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A filosofia e o conhecimento - Módulo 2 Filosofia2Aula 3 - A valorização dos sentidos e doestudo da naturezaContinuando......
3A filosofia e o conhecimento - Módulo 2 FilosofiaAs comparações feitas pelo próprio Aristóteles em seu Tratadoda Alma per...
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  1. 1. A filosofia e o conhecimento - Módulo 2 Filosofia2Objetivo do estudoNeste módulo, você se deterá sobre um tema central do qual esperamos que continuea ser objeto de suas reflexões, pois se trata de um assunto extremamente relevante.Trata-se da questão: o que é o conhecimento?A ela estão associadas várias outras. Que conhecimento se faz confiável? Por onde seinicia o conhecimento? Podemos estar sendo sistematicamente iludidos, como Platãodefendeu em sua alegoria da caverna?A tradição particular em que fomos criados pode fazer as vezes de uma caverna como aque iludia os habitantes do mito platônico? A experiência que temos do mundo basta ou éexatamente dessa experiência que temos de desconfiar se aspiramos a um conhecimentomais universal? Como podemos sair de um estado de imersão num mundo ilusóriopara um outro que nos esclareça do caráter parcial e fragmentado de nossas crençasiniciais? A filosofia nos ajudaria neste processo de afastamento do senso comum parauma consciência reflexiva? Ou estarão os nossos sentidos, muito adequadamente, nosalimentando de informações sobre um mundo a cujo estudo deveríamos nos manter fiéis?Quais os objetivos do conhecimento? Eles se mantêm os mesmos ou foram imaginadosde diversas formas ao longo da história?No primeiro tópico, veremos por qual atitude o conhecimento forçosamente se iniciae que obstáculos uma sociedade que se organiza em torno da técnica como “visão demundo” pode oferecer a esta atitude tão importante. No segundo, você será convidadoa conhecer a forma com que Platão imaginou o conhecimento. Para ele, o conhecimentoverdadeiro em tudo se opõe à experiência sensível. Platão localiza no chamado “mundodas Idéias” o objeto da procura de Sócrates: o universal. O mundo das Idéias não podeser captado pelo olho sensível. Esse mundo é eterno e incorruptível.Platão deixava claro que quem não soubesse geometria, não deveria adentrar suaescola, a Academia. Isto porque é exatamente à luz dos objetos da matemática que elepensará a natureza do mundo das Idéias. Os universais platônicos do Bom, do Belo e doJusto, eles próprios, só podem ser contemplados pela razão. A experiência que temos domundo sensível é, portanto, o grande obstáculo para o conhecimento, segundo Platão.É se afastando do mundo da experiência que a alma pensa melhor – longe, portanto, da“prisão do corpo”. Já Aristóteles, como você verá no terceiro tópico, vê nas sensaçõesum degrau necessário para o conhecimento. O homem não está lutando contra umaignorância imposta pelo mundo sensível, na concepção aristotélica. O conhecimento, pormais afastado que, ao final, se mostre do plano das sensações, na visão de Aristóteles,guarda uma relação de continuidade com este último.O questionamento sobre a relação entre conhecimento e experiência sensível é recapi-tulado, bem mais tarde, no século XVII entre dois grandes grupos de filósofos. Afinal,o conhecimento deveria partir da experiência ou deveria se colocar em guarda contraela? O grupo conhecido como “empiristas” defendem a primeira via; os “racionalistas”,a segunda. A Revolução Científica, ocorrida na virada do século XVI para o XVII, pelomenos, na interpretação que a ela dá o historiador Alexandre Koyré, aponta para ofracasso do empirismo como um bom guia para a construção do conhecimento. A idéiaé de que Galileu precisa recusar as evidências fornecida pelos sentidos para sustentaro heliocentrismo. Este tópico será explorado no quarto tópico.
  2. 2. 3A filosofia e o conhecimento - Módulo 2 FilosofiaNo quinto topico, por sua vez, procura descrever a ciência como um processo que temna testagem a mais rigorosa das hipóteses sua característica definidora. É com KarlPopper, pensador do século XX, que procuraremos afastar definitivamente a visãocom que nos familiarizamos acerca de como se inicia o conhecimento. O ponto é queo conhecimento não se inicia pela observação pura. Na verdade, essa expressão nemfaz sentido. Toda observação que efetuarmos já implica pressupostos, crenças, teoriasadotadas tacitamente etc. Se quisermos obter conhecimento objetivo, devemos buscarcriticar nossas idéias da maneira a mais severa e não imaginar que podemos partir dedados puros e neutros.Ao final deste Módulo II, com o cuidadoso e empenhado estudo do material que temem mãos, você já poderá se orientar diante de algumas questões epistemológicas. AEpistemologia é exatamente a área da Filosofia que se detém sobre o conhecimento,problematizando-o. É uma área fundamental, pois quem não gostaria de começar arefletir sobre as diferenças entre um conhecimento do mundo que se orienta pela críticae um falso conhecimento que repousa ou no dogma ou em justificativas sofríveis?Bom estudo!
  3. 3. A filosofia e o conhecimento - Módulo 2 Filosofia4Aula 1 - O ato de admirar-se(tò thaumázein) como condição para abusca do conhecimento.Há um verbo grego com que se nomeia a condição necessária a toda reflexão filosófica:tò thaumázein. Esse termo refere-se à ação de se deixar espantar pelo que nossa formainstrumental de lidar com a vida já trivializou.Quer-se com ele fazer referência a uma atitude vital para o pensamento: voltar-se a ver onosso mundo com o frescor de quem desperta para o reconhecimento de sua estranhezaou com a gravidade de alguém que está diantede algo que assombra. Entrar no domínio doconhecimento é saber se manter como umeterno estrangeiro na sua própria terra.Você já reparou como é nosso olhar quandovisitamos um lugar distante?Um olhar de assombro, que se volta maravi-lhado para tudo o quanto se nos mostra.Pois bem, deveríamos nos manter assim nodomínio do conhecimento: continuamentecuriosos. Não falamos aqui de uma curiosidadepueril e passageira, mas de uma inquietaçãocultivada. Seria possível uma nova pedagogiado espanto, uma pedagogia do thaûma, quese contrapusesse à experiência de codificação do mundo que nossos olhares treinadose nossos hábitos mortificadores justificam a todo o momento?Hoje, como jovens e adultos socializados nas regras de um mundo burocrático eimediatista e vigiados continuamente para nos mostrarmos eficientes na conquista demetas já traçadas, esse espanto, que se traduz pela curiosidade filosófica, soa deslocado:perda de tempo ou coisa de quem não tem algo mais importante para fazer. A vida já foiloteada e a nova ordem histericamente nos obriga a lutar por um espaçonum mercado cada vez mais agressivo. A filosofia insiste: o conhecimentopode ser entendido como mais do que o domínio de uma técnica que nadatem a ver com nossas vidas.O ponto incontornável é que tanto o cientista quanto o filósofo necessitamcultivar esse estado de abertura expresso no espanto diante do mundo.(Na verdade, todos nós precisamos: viver em um mundo sem conhecer talatitude é estar nele de maneira mutilada, é experimentá-lo de maneiraparticularmente empobrecida.) Como o cientista consegue gerar com seusaber uma forma de domínio sobre o mundo, a curiosidade que exprimepor meio dos problemas que formula consegue ainda se ver prestigiada.Em nosso tempo, a razão operatória, aquela que submete o real aos propósi-tos mais utilitários do homem, é continuamente elogiada. Mas o espanto do
  4. 4. 5A filosofia e o conhecimento - Módulo 2 Filosofiafilósofo não serve à técnica. O filósofo não pode se contentar em ser um mero funcionário,sob condição de, em o fazendo, deixar de pensar filosoficamente. Seu pensamento deveincomodar mais do que servir. Lembre-se, aqui, da descrição de Sócrates por si mesmo,na Apologia, de Platão, como um mosquito que perturba a nossa tendência ao sono.Tamanha é a vitória da visão técnica do pensamento, que se tem não só perdido ocontato com essa experiência do espanto filosófico, mas passou-se também, com umdesdém indisfarçável, a dispensar essa forma de estar no mundo. O assombro de quefalamos aqui foi substituído não simplesmente por interesses práticos os mais rasos, masprincipalmente por uma visão do mundo inteiramente modelada a partir do progressoda técnica. É como se a técnica primeiro houvesse se autonomizado (como se ela tivessese transformado em algo que existe por si mesma) e depois tivesse passado a gerir nossamaneira de pensar o mundo. Evidentemente, se nossas vidas se organizarem em tornoda técnica como um fim em si, a experiência humana do mundo como potencialidadede problematizações soará mesmo um pouco estranha.No entanto, não precisamos nos mostrar convencidos do esgotamento do sentido de nossopensamento em limites tão estreitos. Não necessitamos nos satisfazer com uma noçãode racionalidade tão pobre. Entre outras coisas, a filosofia serve para fazer frente ao quetomamos como inevitável, serve para ampliar nosso sentido do possível para lembrar ocaráter aberto da experiência humana. Podemos, como reação à tal banalização de nossoestar no mundo, desejar saber como viemos a conceber nossas vidas em termos de valorestão reduzidos. Podemos desejar saber a que forças serve essa visão de mundo que seesgota na dimensão técnica do pensamento. Isto, é claro, significará nos espantarmosdiante do empobrecimento de nossos imaginários contemporâneos. Significará retomaro espanto contra aquilo mesmo que não cessa de tentar diminuí-lo.Descobriremos talvez que a técnica agora pode estar sendo instrumentalizada paraconsagrar continuamente um modelo de mundo e um modelo de sujeito. Esses modelostomam forma numa cultura de valores mercantilistas que, baseada numa coercitivamoral do consumo de novidades, como discutida na Unidade I, implica um verdadeiroprograma de destruição da memória coletiva, alienando-nos de obras de cultura e detradições inteiras de pensamento. O gozo com as novidades, a cuja produção contínuaa técnica serve, está nos alienando do próprio compromisso com o passado histórico,o qual não deveria ser imaginado como dimensão com que deixamos de ter quaisquerlaços orgânicos.Defendemos aqui que o conhecimento de tais obras e tradições precisa ser entendidoe sentido, por todos nós, como necessário. E isto assim o teria de ser não porque talconhecimento possa ajudar em nossas carreiras ou porque “agreguem valor” à nossaformação profissional, mas porque é ele que nos permite o envolvimento num processode humanização mais amplo e abre caminho para uma contextualização mais elaboradade nossa situação como seres pensantes.Só será possível refletir sobre uma perda do sentimento de espanto por parte de umhomem tiranizado pelo gozo com a técnica e com o imediatismo dos objetivos cultuadosna sociedade de consumo quando aprendermos a estranhar de novo o território em quenos encontramos na vida contemporânea.É importante que se perceba um ponto: aqui não estamos a criticar a existência ou a
  5. 5. A filosofia e o conhecimento - Módulo 2 Filosofia6relevância da técnica, mas a sua elevação à condição de uma verdadeira visão de mundo.Se, por um lado, é mesmo verdade que a evolução da técnica nos leva a um crescenteprogresso na expansão de muitas de nossas potencialidades, por outro não deve sertomada como verdadeira a afirmação de que, quando nos referimos ao progresso técnico,estamos nos referindo a um concomitante aperfeiçoamento da capacidade humana depensar. É isso exatamente que desejamos sublinhar. À medida que a racionalidadetécnica se tornar sinônima do próprio ato humano de pensar, sua única forma relevantede expressão, já teremos esquecido o quão amplas são as possibilidades da reflexão.Podemos continuar?A apreensão perplexa do mundo; a problematização.Aristóteles, filósofo grego do século IV a.C., sobre o qual iremos falar mais à frente,julgava essencial esse espanto, essa admiração, para o exercício da filosofia. Ele diz, arespeito, no capítulo II do Livro I de sua Metafísica:Metafísica: Foi, com efeito, o espanto que levou, como hoje, os primeirospensadores à especulação filosófica. No início seu espanto dizia respeitoàs dificuldades que se apresentavam em primeiro lugar ao espírito;depois, avançando pouco a pouco, estenderam sua exploração aosfenômenos mais importantes, tais como os fenômenos da Lua, os do Sol edas estrelas, e enfim à gênese do universo. Ora, perceber uma dificuldadee espantar-se é reconhecer a própria ignorância (1972).Num diálogo de Platão intitulado Teeteto, a delicada mensageira da palavra dos deuses,Íris, é mencionada como a filha do titã que personifica justamente o assombro. O que sequer dizer com essa forma mais poética de pôr as coisas é que o assombro, o espanto,antecede o conhecimento de algo que se eleva da opinião comum: tal conhecimentoderiva diretamente dele. Assim, lemos na aludida passagem (a saber, no passo 155c-ddo Teeteto):Pelos deuses, Sócrates, causa-me grande admiração o que tudo isso possa ser, e só deconsiderá-lo, chego a ter vertigens.Sócrates: Estou vendo, amigo, que Teodoro não ajuizou erradamente tua natureza, poisa admiração é a verdadeira característica do filósofo. Não tem outra origem a Filosofia.Ao que parece, não foi mau genealogista quem disse que Íris era filha de Taumante(Platão, 2001, p. 55).Mas como esse espanto, essa admiração se traduz mais concretamente? FernandoSavater, num livro chamado As perguntas da vida, cuja leitura nunca cansaremos derecomendar, ajuda-nos a entender, com exemplos, essa prática do estranhamento talcomo exercida pelo filósofo. Ele o faz citando uma passagem de Uma breve introduçãoà Filosofia, de Thomas Nagel, um filósofo contemporâneo e bastante influente.A principal ocupação da Filosofia é questionar e esclarecer algumas ideiasmuito comuns que todos nós usamos todos os dias sem pensar sobreelas. Um historiador pode se perguntar sobre um determinado momentodo passado, mas o filósofo perguntará: o que é o tempo? Um matemático
  6. 6. 7A filosofia e o conhecimento - Módulo 2 Filosofiapode investigar as relações entre os números, mas um filósofo perguntará:o que é um número? Um físico irá perguntar do que são feitos os átomosou o que explica a gravidade, mas um filósofo perguntará: como podemossaber que existe algo fora de nossas mentes? Um psicólogo pode investigarcomo uma criança aprende uma linguagem, mas um filósofo perguntará:por que uma palavra significa algo? Qualquer um pode perguntar se émau furar a fila do cinema sem pagar, mas um filósofo perguntará: porque uma ação é boa ou má? (Savater, 2001, p. 8-9).Observe, com base na passagem acima, que o espanto do filósofo se dirige para questõesque já são vistas como solucionadas ou como não merecendo problematização, sejada parte do cientista, seja da parte do senso comum. O espanto do filósofo se traduzem questões de natureza mais abrangente. É bem verdade que esta é apenas umadas formas de caracterizar a curiosidade do filósofo: a busca por definições essenciaiscom que Sócrates imaginou a agenda filosófica. Há outras maneiras de caracterizá-la,sem dúvida. Por enquanto, fiquemos com esta, e comecemos a nos perguntar: comopodemos imaginar o conhecimento? A que ele se dirige? Quais suas fontes? Terá oconhecimento sua fonte na experiência concreta ou é justamente numa forte oposiçãoTeetetohttp://pt.wikipedia.org/wiki/TeetetoIndo alémEntre em contato com o Orientador Acadêmico através da Sala do Orientador na sala de aula virtual,ou consulte o Quadro Horários de Atendimento presencial ao aluno, disponível no Mural da Larapara saber os dias e horários do plantão do Orientador no laboratório de Informática da sua unidadeUNISUAM.Saiba maisa ela que o conhecimento se tornará possível? Será possível chegar a uma certeza como conhecimento que construirmos? Existe algum tipo de conhecimento que atinge essacerteza? Saibamos, pois, nos espantar diante desse assunto comumente trivializado.Chegamos ao final do primeiro tópico de estudo do Módulo II.É importante que tenha compreendido todos os assuntos aqui abordados, para quepossa continuar.ReferênciasARISTÓTELES. Metafísica, Livros I e II. Trad. Vincenzo Cocco. São Paulo: Abril Cultural,1972.PLATÃO. Teeteto/Crátilo, 3ª ed. revisada. Belém: EDUFPA, 2001, p. 55.SAVATER, Fernando. As perguntas da vida. Trad. Mônica Stahel. São Paulo: MartinsFontes, 2001.
  7. 7. A filosofia e o conhecimento - Módulo 2 Filosofia8ReferênciasFRAILE, Guillermo. Historia de la Filosofia. Tomo I. 3ª ed. Madrid: Biblioteca de AutoresCristianos, 1971.FERREIRA, Aurélio Buarque de Hollanda. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. 2ªed., revista e aumentada. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.LUCHESI, Cipriano Carlos; PASSOS, Elizete S. Introdução à Filosofia: aprendendo apensar. São Paulo: Cortez, 2004.MARCONDES, Danilo. Textos básicos de ética: de Platão a Foucault. Rio de Janeiro:Jorge Zahar, 2009.MARCONDES, Danilo. Textos básicos de filosofia: dos pré-socráticos a Wittgenstein. Riode Janeiro: Jorge Zahar, 2007.PESSANHA, José Américo Motta. As delícias do jardim. In: NOVAES, Adauto (Org.).Ética. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.SILVA, Sandro Luiz da. A ética das virtudes de Aristóteles. Dissertação de mestrado.Unisinos - Programa de Pós-Graduação em Filosofia, 2008.
  8. 8. Anexo - Atividades Estudos Socio-AntropológicosBloco de notase anotaçõesEste espaço é para você anotar suas observações com relação a disciplina estudada.Importante:Leia todas as orientações passo a passo no “Tutorial do Aluno” de como realizar suasAtividades.
  9. 9. A filosofia e o conhecimento - Módulo 2 Filosofia2Aula 2 - O conhecimento como ascensãodo domínio ilusórioO conhecimento como ascensão do domínio ilusório. A alegoria da caverna, do livroVII de A República, de Platão.No Módulo I, vimos que Sócrates não se conformava com as noções cotidianas empregadasnormalmente. Isso porque percebeu que o uso dessas noções não se fundamentava emnada; tratava-se apenas da passiva repetição de palavras com cuja definição as pessoasnunca se preocuparam. Vimos também o quanto a “virtude” (a areté), entendida como“excelência da ação”, era o foco de suas preocupações filosóficas. Era em função destaexcelência que Sócrates empreendia sua busca por definições (agora não mais locais, esim universais) de noções como “justiça”, “piedade”, “coragem”: desejava que sua práticade vida fosse governada por esses conceitos cuja essência deveria ser racionalmentealcançada.Como lembra F. M. Cornford, em seu Antes e depois de Sócrates, “a moralidade daaspiração instituída por Sócrates implica um constante esforço da alma com relação aum ideal de perfeição”. E mais à frente escreve:A visão clara do ideal é o conhecimento, a ser obtido apenas pelopensamento árduo. Na prática de Sócrates, esse pensamento árduoassumia a forma de tentativas de definir o significado essencial dostermos comumente empregados para a descrição da conduta correta.Todos concordam que algo como a justiça, por exemplo, existe. O quequeremos dizer com esse nome? Se considerarmos e compararmosas ações designadas como ‘justas’ ou ‘corretas’ por diferentes povos ecomunidades, encontraremos um surpreendente conflito de opiniões. Oscostumes considerados certos por um país são condenados por outroscomo errados. Quem vive segundo a velha moralidade da coerção socialdirá que seu costume local é certo para ele; um costume diferente serácerto para seus vizinhos. Mas a nova moralidade da aspiração é universal.Só pode haver um ideal de perfeição comum a toda a humanidade, umpadrão segundo o qual todos os costumes e ações devem ser avaliados(Cornford, 2001, p. 54-55).É aqui que podemos começar a ver como Platão, o discípulo maior de Sócrates,introduziu, a partir da moral de aspiração socrática, a inovação maior de sua filosofia:esse grande mestre do pensamento ocidental localiza o fim dessa pesquisa de Sócratesem um domínio apartado de toda a contingência humana e de toda a corrupção eparcialidade a ela associado – o Mundo das Ideias. O Mundo das Ideias é um mundode universais, de elementos ideais: mesmo que todo o universo físico fosse destruído,ele continuaria a existir. Se novos universos viessem a ser criados, todo aquele serque aspirasse à racionalidade deveria se submeter a ele. O mundo das Ideias abriga aVerdade e, exatamente como no mundo da matemática, seu conhecimento independede objetos concretos. Sua existência é puramente abstrata, formal. É a própria ideia dotriângulo que se encontra nele, e não as ocorrências particulares da ideia que podemosver representadas espacialmente. Essas ocorrências particulares podem ser vistas por
  10. 10. 3A filosofia e o conhecimento - Módulo 2 Filosofianossos olhos sensíveis. A Ideia, ela mesma, só pode ser contemplada pelo intelecto, por aquiloque Platão metaforicamente chamou de “o olho da alma”.Como diz Cornford, em continuidade a esse raciocínio:Segue-se que (assim inferiu Platão) um termo como ‘justiça’ tem um sentidouniversal, independente de todas as várias coisas que são chamadas de justasem várias épocas e locais. Esse sentido absoluto pode ser definido e conhecido.É o que Platão chamava de ‘forma’ ou ‘ideal’ (2001, p. 56).Observe, portanto, a introdução de um novo elemento na filosofia platônica (apesar de, nos textosposteriores de Platão, Sócrates continuar a ser a personagem que expõe essa filosofia). O objetodo éros filosófico é um Ser incorruptível: a própria realidade despida de sua ilusão sensível.Platão faz da filosofia uma busca metafísica,ou seja, uma busca por uma Verdade queestá além da mera experiência que o corpopode captar. O comum dos homens, sem esseesforço de racionalidade para ascender aomundo das Ideias, terá como destino convivercom um mundo fictício dentro do qual estáencerrado sem o saber. O conhecimento éuma elevação e uma purificação (askesis) daspaixões violentas, dos sentidos dominadorese da opinião vulgar com a qual normalmentenos conformamos.Para Platão, a alma deveria se purificar dasilusões que a acorrentam à opinião particulare ascender em direção ao conhecimento uni-versal e eterno. Se corretamente conduzida,essa alma reconheceria na contemplação eno convívio com o Bom, o Belo e o Justo acondição de sua própria imortalidade. A parteda alma que aí se reconhece é imortal. É porisso que o Sócrates platônico pode beber,com serenidade ímpar, no texto platônico Fédon, o preparado venenoso que lhe dão: ele já seidentificara integralmente com algo imperecível.Reiteramos o ponto principal deste tópico: para Platão, conhecer é um ato de ascensão daexperiência sensível, uma purificação dos elementos mundanos e fragmentados com que a almase confundia inicialmente. O destino da filosofia é o conhecimento do Ser. Para Platão, a filosofiaé incontornavelmente metafísica.
  11. 11. A filosofia e o conhecimento - Módulo 2 Filosofia4A alegoria da caverna, do livro VII de A República, de PlatãoNuma bela entrevista a Émile Noël, já mencionada no Módulo I, o filósofo francês FrançoisChâtelet retoma, a certa altura, o sentido da filosofia platônica do conhecimento: “Platãodá o nome de doxa às opiniões múltiplas desenvolvidas pelo bom senso democrático.Mostra que essas opiniões (...) são em grande parte produto das paixões, dos interesses,dos desejos e das circunstâncias”. A esse domínio das meras opiniões fundamentadastão-somente no mundo sensível Platão opõe o Mundo das Ideias, “realidade essencial,[que] permanece imutável, enquanto as aparências não cessam de mudar, à mercê dodevir”. Como resume Châtelet, se o mundo das aparências é confuso e variável, “o Mundodas Idéias, por essência, é estável e transparente” (Châtelet, 1994, p. 37-38).A tarefa do filósofo, dentro dessa concepção, nãoé outra senão a busca racional por esse mundoincorruptível e, mais ainda, pela Essência ouIdeia Suprema, a qual ilumina todas as outras.Conforme Châtelet, uma vez mais: “Platão dizque esse mundo é tão belo, tão profundamenteinteligível, de uma transparência tão brilhante,que mal se pode falar dele com as palavras domundo sensível” (2001, p. 40).Em sua célebre obra A República, em quePlatão desenha um modelo de cidade-ideal comfuncionamento, a propósito, bem mais parecidocom o de Esparta do que com o de Atenas, temos,a certa altura – mais precisamente no Livro VII–, o desenvolvimento da concepção desse pensador acerca da condição humana e doexercício de elevação do mundo ilusório a que a racionalidade filosófica, segundo ele,pode conduzir. Todo o percurso de uma consciência pré-filosófica (representada pelavisão limitada dos prisioneiros, dos jogos em que estes se engajam e dos prêmios a cujaobtenção se consagram), passando pela construção de uma consciência reflexiva (aascensão sempre dolorosa do sujeito, habituado que estava a uma única posição e aoconforto da escuridão, para fora da caverna), até a contemplação da luminosa Ideia peloindivíduo que se liberta (a metáfora da própria Verdade) é simbolizado numa grandealegoria.Trata-se de uma coleção de metáforas a qual se deve dar atenção redobrada para que seuselementos possam ser decifrados. Não pequena atenção deve também ser dispensada aum eventual aviso aos antigos companheiros, ainda consagrados aos hábitos da caverna,por parte do sujeito que ao dali sair reconhece, então, no mundo anterior, apenas umcenário de ilusões. Este último, é claro, é o filósofo. Ele toma para si o compromissopedagógico de procurar esclarecer os demais prisioneiros de sua condição de habitantesde um mundo ilusório. Mas lembremo-nos aqui de que ele terá de enfrentar uma sériede novos obstáculos: já não está acostumado à escuridão e procurará iniciar um diálogocom indivíduos que avaliarão suas ideias com base no contexto de crenças e de valoresda própria tradição confinante em que se encontram. Terá êxito garantido, portanto, natarefa pedagógica que põe para si?
  12. 12. 5A filosofia e o conhecimento - Módulo 2 FilosofiaA Alegoria da Caverna (Leia o Texto complementar)Atenção! Procure identificar nessa imensa coleção de metáforas conhecida como “alegoria da caverna”estes elementos da filosofia platônica: a oposição entre o mundo sensível o inteligível, entre o corpoe a alma, entre a razão e as paixões cegas, entre a opinião (doxa) e o conhecimento (epistéme).Procure entender os motivos por que, segundo Platão, a experiência imediata é entendida como umobstáculo ao conhecimento (aquilo que chamamos de “obstáculo epistemológico”).Alegoria da caverna – Vídeohttp://www.youtube.com/watch?v=69F7GhASOdMSaiba maisEntre em contato com o Orientador Acadêmico através da Sala do Orientador na sala de aula virtual,ou consulte o Quadro Horários de Atendimento presencial ao aluno, disponível no Mural da Larapara saber os dias e horários do plantão do Orientador no laboratório de Informática da sua unidadeUNISUAM.Dúvidashttp://www.youtube.com/watch?v=UQfRdl3GTw4&feature=relatedATENÇÃO ! Antes de assistir ao vídeo, leia o texto complementar sobre a Alegoria da Caverna.Obs: Embora o vídeo esteja em inglês, o narrador segue, na integra, o texto complementar apresentadono link anterior.Indo AlémReferênciasCHÂTELET, François. Uma história da razão. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1994.CORNFORD, F. M. Antes e Depois de Sócrates. Trad. Valter Lellis Siqueira. São Paulo: Martins Fontes, 2001.PLATÃO. A República, 9ª edição. Introdução, tradução e notas de Maria Helena da Rocha Pereira. Lisboa:Fundação Calouste Gulbenkian, 2001.
  13. 13. A filosofia e o conhecimento - Módulo 2 Filosofia6Texto complementarA Alegoria da CavernaLivro VII de A República, de Platão– Imagina a nossa natureza, relativamente à educação ou à sua falta, de acordo com aseguinte experiência. Suponhamos uns homens numa habitação subterrânea em formade caverna, com uma entrada aberta para a luz, que se estende a todo o comprimentodessa gruta. Estão lá dentro desde a infância, algemados de pernas e pescoços, de talmaneira que só lhes é dado permanecer no mesmo lugar e olhar em frente; são incapazesde voltar a cabeça, por causa dos grilhões; serve-lhes de iluminação um fogo que sequeima ao longe, numa eminência, por detrás deles; entre a fogueira e os prisioneiroshá um caminho ascendente, ao longo do qual se construiu um pequeno muro, no gênerodos tapumes que os homens dos “robertos” colocam diante do público, para mostraremas suas habilidades por cima deles.– Estou a ver – disse ele.– Visiona também ao longo desse muro homens que transportam toda espécie de objetos,que o ultrapassam: estatuetas de homens e de animais, de pedra e de madeira, de todaa espécie de lavor; como é natural, dos que os transportam, uns falam, outros seguemcalados.– Estranho quadro e estranhos prisioneiros são esses de que tu falas – observou ele.– Semelhantes a nós – continuei. Em primeiro lugar, pensas que, nestas condições, elestenham visto, de si mesmo e dos outros, algo mais que as sombras projetadas pelo fogona parede oposta da caverna?– Como não – respondeu ele –, se são forçados a manter a cabeça imóvel toda a vida?– E os objetos transportados? Não se passa o mesmo com eles?– Sem dúvida.– Então, se eles fossem capazes de conversar uns com os outros, não te parece que elesjulgariam estar a nomear objetos reais, quando designavam o que viam?– É forçoso.– E se a prisão tivesse também um eco na parede do fundo? Quando algum dos tran-seuntes falasse, não te parece que eles não julgariam outra coisa, senão que era a vozda sombra que passava?– Por Zeus, que sim!– De qualquer modo – afirmei –, pessoas nessas condições não pensavam que a realidadefosse senão a sombra dos objetos.– É absolutamente forçoso – disse ele.
  14. 14. 7A filosofia e o conhecimento - Módulo 2 Filosofia– Considera, pois – continuei –, o que aconteceria se eles fossem soltos das cadeias ecurados da sua ignorância, a ver se, regressados à sua natureza, as coisas se passavamdeste modo. Logo que alguém soltasse um deles e o forçasse a endireitar-se de repente,a voltar o pescoço, a andar e a olhar para a luz, ao fazer tudo isso sentiria dor, e odeslumbramento impedi-lo-ia de fixar os objetos cujas sombras via outrora. Que julgastu que ele diria, se alguém lhe afirmasse que até então ele só vira coisas vãs, ao passoque agora estava mais perto da realidade e via de verdade, voltado para objetos maisreais? E se ainda, mostrando-lhe cada um desses objetos que passavam, o forçassemcom perguntas a dizer o que era? Não te parece que ele se veria em dificuldades e suporiaque os objetos vistos outrora eram mais reais do que os que agora lhe mostravam?– Muito mais – afirmou.– Portanto, se alguém o forçasse a olhar para a própria luz, doer-lhe-iam os olhos evoltar-se-ia para buscar refúgio junto dos objetos para os quais podia olhar e julgariaainda que estes eram na verdade mais nítidos do que os que lhe mostravam?– Seria assim – disse ele.– E se o arrancassem dali à força e o fizessem subir o caminho rude e íngreme, e não odeixassem fugir antes de o arrastarem até a luz do Sol, não seria natural que ele se doessee agastasse por ser assim arrastado e, depois de chegar à luz, com os olhos deslumbrados,nem sequer pudesse ver nada daquilo que agora dizemos serem os verdadeiros objetos?– Não poderia, de fato, pelo menos de repente.– Precisava de se habituar, julgo eu, se quisesse ver o mundo superior. Em primeirolugar, olharia mais facilmente para as sombras; depois disso, para as imagens doshomens e dos outros objetos refletidas na água e, por último, para os próprios objetos.A partir de então, seria capaz de contemplar o que há no céu e o próprio céu, durantea noite, olhando para a luz das estrelas e da Lua, mais facilmente do que se fosse o Sole o seu brilho de dia.– Pois não!– Finalmente, julgo eu, seria capaz de olhar para o Sol e de o contemplar, não já a suaimagem na água ou em qualquer sítio, mas a ele mesmo, no seu lugar.– Necessariamente.– Depois já compreenderia, acerca do Sol, que é ele que causa as estações e os anose que tudo dirige no mundo visível, e que é o responsável por tudo aquilo de que elesviam um arremedo.– É evidente que depois chegaria a essas conclusões.– E então? Quando ele se lembrasse da sua primitiva habitação e do saber que lá possuía,dos seus companheiros de prisão desse tempo, não crês que ele se regozijaria com amudança e deploraria os outros?
  15. 15. A filosofia e o conhecimento - Módulo 2 Filosofia8– Com certeza.– E as honras e elogios, se alguns tinham então entre si, ou prêmios para o que distin-guisse com mais agudeza os objetos que passavam e se lembrasse melhor quais os quecostumavam passar em primeiro lugar e quais em último, ou os que seguiam juntos,e aquele que dentre eles fosse mais hábil em predizer o que ia acontecer – parece-teque ele teria saudades ou inveja das honrarias e poder que havia entre eles ou queexperimentaria os mesmos sentimentos que em Homero, e seria seu intenso desejo “servirjunto de um homem pobre, como servo da gleba” , e antes sofrer tudo do que regressaràquelas ilusões e viver daquele modo?– Suponho que seria assim – respondeu –, que ele sofreria tudo de preferência a viverdaquela maneira.– Imagina ainda o seguinte – prossegui eu. Se um homem nessas condições descesse denovo para o seu antigo posto, não teria os olhos cheios de trevas ao regressar subitamenteda luz do Sol?– Com certeza.– E se lhe fosse necessário julgar daquelas sombras em competição com os que tinhamestado sempre prisioneiros, no período em que ainda estava ofuscado, antes de adaptara vista – e o tempo de se habituar não seria pouco – acaso não causaria o riso, e nãodiriam dele que, por ter subido ao mundo superior, estragara a vista e que não valia apena tentar a ascensão? E a quem tentasse soltá-los e conduzi-los até cima, se pudessemagarrá-lo e matá-lo, não o matariam?– Matariam, sem dúvida – confirmou ele.– Meu caro Gláucon, este quadro – prossegui eu – deve agora aplicar-se a tudo quantodissemos anteriormente, comparando o mundo visível através dos olhos à cavernada prisão e a luz da fogueira que lá existia à força do Sol. Quanto à subida ao mundosuperior e à visão do que lá se encontra, se a tomares como a ascensão da alma aomundo inteligível, não iludirás a minha expectativa, já que é teu desejo conhecê-la. ODeus sabe se ela é verdadeira. Pois, segundo entendo, no limite do cognoscível é que seavista a custo a ideia do Bem; e, uma vez avistada, compreende-se que ela é para todosa causa de quanto há de justo e belo; que no mundo visível foi ela que criou a luz, daqual é senhora; e que, no mundo inteligível, é ela a senhora da verdade e da inteligência,e que é preciso vê-la para se ser sensato na vida particular e pública (Platão, 2001, p.315-319).
  16. 16. Anexo - Atividades Estudos Socio-AntropológicosBloco de notase anotaçõesEste espaço é para você anotar suas observações com relação a disciplina estudada.Importante:Leia todas as orientações passo a passo no “Tutorial do Aluno” de como realizar suasAtividades.
  17. 17. A filosofia e o conhecimento - Módulo 2 Filosofia2Aula 3 - A valorização dos sentidos e doestudo da naturezaContinuando...Aristóteles (384 a.C. – 322 a.C.) foi discípulo de Platão (nasceu em Estagira, na Macedônia,e chegou à cidade de Atenas aos dezoito anos, ingressando na Academia e só a deixandocom a morte do mestre, em 347 a.C.), mas suas ideias, em sua maturidade, ganhamcontornos bastante próprios. É por esta razão que, em uma primeira apresentação dopensamento do criador do Liceu (fundado em solo ateniense em 335 a.C.), costuma-selembrar-lhe a seguinte afirmação: “Sou amigo de Platão, porém ainda mais amigo daVerdade”. A noção de alma e sua relação com o corpo, a importância do mundo empíricopara o filósofo (recusado à investigação pela tradição místico-matemática iniciada porPitágoras e retomada por Platão), a confiança na disposição da natureza humana parao conhecimento, em tudo isto Aristóteles se mostrará bastante inovador.Sou amigo de Platão, porém ainda mais amigo da Verdade - Esta afirmação, apesar de inúmerasvezes repetidas, não se encontra no corpo de sua obra. Mas uma afirmação bem próxima pode serencontrada na Ética a Nicômaco.Saiba maisNeste tópico, mostraremos um pouco do quanto o pensamento deAristóteles se distancia do pensamento de seu antigo mestre.Podemos começar?Comecemos então pela noção de alma. Para Platão, alma e corpotravavam uma espécie de guerra civil. Eram entidades distintas. Ocorpo era aquilo de que a alma precisaria se separar. Não será assimpara um filósofo apaixonado pelo mundo natural como Aristóteles.Ele redefiniu em seus próprios termos naturalistas a psyché. A alma,aqui, deixa de ser a exilada num mundo que lhe é hostil a seu destinode contemplação da Verdade; ela agora se identifica com o própriofuncionamento do vivo. Tudo quanto é vivo realiza a busca de umfim, de um objetivo (télos). Plantas crescem, animais movem-se ereproduzem-se; a alma é a atividade do corpo na realização desse fim.O corpo de um ser vivo é organizado por conta exatamente da açãodiretora da alma. Como essa alma está a formar um corpo, a ordená-loorganicamente, Aristóteles diz que a alma é que responde pela formado corpo. De forma mais simples e lapidar, ele escreveu, lembrandoessa função estruturante da psyché: “A alma é a forma do corpo”.
  18. 18. 3A filosofia e o conhecimento - Módulo 2 FilosofiaAs comparações feitas pelo próprio Aristóteles em seu Tratadoda Alma permitem que vejamos essa alma como mortal, poisali se diz dela que está para o corpo assim como a visão para oolho, o que significa dizer que, sem o suporte material, a almapassa a inexistir. O sinete, para explorar outra comparação deAristóteles na referida obra, para que possa ser reconhecido,precisa forçosamente da cera onde se imprime. Como poderia,então, uma forma qualquer se imprimir sem haver um corpo?Contudo, a questão não é tão simples: no mesmo Tratado,Aristóteles informou de uma parte da alma “não misturada” aocorpo. É por onde a imortalidade da alma humana se infiltranesse complexo sistema de pensamento – não sem nos deixaraturdidos, tentando conciliar o Aristóteles naturalista comesse outro que vê numa porção racional da alma humana, ointelecto agente, um destino diverso daquele experimentadopelas formas organizadoras de todos os outros seres vivos.Tentar entender o modo com que a sobrevivência dessa almapôde ser aí imaginada abrange uma discussão que se desdobrapor muito tempo na filosofia e não com poucas implicações. Porora, concentremo-nos na imagem do mundo aristotélico – emparticular dos seres animados.Cada espécie, ocupando um lugar fixo numa verdadeira escadados seres (imagem que influenciou vivamente o pensamentobiológico posterior, mas que hoje não faz qualquer sentido),procura atingir seu princípio de perfeição. Move-se, portanto. Esforça-se na consecuçãodesse fim. Todas as espécies encontram-se assim dispostas, de tal modo que parecemse elevar, mas nunca passando de um degrau para o outro, até o mais organizado dosseres, um em que não há mais por que se mover em busca de um fim, pois ele já é puroNoüs. Esse ser é Deus, responsável por todo o universo estar se movendo em sua direção,embora permaneça imóvel, uma vez que nele já se encontra realizada a própria perfeição.O modelo de um mundo de seres hierarquizados e explicados em termos de causas finaisé hoje insustentável. O darwinismo, no século XIX, destruiu por completo essa visãofinalista do mundo. A biologia imaginada por Aristóteles pode certamente ser tomadacomo admirável, mas seus princípios são indefensáveis. A teoria da evolução vigentehoje é ostensivamente não-teleológica – a ciência como um todo abre mão desse tipo deexplicação finalista, progressivamente, desde a tradução mecânica do mundo operadapela Revolução Científica.De qualquer forma, Aristóteles incluiu na agenda filosófica uma preocupação com omundo natural. Passar dias na descrição de um molusco não é tarefa vã, pois para oestudioso atento a Natureza permite ver o fim para que concorrem aquelas estruturastodas. Debruçar-se sobre o mundo natural é perceber o esquema de ordenação de umuniverso. Estudar a natureza volta a ter uma nobreza que a tradição místico-racionalistaa que pertenciam Platão e Pitágoras recusara.
  19. 19. A filosofia e o conhecimento - Módulo 2 Filosofia4O caráter mais linear e cumulativo da aquisição do conhecimentoem AristótelesRecordemo-nos de que, conforme Platão, o verdadeiro conhecimento se opõe àquiloque nos informam os sentidos. Conforme a imaginação platônica, é somente quandodevidamente eximidos da miopia e da miséria da visão sensível que poderemos, através do“Olho da Alma” – metáfora cara tanto ao texto do Banquete quanto à famosa alegoria dacaverna, no Livro VII de A República –, nos mostrar capazes de capturar, num exercíciode pura contemplação, as Formas perfeitas e imóveis do Bom, do Belo e do Justo.Recordemo-nos de que, conforme Platão, o verdadeiro conhecimento se opõe àquiloque nos informam os sentidos. Conforme a imaginação platônica, é somente quandodevidamente eximidos da miopia e da miséria da visão sensível que poderemos, através do“Olho da Alma” – metáfora cara tanto ao texto do Banquete quanto à famosa alegoria dacaverna, no Livro VII de A República –, nos mostrar capazes de capturar, num exercíciode pura contemplação, as Formas perfeitas e imóveis do Bom, do Belo e do Justo.É bem verdade que Platão, em certos textos particularmente, exalta o sentido da visão.Contudo, à ideia da visão como “verdadeira dádiva dos deuses”, a este grande elogioexpresso no Timeu pode-se contrapor facilmente inúmeras outras passagens que atestama descrença de Platão quanto ao valor da visão corpórea. De pronto basta, por exemplo,lembrar, na anteriormente referida alegoria da caverna, do mundo de completo enganoem que estão envolvidos os prisioneiros, os quais confiam plenamente na informaçãoprimeira dos sentidos. Pode-se recordar, ainda e exatamente com o mesmo objetivo,sua não menos desconhecida hostilidade às artes miméticas, especialmente à pintura.Não nos equivoquemos, portanto: o conhecimento em Platão faz-se sempre contra oobstáculo dos sentidos – incluindo-se aí, também, o sentido da visão. Como Cornfordescreve, não é com os olhos que a alma vê; enquanto o faz através deles, aquela sempreverá mal: “Os olhos e os ouvidos não são, para o platônico, as janelas da alma abrindo-se para a realidade. A alma vê melhor quando essas janelas estão fechadas e mantêmuma silenciosa conversação consigo mesma na cidadela do pensamento” (2001, p. 76).sempre contra o obstáculo dos sentidosAssim Platão se expressa no Fédon: “E o que dizer quanto a adquirir asabedoria: é ou não o corpo um obstáculo quando aceitamos associá-lonessa procura? Mais concretamente: há alguma dose de verdade naquiloque os homens aprendem, por exemplo, pela vista e pelo ouvido ou (comoaté os poetas por aí repetem à saciedade...) nada do que vemos e ouvimosé seguro?”. Seja ainda sublinhado que, se Platão já mostra para comesses sentidos uma atitude de desconfiança, para com os demais, tidoscomo menos nobres, tal disposição em muito mais se acirrará. Acerca,pois, de sua avaliação sobre a confiabilidade desses outros sentidos,prossegue, dizendo, no mesmo passo da obra citada, àquele discípuloSímias: “E refiro-me apenas aos sentidos da vista e do ouvido, porque,se estes não são seguros e exatos, os outros muito menos o são, dadoserem, suponho, ainda mais falíveis” (Cf. Platão, 2000, p. 41).
  20. 20. 5A filosofia e o conhecimento - Módulo 2 FilosofiaMas é você quem deverá observar esse caráter mais contínuo e suave do conhecimento, emAristóteles,desde as sensações até a ciência. Você se recorda do quão dolorosa foi para o prisioneiro da alegoriada caverna, de Platão, a superação de sua consciência confinada nas primeiras impressões? O quantolhe foi custoso o conhecimento?Leia o texto a seguir (ele é o primeiro capítulo do Livro I da Metafísica, de Aristóteles) e observeque o homem, para este filósofo, já parece estar aparelhado para o conhecimento. Observe que oprazer dos sentidos é a evidência, para Aristóteles, desse desejo natural de conhecer. Sim, aqui ossentidos não se opõem ao conhecimento, mas iniciam o seu processo de obtenção. Trata-se de umaposição que é chamada de empirismo. Será o empirismo uma boa resposta acerca de como o nossoconhecimento se constrói?A Metafísica de Aristóteles (Leia o Texto complementar)Indo alémEntre em contato com o Orientador Acadêmico através da Sala do Orientador na sala de aula virtual,ou consulte o Quadro Horários de Atendimento presencial ao aluno, disponível no Mural da Larapara saber os dias e horários do plantão do Orientador no laboratório de Informática da sua unidadeUNISUAM.DúvidasContraste-se tal atitude de Platão com a seguinte passagem do texto de Aristótelesselecionado para a leitura adiante: “Não apenas com vistas à ação, mas mesmo quandonão se pretende ação alguma, preferimos a visão, em geral, a todos os outros sentidos. Arazão disso é que a visão é, de todos eles, o que mais nos ajuda a conhecer coisas, reve-lando muitas diferenças”. Parece então que o processo de conhecimento, na imaginaçãoaristotélica, se faz de forma bem menos descontínua para com a experiência sensorialdo que se fazia no esquema platônico.
  21. 21. A filosofia e o conhecimento - Módulo 2 Filosofia6Texto complementarPrimeiro capítulo do Livro I da Metafísica, de AristótelesPor natureza, todos os homens desejam o conhecimento. Uma indicação disso é o valorque damos aos sentidos; pois além de sua utilidade são valorizados por si mesmos e,acima de tudo, o da visão. Não apenas com vistas à ação, mas mesmo quando não sepretende ação alguma preferimos a visão, em geral, a todos os outros sentidos. A razãodisso é que a visão é, de todos eles, o que mais nos ajuda a conhecer coisas, revelandomuitas diferenças.Ora, os animais nascem por natureza com o poder da sensação, daí adquirindo algunsa faculdade da memória, enquanto outros não. Por conseguinte, os primeiros são maisinteligentes e capazes de aprender do que aqueles que não podem se lembrar. Aquelesque não ouvem sons (como a abelha ou qualquer criatura semelhante) são inteligentes,mas não conseguem aprender; só são capazes de aprender os que possuem esse sentido,além da faculdade da memória.Assim, os outros animais vivem de impressões e memórias e só têm pequena parcelade experiências; mas a raça humana vive também de arte (techne) e raciocínio. É pelamemória que os homens adquirem experiência, porque as inúmeras lembranças damesma coisa produzem finalmente o efeito de uma experiência única. A experiência parecemuito semelhante à ciência e à arte, mas na verdade é pela experiência que os homensadquirem ciência e arte; pois, como diz Pólo com razão: “a experiência produz arte, masa inexperiência produz o acaso”. A arte se produz quando, a partir de muitas noções daexperiência, se forma um único juízo universal a respeito de objetos semelhantes. Julgarque quando Cálias estava sofrendo dessa ou daquela doença isso ou aquilo lhe fez bem,o mesmo acontecendo com Sócrates e vários outros indivíduos, é questão de experiência;mas julgar que a mesma coisa fez bem a todas as pessoas de certo tipo, consideradascomo classe, que sofrem dessa ou daquela doença (por exemplo, os encatarrados oubiliosos que ardem em febre) é questão de arte.Pareceria que para efeitos práticos a experiência não é de modo algum inferior à arte; comefeito, vemos homens de experiência tendo mais sucesso do que aqueles que possuema teoria sem a experiência. A razão disso é que a experiência é conhecimento de coisasparticulares, ao passo que a arte trata de universais; e as ações e os efeitos que produzemse referem ao particular. Porque não é o homem que o médico cura, senão casualmente,e sim Cálias, Sócrates ou alguma outra pessoa que tem igualmente um nome e é poracaso também um homem. Assim, se um homem tem teoria sem experiência e conheceo universal, mas não o particular nele contido, com frequência falha no seu tratamento,pois é o particular que deve ser tratado. No entanto, achamos que o conhecimento e aeficiência são antes questões de arte que de experiência e supomos que os artistas sãomais sábios que os homens apenas experientes (o que implica que em todos os casos asabedoria depende, sobretudo, do conhecimento), e isso porque aqueles conhecem a causae estes não. Pois o homem de experiência conhece o fato, mas não o porquê, enquantoos artistas conhecem o porquê e a causa. Pela mesma razão, estimamos mais os mestresde toda profissão e achamos que sabem mais e são mais sagazes que os artesãos, poisconhecem as razões das coisas produzidas; mas achamos que os artesãos, como certostipos de objetos inanimados, fazem coisas sem saber o que estão fazendo (assim comoo fogo queima, por exemplo); só que, enquanto os objetos inanimados desempenham
  22. 22. 7A filosofia e o conhecimento - Módulo 2 Filosofiatodas as suas funções em virtude de certa qualidade natural, os artesãos realizam assuas por hábitos. Assim, os mestres são superiores em sabedoria não porque podemfazer coisas, mas porque possuem uma teoria e conhecem as causas.Em geral, o sinal de conhecimento ou ignorância é a capacidade de ensinar, e por essarazão achamos que a arte, e não a experiência, constitui conhecimento científico; porqueos artistas podem ensinar e os outros, não. Além disso, não consideramos nenhumdos sentidos como sendo a Sabedoria. Eles são de fato nossas principais fontes deconhecimento sobre as coisas particulares, mas não nos dizem a razão de nada, comopor exemplo, por que o fogo é quente, mas apenas que ele é quente.É, portanto, provável que de início o inventor de qualquer arte que foi além das sensaçõesordinárias tenha sido admirado pelos companheiros, não apenas porque algumas dassuas invenções fossem úteis, mas como uma pessoa sábia e superior. E à medida quemais artes iam sendo descobertas, algumas ligadas às necessidades da vida e outras àrecreação, os inventores destas últimas eram sempre considerados mais sábios que osdaquelas, porque seus ramos de conhecimento não visavam à utilidade. Daí, quandotodas as descobertas desse tipo haviam sido plenamente desenvolvidas, inventaram-se asciências que não se relacionam nem ao prazer nem às necessidades da vida, e primeironaqueles lugares onde os homens gozavam de tempo livre. As ciências matemáticassurgiram na região do Egito porque ali a classe sacerdotal tinha tempo disponível.A diferença entre a arte e a ciência, de um lado, e as outras atividades mentais análogas,de outro, foi exposta na Ética; a razão da presente discussão é que geralmente se supõeque o que chamamos Sabedoria diz respeito às causas e princípios primeiros, de modoque, como já vimos, o homem de experiência é considerado mais sábio do que os merospossuidores de uma faculdade sensível qualquer, o artista mais do que o homem deexperiência, o mestre mais do que o artesão e as ciências especulativas mais doutas doque as práticas. Assim, está claro que a Sabedoria é o conhecimento de certas causase princípios (apresentação e textos de Marcondes, 2000, p. 45-48).ReferênciasCORNFORD, F. M. Antes e Depois de Sócrates. Trad. Valter Lellis Siqueira. São Paulo:Martins Fontes, 2001.MARCONDES, Danilo. Textos Básicos de Filosofia: Dos Pré-Socráticos a Wittgenstein.Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000.PLATÃO. Fédon, Trad. Maria Teresa Schiappa de Azevedo. Brasília/São Paulo: UnB/Imprensa Oficial do Estado, 2000.
  23. 23. A filosofia e o conhecimento - Módulo 2 Estudos Socio-AntropológicosBloco de notase anotaçõesEste espaço é para você anotar suas observações com relação a disciplina estudada.Importante:Leia todas as orientações passo a passo no “Tutorial do Aluno” de como realizar suasAtividades.

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