O dia em que a mata ardeu

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O dia em que a mata ardeu

  1. 1. Autor: José FanhaIlustrador: Maria João Gromicho
  2. 2. No sítio onde moro, um pouco mais à frente, quando acabamas ruas e as casas, começa uma mata que gosto muito devisitar.Ali, tudo é bonito e verde, e eu costumo dizer que é a minhamata.Minha, minha, não é. Isto é só uma maneira de dizer… Comotoda a gente sabe, a Natureza não tem dono.
  3. 3. Mas também é verdade que há bocadinhos de terra que podempertencer a esta ou àquela pessoa. Essas pessoas, que são donas deum bocadinho de terra, põem um muro à volta e dizem: “Estaterra é minha!”.Mas a frescura da brisa, o cheirinho da caruma dos pinheiros, ocanto das aves ou o desenho das pedras não pertencem a ninguém.À procura dessas maravilhas é que eu vou quando me ponho apassear pela minha mata que, como não tem muros à volta, só éminha porque é também de toda a gente.
  4. 4. Na minha mata há muitas árvores: pinheiros bravos e mansos,carvalhos, castanheiros, freixos, nogueiras, azevinhos, amoreiras emuitas outras. Cada árvore tem um tronco diferente, a casca maisrugosa ou menos rugosa, as folhas compridas ou largas, mais lisasou mais recortadas.Há folhas que ficam amarelas e castanhas e caem no outono, eoutras que estão sempre verdes nos ramos mesmo no pino doinverno.
  5. 5. E existem ainda flores, ervas e plantas mais pequenas. A urze, asmimosas e as margaridas, o rosmaninho, a alfazema que cheira tãobem, e tantas outras de que eu nem sei o nome e que nascem pelochão no meio de pedras e pedrinhas.
  6. 6. Há também imensos pássaros e aves na minha mata. E eu gosto detodos eles porque todos são diferentes e, com essas suas diferenças,tornam o mundo um pouco mais variado e bonito.Há poupas e tordos, águias e falcões lá no alto, perdizes e faisões,pintassilgos, toutinegras, rouxinóis à noite, cotovias de dia, melros epardais e eu sei lá que mais. Todos cantam para me dar boas-vindas quando venho visitá-los.
  7. 7. Falta ainda falar dos animais pequenos: aranhas, abelhas,lagartixas, formigas, bichos-de-conta, besouros… Tantos! Tambémvivem na minha mata e todos fazem parte de uma grande família,que é a família da Natureza.
  8. 8. Na minha mata, que é a minha e de toda a gente, tenho algunsamigos especiais: o meu amigo esquilo Rabo Alçado e a sua famíliasaltitona, o veado Venceslau com as hastes enormes, o Coelho CoisaFofa com os 254 filhos da última ninhada, a coruja Miquelina, oouriço Olegário e até um ratinho muito simpático chamado ZéManel.
  9. 9. Gosto de todas as árvores e plantas da minha mata. Sou amigo dosanimais. Ouço a música que o vento faz entre os ramos, vejo a luzque atravessa a folhagem e sinto-me feliz!
  10. 10. Tudo estaria perfeito se não fosse a terrível família dos pássarosBisnaus que são uns pássaros pretos e cheios de borbulhas.Andam despenteados, com as penas uma para cada lado, e cheirammal porque nunca tomam banho. São uns grande porcalhões.
  11. 11. O pior de tudo é que os pássaros Bisnaus não têm respeito porninguém. Nem pela Natureza nem pelos seres vivos.Hoje, vou contar-vos o dia em que estes maraus, por descuido enegligência, deixaram atear um grande fogo, que é a pior tragédiaque pode acontecer a todos os que vivem numa mata.
  12. 12. Tudo se passou quando a família dos pássaros Bisnaus quis fazerum piquenique naquela mata que é de toda a gente e, por isso,também é muito minha.Veio o pais Bisnau que tinha cara de tubarão e cuspia para o chão.A mãe Bisnau, D.Bisnuca que era embirrenta, gosmenta emuitíssimo zaruca. A filha Bisnica, estica-larica, que pintava o bicode verniz e passava o dia a tirar macacos do nariz. O filho Bisnecoque comia até rebentar e ficava como bola a rebolar.
  13. 13. Em vez de virem a pé, entraram com o carro pela mata dentro, adeitar fumo para o ar e com o rádio a fazer “punca-punca-punca,punca-punca-punca, punca-punca-punca” tão alto que até asnuvens tiveram de tapar os ouvidos para não ficarem malucas.
  14. 14. Mal se instalaram, puseram-se logo a fazer porcaria. A filha Bisnicadesembrulhou 19 hambúrgueres e encheu-os de molhos amarelos,azuis, verdes e vermelhos.O filho Bisneco comeu 32 pacotes de batatas fritas, 26 pastilhas, 17chupa-chupas, 59 rebuçados e 9 sumos de laranja completamentedeslaranjados.E os papeis de tudo isto para onde é que foram atirados?Para o chão! Todo aquele lixo foi parar ao chão da minha mata.
  15. 15. Mas ainda fizeram muito pior, os pássaros Bisnaus.D.Bisnuca e os filhos Bisnica e Bisneco, depois de terem comidotanta comida que não presta, resolveram fazer a sesta. Foram-sedeitar e, em menos de nada, já estavam a ressonar.O pai, de barriga a rebentar, sentou-se encostado a um tronco epôs-se a fumar. E o que havia de acontecer? Deixou-se adormecer, ocigarro acesso caiu e pôs-se a rebolar, fazendo acender uma faúlhaaqui, outra ali, até o fogo começar a crepitar.
  16. 16. De repente, no meio de latas, lixos e sucatas, mais pacotes debatatas, embalagens de papel e papelão, começaram a surgir maismil chamas no chão.As chamas cresceram, pegaram-se às ervas e subiram elas árvoresacima numa dança assustadora.
  17. 17. O fumo encheu tudo num instante e, no meio da fumarada, ospássaros Bisnaus acordaram a tossir e, sem pensarem em maisnada, puseram-se logo a fugir.
  18. 18. O fogo crescia e crescia, as árvores ardiam.E os animais, muito aflitos, que remédio tinham?Para se salvar foram-se embora passarinhos, passarões, toutinegrase perdizes, cotovias, codornizes, pintassilgos, tentilhões, pombasbrancas e falcões, patos-bravos, tarambolas, gaviões e galinholas,pica-paus e andorinhas, raposões e raposinhas, lebres, lobos ecoelhos, todos com os olhos vermelhos, cucos, melros, rouxinóis acorrer e a saltar todos se foram embora para nunca mais voltar.
  19. 19. Com mais ou menos facilidade, os animais conseguiram escapardaquele pesadelo.Mas as minhas amigas ervas, as plantas, os arbustos e as árvoresestão agarrados à terra e não têm pernas para fugir. Por isso, apouco e pouco, no meio de uma enorme confusão, iam-se deixandocair, transformadas em carvão.
  20. 20. Um passarinho pequeno, quando viu que a árvore onde costumavafazer o seu ninho estava a arder, foi a correr, quer dizer, foi a voarchamar os bombeiros.O passarinho não sabia falar a língua dos homens. Mas o seu cantoera tão aflitivo, que os bombeiros perceberam muito bem o que elelhes queria dizer e saíram logo com a sirene “tinóni-tinóni” para irapagar o fogo da nossa mata que estava mesmo à beira de ficartoda queimada.
  21. 21. Foi uma trabalheira.Mangueiras para aqui, mangueiras para ali. Com muito esforço emuita coragem, os bombeiros lá conseguiram apagar as chamas,salvaram algumas árvores que ainda só estavam chamuscadas. Ederam de beber à terra que estava cheia de sede.O fogo foi apagado, o fumo foi desaparecendo e o ar, ao fim dealguns dias, voltou a ficar limpo e puro.
  22. 22. Agora o fogo já estava apagado e já era possível fazer com que amata nascesse de novo.Os estragos tinham sido muito grandes. Foi preciso limpar tudomuito bem limpo. Remover o lixo e as cinzas. Às vezes, pareciamesmo que a minha mata não tinha remédio.Mas a Natureza é muito forte e, quando chegou a primaveraseguinte, as árvores voltaram a dar folhas. Por isso…
  23. 23. Por isso, a correr e a saltar, rapidamente voltaram passarinhos,passarões, toutinegras e perdizes, cotovias , codornizes,pintassilgos, tentilhões, pombas brancas e falcões, patos-bravos,tarambolas, gaviões e galinholas, pica-paus e andorinhas, raposõese raposinhas, lebres, lobos e coelhos todos com os olhos vermelhos,cucos e melros, rouxinóis, aranhiços, caracóis a correr e a saltar umdia tinham partido mas resolveram voltar.
  24. 24. As aves voltaram a fazer ninho nos seus ramos. Os bichos e bichinhos,os que vivem nos troncos das árvores ou debaixo do chão, voltaramtambém e tudo ficou perfeito, quando o meu amigo coelho Coisa Fofateve mais uma ninhada de 254 coelhinhos, que encheram aquela matade uma alegria enorme.
  25. 25. As ervas e todas as plantas também voltaram a nascer porque aágua que vinha de um ribeirinho que, passava ali perto, corriamuito fresca e saltitante e lá ia enchendo de seiva todos oshabitantes da minha mata que é de nós todos e todos devíamos tercuidado de tratar muito bem.
  26. 26. Trabalho elaborado por: Ana Sofia Baptista Com a colaboração de Carla Silva Baseado no Livro: “O dia em que a mata ardeu” Autor: José Fanha Ilustradora: Maria João Gromicho Editora: Gailivro (Texto/imagens com adaptações)

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