fornece dinheiro para comprar bens que ele mesmo produz.
     Não parece portanto uma procura da infelicidade, mas uma
recusa da felicidade. Da felicidade profunda, inebriante, total,
capaz até de dar medo. O homem tem em do desta felicidade: é
uma coisa estranha frente aos seus costumes e ele não foi edu-
cado para gozá-la. O prazer que lhe e familiar, e praticamente
o único que ele está em condições de apreciar, é o que a civili-
zação industrial lhe oferece: a posse de objetos inanimados. A
educação sexual é manifestamente dirigida a esta condição. A
biologização e o sexo como mercadoria, unidos a uma norma-
tiva entre as mais rígidas que a sociedade jamais experimentou,
estão endereçadas a um só objetivo. Relegar a sexualidade as
margens da existência humana e reduzi-la a uma função secun-
44
Aprender com a Sexualidade

dária, programável e mediocremente atraente. Mesmo atraente
do que a compra de um carro, de uma televisão a cores ou de
um bilhete para a partida de futebol.

O SEXO COMO MERCADORIA

     Pode parecer que a codificação do sexo constitue um fenô-
meno contrastante com a educação sexual, mas, ao contrário,
não só este contraste não existe como o mercado sexual é um
dos costumes mais diretamente ligados aos procedimentos edu-
cativos vigentes. O educador tende, como é notório, a reprimir
a sexualidade e contribuir assim para a criação dos substitutivos
da sexualidade reprimida: pornografia, prostituição, etc. Ele não
ignora o fato, e consequentemente assume uma dupla postura:
por um lado não deixa de exprimir verdadeiro repúdio e a mais
severa condenação pelo mercado do sexo, mas por outro lado
reconhece-lhe a irreparalidade e confessa a própria e resignada
impotência.
     A resignação frente ao comércio do amor está entre os ele-
mentos educativos primários oferecidos ao ser humano. O que
é lógico, dado que o único modo de eliminar tal comércio é a
renúncia à repressão. O que, para o repressor, é evidentemente
impensável. Assim, é preciso resignar-se.
     Entretanto não está tudo aqui: a educação tradicional ainda
vai além. Pode parecer estranho que os moralizadores manifestem
a mais obstinada intransigência com relação a um setor do merca-
do sexual, pornográfico, enquanto calam-se frente a outro setor, o
da prostituição. Mas não é estranho. A pornografia, de fato, é fon-
te de excitação sexual. A primeira deve ser portanto combatida,
a segunda favorecida. A resignação de que se falava é ostentada
dentro dos limites de ambos os fenômenos, mas na prática trata-
se de uma resignação passivamente opaca frente à prostituição.
     O objeto do moralismo sexofóbico é o da deserotização do
indivíduo, o que certamente não se pode conseguir através de
solicitações pornográficas, mas que se pode facilmente alcan-
çar com o trabalho das meretrizes. Consequentemente, depois
                                                               45
Paulo César Moreira

dos conselhos pragmáticos, declara-se rapidamente que nada
se pode fazer contra a prostituição, que ela é a profissão mais
velha do mundo. E ainda se vai mais longe: sustenta-se que a
prostituição é a salvação do matrimônio, ou pelo menos um dos
seus sustentáculos. E se isso não é dito explicitamente, deixa-se
subentendido.
     A educação sexual contribui de três modos para a codificação
do sexo: primeiro com uma resignação suspeita; segundo, justifi-
cando-lhe a existência, especialmente a nível da prostituição; ter-
ceiro, mascarando-lhe a verdadeira face até sua institucionalização.
Isto é, fazendo passar por coisa normal, incensurável e até louvável
o que na verdade é desumanizante e humilhante, cobrindo com o
manto da legalidade um mercado em si degradante, colocando a
etiqueta do matrimônio sobre uma contratação muito distante da
esfera afetiva e muito próxima da economia. Não pretendo com
isso dizer, bem entendido, que o matrimônio seja sempre uma
forma de prostituição. Pretendo dizer que pode sê-lo, e que ge-
ralmente é. E mesmo que o seja do modo mais descarado, ainda
assim é corajosamente defendido pelos educadores sexuais.
     Não se pode educar para a repressão sexual se dar vida a
um mercado, mais ou menos clandestino, que compense a sexu-
alidade. E não se pode fazer vista grossa à codificação do sexo
sem encorajá-la. Isto me parece fora de discussão. Mas infeliz-
mente não se pode dizer que os nossos educadores pretendam
modificar sua estratégia, nem tão pouco renunciar à sua obra de
persuasão em larga escala.

CONSIDERAÇÕES F INAIS

    Pode-se afirmar que destina-se a pais e mestres, a respon-
sabilidade da organização de programas curriculares: a prática e
o exemplo, ilustrados pelo comportamento e atitudes dos pais e
mestres, têm mais importância que os simples preceitos; a natu-
reza e o alcance das respostas às perguntas devem ser determina-
dos pelo estado de desenvolvimento físico, afetivo e intelectual
da criança ou do adolescente, bem assim pela própria natureza
46
Aprender com a Sexualidade

das perguntas feitas; a educação cognitiva deve enquadrar-se no
meio local e nacional, cultural e religioso e harmonizar-se entre
família e a escola.
     Nas escolas, a educação sexual deve ser progressiva e inte-
grada. A necessidade de constantes repetições é muito natural
nas crianças. Os referidos comportamentos e atitudes dos pais e
mestres devem caracterizar-se pela naturalidade: a educação se-
xual é tanto melhor quanto menos aparente. Deve enquadrar-se
natural e discretamente na vida doméstica e escolar correntes. Só
aparece demais quando é imperfeita. As respostas às perguntas
formuladas exigem ajustamento constante, levando-se em conta
o desenvolvimento físico e mental da criança ou adolescente e
o seu condicionamento psicológico. Por isso é preciso conhecê-
los, antes de lhes responder, buscar saber o que lhes ensinaram
sobre o assunto, ou o que eles mesmos pensam. Tanto em casa
quanto na escola a educação sexual deve ser progressiva, porque
assim ocorre com todas as matérias curriculares. Sobretudo no
que se refere a informações sobre anatomia e fisiologias sexuais.
E deve ser integrada, exatamente porque as demais matérias do
ensino também se integram, ou pelo menos, devem integrar-se.
     A necessidade de repetições constantes, não procede de
esquecimentos por recalque, mas deve ser considerada como
consequência natural do crescimento e do desenvolvimento da
criança. Ora, porque o ensino é ou deve ser integrado e progres-
sivo, assim também é progressiva a assimilação de informações e
o desenvolvimento das potencialidades do educando; o que hoje
satisfaz amanhã é insuficiente, donde o retorno do educando à
questão. Este hoje-amanhã é relativo, horas, meses ou segun-
dos.
     De modo geral, a expressão “educação sexual” resume ou
contém duas coisas distintas: a informação sexual, isto é, o pro-
blema de saber-se como transmitir às crianças o conhecimento
da anatomia e da fisiologia sexuais, como desvendar-lhes es-
sas realidades que, para eles, são mistérios; a “educação sexual
propriamente dita”, ou seja, o processo pelo qual as crianças e
os adolescentes compreenderão que o instinto sexual, como os
                                                              47
Paulo César Moreira

demais instintos, deve ser sujeito ao domínio da vontade e da
razão; e, de instinto puramente animal, transformar-se em ins-
tituto humano. O primeiro problema é sobretudo científico mas
encerra um fim de ordem moral. Nessas condições, educação
instrução são inseparáveis e não se pode conceber que se empre-
enda uma sem o empreendimento da outra.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFIA

BERNADI, Marcelo. A Deseducação Sexual. 2ª Ed. São Paulo,
Summus Editorial, 1985.
CORREIO BRAZILIENSE. Jogos e Debates para a Sexuali-
dade. Caderno Brasil. Brasília, 23 de Junho de 1996.
_________. Sexo no Currículo Escolar. Caderno Brasil. Brasília,
22 de Junho de 1997.
CUNHA, Maria Carneiro da. Comportamento Sexual: A Re-
volução Que Ficou no Caminho. Brasília, Nobel, 1988.
EDIPE - Enciclopédia Didática de Informação e Pesquisa
Educacional. Volume 4. São Paulo, Livraria Editora Iracema
Ltda, 1993.
PILETTI, Nelson. Sociologia da Educação. 9ª edição. São Pau-
lo, Editora Ática. 1991.




48
Aprender com a Sexualidade




A ORIENTAÇÃO SEXUAL NO
CONTEXTO ESCOLAR

RESUMO

    O presente artigo apresenta a importância da Orientação
Sexual como um dos temas transversais, ressaltando a neces-
sidade da participação e apoio dos pais e maior interesse dos
educadores, em respeitar as etapas de desenvolvimento da se-
xualidade da criança, que é construída naturalmente ao longo
da vida, marcada pela sua história, cultura, ciência, assim como
pelos afetos e sentimentos vivenciados.

    Palavras-Chave: Orientação sexual, educação escolar,
professor, temas transversais.

INTRODUÇÃO

     O que levou a investigação sobre esse tema, foi ter observado
no meu cotidiano escolar, que queira ou não, a escola e a família,
deparam-se com diversas situações no que diz respeito às curio-
sidades das crianças sobre sexualidade, relacionadas às origens de
cada um e com o desejo próprio de saber; e que os adultos sem
saber lidarem com este assunto, acabam ignorando, ocultando ou
reprimindo suas indagações, levando as crianças e jovens a recorre-
rem à informações de outras fontes como: livros, revistas, convivên-
cia escolar e o que é mais preocupante atualmente, da mídia. Mais
diretamente a TV, que através de propagandas, filmes e novelas,
transmite mensagens completamente inadequadas e distorcidas no
que diz respeito à formação de valores, divulgando na maioria dos
seus programas, mensagens irreais, violentas e confusas, e o que é
pior, estimulando o interesse precoce da criança pela sexualidade.
                                                                 49
Paulo César Moreira

    O principal objetivo da pesquisa é ressaltar que apesar de
todas essas influências, os educadores (de preferência podendo
contar com o apoio familiar) podem intervir sistematicamen-
te na área da sexualidade, estimulando os alunos à uma maior
consciência de sua autonomia pessoa e, ao longo do processo
pedagógico, serem capazes de uma melhor compreensão dos
movimentos políticos e culturais envolvendo a sexualidade, des-
de que os educadores assumam e reconheçam de fato que seu
papel não é apenas transmitir os “saberes científicos”, mas sim
adaptar-se à realidade da sua comunidade escolar, atendendo
na medida do possível suas necessidades, aproveitando o espaço
privilegiado da escola, para criar um clima de respeito e liberda-
de de expressão.
    Questiona-se, ainda, como deve ser o perfil de um orienta-
dor sexual, que apesar de não haver nenhuma restrição quanto a
outro profissional que tenha uma atitude positiva frente à pró-
pria sexualidade, o professor foi apontado como o mais indicado,
por estabelecer laços significativos entre seus alunos.
    A importância do tema Orientação Sexual ser inserido nos
Parâmetros Curriculares Nacionais, por meio da transversalida-
de, é para que desta forma este assunto esteja impregnado em
toda a prática educativa, e cada uma das áreas trate da temática
da sexualidade, por meio da sua própria proposta de trabalho.
Para tanto, é fundamental a disponibilidade e flexibilidade de
quem estiver conduzindo este trabalho.
    Assim sendo, os objetivos desse estudo centram-se em: iden-
tificar a relevância da orientação sexual na formação da sexua-
lidade dos alunos; compreender as diferenças conceituais entre
sexo e sexualidade; identificar as contribuições metodológicas de
Freud e Piaget na orientação da sexualidade; abordar aspectos
que diferenciam a educação sexual da orientação sexual; discutir
a necessidade da escola propiciar informações sobre sexualidade;
identificar o perfil do Orientador Sexual na escola; relacionar os
principais objetivos da orientação sexual para o Ensino Funda-
mental; discorrer sobre a relação entre pais, comunidade escolar,
mídia, orientação e desenvolvimento da sexualidade.
50
Aprender com a Sexualidade


CONCEITOS TEÓRICOS SOBRE SEXO E SEXUALIDADE

     Sendo a sexualidade uma essencial dimensão humana, é de
grande importância que ela seja compreendida em seus sentidos
mais amplos como tema e área de conhecimento e, na aborda-
gem educacional, em termos mais específicos, para que se tenha
o alcance das múltiplas interações desta dimensão com as ou-
tras dimensões da realidade e vivência humana. A sexualidade
concentra-se nestes núcleos que perpassam a subjetividade e
sociedade, constituindo um campo de saberes que se articulam
através da produção de conhecimentos baseados nas caracterís-
ticas exclusivamente humanas de afetividade e erotismo.
     A compreensão primordial fundamenta-se na idéia de que
a sexualidade não é uma “parte” ou “complemento” da condi-
ção humana. Também não se trata de uma dimensão secundária,
vinculada às demais habilidades e potencialidades humanas. Ao
contrário, a sexualidade é entendida como uma característica so-
mente desenvolvida e presente na condição cultural e histórica
do homem. Como este homem é um ser sexuado, tudo o que
faz ou realiza, envolve esta dimensão de constituir uma sexua-
lidade, uma significação e vivência da mesma, diversamente da
determinação instintiva e primariamente animal e reprodutiva.
Portanto, a sexualidade transcende à consideração meramente
biológica, centrada na reprodução e nas capacidades instintivas.
     Fischer (2001, p. 120) salienta que, na condição ético-onto-
lógica do homem, a sexualidade é a própria vivência e significa-
ção do sexo, ou seja, já carregada dentro de si a intencionalidade
e a escolha, que a tornam uma dimensão humana, dialógica, cul-
tural. Não há como se subtrair a esta condição. Ela está presente
deste o surgimento ou organização da cultura humana. Como
seres sexuados, somos também sexualizados, ou melhor, envol-
vidos com a dinâmica e características de nossa sexualidade. A
primeira de nossas identidades existenciais foi exatamente aque-
le que de nós, nossos pais disseram: “É menino!”, ou ainda, “É
menina!”. Esta consideração nos remete para a situação parado-
xal, de que a nossa primeira identidade, proclamada e esperada,
                                                               51
Paulo César Moreira

tenha sido aquela vinculada à sexualidade (ao redor da marca
genital). É estranho reconhecer que, através de caminhos que
devem ser entendidos no resgate histórico-crítico de nossa cul-
tura, esta identidade primeira venha a ser negada e calada tão
barbaramente, no tocante ao sexo e sexualidade da criança.
     Portanto, diferenciando inicialmente o contexto de “sexo” e
“sexualidade’, Lopes (2001, p. 90) considera que é possível en-
tender o primeiro como marca biológica, caracterização genital
e natural, constituída a partir da aquisição evolutiva da espécie
humana como animal. Já a sexualidade é um conceito cultural,
constituído pela qualidade, pela significação do sexo. Nesta de-
finição, somente a espécie humana ostentaria uma sexualidade,
uma qualidade cultural e significativa do sexo. Tratando-se da se-
xualidade infantil, é válido observar a construção cultural de uma
significação pessoal e hibridamente social da marca genital. Não
devemos reduzir nossa compreensão da sexualidade humana a
uma manifestação instintiva. Aliás, falar em dimensão instintiva
ou reduzir a esfera da sexualidade humana a uma mera dimensão
animal, natural ou reprodutiva, é precisamente tirar dela sua di-
mensão mais significativa, ou até mesmo sua espiritualidade.
     Tratar de sexualidade na escola requer o alicerce de uma
concepção científica e humanista desta sexualidade, superando
o senso comum, que é o nível primário do conhecimento so-
cial. Somente por uma abordagem histórica e cultural sobre a
construção da sexualidade humana, fundamentada por uma ri-
gorosa compreensão científica do desenvolvimento psicossexual
da criança, poderemos analisar as manifestações da sexualidade
infantil na escola.
     Relata-se que entre as dificuldades abordadas pelos profes-
sores, na questão da sexualidade, que a maioria aponta a ausência
de fundamentos científicos na análise destes comportamentos,
baseando-se sempre nos elementos mais conservadores e tra-
dicionais de uma cultura repressiva e negativista do sexo e suas
dimensões, reforçada pela família, pela religião e pela própria
escola. Alguns professores, em muitas pesquisas e contatos sobre
as manifestações da sexualidade infantil, apontaram a própria
52
Aprender com a Sexualidade

dificuldade pessoal em compreender a complexidade da sexuali-
dade humana, reclamando da falta de conteúdos e dos resquícios
de uma educação represssora que acaba dificultando o esclareci-
mento das questões e situações que envolvem o sexo.
     Outros depoimentos e análises, colhidos nos muitos cursos
e palestras ministrados pelos educadores César Nunes e Edna
Silva, vão ainda mais longe. Falam da repressão da própria se-
xualidade, reconhecendo a complexidade cultural e histórica da
questão, presente em todas as pessoas e consequentemente tam-
bém nos grandes questionamentos dos professores e professoras,
apontando ainda a atividade ostensiva e patrulhadora dos pais
sobre a sexualidade.
     Segundo Nunes e Silva (2000, p. 201), é chamada de “atitude
patrulhadora”, não aquela atitude responsável e articulada, inte-
grada e co-participante, exigidas de pais e educadores conscien-
tes de seu papel formador. Entende-se aqui o “patrulhamento”
como aquela atitude de delegar funções informativas e descriti-
vas para a escola e, ao mesmo tempo, agir de maneira intimida-
tória a quaisquer eventuais críticas e ações dos professores que
não estejam dentro da normatividade patriarcal vigente.
     Todas estas dificuldades redundam na omissão e no aban-
dono de uma reflexão sobre a sexualidade de maneira humana,
história e científica. Não podemos apontar este abandono como
uma culpabilidade institucional dos professores. Entende-se que
a política de formação de professores em nosso país, centrada na
determinação de produzir técnicos e legiões de trabalhadores
alienados, busca subtrair dos professores a capacidade de uma
cultural global que dê conta de uma interpretação científica da
realidade. As causas desta expropriação do conhecimento e da
ausência de uma política curricular que contemple a sexualidade,
ou ainda as dimensões pedagógicas correlatadas a esta, devem
ser buscadas na esfera da determinação política da escola e de
suas formas históricas fundamentais.
     Este ensaio teórico procura proporcionar um momento de
reflexão, instrumentalizar pais e educadores para a busca de uma
forma e consciência destas dificuldades estruturais, e viabilizar
                                                              53
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  • 1.
  • 2.
  • 3. Aprender com a Sexualidade Artigos Selecionados Paulo César Moreira
  • 4. Projeto Gráfico e Editoração Eletrônica Denny Guimarães Willy Salgado Ícone Comunicação Visual - (61) 3563.5048 Criação e Editoração Eletrônica da Capa Edson Santos de Souza Paulo de Tarso S. Silva Ícone Comunicação Visual - (61) 3563.5048 Revisão Geovani de Souza Costa Impressão e Acabamento Ícone Editora e Gráfica Xxx Moreira , Paulo César Aprender com a sexualidade/ Paulo César Moreira. – Brasília: Ícone Editora e Gráfica, 2008. 164 p. ; 21 cm ISBN xx-xxxxx-xx-x 1. Xxxxx. 2. Xxxxxxx. CDU xxx.xx
  • 5. AGRADECIMENTOS A Deus, que me deu uma vida plena de amor e de grandes realizações e repleta de lembranças in- vejáveis. Aos meus pais Levy Pires Moreira e Wanda da Cunha Moreira, pelo dom da vida e por acredita- rem e incentivarem os meus projetos, sem vocês não chegaria onde cheguei. Ao meu irmão Carlos Alberto Moreira, pelo carinho e respeito. Ao Professor Doutor Éder Alonso Castro, por sua amizade, principalmente. Pela sua compreensão apoio e credibilidade, por ter sido um bom amigo ouvinte dos momentos difíceis pelos quais passei, pela alegria de trabalharmos juntos, todo o meu res- peito e admiração. À amiga Eliana Araújo(Lia), defensora do meio ambiente e companheira de longas jornadas, incentivadora e amiga de todas as horas. A vocês, o meu especial carinho, respeito e muito obrigado!
  • 6.
  • 7. Aprender com a Sexualidade SUMÁRIO A IMPORTÂNCIADA ORIENTAÇÃO SEXUAL NA FORMAÇÃO DA SEXUALIDADE DA CRIANÇA ....... 11 Resumo ................................................................................  Introdução.........................................................................  Os Objetivos da Educação Sexual .................................  A Estratégia da Educação Sexual ................................  Os Responsáveis pela Educação Sexual ........................  A Ética na Orientação Sexual .......................................  A Sociedade e a Formação Sexual ..................................  Consirações Finais............................................................  Referências Bibliográficas .............................................  ORIENTAÇÃO E EDUCAÇÃO SEXUAL ..................... 29 Resumo ................................................................................  Introdução.........................................................................  Os Instrumentos da Educação Sexual ..........................  As Falsas Palavras ............................................................  A Moral ..............................................................................  A Educação ........................................................................  A Responsabilidade ..........................................................  A Inocência ........................................................................  A Sexualidade Hoje e os Conflitos da Sociedade Moderna ..........................................................  O Sexo como Mercadoria ................................................  Conclusão ..........................................................................  Referências Bibliográficas .............................................  7
  • 8. Paulo César Moreira A ORIENTAÇÃO SEXUAL NO CONTEXTO ESCOLAR . 47 Resumo ................................................................................  Introdução.........................................................................  Conceitos Teóricos sobre Sexo e Sexualidade .............  Desenvolvimento Psicossexual na Infância .................  Educação Sexual X Orientação Sexual ........................  Conclusão ..........................................................................  Referências Bibliográficas .............................................  O PERFIL DO ORIENTADOR SEXUAL NA ESCOLA: SUA POSTURA E SEUS PROCEDIMENTOS 71 Resumo ................................................................................  Introdução.........................................................................  Quem é o Orientar Sexual na Escola? ..........................  Abordagem pedagógica ....................................................  Orientação Sexual como Tema Transversal ................  Manifestações da Sexualidade na Escola ....................  Objetivos Gerais da Orientação Sexual para o Ensino Fundamental ............................................  Abordagem com os Pais e com a Comunicade Escolar  A Sexualidade e a Mídia ..................................................  Conclusão ..........................................................................  Referências Bibliográficas .............................................  A EDUCAÇÃO SEXUAL NO ENSINO FUNDAMENTAL .. 99 Resumo ................................................................................  Introdução.........................................................................  A Educação Sexual na Escola ......................................  Uma Educação Sexual Verdadeira ..............................  A Gravidez na Adolescência na Perspectiva dos Profissionais de Saúde ............................................  Sexualidade Humana: Verdade e Significado ............  O Direito ao Controle à Maternidade .....................  Seleção de Métodos .......................................................  Sexo se Aprende na Escola............................................  Conclusão ........................................................................  8
  • 9. Aprender com a Sexualidade Referências Bibliográficas ..........................................  A ORIENTAÇÃO SEXUAL SOB O PONTO DE V ISTA DA PSICOPEDAGOGIA ...........................113 Resumo ..............................................................................  Introdução.......................................................................  Adolescência e Puberdade ............................................  Definição dos Termos.....................................................  Atividades Integradas ...................................................  A Escola Ajuda a Romper Tabus ...................................  Conclusão ........................................................................  Referências Bibliográficas ...........................................  SEXUALIDADE NOS PORTADORES DE NECESSIDADES ESPECIAIS..............................137 Resumo ..............................................................................  Introdução.......................................................................  A Infância… O Outro Ponto de Partida ...................  Sexualidade dos Deficientes Mentais ........................  O Adolescente com Deficiência Mental e sua Sexualidade .............................................  Doenças Hereditárias do Metabolismo e Sexualidade ..........................................  O Desenvolvimento Sexo-Afetivo no Jovem com Paralisia Cerebral.................................  O Desenvolvimento Sexo e Afetivo na Síndrome de Down ....................................................  Contracepção e Deficiência Mental ..........................  Princípios e Prática da Educação Sexual ..................  Considerações Finais .....................................................  Referências Bibliográficas ...........................................  9
  • 10.
  • 11. Aprender com a Sexualidade A IMPORTÂNCIADA ORIENTAÇÃO SEXUAL NA FORMAÇÃO DA SEXUALIDADE DA CRIANÇA RESUMO Toda pessoa deve ser informada sobre o comportamento se- xual para que encontre condições de adaptação ao novo modelo de viver, uma vez que desde o nascimento até a senectude o in- divíduo sofre profundas transformações. Para que este processo não leve a anomalias da natureza é necessário que os pais e os mestres falem claramente às crianças, a fim de que estas saibam, desde a idade mais tenra, que não devem contrair certos hábitos. A desorientação e a má informação sobre sexo geram persona- lidades doentias. É preciso corrigir essa distorção, alterando a escala de valores que coloca o sexo como tabu. Integrando o pro- cesso educativo total, a chamada educação sexual desenvolve-se desde que o indivíduo nasce, através das influências do meio. Se os pais cumprirem o seu dever, o problema da educação sexual na escola será inexistente. Mas, como em geral não o cumprem, o problema existe nas escolas, donde a necessidade de empenha- rem os mestres na realização eficiente de tarefas negligenciadas nos lares de seus alunos e se não de todo negligenciadas, ao me- nos levadas a efeito incompletamente. Palavras-Chaves: Educação, sexualidade, educação, edu- cador, orientação. INTRODUÇÃO Este artigo centra-se no aluno vivo, inquieto e participante, em um educador que não teme suas próprias dúvidas, e em uma escola aberta, viva e ciente de suas funções mediante a sociedade. 11
  • 12. Paulo César Moreira Neste sentido, é preciso repensar o processo educacional. É pre- ciso preparar a pessoa para a vida e não para o mero acúmulo de informações. A postura acadêmica do educador não está garan- tindo maior mobilidade à agilidade do aluno (tenha ele a idade que tiver). Assim, é preciso trabalhar o aluno como uma pessoa inteira, com sua afetividade, suas percepções, sua expressão, seus sentidos, sua crítica, sua criatividade. Algo deve ser feito para que o aluno possa ampliar seus re- ferenciais do mundo e trabalhar, simultaneamente, com todas as linguagens (escrita, sonora, dramática, cinematográfica, cor- poral, etc). Neste contexto, inseri-se a sexualidade, que em ter- mos de senso comum, é quase sempre definida como possuindo dois atributos essenciais: naturalidade e liberdade. Assim, já que todos têm sexo e ele é instintivo, pertenceria à esfera da natu- reza; mas, ao mesmo tempo, o sexo é apontado como algo que se concretiza na vida privada, de acordo com escolhas pessoais exercidas livremente. No entanto, uma análise histórico-cultural superficial revela que não há uma atividade humana que tenha sido, ao longo dos tempos, mais condicionada a normas gerais, mais codificadas socialmente que a sexualidade. Não se pode, pois, negar que existe um caráter eminentemente social nas condutas sexuais e no interesse coletivo que os cercam. Apesar disso é em torno do mito da naturalidade e da liberdade que se organizam as ideologias sexuais, que se formam e se trans- formam ao sabor dos jogos e das pressões das várias forças sociais. Todos os projetos revolucionários incluem em seu programa a perspectiva de uma maior liberdade sexual, dentro da expectativa de uma ampla liberdade para a humanidade em geral. Assim sendo, o objetivo principal deste trabalho é analisar a questão da educação sexual nas escolas, tendo como base a pes- quisa bibliográfica. Buscou-se abordar a importância da educa- ção sexual, dentro da fase da adolescência, partindo da hipótese de que a ausência de tais informações poderá ocasionar uma série de problemas aos adolescentes e aos pais, considerando que, para que haja um desenvolvimento normal da sexualidade, é preci- so que ocorra uma orientação apropriada para os adolescentes, 12
  • 13. Aprender com a Sexualidade esquecendo os tabus e utilizando uma linguagem adequada a adolescentes. OS OBJETIVOS DA EDUCAÇÃO SEXUAL De acordo com Bernadi (1985), nas escolas públicas brasi- leiras, pouco se faz em termos de educação sexual. Por educação, em sentido restrito, entende-se todo aquele processo com o qual se molda o aluno de maneira a prepará-lo para viver em harmo- nia com as regras codificadas da sociedade na qual está inserido (Piletti, 1991). Provavelmente a maioria dos educadores está de acordo com esta definição, ou pelo menos age como se estivesse de acordo. Isto significaria que se ensina às pessoas, especialmen- te às crianças e aos jovens, que as regras codificadas da sociedade estão bem como estão, devendo as mesmas adaptar-se a elas. Para Cunha (1988) o objetivo da educação sexual que diz respeito a todos, centra-se no controle da sexualidade. O com- portamento sexual nas escolas, numa tentativa de compreender melhor como se articulou, o modelo de transformação a que os educadores têm submetido seus educandos, sendo que a con- dição conjugal é a única na qual o exercício da sexualidade é consideração lícito, coloca-se em evidência um problema de au- to-repressão para aqueles que não pertencem aquela condição: jovens e adolescentes, solteiros e noivos, militares, prisioneiros, imigrantes, etc. Naturalmente não é simples convencer milhões de pessoas a viverem em castidade, mas os educadores acabaram encontran- do um bom sistema: dessexualizar o indivíduo. Geralmente as lições ou os “encontros” dedicados à educação sexual percorrem dois caminhos: o da informação biológica e do elenco de nor- mas, preceitos morais, juízos sobre o que é lícito. Assim pode-se influenciar a postura frente à sexualidade, até que esta seja rejei- tada de maneira mais ou menos radical. Explicar minuciosamente às crianças o ciclo da ovulação, a espermatogênese, a fecundação, o alinhamento do óvulo fecun- dado e seu sucessivo desenvolvimento, eqüivale a fornecer-lhes 13
  • 14. Paulo César Moreira uma imagem da sexualidade humana não apenas atrozmente fastidiosa, mas também muito próxima aquela das funções re- produtivas animais e vegetais. Muitas vezes uma lição de edu- cação sexual é extraordinariamente semelhante a uma lição de botânica. Mas apesar de tudo permanece sempre, no fundo da argumentação, o mistério do prazer. A dessexualização das crianças e jovens produz, enfim, um fenômeno marginal porém importante para a sociedade conser- vadora: a docilidade e maleabilidade dos educandos. Destruída a idéia do prazer, é fácil impor a idéia do “dever”. Isto é, do sacri- fício, da obediência, da disciplina, da resignação. Reich (op. cit. Bernardi, 1985), escreveu na sua Revolução Sexual: “A revolução não pode ter como ideal a besta de carga ao invés do touro, o capão ao invés do galo. As pessoas já foram besta de carga por tempo suficiente. Os castrados não se batem pela liberdade. Eis porque continua-se astutamente promovendo uma educação sexual castradora e transformando os jovens em tantos outros bois. Assim não se correm riscos”. Este autor argumenta que desde o instante do nascimento a criança é submetida a uma série de constrangimentos praticados com violência que são chamados de amor, repetindo o que acon- teceu com sua mãe e com seu pai, com seus genitores, e com os genitores de seus genitores. A ESTRATÉGIA DA EDUCAÇÃO SEXUAL Qualquer manobra educativa, inclusive no campo sexu- al, funda-se sobre três princípios: os pequenos têm tudo para aprender, e os adultos tudo para ensinar; os pequenos devem nutrir uma confiança cega nos adultos, independentemente do comportamento destes últimos; a conduta dos pequenos de cor- responder àquela desejada e prescrita pelos adultos. Para manter 14
  • 15. Aprender com a Sexualidade os limites da benevolência, pode-se deduzir que a presunção dos adultos é verdadeiramente desmensurada. A criança age sem- pre segundo uma lógica sua, mas infalível; o adulto age quase sempre fora da lógica humana, e muitas vezes fora de qualquer lógica (Correio Braziliense, 1996). Em síntese, o adulto quer permanecer o mais adulto possí- vel, e quer que o menor permaneça menor o mais possível. Isto vale também para o que concerne à sexualidade. E talvez numa medida ainda maior, pelo simples motivo de que o adulto tem medo da sexualidade infantil e juvenil porque estas colocam em crise a sua sexualidade que ele adora chamar de madura. Reconhecer de modo concreto, e não abstratamente como se costuma fazer, a sexualidade das crianças e dos jovens, reconhe- cer exigências e direitos, admitir que se trata de uma sexualidade autêntica e não de uma nebulosa formulação hipotética, signi- fica ter de rever não só a conduta geral frente aos menores, mas também o próprio comportamento sexual do adulto, a começar pela postura frente ao prazer. Significa recolocar em discussão toda a fundamentação sexofóbica do nosso sistema, e por isso mesmo o próprio sistema (Lima, 1994). O adulto tende a colocar-se como único ser sexuado e ten- de a adiar a sexualização de seus sucessores. A estes, enquanto permanecem na área da infância e da juventude, não só é negado o exercício da sexualidade mas, até onde é possível, a própria sexualidade. Certo, aos adolescentes não se nega uma identidade sexual, mas freqüentemente procura-se problematizá-la, diluí- la em mil interpretações “científicas”, fazer dela alguma coisa complicadíssima e, “imatura” (Tiba, 1986). Assim o adulto terá sempre um modo de marginalizá-la e reprimi-la, seguindo uma teoria educativa qualquer. Poderá, em suma, removê-la, distan- ciá-la e, na prática, ignorá-la. Quanto às crianças a coisa é ainda mais simples: se reconhece, mesmo que apenas verbalmente, a sua sexualidade, e então passa-se a categorizá-la, a enquadrá-la em um esquema qualquer, a filosofar sobre. Na maior parte dos casos não existe nenhuma intenção de educar para o exercício da sexualidade, mas unem-se todos os 15
  • 16. Paulo César Moreira esforços numa educação para a repressão da sexualidade. O que é seguro, é que hoje não se faz nada em termos de uma educação sexual autêntica. Apenas fala-se dela e é o bastante. E quem mais fala, menos faz. OS RESPONSÁVEIS PELA EDUCAÇÃO SEXUAL Os pais fundamentam a instituição familiar e propiciam aos seus filhos a participação da instituição escolar, que é um dos di- reitos da criança, o de receber educação e instrução. A instituição família está deixando de educar sexualmente seus filhos, passan- do a responsabilidade para a escola. Isto ocorre devido a falta de contato dos pais com as crianças. Esta preocupação com a educa- ção sexual tem levado os orientadores educacionais a trabalharem para a formação integral do educando. Uma das grandes preocupações dos pais é a vida sexual dos filhos. Só que hoje em dia, ela não é mais tratada da mesma for- ma que há algumas décadas, quando este assunto era resolvido com uma grande dose de repressão e as crianças e jovens eram mantidos no desconhecimento e na ignorância. Embora nem todos os pais consigam ainda conversar sobre sexo com os filhos, mas já aumentou bastante o número dos que se sentem à vontade para esclarecê-los e orientá-los. O ideal seria que todos os pais tivessem liberdade consigo próprios para poderem transmitir essas informações fundamentais aos filhos, mas quando não é o caso, é feita uma transferência de respon- sabilidade para terceiros. A este respeito, Zagury (1996, p. 168) afirma que: “Algumas pessoas acham perigoso conversar porque acreditam que desperta o adolescente precocemente, entretanto vários estudos recentes em escolas inglesas que tinham em seu currículo a educação sexual, verificaram que seus alunos não 16
  • 17. Aprender com a Sexualidade tiveram iniciação sexual mais precoce que os outros, ao contrário, nessas escolas a iniciação dos jovens ocorria mais tarde. É muito importante que entendamos que a adolescência é exatamente o momento em que há o despertar natural do sexo. É da vida, é da idade. Os hormônios estão a mil, a pele está elétrica, a beleza da idade atrai. É muito importante, portanto, conversar, conversar, conversar, conversar...esclarecer – para diminuir os riscos.” A tese de Zagury é reforça pelo Schubert (1993, p.28), se- gundo o qual “A escola é o cenário mais apropriado para o desenvolvimento de um programa de educação Sexual porque, além da ação direta que exerce sobre os educandos, além da capilaridade com que atua na sociedade, indiretamente, incentiva a própria família a desempenhar o papel que de direito e dever, lhe é destinado na educação integral do jovem.” Outra colocação interessante a este respeito é defendida por Suplicy (1988, p. 33), que diz: “Muitos pais se acham inferiores para conversarem sobre sexo com seus filhos a nível cultural, pois foram educados em outra época e acham que a educação que receberam não foi tão boa para eles e desejam que aconteça de outra forma para com seus filhos”. Em suma, a escola e a família devem completar-se na edu- cação sexual dos seus educandos proporcionando o total conhe- cimento sobre sexualidade de maneira que não haja constrangi- 17
  • 18. Paulo César Moreira mento e sim um aperfeiçoamento da educação e da orientação que lhe é devida. Quando se parte da convicção de que é necessário educar a criança para que se comporte bem, pressupõe-se evidentemente que, sem educação, ela se comportaria mal. O educador apre- senta, de fato, esta característica fundamental: ele é aquele en- carregado de corrigir a natureza humana. Mas por outro lado, contraditoriamente, ele é aquele que defende a natureza humana da corrupção. Deve-se deduzir que para o educador o educando é uma mistura de perversão e inocência. Sobretudo no que toca à sexu- alidade a criança é seguramente perversa, posto que se deixada sozinha executaria ações reprováveis e seria arrastada pela libi- do e pela destruidora procura do prazer. Mas a criança é tam- bém inocente, já que não conhece ainda a torpe licenciosidade do mundo. O educador se debate entre a criança luxuriosa e a criança assexuada e tende a acentuar o vício e a negar a sexuali- dade dos pequenos. A antilógica do educador sexual esbarra frequentemente no absurdo (Cunha, 1988). Constata-se diariamente que quem se dedica à educação sexual preocupa-se sobretudo, em negar a se- xualidade, tanto a sua como a dos outros. O educador não deve, por exemplo, envolver-se afetivamente em seu trabalho, não deve deixar que sua fraqueza frente às tentações da carne suscite dú- vidas, deve permanecer distante e invulnerável. Seus costumes devem ser íntegros, bem como severos, de forma a poder conse- guir a aprovação de todos. O educador deve manter-se acima de qualquer suspeita, portanto espoliado de propensões eróticas. Não basta que o educador tenha eliminado a própria sexu- alidade. Espera-se dele que sufoque também a sexualidade dos educandos. Desde que fale sobre autonomia e fisiopatologia está tudo bem, e melhor ainda se expuser normas que confundam a sexualidade (Cunha, 1988). Dificilmente se tolera que o educa- dor introduza um discurso sobre a essência do problema, que é o binômio prazer-amor. Uma sexualidade agradável, alegre, lúdica e espontânea traz muito medo porque através dela todos conse- 18
  • 19. Aprender com a Sexualidade guem perceber, ainda que nebulosamente, que a desestruturação de todo o aparelho social hierarquizado começa aí. Ao educador cabe propor uma sexualidade biologizada, anódina e sombriamente enfumaçada pelo complexo de culpa e pelo medo. Por outro lado deve apresentar-se como defensor do educando contra o perigo sexual, que pode ser de ordem física, moral ou psíquica, segundo as interpretações preferidas por cada um. No mais das vezes o educador está sinceramente conven- cido de que esta configuração, imposta pelo clima cultural, é a correta. Consequentemente, age apregoando a fuga do prazer, que termina pela conquista de um bem imerso indefinidamente em um futuro remotíssimo. Em substância, o educador sente-se quase sempre investi- do do dever de estabilizar a ordem em que vive, qualquer que seja essa ordem. Os prudentes reformismos, em geral propostos muito mais a nível teórico do que a nível comportamental, são a sua arma. Ele é um moderado, não só nas ações, mas sobretudo nas aspirações. A família realiza sua obra antieducativa quase automatica- mente, por uma inclinação intrínseca, independente de doutrinas específicas ou métodos particulares. Os acontecimentos históri- cos e sociais que conduziram ao nascimento da família nuclear traçaram-lhe ao mesmo tempo uma postura característica frente à sexualidade (Bernadi, 1985). A paixão pela pedagogia, por exemplo, encontra no am- biente escolar uma oportunidade de penetração maior do que aquela oferecida pela família, que permanece mais fechada e prejudicialmente hostil ao universo extracaseiro. As orientações educativo-pedagógicas mais diversas encontram um terreno fer- tilíssimo. Acontece que tais orientações são diferentes apenas no tocante a certos aspectos táticos, algumas vezes bastante secun- dários, enquanto a substância permanece igual em todas. Como a família, a escola é uma instituição que tende a con- servar a si própria. Mediante o uso de professores, horários, pro- gramas, matérias de estudo, livros de texto, classificações de tipo seletivo, providências punitivas, etc, a escola submete o aluno 19
  • 20. Paulo César Moreira a um condicionamento maciço cujos objetivos praticamente se justapõe aos da família: respeito pela autoridade, obediência, re- petição de uma determinada fórmula comportamental, aspira- ções por valores pré-estabelecidos. Já foi dito que as metodologias pedagógicas não deveriam adequar-se ao sistema, mas ao contrário, deveriam trazer à luz as contradições desse sistema. Bem, a escola faz de tudo para encobrir as contradições alinhando-se junto das posições defen- didas pelo sistema. E, solicitamente, trabalha para que o sistema permaneça vivo sem mudanças qualitativas. O colossal engenho pedagógico funciona pessimamente no tocante à reais necessi- dades dos alunos (e dos professores) mas, como aparato con- dicionante e conservador, é impassível de crítica (Tiba, 1994). Se a criança, apesar da família aonde possui alguma coisa da sua potencialidade criativa e da sua autonomia, a escola trata de eliminá-la. Ao que parece a função específica da escola é esta: manter os jovens o mais possível isolados na condição de dependên- cia econômica, cultural e moral; por outro lado fazer com que, quando esse período necessariamente acabe, o jovem tenha en- fim se tornado tão semelhante ao adulto que não crie conflitos e problemas. Seguindo um raciocínio apenas superficialmente lógico, poder-se-ia dizer que os jovens são preparados para um mundo que existe e ao qual bem ou mal devem adaptar-se, e que seria insensato cultivar a idéia de um mundo feito de jogo, de prazer, de fantasia e de invenções. Consideração superficial porque fun- dada sobre o pressuposto de que não é possível uma organiza- ção social diferente daquela que conhece-se, que aceita-se e que mantém-se em vigor, e que portanto o único caminho sensato é o do consentimento à realidade presente, consequentemente o da preparação para o desenvolvimento de funções que a própria realidade confia aos indivíduos. A escolarização, diretamente ligada à manutenção e ao reforço da ordem social existente, age de modo a defender os esteios primários dessa sociedade e, entre estes, a insti- 20
  • 21. Aprender com a Sexualidade tuição familiar. A empresa requer duas ações: suprimir todo gesto sexual que não esteja orientado à fundação da família e remover os impulsos e os desejos que possam sugerir o ato sexual cujo fim não seja um matrimônio codificado. Daí de- rivam duas regras escolares: a proibição absoluta de qualquer comportamento sexual e a desqualificação da sexualidade. Isto significa a negação apriorística e intransigente da experiência dos alunos e a programação de uma “educação” que esvazie a sexualidade de todo conteúdo emotivo, lúdico e gratificante (Correio Braziliense, 1997). A escola, em outros termos, opõe-se com meios notavel- mente repressivos e freqüentemente brutais às expressões da sexualidade infantil. Ao mesmo tempo tenta fornecer uma ima- gem desagradável e distanciada da sexualidade valendo-se de informações, algumas vezes francamente distorcidas, dignas de uma sala de dissecação anatômica, ou de um laboratório de fi- siologia, ou de uma clínica dermossifilopática. Acredita-se ser incontestável o fato de que certas ilustrações utilizadas na escola pela assim chamada educação sexual sugerem uma autópsia ou um tratamento de doenças venéreas. Em resumo, a escola é dessexualizada e dessexualizante. A aceitação de experiências sexuais em seu interior, ou a aceitação de coloridos eróticos em seus programas, é considerada pouco menos que criminosa. Como então, é possível abordar a sexu- alidade na ausência de qualquer traço de sexualidade? De fato, o que no perímetro da escola é tido como educação sexual não é outra coisa senão uma informação desencorajante e enfado- nha acompanhada de normas que visam salvaguardar as insti- tuições. Que os posicionamentos políticos de direita posicionem- se a favor de uma educação sexual mentirosa e castradora pode não surpreender. Está bastante claro que o conservador recusa as transformações que um estímulo libertador, como a educação sexual propriamente dita, inevitavelmente promove. Mas sur- preende o fato de que até os movimentos progressistas, mesmo naqueles que prognosticamos como minoritários, tomem parte 21
  • 22. Paulo César Moreira no moralismo sexofóbico. Passaram sessenta anos desde que os decretos de Lenin e os escritos de Trotsky lançaram um ataque decisivo à desumana ordem zarrista desmantelando a instituição familiar e as bases da servidão sexual, e agora estamos nova- mente às voltas com os fetiches que os primeiros revolucionários acreditavam ter liquidado (Cunha, 1988). Já em 1923 o sistema soviético começou em explícito mo- vimento de retirada das posições conquistadas em 1917/18 e depois, entre 1933/35, se posicionou declaradamente na área da mais grosseira repressão: defesa extremista da família e do ma- trimônio, guerra à contracepção, condenação indiscriminada do aborto, campanha demográfica, negação da sexualidade juvenil, etc (Cunha, 1988). A reviravolta dos dirigentes moscovitas não esqueceu de condicionar pesadamente os comunistas de todo o mundo. Sobre esta estrada alguns supostos progressistas ainda mar- cham. É bem verdade que, faz pouco tempo, surgiu uma publi- cação na qual alguns intelectuais de esquerda propunham cora- josamente uma nova linha de pensamento e de ação no tocante à política sexual. É também verdade que a defesa do divórcio deu-se em um clima de aberta e unânime sublevação das esquer- das contra a repressão sexual. E é enfim verdade que faixas cada vez mais amplas do setor laico e progressista vão assumindo, nos confrontos com a sexualidade, uma postura nova, aberta e libertadora. Mas ainda estamos bem longe do momento no qual as rei- vindicações pela liberdade sexual façam parte integrante da luta política. Tanto no topo como na base dos movimentos de tra- balhadores existem ainda pessoas que rejeitam firmemente tudo aquilo que, para elas, é “anarquia sexual” (Cunha, 1988). Muitos entre os mais acesos revolucionários permanecem, dentro da vida doméstica, implacáveis conservadores. Frente à instituição matrimonial, a organização de uma fa- mília fechada e inabalável, à hierarquização das relações intrafa- miliares, à chamada fidelidade conjugal, à repressão da sexuali- dade pré-matrimonial, etc., muitos abaixam a cabeça, reverentes. 22
  • 23. Aprender com a Sexualidade Assim, a educação sexual que o filho de um operário , de um sindicalista ou de um líder político recebe não é muito diferente daquela que recebe o filho do capitalista, do burguês médio, do reacionário ou do fascista (Cunha, 1988). A idéia de que a liberdade consiste na faculdade de realizar os próprios desejos, incluindo os sexuais, e portanto de satisfazer as próprias necessidades não encontra consenso expressivo nem mesmo entre os proletários politicamente bem empenhados. Parece que para um bom número de militares a liberdade deve brotar de uma determinada ordem econômica, e só dela. Em outros termos, parece que poucos ousam pensar que a economia deveria estar a serviço da necessidade-desejo, e não vice-versa. A educação sexual esterilizante e moralista que os pretensos revolucionários concedem aos próprios filhos e aos próprios alu- nos é na verdade a conseqüência, lógica e previsível, de um medo tipicamente reacionário: o medo de perder o poder (Cunha, 1988). A sexualidade, repetimos ainda uma vez, é inimiga de toda forma de poder, e portanto é temidíssima por aqueles que querem exercitar uma forma qualquer de domínio sobre quem quer que seja. O livre fluir da sexualidade, que é procura de prazer e amor, é inconciliável com a opressão, com a disciplina militarista, com o ódio, com a perseguição, com a felicitação do sacrifício, com a “ sublimação” dirigida à conquista. E são estes os elementos do que se costuma chamar de luta política. Só uma sublimação proveniente de uma moral sexual cuja rigidez é inédita permi- tiu as poderosas criações do trabalho científico, artístico, etc., da raça branca. A humanidade aprendeu a ser feliz não mais através da har- monia do seu próprio sistema com a natureza, mas a ser feliz enquanto a sua vontade consegue dominar e modificar a nature- za. O trabalho, e portanto a nossa ética do trabalho, tornam-se o símbolo deste domínio e desta vontade de mudança. O poder do partido, que se exprime no domínio sobre homens e coisas, indubitavelmente fascina não esteja realmente longe a hipótese de alguns, segundo a qual o Partido poderia assumir o papel de 23
  • 24. Paulo César Moreira um genitor autoritário e protetor que concedesse defesa e apoio em troca de disciplina e submissão (Cunha, 1988). Mas nem todos os militantes de esquerda estão dispostos a omitir uma realidade deste gênero. A educação sexual repressi- va, ministrada por alguns dos chamados progressistas às novas gerações, baseia-se em grande parte em motivações de outra na- tureza. Motivações que notadamente assemelham-se a pretex- tos o mais das vezes inconsistentes. Diz-se por exemplo, que a sexualidade - qualificada frequentemente como licenciosidade, vício, libertinagem, depravação, luxúria, devassidão, etc. - debilita a personalidade do revolucionário e ao afasta da luta de clas- ses, além de ser um impulso burguês que deve ser rejeitado com absoluta determinação. Sustenta-se que a revolução precisa de braços e de cérebros, precisa de massa a mais numerosa possível, e que por isso o verdadeiro proletariado deve ser político, deve distanciar-se do prazer sexual como um fim em si recusando qualquer forma de contracepção. A procriação dos filhos em ritmo contínuo, proclama-se, é um dever sagrado daqueles que militar em um movimento político progressista. Afirma-se que a liberação da sexualidade, afastando das fileiras inovadoras os componentes tradicional- mente sexofóbicos como os católicos, acabaria por despedaçar a frente “revolucionária”. Estabelece-se que o revolucionário deve ser castro, virtuoso, ascético e assexuado, e que ao mesmo tempo deve dar as costas às críticas e às ciladas do maldoso (Cunha, 1988). A ÉTICA NA ORIENTAÇÃO SEXUAL Muitos sustentam que existe e que deve existir uma moral sexual, isto é, que a sexualidade deve ser gerida basicamente por um código moral que lhe seja próprio e que é diferente daquele destinado a guiar outras expressões humanas, como por exemplo a ação política ou econômica. Consequência disso é que uma determinada operação, suponhamos a procura não finalizada do prazer, pode ser lícita e até louvável em um certo 24
  • 25. Aprender com a Sexualidade campo - e condenável no campo sexual. descobrir a solução de um problema científico ou deitar-se em um gramado para to- mar sol são coisas que dão prazer, frequentemente um prazer que é fim em si mesmo e sobre o qual ninguém tem nada a di- zer. Mas todos têm muito a dizer se satisfação, desvinculada de fins procriativos, sociais ou de outro gênero, é procurada a área da sexualidade (Tiba, 1986). As normas éticas reservadas ao exercício da sexualidade são sugeridas, ou impostas, em uma perspectiva de relatividade e de aderência às necessidades de um dado contexto social. Isto pa- receria lógico se o livre fluir da sexualidade, não limitada por ordenações particulares, causasse dano àquele determinado tipo de ordem comunitária e, naturalmente, se este último fosse satis- fatório a ponto de ser conservado inalterado. Eis os dois postulados sob os quais se funda a ética sexual: não há hipótese, ao menos por ora, de um sistema melhor que o atual, e tal sistema não deve deteriorar-se em contato com um costume sexual liberatório. Bem, a segunda parte do discurso é previsível, mas a primeira, o contrário, oferece muitos motivos para perplexibilidade. Para sustentar a necessidade de uma moral sexual ocorre entretanto que ambas as afirmações são reconhe- cidas como plenamente válidas, e é extremamente nesta direção que se movem os moralistas: as consequências de uma liberação da sexualidade são apresentadas como ruína, caos e regressão. A desintegração do sistema é interpretada de maneira pu- ramente negativa, e definida como temível em qualquer de seus aspectos. Em suma, cada solução alternativa àquelas vigentes é considerada um prejuízo, algumas vezes dramático, e afirma-se que uma sexualidade livre conduziria a esse prejuízo da con- dição humana. Vem daí a imposição de uma moral sexual es- pecífica e relativa, própria para o sistema existente, e portanto a negação de uma ética global e estável que considere a gestão da sexualidade no nível de qualquer outro comportamento hu- mano, independente das exigências do próprio sistema. Fala-se então abundantemente de ética sexual e muito pouco de ética pura e simples, mesmo porque esta última opõe-se a manobras 25
  • 26. Paulo César Moreira limitativas que distorçam sua essência e se traduzem em uma opressão da pessoa. A moral sexual poderia portanto, e não sem razão, ser chamada de imoral. Mas ela é apresentada como um grande sinal de civilidade e como um instrumento indispensável de progresso (Cunha, 1988). A SOCIEDADE E A FORMAÇÃO SEXUAL A observação da realidade atual poderia levar à conclusão de que o homem, conscientemente, trabalha com prodigiosa perse- verança para a própria infelicidade. Não acredita-se que a maior parte da pessoas seja realmente infeliz. Certamente ninguém, mesmo com um medíocre nível de consciência, quer ser infeliz. Provavelmente o seria se não existisse o fenômeno do hábito. Mas sabe-se que o hábito existe, e que aos poucos o homem se adapta a quaisquer condições - ou quase - a ponto de tolerar, e até mesmo desejar, aquilo que em um primeiro momento lhe parecia doloroso e opressivo. É o que acontece com a sexualida- de: de qualquer maneira o homem habituou-se a uma repressão que, objetivamente, poderia parecer pura loucura. Mas se é verdade que não se procura conscientemente a infe- licidade - ao contrário, procura-se evitá-la - não é menos verdade que se faz de tudo também para evitar a felicidade. Esta, como o seu contrário, brota das grandes emoções. Ora, como já foi sutilmente sugerida, o nosso tipo de cultura impõe um severo autocontrole que impede que o efeito das próprias emoções ultrapasse cerros limites. No costume atual tudo é orientado para a produtividade, e a dor, o prazer, o ódio, o amor, o medo, e todas as outras emoções, violentas, não favorecem a eficiência produtiva, mas lhe impõe obstáculos. por isso a boa educação burguesa tende a neutralizá-las. Para isto já não se vale do meio grosseiro da repressão ex- terna, ou vale-se pouco, preferindo recorrer a um instrumen- to mais eficaz de autocontrole, isto é, a repressão interiorizada. Educam-se as pessoas para que afastem toda a emoção intensa. O cidadão de bem não deve nunca ser perturbado pela emoção. Em outras palavras, ela não é tanto reprimida quanto negada. 26
  • 27. Aprender com a Sexualidade De todas as fontes de emoção sem dúvida parece que a mais importante é a sexualidade, a qual em consequência é também a mais tenazmente recusada. A condição humana se- ria portanto esta: o indivíduo aspira à máxima produção de bens de consumo e contemporaneamente ao acúmulo máximo de meios de aquisição, e de ambas as coisas espera o que acre- dita ser felicidade, mas que da felicidade é apenas um substi- tutivo decadente, geralmente chamado bem-estar. Mas para obter produção e lucro ele deve ser eficiente, e para ser eficiente deve negar a emoção. Em particular aquela de natureza sexual, que é a menos produtiva e a mais dispersiva. Com isso ele nega o amor-prazer, e portanto a própria e autêntica felicidade, e na ilusória convicção de encontrar uma alegria que considera mais verdadeira, porque foi educado para isso, entrega-se a um trabalho alienado que lhe fornece dinheiro para comprar bens que ele mesmo produz. Não parece portanto uma procura da infelicidade, mas uma recusa da felicidade, profunda, inebriante, total, capaz até de dar medo. O homem tem em do desta felicidade: é uma coisa estra- nha frente aos seus costumes e ele não foi educado para gozá- la. O prazer que lhe e familiar, e praticamente o único que ele está em condições de apreciar, é o que a civilização industrial lhe oferece: a posse de objetos inanimados. A educação sexual é ma- nifestamente dirigida a esta condição. A biologização e o sexo como mercadoria, unidos a uma normativa entre as mais rígidas que a sociedade jamais experimentou, estão endereçadas a um só objetivo: relegar a sexualidade as margens da existência humana e reduzí-la a uma função secundária, programável e mediocremen- te atraente. Mesmo atraente do que a compra de um carro, de uma televisão a cores ou de um bilhete para a partida de futebol. CONSIDERAÇÕES F INAIS Pode-se afirmar que destina-se a pais e mestres, a responsa- bilidade da organização de programas curriculares da educação sexual, haja vista que a prática e o exemplo, ilustrados pelo com- 27
  • 28. Paulo César Moreira portamento e atitudes dos pais e mestres, têm mais importância que os simples preceitos. Assim sendo, natureza e o alcance das respostas às perguntas devem ser determinados pelo estado de desenvolvimento físico, afetivo e intelectual da criança ou do adolescente, bem assim pela própria natureza das perguntas feitas. Por isso, a educação cognitiva deve enquadrar-se no meio local e nacional, cultural e religioso e harmonizar-se entre família e a escola. Nas escolas, a educação sexual deve ser progressiva e integra- da, pois a necessidade de constantes repetições é muito natural nas crianças. Os referidos comportamentos e atitudes dos pais e mestres devem caracterizar-se pela naturalidade: a educação sexual é tanto melhor quanto menos aparente. Deve enquadrar- se natural e discretamente na vida doméstica e escolar correntes. Só aparece demais quando é imperfeita. Cabe ao educador perceber que o sexo é um todo que ca- racteriza as pessoas em sua estrutura corporal, sentimental e emocional, isto é, no afetivo e principalmente em seu comporta- mento. Por estes motivos, a responsabilidade de transformação dos valores e conceitos morais é de toda a sociedade, engloban- do as principais instituições como a família, a escola, a igreja, o estado e outras. A aquisição destes valores ocorre justamente na infância e na adolescência, e nestas fases que a personalidade do indivíduo é estruturada e definida. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BERNADI, Marcelo. A Deseducação Sexual. 2. ed. São Paulo: Summus, 1985. CORREIO BRAZILIENSE. Jogos e Debates para a Sexuali- dade. Caderno Brasil. Brasília, 23 de Junho de 1996. _________. Sexo no Currículo Escolar. Caderno Brasil. Brasília, 22 de Junho de 1997. CUNHA, Maria Carneiro da. Comportamento Sexual: A Re- volução Que Ficou no Caminho. Brasília: Nobel, 1988. 28
  • 29. Aprender com a Sexualidade LIMA, Helena. Educação Sexual para Adolescentes: Desven- dando o Corpo e os Mitos. 3. ed. São Paulo: Iglu, 1994. PILETTI, Nelson. Sociologia da Educação. 9. ed. São Paulo: Ática, 1991. SUPLICY, Marta. Sexo para Adolescentes: amor, homossexua- lidade, masturbação, virgindade, anticoncepção, AIDS. São Pau- lo: FTD, 1988. TIBA, Içami. Adolescência: O despertar do sexo: um guia para entender o desenvolvimento sexual e afetivo nas novas gerações. 2. ed. São Paulo: Gente, 1994. TIBA, Içami. Puberdade e Adolescência: desenvolvimento biopsicossocial. 5. ed. São Paulo: Agora,1986. ZAGURY, Tânia. O Adolescente por ele mesmo. 7. ed. Rio de Janeiro – São Paulo: Record, 1996. 29
  • 30.
  • 31. Aprender com a Sexualidade ORIENTAÇÃO E EDUCAÇÃO SEXUAL RESUMO O presente artigo tem por tema a orientação e a educa- ção sexual como processos de fazem parte da educação geral do indivíduo desde os seus primeiros anos de escolarização e, principalmente, durante a puberdade. Desde as primeiras etapas da vida intra-uterina, possui a totalidade dos órgãos necessários para a sua existência, mas somente do nascimento em diante é que começam a atuar em suas funções vitais. Assim aconte- ce com o aparelho digestivo, com os pulmões e com os órgãos dos sentidos. Os órgãos genitais existem bem constituídos no recém-nascido e na criança, mas funcionalmente estão apaga- dos, pois terão de esperar vários anos para desempenhar o papel para que foram criados: a reprodução da espécie. Então, durante a primeira época da vida, a criança deve acumular energias para o seu crescimento e desenvolvimento harmônico, até chegar à verdadeira diferenciação sexual, pois o menino se distingue da menina simplesmente pelos órgãos genitais. É o despertar da vida sexual. Palavras-Chaves: Orientação Sexual, Educação Sexual, Escola, Sociedade. INTRODUÇÃO A puberdade representa o início de uma série de atividades orgânicas e psíquicas que, tendo permanecido latentes na criança, requerem um lento processo evolutivo, durante vários anos, para poder manifestar-se. Para que este processo não leve a anomalias 31
  • 32. Paulo César Moreira da natureza é necessário que os pais e os mestres falem claramente às crianças, a fim de que estas saibam, desde a idade mais tenra, que não devem contrair certos hábitos. No terceiro Congresso Internacional de Higiene Escolar, ce- lebrado em 1910 em Paris, tratou-se, com a máxima atenção da “Iniciação Sexual”, reconhecendo-se a necessidade de as crianças de ambos os sexos conhecerem, desde os primeiros anos, noções de tudo que se refira à sexualidade. Os congressistas se dividiram em dois grupos, o primeiro sustentava que os mestres e mestras deveriam encarregar-se dessa tarefa; o outro que essa iniciação deveria ser confiada aos pais. A desorientação e a má informação sobre sexo podem gerar personalidades doentias. É preciso corrigir essa distorção, alte- rando a escala de valores que coloca o sexo como tabu. Inte- grando o processo educativo total, a chamada educação sexual desenvolve-se desde que o indivíduo nasce, através das influên- cias do meio. Deve ser realizada paulatinamente, mediante a formação de hábitos sadios e atitudes de equilíbrio e honestidade, tendo suas primeiras raízes no lar, onde os exemplos de respeito mútuo, sinceridade, autocontrole e elevação moral deverão proporcio- nar clima favorável à eclosão da afetividade bem dirigida e à satisfação natural das curiosidades sexuais, de modo oportuno e esclarecido sem repressões desorientadoras e traumatizantes, capazes de provocar desvios e complexos. Os pais e responsáveis quase nunca se atrevem a dar explica- ções sobre tal assunto, que lhes parece escabroso. A maioria de- les, graças a sua educação piedosa, consideram a ignorância como melhor garantia de pureza. É preciso recorrer às ciências naturais para uma instrução lógica e gradual, capaz de preparar uma me- nina ou um rapaz para estar conforme as regras, sem se afastar das exigências de ordem moral. É no seio da família que se pode dar a educação mais fácil e eficaz. Se os pais cumprirem o seu dever, o problema da educação sexual na escola será inexistente. Mas, como em geral não o cumprem, o problema existe nas escolas, onde a necessidade de empenharem os mestres na reali- 32
  • 33. Aprender com a Sexualidade zação eficiente de tarefas negligenciadas nos lares de seus alunos e se não de todo negligenciadas, ao menos levadas a efeito in- completamente. OS INSTRUMENTOS DA EDUCAÇÃO SEXUAL Pode-se legitimamente suspeitar que o homem serve-se da educação sexual para o mesmo fim. E, vice-versa, pode-se supor que o instrumento primário da educação sexual seja a repressão. Esta educação deveria liberar da angústia de uma sexualidade frustrada e aviltada, valorizando seus conteúdos positivos. Mas eis aí a mais assombrosa mistificação. Para os educadores os as- pectos positivos da sexualidade estariam na sua estabilização institucional e na constituição da família, na fidelidade perpétua, na procriação e assim por diante. Ninguém, tem claro para si que a substância da sexualidade é o desejo, e que o resto é artificioso e supra-estrutural. Não existirá jamais a liberação da angústia se não existir a liberação do desejo. Mas o desejo não consegue se libertar, ao contrário, é sufocado com muito cuidado, desfrutan- do-se para isso dos mais variados pretextos. Assim, a repressão sexual parece realmente constituir a linha mestra da educação sexual. É verdade que hoje, pelo menos por parte dos mais corajosos, toca-se em argumentos considerados absolutamente indecentes até há poucos anos, como a mastur- bação, a homossexualidade, ou as relações pré-matrimoniais, mas se insiste sempre no fato de que os desejos que originam estes comportamentos são desejos insanos e reprováveis, que por isso devem ser dominados e possivelmente sufocados. Ceder ao desejo, ou à chamada paixão, é coisa tida como torpe e bestial. Os limites do discurso sobre a sexualidade foram alargados, mas apenas em uma dimensão ilusória. Sua rigidez não foi quali- tativamente alterada. Lá onde consente-se o desejo, começa a imoralidade e a depravação. A conseqüência lógica e inevitável da repressão do desejo é a sublimação: se o desejo sexual deve cair sob a proibição, é claro que ele deve ser transmutado em outros tipos de desejo. Não se 33
  • 34. Paulo César Moreira pode impedir o adolescente de desejar alguma coisa, mas pode- se condicioná-lo a desejar coisas diferentes do que o exercício de sua sexualidade. Por exemplo: a conquista científica, a criação artística, a afirmação esportiva etc. É a uma tal mudança no cur- so do desejo que dá o nome de sublimação. É preciso deixar bem claro um aspecto fundamental: ninguém está querendo sustentar que a sublimação deva ser negada. Cada ser humano pode e deve exprimir-se de várias maneiras, e não apenas mediante uma sim- ples e direta atividade sexual. O que se deve rejeitar é o império universal e constante da sublimação sobre a pura sexualidade, o desvio habitual de impulsos sexuais para objetivos não sexuais. Desventuradamente é mesmo esta a política da educação corrente: nas escolas convencer os jovens a adiar, não se sabe até quando, a satisfação do seu erotismo, isto é, de sublimações que vão do estudo ao esporte, da arte ao bom comportamento, do serviço militar às várias ocupações recreativas. Não é necessário ser muito perspicaz para compreender que esta técnica pretende imprimir na cabeça do jovem a idéia de uma contradição, de uma fratura entre a sexualidade, de nível inferior, e a sublima- ção, de nível superior. Está formado o sólido dualismo: de um lado o espírito, a razão, a cultura, etc., que são coisas “puras”, e de outro o instinto, a paixão, o prazer, que são coisas impuras. A alma sobre o teto, o sexo no porão. Parece patente que os educadores procuram, desta maneira, chegar a uma dessexuali- zação dos educandos e teme-se que em muitos casos consigam. Deve-se dizer que nunca foi encontrado uma sexofobia tão in- transigente e obstinada como nos jovens pertencentes a certos grupos integralistas de características absolutamente católicas. Não encontrou-se nem mesmo entre adultos mais reacionários e conservadores. Um fenômeno um tanto quanto desconcertante, caracterís- tico do momento histórico em que vive-se, é a transferência da energia vital humana para objetos sem vida. A tecnologia tornou- se uma espécie de competidora da sexualidade. Não se é capaz de gozar, mas habilitadíssimos a criar máquinas produtoras de cifras. Nesta matéria se é perfeccionista e obstinado, talvez até mestres 34
  • 35. Aprender com a Sexualidade inigualáveis. Inútil dizer que a educação sexual também se vale amplamente deste mito da perfeição tecnológica, mostrando aos jovens (e aos que não são mais jovens) como uma louvável con- tribuição ao progresso da humanidade, que o avanço tecnológico desancorado da energia vital, e portanto do amor, possa produzir o extermínio atômico, a guerra química e a bacteriológica, é um detalhe que se prefere negligenciar. O encantamento pela técnica é um potente fator de coesão dentro da perspectiva da conservação do atual sistema. Mas a verdade é que não se consegue apagar os instintos. Antes, consegue-se o oposto, isto é, a repressão dos instintos. Por esse motivo a educação sexual, fundada largamente sobre a sublimação, em especial sobre a sublimação científico-tecnoló- gica, acaba por sair da área da comunicação afetiva para entrar em uma área de “objetividade” isolada e fria, tornando-se com isso mais estéril e dessexualizante. De qualquer forma, o motivo dominante da educação sexual permanece sendo a repressão. A repressão, mais ou menos decla- radamente percorre os caminhos da sublimação, do tipo “cientí- fica”, mas apoia-se sobretudo nos meios eficazes da chantagem. Em uma sociedade com fortes proibições sexuais, a autoridade consolida-se também pelo fato de ter a possibilidade, sobretu- do na forma religiosa, de novamente liberar os homens de uma parte de seu complexo de culpa. O alívio que advém está neces- sariamente conectado a uma mais forte submissão e devoção a essa autoridade. Em outros termos, estimula-se artificialmente no homem complexos de culpa, ligados à sexualidade, dos quais o homem pode se liberar desde que lhe submeta-se à autoridade, e logo à repressão que a autoridade lhe impõe e à própria mortificação. A morte deve ser aceita para salvar-se. “A educação para a aceitação da morte introduz na vida, desde o princípio, um elemento de capitalização e submissão”. Implícita ou explicitamente, colorida com expressões confusas ou abertamente proclamada, esta é a tra- ma envolta na ética sexual que fornece à operação educativa a matéria-prima para a reformulação de normas e preceitos. Uma 35
  • 36. Paulo César Moreira ética que, na verdade, parece pouco moral. Uma ética que tem como objetivo apenas a conservação e a salvação do matrimônio institucionalizado, a garantia de propriedade recíproca dos cônju- ges, a fidelidade coagida e o autoritarismo intra e extrafamiliar. AS FALSAS PALAVRAS O terreno sobre o qual prospera a falsa educação sexual é o da hipocrisia. Em público cria-se uma imagem da própria se- xualidade que não é verdadeira, e ela é apresentada como uma trama bem ordenada de relações preestabelecidas e codificadas. Mas na privacidade aceita-se tranquilamente aquelas desordens” que oficialmente são recusadas como perversão, desvio, depra- vação, e assim por adiante. Um cidadão médio pode ter uma amante, mas não aceitará nunca colocar em discussão a fidelida- de conjugal. A cidadã média pode ter uma libido normal e por isso procurar alguma satisfação não necessariamente ortodoxa, mas frente às pessoas representará sempre o papel da perfeita mãe de família, disciplinada e frígida. Usa-se largamente a prostituição, pratica-se o aborto clan- destino em escala nacional, sustenta-se um promissor mercado da chamada imprensa pornográfica, abusa-se do corpo feminino usando-o como meio para incrementar o consumismo, mas se mantém a fachada da mais rigorosa retidão moral. Trata-se de uma falsidade que, apesar disso, passou a fazer parte dos costu- mes e que é considerada absolutamente normal. Uma mentira coletiva que goza da proteção do moralismo corrente, o qual está disposto a tolerar qualquer baixeza a nível individual, mas não transige sobre a exterioridade da norma. Atos impuros são come- tidos sem nenhum impedimento, mas condena-se a impureza. E para manter viva e operante tal condenação, a despeito de uma realidade que a contradiz de modo evidente, recorre-se a um lé- xico particularmente mistificatório, feito de grandes palavras nas quais se coloca um conteúdo cômodo. Da hiprocrisia dos fatos avizinha-se das palavras. 36
  • 37. Aprender com a Sexualidade A MORAL Muitos sustentam que existe e que deve existir uma moral sexual, isto é, que a sexualidade deve ser gerida basicamente por um código moral que lhe seja próprio e que é diferente daquele destinado a guiar outras expressões humanas, como por exemplo a ação política ou econômica. Consequência disso é que uma determinada operação, suponhamos a procura não finalizada do prazer, pode ser lícita e até louvável em um certo campo - e con- denável no campo sexual. descobrir a solução de um problema científico ou deitar-se em um gramado para tomar sol são coisas que dão prazer, frequentemente um prazer que é fim em si mes- mo e sobre o qual ninguém tem nada a dizer. Mas todos têm muito a dizer se satisfação, desvinculada de fins procriativos, sociais ou de outro gênero, é procurada a área da sexualidade. As normas éticas reservadas ao exercício da sexualidade são sugeridas, ou impostas, em uma perspetiva de relatividade e de aderência às necessidades de um dado contexto social. Isto pareceria lógico se o livre fluir da sexualidade, não limitada por ordenações particulares, causasse dano àquele determinado tipo de ordem comunitária e, naturalmente, se este último fos- se satisfatório a ponto de ser conservado inalterado. Eis os dois postulados sob os quais se funda a ética sexual: não há hipótese, ao menos por ora, de um sistema melhor que o atual, e tal sistema não deve deteriorar-se em contato com um costume sexual liberatório. Bem, a segunda parte do discurso é previsível, mas a primeira, o contrário, oferece muitos motivos para perplexi- bilidade. Para sustentar a necessidade de uma moral sexual ocorre entretanto que ambas as afirmações são reconhecidas como ple- namente válidas, e é extremamente nesta direção que se movem os moralistas: as consequências de uma liberação da sexualidade são apresentadas como ruína, caos e regressão. A desintegração do sistema é interpretada de maneira pu- ramente negativa, e definida como temível em qualquer de seus aspectos. Em suma, cada solução alternativa àquelas vigentes é considerada um prejuízo, algumas vezes dramático, e afirma-se 37
  • 38. Paulo César Moreira que uma sexualidade livre conduziria a esse prejuízo da condição humana. Vem daí a imposição de uma moral sexual específica e relativa, própria para o sistema existente, e portanto a negação de uma ética global e estável que considere a gestão da sexualidade no nível de qualquer outro comportamento humano, independente das exigências do próprio sistema. Fala-se então abundantemente de ética sexual e muito pouco de ética pura e simples, mesmo porque esta última opõe-se a manobras limitativas que distorçam sua essência e se traduzem em uma opressão da pessoa. A moral sexual poderia portanto, e não sem razão, ser chamada de imoral. Mas ela é apresentada como um grande sinal de civilidade e como um instrumento indispensável de progresso. A EDUCAÇÃO Para a maior parte das pessoas educar quer dizer amostrar a criança para que se comporte de um modo determinado, pre- cisamente conforme as exigências de um costume considerado médio e normal. Isto implica: que o educando e potencialidade da criança, a qual, privada do ensinamento supracitado, não che- garia nunca a elaborar tipos de comportamentos aceitáveis; que certos comportamentos, socialmente aprovados, são o objetivo da educação, bem como o seu fim último, sem o qual se reincidira na anormalidade; que o impulso de operar daquela determinada maneira deve fazer parte da mentalidade do educando até que, em certo ponto, ele não precise mais ser educado e possa seguir o caminho sozinho, tornando-se por sua vez e um educador. Bem educado seria, por isso, um indivíduo que age segundo as normas estabelecidas pelo costume vigente, que esteja e irre- versivelmente condicionado neste sentido, e que portanto não precise de vigilância ulterior ou de outros ensinamentos. Se tudo isto é verdade, fica por esclarecer qual a diferença entre uma criança bem educada um cão bem adestrado. E qual a diferença entre educação e um banal e grosseiro condicionamento. Na verdade, o mais elementar bom senso induz à recusa ca- tegórica de todos os pressupostos do que normalmente se chama 38
  • 39. Aprender com a Sexualidade educação. Pensar que a criança deve ser educada e o adulto não, é absolutamente ridículo. Se admite, e não vejo como negá-lo de forma razoável, que a educação é uma operação dialética na qual a pessoa é o sujeito, e não o objeto, que constitui o primeiro empurrão para todo o movimento evolutivo, não se compreende por que motivo o adulto não continua participando dessa ope- ração. Como se a chegada da chamada maturidade coincidisse com um estado de perfeição absoluta e insuperável. Não se compreende por que motivo a criança necessaria- mente tornar-se-à anti-social, selvagem e criminalóide se o adulto não providenciar reprimir-lhe o mal e ensinar-lhe o bem, por meio de uma espécie de domesticação. Não se compreende ao menos qual o valor de uma estrutura psíquica imutável, mar- cada por um Superego prefixado, indelevelmente marcada na mente do indivíduo e que dirige as ações deste em uma marcada na mente do indivíduo e que dirige as ações deste em uma única e sempre idêntica direção. Uma humanidade composta de gente “educada” deste modo seria bastante similar a um formigueiro. E de fato parece que o é. No entanto esta educação, condicio- nante e opressiva, é a predileta de quase todos. A criança não deve ser aquilo que é, não deve realizar sua potencialidade, não deve avançar pela sua estrada, não deve de- senvolver as suas qualidades. Ela tem obrigação de tornar-se igual a nós, de desenvolver-se segundo a nossa vontade, de per- correr o caminho que nós escolhemos, de valorizar a qualidade que nós julgamos boa. Nós somos infalíveis e perfeitos, e deste axioma partimos para plasmar os nosso filhos. À nossa imagem e semelhança, bem entendido, assim como fez Deus. A RESPONSABILIDADE Eis um dos instrumentos mais caros à repressão sexual: a responsabilidade. Para exercitar a sexualidade é preciso ser res- ponsável. E a criança, sabe-se, não pode ser responsável. Nem o jovem. A responsabilidade chega com a idade madura, quan- do chega. Para muitos não chega nunca, e por toda sua vida 39
  • 40. Paulo César Moreira esses serão julgados irresponsáveis e inaptos para toda relação sexual. Os rebeldes, os contestadores, os anticonformistas, os originais, os livres pensadores, os não alinhados, os brincalhões, os sonhadores, os utopistas, todos são irresponsáveis. Se quer impedir alguém do exercício da sexualidade basta dizer que esse alguém não tem senso de responsabilidade. E é o que se diz de todo aquele que não respeita as regras do jogo impostas pelo sistema. Responsável, em suma, seria aquele que exercita a própria sexualidade nas condições do costumes vigentes, dado que a submissão aos costumes parece ser a única garantia considerada válida para a tutela da pessoa humana. O discurso do moralismo sexofóbico é bastante sutil: se você faz amor com uma jovem deve esposá-la; se gasta suas energias no sexo não sobrará nenhuma para a realização dos seus deveres; se você, mulher, perde a virgindade, está privando seu compa- nheiro de um bem a que ele tem direito; se você se une a uma pessoa fora da instituição matrimonial ficará em uma situação socialmente incômoda, e assim por diante. Discurso sutil, repi- to, mesmo que os argumentos sejam trágicos, pois se trata de um discurso chantagista que impõe a culpa: se você não respeita fará mal à pessoa que você diz amar. Você será portanto culpado frente ao seu(sua) companheiro(a) e apenas a obediência às re- gras poderá reparar o seu erro. Que dois seres humanos possam assumir a verdadeira responsabilidade de estarem juntos em uma troca recíproca de amor e prazer, e de contarem consigo mesmo e não com a aprovação social para serem felizes é coisa pratica- mente impensável para muitos dos chamados educadores. Existem jovens e até crianças frequentemente mais respon- sáveis que certos adultos, e existe, cidadãos humildes bem mais responsáveis que os qualificadíssimos guardiões da moral. Mas oficialmente jamais serão reconhecidos como tal: a responsabi- lidade mistura-se com a firma reconhecida e com a corrente do banco. Quem não está de posse de seus documentos é irrespon- sável, portanto inepto para o exercício da sexualidade, portanto culpado caso a exercite. Não acredito estar exagerando. Infeliz- 40
  • 41. Aprender com a Sexualidade mente este discurso sobre a responsabilidade é frequente e mal acabado, com uma referência constante a uma normativa que parece nutrida mais de burocracia que de razão. A INOCÊNCIA O trabalho do educador é quase sempre direcionado no sen- tido de fazer com que a criança e o jovem se comportem como adultos. Considera-se muito importante que o filho, ou o alu- no, aprenda rapidamente uma quantidade notável de idéias, que desenvolva atividades integradas dentro de fora da escola, que respeite as regras da vida comunitária, que não cause distúrbios, que “racione”, que execute pontualmente as ordens, que se adap- te aos costumes, etc. Faz-se de tudo para que seja mais inteligente, mais hábil, mais estudioso, mais forte, mais empreendedor, mais sociável. Mas nada se faz para que aprenda alguma coisa sobre a sexu- alidade e dobre o prazer-amor, ou para que aprenda a gozar o próprio corpo. A zona da sexualidade é a única zona proibida, onde a criança não deve por os pés. A criança deve aprender de tudo, mas nada referente ao sexo. Como já foi dito muitas vezes, o sexo é o limite, a barreira, a linha de demarcação entre a menor e a maioridade. O sexo é o feudo do adulto. Quem não é adulto deve ser privado de sexualidade, quer dizer, deve permanecer inocente. A inocência é a conotação mais relevante que se atribui à criança. E esta total ignorância da sexualidade - ou inocência - é defendia por todos os meios. Costuma-se dizer: não é necessário pertur- bar a inocência da criança, não é preciso manchá-la e não se deve permitir que a criança a perca. Portanto é indispensável defender a criança da curiosidade mal direcionada, dos conta- tos excitantes, dos estímulos inconvenientes. É preciso fazer com que não toquem em excesso nos próprios órgãos genitais e muito menos nos dos outros, que não se envolva em jogos proibidos e, naturalmente, que não se masturbe. Qualquer ati- vidade infantil que faça referência à esfera sexual deve ser im- 41
  • 42. Paulo César Moreira pedida a qualquer custo. Caso contrário a criança perderá, para sempre, a sua inocência. Perde-se a inocência não só como consequência de más ações, mas também por conhecimentos inoportunos. A criança não deve saber tudo. Alguma coisa sim, de modo a satisfazer a sua petulante curiosidade, mas tudo certamente não. Sabendo demais a criança poderia ter maus pensamentos e desejos deplo- ráveis, que maculariam com o lodo da malícia a limpidez da sua ingenuidade. Fala-se, nos tons mais poéticos, do óvulo materno e do sêmen paterno, das núpcias, da maturidade, das flores e das borboletas. Fala-se também, mas com cautela, do fato de que fêmea e macho não são iguais. Mas nada além. Explicar, por exemplo, que os meninos tem um pênis e as meninas vaginas é já arriscado porque isto atrairia a atenção do pequeno inocente sobre seus órgãos genitais, e quem sabe com que funestas consequências. Não faz muito tempo um sema- nário milânes publicou as opiniões de alguns leitores sobre um programa televisivo de educação sexual. A ânsia em proteger a inocência das crianças logicamente leva o adulto a afastar dos pequenos tudo que poderia ofender essa inocência. Em primeiro lugar a experiência. O pensamento de que uma criança, ou um meninote, possa experimentar o prazer da masturbação, ou que tenha como ver uma pessoa nua, ou que se pare com o espetáculo efusivo de duas pessoas ena- moradas, ou que ouça falar de abraços e coisas semelhantes, é intolerável para alguns educadores. E quem, ao contrário, acha tolerável acaba sendo acusada de ser um obcecado por sexo e substancialmente um corruptor. Uma coisa é certa: a criança que sabe alguma coisa sobre sexo ou pior, que desenvolve uma atividade sexual, semeia o pânico entre adultos de um determinado tipo. Mas talvez ain- da exista outra, essa também muito simples: o adulto sente-se inconscientemente perseguido pela repressão que ele mesmo exercita e mantém, e gostaria de liberar-se dela da única maneira que pode aceitar, isto é, eliminando o que deve ser reprimido, a sexualidade. O adulto em suma gostaria de libertar-se da própria 42
  • 43. Aprender com a Sexualidade sexualidade para não ter que sujeitar-se à repressão. Gostaria de ser “inocente”. Para tanto criou um modelo de inocência, e este modelo é a criança. Se a criança não fosse inocente o adulto não teria à sua dis- posição nenhuma referência para fundar a hipótese de uma não- sexualidade, não poderia sustentar a possibilidade concreta de uma existência separada do sexo e seria inexoravelmente conde- nado à repressão. O adulto, para poder tolerar o próprio mora- lismo sexofóbico, precisa desesperadamente da criança assexuada e inocente. Por isso a inventou e pretende que ela assim seja, ignorado o fato de que a criança não é inocente. Ou pelo menos não o é no sentido que comumente se dá a essa palavra. A SEXUALIDADE HOJE E OS CONFLITOS DA SOCIEDADE MODERNA A observação da realidade atual poderia levar à conclusão de que o homem, concientemente, trabalha com prodigiosa perse- verança para a própria infelicidade. Não acredita-se que a maior parte da pessoas seja realmente infeliz. Certamente ninguém, mesmo com um medíocre nível de consciência, quer ser infeliz. Provavelmente o seria se não existisse o fenômeno do hábito. Mas sabemos que o hábito existe, e que aos poucos o homem se adapta a quaisquer condições - ou quase - a ponto de tolerar, e até mesmo desejar, aquilo que em um primeiro momento lhe parecia doloroso e opressivo. É o que acontece com a sexualida- de: de qualquer maneira o homem habituou-se a uma repressão que, objetivamente, poderia parecer pura loucura. Mas se é verdade que não se procura conscientemente a in- felicidade - ao contrário, procura-se evitá-la - não é menos ver- dade que se faz de tudo também para evitar a felicidade. Esta, como o seu contrário, brota das grandes emoções. Ora, como já foi sutilmente sugerida, o nosso tipo de cultura impõe um severo autocontrole que impede que o efeito das próprias emoções ul- trapasse cerros limites. No costume atual tudo é orientado para a produtividade, e a dor, o prazer, o ódio, o amor, o medo, e todas 43
  • 44. Paulo César Moreira as outras emoções, violentas, não favorecem a eficiência produ- tiva, mas lhe impõe obstáculos, por isso a boa educação burguesa tende a neutralizá-las. Para isto já não se vale do meio grosseiro da repressão ex- terna, ou vale-se pouco, preferindo recorrer a um instrumen- to mais eficaz de autocontrole, isto é, a repressão interiorizada. Educam-se as pessoas para que afastem toda a emoção intensa. O cidadão de bem não deve nunca ser perturbado pela emoção. Em outras palavras, ela não é tanto reprimida quanto negada. De todas as fontes de emoção sem dúvida parece que a mais importante é a sexualidade, a qual em consequência é também a mais tenazmente recusada. A condição humana seria portanto esta: o indivíduo aspira à máxima produção de bens de consumo e contemporaneamente ao acúmulo máximo de meios de aqui- sição, e de ambas as coisas espera o que acredita ser felicidade, mas que da felicidade é apenas um substitutivo decadente, ge- ralmente chamado bem-estar. Mas para obter produção e lucro ele deve ser eficiente, e para ser eficiente deve negar a emoção. Em particular aquela de natureza sexual, que é a menos pro- dutiva e a mais dispersiva. Com isso ele nega o amor-prazer, e portanto a própria e autêntica felicidade, e na ilusória convicção de encontrar uma alegria que considera mais verdadeira, porque foi educado para isso, entrega-se a um trabalho alienado que lhe fornece dinheiro para comprar bens que ele mesmo produz. Não parece portanto uma procura da infelicidade, mas uma recusa da felicidade. Da felicidade profunda, inebriante, total, capaz até de dar medo. O homem tem em do desta felicidade: é uma coisa estranha frente aos seus costumes e ele não foi edu- cado para gozá-la. O prazer que lhe e familiar, e praticamente o único que ele está em condições de apreciar, é o que a civili- zação industrial lhe oferece: a posse de objetos inanimados. A educação sexual é manifestamente dirigida a esta condição. A biologização e o sexo como mercadoria, unidos a uma norma- tiva entre as mais rígidas que a sociedade jamais experimentou, estão endereçadas a um só objetivo. Relegar a sexualidade as margens da existência humana e reduzi-la a uma função secun- 44
  • 45. Aprender com a Sexualidade dária, programável e mediocremente atraente. Mesmo atraente do que a compra de um carro, de uma televisão a cores ou de um bilhete para a partida de futebol. O SEXO COMO MERCADORIA Pode parecer que a codificação do sexo constitue um fenô- meno contrastante com a educação sexual, mas, ao contrário, não só este contraste não existe como o mercado sexual é um dos costumes mais diretamente ligados aos procedimentos edu- cativos vigentes. O educador tende, como é notório, a reprimir a sexualidade e contribuir assim para a criação dos substitutivos da sexualidade reprimida: pornografia, prostituição, etc. Ele não ignora o fato, e consequentemente assume uma dupla postura: por um lado não deixa de exprimir verdadeiro repúdio e a mais severa condenação pelo mercado do sexo, mas por outro lado reconhece-lhe a irreparalidade e confessa a própria e resignada impotência. A resignação frente ao comércio do amor está entre os ele- mentos educativos primários oferecidos ao ser humano. O que é lógico, dado que o único modo de eliminar tal comércio é a renúncia à repressão. O que, para o repressor, é evidentemente impensável. Assim, é preciso resignar-se. Entretanto não está tudo aqui: a educação tradicional ainda vai além. Pode parecer estranho que os moralizadores manifestem a mais obstinada intransigência com relação a um setor do merca- do sexual, pornográfico, enquanto calam-se frente a outro setor, o da prostituição. Mas não é estranho. A pornografia, de fato, é fon- te de excitação sexual. A primeira deve ser portanto combatida, a segunda favorecida. A resignação de que se falava é ostentada dentro dos limites de ambos os fenômenos, mas na prática trata- se de uma resignação passivamente opaca frente à prostituição. O objeto do moralismo sexofóbico é o da deserotização do indivíduo, o que certamente não se pode conseguir através de solicitações pornográficas, mas que se pode facilmente alcan- çar com o trabalho das meretrizes. Consequentemente, depois 45
  • 46. Paulo César Moreira dos conselhos pragmáticos, declara-se rapidamente que nada se pode fazer contra a prostituição, que ela é a profissão mais velha do mundo. E ainda se vai mais longe: sustenta-se que a prostituição é a salvação do matrimônio, ou pelo menos um dos seus sustentáculos. E se isso não é dito explicitamente, deixa-se subentendido. A educação sexual contribui de três modos para a codificação do sexo: primeiro com uma resignação suspeita; segundo, justifi- cando-lhe a existência, especialmente a nível da prostituição; ter- ceiro, mascarando-lhe a verdadeira face até sua institucionalização. Isto é, fazendo passar por coisa normal, incensurável e até louvável o que na verdade é desumanizante e humilhante, cobrindo com o manto da legalidade um mercado em si degradante, colocando a etiqueta do matrimônio sobre uma contratação muito distante da esfera afetiva e muito próxima da economia. Não pretendo com isso dizer, bem entendido, que o matrimônio seja sempre uma forma de prostituição. Pretendo dizer que pode sê-lo, e que ge- ralmente é. E mesmo que o seja do modo mais descarado, ainda assim é corajosamente defendido pelos educadores sexuais. Não se pode educar para a repressão sexual se dar vida a um mercado, mais ou menos clandestino, que compense a sexu- alidade. E não se pode fazer vista grossa à codificação do sexo sem encorajá-la. Isto me parece fora de discussão. Mas infeliz- mente não se pode dizer que os nossos educadores pretendam modificar sua estratégia, nem tão pouco renunciar à sua obra de persuasão em larga escala. CONSIDERAÇÕES F INAIS Pode-se afirmar que destina-se a pais e mestres, a respon- sabilidade da organização de programas curriculares: a prática e o exemplo, ilustrados pelo comportamento e atitudes dos pais e mestres, têm mais importância que os simples preceitos; a natu- reza e o alcance das respostas às perguntas devem ser determina- dos pelo estado de desenvolvimento físico, afetivo e intelectual da criança ou do adolescente, bem assim pela própria natureza 46
  • 47. Aprender com a Sexualidade das perguntas feitas; a educação cognitiva deve enquadrar-se no meio local e nacional, cultural e religioso e harmonizar-se entre família e a escola. Nas escolas, a educação sexual deve ser progressiva e inte- grada. A necessidade de constantes repetições é muito natural nas crianças. Os referidos comportamentos e atitudes dos pais e mestres devem caracterizar-se pela naturalidade: a educação se- xual é tanto melhor quanto menos aparente. Deve enquadrar-se natural e discretamente na vida doméstica e escolar correntes. Só aparece demais quando é imperfeita. As respostas às perguntas formuladas exigem ajustamento constante, levando-se em conta o desenvolvimento físico e mental da criança ou adolescente e o seu condicionamento psicológico. Por isso é preciso conhecê- los, antes de lhes responder, buscar saber o que lhes ensinaram sobre o assunto, ou o que eles mesmos pensam. Tanto em casa quanto na escola a educação sexual deve ser progressiva, porque assim ocorre com todas as matérias curriculares. Sobretudo no que se refere a informações sobre anatomia e fisiologias sexuais. E deve ser integrada, exatamente porque as demais matérias do ensino também se integram, ou pelo menos, devem integrar-se. A necessidade de repetições constantes, não procede de esquecimentos por recalque, mas deve ser considerada como consequência natural do crescimento e do desenvolvimento da criança. Ora, porque o ensino é ou deve ser integrado e progres- sivo, assim também é progressiva a assimilação de informações e o desenvolvimento das potencialidades do educando; o que hoje satisfaz amanhã é insuficiente, donde o retorno do educando à questão. Este hoje-amanhã é relativo, horas, meses ou segun- dos. De modo geral, a expressão “educação sexual” resume ou contém duas coisas distintas: a informação sexual, isto é, o pro- blema de saber-se como transmitir às crianças o conhecimento da anatomia e da fisiologia sexuais, como desvendar-lhes es- sas realidades que, para eles, são mistérios; a “educação sexual propriamente dita”, ou seja, o processo pelo qual as crianças e os adolescentes compreenderão que o instinto sexual, como os 47
  • 48. Paulo César Moreira demais instintos, deve ser sujeito ao domínio da vontade e da razão; e, de instinto puramente animal, transformar-se em ins- tituto humano. O primeiro problema é sobretudo científico mas encerra um fim de ordem moral. Nessas condições, educação instrução são inseparáveis e não se pode conceber que se empre- enda uma sem o empreendimento da outra. REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFIA BERNADI, Marcelo. A Deseducação Sexual. 2ª Ed. São Paulo, Summus Editorial, 1985. CORREIO BRAZILIENSE. Jogos e Debates para a Sexuali- dade. Caderno Brasil. Brasília, 23 de Junho de 1996. _________. Sexo no Currículo Escolar. Caderno Brasil. Brasília, 22 de Junho de 1997. CUNHA, Maria Carneiro da. Comportamento Sexual: A Re- volução Que Ficou no Caminho. Brasília, Nobel, 1988. EDIPE - Enciclopédia Didática de Informação e Pesquisa Educacional. Volume 4. São Paulo, Livraria Editora Iracema Ltda, 1993. PILETTI, Nelson. Sociologia da Educação. 9ª edição. São Pau- lo, Editora Ática. 1991. 48
  • 49. Aprender com a Sexualidade A ORIENTAÇÃO SEXUAL NO CONTEXTO ESCOLAR RESUMO O presente artigo apresenta a importância da Orientação Sexual como um dos temas transversais, ressaltando a neces- sidade da participação e apoio dos pais e maior interesse dos educadores, em respeitar as etapas de desenvolvimento da se- xualidade da criança, que é construída naturalmente ao longo da vida, marcada pela sua história, cultura, ciência, assim como pelos afetos e sentimentos vivenciados. Palavras-Chave: Orientação sexual, educação escolar, professor, temas transversais. INTRODUÇÃO O que levou a investigação sobre esse tema, foi ter observado no meu cotidiano escolar, que queira ou não, a escola e a família, deparam-se com diversas situações no que diz respeito às curio- sidades das crianças sobre sexualidade, relacionadas às origens de cada um e com o desejo próprio de saber; e que os adultos sem saber lidarem com este assunto, acabam ignorando, ocultando ou reprimindo suas indagações, levando as crianças e jovens a recorre- rem à informações de outras fontes como: livros, revistas, convivên- cia escolar e o que é mais preocupante atualmente, da mídia. Mais diretamente a TV, que através de propagandas, filmes e novelas, transmite mensagens completamente inadequadas e distorcidas no que diz respeito à formação de valores, divulgando na maioria dos seus programas, mensagens irreais, violentas e confusas, e o que é pior, estimulando o interesse precoce da criança pela sexualidade. 49
  • 50. Paulo César Moreira O principal objetivo da pesquisa é ressaltar que apesar de todas essas influências, os educadores (de preferência podendo contar com o apoio familiar) podem intervir sistematicamen- te na área da sexualidade, estimulando os alunos à uma maior consciência de sua autonomia pessoa e, ao longo do processo pedagógico, serem capazes de uma melhor compreensão dos movimentos políticos e culturais envolvendo a sexualidade, des- de que os educadores assumam e reconheçam de fato que seu papel não é apenas transmitir os “saberes científicos”, mas sim adaptar-se à realidade da sua comunidade escolar, atendendo na medida do possível suas necessidades, aproveitando o espaço privilegiado da escola, para criar um clima de respeito e liberda- de de expressão. Questiona-se, ainda, como deve ser o perfil de um orienta- dor sexual, que apesar de não haver nenhuma restrição quanto a outro profissional que tenha uma atitude positiva frente à pró- pria sexualidade, o professor foi apontado como o mais indicado, por estabelecer laços significativos entre seus alunos. A importância do tema Orientação Sexual ser inserido nos Parâmetros Curriculares Nacionais, por meio da transversalida- de, é para que desta forma este assunto esteja impregnado em toda a prática educativa, e cada uma das áreas trate da temática da sexualidade, por meio da sua própria proposta de trabalho. Para tanto, é fundamental a disponibilidade e flexibilidade de quem estiver conduzindo este trabalho. Assim sendo, os objetivos desse estudo centram-se em: iden- tificar a relevância da orientação sexual na formação da sexua- lidade dos alunos; compreender as diferenças conceituais entre sexo e sexualidade; identificar as contribuições metodológicas de Freud e Piaget na orientação da sexualidade; abordar aspectos que diferenciam a educação sexual da orientação sexual; discutir a necessidade da escola propiciar informações sobre sexualidade; identificar o perfil do Orientador Sexual na escola; relacionar os principais objetivos da orientação sexual para o Ensino Funda- mental; discorrer sobre a relação entre pais, comunidade escolar, mídia, orientação e desenvolvimento da sexualidade. 50
  • 51. Aprender com a Sexualidade CONCEITOS TEÓRICOS SOBRE SEXO E SEXUALIDADE Sendo a sexualidade uma essencial dimensão humana, é de grande importância que ela seja compreendida em seus sentidos mais amplos como tema e área de conhecimento e, na aborda- gem educacional, em termos mais específicos, para que se tenha o alcance das múltiplas interações desta dimensão com as ou- tras dimensões da realidade e vivência humana. A sexualidade concentra-se nestes núcleos que perpassam a subjetividade e sociedade, constituindo um campo de saberes que se articulam através da produção de conhecimentos baseados nas caracterís- ticas exclusivamente humanas de afetividade e erotismo. A compreensão primordial fundamenta-se na idéia de que a sexualidade não é uma “parte” ou “complemento” da condi- ção humana. Também não se trata de uma dimensão secundária, vinculada às demais habilidades e potencialidades humanas. Ao contrário, a sexualidade é entendida como uma característica so- mente desenvolvida e presente na condição cultural e histórica do homem. Como este homem é um ser sexuado, tudo o que faz ou realiza, envolve esta dimensão de constituir uma sexua- lidade, uma significação e vivência da mesma, diversamente da determinação instintiva e primariamente animal e reprodutiva. Portanto, a sexualidade transcende à consideração meramente biológica, centrada na reprodução e nas capacidades instintivas. Fischer (2001, p. 120) salienta que, na condição ético-onto- lógica do homem, a sexualidade é a própria vivência e significa- ção do sexo, ou seja, já carregada dentro de si a intencionalidade e a escolha, que a tornam uma dimensão humana, dialógica, cul- tural. Não há como se subtrair a esta condição. Ela está presente deste o surgimento ou organização da cultura humana. Como seres sexuados, somos também sexualizados, ou melhor, envol- vidos com a dinâmica e características de nossa sexualidade. A primeira de nossas identidades existenciais foi exatamente aque- le que de nós, nossos pais disseram: “É menino!”, ou ainda, “É menina!”. Esta consideração nos remete para a situação parado- xal, de que a nossa primeira identidade, proclamada e esperada, 51
  • 52. Paulo César Moreira tenha sido aquela vinculada à sexualidade (ao redor da marca genital). É estranho reconhecer que, através de caminhos que devem ser entendidos no resgate histórico-crítico de nossa cul- tura, esta identidade primeira venha a ser negada e calada tão barbaramente, no tocante ao sexo e sexualidade da criança. Portanto, diferenciando inicialmente o contexto de “sexo” e “sexualidade’, Lopes (2001, p. 90) considera que é possível en- tender o primeiro como marca biológica, caracterização genital e natural, constituída a partir da aquisição evolutiva da espécie humana como animal. Já a sexualidade é um conceito cultural, constituído pela qualidade, pela significação do sexo. Nesta de- finição, somente a espécie humana ostentaria uma sexualidade, uma qualidade cultural e significativa do sexo. Tratando-se da se- xualidade infantil, é válido observar a construção cultural de uma significação pessoal e hibridamente social da marca genital. Não devemos reduzir nossa compreensão da sexualidade humana a uma manifestação instintiva. Aliás, falar em dimensão instintiva ou reduzir a esfera da sexualidade humana a uma mera dimensão animal, natural ou reprodutiva, é precisamente tirar dela sua di- mensão mais significativa, ou até mesmo sua espiritualidade. Tratar de sexualidade na escola requer o alicerce de uma concepção científica e humanista desta sexualidade, superando o senso comum, que é o nível primário do conhecimento so- cial. Somente por uma abordagem histórica e cultural sobre a construção da sexualidade humana, fundamentada por uma ri- gorosa compreensão científica do desenvolvimento psicossexual da criança, poderemos analisar as manifestações da sexualidade infantil na escola. Relata-se que entre as dificuldades abordadas pelos profes- sores, na questão da sexualidade, que a maioria aponta a ausência de fundamentos científicos na análise destes comportamentos, baseando-se sempre nos elementos mais conservadores e tra- dicionais de uma cultura repressiva e negativista do sexo e suas dimensões, reforçada pela família, pela religião e pela própria escola. Alguns professores, em muitas pesquisas e contatos sobre as manifestações da sexualidade infantil, apontaram a própria 52
  • 53. Aprender com a Sexualidade dificuldade pessoal em compreender a complexidade da sexuali- dade humana, reclamando da falta de conteúdos e dos resquícios de uma educação represssora que acaba dificultando o esclareci- mento das questões e situações que envolvem o sexo. Outros depoimentos e análises, colhidos nos muitos cursos e palestras ministrados pelos educadores César Nunes e Edna Silva, vão ainda mais longe. Falam da repressão da própria se- xualidade, reconhecendo a complexidade cultural e histórica da questão, presente em todas as pessoas e consequentemente tam- bém nos grandes questionamentos dos professores e professoras, apontando ainda a atividade ostensiva e patrulhadora dos pais sobre a sexualidade. Segundo Nunes e Silva (2000, p. 201), é chamada de “atitude patrulhadora”, não aquela atitude responsável e articulada, inte- grada e co-participante, exigidas de pais e educadores conscien- tes de seu papel formador. Entende-se aqui o “patrulhamento” como aquela atitude de delegar funções informativas e descriti- vas para a escola e, ao mesmo tempo, agir de maneira intimida- tória a quaisquer eventuais críticas e ações dos professores que não estejam dentro da normatividade patriarcal vigente. Todas estas dificuldades redundam na omissão e no aban- dono de uma reflexão sobre a sexualidade de maneira humana, história e científica. Não podemos apontar este abandono como uma culpabilidade institucional dos professores. Entende-se que a política de formação de professores em nosso país, centrada na determinação de produzir técnicos e legiões de trabalhadores alienados, busca subtrair dos professores a capacidade de uma cultural global que dê conta de uma interpretação científica da realidade. As causas desta expropriação do conhecimento e da ausência de uma política curricular que contemple a sexualidade, ou ainda as dimensões pedagógicas correlatadas a esta, devem ser buscadas na esfera da determinação política da escola e de suas formas históricas fundamentais. Este ensaio teórico procura proporcionar um momento de reflexão, instrumentalizar pais e educadores para a busca de uma forma e consciência destas dificuldades estruturais, e viabilizar 53